O chiado do metal em contato com a amoladeira guiou os passos de Kirin. Os primeiros raios da manhã mal tocavam o pátio, mas o ar já estava denso do lado de fora da fortaleza. Em um canto do terreno, a origem do chiado se revelou. Yano, sentado em silêncio, afiava a lâmina curvada de seu sabre.
Yano era um dos setenta e sete guerreiros especiais de Mukuro. Vinha fazendo parte da equipe por pelo menos cem anos e, apesar do respeito que nutria por sua rainha, não escondia sua divergência no tocante a muitos assuntos — inclusive a ronda que era obrigado a fazer para resgatar humanos perdidos no Makai.
— Não está em serviço hoje?
— Se refere ao castigo de Enki? — Yano falou, sem tirar os olhos da amoladeira — É minha folga.
Kirin refreou o impulso de reprimir Yano. Não era a primeira vez, e certamente não seria a última, em que mostrava seu descontentamento com aquele arranjo. Ele sabia que se tivesse a liberdade, Yano comandaria seu próprio exército para tomar as terras de Gandara e os demais reinos do norte. Mas Mukuro era experiente o bastante para saber que não devia dar poder demais a Yano. O mantinha perto, pois era valioso guerreiro. Mas deixava as rédeas curtas para não lhe comprometer.
— Ótimo. Preciso que faça um trabalho — Kirin falou. E após uma pausa, acrescentou — Ordens de Mukuro.
— Estou ouvindo.
— Busque Hiei no calabouço ainda hoje. Certifique-se que perca a mobilidade dos braços. Definitivamente.
O chiado da amoladeira cessou. O sol refletia debilmente no metal espelhado do sabre.
— Por que continuar o mantendo aqui? Por que não o matam de uma vez?
— Ordens de Mukuro — Kirin repetiu — Algum problema, Yano?
— Nenhum. Permissão para usar meu sabre?
— Use o instrumento que achar melhor. Apenas execute o trabalho.
Yano aquiesceu. Antes mesmo de Kirin se distanciar, os contornos de seu rosto já eram outros. Voltou a amolar o sabre sentindo a sede de sangue vindo o provocar. O demônio de estimação de Mukuro perderia muito mais do que os braços se dependesse de Yano.
(…)
Hiei olhou apático para a própria mão. O punho fechado sangrava, os ossos doíam, a pele quase se soltava dos dedos. Seus socos haviam destruído quase que integralmente a parede da prisão em que se encontrava, única maneira que encontrou de arrancar a corrente que o prendia ali. Havia perdido a noção do tempo — tudo que sabia era que muito certamente o dia já havia raiado do lado de fora.
Como já imaginava, a grade havia sido deixada aberta. Olhou com antipatia para os dois corpos mutilados na cela e soltou um muxoxo de reprovação. Mukuro tinha sorte do Makai não estar em guerra: se aqueles dois representavam o nível atual da base de seu exército, perderia qualquer batalha fácil para Yomi.
Assim que saiu da cela, resgatou sua katana. Olhou para a lâmina e, em um movimento rápido, desceu a espada em direção ao grilhão de metal que ainda envelopava seu tornozelo. Um barulho estridente e o metal se rachou. Sorriu satisfeito. Ainda estava afiada.
Subiu as escadas com apenas uma intenção em mente: encontrar Rina. A ausência de notícias sobre ela o enervava. Sabia que aquele silêncio era parte do jogo de Mukuro em deixá-lo completamente alienado, mas esse era um tipo de jogo que ele já não tinha mais a menor paciência em participar. Desafiaria ela se fosse preciso.
Diversos youkais cruzaram seu caminho quando Hiei se embrenhou pelos corredores da fortaleza. Muitos paravam, apontavam o dedo, se perguntavam como Hiei estava solto e chegavam a ensaiar uma intromissão, mas bastava um olhar atravessado para inibir quase todos. Os poucos que não se acanhavam encontravam o fio da espada de Hiei e cambaleavam, feridos — alguns, mortalmente. O rastro de sangue que ficava cumpria a função de aviso para que não o incomodassem. Mas aqueles eram soldados rasos. Certamente um dos guerreiros de elite de Mukuro o interceptaria a qualquer momento. E esses não se acovardariam tão facilmente.
O primeiro lugar que procurou foi a enfermaria — era lá que os guerreiros costumavam se recuperar de ferimentos leves. Acreditava que Mukuro manteria a decisão de não autorizar o uso de sua Câmara de Recuperação em Rina, por isso duvidava que ela estivesse no laboratório. Isso se ela não a tivesse jogado em uma alcova qualquer, mas preferia acreditar que Shigure havia garantido um período de repouso minimamente decente para Rina.
