Doze
Eu estava deitada em minha cama com meus olhos abertos, tentando fitar a janela coberta pela cortina daquele quarto escuro. O som da chuva forte acompanhada pelo vento fazia os galhos secos da árvore bater em minha janela, causando um barulho desagradável ecoando pelo quarto. Mas diante daquele detalhe irritante, minha mente estava longe de tudo aquilo, excepcionalmente nos acontecidos daquele dia.
Eu tentava achar uma lógica cabível sobre a mudança repentina na cor dos olhos do senhor Uchiha. Eu tinha consciência de que a insistência de luz solar, flash ou claridade em excesso causava uma certa mudança de cor nos olhos. Mas isso não passa de uma ilusão de ótica, pois dava ao devido fato de quando a luz toca a íris e cria uma ilusão de olhos mais claros. Mas isso só acontecia com olhos azuis ou verdes, não com olhos pretos.
Aquilo era estranho, tão estranho quando àquela atração terrível que eu sentia por ele. Era agoniante o fato de todo o meu corpo reagir a qualquer movimento que o senhor Uchiha fazia. Eu me sentia envergonhada com aquele sentimento. Ele era o meu patrão. Ele era um homem sério e estranho. Ele era gostoso.
Talvez seja o fato de eu estar sozinha por muito tempo para me levar a ter sentimentos maliciosos pelo senhor Uchiha. Meu último relacionamento havia sido um fiasco. Eu deveria imaginar que meu ex Sasori não gostava tanto assim de mim como eu gostava dele, o que resultou em quase dois anos de minha vida jogados fora e um par de chifre na minha cabeça.
E agora eu me via atraída pelo meu chefe que gosta tanto de mim como uma mulher gosta de uma barata. Eu deveria fazer terapia em grupo para que assim eu curasse o meu dedo podre. Eu até podia me ver sentada naquele círculo de cadeiras ao lado daquelas pessoas e me apresentando pela primeira vez.
"Olá, eu sou Sakura Haruno. E eu sofro de Dedo Podre Agudo. Meu dedo escolhe a vítima e meu cérebro faz o resto, como achar que ele gosta de mim, mas na verdade tudo não passa de uma pegadinha da minha mente doente. E como se fosse pouco, meu dedo agiu de novo e ele aponta para a última pessoa que eu poderia me relacionar amorosamente. O meu patrão. "
Como se não bastasse todos os problemas que a minha amnésia tenha causado a mim, agora vinha meu coração me pregando pegadinhas. Para ser realista eu só permanecia naquela casa por causa de Sarada que havia intercedido por mim. Uma criança de sete anos que havia decidido meu futuro naquele emprego. Uma criança! E eu a amava de todo o coração, e algo me impedia, me travava caso pensasse na possibilidade de deixá-la. Só aquele pensamento fazia com que eu sentisse como se alguém tivesse enfiado a mão dentro do meu peito e arrancado meu coração. Era agoniante. Assim como era agoniante ver o senhor Uchiha agindo como um troglodita ditador com sua filha.
Não concordava em muitas atitudes que ele tinha, era radical demais. Eu tenho consciência de que sou uma simples babá, não tenho o direito de interferir na criação do filho dos outros, mas não conseguia ficar só olhando injustiça que ele fazia com a menina. E para mim a palavra Pai era só nome para ele, e aquela linha de pensamentos seguiu até o final daquela tarde quando subi até o quarto de Sarada e chamá-la para descer e comer um lanche da tarde quanto retesei na porta entreaberta quando escutei vozes lá dentro.
Era o senhor Uchiha conversando com Sarada, e a forma que ele se dirigia a ela era com ternura e carinho. Aquilo havia me pego de surpresa, me fazendo sentir uma tola por repreendê-lo mais cedo sobre seu comportamento. Ele era o pai, era óbvio que amava sua filha, como era óbvio a sinceridade em suas palavras quando conversava sobre sua decisão de não permitir de ela sair mais de casa.
- Agora você entende por que não pode sair de casa?
Olhei pela fresta da porta e tive o vislumbre de suas costas dele para porta, sentado na cama de frente para Sarada.
- Entendo – a voz dela saiu baixinha, enquanto fitava algo no colchão.
O senhor Uchiha levou a mão e afagou o rosto dela, fazendo seus olhos erguerem para ele.
- Eu a amo, mica mea arahide. Você é a coisa mais preciosa na minha vida.
- Então não me deixa mais sozinha.
- Nunca vou deixá-la.
- Eu te amo, papai.
- Também te amo, Prinţesă.
- Também amo a babá Sakura.
Sorri enquanto mordia o lábio. Eu também te amo, meu amor, pensei.
- Você gosta mesmo dela? – O senhor Uchiha perguntou, e pelo seu tom ele parecia curioso pela resposta.
