J~L
O chão gelado da cela não foi bem-vindo para ela, principalmente por ter sido jogada ali dentro, ao invés de ser escoltada. Suas mãos e cotovelos arderam em contato com a pedra fria e porosa e seu vestido ficou encharcado.
- Sr. Lestrange chegará logo para você! - o homem que a acompanhou até ali cuspiu as palavras e saiu da vista de Lily com uma risada horrorosa.
A ruiva se levantou e começou a analisar os danos: havia sido presa após soltar todas as mulheres pegas para a fogueira da festa; Lestrange agora sabia que ela devia ser uma traidora e nenhum dos que a acompanhavam sabiam onde ela estava, ou com quem esteve. Ainda que tenha pedido a um mensageiro para avisá-los, quem garantiria que a mensagem havia sido entregue após a fuga? Todos da propriedade deviam estar atrás das mulheres naquele momento.
Eles viriam procurá-la?
A boa notícia é que, aparentemente, Lestrange não a reconheceu. Lily conhecia bem o seu irmão, Rabastan, mas não teve muito contato com Rudolphus quando era uma pessoa "livre", então poderia contar com esse fato para não ser reconhecida.
Fazia um frio horrível naquele lugar e não havia superfície seca para que ela se sentasse ou se apoiasse. Tinha certeza que aquilo era proposital.
Certo, tinha que guardar em espírito que as coisas poderiam ser piores, ainda que a situação não era a mais agradável naquele momento. Pense, Lily, pense. Como você poderia fugir dali? Havia apenas uma porta em sua frente e uma janela alta na parede de trás. Sem barras ou janelas com as outras celas, nem mesmo um buraco para entrar cobras e outros bichos peçonhentos.
Aquilo a fez sorrir, ainda que a lembrança era de Azkaban, quando conheceu Sirius na carruagem e encontrou James na cela ao lado e Remus na árvore.
Ela os veria novamente?
Tentou se aquecer friccionando suas mãos em seus braços, mas claro que era uma solução temporária, de alguns segundos.
De repente, ouviu um barulho na porta e se virou a tempo de ver um grande jato d'água vir em sua direção e ser jogada contra a parede em suas costas. Começou a tossir, tentando se desafogar e se levantar ao mesmo tempo. Assim que conseguiu estar sob seus pés, outro jato lhe atingiu.
E foram contínuos, até ela apenas cobrir o rosto e aceitar de que não tinha como fugir. Alguns minutos depois, quando ela deveria estar encharcada até sua alma, eles pararam. Arriscou tirar a mão de seu rosto e tentar ver o que se passava: havia dois grandes homens, um de cada lado da porta. Ela não os conhecia e pareciam simples guardas de Malfoy ou talvez de Lestrange.
E falando nele, ele estava no meio da porta, um balde em sua mão. Ela também poderia ver outros muitos outros baldes atrás dele.
- Madame Elvendork. - Lestrange riu. - Eu duvido que esse seja o seu verdadeiro sobrenome. - Ela, obviamente, ficou quieta, apenas o encarando. Rodolphus deu um passo dentro da cela, se aproximando mais. - Seu irmão, aparentemente, não se importa muito com você. Ele e seus empregados fugiram no momento que tiveram a chance, mas não ficaria surpreso se nossos guardas os alcançassem em pouco tempo. Talvez poderíamos fazer uma fogueira com vocês, já que perdemos nossas convidadas!
A raiva estava ali, escondida entre suas palavras, mas Lily conseguiu detectá-la. Quase sorriu ao perceber, mas preferiu não tentar sua sorte. Conhecia bem a reputação dos Lestrange e sabia que não eram pessoas às quais devia brincar.
- Quem a enviou aqui para esta tarefa, madame Elvendork? - sua fala estava calma novamente, como se estivessem conversando sobre o jantar. Ela não respondeu. - Se não colaborar, nós poderemos fazer com que colabore!
Tortura não era algo que ela imaginava passar em sua vida. Morte violenta sim, mas não tortura. Não pensou que chegaria neste estágio.
- Se você prefere pular toda essa parte de negociação, apenas me informe. Eu gostaria de ganhar tempo aqui.- Lestrange olhou para as unhas, esperando uma resposta de Lily. Após alguns segundos em puro silêncio, Lestrange olhou para os dois guardas na porta e acenou com a cabeça.
Os dois guardas entraram na cela e foram em direção de Lily numa velocidade que ela não estava esperando. Eles eram ainda maiores de perto. Um deles segurou seus dois braços, a fazendo lutar contra, mas aquilo só o fazia segurá-la mais forte e queimar seu braço com o aperto. O outro guarda chamou sua atenção quando ele começou a arrancar seu vestido com força, quase a fazendo cair, ainda que estivesse sendo segurada.
Tortura era algo que nunca havia pensado, mas violência sexual? Qual mulher havia querido isso em sua vida?
As mãos pesadas a soltaram assim que seu vestido e sua anágua estavam no chão. Lily não sabia se cobria seu corpo com suas mãos e braços ou se encarava Lestrange com o queixo erguido. Não se questionou por muito tempo e assim jogou seus cabelos para trás, os dois braços caídos ao lado de seu corpo e a expressão decidida. Era a primeira vez que um homem a via sem roupas e naquele momento, aquilo não importava muito. Sua nudez era o menor de seus problemas.
Viu quando alguém no corredor passou um outro balde para Lestrange. Ele aceitou, não tirando os olhos do corpo dela.
- Não me espanta o próprio irmão comer a refeição dentro da família. - ele sorriu antes de jogar mais água nela.
Sem o vestido, o frio era absurdamente maior e paralisante. Quase não podia dizer se era água ou gelo acertando seu corpo. Sua boca tremia e seu corpo gritava por calor. Estava com tanto frio, que não percebeu quando um dos guardas entrou e pegou suas roupas do chão.
- Vou deixá-la pensar por alguns momentos. Não pense que isso é o começo do que eu quero fazer com você. Eu estou sendo muito bonzinho até agora.
E assim, todos saíram e fecharam a porta novamente.
Rapidamente, ela se abraçou e se abaixou na cela, lutando contra as lágrimas. O frio era tão terrível. A vergonha, o vexame e a tristeza em estar naquelas condições… porque existiam pessoas daquele jeito no mundo? Era realmente prazeroso ver alguém sofrer? Por que? Qual era o prazer nisso? Nada fazia sentido.
Como alguém conseguia matar para poder ter poder? Apenas para sentar naquele trono maldito de Hogwarts? Para passar sua vida resolvendo problemas, mandando em pessoas, torturando e matando? Não conseguia entender aquele raciocínio.
Se morresse agora, pelo menos encontraria seus pais. Eles deviam estar olhando por ela agora, talvez lhe mandando forças para aguentar até o fim, apenas não esperava que eles se sentissem mal pela filha e por suas escolhas.
- Eu só queria fazer o bem. Eu queria ajudar. - murmurou, deixando a lágrima quente rolar pelo rosto gelado. - Me desculpem!
Não sabia por quanto tempo ficou ali, sozinha e nua, lutando contra o frio, mas era fato que mais de uma hora havia se passado até ouvir a porta se abrindo novamente. Seus olhos se abriram levemente e viu uma sombra entrar com uma cadeira. Duas mãos a pegaram e a sentaram, prendendo seus braços para trás: era uma cadeira sem assento, ou no caso, uma cadeira que tinha apenas o quadro do assento. Seu quadril ficou completamente no buraco onde a madeira deveria lhe sustentar.
Conhecia aquela cadeira, mas era utilizada mais para homens. Normalmente, os homens eram sentados naquelas cadeiras e tinham todo e qualquer tipo de tortura em suas genitais.
Respirou fundo, aceitando que talvez apenas um tipo de tortura ela poderia sofrer ali.
Não soube o por quê, mas a conversa com James lhe veio na cabeça, aquela em que falavam dele se casar com alguém intocada ou não. Ele dizia que sentiria ciúmes caso ela tivesse sido de outro homem, mas que faria de tudo para fazê-la esquecer daquele fato.
- Chegou à uma conclusão, Madame Elvendork? - A voz de Lestrange a fez levantar o rosto. - Quem lhe mandou se infiltrar na festa e libertar as prisioneiras?
Nem saberia o que responder. O que diria? Que Sirius tinha o amor de sua vida ali e eles estavam interessados apenas nisso? Ele nunca acreditaria, duvidava que Lestrange soubesse o que era amor.
Seu silêncio e seus pensamentos foram cortados quando um tapa violento acertou seu rosto, fazendo-a virar o pescoço para o lado e soltou um bufo de surpresa. Não gritou, não reclamou e quando sua cabeça pareceu voltar para a realização do que aconteceu, sentiu orgulho de si. Os olhos verdes se levantaram para Lestrange e ela viu como ele continuou estóico com a falta de reação dela.
- Podemos continuar assim até quando você quiser, querida. Eu não me importo se você se fazer de dura no começo. Uma hora, você vai quebrar.
