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Backup encontrado, recuperando histórico de conversa

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Quando entrou no quarto, Kakashi viu a moça tirar o celular do ouvido de maneira contida. Ele a observou por um segundo, sentada em meio aos lençóis, com seu rosto pesaroso enquanto o olhava. Sakura desviou o olhar de maneira vaga num movimento muito sutil. Parecia abatida de alguma forma, como se estivesse sendo consumida pouco a pouco por algo dentro de si.

Engoliu a seco lembrando das palavras de Ino. Talvez aquela melancolia fosse sua preparação para o fim forçado devido as circunstancias, causando essa estranheza entre eles que era tão sem sentido, porque, apesar de tudo, Kakashi se sentia aliviado em vê-la bem, ainda que a expressão dela não fosse de alguém que se sentisse dessa maneira.

As coisas vão mudar.

Ino tinha lhe dito de maneira bem direta, e não precisava ser nenhum gênio para saber quais coisas iriam mudar. Sakura ia mudar. Seu relacionamento iria mudar. Sua rotina e tudo mais que envolvia Sakura em sua vida mudaria de uma forma ou de outra. Se escolhesse ficar tudo iria mudar, e se resolvesse sair, as coisas mudariam ainda mais radicalmente.

Ele deu alguns passos na direção dela, incerto sobre toda a situação. Ino não lhe disse muita coisa e tinha cara de quem não ia falar nada sem a devida permissão de Sakura. Tudo bem, elas tinham esse tipo de amizade e era incrível, mas ao mesmo tempo ele queria saber o que estava se passando para transformar a pessoa radiante que era sua namorada em alguém tão séria e sorumbática como estava agora.

A mulher não se mexeu. Continuou olhando para algum lugar em meio aos leçóis enquanto ele sentava na cama ao seu lado, fazendo o colchão se mexer ao receber seu peso. Daquela distância ele podia enxergar com clareza seus olhos inchados e nariz avermelhado. O choro deixava seus sinais de maneira muito explicita, fazendo-o lembrar da expressão dela enquanto o enxotava de casa desesperadamente.

Ela tem medo que algo aconteça a você.

Era estranho saber que tinha corroborado para o sofrimento dela dessa maneira. Seria ele tão fraco a ponto de ser uma pessoa vulnerável à quem quer que fosse Sasori? A verdade é que Kakashi sabia que não se tratava de força, mas sim do que ele tinha feito a ela e de como isso a afetava em suas relações, fazendo com que ela se preocupasse até mais com a segurança dele do que a dela, meio que deixando implícito que ele era a fraqueza dela.

Pudera! Diante de tudo aquilo, Kakashi não pode fazer absolutamente nada. Foi um completo inútil. Era natural relacioná-lo a um ser fraco quando ele não pode sequer levantar um dedo para ajudar, deixando tudo por Yamanka Ino que se resolveu tudo como se tivesse uma varinha de condão de milhões de ienes.

E não, não estava com ciúmes ou inveja de Ino e sua facilidade em lidar com as crises de Sakura, na verdade o único sentimento que lhe invadia com relação a Ino era de gratidão. Era eternamente grato à ela por tudo, porque desde o início seu relacionamento jamais aconteceria sem a mão empoderada da mulher, sem o incentivo dela e seu conhecimento de Sakura.

Mas isso não significava que ele não podia se apoiar nela para tudo, afinal, diante daquela mulher que havia lhe conquistado de corpo e alma, Kakashi sentia que queria protegê-la. Sentia com cada músculo de seu corpo enquanto buscava o corpo pequeno da moça, enquanto a puxava para si num abraço tão necessitado, Kakashi sentia que precisava mantê-la segura.

Ele a segurou contra seu peito e não encontrou nenhuma resistência. Os braços da mulher lhe adornavam e rapidamente se aconchegou na curva de seu pescoço. Ela repousava ali como se fosse um pássaro em seu ninho, e Kakashi a mantinha quente e cativa em sua mais pura necessidade de senti-la consigo, com suas mãos delicadas, com seu cheiro adocicado, com seus cabelos longos, seus sons e todo o resto.

— Me desculpe – Ele disse de maneira sofrida, como se tivesse um peso esmagando tudo dentro de si — Meu amor, me desculpe – Pediu novamente muito mais sôfrego, muito mais intenso.

E Sakura o abraçou mais forte, porque sabia que ele estava se torturando com tantas coisas. Porque sabia que ele era o tipo de homem que move montanhas quando necessário, e sabia que ele o faria por ela assim que ela pedisse, assim que ela precisasse, mas ao invés disso, Sakura estava o afastando, porque a muito tempo ela não tinha alguém que fosse tão sublime a ponto de fazê-la sentir-se única.

— Você não tem culpa de nada – Disse sem soltá-lo, ainda se mantendo firme naquele abraço, recarregando as energias enquanto confortava a si mesma na aura sincera de Kakashi.

Ela não queria ter que se afastar dele, não queria ter que deixa-lo. Sakura queria viver ao lado dele, e tudo bem que fazia apenas um mês, tudo bem que antes era apenas coisa de internet, mas ainda assim, Sakura sentia que podia construir algo verdadeiramente duradouro, porque era assim que Kakashi a fazia se sentir, como se o que tivessem fosse um prédio construído para durar mesmo nos mais intensos dos terremotos.

Mas era algo tão bonito e importante que Sakura não queria arriscar.

— Eu não consegui fazer nada. – Ele disse depois de um momento, afastando-se milimetricamente — Você precisou de mim e eu não pude estar com você. – Disse de maneira sincera enquanto olhava naqueles olhos verdes tão gentis.

Sakura sorriu de maneira breve ao levar as mãos ao rosto dele. O acariciou ali por um momento, tentando transmitir a ele algo de bom, ainda que não estivesse certa sobre o rumo que as coisas tomariam dali por diante.

Ele a abraçou novamente enquanto ela fechava os olhos para sentir cada centímetro de sua pele tocando a dele. Se deixou levar pela sensação enquanto praticava algo como meditação, deixando sua mente fluir para onde quer que fosse encontra se concentrava unicamente naquele abraço, porque era tão estranho como apenas com um gesto Kakashi pudesse preenchê-la com boas sensações.

Mais ainda, era incrível como deixar os pensamentos fluírem poderia lhe levar a lugares tão inusitados. Riu brevemente com a lembrança em que acabou parado, no dia em que ele apareceu no refeitório da medicina e sentou-se ao seu lado como se fosse algo tão costumeiro. Naquele dia eles só conseguiram se ver naquele exato momento, pois tinham tantas coisas para fazer, mas mesmo assim Kakashi foi até ela dizendo que precisava apenas de 5 minutos de seu tempo para sentir que o dia tinha valido a pena.

Kakashi tinha feito uma vida valer a pena.

Se afastou brevemente, dessa vez com o humor um tanto melhor. O olhou com ternura, porque ele não precisava se torturar daquela maneira. Ele não sabia o que estava acontecendo e não sabia o que deveria fazer. Sakura sabia que não era uma pessoa fácil nesses momentos, mas ele com certeza era a primeira pessoa que se sentia tão mal por não poder ter feito mais, sem saber que só de ter ficado já era uma grande ajuda.

— Tá tudo bem, Kakashi – Disse tentando seu melhor sorriso, vendo-o concordar brevemente — Eu que não deixei você fazer muita coisa. Quando esses ataques vêm, minha mente fica bem confusa e eu acabo fazendo e dizendo coisas estranhas – Deu os ombros sentindo, de repente, vergonha de como agiu.

— Eu fiquei realmente preocupado – A voz dele era séria enquanto seus olhos se encontravam — Pensei em quebrar a porta – E riu brevemente enquanto ela balançava sua cabeça com humor.

— Obrigada por não quebrar a porta – Ela respondeu com aquele sorriso mais fácil, porque era tão estranho como Kakashi conseguia melhorar seu humor. Se olharam por mais um longo momento e ambos viam um no outro que as coisas eram mais fáceis quando estavam juntos. — Nós precisamos conversar. – Ela disse antes de morder o lábio inferior ao olhá-lo confirmar com a cabeça.

— Eu sei – Respondeu sem desviar seu olhar.

Não disseram nada por um longo momento e sequer sabiam o que se passava um na cabeça do outro. Se permitiram ficar ali compartilhando sua energia através do olhar enquanto consideravam tantas coisas dentro de si até que ele a ofereceu sua mão. Sakura sorriu segurando-a de maneira gentil e de alguma forma ele sabia de absolutamente tudo. Através daquele toque, Kakashi soube imediatamente que ela o amava sem nenhuma dúvida, sem nenhum temor.

Ela trouxe a mão dele para perto de si, abraçando sua mão e todo aquele gesto antes de lhe falar as coisas práticas que precisava sentindo-se um pouco melhor. Tinha ligado para Tsunade que estava bêbada demais para tomar qualquer decisão prática que não fosse mandar alguém buscá-la. Disse a Kakashi que iria passar a noite na casa da mulher, sua madrinha, porque não podia ficar naquele apartamento e não ficaria na casa dele se isso representasse algum risco.

No final das contas, Tsunade morava no condomínio onde Hinata morava. Um local completamente protegido com segurança de alto nível, era quase impossível que algum maluco conseguisse atravessar aqueles muros. Além disso, Sakura havia prometido a Tsunade que se qualquer coisa acontecesse, ela iria procurá-la imediatamente, e sendo assim, não havia outra alternativa.

Preparou uma bolsa com algumas roupas, colocando algumas de Kakashi no processo porque ele tinha dito muito claramente que não podia sair de perto dela. No final, ele ainda parecia tão assustado com tudo que Sakura simplesmente não conseguiu dizer a ele que fosse para casa e aceitou sua companhia de bom grado, porque também sentia que não queria ficar só.

Ino e Genma os acompanharam até o condomínio. A mulher em seu Saab e Genma no Honda de Kakashi, que foi junto a Sakura no carro preto enviado pela madrinha dela. Kakashi não saiu de perto dela por um minuto sequer, também não reparou na casa de arquitetura moderna onde entraram, com tantos móveis chiques e espaços abertos.

Ele apenas seguiu Sakura que andava pelos cômodos com uma naturalidade de quem estava acostumada a estar naquele ambiente. Entraram num quarto amplo que provavelmente era até mesmo maior que o dele, e encontrou um segundo quarto de Sakura ali, com fotos por todos lados em porta-retratos. Era tudo em tons de dourado e rosa chá, como se tivesse sido decorado para uma garota aos seus dezesseis com síndrome de princesa.

A risada veio contida quando ela o olhou tímida com as bochechas rosadas, é claro que estava morrendo de vergonha do quarto que tinha, mas ele resolveu poupá-la das piadas que normalmente faria enquanto se sentava numa poltrona no canto do lugar, olhando-a jogar sua bolsa no chão enquanto se jogava na cama em meio à colcha que cobria seu colchão.