Alcançou o corredor que levaria até lá e procurou pela porta certa. Estava fechada, mas destrancada. A abriu sem rodeios, deu alguns passos para dentro e parou.
A sala estava deserta. Hiei olhou de um lado para o outro, procurando algum indício. Vasculhou as macas, bagunçou os lençóis vazios, conferiu os equipamentos desligados e não encontrou nada que indicasse a presença de alguém. Nem um rastro fraco sequer de youki.
Hiei mostrou os dentes, irritado. Saiu da sala pisando com raiva, a mão formigando, desejosa para envolver de novo o cabo da espada.
Foi quando sofreu seu primeiro ataque.
(…)
Rina estava parada, rente a parede que descortinava um enorme átrio. A respiração estava falha, em parte pelo esforço que se submeteu para se soltar, em parte pela tensão que o momento proporcionava. A perna também contribuía para seu nervosismo: a cada passo, sentia como se milhares de pequenas agulhas se injetassem na pele. Queria ter arrancado as bandagens, mas ficou com medo do que encontraria. Preferiu suportar a dor.
Tinha passado a noite em claro, buscando uma maneira de se livrar das amarras da cama. Por horas, se focou em apenas uma, até sentir que abria um pequeno rasgo. Mais horas foram necessárias para expandir esse rasgo até ter espaço para passar sua mão. Quase quebrou os dedos no processo, e estava grata por não ter causado uma luxação no próprio pulso.
Com um dos braços livres, foi fácil alcançar um recipiente de vidro que, quebrado, serviu de objeto cortante para auxiliar com o resto das tiras de couro. Ganhou alguns arranhões de presente, tanto no pescoço quanto nas palmas, mas aquilo já era previsto.
Agora, vendo os demônios circulando tão perto dela, desejou ter mantido um dos cacos de vidro. Temia que sua energia estivesse se esgotando e que ela fosse desmaiar de pura exaustão, mas aguentou firme. Não era a primeira vez em que se colocava em uma situação tão estressante, mas era a primeira que a consumia daquele jeito. Era mais fácil no mundo dos homens, onde sua força era superior à maioria. Agora, entre outros da sua raça, ela se sentia pequena. A confiança que sempre tivera ameaçava escorrer do seu corpo e era inevitável a sensação de que todos seus passos serviam apenas para adiar a morte inevitável que encontraria naquele mundo.
Ao menos as coisas tinham dado certo até agora e ela não acreditava na sorte que havia tido. Os corredores depois da ennfermaria estavam desertos e seu disfarce não havia sido descoberto em momento algum. Mesclada com o ambiente ao seu redor, Rina passava despercebida. Mas a preocupação ainda não havia deixado seu corpo totalmente. Aquela não era uma técnica perfeita. Primeiro porque funcionava melhor em ambientes abertos do que lugares fechados. E segundo pois caso se movimentasse rápido demais, as falhas ficavam aparentes. E como sua energia continuava presente, ainda que difusa, seres mais sensíveis a ela poderiam a captar. Por isso ela sabia que estaria dando um tiro no escuro. Uma coisa era fugir de humanos. Outra bem diferente era se esconder de demônios altamente evoluídos em um ambiente que lhes era familiar.
Ainda assim ela precisava tentar. Buscou uma saída, correndo os olhos de uma ponta a outra e calculando a distância. Achou uma brecha. Por um instante, sentiu o corpo leve como se caminhasse nas nuvens, como se estivesse muito longe dali. Tudo parecia etéreo. Deixou a sensação persistir enquanto dava os primeiros passos.
Então uma fisgada puxou seu braço para trás. Primeiro veio a surpresa, só depois o temor.
— Aonde pensa que vai?
(…)
— Como conseguiu escapar?
A pergunta foi acompanhada de um golpe do sabre de Yano. Hiei levantou a espada em defesa e o aparou no ar.
— Saia do meu caminho!
A mão que envolvia a empunhadura da katana doía, o braço doía, mas Hiei jamais deixaria que seu oponente sequer suspeitasse que não estava nas suas melhores condições.
— O que deu em você para trazer uma meretriz para a fortaleza? — Yano perguntou — Todos sabiam que era nos lençóis de Mukuro que se deitava todas as noites.
— Cale a boca!
