Escarlate: roupas de segunda mão
Capítulo 11
Esmeralda
O que acontecia era que eles eram dois covardes. E Ginevra lá no fundo sabia daquilo - e continuava sendo uma.
Durante o expediente, tudo era motivo para tocá-lo. Como está a tatuagem? Deixa eu ver seus pontos. Tem açúcar aqui no canto da sua boca - aquela fora a pior desculpa desde segunda.
Ele não recuava em momento algum. Por mais que voltara ao seu habitual fechado, recebia todos os toques e cuidados sem reclamar, e Ginevra pôde até mesmo ver um sorriso nos lábios machucados em uma noite que limpava o curativo feito no supercílio direito.
Durante o expediente, Draco retribuía cada toque com um presente. Trouxe café. Quer chocolate? Pra melhorar essa cara - ela nunca ficou tão ridiculamente feliz ao ganhar uma simples flor.
Cada um tinha sua própria língua para falar do que sentiam sem dizer, mas coragem de menos para fazer qualquer coisa sobre isso. O dia acabava, cada um entrava em seu apartamento e nada acontecia. E ali ficavam, andando no raso quando o que a bruxa mais queria era mergulhar no maldito mar azul que via todos os dias. Por mais que soubesse que o mar era tudo menos calmo.
Aquele era o quarto dia.
Ginevra queria gritar.
"Então você dormiu com ele." a loira falou entre mordidas. "Com os dois totalmente vestidos." continuou, após uma batata frita. Hambúrguer e Luna eram a solução perfeita para sua semana maravilhosamente frustrante. "Isso tá tão errado, amiga."
"Eu sei." Ela sabia. "Eu sei, eu sei."
Sabia até demais. Sabia todas as malditas noites que ele tomava conta de seus pensamentos enquanto ainda acordada. Sabia quando acordava e a primeira coisa que vinha a sua mente era bater na porta do vizinho. Ele também pensava nela daquele jeito? Também desejava saber a sensação de seus lábios contra a pele dele, contra todas as malditas partes de seu corpo?
"Finalmente vai admitir que quer tirar a roupa de Malfoy?"
A mordida que deu no hambúrguer foi do tamanho de sua frustração.
"Eu quero arrancar cada peça de roupa que ele usa." confessou ao engolir a carne que mastigava.
"Isso que é progresso." Luna não parecia nem um pouco surpresa. "Quer dizer que você não sente mais nada-" A amiga pausou, como se estivesse estudando a bruxa na sua frente para saber se poderia ou não pronunciar aquele nome sem causar dano.
"Por Harry?"
Ginevra precisava admitir que sentia-se sim culpada por mal ter pensado no bruxo que dividira sete anos de sua vida nos últimos meses. Havia se lembrado dele apenas no Natal, e o esquecera outra vez até o atual momento.
"Harry é-" Havia sido seu primeiro amor. Seu companheiro, seu melhor amigo por um longo tempo. A havia marcado, de certa forma. "Eu o amo sim, Luna."
Tivera garotos antes de Harry, e diferente dele, Harry não tinha sido a primeira pessoa a vê-la como gostaria que Draco Malfoy a visse agora. Mas Harry fora seu pilar após a guerra. A melhor pessoa para conversar sobre o os ocorridos de seu primeiro ano. Quem a entendia, as vezes mais do que ela mesma.
E então tudo isso se perdeu.
"Mas eu o amo como um irmão." Hoje, achava que talvez nunca tivesse o amado além daquilo. Não conseguia pensar em nenhuma ocasião em que o mero roçar dos dedos do bruxo de olhos verdes a deixara tão desconcertada.
Tinha certeza que o olhar dado pelo loiro quando ela pisara na loja hoje pela manhã a fizera sentir coisas que nem sabia que podia sentir. Ginevra sabia que não tinha o melhor senso fashion do mundo, mas conseguia ficar apresentável quando queria. Usaria aquela saia esmeralda todos os dias de sua vida se aquilo o fizesse a olhar sempre do jeito que olhou.
"Luna, fazia um ano que nós não arrancávamos a roupa um do outro." Lembrar do rosto dele quando a viu, de como ele afundou na cadeira e bagunçou os cabelos, conseguia acender coisas dentro da bruxa que há muito estavam dormentes. "E só de pensar em fazer isso com ele, me dá arrepios - e não o arrepio bom que deveria sentir."