O suspirou chegou num misto de alivio e cansaço. Era assim que ela se sentia depois de tudo. Tomou um momento para se concentrar na sua própria respiração enquanto se deixava confortável na cama antes de simplesmente olhar para ele num claro convite para se aproximar. O homem se sentou ao lado dela, que ergueu o tronco para ficar no mesmo nível que ele. Havia um silêncio confortável entre eles, mas ao mesmo tempo também havia uma necessidade implícita ali.

Sakura não podia adiar, por mais que quisesse. Ela precisava contar tudo para ele, não para que ele decidisse por algo, mas para que ele entendesse seus motivos, porque era óbvio que ele jamais iria embora se não pudesse entender o que estava acontecendo. Com esses pensamentos, o clima pesou entre eles. O maxilar tensionado do homem evidenciava que já sabia o que estava por vir.

Ela abaixou a cabeça com uma risada sem humor, olhando para suas mãos enquanto cutucava uma unha qualquer. Não sabia como começar ou o que dizer. Não sabia sequer como faria aquilo sem que ele a achasse tão suja, sem que ele percebesse o quão miserável era. Mordeu o lábio sentindo-o ali ao seu lado, olhando para ela e não sabia dizer o que aconteceria quando verbalizasse tudo aquilo.

Sakura.

Sorriu ao ouvir seu nome daquele jeito, ainda com a cabeça baixa, percebendo como era estranho que seu nome sempre soasse tão aveludado na voz de Kakashi, como se fosse sua palavra favorita de alguma maneira, como se fosse um nome tão doce. Mesmo diante daquela situação, mesmo diante de tudo, Kakashi ainda conseguia dizer seu nome daquela maneira.

Kakashi. – Ela respondeu virando seu rosto na direção dele num gesto singelo. O olhou por um momento enquanto de alguma forma o sentia dizer que estava tudo bem.

— O que aconteceu? – Ele perguntou diretamente, quase como se estivesse tentando ajudá-la a começar o que obviamente era algo tão difícil — Quem é Sasori?

— Sasori... – Ela repetiu antes de dar um longo suspiro, jogando seu corpo para trás e olhando o teto, tentando organizar suas memórias de um jeito que não a afetasse enquanto elaborava uma fala — Bem... Sasori é meu ex namorado. – Disse de maneira simples, e parecia estar falando de qualquer outro — Ele é um cara que eu conheci numa viagem que fiz com Ino para Tóquio. Era nossa primeira viagem sozinhas e nós estávamos tão animadas.

Explicava aquela parte com um sorriso nos lábios, pura nostalgia. Aquela viagem tinha sido um presente para as duas, seu aniversário de dezoito estava perto e Yamanka Inoichi as tinha dado essa viagem de uma semana no hotel mais luxuoso de Tóquio, uma suíte master no topo de um prédio chique bem no meio da cidade.

Tinha sido uma semana surreal, e estavam prestes a entrar na faculdade como calouras de medicina. Era quase como uma viagem de formatura. Elas foram a vários locais, festas, bares, shows... Aproveitaram para provarem bebidas exóticas, encheram a cara com drinks baratos, comeram comida da mais alta classe enquanto festejavam com os esquisitões dos bairros menos favorecidos.

No último dia, entretanto, Ino e Sakura acharam um bar obscuro num beco em Akihabara. Todo mundo sabia que Akihabara à noite era um local um tanto inóspito, mas havia quase que uma lenda sobre esse bar e suas festas loucas e tudo soava como a festa que elas não podiam perder, porque seria aquela história que elas contariam a todos quando voltassem.

Sakura lembrava de tudo em flashes. Já fazia tanto tempo e parte de si tinha feito questão de apagar algumas coisas. As luzes neon, as perucas coloridas, a maquiagem forte e os saltos plataforma que usaram. De alguma forma, o cheiro do gelo seco se fazia presente em suas lembranças sempre que pensava naquela noite. A música era tão alta que chegava a ser ensurdecedor, mas ao mesmo tempo havia aquela sensação de liberdade.

Dançaram como se seus corpos dependessem disso para viver, e Ino que sempre foi muito mais descolada e viva, logo arrumou um paquerinha na noite. Um homem que parecia não ter mais de 20 anos e não parava de olhar para ela, e é claro que Ino foi atrás dele, dizendo a Sakura que esperasse um minutinho. Sakura só continuou dançando como se não houvesse amanhã, e não estava bêbada apesar dos dois drinks, mas sentia como se o corpo já estivesse tomado por todo o ambiente.

Foi quando ela percebeu, no bar, aquele homem escorado de cabelos vermelhos e olhar castanho, vestido numa camiseta preta meio puída com um ar de superioridade enquanto a mirava como se estivesse vendo muito interessante. Num primeiro momento ela se sentiu constrangida, mas logo percebeu que não precisava se sentir assim.

De alguma forma, Sakura conseguiu ler o olhar dele em meio as luzes e pessoas. Era um misto de perigo e lasciva, algo inquisitivo. Não sabia dizer se tinha sido a bebida ou seu juízo fraco, mas pensou que poderia ficar com ele naquela noite, porque não tinha nada melhor para fazer. Era só um cara numa noite, faria como Ino fazia sempre, usando e descartando.

Só que Sakura não era Ino.

Sakura não ficava com ninguém desde Sasuke. Na verdade, Sakura sequer sentia interesse por qualquer pessoa depois do seu relacionamento fracassado, então quando ela se viu considerando ficar com aquele desconhecido no bar, algo soou como acaso.

Posso te pagar uma bebida?

Lembrava da voz dele, alta demais para sobrepujar a música. Não lembrava se tinha dado algum sinal, mas de alguma maneira ele tinha tomado coragem para abordá-la. Na época, Sasori era um dedo mais alta que ela, e naqueles saltos ela precisou se abaixar para escutá-lo, mas dane-se se ele era baixinho, porque ele parecia prometer muita coisa com apenas um sorriso.

Antes tivesse negado, mas naquele momento ela só pensou em dar uns beijinhos e por isso aceitou. Tomou aquele cosmopolitan que havia virado sua bebida cativa nos bares da cidade, porque era tão gostosa de alguma maneira. Foram para algum canto no bar, se beijaram loucamente e Sakura achava que estava arrasando, mas no fundo sabia que sua falta de experiência no assunto a deixava vulnerável.

Mas Sasori era tão paciente. Sakura lembrava dele parando no meio do beijo para lhe dizer que tivesse um pouco de calma, e apesar do constrangimento, ele parecia tão bem humorado, tão certo do que estava fazendo que a moça se deixou levar, de novo e de novo... Até que ele a chamou para ir ao seu carro, e por algum motivo desconhecido, Sakura sentiu que podia fazer qualquer coisa ali.

— Ele foi o meu primeiro. – Disse olhando para Kakashi com os ombros encolhidos. Não sabia exatamente porque tinha dito aquilo, mas sentia que era uma informação que precisava ser dita. Kakashi continuava a olhar e seu semblante não era dos mais tranquilos, mas mantinha uma expressão contida que a ajudava a continuar de alguma forma. — Eu não sei onde eu estava com a cabeça, mas eu só deixei me levar naquela noite.

Sim, porque foi tudo tão bizarro. No banco traseiro de um carro velho, Sakura se deixou levar por Sasori, que não hesitou nem por um segundo enquanto a beijava de forma intensa, revelando cada centímetro de sua pele, possuindo-a de uma maneira que nenhum outro jamais o fez.

Não que Sakura estimasse demais sua primeira vez, mas era um fato que ela esperava que fosse especial e de alguma maneira ela sentia que tinha sido dessa forma. Ino sempre lhe disse que a primeira vez é superestimada, o melhor, segundo a loira, vinha depois. Talvez fosse esse pensamento que tomou conta de si enquanto suspirava sobre o toque de Sasori.

Diziam que a primeira vez era algo inesquecível, mas Sakura lembrava de muito pouco. Sequer sentia alguma coisa quando pensava naquilo daquela maneira. Era tão abstrato, tão longínquo. Lembrava que Sasori tinha sido legal, que usaram camisinha, que tinha sentido coisas que nunca sentira antes e que foi bom. Era isso.

Depois de tudo, Ino e Sakura voltaram para Kyoto cheias de histórias. Ino sequer acreditava na primeira aventura sexual da amiga, e elas ficaram comentando disso por dia entre as risadas e o tom vermelho que seus rostos assumiam, porque sexo era quase como um tabu na época. E pensar que agora falavam disso como se estivessem combinando de comprar roupas.

De toda forma, o tempo passou. E depois de algumas semanas, absolutamente do nada Sasori surgiu em Kyoto. Ele a tinha encontrado através de Ino, que estava começando a reunir milhares de seguidores em sua rede social enquanto se tornava uma bloguer de sucesso. Sakura não podia dizer que não gostou. Ficou pensando em Sasori por dias, então quando ele apareceu na sua frente tudo soou como um conto de fadas.

— Dai eu descobri que ele trabalhava em Akihabara como caça talentos – E deu uma risada sem nenhum humor — Nos trocamos telefones, começamos a nos ver uma vez na semana apenas, saiamos para lugares chiques... – Suspirou com as memórias que passavam tão rápido — Ele era absolutamente perfeito, mas Ino sempre o odiou – E riu — Ela dizia que tinha algo errado com ele, que eu devia largar ele porque sua intuição dizia isso.

Sim, porque Ino nunca, jamais, em nenhum momento aprovou aquele relacionamento. Na visão de Ino, Sasori parecia cínico e dissimulado. Disse a Sakura várias vezes que havia algo de errado sem saber direito o que era, como se fosse um sentimento, uma intuição. Só que Sakura não ia terminar um relacionamento que estava indo muito bem por causa de uma intuição de Ino.

Parecia tão infantil fazer algo tão arbitrário dessa maneira, afinal sempre se divertiam juntos. Seja nas exposições que ele a levava, ou nos passeios ao final da tarde. Sasori sempre foi estranhamente simbólico, fazendo com que tudo tivesse um significado tão profundo entre eles, e Sakura se sentia cada vez mais encantada por todo seu conhecimento, sua maturidade...

— O tempo foi passando e ele foi passando cada vez mais tempo comigo. Ele ficava apenas um dia em Kyoto por conta do trabalho, mas esse dia foi virando dois, depois três, quatro... Até chegar a um ponto que Sasori simplesmente ia à Akihabara apenas um dia na semana. – Ela disse olhando para algum lugar do quarto sem realmente enxergar, ficando um momento em silêncio antes de continuar — Meio que ele acabou se mudando pra minha casa antes que eu percebesse, e eu já morava só, sabe?

