Capítulo XIII – Animagia

"Em vez disso, fizeram uma coisa por mim que não só tornou as minhas transformações suportáveis, como me proporcionou os melhores momentos da minha vida." – Remo Lupin, HP e o Prisioneiro de Azkaban


Sirius ouviu toda a minha explicação em silêncio, numa calma que sugeria que todos os dias ele recebia a sugestão de se tornar animago ilegalmente. Alunos passavam à nossa volta, mas eu não estava preocupado com a possibilidade de alguém ouvir. Havia tanta conversa no Hall de Entrada naquele momento, tanta animação com a visita a Hogsmeade, que não havia como alguém pegar parte da nossa conversa.

Quando acabei de falar, ele continuou parado por alguns minutos, contemplando as portas por onde as pessoas saíam, com o mesmo distanciamento que eu sentia, como se estivéssemos presos em uma bolha só nossa.

- Nós precisamos ir à biblioteca – ele disse, por fim. – Nós precisamos verificar. – Abri a boca para retrucar, mas ele me interrompeu, já sabendo o que eu ia falar. – Eu sei que você está confiante, mas precisamos confirmar exatamente o que acontece... Se der errado, Remo nunca vai se perdoar.

Ele me olhou com urgência, e acenei, concordando. Por mais estranho que fosse Sirius Black me recomendar cautela, eu sabia que ele estava certo, e, ainda mais estranhamente, eu o compreendia. Ele poderia se arriscar à vontade naquela minha ideia maluca, mas ele não arriscaria Remo.

Me lembrei de como Sirius estava pálido quando falou comigo e com Severo logo após o incidente com o Salgueiro Lutador; me lembrei de como ele pareceu deslocado de tudo naqueles dias logo após, em que os outros Marotos não conversavam com ele.

Sirius nunca mais arriscaria o amigo.

Nós subimos as escadas, na direção contrária ao fluxo dos últimos alunos que desciam, em direção à saída atrás de nós. Era um dia bonito de inverno, ensolarado e sem vento. Me ocorreu que o passeio em Hogsmeade seria muito agradável.

Mas ir para Hogsmeade era a última coisa na minha cabeça nesse momento. A adrenalina circulava pelas minhas veias, me inundando de vontade de agir.

Eu sabia, como nunca tivera certeza de nada antes, que a animagia era o segredo para que Lupin não precisasse mais ficar só durante as noites de lua cheia.

A biblioteca estava quase vazia quando entramos. Havia só alguns alunos do primeiro e segundo ano por ali; mesmo aqueles em anos de exame não iam desperdiçar um dia daqueles na biblioteca.

Eu e Sirius nos olhamos, na divisa entre as seções de Transfiguração e Defesa Contra as Artes das Trevas.

- Vamos nos dividir – falei, me dirigindo à seção de Transfiguração, que eu conhecia melhor; ele acenou e foi para o outro lado. Dez minutos depois, nos sentamos em uma mesa vazia, com diversos livros nos braços, e começamos a procurar.

Não era exatamente uma tarefa divertida, mas eu e Sirius ficamos em silêncio, concentrados. A maioria dos livros à minha frente tratava de vários aspectos teóricos da transfiguração, mas a parte sobre animagia era bem pequena – quando existia; não era um tópico muito comum para o currículo escolar. Na minha frente, Sirius apenas franzia a testa enquanto ele afastava os livros; eu imaginava que os capítulos sobre lobisomens também não eram muito explicativos.

Levei a manhã toda para encontrar duas referências nos quarenta livros que folheei. A essa altura, o sol estava a pino, brilhando sobre o gramado ainda cheio de neve da escola.

- Esse livro diz que o animal é completamente dissociado do bruxo – falei finalmente, indicando o Manual de Transfiguração Especial aberto à minha frente. – Mas não sei se confio no autor. Ele defende que o animal tem reações independente da vontade do bruxo, de acordo com a sua própria natureza, o que não faz sentido.

- Não – Sirius concordou, parecendo grato por uma distração. – Não imagino McGonagall saindo por aí e caçando os ratos do castelo.

- Ou ronronando aos pés de alguém – comentei, e quando meu olhar encontrou o dele, caímos em risadas silenciosas. – Gosto desse artigo na Transfiguração Hoje – acrescentei, quando finalmente voltamos a ficar sérios. – Foi escrito pelo Professor Dumbledore há alguns anos.

- Não sabia que ele era um animago.

- Ele não consta na lista dos animagos registrados, até onde eu sei. Esse artigo é bem teórico, mas fala basicamente que o animal é só uma extensão do bruxo, é só uma outra forma, mas, no final, o animago continua como ele mesmo.

Sirius pareceu animado.

- Isso é bom!

- Sim, mas não responde a nossa dúvida maior – suspirei. – Sabemos que a pessoa não muda quando vira um animal, então vamos reter nossa consciência, mas não sabemos o que acontece quando ela volta a ser uma pessoa. Ou seja...

- Continuamos a pesquisar – ele completou, resoluto. – Estou quase acabando a seção sobre... você-sabe-o-quê.

Ergui as sobrancelhas, olhando para a pilha de livros na frente dele. Eram poucos.

- Só tem esses livros?

- Lobisomens não são um tema popular – Sirius esclareceu, em voz baixa. E então ele olhou irritado para a pilha de livros, como se ela tivesse lhe feito uma ofensa pessoal. – E eu nem sei por que metade dos autores sequer escolheu mencioná-los nos livros. Eles parecem ter tanto preconceito que não estudaram direito, é mais mitologia que qualquer coisa.

Franzi a testa também e, com um suspiro pesado, Sirius voltou a se concentrar no livro em suas mãos.

Passaram-se mais duas horas até que finalmente encontrei, em um livro bem antigo, a citação que eu procurava para nos acalmar.

- "O bruxo transformado" – li em voz alta – "mantém sua consciência, mas o corpo do animal é separado do corpo do bruxo. As características físicas não são mantidas, à exceção de características específicas que podem refletir a personalidade do bruxo e são reproduzidas no animal, como cicatrizes ou marcas de nascença". – Ergui os olhos do livro para encarar Sirius. – Aqui menciona um bruxo que podia virar uma coruja... o que é legal, animagos que se tornam aves são bem raros... enfim, a visão dele era perfeita à noite, uma habilidade que o bruxo obviamente não tinha.

- E no retorno?

- "Da mesma forma, ao retornar ao corpo do bruxo, as características do animal são subjugadas em sua maioria. Os eventos ocorridos com o animal serão lembrados pelo bruxo, mas seu corpo não deverá apresentar qualquer marca durante o período da transformação, exceto em relação a mudanças físicas graves". – Respirei fundo e sorri para tentar passar confiança. - Viu? Enquanto mantivermos todos os membros intactos, não ficaremos com marcas no corpo.

