O quinto oficial do naufragado Titanic caminhava pelas ruas de Nova York em busca de suas próprias repostas. Lowe havia experimentado a mesma sensação de impotência que sentiu Moody antes de seu doloroso falecimento durante todo o dia posterior ao fato. Não conseguia comer, não conseguia dormir, não conseguia parar de se culpar, e era por isso mesmo que não ficava parado, andava de hotéis em hotéis, fazendo as mesmas perguntas e se decepcionava de encontrar as mesmas repostas que o deixavam ainda mais dolorido.
O sol começava a nascer no horizonte, significando que Lowe mais uma vez tinha passado a noite acordado. Seu corpo estava exaustado, sua cabeça doía muito, seus olhos estavam inchados e ele mal conseguia ficar em pé, se encostava nas paredes novaiorquinas na tentativa inútil de se manter acordado, desde o Titanic que não dormia mais uma noite inteira. Vencido pelo cansaço, se sentou no chão do mesmo porto em que os sobreviventes desembarcaram, segurando os joelhos com as mãos, derramando lágrimas solitárias e respirando profundamente.
– Senhor? Tudo bem? – Uma voz masculina quebrou o silêncio. – Posso ajudar em algo?
Lowe levantou a cabeça e olhou para trás. Era um homem bem vestido, de idade já avançada, mas seus olhos eram simpáticos. Usava um terno cinza, um pequeno chapéu na cabeça, uma bengala também era um acessório que ele usava para caminhar e um relógio de bolso pendurado no colete completava sua aparência.
– Talvez. – Respondeu Lowe, sem esperança e com os olhos marejados.
– O senhor deve ser o oficial Lowe. – O homem o encarou, tinha visto o rosto do oficial nos jornais. – Prazer, sou Jack.
– O senhor trabalha com a lista dos passageiros que desembarcam e embarcam aqui? – Indagou.
– Sim.
– Se incomoda se eu der uma olhada?
O senhorzinho assentiu. Entraram em um estabelecimento que tinha um sino acima da porta, que fez um sonido a entrada dos dois naquele local que ainda estava escuro, mas teve suas luzes acesas, revelando um grande balcão de madeira e atrás inúmeras prateleiras com livros pretos com papeis nas capas para identificação. O homem tirou três livros grandes e empoeirados, jogando-os sobre o balcão e abrindo-os.
– Aqui são os passageiros que embarcaram em nossos navios durante os últimos três dias. – Apontou para um. – Aqui os que desembarcaram. – Apontou para outro. – Aqui os que irão embarcar que fizeram suas reservas para os próximos dias.
– Posso dar uma olhada no de embarque? – Falou Lowe, se sentado em um banco de madeira.
– Pode. Tome. – Entregou o livro nas mãos do oficial. – Seria muito indiscreto da minha parte perguntar porque?
– Minha esposa e minha cunhada foram sequestradas há dois dias. – Lowe folheava o livro. – Pode ser que tenham embarcado com o sequestrador para algum lugar.
– Isso acontece muito, senhor Lowe. Muito mesmo. Nos portos e nos navios tem todo tipo de gente, psicopatas, homens e mulheres traídas, pedofilos, estupradores, seriais killers, ricos e pobres... somos obrigados a ver e conviver com muita coisa. O mar é testemunha de muitos acontecimentos.
O oficial encarou o senhorzinho antes de voltar a folhear o livro de embarque, até encontrar o que ele queria e estava esperando. Foi mais eficiente que a própria polícia.
– Mas que desgraçado! – Sussurrou.
– Encontrou o que queria? – Perguntou o homem, ajeitando alguns livros.
– Sim. – Estava tentando assimilar as ideias. – Quando o próximo navio rumo a Rússia sai?
– Daqui a dois dias, às nove da manhã. Se quiser, reservo uma passagem para você.
– Reserve. – Colocou o livro no balcão e desceu do banco. – Não me importa se a Cunard e a White Star são rivais, que a rivalidade se exploda, preciso salvar a vida de quem eu amo. – Tirou uma quantia de dinheiro do bolso.
