Era sábado e, portanto, dia de almoço n'A Toca. Harry decidiu aproveitar que Malfoy havia ido embora cedo para passar mais tempo com Teddy. Depois de um rápido banho, ele pegou a sua vassoura, trancou a casa e aparatou.

Assim que chegou no belo jardim da frente, o cheiro do maravilhoso pão doce que Andrômeda fazia, tomou todos os sentidos de Harry. Andrômeda não era tão boa na cozinha como Molly, fazia apenas pratos mais básicos, mas o seu incomparável pão doce era uma de suas especialidades.

Mesmo já tendo tomado café da manhã, Harry estava com água na boca enquanto esperava.

– Bom dia, Drômeda. – cumprimentou Harry com um grande sorriso quando a senhora Tonks apareceu.

– Bom dia, Harry! – respondeu a senhora Tonks, puxando Harry para um abraço – Entre, entre.

A senhora Tonks fechou a porta enquanto Harry pendurava o casaco no cabideiro e apoiava a vassoura na parede próxima à entrada.

– Onde está o Teddy? – perguntou o moreno, notando que a casa estava muito silenciosa.

– Ele ainda não levantou. Eu estava indo acordá-lo, quando ouvi as batidas na porta.

– Desculpe por ter chegado tão cedo sem avisar. – disse Harry, percebendo que havia sido um tanto quanto inconveniente.

– Essa também é a sua casa, querido. – disse Andrômeda, com um sorriso carinhoso. – E não está cedo, eu mesma já estou acordada há bastante tempo, Teddy é que está dormindo até tarde. Aliás, por que você não vai acordá-lo enquanto eu termino de arrumar a mesa do café?

– Claro! – concordou Harry imediatamente.

Ele começou a se virar para sair da cozinha, mas logo se interrompeu.

– Andrômeda, eu… eu queria conversar com você antes de acordar o Teddy.

– Aconteceu alguma coisa querido? – perguntou carinhosamente, indicando as mesas da bancada da cozinha para eles se sentarem.

– Não, está tudo bem. – Harry se apressou a tranquilizá-la – É só que… hm... Lembra do curso que eu comentei que o Draco iria dar para o aurores?

– Sim, vocês comentaram no dia que ficaram brincando com Teddy no quintal. O que tem ele? Foi tudo certo?

– Foi sim, todos elogiaram bastante. Mas o que eu queria falar é que… – Harry bagunçou os cabelos, nervoso. Merlin, se ele estava desse jeito para conversar com Andrômeda, que claramente gostava de Draco, o que iria acontecer quando ele tentasse conversar com as outras pessoas? – Bem, com todo o planejamento que o curso exigiu, eu e Draco acabamos nos aproximando. Ele realmente mudou, não é mais a mesma pessoa que era na escola, acho que você deve saber isso, por causa da Narcissa e tudo. Enfim, como o curso acabava tarde, os aurores sempre acabavam combinado de ir para um pub para comer alguma coisa antes de irem para casa…

– Harry, – interrompeu Andrômeda – você sabe que eu adoro conversar, ainda mais com você, mas toda essa história de "precisamos conversar" me deixou um pouco ansiosa, então se você pudesse ir direto ao ponto eu agradeceria. E, francamente, se você não parar de passar a mão no cabelo desse jeito vai acabar careca!

– É, eu realmente tenho que parar com essa mania. – disse Harry, rindo, enquanto juntava as mãos no colo para tentar controlá-las. – Certo, voltando então. O que eu queria falar era que eu saí com ele ontem, Draco quero dizer. No último dia do curso, fomos com alguns amigos para um pub e acabamos marcando de encontrar ontem a noite. E vamos sair para jantar amanhã.

– Que ótimo, querido! Sabe, eu bem que achei que vocês dois estavam muito próximos da última vez. – comentou Andrômeda animadamente, fazendo Harry corar. – Vocês estão namorando, então?

– Não! – Harry exclamou, talvez um pouco rápido demais. – Acho que estamos… estamos saindo.

– Sim, sim, não precisa de um rótulo. Mas de qualquer forma, se vocês quiserem aparecer qualquer dia para um lanchinho e uma partida de quadribol no quintal, tenho certeza que Teddy irá adorar.