Sirius pareceu desconfortável com algo. Depois de alguns segundos em que ele evidentemente debatia internamente se deveria ou não falar algo, ele disse, numa voz baixa e atormentada:

- Remo tem cicatrizes no corpo. – Quando franzi a testa, tentando entender, ele suspirou e desviou o olhar. – Por causa da transformação. Eu não sei exatamente, mas... acho que são auto infligidas.

Olhei para ele com um misto de choque, repulsa e lamentação.

- Ele faz isso consigo mesmo?

Sirius acenou; ele olhava pela janela como se não registrasse nada da paisagem.

- É por isso que ele nunca troca de roupa na nossa frente, por isso que ele é todo recatado na maior parte do tempo.

- Mas... não é culpa dele, se ele não pode controlar...

- Eu sei disso, mas não sei se Remo sabe – Sirius observou, numa voz triste. - Se ele se ataca...

Respirei fundo para organizar meus pensamentos.

- Bem, como animal não teremos problema com ataques, certo?

Ele me encarou por um instante antes de indicar dois livros.

- De acordo com esses autores, somente seres humanos estão em risco. A... dieta... é exclusiva em seres humanos, não há um único registro de ataque contra outros animais, nenhum outro que tenha sido mordido... Na verdade, parece que alguns deles inclusive mantiveram famílias com lobos...

Eu sorri.

- Exatamente! – falei, satisfeito por ele estar repetindo o que eu lhe havia dito quando sugeri o plano.

Sirius não desviou o olhar do livro.

- Também não há registro de ninguém tentando o que você sugeriu – ele observou, numa voz sombria. A irritação me envolveu.

- Se você não quer tentar...

- Eu não falei isso – ele retrucou imediatamente, indignado, me fitando. – Eu gosto da ideia. É isso que me preocupa. – Sirius suspirou. – Todos esses livros tratam a condição dele como se Remo fosse um monstro, como se ele não merecesse sequer viver... Eu acho que já te falei antes, mas desde que descobri o... a...

- O problema peludo – sugeri, e ele sorriu brevemente antes de voltar a ficar sóbrio.

- Isso, o problema peludo. Sempre pensei em como ajudar Remo. É horrível o seu melhor amigo passar todos os meses, vê-lo sofrendo, e não ter nada que você possa fazer... Imagine se fosse Snape, entende?

- Eu não preciso imaginar – respondi, levemente ultrajado. – Posso não ser o melhor amigo de Lupin, mas eu me importo com ele também, ou não teria te sugerido...

- Você está certo, desculpe – ele apoiou a cabeça no braço, me olhando de lado. – Eu só me preocupo porque se der errado... Remo...

- Eu entendo, Sirius – respondi honestamente, sentindo uma súbita vontade de confortá-lo. Era uma reação estranha, mas não pude me conter. – Virar animago é horrivelmente complexo. São meses até dar certo, depende de muita autodeterminação porque, se der errado, e pode dar errado, as consequências podem ser desastrosas. Para você ter uma ideia, o curso era feito em Hogwarts antes, mas depois de dois acidentes, o curso precisa agora ser acompanhado pelo Ministério da Magia – e por bruxos especializados em reversão. E, depois de tudo isso, ainda tem o fato de que pode dar errado com o lobo... Então podemos olhar todos os livros, mas no final só tem uma pergunta que precisamos fazer.

- Vale a pena o risco? – Sirius questionou, acenando.

Nós nos olhamos e, naquele momento, achei que ele podia ler minha mente. Pela primeira vez na vida, me descobri analisando as nuances dos seus olhos cinza. Eles me lembravam um céu tempestuoso e me perguntei se era a necessidade de tornar aquele céu calmo e sem nuvens que atraía as pessoas para ele; se era isso que fazia com que Lily Evans gravitasse em torno de Sirius Black.

- Você sabe como me tornei amigo de Remo? – Sirius perguntou finalmente, e neguei com a cabeça. – No segundo dia em Hogwarts, minhas primas vieram falar comigo. Bellatrix e Narcissa. Elas estavam irritadas porque eu tinha sido selecionado para a Grifinória e estavam me falando sobre como eu não era um Black de verdade. Eu respondi que não queria ser um Black, e – ele corou – eu saí correndo. Elas gritaram que eu era um covarde, e eu me sentia um mesmo. Queria pedir para ir embora, ou então para que o Chapéu Seletor me selecionasse novamente, porque ele devia ter cometido algum erro... Eu não podia ser da Grifinória. – Ele se perdeu em pensamentos por um instante, antes de sorrir, nostálgico. – E então, Remo apareceu. Não sei o quanto ele ouviu, mas ele só se sentou do meu lado e ofereceu um chocolate. Disse que ia fazer eu me sentir melhor. E eu aceitei o chocolate e, lá pelo quarto pedaço, comecei a falar da minha família. Do quanto eu não queria ser como eles. Remo me disse que era preciso muita coragem para ser diferente, para pensar diferente de tudo o que tinham me ensinado.

- Ele está certo – respondi suavemente.

- E você sabe o que é pior? – Sirius continuou, como se estivesse em uma confissão. Havia uma angústia nova em seus olhos. - Quando eu descobri o... problema peludo dele, a minha primeira reação foi medo. Eu não entendia como Dumbledore podia estar arriscando todos, só conseguia pensar em como aquilo alguma hora daria errado... E me afastei no começo. Acho que ele percebeu, que ele soube, mas Remo nunca falou nada, nunca discutiu comigo, até que, depois de algum tempo, depois de muito tempo, lembrei de Remo me falando sobre coragem. Então eu enfrentei todos os meus preconceitos para poder estar lá por ele. Eu fui um péssimo amigo. Ah, Tiago... – ele soltou uma risada sem humor quando me viu abrindo a boca. – Não tem defesa.

A autocrítica na voz dele fez surgir uma revolta em mim. Sirius Black poderia ter seus defeitos, mas ninguém o acusaria de ser um amigo ruim; e que ele assim se considerasse parecia só errado. Qualquer um podia ver que ele amava os amigos como se fossem parte da família dele.

Não, me corrigi. Como se fossem a única família dele.

- Eu invejo você nisso, sabe – Sirius acrescentou, me tirando dos meus pensamentos. Pestanejei.

- Como assim?

- Há quanto tempo você sabia de Remo? Quando... bom... naquele incidente com Snape, você já sabia o que ele era, não é?

- Acho que sei desde o terceiro ano. Severo... Severo compartilhou sua teoria comigo e foi só bater as datas para ver que ele estava certo.

- E então? O que você fez?

- Nada – respondi, confuso. – Quero dizer, não tinha o que eu fazer. Achei que, se ele estava em Hogwarts, Dumbledore devia saber e devia ter algum plano. Depois que fui para Hogsmeade e ouvi as histórias sobre a Casa dos Gritos, eu meio que deduzi que devia ter algo a ver.

- Mas você nunca se preocupou com ele ser um perigo?