Se em um momento ela conseguisse ter as mãos nele, faria questão de…
- Rodolphus!
Um homem alto e loiro apareceu por trás de Lestrange. Ele era muito bonito e tinha um porte elegante, com roupas de ótima qualidade, jóias em seu casaco e olhos azuis brilhantes. Uma bengala preta com o topo prata em forma da cabeça de uma serpente completava a visão. Lily o encarou enquanto era encarada de volta pelo homem.
- Duque Malfoy!
O nojo a atingiu fortemente. Lembrara do quadro que escondia as celas e a cena do desastre que este homem belo e aristocrático era responsável.
- Ela foi a responsável pela fuga? - sua voz era calma e quase doce.
- Sim. Estamos tentando descobrir quem a enviou.
- E pelo vermelho que vejo em seu rosto, você já começou as coerções.
Lestrange riu. Odiava estar sendo encarada pelos dois homens, ainda mais naquela situação.
- Não acerte o rosto. Se formos queimá-la, eu quero que vejam que fomos misericordiosos. Não quero medo e desespero em minhas terras por termos despertado a ira de uma bruxa. - Malfoy dedilhou sua bengala. - Mas eu não teria nada contra o corpo, apesar de ser uma pena.
Os dois homens a enojaram ainda mais quando sentiu os olhos de ambos passearem por seu corpo. Sua respiração ficou mais acelerada com a raiva.
- Acho que estamos a chateando. - Lestrange se aproximou, rodeando a cadeira, as mãos passando pelos cabelos ruivos levemente, descendo para sua nuca. A voz dele soou em seu ouvido, fazendo-a desviar para o lado para manter distância. - Você quer relaxar? Eu não me importaria em te ajudar.
- Vai para o inferno! - ela murmurou.
- Ah! Ela fala! - Lestrange parecia realmente feliz. Malfoy soltou um pequeno sorriso. - Talvez você queira evitar toda essa enrolação e colaborar? Eu também tenho coisas para resolver.
O silêncio caiu novamente. Lily virou seu rosto para o lado apenas para deixar claro que nada sairia de sua boca. Havia cometido o erro de responder à provocação dele, mas não estava tentada novamente e não iria cometer o mesmo erro duas vezes.
Lestrange poderia ir para o inferno e ela adoraria levá-lo, mas ele não tiraria nada dela mesmo com as piores das torturas.
- Deixe-a, Rudolphus e volte com o seu momento sádico mais tarde. Estamos nos reunindo agora e, mais do que esta mulher, alguém mais é culpado por essa fuga. - Malfoy olhou significativamente para Lestrange e deu as costas, claramente querendo ser seguido pelo outro.
- Uma pena você não querer falar agora, querida. Quando eu voltar, eu não estarei aberto a nenhuma bondade.
Os dois guardas, a mando de Lestrange, a tirou da cadeira, deixando-a cair no chão e todos os homens presentes saíram de sua cela, a porta foi fechada com uma força desnecessária, a fazendo dar um pequeno pulo no lugar.
A espera foi excruciante. Ela viu quando a luz do sol se tornava cada vez mais fraca e baixa, ouvia também alguns trovões não muito longe dali. As lágrimas rolavam por seu rosto finalmente. Ela tentou ser forte, e ela foi, mas após horas ali, suas expectativas de escapar eram nulas. Não duvidava de que James, Sirius ou Remus estivessem tentando resgatá-la, mas talvez não houvesse jeito. Talvez eles haviam sido pegos ou foram mortos. O choro parou imediatamente ao pensar naquela possibilidade, fazendo-a engasgar com a possibilidade dos três homens mortos. Sirius...será que ele chegou a encontrar Marlene? Será que Marlene conseguira escapar? Remus, talvez, tenha conseguido fugir com a Ordem dele?
E James?
Meu deus, James! Ela os deixou naquela sala e não tinha ideia se eles haviam descoberto sobre a fuga das mulheres.
Será que estavam vivos?
Por favor, que todos estivessem vivos e bem.
Se Marlene encontrou Sirius, e James e Remus estivessem longe, ela percebeu que não se importava com o seu destino. Não conseguiu ajudar a salvar Hagrid, mas pelo menos Marlene foi solta.
A porta estava sendo destrancada e ela permaneceu em seu lugar. Se Lestrange ou qualquer outra pessoa quisesse entrar e a matar, que assim fosse. De repente, ela não se importava mais. Porém, eram longos cabelos loiros que adentravam a cela e eles não pertenciam ao Duque Malfoy.
A mulher era linda e a luz de um relâmpago iluminou a cela o suficiente para ver os olhos cinzas da mulher. Incrivelmente cinzas como os de Sirius.
- Ela está deplorável, Lucius! - a mulher disse sem tirar os olhos de Lily.
- Lestrange disse que é o ideal. - Lily reconheceu a voz do Duque, mas não o via. Devia estar atrás da porta.
- Não se ela for uma bruxa. Você quer que sejamos condenados? Mais do que já somos?
- Não somos condenados, Narcisa.
Era Narcisa Malfoy, claro. Nascida Black, então era por isso os olhos cinzentos e a beleza de cair o queixo.
- Se eu tivesse o meu herdeiro vivo em meus braços, eu concordaria com você. - Narcisa respondeu secamente.
- Estamos trazendo plantas da Ásia para ajudá-la, querida. Nós teremos o nosso herdeiro.
- E ainda que sejam poderosas, a ira de uma bruxa poderá nos condenar para sempre.
- Não podemos fazer nada. Lestrange…
- Ele não é o Duque e ele não está em sua própria propriedade. - Narcisa o cortou, o tom gélido. - Eu quero que tragam roupas quentes para ela e que acabem a tortura dentro de nosso território. Se Lestrange a quer morta, que faça em sua casa.
- Você sabe que estávamos a ponto de queimar muitas bruxas hoje, não sabe? Qual a diferença?
- Eu nunca concordei com isso e você sabe.
Narcisa deu as costas e saiu da cela, tendo a porta fechada logo em seguida. Depois daquela conversa estranha e que Lily pensou ter sonhado, a porta da cela se abriu novamente longos minutos depois e ela se preparou para qualquer coisa acontecer: a água gelada novamente, insultos, pedras...tudo, menos o silêncio. Lily levantou os olhos e se deparou com uma mulher vestida com roupas simples, os cabelos escondidos por um pano. Ela cheirava à comida.
De repente, Lily se sentiu a mais faminta das pessoas. Não deveria estar surpresa, já que não comia desde ontem.
- Eu trouxe roupas quentes. - a mulher falou, se aproximando. Pelos passos que dava, estava claro que ela tinha medo de Lily.
- Por favor, não tenha medo. - A ruiva pediu, tentando sorrir. Se levantou vagarosamente, não querendo assustá-la mais, e se aproximou. Pegou a roupa das mãos da mulher com cuidado e abaixou a cabeça. - Muito obrigada.
- Eu posso trazer um pouco de pão, se quiser.
- Eu ficaria imensamente grata.
Após sair, a mulher não demorou muito para voltar com um grande pedaço de pão, o qual Lily devorou em menos de um minuto, quase engasgando com a fome tomando conta de si.
- Eu tenho que voltar para a cozinha. Madame Narcisa não sabe que ainda estou aqui, minhas instruções eram apenas para lhe entregar a roupa.
- Não há problema. Muito obrigada por sua ajuda. Poderia me dizer o seu nome?
- Pandora Lovegood.
- Prazer, Pandora. Sou Lily. - a ruiva sorriu para ela.
Pandora se desencostou da parede de onde assistia Lily comer e foi até a porta. Antes de sair, ela se virou:
- Eu não sei se você é uma bruxa ou não, se já fez mal à alguém ou não, mas eu acho que você é uma boa pessoa, então por isso eu digo: fique atenta à sua janela!
- Nesta janela? - Lily apontou para cima, atrás de si.
- Sim. Eu estou tendo a impressão de que algo virá com a chuva.
Sem dizer mais nada, ela saiu, trancando a porta logo em seguida.
Lily continuou a encarar a porta, tentando decidir se a mulher era um pouco biruta ou se havia algo verdadeiro em suas palavras.
De qualquer maneira, preferiu ficar atenta. Na última vez em que se encontrava encarcerada, havia um cara falando sandices ao seu lado e, no final, ela conseguiu fugir graças à ele. Então qual seria o problema em ouvi-la e ficar atenta?
A chuva caia forte. Tentava não se sentir desiludida com ela, não ser pega pelo humor cinza lá fora. Não podia e não queria ficar nervosa. Tinha que extrair a calma de toda a sua alma para permanecer sã.
Pelo menos estava em uma condição melhor do que há uma hora. O vestido com muitas camadas a esquentava o suficiente e a falta de tortura também ajudava. Não tinha ideia de onde estava Lestrange ou se o veria novamente, mas apenas rezava e pedia pelo melhor.
Tinha que se apegar a esse pensamento positivo para poder sair viva dali.
- Lily?!
