Parte 12
- Dude, tu tá legal?- perguntou Hurley segurando Sawyer quando ele cambaleou para o lado, o rosto pálido.
- Estamos na ilha?- o sulista indagou parecendo muito confuso.
Hurley olhou ao redor deles visualizando o oceano, a praia e os outros sobreviventes que caminhavam pelo acampamento ocupados com seus afazeres e voltou a olhar para Sawyer como se perguntasse: "E onde mais poderíamos estar?
Sawyer assentiu se recompondo.
- Pode me soltar, Hurley. Eu tô bem.- falou ele porque Hugo ainda o segurava pelo braço direito.
- Ok.- disse Hurley ainda olhando para ele com estranheza. – Tem certeza? Tua cara tá péssima!
Sawyer fez cara de deboche e respondeu com seu sarcasmo habitual:
- Pelo menos a minha cara só tá péssima hoje! E a tua que não tem conserto?
Hurley não se deu ao trabalho de responder à ofensa, apenas seguiu seu caminho deixando Sawyer para trás. Assim que ele se afastou, Sawyer se apressou em procurar por Ana-Lucia na praia; andou de um lado para o outro mas nem sinal da morena. Ficou preocupado, imaginando a possibilidade de ter voltado para a ilha no período em que ela já tinha sido assassinada. O coração doeu e ele correu para o cemitério temendo pelo pior. Entretanto, ficou muito surpreso ao chegar lá e não encontrar nenhum túmulo, apenas a areia fofa e quente da praia rodeada de plantas tropicais. Nenhum sinal das cruzes de madeira de que ele se lembrava. Ana não estava lá, mas Boone e Shannon também não. De repente, ele viu o que pareciam ser cruzes bem mais adiante na praia. As batidas de seu coração que tinha errado o caminho do cemitério?
Correu depressa até as cruzes e sentiu um embrulho no estômago quando viu três delas marcando três túmulos distintos. O peito apertou mas mesmo assim ele se aproximou das covas. Um arrepio de alívio correu por sua espinha ao confirmar que o nome de Ana-Lucia não estava em nenhuma delas.
- Joana, Scott...Donald...- ele leu em os nomes em pensamento. – Como pode ser?- ele sussurrou consigo mesmo baixinho, sua mente trabalhando depressa, tentando descobrir em "quando" estava.
Duas vozes que falavam alto perto dele o tiraram de seu torpor momentâneo e Sawyer ficou chocado ao ver Shannon e Boone caminhando ao longo das ondas na beira da praia, discutindo como costumavam fazer.
- Escuta aqui ô sem noção, o meu namoro com o Sayid não é da sua conta!
- Shannon, eu já te falei que o cara é muito mais velho do que você, mais um pra você usar!
- Olha aqui, eu gosto dele, tá bom e você não vai arruinar as coisas pra mim!
Sawyer piscou duas vezes pra ver se não estava sonhando outra vez, mas nada aconteceu, ele continuou enxergando Shannon e Boone na sua frente. Percebendo que o sulista os observava, Shannon parou de gritar com Boone e se voltou para Sawyer.
- Ei, qual é o seu problema? Por que táencarando a gente?
Ele pensou em dar uma resposta mais debochada ainda do que a que tinha dado para Hurley antes mas acabou optando por não dizer nada e ir embora. Estava mais preocupado com o fato de que se Shannon e Boone ainda estavam vivos, isso significava que ele e Ana-Lucia ainda não tinham se conhecido. Ficou se perguntando se depois de algumas horas de volta na ilha, ele seria transportado novamente para Dharmaville, sua outra realidade que era completamente o oposto da realidade em que ele se encontrava agora.
Exausto, resolveu ir ficar em sua barraca, esperando pelo momento de transição, se é que aconteceria novamente. Da última vez em que estivera na ilha, tinha acabado de roubar as armas, Kate estava puta com ele por tê-la usado em sua pequena conspiração contra Jack e conseguira seduzir Ana-Lucia com um piquenique na cachoeira. Será que Michael estava prestes a fazer seu discurso sobre construir uma jangada para tirá-los da ilha e ele embarcaria naquela aventura mesmo sabendo a respeito de todo o sofrimento que iria passar?
- Valeria a pena.- disse consigo mesmo. – Só para ver Ana-Lucia outra vez.
Depois de experimentar uma vida em família com ela, estar de volta à ilha sem ela parecia sem sentido. Resolveu pegar um dos livros que tinha em sua barraca para se distrair com a leitura e não pensar nas coisas sem sentido que vinha vivendo ultimamente. Levou um tempo para se concentrar mas quando já estava quase conseguindo foi interrompido pela presença de Kate diante dele. Bem diferente da elegante mulher que o cumprimentara na festa de natal dos seus sogros, esta era a Kate de sempre em sua camiseta de alcinhas, jeans surrados e cachos de cabelos bagunçados. Chegou à conclusão de que as duas Kates eram muito atraentes, mas não pareciam compartilhar a mesma personalidade.
- Oi, Terra para Sawyer!- ela brincou notando que ele estava muito distraído. - Por onde você tem andado?
Ele abaixou os óculos improvisados que usava para ler e colocou o livro de lado, encarando-a antes de responder com muita seriedade.