— Seus pais sabiam?

Foi a primeira pergunta de Kakashi. Natural querer saber de algo assim, afinal Sakura era menor de idade. Ela o olhou dando os ombros minimamente, como se estivesse prestes a revelar uma travessura, mas Kakashi manteve sua expressão neutra e ela não sabia dizer o que ele estava pensando.

— Mais ou menos – Respondeu dando os ombros — Como eu disse, Sasori acabou morando comigo meio que do nada. Eu nunca disse para os meus pais, mas acho que eles sabiam porque houve uma época que eu fiquei sem celular e eles tinham que ligar para Sasori para falar comigo.

Foi a primeira vez que Sakura viu Kakashi reagir diante de toda aquela história. Foi mínimo, foi discreto, mas ali estava aquela ruga tão pequena em sua testa em sinal que estava fazendo um esforço para não franzir o cenho. Sakura não sabia dizer se era mera curiosidade ou se ele estava tendo qualquer outra reação, mas sua fala pareceu pegá-lo de surpresa.

— Entendi – Ele disse depois de um momento, mais contido — Continue. – E parecia incapaz de falar mais de uma palavra por vez.

O que estaria pensando? O que estaria sentindo? Sakura não fazia ideia, mas de alguma forma aquilo a ajudava. A maneira discreta com que ele estava ali parado escutando tudo sem dar opinião ou demonstrar seus pensamentos facilitavam seu relato. Ela sentia que poderia dizer qualquer coisa e só saberia as consequências daquilo no final, porque ela precisava que ele escutasse tudo, precisava que ele entendesse.

Precisava que ele partisse.

— Bem... – Ela recomeçou engolindo a seco com um sorriso amargo nos lábios. Seus olhos passearam pelo quarto como se vissem uma linha do tempo bem definida a sua frente. — Eu e Sasori tivemos muitos momentos bons, principalmente no começo, mas lentamente ele foi mudando. – E soltou uma risada muda, passando a mão no rosto por puro reflexo enquanto se concentrava em seu relato — Começou com coisas pequenas...

O jeito que ela falava, as roupas que usava, o tempo que passava no celular, o tempo que passava com seus amigos, seus amigos. Lentamente Sasori foi reclamando de tudo, exigindo pequenas mudanças como trocar uma blusa, e Sakura não se importava em fazê-los porque era algo tão sem sentido. Pra que começar uma discussão sobre isso? Era só uma roupa. Era só um karaokê com seus amigos, era só um palavrão que dizia demais, uma hora a menos no celular... Era só isso.

Parece até que você prefere essa bolsa escrota que eu. Qual o problema de se livrar disso?

O problema foi que ela não sabia exatamente quando isso se tornou tão grande a ponto de Sasori ter que autorizar suas saídas. Ele havia jogado suas roupas fora, seus sapatos de salto, seus acessórios e comprado tudo ao seu próprio gosto, e mesmo assim, Sakura não podia sair com seus amigos. No começo era mera implicância com Ino e alguns outros, depois ele começou a proibi-la de sair com cada um, até que não restava mais ninguém.

Ele tirou seu celular, tirou suas chaves. Sasori inclusive começou a administrar seu tempo na faculdade, dizendo que se ela era rica, para que perder tempo fazendo faculdade?

Só estou fazendo isso porque você não para em casa e nunca me dá atenção.

E ela fez cada uma de suas vontades achando que eram coisas pequenas, cuidados em excesso, ciúmes bobo. Era feliz com Sasori, quando estavam juntos era tudo maravilhoso, mas ela nunca percebia que só podia ser assim se fosse nos termos dele.

Ela sempre odiou cozinhar, sempre foi medíocre na cozinha, mas aprendeu a fazer os pratos favoritos do seu namorado porque ele dizia que mulher dele sabia cozinhar. Deixou que ele deletasse todas as suas redes sociais e controlasse o que fazia na internet, deixando-a usar apenas o e-mail da faculdade e usando um programa de acesso remoto para ver o que ela fazia. Sakura, inclusive, tinha reduzido sua carga horária porque Sasori odiava quando ela passava muito tempo fora de casa.

Celular? Ele dizia que era uma distração. Seus pais tinham que ligar para ele para conseguirem falar com ela, sem entender porque diabos uma adolescente em plena Era da informação ficaria sem um celular, mas Sasori havia dado a desculpa perfeita.

Senhor Haruno, ela precisa se concentrar nos estudos.

Sim, ela precisava, porque suas notas estavam indo de mal a pior, afinal nunca ia às aulas, e quando ia estava sempre confusa. Não só isso, evitava todos os trabalhos em grupo porque não podia sequer ir na biblioteca da universidade.

Sasori controlava tudo. Tinha tirado sua chave de casa e a trancava dentro sempre que saia. As vezes passava dias sem voltar e Sakura ficava completamente ilhada com sua televisão, sem ter com quem conversa, sem ter a quem pedir socorro além do amor de sua vida, Sasori.

— Eu nem lembro como eu parei de falar com Ino – Sakura disse franzindo o cenho, buscando um momento especifico que não encontrava — Ele ficava me dizendo que ela queria nos separar porque estava morrendo de ciúmes – Riu de maneira amarga antes de esfregar os olhos com um cansaço visível. — Eu sempre tirei por menos, mas lentamente fui me afastando dela até um ponto que nós passamos a nos evitar.

Havia um bolo em sua garganta, porque toda vez que ela lembrava dessa época, porque era a lembrança mais nítida que tinha. Era bizarramente real, como um filme de alta qualidade. Ela lembrava daquele dia em que chegara atrasada na aula e passou pela carteira de Ino no caminho para a sua. A loira estava lá, com a cabeça apoiada na mão, seus cabelos loiros desciam pelos ombros e sua franja bem cortada lhe dava um ar tão elitista. Ino estava fabulosa. E por apenas um segundo, depois de tanto tempo, seus olhares se encontraram.

Fora por apenas um breve segundo que parecera durar uma longa eternidade. Sakura vestia aquele blusão horrível da loja de departamento, com calças dois números maior do que habitualmente usava. Cabelo preso, tênis velho... Nada parecida com a loira poderosa que lhe notou por aquele segundo. Sakura nunca perguntou a Ino o que se passou na sua mente naquele dia, sequer sabia se ela lembrava, mas de alguma forma aquilo a marcou.

Porque ela nunca sentiu tantas saudades de Ino como naquele dia. Ela nunca quis tanto parar e abraçá-la como naquele momento. Sakura nunca pensou que um dia poderia olhar para Ino e querer, desesperadamente, sentar com ela apenas para ouvi-la dizer que cara é essa, testuda? Naquele dia, Sakura engoliu o choro e desviou o olhar no mesmo momento que a amiga o fez.

— Foi só naquele dia, depois de ver Ino e toda sua glória que eu senti que tinha algo errado. – Sakura falou soltando o ar pelo nariz com um ruído característico, e aquele sorriso amargo no rosto não lhe deixava por nenhum momento.

Sakura ficou em silêncio por um longo momento com seu olhar preso em algum canto do quarto enquanto aquela lembrança ainda lhe pegava de maneira tão arrebatadora. Era como se ela conseguisse ver os olhos de Ino daquela mesma forma, tão azuis e brilhantes, tão reveladores como um espelho.

Passou a mão no rosto sentindo que estava vacilando. Estava tremula, levemente. Precisava se manter firme, precisava terminar sua história. Estava quase no fim. Quase.

Seu cenho franziu enquanto ela sentia que podia começar a derramar lágrimas a qualquer momento. Era engraçado como aquela cena era uma das mais tristes que tinha dentro de si. Ela não tinha raiva de Ino, não tinha rancor nenhum, mas vê-la daquela maneira fora tão cruel e decisivo. Ino sempre fez questão de trazer todos os seus sentimentos a tona, e mesmo tendo se afastado, ainda assim, com apenas um olhar, Ino era capaz de lhe dizer tudo.

Foi quando sentiu a mão de Kakashi segurar a sua e virou-se surpresa ao ser acordada de seu torpor momentâneo. Viu os olhos de Kakashi, tão negros e intensos, tão certos e ferozes. Ela engoliu a seco enquanto ainda se sentia tremer. Sabia que ele estava com raiva ali, mas de alguma forma o contato entre seus corpos pelo simples segurar de mãos a deu forças.

Desviou o olhar com resignação sem deixar a mão dele sair da sua. A agarrou ali como se fosse contato com a realidade, sua corda que a guiaria novamente para o presente, porque suas memorias eram um vão obscuro no qual podia facilmente sucumbir.

— Você não precisa continuar se não achar que consegue – Ele disse da maneira mais gentil que pôde, ao passo que Sakura percebia seu incomodo por trás das palavras. Será que ele já a achava tão burra assim? Tão idiota?

— Eu preciso terminar. Você precisa ouvir. – Disse resoluta, tirando forças de algum lugar desconhecido enquanto deixava o ar lhe escapar, para então retomar — Eu percebi que tinha algo errado, e então comecei a notar as pequenas coisas.

Sim, as pequenas coisas que aconteciam em sua casa. Os telefonemas estranhos que ele recebia, o jeito que ficava irritado quando voltava do seu suposto trabalho, a maneira com que progressivamente ele ia parecendo cada vez mais alterado.

Sasori sempre fora um homem muito calmo, com sorrisos cínicos e expressões arrogantes, ele conseguia dizer qualquer coisa e parecer completamente certo mesmo que não soubesse de nada do que estava falando, mas da metade do relacionamento para lá, Sakura percebia que ele estava ficando cada vez mais impaciente, mais agressivo.

E isso refletia na maneira como ele a tratava. Qualquer erro era motivo para gritos e estardalhaços. Quantas vezes o síndico não a multou pelo excesso de barulho? Além disso, ele tinha conversas tão estranhas ao telefone, como se estivesse fazendo algo ilícito. Lentamente ele ia parando de dar a ela as poucas recompensas que tinha por ser completamente submissa, tratando-a como uma qualquer.

Porque sim, Sakura sempre fora recompensada por abaixar a cabeça e obedecê-lo, como um cachorrinho bem treinado. Nem tudo era ruim num relacionamento como aquele, porque Sasori sabia lhe dar coisas, como levá-la a exposições de arte, museus, amostras gastronômicas... Sasori era um erudito, muito sabido de coisas filosóficas, falava de amor recitando o Fedro de Platão.

Mas quando as coisas começaram a ficar complicadas em seu trabalho, Sasori fora esquecendo das recompensas de Sakura, dos momentos à dois, do sexo regado à poesia.