A voz estava longe, estava baixa e abafada pelo som da chuva, mas sabia quem era.
Chegou perto da pequena janela com grades e ficou na ponta dos pés. Não conseguia ver nada além da copa das árvores. Colocou sua mão para fora no intuito de chamar a atenção de James para a sua janela sem chamar a atenção dos guardas. Sentiu o frio da chuva a acertar e nunca se sentiu tão viva por isso.
Em contraste com a chuva, dedos quentes encontraram os seus do lado de fora. Foi quase como sentir um abraço apertado e aconchegante. Suas mãos se entrelaçaram por alguns momentos, quase como se estivessem se comunicando. Lily tentou o máximo em não pensar que tentava transmitir felicidade pelo seu toque e que estava recebendo a mesma resposta.
James estava vivo. Pelos céus, ele estava vivo e ela não conseguia tirar o sorriso do rosto por ter a certeza disso agora.
Vagarosamente a mão dele deslizou, soltando-a. Logo em seguida podia ouvir barulhos na parede abaixo de onde estava. O que estavam fazendo?
- Frank Longbottom. - James disse parecendo mais perto, provavelmente estava debaixo da janela. - Isso significa algo para você?
Horas atrás estivera em uma reunião juntos, falando sobre a tal Ordem. Ela fez um sinal positivo com a mão na janela.
- Azkaban e Frank Longbottom significam algo para você? - ele voltou a perguntar.
SIM! Ela quis gritar um enorme sim, mas não podia. Então apenas se limitou a dar outro positivo para ele e se afastou da janela, da parede e de todo aquele canto da cela, se espremendo contra a porta o máximo que podia.
Eles derrubariam a parede novamente e Lily seria libertada. Ela sorriu como nunca. Sabia que podia contar com qualquer um deles. Uma louca felicidade a tomou por sentir a segurança e confiança como nunca sentira antes em sua vida.
Aprendera a lição do passado e não sairia da sua posição até sentir tudo tremer novamente e poder sair correndo de lá, dessa vez sem ser carregada, mas correndo de encontro a liberdade.
- Parados. O que estão fazendo?
Ela ouviu o grito dos guardas do lado de fora. Não! Pegariam James, ou o matariam. Tinha que fazer algo.
Lily começou a andar em direção a janela, mas então percebeu que James não se manifestara. Voltou para a sua posição e aguardou. Ou ele lutava contra os guardas ou ele estava tranquilo o suficiente para continuar o plano.
A resposta veio logo em seguida: uma grande luz cegou Lily por um segundo e ela apertou as mãos contra os ouvidos devido ao barulho ensurdecedor que atingiu todo o local. Caiu sentada no chão pelo abalo que sentiu, não dando muitas chances ao seus joelhos aguentarem.
A cela estava repleta de fumaça, mal conseguia ver algo. Mas a luz forte em frente a ela dizia que não havia quatro paredes a segurando mais, apenas três. Rapidamente se levantou e começou a correr. Caiu e tropeçou em pedras e no restante do que um dia fora aquela parede, mas levantava-se e corria.
Saiu da fumaça que a cercava. Sentiu a chuva bater fortemente em seu corpo, sentiu a liberdade gritando para ela novamente. Olhou para os lados e não viu ninguém.
James havia sido pego!
Tinha que resgatá-lo. Se o tivessem matado, ela sentia que tinha a maior força dentro de si que poderia quebrar todos os pescoços dos guardas com as próprias mãos.
Deu dois passos para voltar para a entrada da propriedade, quando viu uma sombra no limite das árvores, chamando sua atenção. Tirou o cabelo molhado que insistiu cair em seu rosto para poder ver com clareza quem era. Os cabelos bagunçados mesmo na chuva seriam reconhecíveis em qualquer situação para ela.
Sem pensar duas vezes, Lily correu. James acabara de vê-la correndo para ele, seu sorriso imitando o dela. Provavelmente a sensação de alívio em ver o outro vivo e bem também se assemelhavam.
Ele abriu os braços e Lily pulou contra seu corpo, sendo pega e abraçada por ele. Imediatamente, James os tirou de vista, se embrenhando um pouco pela floresta, pois ambos sabiam que aquela bagunça chamaria a atenção de todos a volta.
- Pensei que havia sido pego. - Ela dizia contra o pescoço dele. - Pensei que tinha que matar cada um deles.
Ela colocou os pés no chão novamente e soltou o pescoço do moreno, o encarando. Ele não dissera nem uma palavra para ela ainda, mas não precisava, pois vê-lo bem era a melhor coisa que poderia ter acontecido.
E ainda sem uma palavra, James segurou o rosto dela e a beijou.
O mundo estava paralisado. A chuva também, os trovões, tudo. Era puro silêncio e pura loucura. Não sabia se ainda respirava, não sabia exatamente o que sentia, além do frio na barriga.
Pela primeira vez, e após tantas idas e vindas pela nuvem louca e luxuriosa que James criava com ela, ele a beijava. Os lábios firmes e quentes dele a tomando por completo. Ela passou os braços em torno de seu pescoço e vendo que ela o correspondia, ele soltou seu rosto e a agarrou pela cintura, a encostando em uma árvore e abrindo sua boca contra a dela. Automaticamente ela o fez também e assim deu passagem para um beijo profundo, sentindo a língua dele começar a dançar lentamente com a dela.
Nunca havia feito nada disso antes. Nunca beijara, nunca fora beijada e ainda sim, James fazia parecer a coisa mais fácil e mais excitante que ela sentiu em toda a sua vida. Parecia que estavam em pleno verão, o mais forte que viveu, com o calor mais gostoso que experimentou. Era incrível como James sempre parecia verão para ela. Completamente colada a ele, quase sem saber onde um começava e o outro terminava. Ele a invadia com corpo e alma, com os lábios rápidos, e também vagarosos, firmes, com a língua, com as mãos cravadas em sua cintura, com a loucura que estava trazendo para a mente dela.
Lily agarrou os cabelos dele. Ele os espremeu mais. Ela sentia todo o corpo dele contra o dela, as curvas perfeitas se moldando. Todo aquele calor e peso no peito que sentia quando James a envolvia antes com palavras ou gestos, estavam explodindo como se finalmente se sentissem livres. Como se fossem uma flecha pronta e carregada, com toda a pressão da corda do arco sendo segurado todo esse tempo, apenas esperando para ser lançada e liberada.
E ele a desejava. Ela sentia, e ela sabia o que era. Não sabia como se sentia sobre isso, mas primeiramente era uma alegria secreta de que sim, James a desejava como mulher.
E ela sabia que tudo o que começava a sentir era desejo por ele também. Era a realidade e não tinha mais como esconder: estava completamente caída por James. O desejava, o queria, o esperava, o observava. Sentia ciúmes, sentia loucura, queria brigar, queria beijar, queria tudo.
Tudo com James.
O beijo diminuiu o ritmo, mas nenhum dos dois diminuiu o aperto. Eles ainda se agarravam como se a morte os observavam, o que de certa forma estava.
Isso fez Lily acordar. Provavelmente todos já estavam por perto após aquele barulho gigantesco, quase ao alcance deles. E percebeu que James também se lembrou de onde estavam.
Os lábios se separaram, mas não os corpos. James subiu uma das mãos para o rosto dela e acariciou por um momento. Ele sorriu genuinamente.
O lábio dele se mexeu, mas ela não ouviu. Olhou para o lado e percebeu que não ouvia a chuva também. Não ouvia nada.
Estava surda novamente, assim como na fuga de Azkaban.
- Não consigo ouvir! - ela disse.
James fechou o sorriso e segurou o rosto dela com as duas mãos, a fazendo encará-lo.
- Está tudo bem. Você vai ficar bem.
Ela leu os lábios dele. E ela confiava nele.
Segurando sua mão, James se virou e a guiou pela floresta, mas algo no chão, em grande poças d'água a fez estancar no lugar.
Havia, pelo menos, cinco corpos de soldados caídos e sangrando. Todos sem vida, ela podia ver. Seus olhos subiram para James e ele parecia um pouco culpado e um pouco orgulhoso, caso isso fosse possível.
Ele começou a falar, mas obviamente Lily não o escutava. Ela não precisava de desculpas ou explicações. Apesar de não ser a favor de tudo isso e de não querer ela mesma ferir ou matar outras pessoas, infelizmente estava sendo necessário.
- Melhor irmos! - ela disse.
James arregalou os olhos e fez sinal de silêncio para ela. Estava gritando? Não conseguia ouvir a própria voz.
Ele olhava para os lados desesperado.
Céus. Talvez ela tenha gritado muito e chamado a atenção de guardas por perto. James enrolou um braço em sua cintura e a levantou um pouco, correndo em direção de algumas grandes árvores. Ela podia muito bem andar, mas não arriscou dizer algo naquele momento, já que não sabia o que estava acontecendo.