– Podemos combinar um dia sim. – concordou Harry, mesmo pensando que talvez fosse um pouco cedo demais para programas em família.

– Bem, se for só isso… – disse Andrômeda, levantando.

– Você não tem nenhuma pergunta?

– Você gosta de leite no seu chá? Sempre esqueço essas coisas!

– Prefiro sem. Mas eu estava me referindo mais ao nosso assunto anterior.

– Ah, sim. Por que? Tem algo mais que você gostaria de me contar?

– Não, é só que… Nunca tínhamos conversado sobre isso.

– Acho que conversamos quando você e a Gina terminaram… – disse a senhora Tonks, se esforçando para lembrar algum outro momento em que o assunto "relacionamentos" havia sido discutido.

– Nunca tínhamos conversado sobre eu também gostar de homens. – Harry acrescentou, tentando ser mais específico.

– Mulheres, homens… Eu fui expulsa de casa apenas por casar com quem eu gostava, Harry, nunca seria capaz de julgar outros relacionamentos.

– Obrigado, Drômeda. E sinto muito pela sua família.

– São águas passadas, querido. Agora vá acordar o Teddy que já passou muito da hora!

Harry saiu da cozinha com um largo sorriso no rosto. Subindo as escadas, ele logo virou para a primeira porta à direita. A porta azul caneta, uma escolha de Teddy, estava entreaberta, possibilitando a visão do garotinho dormindo, com uma perna caindo da cama.

Ele ficou alguns minutos observando a cena, encostado na moldura da porta, gravando em sua memória todos os detalhes da feição tranquila do afilhado, perdido em sonhos. Teddy era uma criança maravilhosa e Remus e Nymphadora sem dúvida estariam orgulhosos de seu filho. Harry conseguia visualizar claramente Nymphadora ensinando a Teddy todos os truques de metamorfos e voando com o filho pelo quintal enquanto Remus observava a cena da varanda, preocupado, mas sem conseguir conter um sorriso ao ver a felicidade do filho.

Harry despertou de seus devaneios ao sentir uma lágrima escorrendo pela sua bochecha. Aquela era uma cena que nunca iria ocorrer, um dos muitos momentos que a guerra havia roubado. Mas, apesar de tudo, Teddy era uma criança feliz. Todos a sua volta faziam o possível para que o inevitável vazio deixado pela ausência dos pais não fosse uma sombra na vida do menino.

Secando o rosto e tentando se alegrar com a perspectiva de passar a tarde com o afilhado, Harry adentrou o quarto e ajoelhou ao lado da cama.

– Teddy, – chamou Harry suavemente enquanto acariciava os cabelos embaraçados do afilhado – está na hora de acordar.

– Não. – resmungou Teddy, virando para o outro lado.

– Sua avó está fazendo pão doce. – disse Harry, tentando convencer o garoto.

– Padrinho? – perguntou Teddy, um pouco mais desperto e se dando conta que não era Andrômeda que estava no seu quarto.

– E eu trouxe a minha vassoura para podermos voar depois do café da manhã… – acrescentou Harry.

Foi o que bastou para Teddy se sentar na cama, mesmo que ainda coçando os olhos. Ele abriu um sorriso e logo esticou os braços para o padrinho.

– Bom dia, dorminhoco. – disse Harry rindo enquanto o abraçava.

– Bom dia, padrinho. – respondeu Teddy, entre bocejos.

– Agora levante porque eu estou louco para comer o pão doce! – disse Harry soltando o abraço, mas Teddy continuou com os braços grudados no pescoço do padrinho. – Teddy, você precisa me soltar para trocar de roupa e escovar os dentes.

– Você não pode fazer mágica? – pediu Teddy, manhoso.

– Você sabe eu não consigo deixar tão limpinho quanto fica com a escova e a pasta.

– Por favorzinho? – Insistiu Teddy, se afastando só o suficiente para olhar o padrinho com olhos pidões. – Eu escovo direitinho depois do café quando eu vier tirar o pijama.

Harry não conseguiu resistir àquele olhar, ele quase nunca conseguia. Com um pequeno aceno com a mão, Teddy já estava com o hálito refrescante.