"Malfoy precisa tomar cuidado com você." a amiga brincou, terminando seu jantar. Ginevra revirou os olhos, lembrando da primeira vez que conversara sobre Draco Malfoy com a lufana.
Menos de três meses, e ela acordava pensando nele.
"O que foi?" perguntou, após alguns minutos de silêncio.
"Só tome cuidado, você também." Revirou os olhos outra vez, respondendo que tomava cuidado suficiente.
Mas sabia bem o que Luna quis dizer. Com aquelas palavras, ela falou tudo que Ginevra agora fazia questão de guardar em seu subconsciente apenas. Tome cuidado, porque ele já foi um completo idiota. Tome cuidado, porque ele sempre invejou tudo que Harry Potter tinha, e ele não. Tome cuidado por tudo que ele se mostrou capaz no passado.
Só tome cuidado, porque você quer tirar a roupa e dividir aquele momento tão íntimo justo com Draco Malfoy.
O que acontecia era que ele simplesmente não conseguia mais não orbitar em torno dela - e a maldita estava no mesmo caminho. Estava ficando mal acostumado em começar o dia com a ruiva fazendo questão de checar os pontos de seu supercílio, e pensava que poderia viver com o rosto machucado se aquilo fosse faze-la manter as mãos nele. Ridículo pensar em algo assim, ao invés de criar coragem e resolver aquela situação.
Deveria afasta-la, deveria fazer a bruxa sair correndo. Naquela manhã, quando a viu vestindo a saia que se tornara sua favorita, o cheiro que adorava mais forte do que nunca, gastou todo o resto de seu autocontrole ficando quieto quando a teve tão perto. Não sorriu a manhã inteira, precisando se concentrar mais do que o normal ao acidentalmente descobrir o que a ruiva pensava em fazer com ele.
Nunca mais conseguiria olhar para a parede atrás dele sem desejar aquela sardenta.
O quão ruim seria os dois começarem algo? O quanto ele poderia se machucar quando Ginevra enfim realizasse o quão trabalhoso qualquer relacionamento entre os dois seria?
Só notou estar perdido em seus pensamentos quando escutou um pigarro, seus olhos achando sua cor favorita num bruxo familiar.
"Ginevra saiu." respondeu, desconfortável por ter justo Arthur Weasley parado na sua frente.
Draco havia aprendido a não relaxar quando sozinho com outra bruxo, um infeliz efeito pós-guerra. Desde muitos anos, costumava encontrar um certo grau de desprezo em todo que o olhavam sabendo quem era de fato ele - e aquilo não costumava incomodá-lo, até que o desprezo começou a se manifestar também fisicamente. Foi tomado por uma agradável surpresa quando apenas encontrou gentileza nos olhos tão parecidos com os de sua chefe.
"Sim, sim." O bruxo deu um meio sorriso, sacudindo a cabeça. "Eu sempre chego mais cedo do que o combinado, é minha culpa."
Não estava mais acostumado com gentileza fora de seu pequeno círculo de amigos - nem mesmo Lúcio era gentil. Não, era algo que seu cérebro reconhecia como estranho, e o fazia entrar automaticamente em modo de defesa. Como poderia ser azarado, quais seriam as próximas palavras, era involuntário tentar pensar em alguma coisa ruim que poderia acontecer nos próximos segundos.
Viu que o bruxo fixara os olhos no curativo trouxa que havia bem abaixo de sua sobrancelha direita, e por um momento viu algo além de gentileza. Passou mais rápido do que o necessário para descobrir o que era, e Draco conteve sua legilimência no último segundo.
"Eu que a ensinei a fazer curativos." Arthur revelou, ainda examinando de longe o rosto machucado. Desviou o olhar antes de continuar, um sorriso saudoso nos lábios. "Era péssimo em qualquer magia curativa, mas não podia deixar Gina sem saber pelo menos o básico. Foi tudo que ela acabou aprendendo, o modo trouxa."
O homem sabia que a filha o ajudara, e ainda assim, estava sendo simpático. Draco definitivamente não estava acostumado com simpatia alguma.