Havia uma grande árvore oca e James os colocou ali dentro rapidamente. As costas de Lily contra a árvore na parte de dentro e James com suas costas para fora. Ele estava completamente imóvel, e parecia prestar atenção ao que se passava à volta.
Lily continuava sem saber o que fazer. Aos poucos, um barulho rítmico começou a invadir sua cabeça: era a chuva. Ela conseguia ouvir a chuva, mas ainda estava baixa para seus ouvidos. Ela sentia a respiração de James quando seus peitos se encontravam com o movimento e ele parecia mais calmo. Talvez os guardas já tivessem passado por eles.
Ela agarrou o pescoço dele e trouxe seu ouvido para perto de sua boca.
- Acho que estou voltando a ouvir. - ela achava e esperava que estivesse sussurrando.
James aproximou sua boca do ouvido da ruiva.
- Ficará bem logo.
Ela sorriu e o encarando, ela sussurrou.
- Eu já estou!
O sorriso dele a deixou sem palavras. Ela não sabia por que dissera aquilo, mas sentiu que saiu naturalmente de sua boca. Ela se sentia bem, se sentia bem dentro de uma árvore fria, na chuva e com James colado a seu corpo.
Sentia-se bem com a sensação como se James ainda estivesse colado aos seus lábios, como ela ainda podia sentir a pressão deles contra os dela.
- Temos que sair daqui. Com certeza estão nos procurando. - James começou e deu uma espiada sobre os ombros. - Sirius e Remus foram para a cabana. Caso nos separarmos, vá diretamente para lá.
- Ok.
- E me prometa de que não irá parar até chegar lá.
- Não estou gostando do que está falando. Fala como se fosse ficar para trás. Eu não o deixarei pra trás.
James balançou a cabeça e segurou o rosto de Lily.
- Está sendo perseguida pelo Novo Rei e agora, pelos guardas de Malfoy. Não pode parar por nada, Lily. Nada.
- Mas se...
- Escute. Iremos sair daqui o mais silenciosamente possível, mas não seremos lentos. Consigo ouvir muitos passos ao redor. Está escurecendo e ficará mais fácil, porém teremos que ser cuidadosos. Entende?
- Sim. Silenciosos, rápidos e cuidadosos. - Ela repetiu.
- Exatamente. E...- ele parou de falar por um momento e agora até mesmo Lily podia ouvir passos muito perto da árvore. James esperou os passos se afastarem antes de continuar. - Se eu for detido, continue.
- Eu não o deixarei...
- Agora!
James sussurrou e saiu da árvore, puxando Lily consigo e a impedindo de continuar a falar. A pouca luz do sol entre as nuvens carregadas de chuva estava baixa agora, formando um cenário cinza escuro por toda a floresta. A chuva estava um pouco mais fraca, mas deixara muito barro por toda a parte, fazendo com que ambos escorregassem muitas vezes. Não podia ter muita certeza para onde estava indo, apenas seguia os passos de James. Parecia que estavam indo para o Norte, onde ficava a cabana de James, mas tentando se manter firme na lama, silenciosa, rápida e cuidadosa a distraia do caminho que tomava.
Em um movimento rápido e preciso, James segurou Lily muito perto de si e sussurrou.
- Corra para as árvores à nossa esquerda e tente ficar o mais incógnita possível.
Lily poderia debater sobre aquilo, poderia dizer que não aceitaria deixá-lo sozinho ou que iria lutar também, mas sem nem pensar direito, ela se viu correndo para as árvores. Ela se postou atrás de um grande tronco e recuperou o fôlego. Apenas em sua vida ela é torturada, beijada daquela forma e depois tem que correr para se salvar? Olhou ao redor, ou tentou. Ali, as copas das árvores eram imensas e não deixavam os últimos momentos de raios de sol penetrarem a floresta. Estava escuro, frio e silencioso a sua frente, a fazendo ter um calafrio percorrendo todo seu corpo.
O barulho de espadas se chocando a acordou e a fez virar em direção a pequena clareira em que ela e James estavam juntos segundos antes. Mas agora ele a dividia com um dos guardas de Malfoy.
James era muito superior em luta do que o tal guarda. Lily sabia que seria um combate rápido, então já estava pronta para deixar a árvore e se encontrar com James quando algo mais ao fundo da cena chamou sua atenção. Cerrou os olhos para poder enxergar melhor do que se tratava, mas tudo estava escuro e longe demais para ela definir o que era. Se fossem cavalos, ela teria que se conter de alegria, pois provavelmente iria querer gritar. Após aquele curto período na cela do Malfoy, tudo o que ela queria era chegar rápido na cabana e...
Seu rosto se desfez na maior agonia possível. Sentiu um banho de água gelada em todo seu corpo quando as sombras indistintas começaram a descer para a pequena clareira no exato momento em que o corpo do guarda caiu inerte na frente de James. O moreno olhou ao redor e percebeu que ele não estava surpreso com o que via, ao contrário de Lily.
E ele muito menos parecia desesperado quando viu diversos guardas de Malfoy se juntarem à ele na clareira.
Ela sentiu a dor no peito pelo desespero em que seu coração batia. Ela teria que assistir a morte de James para guardas de Malfoy após ele lhe ajudar a escapar. Após ele lhe dar a melhor experiência de sua vida até agora. Após ela descobrir que o que ela queria como última coisa antes de dormir e a primeira coisa a acordar era um beijo dele, do mesmo jeito, forte, voraz, mostrando o quanto ela parecia sentir a falta dele mesmo sem saber que era isso que lhe faltava.
Não. Lily não permitiria isso. Olhou ao redor para tentar encontrar algo que pudesse ajudá-lo, qualquer coisa pontuda o suficiente.
Havia um galho perto dela. Ele parecia longo e pontudo o suficiente para ferir alguém.
Lily se deitou no chão e começou a se arrastar até o galho, tentando não chamar atenção. Sua mão o alcançou e quando estava pronta para levantar, viu uma sombra crescendo sobre ela. Alguém a descobrira.
Num movimento rápido, ela se virou para se defender com o galho...mas fora tarde demais.
Uma pancada em sua cabeça foi o suficiente para apagá-la.
Levantou a cabeça de repente, a fazendo sentir uma forte dor na parte de trás. O que havia acontecido?
Abriu os olhos devagar. A primeira coisa que viu foi uma fogueira muito próxima a ela. Se levantou rápida. A capturaram e a iriam jogar na fogueira, mesmo depois de ter caído os boatos de ruivas serem bruxas. Tinha que fugir dali. Havia acabado de ajudar várias pessoas fugirem da fogueira, seria uma piada e tanto morrer agora desse jeito.
- Com fome?
Ela gritou e virou pra trás. Em um tronco depositado na clareira, havia um senhor. Não exatamente. Era um senhor velho, muito velho. Tinha uma longa barba branca que ia até seu peito, cabelos longos e brancos, um óculos em formato de meia lua que quase escondiam os pequenos olhos. Ele sorria como se fosse uma boa pessoa, como se fosse um parente antigo dela em uma festa em família.
Mas ela nunca o vira em sua vida. Olhou para os lados para tentar achar algo que pudesse usar como arma, mas não havia nada mais do que pequenos e quebradiços gravetos. Olhou para a fogueira. Talvez pudesse empurrá-lo e correr.
- Eu a teria matado se quisesse, querida. - a voz suave a fez virar a atenção para o senhor novamente. - Está com fome?
- Quem diabos é o senhor?
E onde diabos estava James? Olhou em volta novamente, mas pôde constatar rapidamente de que o senhor e ela eram os únicos presentes.
O velho se levantou de seu tronco vagarosamente. Ele usava longas vestes, com mangas compridas e largas e ela não podia ver seus sapatos. Ele era incrivelmente alto e magro. Sua sombra preencheu boa parte das árvores atrás de si.
- Estava cercada, querida. Mais alguns instantes e seria pega pelos guardas, arrastada e torturada, ou morta, por eles.
O senhor pegou uma longa vara e cutucou o fogo, o atiçando para não apagar. Ela agradeceu mentalmente, pois graças a ele não estava morrendo de frio.
Suas roupas estavam secas e pela total escuridão, já deviam estar no meio da noite.
- Por que teria interesse em me ajudar? Por que ajudar só a mim? Eu não estava sozinha.
A última frase a fez engolir em seco e começou a se desesperar. Onde estava James? Por que esse velho não o ajudou, se ele gosta tanto de ajudar pessoas necessitadas? Ela deveria ter ajudado James. Não deveria ter se escondido, foi uma completa covarde.
Estava sem espada, mas queria e poderia ajudar. Agora estava em uma clareira com um velho desconhecido, que talvez seja louco, e sem saber se James estava vivo ou não.
Um grande peixe foi colocado para assar. Logo em seguida, o velho retirou um pequeno caneco das chamas. Sentou-se novamente em seu lugar e abriu uma pequena bolsa, retirando algumas folhas de dentro e as colocando dentro do caneco.
