Capítulo 12

A profecia

"Who's there to save the girl after she saves the world?"

"Save the hero" – Beyoncé.


A noite de trinta e um de dezembro foi agitada. Enquanto que no Largo Grimmauld os convidados festejavam o fim do ano e comemoravam a melhora do Sr. Weasley – que ainda estava em observação o hospital, porém fora de perigo –, na Mansão Malfoy Snape via-se preso entre Comensais da Morte no que seria um banquete em comemoração ao aniversário do Lorde das Trevas. Entretanto, o pensamento de Snape estava muito longe dali, mais precisamente em Elizabeth que, por sua vez, também pensava no professor de vez em quando.

Snape estava afastado em um canto da espaçosa sala de visitas, preferindo manter uma conversa amena com Narcisa Malfoy, que deveria ser a única pessoa agradável naquele covil de criminosos. A conversa, porém, foi interrompida por Voldemort, que pediu a atenção de todos para mais um discurso extremista e maligno. Snape suspirou discretamente, perguntando-se até quando aquele martírio o perturbaria.

Já na sede da Ordem, as pessoas se reuniram em frente ao relógio e juntas contaram os últimos segundos do ano de 1995. Os gêmeos Weasley soltaram pequenos fogos na sala de jantar sob os gritos da mãe. Depois de todos terem se abraçado – até mesmo Elizabeth e Harry, que se mostrou incomodado, mas mesmo assim a abraçou –, Valentina retornou da cozinha carregando um grande bolo de chocolate, com duas velas acesas representando o número vinte e dois.

— Não é só o Ano Novo que estamos comemorando – piscou para a neta que riu.

— Feliz aniversário, maninha. – Edward beijou-lhe a testa.

Todos cantaram parabéns para Elizabeth, que tinha as bochechas coradas por estar sendo o centro das atenções. Soprou as velas. Nunca se importou muito com a superstição de fazer um pedido ao apagar o pavio das velas, porém, naquela noite, Elizabeth viu-se desejando por um futuro melhor, temendo uma iminência até então desconhecida.

ooOOooOOoo

No último dia antes do fim do recesso, Snape e Elizabeth acabaram por se encontrar no Largo Grimmauld. Ela estava saindo da biblioteca para ir à cozinha quando deu de cara com o professor no corredor.

— Ah! Oi – ela o cumprimentou com um sorriso.

— Olá – ele acenou com a cabeça. — Soube que fez aniversário, espero que tenha passado bem.

— Sim, passei – assentiu, não se ressentindo pela falta da parabenização. Estava cada vez mais habituada com os modos do homem. — Inclusive, obrigada pelo cachecol.

— Também agradeço – olhou para os próprios pés. — Uma... – pigarreou — coincidência curiosa.

— Com certeza! – Riu e Snape achou encantador. — O que faz por aqui?

O professor respirou fundo e abaixou o tom de voz:

— Dumbledore quer que eu ensine Oclumência para o Potter.

— Sem dúvidas, é muito importante que ele aprenda – cruzou os braços. — Mas por que você? Você e Potter não se dão bem.

— Foi o que eu questionei, mas você conhece seu padrinho melhor do que eu. – Arqueou a sobrancelha. — De qualquer forma, eu vim até aqui para conversar com o garoto.

Os dois seguiram juntos em silêncio até a cozinha e o professor pediu que a Sra. Weasley o anunciasse ao menino. Snape, então, sentou-se à mesa e Sirius não escondeu a cara de desgosto direcionada para o outro.

— Eu devo conversar com Potter à sós...

— Não vou sair daqui. – Sirius declarou com frieza.

Elizabeth os encarou, calada e com as sobrancelhas arqueada. Conhecendo o feitio do primo e estando consciente da escassa paciência que Snape possuía, achou melhor não os deixar sozinhos e, assim, também se sentou à mesa.

— Er... – Harry murmurou sem jeito quando adentrou o cômodo.

Snape o encarou com os longos cabelos negros emoldurando o rosto.

— Sente-se, Potter.

— Sabe – Sirius disse olhando para o teto –, eu acho que seria melhor se você não desse ordens aqui, Snape. É a minha casa.

Elizabeth olhou atentamente para o primo, apesar de não ter esboçado nenhuma reação além da cautela.

— Eu deveria falar com você em particular, Potter – disse Snape, ignorando o outro homem –, mas Black...