Hiei o afastou com um chute, mas Yano voltou a atacar, quase tão ágil quanto Hiei. Seus movimentos eram leves, apesar do seu porte musculoso, e o sabre era quase como uma extensão do seu corpo. Tentando retardar seus movimentos, mirou a katana na panturrilha do youkai, mas arrancou somente um corte superficial. Yano era eficiente quando se tratava de desviar dos ataques de Hiei, algo que ele sabia e lhe causava ainda mais dissabor.
— Desgraçado… — Yano falou, ao sentir o corte.
O metal das espadas tilintou mais uma vez quando Hiei investiu novamente. Procurou uma abertura para o desequilibrar com um ataque corporal, mas as táticas de Yano estavam mais afiadas do que ele se lembrava. Yano era rápido no esgrima e bloqueava as tentativas de Hiei com certa habilidade. E quando Hiei saltou mais uma vez para um ataque vertical, sentiu o chute certeiro que atingiu sua mandíbula e o fez perder o ar. Hiei caiu, sentiu as costelas estalando no contato duro com o chão e quase deixou a katana escapar das mãos machucadas. Grunhiu de ódio.
Antes mesmo que pudesse levantar, Yano o puxou pela gola e jogou sua cabeça contra a parede. O sabre tocou seu ombro.
— Sabia que Mukuro exigiu que amputássemos seu braço? — E Yano forçou a ponta da arma, abrindo um corte na pele exposta de Hiei — Mas eu não luto com aleijados. Queria ter o prazer de te derrotar por inteiro. Sua cabeça vai ser o meu troféu.
Hiei trincou os dentes, esquecendo por um instante a dor da perfuração no ombro e sentindo o ódio tomar seu lugar. Tudo que queria naquele exato momento era arrastar o rosto de Yano ainda vivo pelas paredes daquela fortaleza.
— Chega dessa brincadeira idiota — Hiei respondeu.
Forçou o corpo para frente, se afastando alguns centímetros da parede. A lâmina entrou mais fundo em seu ombro e o sangue escorreu como água, mas Hiei não pestanejou. Deixou sua energia fluir e compeliu o youkai, o empurrando para trás.
Assim que abriu espaço, desviou para o lado com rapidez, para em seguida se lançar em direção a Yano, dessa vez envolvendo o punho em chamas púrpuras. As chamas eram seu estado natural, seu elemental mais puro. Brandas como estavam, não costumavam lhe causar nenhum tipo de lesão. As controlava com facilidade. No entanto, hoje elas ardiam. Pareciam querer lhe consumir. Mas isso não o deteria agora.
O demônio tentou bloquear o golpe, mas tomado pelas chamas, o ataque de Hiei ficava ainda mais potente. As labaredas inevitavelmente tocaram a pele de Yano, que gritou com a dor da queimadura. Por um instante, fraquejou, e Hiei aproveitou o momento para dessa vez o acertar com força como devia. Socou o abdômen do demônio na altura do diafragma repetidas vezes, chamuscando o tecido que o cobria e deixando uma marca enegrecida em seu torso. Yano arquejou e seu lamento ecoou pelo corredor enquanto caia de costas.
— Vou te dar uma chance — Hiei falou, aproximando o pulso ainda em chamas para perto do rosto do oponente — Não me obrigue a usar o Jagan em um verme imundo como você. Me diga onde está Rina e te dou uma morte rápida.
Yano tentou se afastar, puxando o corpo para trás até se chocar com a parede. O sabre havia voado durante o último ataque e agora jazia metros além dele.
— Por que eu deveria saber?
— Você está me fazendo perder a paciência!
Yano arfou. Um cuspe de sangue saiu de sua boca ao tossir.
— Vá pro inferno — falou, com dificuldade.
— É mesmo um inútil…
Hiei sentiu com gosto o punho arder no contato com o maxilar de Yano. Mesmo protegido pelo fogo que controlava, o soco que desferiu no youkai foi pesado o bastante para ele também sentir a força do murro. Manteve as chamas pelo tempo que foi necessário. O cheiro de carne queimada subiu até suas narinas e só então Hiei o soltou.
(…)
Mukuro olhava com curiosidade para Rina a sua frente. Tinha as mãos atadas na frente do corpo, amarradas por algemas feitas apenas de youki. Evitava encarar Mukuro, deixando o olhar endurecido se perder pela paisagem do Makai que conseguia ver da janela.