Não poderia continuar ali assistindo um velho fazendo comida no meio da noite. Tinha que agir. Não sabia para onde seguir, mas caso o céu limpasse por alguns instantes, poderia saber para qual lado ir. Deveria ter prestado mais atenção às explicações de seu pai sobre como se guiar em um dia nublado.
- James está bem e sabe como lutar. - a frase do velho a impediu de dar o primeiro passo.
- Como sabe que está bem? - ela perguntou indo até ele. - Como sabe? O viu? Onde ele está?
O velho deslizou e abriu um lugar ao seu lado, apontando para que Lily se sentasse.
- Sente-se por alguns instantes.
- Não quero sentar. Preciso achá-lo. Não posso ficar aqui trocando meias palavras com um desconhecido que diz supostamente ter me ajudado, enquanto meu amigo enfrentava vinte guardas ao mesmo tempo.
O velho sorriu.
- Eram apenas sete guardas.
Lily bufou.
- Não importa. Ele precisava de mais ajuda do que eu.
- Acredita nisso? Não acredita na força e coragem dele? Eu creio que James merece muito mais crédito do que a senhorita lhe dá.
- Olha, não sabe o quanto eu...- Seu coração pareceu ter dado uma reviravolta. Arregalou os olhos e se afastou do velho. - Como sabe seu nome? Como sabe que ele se chama James?
- A senhorita disse. - O velho se levantou.
Lily continuou a andar de costas, sentindo o medo a invadir. Esse velho não estava ali para ajudá-la e muito provavelmente tinha feito algo com James. Quem era ele, afinal? O que queria com ela? Seus passos para trás foram mais ligeiros, precisava sair dali.
De repente, o velho pulou em sua direção e o golpe foi tão repentino, que Lily apenas tentou dar um passo maior para trás, mas ele fora mais rápido e agarrou seu braço.
O velho a virou e a jogou para longe. Lily caiu contra algumas folhas no chão e, apesar da rapidez e da força com que ele a agarrou e a jogou, não sentiu nada além de um pequeno impacto nas costas.
Ele era louco. Ela rapidamente se levantou e estava pronta para enfrentá-lo e ganhar daquele velho lunático, mas ele apenas voltou a se sentar, parecendo aliviado.
- Tenha cuidado! Não quero ter gastado minhas energias a salvando para depois a senhorita cair no fogo.
- O que?
Lily olhou para o lado e viu a fogueira maior do que quando acordou e percebeu que todo esse tempo estava andando para trás em direção a ela.
Quase caiu de costas no fogo. Aquele velho a salvou de novo!
- Eu nunca disse o nome de James para o senhor. Então ou me diga quem é ou teremos que lutar e eu jogarei o senhor nessa fogueira que acaba de me salvar!
A voz dela, devido ao medo e a loucura que a tomou, estava grossa e alta. Não estava se importando se havia guardas por perto, se aquele velho havia a salvado duas vezes ou o que.
Ele suspirou, tomando um longo gole de seu caneco.
- Sou Albus. Não sou ninguém além de um velho cansado que mora pelas florestas. Sozinho.
- Por que mora nas florestas sozinho? Isso não é a vida de pessoas normais.
Albus tomou um outro gole de seu caneco antes de responder.
- Pessoas que perderam tudo e todos podem ser encontradas vivendo nas florestas. - Ele deu um rápido olhar para ela sobre o caneco - Eu não sou uma pessoa normal.
Ela sentiu como se tivesse sido acertada na cabeça de novo. Quem era ela para falar de alguém que vive nas florestas sozinho? Até antes de ser pega e levada para Azkaban, ela vivia sozinha nas florestas, vagando um pouco sem rumo, apenas fugindo. Ela olhou para Albus novamente.
- Eu não disse o nome de James em momento algum, Albus. - Ela disse, porém, mais suave.
- Disse enquanto dormia. O chamou diversas vezes, outras apenas sussurrava. Eu acreditei que fosse quem lutava bravamente contra os sete guardas enquanto a senhorita estava escondida.
A vergonha se instalou nela. Primeiramente por ter chamado James enquanto dormia. Esperava que tivesse sido a primeira vez. E outra por Albus ter dito que enquanto James lutava, ela se escondia.
- Não sou covarde, se é isso que pensa. Posso fazer muita coisa com uma espada, sei lutar! - Ela dizia com certa raiva, tentando se livrar da humilhação que a tomava agora. - Já lutei ao lado de James antes, e de outras pessoas também. Já salvei e já me salvei também.
- Eu não estou julgando, querida. A senhorita não tinha uma espada, não tinha como lutar contra ninguém minimamente preparado para uma luta. A senhorita fez bem em se esconder. Qualquer pessoa inteligente o bastante o faria.
Ela o examinou por alguns segundos e percebeu que ele não soava irônico.
- Eu deveria ter ajudado. Eu estava prestes a isso, mas o senhor quase afundou minha cabeça com o seu golpe.
Albus riu levemente, mas por incrível que parecesse, aquilo não irritou Lily.
- Eu acompanhei a luta de perto. Também estava escondido. Vi quando a senhorita se escondeu e vi em seus olhos a determinação em sair de seu esconderijo e o ajudar. Eu tive que ajudá-los nessa hora.
- Bom, o senhor me ajudou. Não James.
- Sim, o ajudei. - Ele cedeu novamente um espaço ao seu lado e apontou para Lily. Dessa vez, ela não hesitou e sentou-se com Albus. - James é um guerreiro e tanto. Ele é mais rápido, mais forte e mais inteligente do que todos aqueles guardas. Ele não perderia aquela luta. - Ele fez uma pausa enquanto verificava o peixe na fogueira. - A não ser que a senhorita aparecesse e ele tivesse que defendê-la.
- Eu não...
- Escute-me. Nunca fui bom em cálculos, mas este é bem simples. A senhorita estava sem qualquer meio para atacar qualquer um dos guardas ali. James era o único com uma espada. Os guardas se dividiriam entre a senhorita e ele. A senhorita seria rendida por três ou quatro guardas. Ele se distrairia para tentar atacar seus guardas e os outros o renderiam ou o matariam num golpe seco de espada.
Aquela cena passou facilmente por seus olhos, como se tivesse sido real. Ela não tinha palavras. Conseguia enxergar cada elemento que Albus escrevera. Até um golpe de espada em James, e depois seu corpo caindo, já sem vida.
- Ou a senhorita poderia ser descoberta e morta, ou algum guarda a capturasse. Não poderia deixá-la morrer ou ser pega. Isso faria com que James voltasse para recuperá-la e talvez ocasionando a morte de ambos.
Ela poderia ter botado tudo a perder. Poderia causar a morte de James, dos dois.
Não precisava de um velho solitário no meio da floresta para lhe dizer o quão bom James é e em como ela deveria confiar nele. Ela confiava há muito tempo já. Mais tempo do que ela desconfiava. Provavelmente desde a primeira vez que viu seus olhos na escuridão e confusão de uma fuga de Azkaban.
-Ele está bem, querida.
- O senhor viu a luta até o final?
Albus se levantou e foi conferir o peixe novamente. Satisfeito, ele o retirou do fogo e o depositou em um pequeno prato.
- Não, não vi. - Lily ia se levantar, mas Albus fez um gesto com a mão para que ela ficasse e sentou-se ao seu lado com o prato de peixe. - Gosta de peixe?
- Sim, gosto. Mas se o senhor não viu...
- Eu vi quando James passou correndo pela floresta. Creio que pensa que a senhorita fugiu. Parecia bem e inteiro.
O alívio foi jogado em todo seu interior como um balde d'água. Se Albus não fosse um velho louco mentiroso, James estaria chegando na cabana.
Agora se perguntava o motivo dele não ter chamado James quando o viu correndo após o confronto. Se sabia que estavam juntos, ele poderia ter chamado James e assim, teriam voltado para a cabana juntos.
- Albus, fico agradecida pela ajuda. O senhor me salvou duas vezes, mesmo que a última vez tenha sido um erro estúpido meu. - Ela apontou para a fogueira e riu de si mesma.
- Não foi nada demais. Aqui, coma um pouco.
Ele ofereceu metade de seu peixe.
Lily o encarou por um momento. Ele era tão solitário assim a ponto de ajudar um pessoa em perigo e a manter por horas apenas para não se sentir sozinho em um jantar? O que podia ter acontecido em sua vida para fazê-lo ser assim? Perdera os filhos, a mulher?
Não conseguia mais pensar que Albus era um lunático ou alguém do Novo Rei. Lunático talvez sim. Conferiu seu braço e viu que não tinha uma fita negra nele. E se fugia, só podia estar fugindo da realeza. Era um perdido na vida, assim como ela. Isso a fez se sentir solidária a ele. Poderia estar errada e acabar sendo morta, mas o que seria dela se não fosse pelo ato dele antes? Ou o que ela poderia esperar do futuro, se ela mesma não começasse a ajudar o próximo? Mesmo que fosse compartilhando uma refeição e seu tempo.
Ela podia ter um tempo com ele, fazer um pouco de companhia.