— Ele nunca me forçou a transar com ele – Disse depois de um momento — Acho que esse era o único problema que ele não tinha – E riu da própria fala, sabendo que era algo tão ridículo para si rir — Quando eu tinha vontade, transávamos, quando eu não tinha, então não rolava, mas guarde essa informação porque nada é o que parece com Sasori. – E deu os ombros com um humor sombrio.

Àquela altura, Kakashi já tinha o maxilar tensionado por tanto tempo que Sakura imaginava se ele não sentia dor. Apesar de sua mão ainda estar ali firme segurando a sua de maneira gentil, Kakashi parecia um recipiente pronto para transbordar, mas Sakura não sabia exatamente o que havia dentro dele enquanto seus olhos apenas se mantinham nela, confirmando com a cabeça durante todo seu extenso relato.

Segure firme, só piora.

Ela pensou com amargura enquanto um sorriso invadia seu rosto de maneira atípica, como se fosse uma sádica prestes a cometer os atos mais sórdidos. Era como assistir um filme onde a protagonista era tão idiota e burra que você meio que torcia para ela se dar mal.

Sexo com Sasori era ok. Ele não era extraordinário, mas também não era horrível. Sakura não tinha nenhum parâmetro na época, mas depois de algumas vezes fazendo mais do mesmo, Sakura sabia por instinto que havia mais potencial no sexo do que apenas aquilo. As vezes era ela quem propunha qualquer coisa mais interessante, e ele até gostava, mas sempre voltavam pro arroz branco com peixe.

Depois que as coisas começaram a se complicar onde quer que ele trabalhasse, o sexo tinha ficado mais direto. Na época, Sakura já estava começando a acordar de sua utopia e queria cada vez menos contato físico com ele, e a principio ele pareceu não se importar, até que absolutamente do nada, numa semana qualquer, Sasori tinha virado uma maquina de sexo.

Foi só uma semana estranha, porque na outra ele já era o mesmo cara do se você quiser eu também quero.

A verdade é que Sakura achava que ele estava com grandes problemas financeiros, que tinha sido demitido ou feito alguma merda muito grande, como roubar a empresa, porque os telefonemas que ele recebia sempre acabavam em coisas tão confusas envolvendo as autoridades que Sakura às vezes se sentia vendo um filme policial.

Aquele filho da puta acabou com o esquema quando deixou a vagabunda escapar!

O que aquilo tudo significava? Ela não sabia, mas eles sempre falavam em vagabundas que estavam aparecendo como formigas, e que o cerco estava cada vez mais apertado. Eram coisas tão aleatórias e sem sentido, mas que para uma pessoa como Sakura que não tinha muito o que fazer, soava como um quebra cabeça.

Porque Sasori já não tinha mais tanto tempo para ela, e parecia irritá-lo toda vez que ela perguntava qualquer coisa. Ele já não era mais amoroso, queria apenas sua comida e que ela jamais saísse de casa. As vezes transavam, porque Sakura tinha medo que ele percebesse que ela já estava pensando num jeito de simplesmente enxotá-lo, afinal com tudo o que estava acontecendo na vida dele, Sasori se mostrava cada vez mais agressivo e o momento de terminar aquele relacionamento nunca parecia chegar.

Até que o quebra cabeça fez sentido em sua mente, tudo por conta de uma pequena frase reveladora.

Não me importa quanto dinheiro me renda, eu não vou vender Sakura. Ela é minha.

Vender?

Oh-oh.

Ele parecia tão irritado dizendo aquilo, tão puto. Quem quer que estivesse do outro lado da linha podia saber que não era um bom momento para perturbar o baixinho de cabelo vermelho. Os baixinhos são os piores quando ficam zangados, era conhecimento popular.

Mas Sakura era uma idiota.

Então ela perguntou o que diabos aquilo significava.

Porque parecia, de maneira muito superficial, que ele trabalhava com tráfico de pessoas.

Só parecia.

— O que? – Kakashi perguntou parecendo incrédulo, com toda sua tensão dissipando para dar lugar à descrença, porque era realmente difícil de acreditar, Sakura tinha que admitir. — Sakura?

— Era o que eu achava na época. Parecia isso, mas não era bem o que estava acontecendo. – Ela falou de repente sentindo certo desconforto — Não sei se você tá por dentro, mas a alguns anos a NHK noticiou um esquema de pornografia infantil que rolou em Akihabara.

— Você não está me dizendo que...

— Sim. Sasori era um dos integrantes do grupo, e não era só isso. – Ela falou tentando ser o mais impessoal que conseguia, como se estivesse relatando algo que não havia acontecido com ela — Ele também leiloava as garotas.

Kakashi soltou a mão feminina para esfregar seu próprio rosto num claro sinal de inquietude e revolta. Ele soltou o ar com um ruído e a olhava de uma maneira esquisita. Sakura não sabia dizer o que de fato se passava na cabeça dele, mas tudo indicava que estava acontecendo. Sasori estava certo no final das contas, ninguém iria querer alguém suja como ela.

Naquele momento Kakashi deveria estar relacionando tudo. Sakura fora a mulher de um facilitador. E ainda que em um momento de revolta Ino tenha insistido que Sasori era um pedófilo, Sakura não tinha certeza se ele se aproveitava das meninas que agenciava, apesar de que Sakura tinha apenas 17 anos quando se conheceram, e ele já tinha 35 anos.

Sim! Sakura não fazia ideia de que ele era tão velho, e ele mentia dizendo que tinha apenas 22 na época. Foi só depois que tudo eclodiu que ela fora descobrindo tantas coisas...

Mas o fato era que Kakashi estava ali tão absorto em seus pensamentos e Sakura só conseguia sentir que seu objetivo estava sendo alcançado. Quando ela dissesse que era o fim, Kakashi só iria embora e se manteria a salvo de sua bagunça. Tudo bem se ele percebesse que tinha se envolvido com alguém tão usada e quebrada, tudo bem se ele percebesse que ela era suja daquela maneira.

Ele estaria segundo no final das contas se ficasse longe dela.

— Eu perguntei para ele se ele traficava pessoas e ele apenas riu de mim – Sakura disse dando os ombros — E depois ele me bateu, para eu deixar de ser bisbilhoteira.

— Sakura, você-

— Ele ficou com tanta raiva daquela pergunta, como se eu estivesse insultando ele da pior maneira possível – Disse sem querer saber o que Kakashi tinha a dizer, sem querer ouvir seu nome dito daquele jeito irritante, porque qual era o problema dele para sempre falar seu nome daquela forma tão doce! Ainda que a situação fosse tão fodida, ainda que ela estivesse revelando coisas tão ridículas e pesadas, Kakashi ainda conseguia chamá-la daquela forma. — Acho que foi a primeira discussão de verdade que tivemos, porque eu já estava tão de saco cheio.

Naquele episódio, Sasori a bateu pela primeira vez e aquilo a enfureceu. Sakura era um cordeiro, mas havia essa ferocidade dentro dela que emergia em alguns momentos, e desde que sua visão sobre Sasori estava mudando, Sakura percebia que tinha que confrontá-lo e retomar alguma parte de si mesma.

Quando sugeriu trafico de pessoas, Sakura não acreditava realmente nisso. Parecia mais uma piada, mas quando ele a bateu daquele jeito tão irritadiço, a mulher acordou de um longo período de torpor. Gritou com ele no mesmo volume exigindo saber o que merda estava acontecendo no trabalho dele, sobre suas ligações e viagens estranhas, sobre o período que passava fora, sobre vendê-la!

Foi grito em cima de grito, e Sakura ainda tomou mais duas na cara, mas não sem deixá-lo com um olho roxo. Foi quando ele a puxou pela gola e falou tudo sobre seu trabalho em Akihabara, e Sakura já havia visto documentários sobre como há falsos agentes que abordam adolescentes, dizendo que podem transformá-las em Idols, quando na verdade só querem enganá-las para fazerem fotos pornográficas e vendê-las.

Mas no caso de Sasori era um pouco pior, porque as crianças que eram mais populares no meio eram chamadas novamente, e então assinavam um daqueles contratos com cláusulas dúbias que forçavam os pais a permitirem que seus filhos fossem simplesmente leiloados para qualquer tarado que quisesse uma noite com elas. O esquema só funcionava tão bem porque as pessoas que eram abordadas nunca tinham tanto dinheiro ou conhecimentos, e ficavam assustadas quando viam o valor de quebra de contrato.

Além disso, a polícia em Akihabara era comprada. As denuncias nunca saiam no posto policial e assim, o esquema funcionava rendendo milhares de ienes.

Porque você acha que eu vim a Kyoto? Sua bocetinha rosa vale uma grana, Sakura-chan. Quando vissem os seus pelinhos cor-de-rosa naturais... hahahaha... Eu ia ficar rico rapidinho, mas você tem sorte que eu gostei tanto de você. Não importa o que aconteça, você é minha.

Foi quando ela se deu conta do que tinha acontecido, do fino que tinha passado, da sorte que tinha dado. Porque, sim! Ela tinha tido tanta sorte Sasori ter gostado de si, caso contrário poderia ter caído naquele esquema como mais uma pobre garota vítima de tudo aquilo. Foi só depois daquela declaração, só depois que a ficha caiu que Sakura percebeu que estava diante de alguém muito perigoso.

Tudo a partir daquele momento se tornou diferente. Ela não conseguia mais agir de maneira natural, porque se ele se cansasse dela, então ele a venderia como fez com várias outras, porque ela não tinha a quem recorrer, porque estava completamente sozinha.

— Então ele percebeu meu medo. – Ela disse passando a mão no próprio rosto, contornando sua boca com o dedo de forma distraída, organizando todas aquelas memórias.

Ela já não olhava para Kakashi, não queria vê-lo. Tudo a partir daquele momento mostrava o quão fraca ela tinha sido e as consequências de suas ilusões. Ela não queria ver o olhar de Kakashi mudar, não queria perceber que já não era mais tão doce para ele, e era tão confuso porque ao mesmo tempo era exatamente o que queria, porque só assim ele podia ir embora sem olhar pra trás, porque...

... porque ela já estava acostumada a fazer sacrifícios.

Quando Sasori percebeu seu medo, ele parou de tentar enganá-la. Foi quando o afeto sumiu dando lugar às ameaças constantes. Qualquer vacilo, qualquer pensamento adverso... Parecia que Sasori tinha entrado na sua cabeça e toda vez que pensava em alguma forma de fugir, ela recuava com medo de ser descartada, porque ninguém sentiria sua falta.

Já não falava com seus pais a meses, seus amigos não a procuravam mais em canto nenhum, Ino sequer olhava para ela.

Estava só.

E a única vez que teve um surto de coragem e tentou usar o celular dele enquanto ele dormia para falar com Ino, ele a descobriu e disse que mataria todos eles. Que faria Ino ser encontrada numa vala de maneira irreconhecível, mas não antes de se aproveitar dela de maneiras que Sakura jamais conseguiria imaginar.