– Obrigado padrinho!

– Não quer vir nas costas? – perguntou Harry.

– Sim! – exclamou Teddy animado, soltando o abraço e pulando em seguida nas costas do padrinho.

Harry estava rindo de Teddy que contava sobre o sonho que havia tido, com dragões montados em vassouras jogando quadribol quando eles chegaram na cozinha.

– Bom dia, 'vó! – exclamou Teddy.

– Bom dia, querido. – cumprimentou Andrômeda. – Você não está muito grande para fazer o coitado do Harry te carregar?

– Não. – respondeu Teddy.

– Eu que ofereci. – acrescentou Harry.

– Você mima demais esse menino. – disse a senhora Tonks, tentando falar sério mas sem conseguir conter um pequeno sorriso.

Depois de um café da manhã reforçado com muito pão doce, Teddy subiu as escadas correndo para trocar de roupa e pegar a sua vassoura. Mais de uma hora voando havia deixado Harry exausto, ele definitivamente não tinha a mesma energia do afilhado, e por mais divertido que fosse, agradeceu mentalmente quando Andrômeda apareceu para avisar que já era quase hora do almoço.

Teddy subiu para o seu quarto e Harry foi para o quarto de hóspedes tomar um banho rápido, meia hora depois os dois se juntaram à Andrômeda na sala de estar e todos seguiram para A toca.

– Harry! – exclamou Hermione assim que o moreno apareceu na lareira.

– Oi Mione. – cumprimentou Harry, tentando afastar algumas cinzas enquanto abraçava a amiga. – onde estão todos?

– Fleur, Victoire e Molly estão na cozinha, os outros estão lá fora jogando uma partida antes do almoço. Quer ir?

– Eu estava jogando até agora a pouco com Teddy, acho que não tenho energia para mais nada. Ele e Drômeda estão vindo.

Assim que Harry terminou de falar, as chamas verdes voltaram a se intensificar e avó e neto surgiram na lareira.

– Oi tia Mi! – disse Teddy abraçando Hermione – A Vic já chegou?

– Oi Drômeda, Teddy! – respondeu Hermione – Ela está na cozinha com a Molly, por que você não vai ajudar?

Ninguém precisava insistir para Teddy sair correndo atrás de Victoire, seguido pela avó. Hermione entrelaçou o braço com Harry e os dois seguiram para o jardim. Após se servirem de suco de abóbora e sentarem no confortável banco balanço, observando os demais voando pelo jardim, Harry percebeu que a amiga parecia inquieta.

– O que está acontecendo Mione?

– O-o que? – perguntou Hermione, desviando a atenção da partida de quadribol, os jogos sem Gina eram bem mais equilibrados.

– Você está mordendo a boa desde que eu cheguei e agora que sentamos você não para de balançar o pé. O que está na sua cabeça?

Hermione mordeu o lábio mais uma vez, pensando em como começar a falar. Não havia porquê negar, ela realmente estava com algo na cabeça, mas não eram devaneios sobre o último livro que ela havia lido, ideias brilhantes ou uma bronca de mãe como normalmente acontecia, era apenas…

– Como foi o seu encontro?

– Era isso que você estava remoendo? – exclamou Harry soltando uma gargalhada e fazendo a amiga corar.

– Eu pensei que você iria querer conversar mas como você chegou e não falou nada, achei que talvez não estivesse se sentindo confortável para compartilhar, então não quis perguntar. – justificou Hermione.

– Mione, não quero que você tenha que medir palavras para conversar comigo. Eu sempre vou compartilhar as coisas com você, então se você quiser me perguntar algo, pergunte, se eu não me sentir confortável para responder é só eu não responder.

Hermione praticamente pulou para um abraço apertado desengonçado por cima dos braços das cadeiras.

– Devo ficar preocupado em perder minha noiva? – brincou Ron.

O jogo havia acabado e Ron, Bill, George e Angelina encontravam-se parados na varanda, ainda descabelados e carregando as vassouras.

– Eu não sei como você conseguiu ela para começo de conversa. – implicou George, fazendo todos rirem e recebendo uma careta com a língua pra fora, um tanto quanto infantil, de Ron. – Você percebe que isso só reforça o que eu acabei de falar, não?