Sarada apenas assentiu com a cabeça.
- Sim. Ela cuida de mim, conta histórias e faz biscoitos e brinca comigo de chazinho.
- Perdoe o seu pai por mandar ela embora.
Agora eu estava surpresa com aquela declaração.
Sarada ficou alguns segundos em silêncio, e pela sua expressão estava pensando em algo.
- Eu queria que ela fosse a minha mamãe.
Todo o meu subconsciente parou, assim como minha respiração. Meus olhos arregalaram diante daquela confissão, fazendo meu coração explodir em batidas desenfreadas. Sarada me considerava tanto assim ao ponto de me igualar a sua mãe, e aquilo mexeu de verdade comigo, ao ponto que tive de me segurar para não entrar naquele quarto e pegá-la nos braços e enchê-la de beijos
- Você... queria...? - A voz do senhor Uchiha parecia surpresa e ao mesmo tempo cautelosa.
Eu não consegui ficar mais ali e ouvir a resposta da menina, meu interior estava em um turbilhão de emoções, assim como lágrimas escapavam por meus olhos enquanto saía com passos apressados daquele corredor. Era como se algo que havia sido tirado de mim a força estivesse voltando a até mim aos poucos.
Sarada não comentou sobre sua conversa com seu pai, e me senti uma enxerida por bisbilhotar um momento íntimo de família. Eu era a intrusa ali.
Me virei novamente naquela pequena cama de solteiro, ficando agora com a cara virada para a porta. Estava difícil de dormir, meu cérebro não queria dar o descanso que precisava e minha mente vagou para outro tópico; O homem que havia aparecido de repente na pracinha.
Apesar dele ter alegado que me conhecia e demonstrado surpresa por me ver com vida e mencionado minha quase morte – que eu não me recordava – havia me deixado surpresa, assustada para falar a verdade. Depois de meses sem minhas memórias e ter perdido quase todas as esperanças de tê-las de volta, como um passe de mágica aparece alguém que parecia ter as respostas, havia me deixado com medo. Medo por descobrir algo que todos faziam questão de me esconder.
Será que era tão grave assim? A verdade era tão ruim ao ponto de minhas amigas fingir ignorância para comigo, e meus pais fazendo vista grossa ao fato de sua única filha desmoronar em desespero ao ponto de fugir de casa? O que diabos eu havia feito de tão grave para ter aquele tipo de punição? Será que a verdade iria me libertar de meu tormento psicológico ou iria me levar para o fundo do poço?
Aquela dúvida estava me corroendo por dentro, fazendo-me pensar pela primeira vez se a verdade era a coisa certa para mim.
De repente a porta do meu quarto se abriu devagarinho, forcei minha visão para focar numa pessoinha que colocava a cabeça para dentro.
- Sarada?
- Você está acordada?
- Estou – e fiquei sentada, ligando a luz do abajur e tendo o vislumbre dela em pé no portal com aquela camisola branca que ia até os pés. – Aconteceu alguma coisa?
- Eu posso dormir aqui?
- Pode – sorri, e ela adentrou mais o quarto, fechando a porta e vindo até a minha cama. – Seu pai pode brigar com você por dormir no quarto dos empregados.
- Mas eu gosto de dormir com você – e subiu na minha cama e adentrou os meus lençóis e abraçando a minha cintura.
Beijei sua cabeça, lembrando da sua confissão, fazendo meu peito palpitar com aquele sentimento novo. Não demorei para cair no sono, como se Sarada fosse o que faltava para deixar minha consciência em paz.
. . .
Acordei no meio da noite com batidas em minha porta. Remexi-me naquela pequena cama, sentindo algo me impedindo, os braços de Sarada estava em volta de minha cintura enquanto dormia profundamente. Tirei delicadamente seus braços de cima de mim para não a acordar e levantei-me da cama e abri a porta encontrando o senhor Uchiha. Foi inevitável controlar o frio em meu estômago e a ficha caindo, tendo consciência de que Sarada estava em meu quarto.
- Senhor Uchiha – minha voz saiu baixinha, fitando seu perfil, percebendo que apesar do horário bem tarde ele estava vestido com roupas formais, como se fosse sair ou estivesse vindo da rua.
Seu olhar desceu por meu corpo, pouco indiscretamente, me fazendo sentir-me envergonhada por estar usando pijamas com estampas nada discretas para minha idade.
- Sarada está aí?
- Ah... está sim – minhas mãos começaram a soar e seu olhar encontrou o meu. – E-Ela apareceu a noite pedindo para dormir aqui e... desculpe, mas eu acabei cedendo...
- Essa menina – ele me interrompeu. – Vou ter uma conversa com ela.
E foi num ato impulsivo que segurei seu braço.
- Por favor, senhor, não brigue com ela. A culpa foi minha por permitir que ela ficasse no quarto de empregados.