"Ela aprendeu com perfeição," confirmou a informação, ele mesmo deixando-se dar um pequeno sorriso. "Posso afirmar, como o senhor pode ver."
"Sim, ela fez um bom trabalho. Deveria usar mais nas próprias mãos." Uma conversa normal, com um bruxo que não parecia querer nada dele e tinha tudo para odiá-lo: não lembrava como aquilo era agradável. Teve tão poucas em sua vida.
"As mãos dela não andam tão machucadas." revelou, lembrando como os dedos estavam naquela semana, intocados pela boca da jovem depois da última sexta.
A surpresa não passou despercebida por Draco.
"Sério? Isso é novidade." Arthur disse, chegando perto o suficiente para encostar-se na bancada do caixa, tão como a filha sempre fazia. "Gina começou com essa mania depois do primeiro ano em Hogwarts. Aquele primeiro ano foi tão-" E outra vez, algo que ele não conseguiu bem identificar no olhar. "Era muito pior quando era menina, claro. Nunca achei que algum dia pudesse melhorar totalmente, tem coisas que simplesmente ficam com você."
O primeiro ano dela fora seu segundo, e não precisou de qualquer esforço para ele lembrar-se da câmara secreta e tudo mais que acontecera durante o período letivo. Com certeza não havia sido o melhor começo de Hogwarts para um aluno - não que imaginasse que a ruiva pudesse ter sido afetada por aquilo. Eram apenas alguns estudantes sendo paralisados. Mas então, lembrou-se de quem fora transformado em pedra, e quem o bruxo era para ela.
Colin fora o primeiro amigo que a bruxa fizera no colégio.
Agradeceu por Arthur confundir seu olhar, perdido em um rádio antigo, com interesse.
"Fantástico, não acha?" o homem mais velho falava com nova empolgação. "Essas coisas trouxas sempre me surpreendem." Arthur sabia sobre sua pena? Claro que sabia, todos sabiam, era público - e tão perigoso ser - que Draco Malfoy estava com a varinha aprendida por um ano. "Ora vamos, até você precisa admitir que é incrível como eles acham jeitos de fazer certas coisas que para nós basta apenas um chacoalhar de mão."
"Como o que?" Naquele ano, ele finalmente admitia que sim, era incrível. Era também incrível como só haviam coisas trouxas no apartamento de Draco Malfoy.
"Cozinhar, por exemplo. É incrível os pratos que eles sempre inventam. Mas levam horas para algo tão simples como um guisado." O bruxo balançou a cabeça. "Cortar, fritar, esperar o pão crescer! Eu não sei se teria paciência."
Draco quase riu. Que mentira, aquele homem dizendo que não teria paciência para algo! Ele deveria ser a pessoa mais paciente que Draco encontrara na vida, até mesmo mais que sua mãe.
"Não é tão difícil quando você pega prática." confessou, enfim botando o livro que segurava de lado.
"Você sabe cozinhar sem uma varinha?" A surpresa no olhar do bruxo o divertiu: sim, Draco Malfoy sabia cozinhar sem uma varinha. E surpreendentemente, até mesmo aprendera a gostar daquilo nos últimos meses. Já no primeiro mês havia cansado de tudo que encontrava para comer nas redondezas. "Molly mal consegue fazer uma sopa sem a dela, se atrapalha toda. E o que ela consegue fazer, nunca teve muita paciência para me ensinar."
Arthur pareceu considerar a próxima pergunta por alguns segundos.
"Poderia me dar algumas dicas, filho?"
Era dele, com certeza, que Ginevra puxara os olhos. Ali estavam os olhos para os quais Draco jamais conseguia negar qualquer coisa. Tão perigosos, e tão, tão gentis.
Disse sim antes de considerar os problemas que uma resposta positiva poderia lhe trazer - como fazia com ela. Mas a presença que tanto ansiava ver outra vez até o final daquela sexta o salvou de começar a expor o quão trouxa andava sua vida.
"Pai?" Ela ainda estava com aquela mesma saia de cintura alta, e um tomara que caia branco que mal cobria a parte de cima e claramente não era feito para o inverno. Com certeza o casaco que jogava por cima de tudo era encantado, o pedaço de pano que tanto queria puxar para baixo nem de longe parecia quente o suficiente para a temperatura que fazia do lado de fora.