- Ele não deveria ser. Quero dizer, quando não fosse lua cheia. E... Uma vez eu falei que ele era a melhor pessoa do nosso dormitório, e mantenho isso. Você não foi a única pessoa com quem Remo foi legal. – Olhei para as minhas próprias mãos, fingindo mais interesse nelas do que o razoável. – Ele sempre esteve mais próximo a vocês, é claro, mas ele foi gentil comigo, sempre disposto a me ajudar, mesmo quando você... quero dizer, Remo sempre foi simpático até com Severo, antes de... antes dele desconfiar também e aí não querer mais se aproximar de Remo...

- Eu sempre me preocupei com isso – Sirius observou, com um toque de culpa em sua voz. – Que alguma hora você descobrisse e fosse contar para Snape. É por isso que quando o assunto surgia, eu tentava te despistar.

- Eu nunca faria isso – retorqui, inflado. – Sempre que Severo mencionava esse assunto, eu desencorajava...

- Eu sei, Potter – Sirius me interrompeu e, quando eu voltei a fitá-lo, descobri que ele tinha um pequeno sorriso no rosto, como em um gesto de paz. – Acho que você não estaria aqui se não se importasse com Remo e se não quisesse nos ajudar. Então, continuamos.

Acenei, sorrindo.

- E qual o próximo passo, agora? – ele perguntou, na mesma hora em que seu estômago roncava.

Eu ri.

- Vamos precisar estudar o processo de animagia, mas antes, fazemos uma visita à cozinha.


Eu estava na última mordida no sanduíche quando Sirius me lançou um olhar curioso.

- Desde quando você vem até aqui embaixo?

Eu dei de ombros.

- Desde o primeiro ano. Meu pai me contou há muito tempo como entrar na cozinha. Eu gosto de vir à noite, depois do toque de recolher.

- Hm... – Sirius ficou pensativo por alguns segundos. – Com a sua Capa de Invisibilidade?

Eu acenei com a cabeça. Os olhos dele brilharam, cheios de aprovação de um jeito que, por alguma razão, fez eu me sentir da mesma forma que me sentia ao descer para as cozinhas à noite para tomar chocolate quente.

Aquecido.

Meneei a cabeça para afastar essa sensação estranha, e olhei os elfos indo e vindo à nossa volta; me lembrei de Layla, quase podendo ouvir a voz dela na minha cabeça me repreendendo por ter comido um sanduíche apenas, ao invés de um prato mais saudável.

Ao meu lado, Sirius se levantou, indo em direção à pia. Alguns elfos se aproximaram, mas ele negou com as mãos, insistindo em lavar o seu prato ele próprio. Os elfos-domésticos se agitaram à sua volta, claramente inconformados com o seu gesto, mas Sirius não pareceu se importar. Ele sorria, divertindo-se com alguma piada interna.

Os elfos pareceram até felizes quando saímos da cozinha, o que era uma novidade para mim.

- O que foi isso? – perguntei, intrigado, me desviando dos pingos de água no ar quando Sirius agitou suas mãos para secá-las, como se fosse um cachorro depois de um banho.

- Eu gosto de fazer atividades manuais – Sirius respondeu simplesmente. Ele ficou alguns segundos em silêncio e então, como se tivesse decidido algo, voltou a falar. – Irrita os meus pais. Você sabe, eles são tradicionais, acham que fazer essas atividades é papel do elfo doméstico, que está abaixo de um Black.

- Você é rebelde.

Ele ergueu as sobrancelhas, arrogante, daquele jeito que fez as garotas da nossa turma suspirarem por ele desde o terceiro ano.

- Você só percebeu isso agora, Potter? – e apesar da expressão no seu rosto, sua voz não era soberba. Ele parecia compartilhar a piada comigo.

Sorri distraidamente. É claro que eu sempre vira Black como um rebelde. Ele tinha notas boas o suficiente para os professores não implicarem com ele, mas ele nunca seria um monitor, como Lupin era. Sirius Black atraía problemas, com a mesma força que ele geralmente os causava.

Só nunca tinha me ocorrido que ele era assim de propósito.

E pela primeira vez na vida, me perguntei como seria realmente ser Sirius, e ter a família dele. Uma família grande, repleta de Sonserinos, com um histórico de amor às tradições e ao sangue – algo completamente diferente da minha família. Como era mesmo o lema da família Black?

- "Sempre puro" – murmurei, e Sirius me lançou um olhar de lado. – É o lema dos Black, não é?

- É – ele respondeu, com uma careta que eu sabia ser direcionada a tudo que aquela frase representava. Então ele suspirou. – E como continuamos o nosso plano?

- Eu tenho alguns livros no dormitório que vão nos ajudar na metade do caminho. Infelizmente, é a metade final. Vamos precisar de um manual mais completo, e como essa informação não é divulgada facilmente entre os alunos, só há um lugar em que vamos conseguir esses livros.

- Deixe-me adivinhar – o rosto de Sirius era puramente maroto. Eu me vi acompanhando sua expressão. – Vamos precisar de um livro da Seção Reservada na biblioteca.

- Isso. Eu poderia tentar com Minnie, quero dizer, a Professora McGonagall, mas... o que foi?

Sirius tinha parado no meio da escada.

- Minnie? Você chama Minerva McGonagall de Minnie?

- Shiu! – pedi, olhando para os lados, mas as escadas estavam vazias. Sirius começou a rir. – É um apelido antigo, meus pais a chamam assim, mas ela não pode saber que eu sei disso!

- Eu nunca mais vou conseguir olhar para a cara dela sem pensar nesse nome! – ele disse, engasgando-se entre as palavras, quase se dobrando de tanto rir. Havia algo tão absurdo naquela cena que eu ri também e, por alguns segundos, ficamos nós dois rindo nas escadas. – Seus pais a conhecem? – ele perguntou finalmente, enxugando as lágrimas nos olhos.

- Desde que ela era criança – e quando Sirius franziu a testa, evidentemente fazendo as contas, eu dei de ombros. – Meus pais são bem velhinhos já.

- Oh – Sirius disse, aparentemente sem saber como responder. Eu estava acostumado a isso. Mesmo para padrões bruxos, meus pais já tinham idade muito avançada quando eu nasci.

- Então, a biblioteca? – perguntei, numa voz tranquila para desanuviar a situação.

Sirius me olhou curioso.

- Como você sabe tanto sobre ser animago? –perguntou.

Eu demorei um tanto a responder, sempre receoso de contar a minha ambição aos outros. Então meneei a cabeça, me sentindo tolo. Diante de tudo que estávamos planejando, meu medo de fracassar era irrelevante e desprezível.

E eu sabia que Sirius não iria rir ou zombar.

- Eu estou pré-matriculado no curso de animagia. Quero dizer, preciso das cartas de recomendação dos professores – por isso preciso de nove N.O.M., mas se tudo der certo, no ano que vem começo o curso de animagia.

Ele parou de andar mais uma vez, parecendo confuso.

- Mas... você não vai participar conosco? Achei que você também seria um animago.

- Eu vou. Só que do jeito normal, vou fazer o curso.