Você acha que eu me importo com o sobrenome dela? Então ligue pra ela, peça ajuda. Vamos, Sakura, você está com meu telefone, mas não diga que eu não te avisei.

Foi quando ela percebeu, de uma vez por todas, que não havia mais escapatória. Que já era tarde demais para ser salva e que ninguém poderia fazer absolutamente nada por ela. Sakura tinha escolhido seu destino no dia em que foi com ele naquele bar, no dia em que resolveu continuar aquele romance que era, na verdade, uma prisão sem nenhum sentimento envolvido.

Por semanas elas apenas existiu, e foi quando cada vez mais se apagava diante de tudo que acontecia. Sasori já não era mais nenhum pouco discreto, falava sobre suas atividades ilegais na frente dela sem o menor pudor, a chamava de inútil por não conseguir mais dinheiro dos pais sem levantar suspeitas, ficava irritado com ela por qualquer coisa, mas ainda assim não largava o osso.

O sexo não era mais quando ela queria, mas sim quando ele tinha vontade. A fodia do jeito que queria, daquele jeito chato de sempre, e Sakura não se negava. Não podia se negar. Apenas existia ali enquanto ele fazia o que precisava fazer.

Ela era dele afinal, apenas dele.

Sakura era a garota que Sasori havia escolhido para si em meio a tantas outras, e às vezes Sakura sentia conforto quando pensava que tinha salvo alguém de viver aquele destino, às vezes ela pensava que alguém no mundo estava feliz e que ela havia protegido esse sorriso.

— Mas tinha dias que a única coisa que me fazia levantar era o medo. – Ela disse com amargor, como se a frase fizesse seu corpo reviver a sensação. Tinha sido a tanto tempo, mas ainda conseguia lembrar como era apenas querer parar para sempre, mas ter que se levantar porque não era só a vida dela em jogo — Por mais que eu achasse que Ino não se importasse mais comigo, eu ainda queria que ela tivesse uma vida plena. Eu pensei em me matar algumas vezes, mas tinha medo que depois que eu o fizesse ele fosse atrás de Ino.

Kakashi se levantou abruptamente diante da frase, dando passos largos de maneira inquieta na direção da prateleira logo a frente. Ele se escorou na estante de costas, com uma mão apoiada na cintura aplicando força em excesso na região enquanto a outra se apoiava na estante. Parecia impaciente com seu pé martelando o chão enquanto que diante dele, Sakura sabia que havia um porta-retrato com sua foto e a de Ino dividindo uma daquelas bicicletas para dois quando tinha apenas 15 anos.

O que ele estava pensando? Será que já era demais para ele? Ele já queria ir embora? Já queria sair correndo?

Sakura sorriu numa satisfação ingrata.

— Como você saiu disso?

Ele perguntou arrancando-a de sua viagem de autoflagelação. A voz grave ecoava pelo cômodo de maneira tão abrangente, como se fosse dominante em sua fala, como se estivesse pronto para tomar alguma atitude.

— Um belo dia eu estava fazendo alguma coisa no quarto e, eu não lembro direito, mas sei que ouvi um estrondo e depois um baque, e aí um grito... Foi algo tão aleatório. Eu sai correndo para ver o que tava acontecendo e encontrei Naruto montado no corpo caído de Sasori, socando-o tão forte que eu fiquei em completo choque.

Foi exatamente o que aconteceu. Naruto apareceu absolutamente do nada em seu apartamento na época, arrombou a porta e caiu para cima de Sasori sem nenhuma piedade. Quando Sakura chegou na cena, sequer sabia o que fazer. Falou o nome do amigo completamente confusa enquanto Ino aparecia logo em seguida segurando Naruto por trás.

Chega, Naruto! Você vai matá-lo desse jeito!

E Sakura estava ali, completamente aturdida com tudo o que estava acontecendo. Parecia que estava dormindo e sonhando com algo tão... Inacreditável. Suas memórias eram mais bagunçadas ainda, porque ela lembrava de Ino lhe percebendo na sala pela primeira vez e de como os olhos da mulher arregalaram no mesmo instante em que seu corpo se movia.

Ino a abraçou de uma maneira tão desesperada, e Sakura ainda não sabia o que sentir, o que fazer. Foi como se tivesse saído de seu corpo e estivesse assistindo tudo de fora, mas aquele abraço, Sakura definitivamente o sentiu.

— Lembra da semana esquisita em que Sasori quis tanto transar comigo? – Ela riu de sua fala tão bizarra — Ele gravou nossos momentos e colocou na internet para conseguir algum dinheiro. Foi isso que me salvou.

Sasori estava tão desesperado que teve que ceder ao bom e velho sextape, colocando-o num site pornô que rende por visualizações. Sakura nunca saberia disso uma vez que não tinha acesso à internet enquanto estava com Sasori, e mesmo que tivesse, ela não perderia seu tempo com pornô, mas a vida é engraçada e aleatória.

Naruto via pornô.

Muito pornô.

E foi ele quem a encontrou naquele site em meio a tantos vídeos caseiros. Foi ele quem franziu o cenho para tela pensando que conhecia aquela mulher de algum lugar, encarando aquela imagem de baixa qualidade para decifrar aquelas costas, os braços e principalmente aquele cabelo rosa tão característico.

Naruto a reconheceu.

Ela não soube os detalhes, mas Ino lhe contou que Naruto a procurou imediatamente, e a loira tomou as providencias devidas: Ligou pra Shikamaru. Porque ele era o cara que resolvia as coisas, e Ino precisava de informações, afinal ela não poderia simplesmente aparecer naquele apartamento e perguntar a Sakura se ela tinha feito um pornozão caseiro e colocado na internet para todos assistirem.

Foi quando ela descobriu tudo sobre Sasori. Absolutamente tudo.

Antes mesmo de pensar no que fazer, Ino apenas ligou para Naruto, a pessoa que tinha iniciado tudo com seu vício bizarro em pornô caseiro, e foram ao encontro de Sakura para resgatá-la. Tinha sido uma operação apressada e mal planejada, mas diante do estado de Sasori, Sakura diria que fora uma operação extremamente bem sucedida.

Foi naquela hora que Ino disse a Akasuna no Sasori que ficasse bem longe de Sakura, que ela tinha reunido provas de todos os crimes cometidos, que ela não iria descansar enquanto não o fizesse pagar, que... Céus!

Mas Sasori se levantou, sequer olhou para Ino, sequer olhou para Naruto. Sasori só se preocupou com Sakura. Ele a olhou intensamente com aquele sorriso brotando em seus lábios.

Acha que vai se livrar de mim? Criança, você é minha. Lembre-se a quem você pertence.

A Sakura-chan não é sua!

Como não? Acha que alguém vai querer alguém suja como ela? – Ele perguntou com aquele sorriso cínico, enquanto limpava uma gota de sangue que escorria pelo seu rosto antes de olhar para Sakura — Acha que algum homem vai gostar de alguém suja como você? Só eu consigo isso, Sakura, porque somos igualmente sujos.

Sakura ainda remoía as palavras finais de Sasori, que se foi sem nenhuma pressa, sem medo nenhum de levar outra surra de Naruto ou sem sequer considerar as palavras de Ino como uma ameaça real. Ele apenas andou para fora do lugar como se fosse sua própria escolha ir embora, e Sakura nunca teve tanto medo como no momento em que ele partiu.

— Depois disso foi aquele rebuliço. Meus pais voltaram da Coreia, médicos, polícia... – Suspirou — Eu sai de um inferno para entrar em outro – E riu sem nenhum humor, sabendo que a comparação era cruel, mas era como se sentia. Toda aquela atenção, aqueles cuidados, os protocolos.

Fez um milhão de exames para saber se estava tudo ok com sua saúde, e apesar da leve desnutrição pela falta de apetite, Sakura estava completamente saudável, pelo menos fisicamente. Foi nessa época que ela conheceu Tsunade, a melhor médica de todo o Japão. Seus pais queriam o melhor, e bem, ela é a melhor.

Bizarramente, Tsunade também era a reitora da universidade, o que foi uma grata coincidência. Ela quem articulou para que Sakura pudesse recuperar o ano que perdeu. Metade por conta de Sasori e metade por conta de todos os danos causados por aquele relacionamento infeliz.

Mas de alguma forma, Tsunade se apegou a Sakura de um jeito quase maternal, e depois de ter uma amostra de sua inteligência, ela se comprometeu com a família Haruno de que manteria Sakura segura sobre sua tutela, afinal, seus pais queriam que ela fosse imediatamente para a Coreia se juntar eles.

Só que mesmo que tudo tenha acontecido, mesmo com as memórias cruéis, mesmo com a dor e os danos, Sakura jamais quis sair de Kyoto. Por isso ela fez aquela promessa a Tsunade, que confiou em sua palavra de uma maneira tão genuína a ponto de lhe dar toda a liberdade do mundo, desde que honrasse com aquilo que foi dito.

Se acontecer qualquer coisa que eu não consiga lidar, absolutamente qualquer coisa, eu vou contar pra você.

E fora Ino quem se curvou para os seus pais, pedindo desculpas com lágrimas nos olhos por não ter feito nada antes, por ter deixado tudo acontecer quando tinha certeza que tinha algo errado. Ino se sentia tão culpada pelo ocorrido, como se de alguma forma fosse sua responsabilidade. Fora ela quem obrigou Sakura a ver Morino Ibiki, o melhor terapeuta da cidade.

Ino a buscava todos os dias e a levava para aquele consultório chique na parte nobre da cidade, ficando na recepção enquanto Sakura sofria o que tinha apelidado de sessão de tortura. Tudo bem que estava tendo ataques de pânico com certa frequência, e que a depressão a acometeu de leve, mas Ibiki era jogo duro e sempre a encurralou. Toda sessão era como se ele fizesse uma autópsia nela.

Quantas vezes implorou para não ir? Sakura sequer lembrava, mas Ino insistia naquela ideia e, honestamente, ela só tinha que ser grata porque apesar de odiar aquilo, Sakura reconhecia o valor que teve em sua recuperação, foi ele quem sugeriu que fizesse boxe, e depois dança, e depois... Tudo para que se sentisse segura, para que recuperasse sua identidade, para que pudesse se sentir um pouco mais como ela mesma antes de Sasori.

Não chegou a tomar medicação regular apesar de ter uma receita com comprimidos para insônia. As vezes tomava um calmante quando sentia que sua crise de ansiedade estava chegando, mas era um fitoterápico qualquer.