"Ah, aí está a minha garotinha!" Seus olhos acharam os dela por um momento, e viu que o sorriso que recebeu não passou despercebido por Arthur.
"Pai, você está meia hora adiantado!" Voltou os olhos para o livro que antes fingia ler, mas a atenção continuava nos dois bruxos. "Espero que você não esteja incomodando Draco." Outra vez os olhos nele, outra vez o sorriso que ele não conseguia não retribuir, mesmo com o pai da bruxa na sua frente. "Vamos, eu separei uma caixa com o que você pediu, e depois podemos tomar um café."
Enquanto os dois sumiram para o quarto que havia nos fundos da loja, Draco sentia-se incomodado por ter ficado tão relaxado na frente de outra pessoa que não a ruiva. Malditos ferrugens, e maldita gentileza Weasley - gentileza que ele sempre só ouvira falar, mas em nenhum dia de sua vida imaginou receber antes do último Outubro.
Precisava se lembrar que nenhum outro seria gentil além daquela família - isso se a família por inteira o aceitasse. Precisava colocar aquilo na cabeça, e esquecer tudo que considerava fazer sempre que via a ruiva com aquela saia verde.
Arthur Weasley não era um homem que se surpreendia com facilidade. Ao contrário, após sobreviver a duas guerras, eram poucas as coisas que conseguiam deixar o bruxo boquiaberto.
Ainda estava tendo certo trabalho para fechar a boca e mantê-la daquele jeito enquanto caminhava pelas ruas geladas de Londres.
Não esperava ver Draco Malfoy com um rosto digno de pena, assim como não esperava algum dia ter pena de qualquer um que portasse o sobrenome que tantos odiavam. Nem mesmo sabia como conseguia sentir simpatia pelo rapaz, ainda mais após vê-lo olhar para sua única menina com uma expressão que nunca imaginou ver em um membro dos Sagrado 28 enquanto olhando para um Weasley.
Era como se os olhos azuis gelados ganhassem vida. Era tudo que sempre quis ver no bruxo ou trouxa que ficasse com Ginevra, e o que, lá no fundo, não queria ver em Draco Malfoy.
Não gostou quando soube que sua filha dividiria seus dias com o bruxo de cabelos platinados, e ainda se perguntava o porque dessa sentença tão peculiar. A únca explicação que achara era o fato daquela ser a única loja trouxa de Londres comandada por uma bruxa - e que após a condenação de Malfoy, nunca o colocariam para trabalhar em qualquer loja que não houvesse alguém que pudesse pará-lo com magia caso precisasse.
"Filha, posso te perguntar uma coisa?" Só conseguiu verbalizar qualquer coisa referente ao bruxo horas depois, quando já prestes a se despedir.
Viu Ginevra levar um dedo a boca e parar no último segundo, e notou que sim, realmente as mãos estavam muito melhores do que o habitual.
"Eu também não sei o que aconteceu, pai." Nem mesmo perguntara, e sua filha imaginava que era algo referente ao seu funcionário. Suspirou, tendo total certeza do que antes apenas desconfiava. "Ele apareceu tão machucado, e não quis ir para o St. Mungo's, e eu tentei curar do jeito que deu," Observou Ginevra ocupar ambas mãos com o copo de café quente, a bruxa realmente se esforçando para não render-se ao seu tique. "Estava tão, tão pior na primeira noite."
Os mesmos olhos de Molly quando nervosa. Por mais que Ginevra tivesse os olhos mais parecidos com os seus, apenas conseguia ver a esposa naqueles castanhos. Molly usava aquela expressão quando verdadeiramente se importava com alguém: família, alguns poucos amigos, Harry.
Sua menina realmente se importava com o filho de um dos bruxos mais detestados do mundo mágico, e Arthur não sabia exatamente o que achar daquilo. Queria ter o poder de construir uma parede ao redor de Ginevra para ela nunca mais se machucar, ainda mais após aquele primeiro ano, após todas as perdas da guerra. O sonho de todos os pais, sabia - sonho impossível, entendia bem.
"Você gosta dele." De todos os bruxos que ela poderia ter escolhido. "Você gosta dele mesmo sabendo que Lúcio vem no pacote."