— Eu sou o padrinho dele – aumentou a voz.

— Estou aqui por ordens de Dumbledore. – O professor disse contrastando com seu tom baixo. — Mas sei que Black quer se sentir... envolvido.

— O que quer dizer com isso? – Sirius levantou um pouco a voz, cerrando as mãos.

— Sirius! – Elizabeth o chamou, tentando arrancar sua atenção das provocações de Snape.

— Apenas quis dizer que você deve se sentir frustrado pelo fato de não poder fazer nada útil para a Ordem.

Elizabeth, desta vez, lançou um olhar de repreensão para Snape, tomando partido do primo.

— O diretor me enviou até aqui, Potter – continuou —, para dizer-lhe que você deverá estudar Oclumência nesse semestre.

— Estudar o quê? – O garoto franziu o cenho.

O lábio de Snape tremeu.

— Oclumência, Potter. A mágica de defesa da mente contra penetrações externas.

— Por que tenho que estudar Ocluman-sei-lá-o-quê?

— Porque o diretor acredita ser uma boa ideia – disse calmamente, embora fosse nítido que dava o seu melhor para não se estressar. — Você terá aula uma vez por semana e ninguém deverá saber. Muito menos Umbridge, entendido?

— Sim – disse Harry. — E quem será meu professor?

Snape levantou a sobrancelha e respondeu:

— Eu.

— E por que Dumbledore não dará aulas para ele? – Sirius perguntou agressivamente. — Ou até mesmo Elizabeth poderia dar. Ela é ótima nisso.

— Acredito que seja um privilégio do diretor escolher outra pessoa para uma tarefa tão desagradável. Garanto-lhe que não implorei por esse emprego. – Snape se levantou. — As aulas serão às seis horas na noite de segunda-feira, Potter, na minha sala. Caso perguntem, diga que está tendo aulas extras de Poções. Ninguém irá questionar isso, não é?

O professor se virou para sair e Elizabeth levantou-se para o acompanhar até a porta. Contudo, Sirius também se ergueu da cadeira e disse:

— Espere aí.

Snape revirou os olhos, virando-se na direção de Sirius.

— Estou com pressa, Black. Ao contrário de você, não tenho muito tempo livre.

— Irei direto ao ponto, então – deu um passo na direção do professor e Elizabeth viu Snape segurar algo dentro do bolso, provavelmente era sua varinha. — Se eu souber que está aproveitando as aulas de Oclumência para implicar com Harry, você vai se ver comigo.

— Que comovente. Mas certamente você notou que Potter é muito parecido com o pai?

— Sim, notei. – Sirius disse, orgulhoso.

— Então você sabe o quão arrogante ele é e que críticas não o abalam – disse Snape com deboche.

Sirius empurrou a cadeira que estava em seu caminho e correu raivoso em direção a Snape enquanto os dois puxavam as varinhas. Elizabeth ergueu a mão e fez surgir uma barreira mágica entre os dois homens, que agora encaravam-se odiosos. Harry apenas observava tudo um pouco assustado.

— Eu avisei, Ranhoso. – Sirius disse entredentes. — Estou pouco me fodendo se Dumbledore acha que você se redimiu, eu sei que é mentira.

— Sirius... – Harry disse, mas o padrinho não o escutava.

— Então por que não diz isso a ele? – Snape provocou. — Ou você tem medo que ele não leve a sério um homem que está se escondendo na casa da mãe?

— Severo... – Elizabeth chamou, mas ele também parecia não escutar. Ela continuava a manter a barreira.

— Como anda Lúcio Malfoy, hein? Ele deve estar satisfeito com o cachorrinho dele trabalhando em Hogwarts, não é?

— Falando em cachorro – Snape continuava aparentemente calmo —, você sabia que Lúcio reconheceu você na última vez que arriscou uma saidinha às ruas? Brilhante ideia, Black, deixar ser visto numa plataforma... Deve ser por isso que você está definitivamente preso aqui.

Sirius levantou a varinha e Elizabeth fez com que a barreira emitisse uma vibração muito forte, fazendo com que os dois homens dessem um passo para trás.

— Está me chamando de covarde? – Sirius gritou.

— Estou.

— Ok, já chega vocês dois. – Elizabeth disse desfazendo a barreira e colocando-se entre eles.