Naquele quarto onde narrava aquela história, Sakura passou um ano antes de finalmente se sentir pronta para morar sozinha novamente, mas foi ali que seus amigos vinham aos montes para lhe animar quando estava com pensamentos tão danosos... Lembrava de Ino passando a mão em si por cima dos lençóis enquanto falava coisas de seu dia, era assim que ela lidava com os ataques de pânico.

Naruto trazia filmes de ação e animes. Fora ele quem a viciou em lamém instantâneo. Sasuke era quem trazia o drama familiar com uma boa dose de sarcasmo. Com o Uchiha, Sakura descobriu um interesse em fotografia que não durou muito tempo, mas que foi uma excelente distração em tempos difíceis. Ele quem lhe levava para os locais diversos na cidade, assistindo Sakura fotografar plantas, crianças, prédios... A foto pendurada em sua sala tinha sido tirada no primeiro dia em que saíram para isso.

— Eu sabia que aquela foto tinha algo especial.

Os olhares se encontraram depois do que parecia ter sido uma eternidade. Kakashi não voltou a se sentar, ouviu uma parte da história de costas, como se não pudesse aguentar muito mais de tudo aquilo. Ele virou-se de frente, com a cabeça baixa, quando Sakura já relatava sobre seu resgate, e enquanto falava da recuperação, Kakashi sorria sozinho para os seus pés, como se finalmente seus ombros pudessem relaxar.

E agora ele dizia aquilo, olhando para ela daquele jeito tão...

Tão...

— É, eu adoro aquela foto – Ela respondeu sorriso para as memórias daquele dia, desviando o olhar do dele, porque não conseguia manter aquele clima sem saber onde estavam. — Depois de um tempo eu fui melhorando, e voltei a fazer coisas que fazia sempre, como ir festas – E riu rapidamente — E foi numa dessas festas que eu tive um ataque de pânico quando tentei pegar um carinha. – Ela o olhou rapidamente, vendo seus olhos meio tristes, meio complacentes. — E foi a partir dessa experiência que eu me tornei camgirl.

O viu arquear uma sobrancelha como se estivesse completamente surpreso. Sakura não esperava uma reação diferente, o interesse dele estava todo ali, foi assim que se conheceram afinal. Talvez, em algum momento, Kakashi achasse que isso não tinha nada a ver com Sasori, mas a verdade é que tinha tudo a ver.

Quando levou a questão de não conseguir se relacionar com o sexo oposto, Morino Ibiki começou um intenso trabalho sobre isso. Não era apenas a parte sexual. Sakura tinha uma clara dificuldade em se conectar com outra pessoa, e não que ela esperasse encontrar o amor, afinal isso já tinha um tom amargo em suas memórias, mas mesmo alguém inofensivo que tentava a sorte consigo era brutalmente rejeitado, e não era exatamente porque ela não gostava do flerte, mas porque Sakura enxergava as possibilidades além do flerte.

Além disso, mesmo que estivesse num caminho decente para voltar a ser quem era, Sakura ainda remoía as palavras de Sasori de uma maneira tão intensa, como se a qualquer momento ele pudesse voltar, como se seus parceiros estivessem tentando a sorte com uma completa fraude. Ela não era mais essa menina legal com quem eles queriam dar uns beijinhos e talvez algo a mais, Sakura era suja e pertencia a outra pessoa. Que homem se permitiria a algo com ela sabendo de tudo?

Foi quando Morino Ibiki disse que talvez devessem tomar uma rota alternativa. Ao invés de trabalhar primeiro suas relações, talvez Sakura pudesse se conectar primeiro com o sexo. Ele a recomendou, de uma forma bizarramente profissional, que ela se masturbasse e tentasse encontrar o prazer por si só.

Parecia uma tarefa de casa bem fácil, mas tudo que vinha na sua cabeça quando tenta era Sasori, afinal ele tinha sido seu único parceiro em toda a vida. Sakura não conseguia chegar nem perto do seu objetivo e ficava cada vez mais frustrada, resolvendo que seria uma solteirona. Foi Naruto, entretanto, que recomendou que ela visse um pornozão.

Disse, com todas as letras, que masturbação não era sobre suas experiencias passadas, mas sim sobre as possibilidades, a fantasia. E é claro que na época apenas riu, mas assim que ele se mandou, Sakura pegou seu notebook e procurou por algum vídeo que lhe chamasse atenção, e apesar de ter encontrado coisas que lhe chamassem a atenção, ainda assim não era o suficiente.

Até que finalmente ela esbarrou no próprio sextape.

Ino tinha feito o inferno para conseguir remover o vídeo dos principais sites, sumindo com todo o conteúdo da margem mais popular, entretanto ali é a internet e nenhum material some de verdade. Lá estava ela num daqueles sites obscuros, com o título de putinha rosada sentando no ruivinho magrelo, Sakura viu pela primeira vez o que aconteceu.

Ficou completamente enjoada, não conseguiu assistir mais que meio minuto daquilo, torturando a si mesma como a muito tempo não fazia. Num ato de alivio próprio, ela rolou a página para sumir com o vídeo da tela, completamente atordoada, e esbarrou nos comentários. E que comentários. A chamavam de gostosa, diziam que foderiam ela muito melhor do que Sasori fazia no vídeo, diziam que ela merecia um pau melhor, e coisas do gênero.

Alguns até diziam que ela era bonita.

Foi bizarro, mas aqueles comentários tão ridículos e baixos elevaram sua autoestima. Sakura sentia estranhamente satisfeita lendo tais coisas sobre si, e com aquela estranha energia advinda dessa descoberta, finalmente ela conseguiu se render a um dos vídeos pornôs que a agradaram, gozando pela primeira vez desde que tudo aconteceu.

Basicamente era como se houvesse um mundo na internet onde as pessoas não se importavam com quem ela era, com o que tinha feito, sobre o que tinha vivido. Naquele pedaço da internet ela era uma mulher que merecia uma foda melhor. Alguém que era muita areia para o caminhãozinho do ruivinho magrelo. Ali, ninguém se importava se ela tinha tido um longo relacionamento com um agenciador e se submetido às suas vontades, porque na internet Sakura era apenas a putinha rosa que merecia mais.

Foi loucura, mas a partir daquele momento tudo mudou. Quando ela contou a Ibiki sua experiencia, ele não viu a coisa com bons olhos, achando que não era tão saudável assim, mas o fato era que isso a estimulava e a aliviava de uma maneira que a terapia nunca tinha feito. De alguma forma, até mesmo sua relação consigo mesmo tinha melhorado, ela já conseguia se olhar no espelho por um tempo maior que apenas 2 segundos.

E tudo bem, ela tinha que admitir que não era mesmo saudável essa dependência desses comentários. Parecia doentio ficar caçando seus próprios vídeos não autorizados na internet apenas para se deleitar com todas aquelas baixarias, mas era o que a fazia sentir-se melhor, até que sua fonte se esgotou. Mais cedo ou mais tarde o pessoal de Ino identificava o vídeo e tirava do ar, e cada vez mais era difícil achar seu próprio material.

Foi quando esbarrou no site de camgirls e a ideia lhe surgiu. Passou dias considerando se poderia se exibir na webcam daquele jeito tão cru, pensando se alguém de fato ficaria para assisti-la. Foi numa terça-feira que ela tentou pela primeira vez, exibindo seu corpo do pescoço para baixo. Ficou apenas mexendo nos peitos por aproximadamente 15 minutos, mas foi o suficiente para os pervertidos se aproximarem e começarem a cantá-la daquele jeito ridículo e encantador.

— Eu fiz aquilo por mais alguns dias, e então tomei coragem e contei para Ino. Eu achei que ela ia me dar o maior sermão, mas ela apenas me ouviu. – Sakura falou com um sorriso nostálgico, porque lembrava tão nitidamente da expressão da amiga recebendo seu relato como se fosse o próprio Morino Ibiki. — Ela falou, com todas as letras, que talvez eu estivesse criando uma dependência não muito saudável, mas que me ajudaria com isso desde que eu continuasse na terapia.

E Sakura tinha que concordar que no começo, sim... Havia esse lance de dependência. Ela iniciou sua carreira fazendo lives todos os dias, e lentamente foi comprando equipamento, tentando novas coisas, explorando as possibilidades. Ino quem arrumou as máscaras, as lingeries, e Sakura quem arrumou toda parte técnica, as câmeras, microfones...

O canal estava crescendo tanto e tão rápido. As aulas de dança caíram como uma luva, porque a maior parte das vezes ela apenas dançava sensualmente. Sakura nunca foi uma viciada em sexo, e masturbação rolava nas lives quando ela sentia que queria dar isso a todos aqueles pervertidos. Nunca se forçou a nada naquele espaço e fazia o que lhe convém.

O engraçado era que Ibiki sempre pedia para que ela ficasse um ou dois dias sem se exibir e descrever como se sentia, e a resposta era sempre "ansiosa". Sakura se sentia ansiosa quando não tinha sua dose diária de exibicionismo, então começaram a trabalhar isso. Morino tratava sua ansiedade e Healer sua autoestima.

Seu corpo era seu novamente. Sakura era de si mesma. Ela escolhia o que fazer diante das câmeras, o que dizer. Escolhia a hora e o local, escolhia inclusive quem poderia assisti-la. Até mesmo quem ela era Sakura conseguia escolher. Era tão libertador.

Foi quando Sakura e Ino foram naquela festa chique de herdeiros. Vestido de gala, champanhe, conversa esnobe e tudo que a alta classe fazia para se reafirma dona do mundo. Foi lá que ela conheceu aquele garoto com cara de indiano que ficou dando em cima dela durante todo o jantar. Ele nem o achava tão bonito assim, mas foi a primeira vez que ela deixou alguém simplesmente dar em cima dela sem achar a situação asquerosa.

Ele era péssimo com flerte, mas ela estava se divertindo.

E ai eles se beijaram.

Se pudesse descrever aquele gesto, ela diria normal. Não foi um filme romântico, não foi lascivo, não foi... Nada demais. Foi um beijo, e ela adorou essa falta de significado, porque foi como se desbloqueasse algo nela, como se ela acabasse de perceber que finalmente, depois de todo esse tempo, ela conseguia ter esse tipo de contato com outra pessoa sem que sua mente lhe levasse aos locais ruins que geralmente lhe levava.

Sakura nunca mais viu aquele menino, sequer lembrava o nome dele, mas lembrava do beijo e isso era suficiente.

Depois disso ela parou de ir a terapia, e Healer se tornou o único alivio de sua mente, até que ficou cansativo fazer aquilo todos os dias. Ela foi diminuindo, diminuindo... Ao passo que sua vida fora das câmeras foi voltando a ser cada vez mais prazerosa com saídas noturnas, faculdade, dramas de Ino, daddy issues de Sasuke, bobeiras de Naruto...