– George, coitado do seu irmão. – repreendeu Angelina, mas se conseguir conter as risadas – Não liga para ele, Ron, vocês formam um lindo casal.

– Obrigada, Angelina. – agradece Hermione com um grande sorriso sincero. Ela e Ron eram completamente diferentes e por isso não eram poucas as vezes que eles ouviam comentários sobre como os dois não combinavam. Mesmo sabendo que isso vinha apenas de quem não os conhecia de verdade, era bom ouvir o contrário para variar um pouco.

– Então Harry, como foi o encontro ontem? – perguntou Ron, querendo mudar o foco da conversa e ao mesmo tempo curioso.

Antes que Harry pudesse responder qualquer coisa, uma confusão de vozes já havia se formado.

– Encontro?

– Ainda não superamos a fase da Doninha?

– Então você e o Malfoy estão namorando?

– Mamãe vai ganhar netinhos loiros do nariz empinado?

Depois de ouvir essa última frase, Harry decidiu intervir antes que as suposições piorassem.

– Saímos para jantar ontem e fomos em uma boate depois, só isso.

– Meninos, venham almoçar! – gritou a senhora Weasley da cozinha e Harry agradeceu a Merlin por ter escapado, pelo menos por enquanto, das perguntas que inevitavelmente iriam surgir.

Ele havia se levantado e estava esperando os Weasleys e Angelina passarem pela porta e arrumarem suas vassouras quando Hermione o puxou um pouco para trás, apenas o suficiente para estarem fora do alcance dos ouvidos dos demais.

– O que você não contou? – Hermione perguntou, diretamente.

– Malfoy dormiu lá em casa. – murmurou Harry, corando.

– Oh! – exclamou Hermione. – Então vocês… Não, não. Desculpa, isso é entre vocês, não precisa responder. Costume sabe, perguntar tudo.

– Não aconteceu nada. Não estávamos sóbrios o suficiente para aparatarmos e como eu não sabia o endereço dele, acabamos indo para minha casa, eu dormi no sofá.

– Fico feliz que tenha se divertido Harry.

– Vamos sair para jantar amanhã de novo.

– Pelo visto George vai ter que aguentar a "fase da doninha" por um looongo tempo. – brincou Hermione, fazendo Harry ficar inda mais vermelho – Os outros já entraram, vamos?

Como sempre, o almoço estava delicioso como sempre. Teddy e Victoire logo arrastaram Andrômeda e voltaram a brincar com o novo jogo das Gemialidades Weasleys e, após recolherem os pratos e ajudarem a senhora Weasley com a louça, os demais seguiram para a sala de estar.

Por mais que Harry e Ron tivessem ótimas histórias sobre seus casos no esquadrão de aurores e Hermione se empolgasse com os feitiços com os quais Bill e Fleur tinham que lidar, bastou 30 minutos de conversa sobre os planejamentos do casamento para Ron voltar a puxar o assunto do encontro de Harry.

Dessa vez não houve almoço para impedir as perguntas e Harry acabou tendo que responder todas. Por mais que ainda tenha percebido algumas caretas, principalmente de Ron e George que haviam conhecido Draco nos tempos de escola, Harry notou que a ideia dele e o sonserino estarem saindo parecia já ser bem aceita.

– Onde vocês vão amanhã? – perguntou Hermione.

– No The Great Chaser, você e o Ron haviam comentado que era bom e Draco disse que o Zabini também gostou bastante.

– Zabini, pf. Primeiro a Luna e agora você com as cobrinhas. – brincou Ron.

– Falta agora só o Charlie e a Gina aparecerem com um sonserino. – acrescentou George, fazendo todos rirem.

Depois de alguns minutos comentando sobre as últimas notícias que eles haviam recebido de Charlie da Romênia e sobre os treinos e jogos de Gina, a vida amorosa de Harry voltou a ser o assunto.

– Ainda não superei você ter trocado ser parte da família pela Doninha. – brincou Ron.

– Ron tem um ponto. – acrescentou Bill.