"Eu gosto dele mesmo sabendo que muito mais coisa além de Lúcio vem no pacote." Viu Molly outra vez no olhar corajoso e determinado que recebera ao ganhar o positivo que não imaginaria que viria de forma tão fácil. "Por favor, não me peça para lembrar de quem ele é: eu nunca vou esquecer quem ele foi, e eu sei quem ele é agora. Não vou dizer que Draco é agradável e bom, mas ele é assim comigo - e é o que importa."
"Você nunca soube escolher o fácil, Gina." Sorriu, e sorriu ainda mais ao ver sua menina pronta para defender ainda mais sua opinião. "Não, eu não estou te repreendendo: eu me orgulho das suas escolhas. Pessoas que tomam decisões difíceis são fortes, e a minha filha é uma das bruxas mais fortes que eu conheço." A puxou para perto, beijando-a na testa como fazia quando a bruxa era pequena.
"Draco também é forte."
"Eu não duvido disso. Não vou dizer para tomar cuidado, mas vou avisar que se eu te ver chorando, a cara dele vai ficar muito pior do que hoje." Se divertiu com a filha revirando os olhos, murmurando alguma coisa sobre os bruxos serem todos iguais. Os pais eram - ela saberia disso um dia.
Esperava que o bruxo retribuísse com a mesma intensidade aqueles sentimentos, que não houvesse confundido toda a adoração que vira com desejo. Malfoys sempre desejavam o impossível. Estava prestes a despedir-se quando um objeto prendeu sua atenção, a jóia - pois a pedra envolta em prata era definitivamente uma preciosa - tendo ficado perceptível apenas agora.
"Onde você conseguiu esse colar?"
"Por que?"
Sabia que muitos bruxos odiavam o Malfoy mais novo, e esse era um dos motivos que o deixava verdadeiramente preocupado. Ginevra poderia muito bem vir a ser um alvo a partir do momento em que se colocassem públicos, havendo algo entre os dois. O bruxo sabia daquilo, o Ministério sabia daquilo, e por isso, a única exceção mágica na pena era quanto à artefatos de defesa.
"Está vendo essa esmeralda?" Arthur tentou tocar na pedra, mas era como se houvesse um campo ao redor, seus dedos nunca conseguindo tocar o verde. "Olhe bem para ela. Esta vendo que-"
"Ela está amaldiçoada?" A preocupação era tangível.
"Não, Gina." Suspirou, bruxo filho da mãe. Bruxo filho da mãe, que fez Arthur aceitar qualquer relacionamento em um mero segundo. "Isso é um feitiço de proteção - desses feitiços eu entendo." Então era verdade, e não sabia se agradecia ou ficava ainda mais preocupado ao descobrir que os sentimentos do rapaz era extremamente verdadeiros.
Em que outra situação Draco Malfoy se colocaria em risco, andando sem proteção e sem varinha?
Conseguiu ver o exato momento que, como ele, Ginevra entendera. Aquele não era um presente de Harry Potter, e o único bruxo com galeões o suficiente para ter posse de um objeto mágico desse porte era o que conversara mais cedo naquela tarde. O que tinha apanhado a ponto de fazer Arthur ter pena ao olhar para o rosto branco cheio de tonalidades roxas.
Por que Ginevra precisaria daquilo?
"Filha, você sabe que se estiver com qualquer problema-"
"Eu não estou. Eu não-" Sim, o mais jovem Malfoy realmente se importava com alguém que não ele, e Arthur vira o exato momento em que sua filha entendeu o que havia ao redor de seu pescoço. "Pai, eu preciso ir. Nos vemos no almoço de domingo, ok?"
Era assustador como ela sabia mais sobre as pequenas manias de Draco Malfoy do que algum dia notou as do bruxo que passara ao seu lado por tantos anos.
Sabia que o loiro sempre estava em casa nas sextas - provavelmente engolindo qualquer que seja a bebida escolhida para a noite. Sabia também que sempre era bem vinda, visto que as garrafas muitas vezes eram divididas entre os dois. E sabia que a porta da frente estava sempre destrancada. Queria azara-lo por aquele último hábito, no atual momento.