Exatamente naquele momento, a porta da cozinha se abriu e toda a família Weasley e Hermione entraram acompanhando o Sr. Weasley que anunciava:

— Curado! Estou completamente curado.

Contudo, os recém-chegados congelaram quando viram a cena e Snape e Sirius guardaram as varinhas.

— O que está acontecendo? – O sorriso do Sr. Weasley morreu.

— Segunda às seis e meia, Potter. – Snape lembrou uma última vez e saiu da cozinha.

Elizabeth lançou um olhar bravo para Sirius e foi atrás do professor que já alcançava a porta.

— Ei! – Ela o segurou pelo braço, o primeiro toque real entre eles dois. — O que foi isso? Vocês não podem continuar assim, desconfiando um do outro.

— Diga isso ao seu primo – falou emburrado.

— Estamos do mesmo lado, Severo. Brigas como essas apenas comprometem a união da Ordem. Você e Sirius estão sendo incrivelmente infantis.

— Infantil? Eu? – Perguntou inconformado, levantando a voz.

— Sim, você. E trate de abaixar a voz quando fala comigo. – Ralhou mantendo um tom de voz inalterado. — É melhor você ir agora.

— Eu...

— É sério – cortou-o. — Antes que Sirius resolva vir até aqui e te estuporar. Ele é muito esquentadinho. Amanhã eu estou voltando a Hogwarts. Até.

— Até amanhã – disse após uma breve hesitação e atravessou a porta.

Elizabeth respirou muito fundo encarando o lugar onde Snape estivera há poucos segundos. Retornou a passos firmes até a cozinha e postou-se na frente de Sirius.

— Você é maluco? – Pôs as mãos na cintura chamando atenção dos outro ali.

— E lá vamos nós... – Sirius disse com a voz ligeiramente alterada, um brilho malicioso nos olhos — Vamos lá, Eliza. Defenda Snape com unhas e dentes.

— Defender ele? – Indignou-se. — Eu deveria estuporar os dois, não vou defender ninguém. Estão parecendo duas crianças, é patético.

— Você disse isso pro seu favorito ou só eu que tomo a dura?

— Pode ficar tranquilo que já puxei a orelha do Snape. – Disse entredentes. — Agora imagine se algum feitiço atinge o Harry? Você ao menos pensou nisso?

Sirius apenas abaixou a cabeça em silêncio, reconhecendo que a prima tinha razão. Elizabeth respirou fundo e sacudiu a cabeça, tendo consciência que a relação Sirius-Snape era um caso sem solução.

— Vou arrumar minhas coisas – disse antes de se retirar dali. — Ah, Sr. Weasley, fico feliz que esteja melhor.

— Eu devo lhe agradecer, Elizabeth, por causa de Melissa. Ela foi um verdadeiro anjo.

Ela apenas sorriu e subiu para o quarto.

ooOOooOOoo

Logo pela manhã de terça-feira, o mundo bruxo acordou com a terrível notícia de uma fuga em massa de Azkaban. Durante o café da manhã, Snape, que tinha um olhar raivoso, estendeu o jornal para Elizabeth. Junto à manchete havia fotografias e relatos sobre os crimes de cada um dos fugitivos. Entre eles estava Bellatrix Lestrange; Elizabeth crispou os lábios.

— É terrível vir de uma família grande – murmurou enquanto folheava o jornal. — Ei, viu isso? – Apontou para Snape uma matéria que falava sobre a morte de um funcionário do Ministério.

O professor apenas assentiu com a cabeça e deixou a mesa. Mais tarde, quando a última turma deixou a sala de aula, Elizabeth sentou-se sobre uma das carteiras, arrancando um olhar repreensor de Snape, que não disse nada sobre os modos da estagiária, embora estivesse claro que não os achava adequados.

— Todos esses que fugiram eram comensais? – Perguntou em voz baixa.

— Sim, do ciclo mais íntimo do Lorde das Trevas. – Snape suspirou, pondo algumas cadeiras em seus devidos lugares. — Bellatrix, inclusive, foi responsável por torturar os pais do Longbottom.

— É, eu li no jornal. Como foi a aula do Harry? – Ela balançava as pernas.

— Terrível, como era de se esperar – franziu o cenho vendo-a agir tão puramente, mas continuou. — Nenhum progresso.

— Mas foi apenas a primeira aula dele. Oclumência não é fácil.