- Viajando no tempo ou entre realidades paralelas. Eu sei lá!
- Como é?- retrucou Kate sentando-se ao lado dele na areia.
- O que você quer sardenta?- ele perguntou um pouco irritado. Não tava a fim dos joguinhos de Kate naquele momento.
- Nossa, que mau humor!- ela exclamou. – Por que tem andado tão rabugento? Deveria estar se sentindo feliz.
- Feliz?- ele indagou com uma risada sarcástica. – Feliz como?
Kate tinha uma expressão maliciosa no olhar.
- Bom, eu ouvi rumores de que você anda apaixonado e que o seu objeto de desejo te corresponde, mas te faz de gato e sapato.
- Apaixonado?- ele ergueu uma sobrancelha.
- Sinceramente, Sawyer, depois de tudo o que você aprontou no acampamento, você merece ser maltratado.
- Aprontei?- ele repetiu. – E o que foi que eu aprontei? Roubei a playboy do Leslie de novo? O cara é um pervertido, tinha bem umas dez revistas com ele e...
- Sawyer, eu estou falando das armas que você surrupiou do cofre.
- Eu já roubei as armas?- Sawyer questionou, surpreso. Se Boone e Shannon ainda estavam vivos, como ele poderia ter roubado as armas se isso aconteceu algum tempo depois da morte deles?
- Ai, Sawyer. Tá bom!- Kate rebateu.
Agora ele estava mais confuso do que nunca e resolveu fazer a pergunta que não queria calar mesmo sabendo que Kate talvez não fosse fazer ideia do que estava falando.
- Você sabe aonde está a Ana-Lucia?
Kate deu uma risadinha e disse:
- Ah, agora tô vendo que você está mesmo apaixonado, os seus olhos brilham só de dizer o nome dela.
- Então, a Ana-Lucia já chegou ao acampamento.- ele concluiu consigo mesmo. – Mas como isso é possível se o Boone e a Shannon ainda estão vivos? Quando foi que o Michael e o Jin construíram a jangada?
- Sawyer!- Kate exclamou se levantando da areia. – Você não está falando coisa com coisa! A jangada foi construída e afundada no mar pelos Outros e por que o Boone e a Shannon estariam mortos?
- Ok, sardenta.- Sawyer disse, também se levantando e ficando de frente para ela. – Se eu te dissesse que nos últimos dias eu tenho vivido duas vidas diferentes, você acreditaria em mim?
Ele pareceu muito sério quando fez aquela pergunta a ela, mesmo assim Kate respondeu em tom de brincadeira:
- Eu te perguntaria o que você anda fumando nessa ilha.
- Kate, me escuta.- ele pediu. – A minha vida tá uma bagunça! Eu não sei mais o que fazer! Não sei mais o que é real e o que não é!
- Então, você tá mesmo falando sério?- ela indagou vendo que o corpo dele estremecia levemente.
Sawyer assentiu.
- Lembra quando vimos aquele cavalo na floresta em frente da escotilha?- ele balançou a cabeça em negativo e acrescentou: Se é que isso já aconteceu!
- Eu lembro!- Kate respondeu. – Essa ilha faz coisas com a cabeça da gente!
- Acredita em mim?- ele perguntou ansiando por uma resposta positiva.
- Me conta mais!- ela pediu e eles voltaram a se sentar.
Sawyer contou tudo a ela sobre a outra realidade, seu casamento com Ana-Lucia, os filhos dele, o casamento dela com Jack, o bebê que tinham tido há pouco tempo e a entrevista que assistira na TV sobre realidades paralelas. Kate ficou chocada com tudo que ouvira e mais surpresa ainda sobre seu próprio destino na realidade paralela de Sawyer.
- Então você num momento está lá com sua família e no outro de volta aqui na ilha?
Ele assentiu.
- E desde quando isso começou a acontecer?
- Desde o dia em que a Ana-Lucia foi morta por um dos Outros, bem debaixo do nosso nariz.
- Mas Sawyer, a Ana-Lucia não está morta!- garantiu Kate.
- E como a Shannon pode estar viva?-retrucou Sawyer. – A Ana atirou nela!
- De raspão.- contou Kate. – Foi um acidente!
- E o Boone?- insitiu Sawyer. – O garoto caiu de uma altura de sei lá quantos metros e se quebrou todo...
- O Jack salvou ele. Foi um milagre mas aconteceu! Você não se lembra?
- Kate, as coisas não aconteceram assim...
- Claro que aconteceram!- ela confirmou.
- Então a minha versão dos fatos é a que está errada?
- Pelo que parece.- disse Kate.
Ele respirou fundo, confuso e cansado daquela loucura toda.
- Olha, vamos fazer uma coisa.- ela sugeriu. – Se você dormir de novo e acordar na realidade paralela, me conta essas coisas que me contou e vê como eu reajo, De repente eu posso te ajudar se isso tudo for mesmo verdade.
Frustrado, Sawyer ia responder àquela sugestão dizendo que tentar falar com ela do outro lado seria perda de tempo quando sua linha de raciocínio foi interrompiada pela aparição repentina de Ana-Lucia caminhando pela praia.
- Eu tenho que falar com ela!-ele avisou a Kate. – Te vejo depois se eu não for tragado de volta para o meu subúrbio.
Continua...