Ginevra não bateu antes de escancarar a porta, mal a fechando antes de rumar com passos largos para onde via Draco e uma taça de vinho branco. Ele a receber com um sorriso a desarmou por talvez dois segundos, mas a bruxa manteve os lábios retos e esperava que seu rosto denunciasse o quão irritada estava com a decisão que ele saberia daqui segundos que ela sabia.
"Escarlate, o que você-" Os olhos azuis mostraram surpresa, e então irritação ao vê-la tirar do pescoço seu dito presente de Natal. "Não, eu-" O jeito que ela forçou o colar de volta no pescoço do bruxo o fez ficar quieto, talvez pela primeira vez na vida.
Ginevra aproveitou para começar a falar antes do silêncio ser quebrado por ele.
"Por que você me deu isso? Você não pensa?" Ela estava brava. Não, mais do que brava, estava puta com aquela atitude que havia demonstrado todo o inexistente senso de autopreservação que o bruxo tinha. O viu enfim deixar os lábios tão retos quanto os dela, o cenho franzindo em irritação. "Você ficou um dia sem isso e-"
Seus olhos focaram em todos os roxos que ainda tomavam conta do rosto, e Ginevra precisou respirar fundo para não fazer um novo. Ao menos a vontade de soca-lo era maior do que a que tinha de beijar cada um dos machucados.
"Você está a semana toda-" Apontou um dedo para ele assim que o viu tentar devolver o pingente esmeralda. "Deixa isso no seu pescoço! Você tem o que na cabeça? Você acha que eu fiquei feliz em descobrir que você levou essa surra porque quis me dar algo que claramente precisava ficar em você?" Foi naquele momento que descobriu que era bom ver Draco Malfoy sem palavras. "Que merda, Draco! Por que você me deu esse colar?"
A quietude durou pouco.
"Porque eu sei o que aquele cara estava pensando enquanto se esfregava em você!" O loiro largou a taça que segurava, a voz firme e tão irritada quanto a dela. "E eu não quero que você saia com esse babaca sem-"
"Sabe o que ele estava pensando?" Estava prestes a perguntar que cara quando o bruxo continuou.
"Eu voltei pra merda da festa!" O viu passar as mãos pelos cabelos - era dor que ela via naqueles olhos? "Eu voltei, e você estava praticamente sendo engolida por sabe-se lá quem. Eu tinha batom no pescoço, mas também tinha uma boca no seu."
Mais irritação, que dobrou quando Draco virou-se para continuar o que fazia, Ginevra percebendo o quanto estava com fome, a cebola refogada soltando um cheiro que a fez lembrar todas as refeições puladas naquela sexta.
"Você foi embora." Quando enfim respondeu, a voz saía muito mais calma.
"Então teria sido comigo se eu tivesse ficado?"
Gritava sim em sua mente, grata pelo bruxo estar de costas e não ver seus olhos castanhos responderem a mesma coisa. O observou em silêncio, segurando toda a vontade que tinha de toca-lo. O bruxo mostrava ter muito mais habilidade na cozinha do que ela - e do modo trouxa. Talvez cozinhar não fosse tão diferente de preparar poções, afinal.
"Blaise e Pansy estão vindo jantar." Como o habitual, uma explicação vinha sem ela nem mesmo pedir, sem o bruxo nem mesmo a olhar. Perguntou-se se a frase era uma forma educada de manda-la embora ou um convite - e seu coração acelerou com ambas possibilidades.
"Por que você foi embora?" A voz saiu muito mais baixa do que a que usava ao chegar, Ginevra encostando-se no balcão onde fora posto o copo de vinho. "Por que você não queria ser visto comigo?"
Demorou uma eternidade para Draco se virar, acabando com a pequena distância que havia entre os dois em poucos passos.
"Porque eu não queria que te vissem comigo." A voz era séria, e o jeito que seus olhos azuis a fitavam era quase perigoso. Como andava acontecendo nos últimos dias, sentiu a boca seca e a pele hipersensível, seu cérebro falando para olhar para qualquer lugar menos para as órbitas cinzas azuladas, Ginevra não conseguindo obedecer. "Você ainda não entendeu?" Por um momento achou que a mão que ele levantava pararia em sua cintura, e seu coração somente continuou batendo por ela passar reto, alcançando uma toalha que descansava sobre o balcão. "Meu Merlin, você ainda não entendeu?" Via de relance ele limpar as mãos no pano, o segurando com mais força do que o necessário.