– Não digam bobagens! – interveio a senhora Weasley antes mesmo que eles tivessem tempo para começar a rir – Harry é da família independente de com quem esteja.

– Obrigado senhora Weasley. – agradeceu Harry, com um grande sorriso emocionado no rosto.

Aquela era realmente a família dele; os Weasley, Andrômeda, Teddy e Hermione. Todos haviam perdido muito na guerra, mas eram por momentos como aquele que eles haviam lutado.

Hermione apertou fracamente a mão do amigo e secou uma lágrima que havia escorrido. Antes que qualquer um voltasse a falar, o silêncio foi interrompido por uma voz infantil vindo da sala ao lado.

– 'Vó Molly, é a sua vez! – gritou Teddy.

Imediatamente todos começaram a rir. Teddy não precisava de confirmação nenhuma de que era da família.

– Pode entrar. – disse Narcissa quando ouviu as batidas na porta de seu escritório.

– Bom dia, mãe. – cumprimentou Draco com um sorriso enquanto entrava.

Como sempre, o escritório encontrava-se em perfeita ordem. Era um cômodo relativamente pequeno, com apenas uma estante ocupando uma das paredes laterais onde estavam organizados, em ordem alfabética, livros sobre os mais diversos assuntos, destacando-se uma coleção considerável sobre a saúde e educação de crianças bruxas, e uma escrivaninha no centro com duas poltronas na frente e uma cadeira atrás, onde Narcisa estava sentada.

– Draco, querido! – exclamou a senhora Malfoy se levantando e indo abraçar o filho. – Estava com saudades.

– Eu também. Desculpe o atraso.

– Não tem importância, filho. Mas aconteceu alguma coisa? – perguntou Narcissa preocupada pois Draco era sempre extremamente pontual.

– Não, está tudo bem. – Draco assegurou.

Os dois se sentaram, Narcisa voltando para o seu lugar e Draco ocupando a poltrona da esquerda. Desde que sua mãe havia sido promovida e recebido esse escritório, aqueles eram os seus respectivos lugares. Mesmo com as visitas frequentes, Draco nunca deixava de se admirar com a magnífica vista do jardim que a janela atrás da cadeira de sua mãe proporcionava e com o modo como a luz do sol que entrava refletia nos longos cabelos loiros, deixando-a com uma aura angelical.

Notando que ela ainda esperava uma resposta, Draco acrescentou.

– Eu saí ontem a noite e por isso perdi a hora de manhã. Como tive que passar em casa antes de vir, acabei atrasando.

– Alguém especial? – perguntou Narcissa com um sorriso de lado, muito parecido com os que o próprio filho costumava estampar.

– O que- ? – começou Draco confuso, só então percebendo que "tive que passar em casa" implicava que ele havia passado a noite fora.

Com tal realização, Draco corou. É claro que ele era um homem adulto e não havia nenhum problema em ter companhia, mas isso não significava que ele precisava discutir tais acontecimentos com a sua mãe. Ele coçou a garganta, tentando disfarçar o pequeno momento de nervosismo, e continuou.

– Não, é só... – Draco mordeu a bochecha, pensativo. – Não sei. É novo.

Narcissa limitou-se a um sorriso e um aceno de cabeça. Draco agradeceu mentalmente por ela ter deixado o assunto de lado e começado a discutir alguns problemas burocráticos que estava tendo com o orfanato e com os quais precisava da ajuda do filho.

Depois de passarem a manhã inteira no escritório cercados de papéis, eles pararam rapidamente no refeitório dos funcionários para o almoço e logo se dirigiram ao centro de recreação. Isso era sem dúvida o que Draco mais gostava quando encontrava sua mãe no orfanato: passar a tarde com as crianças.

Brincar com as crianças era maravilhoso e, ouvindo suas gargalhadas sinceras, Draco sentia que estava compensando, mesmo que minimamente, suas escolhas erradas. Mas ainda mais do que as risadas infantis, o que ele mais gostava dessas tardes era de admirar sua mãe.