Seu olhar que estava em mim desceu para minha mão segurando-o, seu corpo havia enrijecido de repente. E foi aí que caí na real, soltando seu braço rapidamente, sentindo meu rosto ficar vermelho.
Idiota! Amaldiçoei-me internamente.
- Perdoe-me.
- Tudo bem, senhorita. – Seu rosto era sério enquanto fitava-me com aqueles olhos negros como aquela noite fria e chuvosa.
- Cla-claro – era até incrível o fato de sempre gaguejar quando estava perto dele.
Abri mais a porta e dei espaço para ele adentrar mais o quarto e ele passou por mim, deixando o rastro de seu perfume único invadir cada poro do meu corpo. Eu gostava daquele cheiro, foi tudo o que minha mente conseguiu produzir.
Quando minha consciência resolver voltar daquele mundinho de devaneios eu pude ver o senhor Uchiha parado ao lado da cama de solteiro, olhando Sarada totalmente espalhada, ocupando todo o pequeno espaço enquanto dormia.
- Desculpe por ela ocupar todo o seu espaço.
Mordi o lábio rapidamente e me aproximei, ignorando todos os sinais de que meu corpo era vulnerável a sua presença.
- Ela é um anjinho ressonando.
- Sim.
Fitei seu rosto com a pouca iluminação que adentrava pela porta aberta e não consegui evitar o pequeno sorriso surgir na minha boca.
- Gosto muito dela – comentei, segurando meu braço direito.
- Ela também gosta muito da senhorita – ele respondeu para em seguida pegar delicadamente Sarada em seus braços. Ela apenas respirou fundo e se aconchegou em seu colo. – Mas a senhorita deve estar ciente a esse detalhe – e me fitou – já que estava escutando a nossa conversa atrás da porta.
Senti meus olhos arregalarem e meu corpo travou.
Ele sabia.
- Ah... senhor... – e novamente eu gaguejava miseravelmente, tentando arrumar uma desculpa qualquer, sabendo que não havia desculpas para aquele ato. – Eu não... foi sem querer.
- Boa noite, Sakura.
Ele apenas havia me ignorado e saiu do quarto com passos rápidos e fechando a porta em seguida.
Eu permaneci no mesmo local, rígida, fitando algo invisível na escuridão do quarto. Soltei todo o ar de uma vez depois que senti o ardor em meus pulmões, não havia percebido que havia prendido a respiração. Mas aquilo havia sido detalhes que mais tarde eu me descabelaria, o que realmente havia me deixado estática foi o fato do senhor Uchiha ter me chamado pelo meu primeiro nome.
Sakura.
Sua voz penetrava em meu subconsciente e forçava a barreira de minha amnésia e arrancava aquela sensação de que não era a primeira vez que aquela voz cantava o meu nome.
. . .
Acordei super cedo naquela manhã, não consegui dormir direito depois que o senhor Uchiha havia saído do meu quarto, e as pequenas cochiladas eu só tive pesadelos.
Como eu tinha tempo de sobra antes de Sarada acordar para ter aulas com o senhor Hatake, resolvi fazer alguns bolinhos taiyaki e leite achocolatado para seu café da manhã. Uma hora depois eu estava com um prato com cinco taiyaki e agora só faltava preparar o leite achocolatado.
Enquanto abria uma gaveta para pegar pano seco para terminar de limpar a cozinha, meus olhos desviaram para a misteriosa porta de madeira que sempre se permanecia fechada. Era inevitável não me sentir curiosa sobre o que havia ali dentro, mesmo Karin deixando-me claro que não era da minha conta, o que de fato não era. Mas era praticamente impossível não imaginar o que poderia haver ali de tão secreto que tinha que ser mantido trancado a sete chaves.
- Senhorita Haruno – a voz de Karin junto com o som de seus passos desviou minha atenção para seu perfil aparecendo naquela cozinha.
- Bom dia, Karin. – Sorri, comprimindo um pouco meus lábios.
- Bom dia – respondeu daquele seu jeito milimetricamente robotizado. – Apenas vim informá-la que Sarada não terá aulas hoje.
Ergui minhas sobrancelhas.
- Por quê? – Virei meu corpo todo para ela. - Aconteceu algo?
- O mestre Uchiha dispensou os serviços do professor Hatake. A partir de hoje ele não trabalha mais aqui.
A surpresa estava estampada na minha cara agora.
- Como assim? Quem vai ensinar a Sarada agora?
- O próprio mestre quando ele ajustar seu tempo com o trabalho.
- Não entendo – comentei, franzindo o cenho.
Primeiro ele proíbe a menina de sair de casa, e agora demiti o senhor Hatake? Esse cara era um lunático?
- Não é para entender, senhorita Haruno. – Ela respondeu com aquela calma e descaso que irritava. - Apenas siga as ordens dadas.