— Não, não é – concordou. — Mas ele nem ao menos se esforçou.

Elizabeth observou seriamente o homem que, agora, arrumava alguns frascos nas prateleiras.

— Severo – chamou e notou como aquilo se tornou algo comum entre eles —, quão séria é a situação? – Perguntou. Isso fez Snape se virar para ela.

— O Lorde das Trevas não está muito longe de ter total acesso à mente do garoto. – Pôs um último frasco na estante e depois se aproximou, encostando-se na sua própria mesa. — Potter anda tendo sonhos estranhos...

— Acha que também são visões?

— Ele anda sonhando com o Departamento de Mistérios...

— E o que tem no Departamento de Mistérios?

— Me desculpa, Elizabeth, mas não posso contar. Ordens de Dumbledore.

Ela deixou os ombros caírem e suspirou.

— O homem que morreu...

— Era um Inominável – ele respondeu já sabendo o que ela perguntaria. — Trabalhava no Departamento de Mistérios.

Ela apenas sustentou o olhar do professor, ambos sabendo que as visões de Potter e a morte do funcionário do Ministério não eram coincidências.

Desceu da mesa e caçou algo dentro da mochila. Elizabeth estendeu uma pequena caixinha retangular para o professor que a olhou sem entender. Balançou a caixa em sua direção, incentivando-o a pegar. Ele segurou a caixa – os olhos desconfiados – e a abriu, encontrando pequenos doces marrons em formato redondo.

— O que é isso? – Encarou-a.

— Brigadeiro.

— Briga-o-quê?

— Bri-ga-dei-ro – disse pausadamente. — É um doce brasileiro. Eu que fiz.

Ele a olhou em silêncio e ela sorriu abertamente para ele. Saber que aquele sorriso, genuíno, era direcionado somente para ele fez com que um calor aconchegante passe por todo seu corpo. Elizabeth, por sua vez, colocou a mochila nos ombros e disse:

— Feliz aniversário, Severo.

Deu as costas, ainda impressionada com sua própria coragem em ter se dado o trabalho de fazer os doces para dá-los a Snape. Abriu minimamente a porta quando ele a chamou.

— Elizabeth – ela olhou para ele, vendo que mastigava o doce —, vou querer mais desses.

Ela riu e deixou a sala.

ooOOooOOoo

No dia seguinte à notícia da fuga dos Comensais da Morte, mais um Decreto Educacional foi emitido a pedido de Umbridge. Os professores, a partir de então, estariam proibidos de passar aos alunos qualquer informação que não fosse relacionada, estritamente, ao assunto pelos quais recebiam para lecionar. O Ministério realmente quer os alienar, Elizabeth pensou consigo.

No início da tarde de quinta-feira, quando as turmas já se deslocavam para o almoço no Salão Principal, Snape trancou a sala e lançou um feitiço silenciador na porta. Elizabeth já havia percebido como o professor parecia inquieto, os ombros tensos, e um olhar perdido que vez ou outra encontrava o dela.

— Está me deixando preocupada.

— Potter anda sonhando com você – disse sem delongas, postando-se defronte a mulher.

— O quê? – Preocupou-se. — Ele não pode sonhar comigo! A qualquer momento Vold... Desculpa. Ele pode ter acesso à mente do garoto.

— Elizabeth – disse com um olhar apreensivo, o que a surpreendeu por ver aquele tipo de sentimento esboçado por Snape —, Potter sonha com você no Departamento de Mistérios e escuta a voz do Lorde das Trevas sempre que sonha com isso.

— E o que ele diz? – Sentiu um arrepio descer pelo seu corpo.

— É em ofidioglossia, eu não entendo.

Elizabeth levantou-se, tensa, andando de um lado para o outro.

— Primeiro: a conversa que escuto dos meus pais no casamento; depois Sirius me conta que Harry disse que a cicatriz dói quando estou por perto e agora isso? – Ponderava temerosa. — Contou isso a Dumbledore?

— Contei.

— E o que ele disse?

— Apenas... – balançou a cabeça. — Apenas pediu que eu continuasse com as aulas.

Eles se olharam por breves segundos até Elizabeth se mover. Agarrou o casaco que estava sobre o respaldo da cadeira e abandonou sua mochila, seguindo a passos decididos na direção da saída.

— Jones! Aonde vai?

— Tirar essa história a limpo de uma vez por todas. – Murmurou sem se virar para ele.