- Mas a ideia foi sua. Você vai acompanhar todo o processo e depois fazer o curso? Isso não faz sentido.

- Claro que faz – insisti. – Eu tenho todo um planejamento...

- Tiago – Sirius me interrompeu –, se você aguardar dois anos de curso, se você fizer isso, não vai poder ajudar Remo. – Ele hesitou, parecendo se decidir se continuava ou não. Seus olhos ardiam. – Não vai poder me ajudar. Eu não posso fazer isso sozinho.

- Você não vai estar sozinho. Os Marotos...

- Remo vai ser a pessoa mais contrária a essa ideia, você sabe disso. Pedro é esforçado, mas ele tem muitas dificuldades e vai precisar de toda ajuda que pudermos dar. E Lils... – ele engoliu em seco, como se pensar na amiga fosse difícil. – Lily não vai entender. Ela é extremamente corajosa, mas isso que queremos fazer não depende de coragem. Depende de um grande salto no vazio e no escuro, aceitando o risco pelo risco, e ela é muito racional para isso. Ela vai tentar contornar, procurar uma outra forma e não há. Eu sei disso porque estou quebrando minha cabeça há cinco anos nesse problema e nenhuma solução me pareceu tão certa quanto a sua. Então... eu preciso da sua ajuda, Tiago. – Os olhos dele me sondaram, mais tempestuosos do que nunca. – Posso contar com você?

Eu queria poder negar. Queria poder explicar que o ajudaria e o apoiaria em cada passo do processo, mas que não iria macular todos os meus últimos anos de dedicação e o único plano real que eu já tinha feito na minha vida por causa de Sirius Black.

Mas isso não era realmente por Sirius. Pensei no rosto alegre de Remo Lupin quando nos cumprimentamos pela primeira vez há cinco anos, na forma como ele não parecia acreditar que estava em Hogwarts, e como eu só entendera seu assombro depois de muito tempo; me lembrei das vezes em que ele me procurara depois de alguma peça que Sirius pregara em mim, me ajudando silenciosamente a reparar o que quer que Sirius tivesse feito, sem dizer nada – eu não teria acreditado nem aceitado se ele pedisse desculpas -, apenas estando lá por mim; e então me lembrei do seu rosto infeliz no dia seguinte aquele incidente no Salgueiro Lutador, na culpa evidente que ele sentia por algo que estava além de suas escolhas. Pensei no lobisomem me encarando e do medo que eu tivera apenas por vê-lo; Remo convivia com aquilo uma vez por mês e, mais do que nunca, tive noção de que Remo não merecia isso. Se havia algo que eu poderia fazer, como voltar atrás? Eu jamais poderia viver comigo mesmo se não fizesse nada.

E, de alguma forma, depois de ter cedido ao impulso da minha ideia e a compartilhado com Sirius, eu também não poderia viver com o fato de que ele tinha uma resposta para o problema de Lupin, mas não teria como fazê-lo. A ideia original era minha e eu garantiria que ela fosse ser cumprida.

Nem que, para isso, eu tivesse que me tornar um animago ilegal, sem nenhuma assistência.

A adrenalina voltou a correr pelo meu sangue; senti meu coração pulsando, daquele modo que apenas acontecia quando eu estava prestes a fazer algo muito inconsequente. E então, fitando Sirius, me ocorreu que eu não estava sozinho e sem apoio.

Eu não era estranho a correr riscos, mas seria a primeira vez que eu faria isso com alguém.

- Estamos juntos – confirmei por fim, e então ele sorriu brilhantemente. Não era o sorriso que fazia as garotas suspirarem por ele; era o sorriso que ele guardava para Lily Evans, que fazia com que seus olhos tempestuosos se acalmassem e que ele parecesse a melhor companhia do mundo.

Era o seu sorriso amigável.


- Alguma ideia de como faremos para retirar o livro? – perguntei, abrindo o malão para retirar minha capa da invisibilidade.

Deitado na sua cama, olhando para o teto da cama em dossel, Sirius franziu a testa, em concentração.

- A melhor forma de conseguir entrar na Seção Reservada é se houvesse uma confusão na biblioteca, mas ela não vai estar tão cheia assim até maio.

- Bom, vou estar invisível. Isso tem que contar para alguma coisa.

- Ainda vão ver a porta se abrindo sem ninguém por perto, não, vamos precisar cronometrar perfeitamente e a única coisa que ajudaria... hm...

Sirius se sentou de repente. Ele me olhava, especulativo, abrindo e fechando os punhos, estalando os dedos, como se estivesse se aprontando para uma batalha.

Ou como se travasse uma luta interna.

E então ele soltou um longo suspiro, como se decidisse que estava sendo tolo; seus ombros relaxaram e seus olhos brilharam daquele jeito maroto que costumava preceder detenções.

- Tenho algo que vai nos ajudar – ele disse, vindo até mim e mexendo no armário ao lado da cama de Pedro Pettigrew, à procura de algo lá. Depois de alguns segundos, ele retirou um pergaminho amassado de lá e se sentou na cama de Pedro.

Aceitei o pergaminho que me era oferecido. Virei-o dos dois lados, alisando-o, mas não havia nada escrito.

- Hum – soltei, confuso. – Vamos desenhar algo?

Ele meneou a cabeça, sorrindo animado.

- Pegue sua varinha e encoste no pergaminho – Sirius ordenou. – E então diga "juro solenemente que não pretendo fazer nada de bom".

Eu hesitei por um instante, porque aquilo me parecia muito uma marotagem. Mas antes que eu pudesse ficar impaciente e pedir para Sirius levar isso a sério, me ocorreu que ele parecia ansioso como se estivesse ávido por compartilhar aquilo comigo.

Então fiz o que ele havia dito.

Assim que acabei de falar, surgiram linhas no pergaminho, traçados e traçados que, de repente, formavam uma imagem que eu conhecia bem.

- Isso é Hogwarts! E... – notei pontos presentes no mapa. Alguns pontos se mexiam, enquanto outros pareciam fixos, mas em todos eles havia a indicação do nome de uma pessoa. – Isso são onde as pessoas estão nesse momento?

- Exatamente – Sirius respondeu, a animação evidente em sua voz. – É o nosso Mapa do Maroto. Ele mostra onde as pessoas estão, mesmo quando não sabemos exatamente como é o lugar. – Ele indicou um ponto mais embaixo no mapa, perto das masmorras. – Aqui fica a Sala Comunal da Sonserina, mas como nenhum de nós entrou lá, não desenhamos certinho. Os pontinhos deles geralmente ficam só acumulados ali. Então – ele pareceu subitamente encabulado -, não está completo, há vários lugares que precisamos colocar, tem outros cantos que são impossíveis de mapear, e ainda não acertamos como colocar a senha em algumas passagens secretas, mas...