– Você tem muita coragem, rapaz. Vais conseguir salvar quem tu amas, a passagem está reservada.
– Muito obrigado. – Saiu, batendo a porta e fazendo o sino se mexer.
Voltou para o hotel que estava hospedado para organizar o pouco que tinha para a viagem, mas ao entrar o local, se deparou com um silêncio quase mortal, com um ar de morte passeando, fazendo com que Lowe se arrepiasse da cabeça aos pés. O corpo de uma mulher era retirado em uma maca, coberta por um pano branco, lenços com sangue, toalhas, roupas e tudo mais o que pertencesse a mulher falecida. Lowe não estava entendendo o que estava acontecendo.
– O que houve, senhorita Chambers? – Perguntou o oficial. – Assassinato?
– Ela morreu de tuberculose. – Respondeu a jovem. – Definhou até a morte e faleceu há algumas horas.
– Coitada. Essa doença por acaso é contagiosa?
– Sim. Por isso tudo o que ela usava, como roupas e tudo mais vai ser queimado, para evitar contágio.
– Que horror, senhorita Chambers. Espero que ninguém tenha sido contaminado.
– Acredito que não. – A moça sorriu.
Lowe retribuiu e seguiu seu caminho.
Navegar em um navio depois de um naufrágio era pedir para que aquelas lembranças malditas voltassem a memória como um martelo, mas agora não haviam apenas lembranças, mas também uma realidade horrenda se aproximando de Marina e ela tinha que se defender de Serguei como podia. Porém havia mais um problema. A primogênita notou que Isabella tinha tido febre baixa ao cair da tarde, tossia desesperadamente e acompanhando a febre vinha suor. Serguei não permitiu que ela fosse examinada pelos médicos do navio em que estavam, para ele, não passava de um drama infantil por conta de suas agressões – e ele também não queria que alguém notasse os hematomas.
Marina encarou o mar a sua frente como sempre fizera no Titanic. Aquele navio era bem menor, menos luxuoso, porém com uma primeira classe menos fútil e mais amigável, pelo menos era o que tinha visto no primeiro jantar e no café da manhã. A jovenzinha notou que havia muitos homens altos com aparências ríspidas, muitas mulheres de olhares baixo, lindos olhos claros e elas eram incrivelmente inteligentes, citavam escritores, diziam abertamente suas opiniões sobre politica e quaisquer assuntos. Todas essas pessoas tinham a origem russa e agora estavam voltando para sua terra natal depois de uma estadia fora em busca de um trabalho melhor, uma vida melhor, um governo melhor. Os russos só tinham uma pose séria, era ótimos contadores de piada e não eram tão ruins quanto pareciam.
– Está esperando algum oficialzinho? – Serguei debochou. – Os oficiais da Cunard são bem mais sérios que os da White Star, não vão perder tempo atrás de você.
– Me erra, Serguei. – Marina se estressou. – Você é incrivelmente irritante.
– E você, incrivelmente profana.
Marina perdeu a paciência e saiu caminhando pelo convés com seus hematomas a amostra. Apesar de já terem passado quase dois dias, seus pulsos ainda estavam feridos e marcados, tinha arranhões pelo corpo e olho ainda estava roxo, porém menos grave do que estava antes. Serguei não tinha tornado a agredi-la, talvez por medo de ser pego, mas continuava humilhando e falando coisas para que Marina se sentisse cada vez mais incapaz, aos poucos estava conseguindo. Era desesperador.
– Já voltou do passeio? – A mãe estava bordando. Riley estava muito pensativa.
– Como que se passeia com um psicopata por perto? – Se sentou de frente para mãe. - Ah, mamãe, que horror nós estamos passando!
– Infelizmente não há o que fazer. Fomos condenadas a viver assim.
– Condenadas? Ora, mamãe, quem começou com tudo isso foi a senhora! Se a senhora nunca tivesse me obrigado a me tornar noiva desse louco, isso não estaria acontecendo.