As vezes ela ficava com alguém, mas só porque gostava de beijar na boca. Foi Ino quem disse que ela precisava transar, porque ela precisava tirar o estigma de uma vez por todas. Sakura já nem pensava nisso, nunca teve essa necessidade absurda de sexo e ela sempre foi estranha, nunca soube separar direito sexo de romance, era Ino quem sabia bem fazer isso.

Mas tinha que concordar com a amiga: precisava tirar o estigma de uma vez por todas, só precisava encontrar a pessoa certa. Rock Lee foi seu pau amigo por um longo período. Completamente inofensivo, ele topava qualquer ideia maluca, e sexo sempre era divertido. E apesar de ele ser um cara legal, gentil e tudo mais, Sakura só não se sentia apaixonada por ele, e por isso se afastou quando ele começou com aquelas ideias sobre encontros e namoros.

Foi quando casou de Kakashi aparecer.

— Mas essa parte da história você já conhece. – Sakura disse com humor, olhando para o chão do quarto, porque todas as memórias a partir desse momento ela guardava com um carinho sublime, porque era a parte onde sua vida só melhorava e ela não queria sujar tudo isso entrando em detalhes quando tinha remexido em todos os lugares mais sombrios de si.

O silêncio pairou por um longo momento. Ela não olhou para Kakashi pois achava que se o fizesse, então poderia ver coisas que não queria. No final a ideia de tê-lo perfeito em suas lembranças era tão fundamental a ponto dela simplesmente querer que ele só fosse embora sem dizer uma palavra, porque era isso que ele queria fazer, não é? Era isso que ele deveria fazer.

Qualquer um em sã consciência fugiria nesse momento, e não apenas pela loucura dessa história cabulosa, mas também por não querer conviver com uma pessoa com traumas tão profundos. Além disso, também havia o fato que essa história não tinha acabado. Sasori tinha feito seu retorno triunfal, colocando as cartas na mesa em grande estilo.

Ele sempre foi meio teatral.

— O lance disso tudo, Kakashi, é que nem tudo era ruim. – Sakura disse com uma voz tão distante, tão contemplativa — Sasori me manteve em cárcere por muito tempo sem que eu percebesse, mas ele sempre me mimou. – Riu sem humor, porque se contentava com tão pouco — Ele me levava a exposições de arte, me ensinou muita coisa sobre a ciência do belo. Ele dizia que a arte era eterna, como nosso amor.

— Pare. – Ouviu Kakashi dizer como um comando e não pode dizer o que havia por trás daquela simples palavra, mas ela apenas ignorou.

— Ele me trazia muitos filmes antigos. Esse gosto esquisito por filmes clássicos eu herdei dessa bizarra experiência. Sasori me deu essa vibe culta. Ele assistia comigo, conversávamos sobre. Ele também amava música clássica, mas esse hobby eu não peguei.

— Sakura...

— Também tinha os chocolates, e toda sexta ele pedia comida de algum lugar estranho. Nós sempre nos divertíamos provando comida esquisita. Não era sempre horrível, de alguma forma a gente... Se dava bem.

Porque ainda tinha todas essas coisas que ela tinha herdado dele, como se fossem pequenos hábitos que perduravam através do tempo e insistiam em manter Sasori tão presente na sua vida. Ela sabia que não deveria associar esses gostos a ele, que foram coisas que ele a apresentou, sim, mas que no final ela gostou genuinamente das coisas.

Não significava que ela gostava de Sasori.

Mas era como se ele ainda estivesse com ela nas pequenas coisas, e Sakura as vezes se odiava por ainda preservar esses costumes. Se odiava por ainda deixar que Sasori tivesse efeito sobre si. Se odiava por ter que contar aquela história daquela maneira e mais ainda, odiava que tivesse sido tão estupida.

Toda vez que pensava nos momentos bons com Sasori, Sakura percebia o quão cega tinha sido, achando que ele a amava nesses pequenos gestos, que toda sua possessividade fosse uma espécie de preocupação romântica, que como nos livros, ele tivesse lá seus demônios, mas que no final tudo fosse sobre o amor que ele nunca teve e que só ela poderia lhe dar.

Fora tão ingênua.

O pior de tudo é que tinha sido alertada. Ino tinha lhe dito que ele não prestava, mas é claro que ela resolveu seguir seu coração. Ela resolveu afastar todos os seus grandes amigos em prol de um romance que só existia em sua cabeça, achando que de alguma maneira tudo daria certo no final das contas, que em algum momento Sasori cederia, que seria recompensada pelo seu bom comportamento.

Mesmo quando as coisas já estavam tão criticas ela ainda tentava se convencer que tudo melhoraria um dia, porque ele lhe dava essas migalhas de atenção e afeto até que quando percebeu o que ele estava fazendo através do olhar-espelho que Ino tinha lhe lançado, e nesse momento tudo se revelou doentio e sombrio.

— Sakura – Kakashi disse novamente, dessa vez mais presente, mais sério. Ele se abaixou na frente dela porque sabia que ela não iria olhar para ele mesmo que ele a chamasse mil vezes, e então percebeu que a mulher chorava em silêncio. Sua voz não transparecia seu choro ou confusão, mas seus olhos não conseguiram segurar por muito tempo.

Ele hesitou por um instante pego em completa surpresa pelas lágrimas tristes e solitárias que rolavam pelos olhos dela. Sakura sofria revivendo aqueles fatos, é claro. E tudo que ela tinha vivo, tudo que tinha suportado era tão enorme, tão denso e cruel para alguém que soava tão bucólica em sua juventude cheia de vida.

Ninguém deveria passar por algo como aquilo. Ninguém deveria ser uma vítima de alguém tão doente como o homem que fez tudo aquilo. Sakura não merecia isso. Sua Sakura não merecia ter que suportar todo aquele peso, e de alguma forma Kakashi sentia que queria poder tirar tudo isso dela. Todos esses sentimentos conflituosos que a prejudicavam, todos esses tormentos que a faziam duvidar de si mesma, todos os receios bobos... Ele queria ser capaz trazer luz a todos os lugares sombrios que ela ainda guardava dentro de si.

Mais do que toda essa raiva que havia dentro dele, toda essa necessidade feroz de fazer alguma coisa e simplesmente não poder, Kakashi sentia uma vontade absurda de tomar Sakura em seus braços e fugir para um lugar tão distante a ponto de nunca serem encontrados. Ele queria levá-la a um lugar bonito e iluminado, cheio de flores dos mais variados tipos, queria passar horas olhando para ela e seu sorriso, queria garantir que ela fosse feliz.

Com tantos sentimentos o acometendo em tão pouco tempo, Kakashi continuou olhando para a moça que apertava seus olhos com força enquanto mantinha sua respiração o mais regular possível. Ela ergueu a mão como se fosse tocá-lo, como se fosse se apoiar em seus ombros e então recuou, finalmente abrindo seus olhos, mostrando para ele no brilho verde que havia tanta tempestade por detrás de si.

— Você precisa ir embora – Ela disse de maneira tão triste, aceitando o que não podia ter. Sua voz num fio, sumindo aguda no quarto rosa chá. — Não precisa ficar – Falou com um sorriso tão triste, do tipo que só pessoas com algo tão grande dentro de si conseguiam dar.

E ele era incapaz de tirar os olhos dela.

— Mas eu quero ficar.

Foi a resposta dele. Tão simples como um toque, tão honesta quanto um olhar, tão presente quanto sua voz. Ele não hesitou, sequer pensou, apenas respondeu.

Eles se olharam por um longo momento e havia tanto medo nos olhos dela, havia tanta dor. É claro que ela pensava no melhor para ele, em como ele estaria bem longe dela e todo o resto, mas como ele poderia só ir embora? Não que sentisse algum tipo de dever, ele apenas sentia que suas vidas estavam apenas começando.

— Kakashi – Ela disse num tom mais baixo, quase como um sussurro. Abriu e fechou sua boca procurando as palavras que eram tão difíceis de serem encontradas, mas ele não esperou.

— Eu só vou embora se você me disser que percebeu que seus sentimentos não são mais os mesmos – Sua voz era calma apesar de sua expressão séria — Que de alguma forma você se confundiu, e que o que sente por mim não faz sentido. – Um segundo de silêncio fora feito enquanto ele a olhava de maneira tão tranquila, vendo os olhos verdes vacilarem por um momento — Você pode dizer que não sente o mesmo que eu?

Ela umedeceu os lábios num movimento involuntário, o curto momento era necessário para organizar sua mente. Piscou seus olhos por um momento mais longo do que o habitual, e quando finalmente seus lábios entreabriram, prontos para dizer o que quer que fosse, Kakashi os viu tremer.

— Eu não te amo.

O homem sorriu suavemente escutando aquelas palavras e sua admiração por ela cresceu imensamente. Ela era absurdamente forte e tão gentil, e por mais que o quisesse fazer acreditar naquela declaração, Sakura sempre teve as expressões mais honestas. Ainda que seu olhar não tivesse vacilado, todo o resto era pura hesitação.

— Mentirosa.

Kakashi respondeu tocando-lhe o rosto com a ponta dos dedos. Ela recuou um primeiro momento com o choque de suas palavras, mas não havia como não ceder, porque o conforto que lhe invadiu quando finalmente deitou seu rosto na mão masculina fora absoluto. Sakura fechou os olhos sentindo os dedos em sua pele, sentindo seu coração martelar tão intensamente dentro de si como se fosse explodir em algum momento enquanto as lágrimas rolavam por seu rosto brevemente até chocarem com a mão dele.

— Como você pode me dizer isso com essa expressão e esperar que eu acredite?

Ele disse admirando cada lágrima, cada suave ruído de sua respiração levemente alta. Ela estava ali em sua mão e de alguma forma, mesmo em meio a lágrimas, Kakashi sentia uma certa serenidade sendo emitida, como se ela estivesse apenas reunindo suas energias enquanto simplesmente se deixava ficar tão quieta por apenas um momento. Talvez ela gostasse mesmo da voz dele, e o pensamento aleatório o fez rir antes de continuar.

— Você é a pessoa mais forte que eu já conheci. Eu apenas ouvi sua história e fiquei tão inquieto, tão incomodado, imaginando que eu podia ter aparecido antes pra você e ter te poupado de tanta coisa. É um pensamento idiota, eu sei, mas era melhor do que os que eu estava tendo com relação ao homem que te causou tudo isso. Nunca me senti tão... – E deixou o ar escapar pela boca, como se precisasse soltar a tensão antes que voltasse com seus sentimentos de raiva e revolta.

Nunca fora um homem agressivo, e apesar de já ter saído no soco com alguém, Kakashi se considerava alguém bastante civilizado, mas a verdade é que nunca desejou tanto poder bater em alguém como naquele dia.