- Sirius – interrompi, sorrindo maravilhado. – Isso aqui é fantástico. É a magia mais legal que eu já vi. Não é à toa que vocês conseguem aprontar tantas coisas. E... – com um estalo, me lembrei daquela azaração que ele lançou em Mulciber. – Foi assim que você sabia como era a rotina de Mulciber?

Ele acenou.

- Foi só acompanhar o Mapa do Maroto por algumas noites. O Mapa nunca erra. Por exemplo... – ele lançou um olhar para um dos cantos do mapa. – Dumbledore e McGonagall estão em reunião no escritório dele agora, eles estão sempre conversando. Marlene McKinnon está na Torre de Astronomia, ela vive lá... E, a menos que eu esteja muito equivocado, Tom Robins também pulou Hogsmeade para ficar um encontro a sós com Lisa Arrows nesta sala no quinto andar. – Ele indicou os dois pontos colados no canto esquerdo do mapa. – Pontos colados sempre têm um significado... Mas eles estão com azar hoje, parece que Filch está indo na direção dos dois agora – ele indicou um ponto se movendo no corredor do quinto andar.

- Se vocês têm i, como é que alguém consegue descobrir vocês em uma das suas marotagens?

Ele deu de ombros.

- Só conseguimos fazer a magia de localização esse ano. Às vezes o Mapa só revela como estamos ferrados antes de alguém nos encontrar. Tem muita gente de olho em tudo em Hogwarts, sempre. Tem professores, fantasmas, Filch e algum dos gatos dele. Tentamos planejar em torno de tudo isso, mas nem todo mundo tem uma rotina bem estabelecida, infelizmente. Mas... – os olhos dele faiscaram com empolgação. – Com a sua Capa de Invisibilidade e esse Mapa, tudo fica realmente imbatível.

A empolgação dele me contagiou também. Por um instante, me ocorreu que com essa combinação, não havia mais limites em Hogwarts – não havia nenhum canto do castelo que não pudéssemos percorrer. Não havia mais toque de recolher para nós; podíamos passar a noite toda andando por Hogwarts e jamais seríamos descobertos. Poderíamos explorar o castelo, da forma que eu tinha certeza de que nenhum aluno tinha feito antes, e fazer o mapa mais completo de Hogwarts.

Eu estava pronto para falar exatamente isso para ele – para pegarmos a Capa de Invisibilidade e irmos explorar Hogwarts – quando me lembrei o motivo que tinha começado toda essa conversa e, sem que eu me controlasse, meu rosto murchou.

Na minha frente, Sirius soltou uma risada baixinha.

- Eu sei – ele disse. – Admito que estive cobiçando essa sua Capa desde que você a revelou. É o que sempre faltou para nós.

Aquilo me fez piscar. Eu não tinha pensado na Capa como um complemento para os Marotos. Quero dizer, eu tinha pensado em explorar para ajudar a completar o Mapa, mas aquilo não era a mesma coisa que apoiá-los... só que um Mapa que mostrasse todos os cantos de Hogwarts certamente os ajudaria em uma daquelas brincadeiras deles. E eu sempre tinha sido contra aquilo.

Exceto aquela vez, lembrou uma voz na minha cabeça que soava estranhamente como Lily Evans. Porém Mulciber tinha sido uma ocasião especial. Ele tinha merecido. E aquilo tinha feito Mary rir; todos tinham rido.

Exceto Severo.

Alguém sempre fica sem rir em uma marotagem.

- Tiago? – Sirius me chamou, preocupado.

- Não é nada – respondi numa voz baixa, deixando as palavras me convencerem. – Como está a biblioteca?

- Quase vazia – ele observou, franzindo a testa. – Mas só tem a Sra. Binns por lá agora, então só precisamos de uma distração. De quanto tempo você vai precisar para pegar o livro?

- Quanto tempo você conseguir me dar.

- Te garanto uns dez minutos inteiros. Quinze, se eu topar mais uma detenção...

- Sem detenções – retruquei. – Vamos precisar de todo o tempo possível para conseguir se preparar para esse "projeto".

- Sem detenções – ele confirmou, solene.

- Então com dez minutos, consigo pegar alguns dos livros que precisamos. Os outros eu tenho em casa, mas podemos esperar por ora...

- Pegue outros livros também, sobre outros temas – Sirius instruiu. – Para dificultar mais caso reparem que os livros estão sumindo.

Acenei, eufórico.

- Acho que consigo fazer uma cópia falsa da capa do livro também, para ajudar a despistar ainda mais. - Sirius sorriu, aprovando. – E vamos precisar de algum lugar para estudar e fazer os preparativos necessários.

Sirius apontou para uma sala no quarto andar. Não era um local que eu já tinha entrado antes – na verdade, me ocorreu que eu não me lembrava de ter nenhuma sala naquele corredor.

- É uma sala secreta – Sirius explicou, parecendo se divertir com a minha confusão. – Fica atrás daquele espelho no corredor, próximo da sala de História de Magia. Pedro descobriu ano passado, mas até onde eu sei, ninguém mais conhece. Vamos estar tranquilos lá.

- Então vamos – concordei, guardando o Mapa no meu bolso, e, juntos, saímos do dormitório, prontos para executar o nosso plano.


Exceto pela falta de janelas, eu adorei a Sala do Espelho, como Sirius a chamava. Ele explicou que não era realmente uma sala, mas um corredor – havia uma porta trancada do outro lado, que ele mencionou sem muitos detalhes, e não o questionei -, mas era tão espaçosa e larga que poderia ser mesmo uma sala. Havia uma lareira que, mesmo acesa, não deixava a sala abafada demais, como se a fumaça fosse absorvida magicamente; próximo à lareira, havia algumas poltronas velhas e confortáveis, um divã, onde me esparramei semideitado com o livro recém-pego na biblioteca, e um tapete peludo onde Sirius jogou umas almofadas e se deitou, lendo o meu Manual do Animago, completamente à vontade.

Ficamos trocando ideias sobre o nosso material de leitura, e fazendo uma lista dos ingredientes que precisaríamos adquirir para preparar a poção inicial. Mesmo tendo trabalhados juntos em um único projeto até então, era fácil falar com Sirius e planejar os próximos passos; em alguns momentos me ocorreu mencionar os outros Marotos, nos passos em que eles seriam ótimos para ajudar a completar o feitiço, mas não falei nada e Sirius também não os mencionou, embora também parecesse pensar neles. De alguma forma, aquele momento era só meu e de Sirius. Era o nosso projeto.

Quando saíssemos daqui, o projeto seria de todos, mas, por ora, não queríamos compartilhar com mais ninguém.

Sem uma janela, era fácil perder a noção do tempo. Em algum momento, Sirius foi até um dos baús e voltou com algumas taças, uma garrafa de hidromel e desembrulhou uns sanduíches que ele havia guardado do almoço. Não era um jantar completo – pensei novamente em Layla me repreendendo -, mas, para mim, estava ótimo. Eu não estava realmente com fome – estava animado demais para isso.