Eles se deliciaram com o peixe em silêncio. O pão seco que havia comido horas atrás pareceu ter sido apenas um pequeno e leve aperitivo, pois ela devorou sua parte do peixe rapidamente e a fogueira era muito bem-vinda naquela noite fria. Imaginava que logo estaria nevando e em como poderia dificultar fugas pela floresta.
- James é algum parente seu? - Albus perguntou após terminar seu peixe.
- Não. Somos companheiros de viagem, por assim dizer.
- Viajam sozinhos?
Aquela pergunta fez soar algo estranho dentro dela, mas preferiu responder.
- Não, viajamos em quatro. Creio que mais uma pessoa foi adicionada ao grupo hoje. Então somos em cinco agora.
Albus sorriu.
- Tem sorte em poder contar com amigos, senhorita. Nessas horas, além de família, são as pessoas que mais precisamos.
Ela sorriu nostalgia ao pensar na própria família. Doía muito ainda, mas o tempo começava a cicatrizar e a deixar a raiva para trás, e agora sentia como se seus pais estivessem sempre próximos e bem felizes. Sabia que tinha que seguir a vida agora, mas também sabia que os manteria com ela para sempre.
- Eles são a minha família agora.
O barulho da fogueira tomou a noite por alguns segundos antes que Albus o quebrasse.
- Faria qualquer coisa por sua família, querida?
Lily suspirou.
- Sim.
- Espera o mesmo deles?
- Eu não espero, pois o que faço não é para ter algo de volta. - Ela olhou Albus e agora percebeu que seus pequenos olhos eram azuis. - Mas eu sei que eles também fariam.
Ambos sorriram.
-Bom, creio que é hora de acompanhá-la de volta para sua família. - Albus se levantou e Lily o seguiu.
- Não há necessidade de me acompanhar, Albus. Posso me achar daqui.
O velho não pareceu se incomodar ou ouvir o que Lily dizia, apenas colocava tudo de volta em sua pequena bolsa de couro: seu caneco, seu pequeno prato e algumas folhas que havia utilizado antes com a água quente.
- Que homem seria eu em te arrastar até aqui e não acompanhá-la de volta?
- Já fez muito por mim essa noite. Agradeço-o imensamente. O peixe estava delicioso também.
Albus deu de ombros e se aproximou.
- Apenas vou apagar a fogueira e nossos rastros, mas antes eu gostaria de desejar boa sorte ao se juntar à Ordem, Lily.
Lily deixou o queixo cair e os olhos se arregalaram.
Ele sabia da Ordem? Ele sabia seu nome?
Antes que ela pudesse concluir qualquer outra coisa, sentiu uma pancada na cabeça e foi engolida pela escuridão novamente.
Ele corria.
Corria muito, fazendo suas pernas implorarem para parar.
Respirar doía tanto quanto uma alfinetada certeira em sua barriga. Podia imaginar a dor de ter uma faca entrando em seu corpo.
Nunca correra tanto na vida quanto agora. Mas ele não pararia.
Poderia encontrá-la ainda no meio do caminho para a cabana. Ninguém a tinha visto, sabia que ela não estava nas mãos de guardas. Ele os matou. Todos eles. Não sabia mais quantas vidas tinha tirado hoje e isso o desagradava. Qualquer um que o visse lutando, o acharia frio, porém ele se importava com a vida das pessoas. Mas fazia para viver, para sobreviver e para salvar.
E ele sabia que hoje ele matara mais para salvar do que para viver. Hoje e desde que botou os olhos nela, desde o primeiro guarda de Azkaban após a fuga. Ele matara para salvá-la e todos os outros haviam sido assim também.
Não era culpa dela e ele nem queria contabilizar o que havia feito em suas costas. Ele fez tudo porque quis, porque queria. Lily sempre se mostrou forte e guerreira, ela conseguia tomar conta de si, mas lhe faltava experiência e lhe faltava o espírito frio pra quando entrasse em combate, porque no final, é você ou o seu oponente.
Iria treiná-la. Iriam fazer exercícios com espadas, esquivas, luta corporal. Ela seria uma verdadeira guerreira e nunca seria pega de baixa guarda. Faria isso por ela mesma, porque ele poderia viver para ela.
Céus, ele queria viver para ela. E queria que Lily quisesse isso.
James sabia que estava perdido há muito tempo. Aquela loucura que sentia não iria embora. Essa sensação de que há algo dentro de si que o corrói, que esquenta ou gela com simples ações dela. Quando seus cabelos longos e ruivos se misturam em seu rosto e a deixa com um ar selvagem, e seus olhos verdes incríveis por entre o vermelho... isso seria o suficiente para qualquer homem numa batalha desistir.
Um simples toque de seus dedos em seu braço o faz sentir louco. Com a delicadeza e com a firmeza ao mesmo tempo. Aquelas mãos não eram para guerrilhar, mas ela guerrilhava mesmo assim e com muito mais garra do que muitos que ele já encontrou no caminho.
Ele tinha tanto orgulho dela que mal podia dizer.
E mal podia esperar para encontrá-la de novo. Toda vez que passava com a língua pelos lábios, queria poder sentir a marca dos lábios dela novamente. Havia sido um inferno de beijo que ele nunca esqueceria em sua vida.
A cabana estava visível agora. Para olhos destreinados, aqueles borrões entre as árvores não eram nada. Mas ele quase podia distinguir pedra por pedra daquele lugar e vê-lo mesmo na noite e sem lua.
Acelerou mais, ignorando as pernas que pareciam berrar para ele agora. Mais alguns metros e estaria de volta.
Conseguia ver a porta agora, os pequenos degraus que davam até ela. Subiu-os correndo, quando a porta de repente se abriu e ele quase enfiou o rosto na ponta de uma espada. Ele parou bruscamente e agradeceu seus bons reflexos que o desviaram para o lado.
- Está maluco, James?- Sirius abaixou sua espada, ainda com um olhar assustado. - Vem correndo da floresta nessa escuridão, debandado em direção a porta.
James apoiou as mãos nos joelhos para respirar um pouco e pegar o ar novamente sem que doesse.
- Está absolutamente certo. Eu errei. Estou correndo por tanto tempo e tão ansioso, que não pensei nisso. Me desculpe.
James olhou para Sirius, este que continuava com uma cara de assustado.
- Onde está Lily? - Sirius perguntou imóvel.
James riu.
- Não faça piadas. Eu sei que ela está aqui dentro.
James passou por Sirius e entrou na cabana. Remus estava sentado na velha cama de James escrevendo em um pergaminho e levantou os olhos para o moreno quando entrou. Um barulho vindo da lareira o fez virar feliz, mas não era Lily.
- Olá. James, estou certa? Sou Marlene. Sirius e Remus me disseram...
Ele virou as costas e saiu novamente. Ele não sorria mais e em uma das suas mãos ele segurava a espada.
- Não quero brincadeiras. Onde ela está? - James perguntou para Sirius que ainda estava no batente da porta.
- Eu que pergunto onde ela está. Você disse que a resgataria e que deveríamos vir para a cabana imediatamente. Agora aparece aqui sozinho e...espera!
Sirius correu e se enfiou na frente de James que já descia os degraus em direção a floresta novamente.
- Nós a resgatamos. Encontramos guardas, eu os enfrentei e disse a ela para vir para cá. Se ela não está aqui, então tenho que voltar.
James desviou de Sirius, mas ele o parou novamente.
- Espera. Talvez ela esteja perdida na floresta, talvez tenha errado o caminho. Pode acontecer às vezes quando está escuro assim.
- Então ela precisa que alguém a encontre.
James tentou passar novamente, mas Sirius não saiu da frente.
- Não a encontrará assim, James. Está escuro e frio. Ela deve estar abrigada em algum lugar, esperando pela claridade do sol. Você irá apenas se cansar e talvez chamar atenção de guardas para a cabana. Espere algumas horas e então saímos todos em busca de Lily.
- Se ela foi pega por algum guarda que seja, preciso sair agora.
- Lily não seria imprudente assim. Ela sobreviveu por um bom tempo antes mesmo de aparecermos em sua vida.
Sirius estava certo. Lily sabia se virar, mas se ela havia sido pega, estariam apenas perdendo tempo na espera.
Uma mão leve pousou em seu ombro e ele se virou para encarar Marlene. Marlene que Lily salvou e, aparentemente, o amor da vida de Sirius Black. Podia entender como Sirius se perdeu por ela. Os cabelos eram muito longos e seus olhos azuis eram grandes, junto com sua boca muito vermelha. Era uma mulher que podia deixar os homens loucos, pois ela exalava sensualidade.
Aquilo não o afetava em nada. Ele conseguia ver toda a beleza fatal de Marlene, mas não era ela ou alguém parecida com ela que o faria cair do cavalo.
- Acabei de fazer uma sopa deliciosa, James. - a voz dela era como um calmante. - Está tão gelado que sinto pelas suas roupas. Entre e fique perto do fogo, toma um pouco de sopa e recupere suas forças. Iremos encontrar Lily logo aos primeiros sinais do sol.