Narcissa sempre fora uma mãe maravilhosa para Draco e era claro para qualquer um que observasse que ela se dedicava com o mesmo carinho aquelas crianças. Depois do retorno de Voldemort, ela havia se fechado e, mais de uma vez, Draco havia ouvido ela chorar escondido de preocupação pela sua família. Após a guerra, com o julgamento de Lucius e sua morte não muito tempo depois, ele havia se preocupado que sua mãe nunca mais voltasse a ser quem ela era. Por isso, ver um sorriso genuíno estampado no seu rosto que alcançava os olhos, fazendo-a brilhar, deixava Draco tão encantado e agradecido.

Pouco após escurecer, as crianças começaram a voltar para seus quartos a fim de se prepararem para o jantar e Draco e sua mãe decidiram que também já era hora de encerrar o dia. Estavam no escritório, arrumando alguns papéis que deveriam ser levados ao Ministério na segunda-feira pela manhã, quando Narcissa sugeriu um lanche antes de se despedirem.

Draco aceitou prontamente a sugestão e, em poucos minutos eles encontravam-se em uma pequena cafeteria na Londres trouxa. A noite chegou entre conversas leves, pães e chocolates quentes.

Quando sua terceira xícara de chá chegou, Narcissa aproveitou o momento de silêncio após saborear a bebida para voltar ao assunto abordado mais cedo naquele dia.

– Então querido, onde você foi ontem à noite?

– Em uma boate no centro. – respondeu Draco, concentrado na tarefa de passar geléia no seu croissant.

– Se divertiu?

– Sim, a festa estava animada.

Eles ficaram em silêncio. Narcisa queria que o filho conversasse com ela pois havia percebido, pelo modo com que ele a havia respondido anteriormente, que quem quer que fosse que ele havia encontrado não era algo só de uma noite, mas, vendo como ele estava resistente, decidiu que era melhor não forçar.

Não era que Draco não queria conversar com a sua mãe, ele apenas não sabia o que falar. Era tudo muito recente e nem ele mesmo sabia o que estava acontecendo.

Depois de algum tempo em silêncio, Draco soltou um suspiro, decidiu que o melhor ponto de partida era o começo, com algo que gostaria de já ter conversado com Narcissa há algum tempo.

– Mãe, eu… – Draco coçou a garganta, tentando disfarçar o nervosismo. – Eu saiu com um cara ontem.

– E ele tem um nome? – perguntou Narcissa, feliz pelo filho ter puxado o assunto novamente.

– Eu saí com ele em um encontro. – acrescentou Draco.

– Eu consegui deduzir isso sozinha, querido. – disse Narcissa sem entender muito bem o motivo de Draco estar apontando o óbvio.

– E você não vai falar nada? – perguntou Draco em uma mistura de confusão e indignação.

– Eu perguntei o nome dele. – respondeu Narcissa franzindo a testa.

– Então... Tudo bem? – perguntou Draco, receoso.

– Draco, eu realmente não estou entendendo nada dessa conversa. – admite Narcissa.

Draco suspirou e, respirando fundo, disse, com todas as letras, o que ele nunca havia tido coragem de falar para a sua família:

– Eu gosto de homens, também. Eu... sou bi.

Narcissa sorriu carinhosamente e apertou a mão do filho com ternura, finalmente entendendo onde o filho queria chegar.

– Era isso que estava tentando dizer? – perguntou.

Draco assentiu com a cabeça, ainda com um pouco de receio, mantendo o olhar fixo nas suas mãos em cima da mesa.

– Querido, não precisava ficar nervoso, eu já sabia. – acrescentou Narcissa, calmamente. – Sinto muito por nunca ter se sentido à vontade para compartilhar isso comigo.

– V-Você sabia? – perguntou Draco, surpreso, finalmente levantando o olhar para encarar sua mãe.

– Você e Blaise nunca foram muito discretos. – respondeu Narcissa com uma risadinha. – Até seu pai sabia.

– LUCIUS?! – exclamou Draco, alto demais, recebendo alguns olhares de repreensão das mesas vizinhas. – Lucius sabia? – repetiu, mais controlado.

– Sim, sue pai sabia.

– E ele nunca falou nada? – disse Draco, alisando nervosamente o cabelo enquanto tentava assimilar todas as novas informações. – Merlim! Ele deixava Blaise passar diversos dias das férias lá em casa!