Assim, bebemos mais do que estávamos comendo, mas não me importei. O hidromel apenas me fez ficar mais empolgado; por outro lado, as letras no livro começaram a ficar fora de foco, então finalmente fechei o tomo.

- Hora de partir? – perguntei. No chão, Sirius suspirou.

- Acho que sim – ele disse, se levantando de um pulo. Imediatamente ele cambaleou, e me levantei para apoiá-lo. Sirius riu, mas aceitou o braço que eu oferecia. – Acho que exagerei um pouco.

- Tsch, tsch – repreendi falsamente. – Esperava mais de você, Sirius Black.

Ele soltou uma nova gargalhada, quase canina.

- E quem diria que Tiago Potter sabe aguentar o seu álcool? Quando abri a garrafa, achei que você nunca tinha tomado nada antes.

Meu rosto ficou vermelho – não muito diferente de quando ficava se eu bebesse bastante.

- Eu e Severo descobrimos o armário de bebidas dos meus pais. Acabou que eu sou o responsável por cuidar dele, ele realmente consegue exagerar. Comparado com ele, você está muito bem, Sirius.

- Que bom que bebo com mais moderação que Severo Snape – Sirius retorquiu, com só um pouco de desprezo na voz.

Revirei os olhos, sem me deixar perturbar ao menos uma vez, e peguei os livros que não usuaríamos.

- Onde guardamos?

- Coloque naquele baú com bebidas. É o único que Remo nunca abre. – Meu olhar encontrou o dele, e Sirius pareceu mais sóbrio. – Não quero que Remo saiba por ora. Vamos pegar os ingredientes e começar a preparar a poção. Se contássemos agora, ele provavelmente apenas tentaria nos impedir e...

- Não sabemos se vai dar certo – completei, quando Sirius ficou em silêncio.

Ele parecia desanimado agora, o que contrastava com toda a disposição desta tarde – mesmo quando percebêramos o quão complicado seria fazer a poção, ou quando líamos sobre todos os erros que poderiam acontecer se a transformação desse errado, ele não parecera preocupado. Ao contrário, estivera cheio de um entusiasmo que eu nunca vira antes.

E de repente odiei que ele tivesse perdido isso.

Era como se o brilho dele diminuísse, o que me parecia errado; Sirius Black fora feito para resplandecer.

– Nós vamos fazer o plano dar certo. – Sorri, encorajador. – Estamos juntos nessa, o que poderia dar errado?

Ele voltou a me olhar; não sei o que ele viu nos meus olhos, mas Sirius sorriu também.

- Bom, nós somos realmente bons em Transfiguração – ele concordou. – E com a ajuda que teremos para a poção e para desenhar o ritual final...

Ele acenou, novamente excitado com nossos planos. Era fácil me sentir confiante com Sirius.

- Acho que vou ficar com o Manual – Sirius me interrompeu, quando me dirigi ao baú. – Ler ao longo da semana... tudo bem?

- Claro – concordei. – Só que... não vai estragar um pouco o lance do segredo se te virem com o meu livro? – Sirius franziu a testa. Como ele estava com a roupa de passeio, não havia onde ele esconder o livro. – Eu levo para você – ofereci, pegando a Capa da Invisibilidade.

Ele achou graça.

- Você vai voltar invisível para a Torre da Grifinória?

Sorri, divertido, sumindo debaixo da capa.

- Eu faço isso o tempo todo. A Madame Gorda já parou de tomar sustos comigo aparecendo do nada a essa altura.

- E o que você faz quando a Sala Comunal está cheia? – ele perguntou, enquanto andávamos pelo corredor.

- Geralmente no horário que eu retorno não tem muita gente. Mas se tem pessoas, eu só me desvio e espero se alguém estiver bloqueando o caminho. Já tive que esperar mais de uma vez você liberar as escadas, Black.

- Liberar? Eu... – Sirius se calou, subitamente envergonhado. Eu soltei uma risada que ecoou pelo corredor; felizmente, estava vazio. – E você fica só parado olhando, seu pervertido?

Eu corei, mas não havia como ele ver.

- É claro que não – falei, numa voz digna. Sirius riu também.

- Bom, na próxima festa você pode ser a pessoa a ficar bloqueando as escadas.

O rubor se acentuou no meu rosto.

- Eu não...

- Estou só implicando, Potter – ele retrucou, com um tom leve para reforçar a brincadeira. – Todos esses anos e você teve o que, um encontro?

- Eu não era exatamente popular – lembrei tranquilamente, e Sirius se calou por alguns segundos.

- Agora você está no time de quadribol – ele disse, razoável. – As pessoas vão te adorar, e encontros virão.

- Eu não me importo com isso – respondi, sabendo perfeitamente bem que eu gostara de receber todos os louros pela vitória no último jogo e de ser o centro das atenções.

Mas daí a converter essa atenção em encontros... Essa parte me era complicada ainda. Eu tinha tido minha parcela de encontros no verão – se é que seriam considerados assim -, com algumas garotas trouxas na região, e estava tranquilo com aqueles pequenos momentos porque estaria de volta em Hogwarts em algumas semanas, e nada daquilo tinha a pretensão de virar algo.

Em Hogwarts, vendo a outra pessoa quase diariamente, seria estranho.

Pensei em Mary, e como eu não tinha conseguido deixar para lá após o nosso primeiro encontro meio desastroso. E então me lembrei dela, brincando de ler minha mão e me falando sobre ter um único amor.

E sem que eu pudesse me controlar, o rosto de Lily Evans apareceu na minha mente. Ela era popular, é claro, e eu sabia que ela tinha encontros fortuitos; eu estivera presente no último, afinal. Ela não parecia achar estranho ver a outra pessoa diariamente.

Talvez eu só estivesse exagerando.

Suspirei, e talvez esse suspiro tenha saído pesaroso demais, porque Sirius me lançou um olhar preocupado – ele errou onde eu estava por meio metro, mas o gesto foi simpático.

- Estou brincando, Potter. Você não precisa ter encontros se não quiser. Pode sempre seguir o exemplo de Remo e ser celibatário.

- Eu só não sei como você consegue – falei honestamente. – Só me envolver por uma tarde, uma noite, sem sentir nada.

- Eu garanto que eu sinto coisas – ele brincou, malicioso por alguns segundos. E então ele suspirou. – Mas entendo o que você diz. É sério, eu realmente entendo – Sirius acrescentou, provavelmente sentindo minha descrença. – Estar com alguém que você se importa não tem comparação.

Olhei curioso para Sirius. Eu nunca o vira sair mais de uma vez com a mesma garota – e certamente nunca reparara se ele sentia algo de diferente por alguém.

- Mas se você não gostar também – Sirius adicionou, tentando aliviar o momento –, você não precisa se preocupar. Desde que você e quem quer que esteja com você saiba o que vocês estão fazendo, sem confundir nada, está valendo.

- Bom, vamos ver o próximo jogo – respondi, tentando encerrar o assunto. Era estranho receber conselhos de Sirius Black, principalmente porque eles pareciam muito razoáveis. – Pode ser que a gente perca especularmente e então minhas chances de encontro voltam a ser zero.