Ele não sabia como, mas ele se acalmou logo em seguida. Tinham sido as palavras dela ou a razão lhe atingiu? Remus estava na porta, assistindo tudo de longe. James foi levado para dentro por Sirius e Marlene e sentou-se em um pequeno banco perto do fogo.
- A paixão nos faz loucos!
James se virou para encarar Remus. Ele ainda prestava atenção em seu pergaminho, a mão passeava com a pena rapidamente. James não sabia como ele podia escrever daquela forma e ainda falar sobre algo diferente.
- O que tanto escreve sempre nesses seus pergaminhos?
Remus parou e olhou para James por alguns momentos antes de voltar a escrever.
- Histórias.
- Como consegue ter tanta criatividade nesses tempos? Onde só foge, se esconde e leva uma flechada no braço.
Remus riu.
- Há tantas histórias ao nosso redor. Criatividade é o menor dos meus problemas.
James olhou ao redor da cabana e viu Sirius e Marlene. Ele a abraçava enquanto ela parecia servir quatro pratos cheios de sopa. O semblante de Sirius parecia muito mais calmo do que sempre fora. Seus olhos cinzas eram mais leves, as rugas em sua testa eram mínimas e seu sorriso era muito mais fácil. Quase podia sentir no peito a sensação de alívio que ele sentira em ter de volta Marlene depois de tempos pensando que a havia perdido para sempre e de depois tentar resgatá-la.
Nunca havia vivido entre pessoas apaixonadas antes. Talvez seus pais, mas não se lembrava. Hagrid era apaixonado por animais, só tinha olhos para eles, então não podia contar.
Não sabia exatamente o que esperar dessas pessoas, do que podia acontecer com o ambiente. Sua vida foi sempre a muita dose de bebedeiras e mulheres em sua cama, e apenas isso.
Ele não podia se dizer apaixonado.
Podia?
Remus falava dele e não de Sirius e Marlene?
Lily o deixava louco, isso era certo. Em todos os jeitos, inclusive os ruins. Ele queria beijá-la há tanto tempo, mas nunca o fez...acreditava que ela nunca o receberia bem. E estava evitando um tapa na cara de qualquer um que fosse. Mas sentia como ela ficava alterada com ele, quando ele a introduzia em uma conversa louca e instigante. Sua respiração mudava, seus olhos cresciam, seus pelos se arrepiavam. Ela não era indiferente a ele, mas ela tinha um muro imenso ao seu redor. Maiores do que os de Hogwarts.
- Quer a sopa ou não?
A voz o fez voltar de seus pensamentos. A mão de Sirius segurava um prato com uma sopa fumegante em sua frente e seu estômago logo reagiu a isso.
- Obrigado.
Ele deveria tentar quebrar esses muros ou ele deveria deixar Lily decidir a respeito disso? Ela o queria, James sabia...podia ver os olhos verdes dela espiando sobre o muro, a curiosidade, a vontade dela querendo deixar tudo para trás. Mas havia alguma corrente a segurando.
Talvez fosse a vida dela no momento. Como ela foge da realeza, do Novo Rei, de seu amigo de infância. Se talvez eles desistissem da tal Ordem, se fossem para outro lugar, bem longe de Hogwarts, até mesmo outro reino...
Ela iria com ele?
Focou sua atenção em sua sopa e percebeu que já estava fria. Céus. Colocou novamente num caldeirão e o botou no fogo. Remus estava dormindo sentado em uma cadeira, Sirius e Marlene estavam agora deitados na cama velha de James e dormiam profundamente. Quanto tempo havia ficado perdido nos pensamentos?
Com a sopa aquecida, ele sentou-se de novo e a tomou, apreciando cada colherada. Era a melhor sopa de sua vida inteira ou ele estava realmente faminto.
Seu corpo pedia para que fechasse os olhos, mas sua cabeça parecia dizer para ficar alerto. Alguém deveria ficar de vigia, seja para pessoas que não deveriam ver quanto para quem deveria. Alguém deveria ficar de vigia, seja para ficar de olho em pessoas que não queriam ver perto da cabana quanto para quem queriam. Deu uma longa piscada e se ajeitou na cadeira para acordar. Deu outra longa piscada e se levantou, andando por alguns momentos dentro da cabana, mas as tábuas estavam muito soltas, fazendo muito barulho. Então voltou a se sentar e de modo mais desconfortável possível para evitar que dormisse.
Um barulho na janela o acordou como um maluco. Ele havia dormido! Seu pescoço doía como o inferno e parecia que alguém havia quebrado suas costas ao meio.
Outro barulho na janela, como se alguém batesse no vidro delicadamente.
James pegou sua espada e caminhou lentamente até a janela que ouvia o barulho. Segurou no grosso pano que a cobria e abriu vagarosamente. Não havia ninguém na janela.
Ele estava soltando o pano quando algo lhe chamou atenção entre a floresta e a cabana. Algo claro, como roupas claras, amontoadas no chão.
Seu coração disparou, fazendo James disparar também. Ele abriu a porta violentamente, correndo sem nem pensar se ainda segurava a espada ou não, ou mesmo sem checar se era uma armadilha.
E ele não se arrependeu quando vira que era Lily. James a virou cuidadosamente e começou a procurar por feridas, por qualquer indício de que ela estava gravemente ferida ou até morta. Mas não havia nada. Ela dormia pacificamente, como se fosse normal voltar para seu esconderijo e dormir em frente a ele.
Em meio ao frio e a escuridão, James não se importou em sentar e puxar Lily para seu colo. Ela parecia tão pequena e frágil, que sentia medo de apertá-la contra si do jeito que queria. Não sentia mais tanto o frio ou a preocupação, ele apenas estava confortável ali com Lily em seu colo. Até quando a sorte estaria ali para eles? O quão sortudos eles eram para sempre se separarem e sempre se encontrarem novamente intactos? Quando a mesa iria virar e James ficaria a olhar pela janela durante dias, semanas ou anos, achando que ela ainda poderia voltar?
Algo quente caiu em seus ombros e James se virou para ver Marlene depositando um grande cobertor sobre eles. Ela nada disse, apenas sorriu para ele e voltou para a cabana. Ele não poderia ser mais grato a ela por isso. Embrulhou ele e Lily no cobertor e continuou ali sentado, apenas a olhando. Ele sabia o quanto ele queria poder passar a mão em seu rosto, mas ele também sabia o quanto ela poderia achar isso um ato muito libertino da parte dele. E mesmo que ela não estivesse acordada para dizer isso a ele, James aprendeu que se ela não queria algo acordada, ela também não gostaria daquilo enquanto dormia.
Ele havia feito muito já. Havia a limpado na taberna quando ela desmaiou e ainda estava coberta de sangue do Comensal que ela quase havia matado. Teve que passar o pano muito perto de seu decote. Aquilo o havia deixado louco, mas ela ficaria ainda mais louca se soubesse. James não havia feito aquilo para ter as mãos nela, mas poderia ser visto de outra maneira.
Quando dividiram a cama depois da festa, quando ele dormiu nu ao seu lado. Foi outra liberdade que Lily parecia não ter gostado. Ele também não havia feito para tirar proveito dela, mas ela também estava desacordada.
E agora ele apenas a olhava. Era o que podia fazer na espera de seu despertar. Não queria mais pisar em falso com ela, não podia e faria o máximo para respeitar isso.
- Eu não sei se esteve perdida pela floresta ou se foi teimosa o suficiente para fazer outra coisa...- ele sussurrava. - ... mas talvez esteja na hora de acordar e me contar essa loucura. O que acha?
Ele não compreendia o que acontecia. Ela não parecia ferida de maneira alguma, então por que ela simplesmente estava desacordada há alguns passos da cabana? O que foram aquelas pequenas batidas na janela? Lily estava longe demais para ter feito aquilo e depois correr e simplesmente desmaiar. Havia mais uma pessoa envolvida, isso era certeza. Mas se todos eles estavam na cabana, então quem...
No segundo seguinte, James levou uma enorme pancada na testa e sentiu vários golpes em seu rosto. Ele se levantou e se afastou, tateando a cintura a procura da espada, mas foi a hora que percebeu que ele realmente a largou na cabana quando correu para fora.
- Oh meu Deus.
A voz doce o fez voltar para o momento e o rosto surpreso de Lily ficou nítido agora. Ela também estava em pé, mas há alguns metros de distância. Ela segurava a própria testa e resmungava de dor.
- O que aconteceu? - James perguntou se aproximando. Ela parecia realmente bem, apesar de parecer sentir dor.
- Eu acordei e vi que alguém me segurava. Me assustei e tentei te atacar com a cabeça pra te desorientar.
Ela olhava para os lados, sem parecer entender.
- Bem, funcionou. - James passou a mão na testa também dolorida.- Mas o que diabos aconteceu?