Ele também queria toca-la como se sua vida dependesse disso? Porque naquele segundo, Ginevra tinha certeza que morreria se ficasse mais um segundo longe. Queria aqueles lábios finos nos dela, e só a possibilidade fazia suas pernas ficarem fracas.
"Eu estou te dando todas as chances de manter o que a gente tem, e você insiste-"
"Eu não quero manter o que a gente tem!" Conseguiu ver o choque no rosto do bruxo quando enfim falou alto o que ambos pareciam dizer com cada ação feita naquela semana. Sua expressão deveria estar até pior, Ginevra sentindo a cabeça leve após registrar as palavras ditas. "Eu não quero manter só o que a gente tem." Não conseguia mais ficar quieta.
Sentiu a mão quente roçar por toda a extensão de seu braço direito, o toque parecendo deixar um rastro de fogo. Engoliu seco ao observar os olhos claros seguirem o caminho que sua mão traçava, os dedos deixando a pele sardenta ao chegar nos lábios. Não sabia que azul poderia ser tão quente.
"Eu estou com o rosto todo fodido. Com certeza passo longe de ser atraente com todos esses roxos na cara e meu novo calombo no nariz." Os olhos do bruxo queimavam tanto quanto o toque. "Por que você continua me olhando assim? O que você quer, Ginevra?"
Não soube de onde tirou forças para pronunciar a próxima palavra, que não passou de um sussurro.
"Você."
Dois passos, e Draco voltava para frente do fogão, a deixando paralisada em seu lugar. Graças a Merlin por ter as mãos cravadas no balcão, ou teria encontrado o piso da cozinha. Fechou os olhos, respirando fundo: ele faria de novo, o filho da mãe. Ele fingiria que o momento não existiu, e aquilo por si só a fazia imaginar tudo que poderia fazer com o bruxo para ela nunca mais sair de sua mente. Poderia ignora-la, mas não a esqueceria.
"Me prometa que não vai mais sair com aquele imbecil." O pedido veio com ele ainda de costas.
"Me prometa que vai usar o colar, e eu saio só com você." E a resposta fez o bruxo soltar um gemido frustrado, uma mão outra vez correndo pelos cabelos.
"Você é insuportável."
"Você adora quando eu sou insuportável, trouxa." o chamou pelo apelido que só ela usava, reunindo força suficiente para pousar a palma da mão nas costas cobertas pela camiseta.
O sentiu tremer, deixando-se desfrutar por um momento o quão quente o bruxo era, logo ele, que Ginevra descreveria como gelado nos tempos de colégio. Conseguia sentir o calor até mesmo por cima do tecido, assim como conseguia sentir o quão duros eram aqueles músculos. Claro que eram, ela sabia disso desde a última sexta, quando o viu seminu e o segurou bêbado durante uma noite inteira.
Conseguia ainda ver os arranhões que ele ganhara nas costas através da peça de roupa branca, e tomou cuidado para sua mão não passar sobre nenhum deles, ela descendo e descendo até chegar no cós do jeans azul claro.
"Nunca mais se machuque por minha causa."
Por um momento houve silêncio, o barulho que o bruxo fazia ao cozinhar cessando por completo. Quando Draco se virou, a expressão que vestia no rosto era uma de alguém que fora vencido. Um, dois passos, e ela outra vez era encostada na bancada. Suas mãos não mais seguravam o mármore, os dedos amassando a frente da camiseta do ex-sonserino que estava tão, tão perto.
"Você é uma das poucas pessoas pelas quais vale a pena se machucar." Ele começou, e Ginevra não sabia se era a mão que voltava a abraçar seu rosto ou os lábios tão próximos que faziam seu coração estar há batidas de explodir. "Se algum dia eu tiver que me machucar por você, eu vou." O bruxo admitiu com tamanha força que ninguém pensaria em contrariá-lo, enquanto os dedos longos acariciavam sua bochecha, e então a curva entre seu queixo e seu pescoço.