- Ok.
O que diabos estava acontecendo afinal?
Depois de Karin ir embora, eu fiquei um tempo tentando achar uma lógica para as atitudes do senhor Uchiha, mas tudo não parecia ter pé nem cabeça. Eu não estava entendendo mais nada.
Depois de mais meia hora, resolvi ir até o quarto da Sarada e para minha surpresa ela estava acordada, puxando a mesa cor-de-rosa do chazinho para o meio do quarto.
- Você já está acordada?
Ela virou seu rosto para mim e sorriu.
- Sim – e parou o que estava fazendo, e adentrei mais o quarto. - O papai veio aqui e disse que não vou ter aulas hoje.
- Então você está sabendo.
Ela assentiu com a cabeça, parecia mais feliz com aquele detalhe.
- Foi ele que me trouxe para o quarto – ela mudou o assunto -, e disse para eu não ficar incomodando você de noite.
- Você não me incomoda, meu amor. – Passei a mão em seu rosto.
Ela sorriu.
- Então eu posso ir dormir com você essa noite?
- Seu pai vai acabar brigando com você. E aliás, sua cama e maior e mais confortável que a minha.
- Mas eu gosto de dormir com você, é bom, e eu gosto de sentir o seu cheiro.
Não consegui aguentar o impulso e a abracei, e Sarada retribuiu meu abraço.
- Eu te amo – disse baixinho.
- Eu também te amo.
Sorri, tomando consciência de sua cabeça estar ultrapassando a altura de meus seios.
- Nossa – coloquei minhas mãos em seus ombros e afastei um pouco de mim para poder ver melhor o seu perfil -, você cresceu.
Parando para pensar melhor, quando cheguei nessa casa algumas semanas atrás ela era uns cinco centímetros a menos do que está agora, e os cabelos também estavam um pouco maiores, tocava os ombros.
Sarada me respondeu com um sorriso aberto, mostrando todos os dentes.
. . .
Depois de passar a manhã inteira pensando sobre saber ou não a verdade, tomei uma decisão. Não podia bancar a covarde agora, eu quis tanto descobrir o que realmente havia acontecido comigo que agora não poderia dar para trás, não quando as respostas estavam mais perto do que nunca esteve. Eu tinha por minha própria conta buscar minhas respostas e aquele cara poderia me ajudar.
Como Sarada não tinha aulas hoje, eu havia brincado com ela amanhã toda, e organizado várias coisas suas e adiantado outras, como sua alimentação. Não havia visto o senhor Uchiha, mas soube por Karin que ele estava em seu escritório.
Buscando coragem e ignorando a vergonha que senti ontem a madrugada por saber que eu havia sido pega bisbilhotando algo que não era de minha conta, bati na porta do escritório do senhor Uchiha no meio daquela tarde. Não demorou para escutar sua voz soar de dentro do cômodo para entrar. Levando a mão na maçaneta redonda e dourada abri a porta, revelando o meu patrão sentado em sua cadeira de couro atrás de sua mesa de madeira escura e brilhante.
- Senhor Uchiha – chamei sua atenção, fazendo sua cabeça erguer e seus olhos negros me fitar.
- Precisa de alguma coisa, senhorita? – Ele fez um sinal para eu me aproximar.
Todo o meu interior tremia em nervosismo diante de seu olhar penetrante em mim. Umedeci meus lábios discretamente e repreendi a vontade de segurar minha saia rodada para secar minhas mãos soadas.
- Eu vim pedir permissão para o senhor me liberar essa tarde. – Minha voz soou lenta, eu estava no controle para não gaguejar. - Tenho que resolver um assunto pessoal.
Ele arqueou as sobrancelhas, e suas costas se acomodaram na cadeira.
- Você quer sair da casa hoje?
Assenti com a cabeça.
- Vai ser rápido, e já adiantei muitas coisas na rotina da pequena Sarada. Eu volto antes de escurecer, prometo.
Ele me olhava por alguns segundos em silêncio, deixando-me desconfortável.
- A senhorita está com o celular?
Pisquei algumas vezes, estranhando sua pergunta.
- Sim.
- A senhorita pode me emprestá-lo por um segundo? – E estendeu a mão.
- Cla-claro – gaguejei, levando a mão no bolso da saia e pegando o aparelho e estendendo para ele. - O que o senhor vai fazer?
Ele não respondeu, apenas apertou o botão de desligar e desligou meu aparelho. Abriu a gaveta que havia ao lado esquerdo de sua mesa e o jogou lá dentro.
Franzi o cenho, incrédula.
- Mas o que o senhor está...?
- Seu celular está confiscado – ele me interrompeu, fitando-me de um jeito sério -, e a senhorita está proibida de sair desta casa.
- O quê?