Foi com certo espanto que Mukuro havia encontrado Rina no átrio da fortaleza nas primeiras horas da manhã, um borrão que tentava se fundir com as estruturas internas da fortificação. Decidiu a prender novamente, apenas as mãos dessa vez, com algo que ela não conseguiria arrebentar, e a levou para uma sala mais reservada. Ordenou seus soldados que a deixassem a sós. E manteve o silêncio enquanto estudava a criatura audaciosa — ainda que inocente — que tinha em sua posse.
— Estou impressionada — Mukuro falou em certo ponto — Com sua ousadia e sua habilidade igualmente. Por que tentou fugir escondida?
— Acho que está claro — respondeu, erguendo as mãos presas.
— As algemas são meramente uma precaução. Estava sendo mantida em minha enfermaria, e não em uma cela.
— Então faz isso com todos os seus hóspedes?
Mukuro deu uma risada discreta. Rina permaneceu séria. Voltou a olhar a paisagem.
— Shigure acredita que você faltou com a verdade quando conversaram pela primeira vez. É verdade?
Rina não se mexeu. Ficou calada por um instante, até um sorriso diminuto tocar seus lábios.
— Shigure queria uma história e eu o dei — falou, a face ainda virada para um lugar longe dali.
— Entendo sua desconfiança. Também não estou deixando claro minhas intenções.
Rina sentiu o efeito daquelas palavras. Sua respiração alterou, ainda que de leve. Havia uma animosidade velada no tom calmo com que Mukuro se dirigia a ela, quase um sinal de perigo. A energia maligna era evidente.
— E quais seriam elas? — Rina perguntou.
Mukuro retardou a resposta, ainda a estudando com certo interesse. Caminhou até a janela ao lado de Rina e olhou a vista. O sol já cobria todo o terreno, deixando a paisagem vermelho-terra quase brilhante.
— Muitos traficantes de escravos dariam tudo para ter uma mercadoria como você — Mukuro comentou — E tribos inteiras estariam dispostas a barganhar uma troca. Pedi que Kirin negociasse e escolhesse a oferta mais vantajosa.
— Então vai me vender.
Mukuro voltou a ostentar o sorriso irônico, a cabeça ligeiramente para o lado para ter certeza de que Rina podia ver seu rosto.
— Por causa da minha suposta linhagem?
— Não é todo dia que tenho nas mãos a herdeira perdida de um clã extinto há séculos.
— Ou é por causa de minha proximidade com Hiei?
Silêncio. Depois, uma risada.
— É bem atrevida por sugerir algo assim — Mukuro falou — Acha que estou agindo por ciúmes? Por sentir algo por ele?
— É a única explicação para não tê-lo matado ainda.
Rina esperou a resposta. Disfarçou a ansiedade contida em seu peito. Não tinha notícias de Hiei desde que fora levada para a mesa de operações, e ele bem já podia estar morto ou longe dali. Mas decidiu arriscar e jogar a isca. Torceu para que Mukuro a engolisse.
— E se eu o matar?
Outra pausa. Alívio e surpresa ao mesmo tempo.
— Seria uma inconveniência — Rina falou, escondendo da voz qualquer emoção — Hiei é um bom guia.
A aura de Mukuro se tornou desconfortável daquela distância. Estavam próximas demais. Rina não tinha certeza se era intencional, mas ao mesmo tempo duvidava que Mukuro não colocasse intenção em cada um de seus passos. Principalmente quando o objetivo era a intimidação.
— Continua mentindo… — ela falou.
Rina se manteve inexpressiva. Sabia que Mukuro esperava uma reação, mas não daria algo do tipo a ela. Uma certa impaciência começava a crescer dentro dela e ela não entendia o sentido daquela conversa. Se era tão desimportante para Mukuro assim, por que gastava seu tempo com explicações? Mas novamente decidiu que não permitiria que suas inquietações se revelassem.
Deixaria que a youkai falasse. Habituada estava com manipulações — ela mesmo já havia feito esse papel inúmeras vezes. Mas não conseguiu reprimir que uma centelha de curiosidade escapasse ao ouvir o que Mukuro tinha a dizer.
A olhou com receio e raiva ao mesmo tempo. Detestou a astúcia presente no sorriso indecente da youkai ao lhe fazer a pergunta. O primeiro impulso de Rina foi dizer "Não", mas se conteve. Sabia que era seu orgulho se manifestando. Mukuro esperou, pois estava segura do resultado.
E decidiu fazer a pergunta novamente, observando o desgosto de Rina ao enunciar cada palavra.
— Aceita minha proposta?