A ruiva ainda olhava em volta: mirava a cabana, depois James, depois a floresta. Passava a mão na nuca e fazia careta, depois na testa e mais caretas. Lily parecia perdida, mas completamente aliviada.
- Eu, eu não sei. - ela finalmente respondeu. - Acho que Albus me acertou de novo e me deixou aqui.
- Albus? Quem é Albus?
No instante seguinte, Sirius saiu da cabana rapidamente. Ele segurava a própria espada e parecia sonolento, apesar de estar pronto para uma briga.
- O que diabos está acontecendo aqui? - Ele segurou Lily pelos ombros e começou a examiná-la. - Onde diabos estava?
- Eu fui atacada. - Ela passou a mão pelos cabelos, como se procurasse alguma orientação em suas próprias lembranças. - Eu estava assistindo James com os soldados de Malfoy e, de repente, eu acordei já a noite, perto de uma fogueira e um velho barbudo meio maluco.
- Um velho barbudo?
Era Remus que havia saído da cabana segundos antes. Ele desceu as escadas segurando o braço contra si, parecendo sentir dor. Seu semblante parecia surpreso e confuso.
- Sim.
- O que ele fez com você? Como ele te atacou? Ele fez algo contra você? - James perguntou.
- Ele apenas me atacou na clareira. Depois foi muito gentil. Eu não entendo ainda o motivo disso, mas...
Lily arregalou os olhos e se virou para James. Foi a sua vez de examiná-lo.
- Eu estou bem, Lily. Quem não parece estar é você.
- James, ele sabia nossos nomes!
Os três homens reagiram ao mesmo tempo, se endireitando e olhando ao redor.
- Como isso é possível?! - Sirius disse baixinho. - Tem certeza que você não disse seus nomes em momento algum?
Lily sentiu seu rosto esquentar no mesmo instante. Como poderia dizer que, aparentemente, chamava por James em seu sono? Ok, eles haviam se beijado. Para Lily, havia sido um beijo que ela nunca esqueceria na vida.
Isso significava algo? Ela poderia ficar chamando-o em seu sono? Melhor: ela poderia assumir isso pra ela e para todos?
- Er, o velho disse que me ouviu chamando James durante a briga. - Ela optou pelo mais seguro. Ela se recuperou rápido. - Mas isso não explica como ele sabia o meu.
- Queridos! - Todos olharam para a porta da cabana, onde Marlene estava com um prato de sopa. - Entrem. Deixem Lily descansar e tomar uma boa sopa quente. Vamos conversar aqui, será mais seguro.
Ao ver aquele prato fumegante a esperando, Lily se virou como uma morta de fome para alcançá-lo. Uma mão a impediu de continuar.
- Eu preciso falar com Lily em particular por um momento. - James olhou para a ruiva como se esperasse uma resposta dela.
Droga. Ela não imaginava que teria que encará-lo tão rápido. Seu coração falhou uma batida e agora parecia que a ruiva havia corrido por toda a Hogwarts sem parar.
- Entraremos logo. - ela respondeu engolindo em seco.
Todos os outros entraram na cabana. Remus foi o último, fechando a porta e olhando para os dois do lado de fora. Ele parecia estar agindo estranho, muito calado desde que ela chegou. Era por estar sentindo muita dor? Ele pareceu estar interessado no velho barbudo, talvez o conhecia.
- O velho barbudo era o tal Albus?
A pergunta de James a fez voltar para o presente.
- Sim. Ele me acertou na primeira vez, eu creio. E me acertou na segunda para me trazer de volta.- Lily olhou para os lados e se aproximou de James. - Como ele sabia nossos nomes? Eu não gritei seu nome na luta .- E mesmo que Albus havia dito que ela o chamou no sono, ela não estava tão convencida. Ele poderia ter descoberto o nome de James do mesmo jeito que ele descobriu o dela.
- Ele usava a fita negra? - James perguntou.
- Não. Ele me disse ser um solitário na floresta. - Em um piscar de olhos, ela se lembrou da última coisa que Albus havia dito. - Oh meu deus, ele também sabe da Ordem!
E pelos próximos cinco minutos, Lily começou a contar sua experiência com Albus na floresta. Não contando que o velho havia dito que Lily chamava James no sono, ela não escondeu nada mais. James escutava em silêncio, parando poucas vezes para fazer uma pequena pergunta ou outra.
O moreno parou por alguns instantes, absorvendo a notícia. Lily esperava pacientemente, se embrulhando em seu cobertor, na espera de algum comentário. E nessa espera, ela começou a ficar ansiosa. Queria saber o que havia ocorrido na luta, e depois. Ele havia contado algo para alguém? Ao pensar nisso, seu rosto queimava de vergonha e não sabia o motivo.
O que havia acontecido pareceu tão íntimo, que se alguém soubesse soaria como uma invasão de privacidade.
Nenhum deles havia presenciado nada do que se passava entre os dois. Sirius e Remus nunca haviam visto ou ouvido algo enquanto James e Lily se encontravam naquela nuvem louca e ludibriosa que ocorria algumas vezes. Eles sempre estavam sozinhos, em uma bolha que parecia impossível de ser vista por outras pessoas.
E ela queria que acontecesse de novo, e ao mesmo tempo não. Lily poderia trazer a morte de James em uma batalha? Ou ele poderia trazer a morte dela? O que aconteceria se eles ficassem juntos? Seriam um casal em fuga para o resto da vida? E se não ficassem, cada um seguiria sua vida e teriam apenas memórias dos dias loucos que estavam passando?
- Ele devia estar nos espionando desde o começo! - a voz de James cortou seus pensamentos. Ela demorou alguns segundos para se recompor e voltar sua atenção no velho maluco.
- Talvez. Mas parecíamos sozinhos desde o meu resgate.
Oh droga. Ela havia levado o assunto para muito perto do outro assunto.
- Existem pessoas que sabem bem como se esconder, esconder seus passos ou seguir pessoas sem ser notado. - Ele continuou. - Estava chovendo, assim fica mais difícil reconhecer passos ao redor, principalmente quando não se está prestando muito atenção.
Oh droga, agora ele havia chegado muito perto. Seu peito parecia querer explodir, sua barriga estava em nós. Ela não queria falar sobre aquilo e ainda sentia uma vontade louca de repetir.
- Verdade. - ela sentia que queria fugir do assunto, precisava achar algo para falar. - Ah e obrigada por ter me salvado. - Ela o encarou profundamente. Aquilo era verdade e precisava ser dito. - Eu estaria morta agora se não fosse por você, James.
Sua mente tinha que voltar para o assunto principal agora. Ser pega por Albus, que sabia seus nomes e sobre a Ordem, era mais importante e preocupante do que falar sobre um beijo no meio da floresta.
- Frank fez boa parte do serviço. Além do mais, como ousa dizer isso? Eu explodiria aquele lugar inteiro se precisasse. - Oh céus, ele não estava ajudando. Tinha que pensar em Albus, tinha que pensar nele. Aquilo era preocupante e não o beijo.
- Eu sei que todos nós podemos contar com você, James. - a frase escapou de sua boca. Ela viu o semblante dele cair de repente, como se aquilo o machucasse.
- Sim, todos vocês. - ele confirmou. Sua voz parecia menos entusiasmada desde que ela acordou. Ele abriu um pequeno sorriso. - Talvez não seja a melhor hora, mas...eu concordei com Frank em ajudá-lo em Hogwarts.
- Concordou?
- Sim, mas quero que saiba que isso não quer dizer que você tenha que ir. Se Sirius também for, eu ainda prefiro que fique aqui, ou o mais longe possível.
- James, se você for, eu vou. Severus…
- Dane-se ele, Lily! Eu posso lidar com um Comensal que é responsável de manter Hagrid.
- Pretende matá-lo? - ela perguntou levando uma mão à boca.
Ele engoliu seco. A ruiva percebeu que ele pensava em uma boa resposta, principalmente vendo como ela estava reagindo.
- Apenas se ele se colocar no caminho.
- Ele salvou a minha vida. - ela sussurrou. - Se não fosse por ele, eu estaria morta.
James se aproximou dela e segurou seu rosto, a fitando. Os olhos castanho-esverdeados pareciam tristes.
- Eu prometo que farei o meu melhor e o possível para que nada aconteça com ele, caso isso lhe faz feliz. Assim, você pode...vocês podem...fazer o que quiser. - Ele soltou o rosto dela. O que ele quis dizer com aquilo? - Bom, vamos entrar. Há uma sopa quente e um bom fogo lhe esperando.
James passou por ela, esperando que Lily o acompanhasse. Ela ainda demorou alguns segundos para isso, tendo a impressão que começara aquela conversa tentando escapar da conversa sobre o beijo, mas acabou afastando James.
N/A: Apareceu a margarida. Mais um capitulo para esses meus leitores fantasmas hahahahahaha eu vejo voces todos ai, viiiu? hahahahaha Espero que tenham gostado e aproveitado esse cap. Primeiro beijo Jily FINALMENTE xD
Beijos, pessoas lindas.