Teve medo que Sakura pudesse ver tanta agressividade em si e precisou escutar sua história um pouco mais longe, deixando que ela relatasse tudo o que queria, afinal era o momento dela e ele apenas tinha que aguentar, mesmo que estivesse se sentindo tão zangado sobre tudo, tão enfurecido pelas situações em que a sua Sakura teve que passar de maneira tão desnecessária.

Kakashi queria poder mudar tudo.

— Não consigo imaginar pelo que você passou, mas tudo o que você me disse só me fez perceber o quão incrível você é, e mesmo sabendo que você é tão forte a ponto de enfrentar o que vier pela frente, eu ainda quero estar ao seu lado. – E fez uma pausa para ouvir as próprias palavras flutuando no ambiente enquanto a moça lhe abria seus olhos verdes tão intensos, tão relutantes. — Sakura... Me deixe ficar do seu lado. Não faça de mim sua fraqueza, mas sim sua força.

Ela o olhou por um longo momento considerando as palavras dele que pairavam por todos os lugares de seu corpo. Aqueles eram seus sentimentos genuínos? Ele realmente não a achava repugnante? Como assim uma pessoa forte? Porque ele acharia isso? Sakura continuou olhando para ele com seu cenho franzido mergulhando entre as questões, e diante daquele último pedido, Sakura vacilou novamente.

Kakashi ainda a olhava da mesma forma, com aquela expressão de bobo apaixonado, cheio de amor, cheio de ternura. Kakashi ainda tinha aquele sorriso nos lábios, e ainda parecia enxergá-la como sua pessoa favorita no mundo. Era assim que ele a olhava naquele momento, era assim que ele a via. Forte a ponto de aguentar por tanto tempo aquele relacionamento em prol da segurança de seus amigos, e mais ainda, era tão absurdamente forte a ponto de negar seus sentimentos para que ele apenas fosse embora e se mantivesse distante de tudo.

Era assim que ele a via, e ela entendeu tudo isso apenas naquele olhar tão doce e aveludado.

— Você me acha mesmo forte? – Ela perguntou tirando a mão dele de seu rosto, sorrindo para ele com certo humor na voz. Era um misto de provocação e duvida real.

— A mais forte de todas – O homem respondeu sorrindo genuinamente, fazendo aquelas rugas de sorriso surgirem pelo seu rosto e lhe deixarem cada vez mais charmoso.

Virou o rosto brevemente para olhá-lo de canto numa expressão desconfiada. Havia bom humor ali, como se a tensão estivesse simplesmente dissipando. Kakashi havia feito isso. Ele estava soprando as nuvens pesadas para longe com aquele sorriso ridiculamente perfeito. Quem podia se prender ao passado diante daquilo?

Ele sorriu divertido e encurtou a distancia entre eles. Precisava beijá-la, e assim tocou aquela bochecha rosada com seus lábios uma, duas, três vezes. Sakura se virou para ele, segurando o rosto do homem e o beijando dessa vez no lugar certo. Seus lábios se encontraram em meio àqueles sorrisos bobos, e Kakashi parecia tão delicado em seu gesto enquanto a puxava brevemente para si.

A mulher se afastou brevemente para olhá-lo e era estranho, mas de alguma forma Sakura sentia que algo havia mudado. Kakashi não era mais o mesmo de horas atrás, sua relação não era mais a mesma.

Tudo mudou.

— Você vai mesmo ficar?

— Sim.

Uma resposta simples e direta para uma pergunta simples e direta. Sakura o olhou por mais um momento, seus olhos tentando decifrá-lo enquanto tudo nele soava como uma certeza.

A mulher o beijou novamente, mas dessa vez exigiu dele muito mais que a delicadeza de outrora. Seus lábios se moveram mais intensos, Sakura o guiava com sua língua determinada a fazer daquele beijo muito mais do que singelo ou amoroso. Ela o queria sentir para medir de que forma tudo havia mudado, queria entender o quê exatamente tinha se transformado naquele momento.

Porque Sakura precisava dessa definição. Sakura não podia se manter no campo da incerteza e ver onde vai dar, porque Sakura precisava estar completamente convicta que se ele ficasse então seria para valer.

Naquele momento Kakashi hesitou. Fora apenas um segundo. A mudança de tom foi tão abrupta e depois de tudo o que foi dito, seria certo se deixar levar para esse campo? Seria certo tocá-la daquela forma depois dela ter revirado suas memórias mais dolorosas e revelado a profundidade de seus traumas? Kakashi não queria soar leviano, mas ele também não podia errar com ela, não naquele momento.

Recuou brevemente, olhando para ela em busca de sua permissão.

— Kakashi, faça amor comigo.

No breve instante em que a olhava, Sakura deixava muito claro o que buscava. Fazer amor? Seus olhos pareciam estar presos um no outro como imãs que se atraiam inevitavelmente. Ela estava tão certa com aquele ar um tanto lascivo um tanto misterioso. Kakashi precisou de menos de um segundo para responder aquele óbvio pedido.

Tomou os lábios femininos sem nenhuma pressa, se deixando apreciar cada movimento mínimo que sua boca fazia ao conduzir aquele beijo tão cadenciado. Sentou-se ao lado dela apenas para acomodá-la em seu colo, deixando que Sakura abrisse botão por botão de sua camisa enquanto ele a beijava por todos lados, fazendo-a sentir seus lábios por toda a pele exposta de seu pescoço de maneira tão tortuosa.

Quando Sakura desfez aquele último botão, ela escorregou a camisa dele pelos braços fortes antes que as mãos masculinas a abraçassem com mais intensidade, tocando sua pele por cima do tecido de sua blusa já arruinada pelas emoções da noite. Não demorou para que ele apenas continuasse seus beijos que evocavam todos aqueles arrepios pelo seu corpo. Ombros, colo, pescoço, orelha... Era como se Kakashi quisesse sentir toda sua pele com os lábios, como se venerasse cada pedaço mínimo de si.

O deleite era inevitável. Sentia todo o corpo responder àquele toque já conhecido, que lhe segurava as laterais das cochas de maneira firme enquanto se arrastava na direção da sua bunda. Suspirou antes que ele a tomasse os lábios, fazendo seu caminho por dentro do short largo que ela usava, vencendo o espaço restrito para acariciar seu clítoris com aquela delicadeza tão típica dele.

Fechou os olhos apenas sentindo-o em si com seus movimentos tão cuidadosos, com seu corpo quente tão junto ao seu. A respiração dele era intensa e quando ela o olhou por um breve momento, Kakashi parecia completamente tomado por um sentimento, absorto nas sensações que provocava enquanto a olhava exatamente como ela queria.

Com desejo.

Sakura precisa disso. Ela precisava saber que Kakashi ainda era Kakashi. Precisava por aquelas palavras a prova e saber que ele ainda a queria do mesmo jeito. Sakura precisava saber que eles ainda tinham aquela mesma conexão e que estavam na mesma situação.

Mas havia algo diferente.

Rebolando em seu colo de maneira sôfrega, a mulher sentia seu corpo querer cada vez mais. Se levantou brevemente apenas para se livrar de qualquer roupa que adornasse seus quadris para então sentar-se novamente de frente para ele, tomando seus lábios, sentindo sua ereção firme logo abaixo de si. Ela esfregava seu corpo no dele, exigindo mais, querendo mais.

E Kakashi sempre dava mais com suas mãos grandes se fazendo presente em sua pele, com seus lábios chupando avidamente seu mamilo enquanto ela gemia em prazer. Não importava o quanto Sakura demandava, Kakashi sempre supria qualquer que fosse a necessidade com sua intensidade tão densa. E não se tratava apenas da luxúria do ato, não era apenas Kakashi buscando o sexo.

Não.

Era ele lhe dando tudo.

Sempre lhe dera, desde o primeiro momento. Kakashi nunca soube dosar essa parte de si que se doava por completo em determinados momentos, e esse era um deles. Foi assim naquele dia em que ela aceitou seu pedido de show privado, onde sem querer pediu por mais e ele, talvez sem nem perceber, se deu por inteiro.

Suspirou sentindo-o dentro de si, o abraçando naquele momento de pura epifania, porque ela conseguia ver tudo tão claramente quando se livrava desses receios bobos, dessas ideias sobre ser ou não alguém digna de estar com alguém como ele. Quando tudo isso se tornava pequeno, Sakura conseguia ver claramente Hatake Kakashi.

O homem soltou seu ruído rouco em prazer, propagando aquela voz deliciosa por todos os lugares, e Sakura sorria enquanto se movimentava em cima dele, sentindo-o entrar e sair de si, sentindo as mãos grandes segurarem-na daquele jeito tão certo, tão firme. Ele a puxou para perto dele, mantendo-a com seus braços e corpo, fazendo tudo ser tão mais deles, tão mais íntimo.

Céus...

Ela tinha sido tão cega esse tempo todo, e enquanto sentia o prazer lhe subindo por todos os lados, enquanto sentia a respiração quente dele em sua pele, enquanto o sentia dentro de si prestes a atingir seu ápice, Sakura finalmente entendia o que havia de diferente naquele momento.

Finalmente, depois de tanto tempo, Sakura se sentiu livre.

Sorriu enquanto empertigava seu corpo subitamente, as lágrimas escorrendo de seus olhos em sinal daquele sentimento tão forte que lhe arrebatava. Era o prazer do ato, era a intensidade de Kakashi, era seu sentimento tão novo de liberdade que lhe levaram a um completo êxtase. Kakashi a olhou por um breve momento e ela mirou os olhos dele sem sequer hesitar.

Foi um simples segundo.

Brevíssimo.

Mas foi o suficiente para que tudo convergisse. Ele viu as lágrimas nos olhos dela, viu o sorriso nos lábios, viu o prazer em seus olhos transparentes que eram acometidos com todos os sentimentos de sua liberdade. Desde o primeiro momento Kakashi a fez livre.

Tudo fazia sentido quando pensava naquele dia em que Ino lhe disse que Kakashi também tinha um coração frágil, porque relacionamento é se arriscar, é tudo ou nada.

E era bizarro, mas agora ela sentia como se para Kakashi sempre tivesse sido o tudo.

...Sakura...

Tão doce.

Como se fosse sua palavra favorita.

Ela segurou o rosto dele entre as mãos sorrindo de maneira genuína, encantada com aquele homem que jamais desistiu de si e lhe deu tudo desde o começo, ainda que a única coisa que ela pudesse dar em troca fosse o benefício da dúvida, e ele apenas aceitou isso e se jogou mesmo assim.

O beijou brevemente, rápido.

— Fique. – Disse com um sorriso nos lábios, olhando para o homem com uma certeza que raramente sentia, mas que agora que tinha, agarraria com tudo que tinha — Seja minha força.

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I miss my reviews ): where are you guys? Talk to me.

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