– Sempre deixamos Pansy passar as férias lá também. – constatou Narcissa, erguendo uma sobrancelha.

– O que a Pan... Vocês sabiam da Pansy também?

– Novamente, você e seus amigos nunca foram muito discretos. E eu sou sua mãe, Draco, eu sei das coisas.

– Bem mais do que eu tinha consciência pelo visto – resmungou Draco baixinho, mais para si mesmo, ainda em choque, fazendo Narcissa soltar uma risadinha.

Eles ficaram alguns minutos em silêncio; Narcissa bebendo seu chá enquanto deixava o filho absorver a conversa.

– Então está tudo bem? – perguntou Draco, finalmente.

– Sempre esteve, querido. – respondeu Narcisa com um sorriso acolhedor.

Draco soltou um suspiro, aliviado, e dirigiu um sorriso agradecido à sua mãe; ela era realmente uma pessoa maravilhosa.

O clima ficou instantaneamente mais leve e logo Narcissa estava contando sobre as últimas travessuras de Teddy. O pequeno estava começando a aprender alguns feitiços simples que geravam ótimas risadas mas estavam deixando Andrômeda louca.

Após saírem do café e enquanto caminhavam, buscando um local para aparatar, Draco decidiu perguntar algo que havia ficado em sua cabeça depois da conversa anterior.

– Lucius... ele realmente não se importava?

Narcissa soltou um longo suspiro. Ela tinha plena consciência de tudo que seu marido havia feito, mas ouvir Draco não se referir a ele como pai ainda lhe cortava o coração. Lucius podia ter inúmeros defeitos, mas ela o amava, assim como sabia que ele a amava e amava o filho.

– Draco, eu sei que seu pai não era uma pessoa fácil de lidar, mas ele sempre teve os interesses da família em primeiro lugar. Você sempre veio em primeiro lugar. Para nós dois.

– Mas e sobre a supremacia de sangue? Dar continuidade à linhagem Malfoy?

– Se estar com um homem te faria feliz, seu pai estava disposto a aceitar. E, no final, ele também já não acreditava tanto assim no próprio discurso.

– Eu não imaginava. – disse Draco, chutando uma pedrinha qualquer da rua, perdido em pensamentos.

A relação dele com Lucius, no final, era quase inexistente. Mas Draco ainda se lembrava de quando era mais novo, do homem que seu pai um dia fora. Ele sempre havia sido rígido, exigindo não menos do que a perfeição; afinal, ele era um Malfoy, parte dos Sagrados 28, herdeiro também da nobre família Black. E sim, esse era um pensamento um tanto quanto preconceituoso, sobre superioridade dos sangue-puros.

Mas Lucius era mais do que isso. Ele deu a Draco sua primeira vassoura e foi quem lhe ensinou a voar, para desespero de Narcissa. Também era Lucius que exibia orgulhosamente para os colegas de trabalho as habilidades mágicas precocemente desenvolvidas do seu filho. Ele que levara Draco aos 9 anos para o St. Mungus, após uma tentativa falha de aumentar um pedaço de bolo de chocolate, e movera céus e terras para que o filho recebesse o melhor tratamento.

E foi por esse Lucius, e pelo que sua mãe ainda amava, que Draco proferiu as próximas palavras.

– Obrigado por me contar.

– Você sempre foi o mais importante para nós, Draco. – disse Narcissa com ternura. – E sabe, se você e o Blaise quiserem ter filhos no futuro, existem muitas formas que isso pode acontecer.

– Blaise? Não! – exclamou Draco, rindo. – Ele está namorando a Luna Lovegood, mãe!

– Verdade? – perguntou Narcissa, surpresa.

– É um pouco recente. – disse Draco dando de ombros, ainda se divertindo com a linha de raciocínio da mãe.

– Mas, se não é o Blaise, com quem você saiu ontem? – perguntou Narcissa, sem conseguir conter a curiosidade.

Depois de todas as conversas daquele dia, ele realmente se sentia mais leve, conversar com sua mãe estava realmente lhe fazendo bem. Por isso, Draco ponderou apenas por uma fração de segundos antes de responder:

– Eu saí com o Harry Potter.