- Perder? – Sirius ergueu as sobrancelhas. – Estamos juntos nessa, Potter, nada pode dar errado, lembra?

Eu sorri. Ele não podia ver, mas Sirius pareceu saber que aquilo tinha me acalmado.

Era noite já, mas quando entramos na Sala Comunal, a sala estava cheia e animada ainda. Sirius pareceu preocupado, analisando o melhor caminho para passarmos, mas cutuquei ele nas costas e ele seguiu andando; andar desviando das pessoas já era uma segunda habilidade para mim, e ficara mais fácil com o passar dos anos já que eu não precisava mais segurar a capa para que evitar que ela e arrastasse no chão.

Sirius ia se desviando das pessoas que o cumprimentavam; ele havia tomado a rota mais longa para chegar às escadas que levariam ao dormitório, e eu sabia porquê: Remo Lupin e Pedro Pettigrew estavam conversando em voz baixa numa das poltronas mais próximas, os rostos sérios, e ele claramente não queria falar com eles agora.

Como eu não tinha as mesmas restrições, fui direto à escada, mas meu caminho foi barrado. Duas garotas do quarto ano conversavam no início da escada, e, então, ironicamente, me vi esperando por Sirius para elas saírem da escada.

- Senhoritas – Sirius disse, numa voz falsamente galante –, posso pedir que me deixem passar?

As duas garotas se olharam e então uma delas piscou para a outra, deixando-a sozinha.

- Eu poderia te deixar passar, mas o que eu ganharia com isso? – a garota perguntou, mexendo no cabelo vermelho com a mão. Eu revirei os olhos, mas aquilo fez os olhos de Sirius brilharem, divertidos.

- Ah, Florence – ele disse, se aproximando dela. – Você sabe que não precisa barganhar o que só precisa pedir.

Florence corou. Eu não me lembrava de ter falado com ela antes – tudo que eu sabia era que ela estava no ano abaixo do nosso -, mas era uma garota bonita, com sardas que se destacavam no seu rosto, e um cabelo vermelho cacheado que a fazia parecer estar em chamas. E certamente uma das fãs intermináveis de Sirius Black.

Revirei os olhos.

Em outra ocasião, eu não me importaria com quem quer que Sirius estivesse flertando, mas me ocorreu que ele estava fazendo aquilo só para me irritar.

- Não te vi em Hogsmeade hoje – Florence disse, ao mesmo tempo que eu pigarreava. Ela franziu a testa. – Você ouviu isso?

Sirius soltou uma risada leve.

- Eu não reparava em nada além de você – ele garantiu, pegando na mão dela. – Mas infelizmente eu preciso partir. Nos falamos depois?

- É só pedir, Sirius – Florence garantiu, sorrindo quando ele levou a mão dela até seus lábios e a beijou delicadamente.

Ele ficou aguardando Florence partir, antes de se virar na direção em que eu estava e rir, sabendo perfeitamente bem que eu estava xingando-o mentalmente.

- Rindo sozinho, Sirius? – ouvi alguém perguntar e, quando me virei, vi minha prima, Marlene McKinnon, olhando para Sirius logo atrás de mim.

O riso morreu do rosto de Sirius. Marlene foi na direção dele e automaticamente recuei para as escadas, permitindo que ela passasse. A Capa esbarrou em Sirius e ele deu um sobressalto, mas Marlene não pareceu reparar.

- É bom rir sozinho às vezes – ele disse, numa voz estranhamente cautelosa. Ele lançou um olhar na minha direção, como se quisesse só sumir nas escadas.

- Achei que você riria com Florence – Marlene replicou, sem humor. – Depois dessa troca de cantada barata.

Os olhos de Sirius brilharam com uma súbita vivacidade, como se ele não conseguisse se controlar.

- Ciúmes, Lene?

- Você sabe que eu odeio esse apelido.

- E você sabe que sempre foi por isso que eu usei – ele respondeu facilmente, e eu ri daquela troca antes de me controlar. Marlene não pareceu reparar, mas Sirius ouviu. Ele lançou outro olhar na minha direção, e agora eu sabia que era para mim, como se ele acabasse de lembrar que eu estava presente. – Eu preciso ir.

- Claro – Marlene murmurou, mordendo os lábios, e Sirius a fitou por alguns segundos, sua expressão suavizando, até que havia algo parecido com nostalgia nos seus olhos.

- Eu sinto sua falta – ele sussurrou, e eu soube que não era para eu ouvir aquilo, mas não consegui me mexer. Ela ergueu as sobrancelhas, olhando para onde Florence havia sumido, e Sirius suspirou. – Não quis dizer nada.

Os braços de Sirius se abriram levemente. Marlene hesitou apenas um segundo antes de se aproximar dele, com um pequeno sorriso no rosto, quase em tom conformado. Eles não estavam exatamente se abraçando, mas havia apenas alguns centímetros os separando.

- Você não deveria ir? – ela perguntou, soando quase conformada.

Sirius suspirou; ele lançou um olhar em volta, como se quisesse confirmar que não havia ninguém próximo, e quando ele se voltou para Marlene, havia uma expressão decidida nos seus olhos.

- Você sabe que eu nunca faço o que devo – ele respondeu brevemente, puxando-a mais para perto, debaixo do nicho da escada, e a beijando.

Não era um primeiro beijo; eles certamente pareciam familiares um com o outro, mas o que quer que fosse eu definitivamente não queria ficar vendo aquela cena. Recuei e, para minha surpresa, quase tropecei em alguém que estava atrás de mim na escada. Quando me virei, não havia ninguém, mas ouvi passos apressados na escada, subindo na minha frente.

Aquilo não me parecia um bom sinal.

Atrás de mim, Sirius e Marlene haviam se separado.

- Lene...

- Eu sei, não muda nada, Sirius – ela respondeu, e com um último sorriso triste, ela se afastou dele. Sirius suspirou, e começou a subir as escadas; não tive alternativa que não subir também. Sirius estava calado e eu não queria falar, ainda tentando entender a cena que acabara de ocorrer.

Sirius e Marlene? Eu nunca vira nada entre os dois. Severo estivera certo quando afirmara que Marlene nunca fora uma das fãs de Sirius, e, sinceramente, eu não entendia. Minha prima não tinha um estilo que combinava com Sirius Black.

Porém, de alguma forma, Sirius parecia bem diferente com ela do que naquele flerte de brincadeira que ele estava fazendo com Florence alguns minutos antes.

- Tiago – ouvi Sirius me chamar, numa voz baixa, mesmo que ele não pudesse me ver. – Eu posso explicar, nós...

Ele se calou subitamente. Havíamos chegado ao patamar da escada do nosso dormitório, e a porta já estava aberta. A cor sumiu do seu rosto quando ele fitou dentro do dormitório, e então ele deu um tapa na própria testa, xingando baixinho antes de entrar.