Era isso, era assim que iria ser. Ela prensada contra a bancada imaculada de mármore com a combinação de jeans e camiseta que aprendeu a adorar naqueles últimos meses. Suas mãos, apoiadas cada uma num dos braços musculosos do homem que tanto desejava, apertavam ainda mais o tecido que seguravam. Teve que morder o lábio inferior para evitar um gemido quando o sentiu colar o corpo duro contra o dela, controlando-se para não repetir agora a acusação de mais cedo. Permanecer imóvel nunca foi tão difícil.
Nada tocava sua boca.
"E se eu te beijar agora-"
Deixou-se enfim fechar os olhos, a última imagem sendo a dos lábios finos passarem tão perto e tão longe dos seus. Os sentiu em sua bochecha, e sim, eles eram até mais quentes do que as mãos que a puxavam pela cintura. Sabia que corava quando finalmente os sentiu em seu pescoço, arrancando-lhe enfim um gemido que fez as mãos do bruxo a puxarem de forma quase violenta. Não conseguia mais ficar parada, e arqueou os quadris contra ele quando sentiu-o sugar a fina camada que antes beijava.
Bruxos malvados tinham os melhores lábios, um dia lhe disseram. Agora acreditava.
"Ginevra, se eu te beijar, eu vou arrancar sua roupa no meio da cozinha, e foda-se que Pansy e Zabini estão me esperando do lado de fora." Seu corpo inteiro formigava, e sabia que só se mantinha de pé pelas mãos que a apertavam na cintura.
Quando Draco a olhou novamente, as pupilas dilatadas mostrando toda a verdade nas palavras ditas, o que mais queria era que o bruxo cumprisse a ameaça.
"Porque eu quero você. Eu quero te beijar aqui," Um dedo pousou em seus lábios entreabertos, descendo devagar até chegar na curva de seu seio. "Aqui," Draco continuou a explorar suas curvas quando, ao invés da bruxa recuar, ela o encorajou com um suspiro. "Aqui." A mão parou no cós de sua saia, como as dela pararam antes na calça. "E quando você não conseguir mais ficar de pé - porque você não vai, eu vou garantir isso," O bruxo a puxou forte pelo tecido verde, a fricção que o toque criava fazendo seu corpo responder mais do que deveria. "Eu quero levantar sua saia, enrolar suas pernas na minha cintura e fazer meu nome sair da sua boca como uma súplica."
Ginevra não sabia o quanto queria beija-lo até agora. E só agora realmente entendia que quando finalmente o fizessem, era um caminho sem qualquer volta - porque se ele parecia não conseguir parar em apenas um beijo, ela tinha certeza que não sabia quando exatamente conseguiria parar.
E ele mal a havia tocado. Sua boca estava seca, tão diferente de outras partes de seu corpo que pareciam traí-la e obedecer apenas aquela maldita voz. Não deixou de notar o olhar vitorioso do bruxo quando este a puxou pelos quadris mais uma vez, e Ginevra cumpriu a última parte da promessa ainda completamente vestida.
"Draco-"
"Draquiiiinhoooo!" Ele se afastou rápido demais, a deixando com um vazio assustador ao perder o toque que tanto precisava. O viu acabar com o vinho que havia na taça em um só gole, a enchendo e colocando na mão da ruiva.
"Fica." O pedido saía como uma ordem que Ginevra nunca negaria. Ficaria para a droga da janta, ficaria para sempre se ele assim quisesse, e detestou-se por todo o controle que ele parecia exercer sobre sua vontade.
Não confiava nas pernas para ficar de pé, e ele mal a tocara. Continuou apoiada na bancada, imitando Draco e esvaziando a taça. Quando os olhos azuis voltaram para ela, se mostravam muito mais gentis do que minutos antes, e o beijo rápido em sua bochecha a fez sorrir. Sentiu o corpo aquecer ainda mais ao sorriso ser retribuído.
"Você gosta de risoto?"
Nota da autora: Esse era meu capítulo favorito - até eu começar a escrever o próximo! Felizes com o finalmente quase beijo? O que estão achando? E o que estão esperando/não gostariam que faltasse?
Preciso não me perder muito ao escrever ou vou acabar de novo com mais de 30 capítulos. Espero que tenham gostado, e que o fds seja maravilhoso ;D
Beijo,
Ania.