– Eu não sabia quem ele era! Estou tão surpresa quanto você! Eu achava que era o certo, somente isso.
– A senhora acabou com a minha vida. – Marina segurou as lágrimas. – Meus sonhos, meus planos, foi tudo por água abaixo por culpa sua!
Riley segurou o choro. Não esperava ouvir aquilo da própria filha que criou com tanta garra, que fora pai e mãe ao mesmo tempo, que tinha dado tudo de si para dar uma boa vida, era simplesmente horrível ouvir palavras duras de um Marina traumatizada, mesmo que a culpa fosse simplesmente de Riley. Silencio por alguns segundos.
– Mamãe, eu tossi sangue. – Isabella quebrou o silêncio mostrando um lenço ensanguentado.
– Me dê esse lenço, Isabella. – Riley pediu.
Marina colocou a mão na testa enquanto Riley avaliava alguma coisa.
– O que foi agora? – Serguei entrou no camarote. – Essa pirralha já está dando trabalho de novo?
– Ela tossiu sangue. Isso não é dar trabalho. – Marina o enfrentou. – É doença que precisa ser tratada.
– Mas pode simplesmente ser drama. – Serguei puxou o lenço da mão da falida lady. – Ter cortado alguma parte do corpo e ter jogado no lenço para dizer que tossiu.
– Deixe minha filha ver um médico, por favor. Isso pode ter haver com a pneumonia que ela não tratou. – Riley pediu, quase que aos prantos.
– Não. Isabella não vai ver médico nenhum. Isso não passa de drama.
– Como você consegue ser tão miserável? – A jovem encarou o mais profundo de seus olhos demoníacos.
– Você que me fez ser esse monstro que sou. – Agarrou-a pelos ombros. – Você vai ser minha esposa custe o que custar, por bem ou por mal. – Falou a última palavra cuspindo.
– Lowe vai vir me buscar.
– Quer dizer que a donzela não sabe se defender sozinha? Precisa de um marinheirinho para salvar? Não estamos nessas babaquices de conto de fadas, estamos na vida real, onde a magia não salva ninguém, mas sim as atitudes! Me poupe Marina, você não tem mais idade para ficar esperando por príncipes encantados!
– Pare disso. – Riley ordenou. – Solte minha filha, por favor.
Serguei a soltou.
– Você se tornou um monstro, Serguei. – Riley nem acreditava no que via. – Eu confiava em você, achei que eras um homem bom, mas não passa de um monstro que se esconde em um rostinho bonito. Você deveria ter morrido aquela noite!
– Ok, senhora Potter. – Ele sorriu maleficamente. – Se sou o monstro, está na hora de atacar.
O homem puxou Isabella com força pelo braço e a jogou dentro do seu dormitório, trancando a porta por fora com a chave. A intenção era deixa-la passando fome até quando ela aguentasse. Isabella clamava por misericórdia, chorava desesperadamente, não tinha nada haver com aquela desordem para sofrer tanto.
– A chave fica comigo. – Ele jogou a chave no bolso. – Se Marina não parar de me insultar, Isabella quem vai pagar as consequências e eu garanto que ela não sai com vida. Comigo você vai querer ficar e permitir que a paz volte a reinar ou vai querer que sua irmãzinha morra de fome?
Riley colocou a mão no ombro da filha.
– Tudo bem, Serguei, eu fico com você.
– Muito bem. – Ele desdenhou. – Agora vamos passear pelo convés como um casal feliz?
– Vamos. – Ela deu o braço ao homem, totalmente desanimada.
– Aqui as chaves. – Jogou para Riley. – E mesmo assim a menina não ver um médico, já disse que é frescura e minha palavra é ordem, apenas abra o quarto. Vamos passear, querida, todos tem que ver como nos amamos.
Marina fingiu um sorriso e acompanhou o psicopata que estava exalando felicidade. Riley tentava abrir a porta, mas nenhuma chave conseguia abrir a porta.