Segui-o, cauteloso. Lily Evans estava sentada na cama dele, os braços cruzados, olhando diretamente para nós. Por um instante, sorri para ela, mas ela não desviou o olhar de Sirius; então me senti tolo, porque é claro que ela não me via.

- Olá, Sirius – ela disse, naquela voz neutra despida de emoções. Sirius pareceu mais nervoso.

- Lils – ele começou, numa voz apaziguadora, soando cheio de remorso. – Eu sou um completo idiota, mil perdões. Eu não esqueci, claro que não poderia ter esquecido, é só que acabei perdendo noção do tempo...

- Se perdeu por doze horas, você quer dizer?

Ele olhou automaticamente para o relógio, onde eu sabia que o ponteiro iria avisar que já eram quase dez horas da noite.

- Você sumiu, Sirius, sem nenhuma explicação. Se não queria perder o dia comigo, numa festa idiota de aniversário, era só ter avisado.

O aniversário. Eu havia esquecido totalmente – e olhando para Sirius, pude ver que, a despeito do que ele dissera, ele também tinha esquecido. Com toda a agitação, os nossos planos se formando e nós propositalmente evitando falar dos demais Marotos, o fato de que era aniversário de Lily Evans tinha fugido da minha cabeça. Parecia fazer anos, ao invés de uma semana, desde que ela tinha me convidado para sua comemoração em Hogsmeade.

O olhar de Sirius se desviou para a mesa de cabeceira dele, onde o presente, que eu sabia ser para Evans, estava lá embrulhado. Imaginei que o plano dele sempre fora dá-lo mais tarde para ela, em privado.

- É claro que eu não queria ter perdido a sua festa de aniversário, Lils – Sirius garantiu. – É só que surgiu algo, e... – ele indicou o presente ao lado da cama, com um sorriso. – Eu fiz um presente para você, estou esperando há dias para te dar.

Evans desviou o olhar para o presente por um breve instante, e então voltou a olhar para Black, sem qualquer sugestão de animação.

- O que surgiu, Sirius? – ela perguntou, quando Sirius não continuou a falar. Eu me esgueirei para dentro do quarto, e a Capa esbarrou em Sirius novamente. Dessa vez, ele não pulou, mas senti o olhar dele se desviando na minha direção.

- Vamos conversar em outro lugar, Lily – ele pediu, mas ela não se moveu.

- Onde iríamos, Sirius? São dez da noite, o toque de recolher já começou. É claro – a voz dela aumentou um oitavo -, nós poderíamos consultar o Mapa se ele estivesse por aqui, mas Pedro não encontrou onde ele deixou. Você sabe onde está?

Ele não respondeu de imediato, e eu sabia perfeitamente bem a razão; o Mapa do Maroto ainda estava no meu bolso, desde que eu o tinha usado para ir à biblioteca há algumas horas.

Por um instante, achei que Sirius confessaria tudo – que ele falaria da Capa de Invisibilidade, do uso que demos ao Mapa do Maroto, do plano de ser animagos -, mas ele só respirou fundo.

- Está guardado – Sirius disse, se aproximando de sua cama. Evans se levantou; os dois estavam bem próximos.

- Sirius... – ela hesitou, e então sua expressão relaxou um pouco. – Se você e McKinnon voltaram, eu não vejo problema, não precisa guardar isso de mim.

- Nós não voltamos – Sirius disse imediatamente, então ele meneou a cabeça, como se tivesse dito demais. A culpa estava escrita em seu rosto, e se eu via isso, supus que era como um outdoor iluminado para Evans. – Você sabe que eu e Marlene não temos mais nada, isso não tem nada a ver com o meu sumiço, eu não a vi o dia todo...

- Eu sei que ela não foi para Hogsmeade hoje. E eu vi vocês dois agora pouco, você claramente estavam se vendo bem de perto.

Ele corou.

- Aquilo... Foi só pelos velhos tempos. Nós não... Eu passei o dia com Tiago Potter – ele declarou apressadamente.

Essa resposta fez Lily parar por um instante, surpresa, e então ela riu, sem real humor na voz.

- Ah, certo. Você me diz para ficar longe de Potter e então na semana seguinte está sumindo com ele? – Ela meneou a cabeça, agitando seus cabelos vermelhos, claramente descrente.

Sirius não respondeu. Ele lançou um olhar culpado na direção da minha cama, sabendo que eu estava ali, mas ele não podia se justificar, claro. Tentei ignorar o súbito incômodo com essa situação, mesmo que minha mente conjurasse facilmente a cena de Black e Evans abraçados no sofá, como eu já os vira uma centena de vezes juntos, enquanto ele a confidenciava que eu não era boa companhia e que ela deveria ficar longe de mim.

Isso foi antes, disse a mim mesmo com firmeza. Ele havia certamente confiado em mim ao longo dia.

Mas isso não quer dizer que ele confiaria Evans a você, respondeu a voz de Severo, e apertei os punhos, tentando ignorar. Marlene havia me recomendado ficar longe deles.

É, mas ela não tem estado longe de Black, tem?

Ainda próxima a Sirius, Lily Evans suspirou.

- O que está acontecendo, Sirius? – ela perguntou, numa voz baixa, muito mais suave do que ela havia dito até então, sua mão esticada para tocar a dele.

Sirius voltou a fitá-la. Eu não sabia no que ele estava pensando, mas me ocorreu que nós nunca havíamos falado durante a tarde sobre envolver ou não os outros Marotos no nosso projeto; eu havia só assumido que eles participariam, porque os quatro sempre estavam juntos.

Mas Sirius já havia dito que não queria mencionar nada para Lupin, não tão cedo, e lembrei dele observando que, ao contrário de mim, talvez Evans não fosse achar a ideia tão boa inicialmente, que ela provavelmente tentaria demovê-lo da ideia.

E se ela fizesse isso, eu não sabia se Sirius resistiria – até onde eu me lembrava, ele nunca tinha negado nada a ela, sendo seu melhor amigo.

Ele continuou a hesitar, porém, e então eu percebi que ele realmente não queria lhe falar, não quando havia uma chance bem alta de Evans o desanimar daquele projeto. Ele estava realmente convencido de que era a única forma de ajudarmos Remo Lupin, e não desistiria da ideia por nada.

Nem mesmo por Lily Evans.

- Não é nada, Lily – Sirius disse, num tom final, se separando dela e se deitando em sua cama, claramente indicando para ela esquecer o assunto.

Evans recuou alguns passos, como se tivesse sido repelida magicamente por ele. Uma série de emoções passou pelo rosto dela, mais rápidas do que eu conseguia identificar, e por um instante, achei que ela o azararia ou algo assim, mas ela não fez nada.

- Se é assim que você quer – Evans disse, na sua voz mais despida de emoções, e saiu do dormitório, sem olhar para trás.


No próximo capítulo: Tiago entende mais sobre o relacionamento complicado de Sirius, e se surpreende com Lily.