Caminhou apressada pelo castelo, aproveitando que a maioria dos alunos estavam no Salão Principal. Perto do Saguão de Entrada, ela encontrou McGonagall que seguia para o almoço.

— Minerva! Dumbledore está?

— Ele disse que precisava ir à casa do seu primo. – disse em voz baixa.

— Obrigada – correu para as escadas. — E, ah, Minerva! Se Umbridge pergunt...

— Eu invento qualquer história sobre sua ausência, Elizabeth. – A mais velha a tranquilizou, entendendo que a garota tinha assuntos importantes.

Assim que alcançou os primeiros centímetros de chão fora das proteções do castelo, Elizabeth aparatou, encontrando-se duas ruas antes do Largo Grimmauld. No curto caminho, encontrou o irmão.

— O que faz aqui? – Perguntou franzindo o cenho.

— Tinha um tempo livre e decidi vir visitar a vovó. Você não deveria estar em Hogwarts? – Ed perguntou.

— Tenho que descobrir uma coisa.

Edward a encarou com estranheza, mas a irmã apressou o passo impedindo que ele a questionasse. Edward correu atrás dela, segurando a porta antes que ela se fechasse. Elizabeth estava encostada contra a parede, ouvindo as vozes que surgiam da sala de estar. Pediu que o irmão fizesse silêncio e ele se aproximou dela.

— Precisa contar a ela, Robert – a voz de Dumbledore era inconfundível. — As coisas estão se estreitando.

Elizabeth se moveu, chamando a atenção de Edward que estava muito quieto. Ela adentrou a sala, o irmão atrás de si, surpreendendo a todos que estavam ali: Dumbledore, seus pais e sua avó.

— É – disse com raiva, encarando cada um —, também acho que vocês precisam me contar.

— Elizabeth... – o pai balbuciou.

— Eu sabia que isso iria acontecer – Cássia disse com nervosismo. — Eu sabia, por isso sempre insisti para contarmos a ela. Agora vamos, Robert. Conte a ela.

O patriarca dos Jones olhou com desespero para Dumbledore e para a mãe, que mantinha um olhar sério para seu filho.

— O que está acontece... – Edward foi interrompido pela irmã que falou mais alto.

— Vamos, pai! Conte!

Dumbledore fitou Robert, que tinha os olhos baixos e respirava muito rápido. Vendo que o amigo não conseguiria dizer nada, o diretor disse:

— É melhor você se sentar, Elizabeth. Você também, Edward.

Os irmãos se encararam momentaneamente e logo se acomodaram nas poltronas puídas da sala. Dumbledore suspirou muito fundo, olhando para todos ali. Dizendo que não havia maneira mais simples de contar, o mago começou a dizer.

— Quinze anos atrás, Trelawney fez uma profecia que dizia que um menino viria a ser fundamental para a derrota de Lorde Voldemort. Claramente, este menino é Harry Potter. Um comensal escutou parte da profecia e contou ao seu Lorde. A partir disso, a Ordem da Fênix fez o que podia para proteger Tiago e Lilian Potter. Porém, pouco tempo depois que essa profecia surgiu, uma outra foi feita.

— E o que dizia essa outra profecia? – Elizabeth perguntou, sua voz trêmula.

— Estávamos no Três Vassouras, os funcionários da escola estavam fazendo uma confraternização. Trelawney se levantou para ir ao banheiro, contudo notei que estava demorando muito. Fui até o corredor onde ficam os banheiros. – Suspirou. — Ela estava encolhida no chão, em transe, parecia sentir dor. Nunca vi uma profecia ser tão dolorosa para ser proferida. A profecia dizia que uma garota nascida no primeiro dia do ano e herdeira de Ravenclaw também seria uma peça fundamental para a derrota de Voldemort. Não havia dúvidas de que a profecia se tratava de você, Elizabeth.

Ela olhou para a mãe que ouvia tudo calada com um olhar perdido – como se revivesse tudo aquilo de novo –, seu pai tinha o rosto enterrado nas mãos e respirava ofegante. Sua avó a fitava com um olhar terno, mas com muita seriedade, e Edward, assim como a irmã, tentava entender o que tudo aquilo significava.

— Acontece que – Dumbledore continuou depois de uma curta pausa — um outro comensal ouviu a profecia. Yaxley. Bem, na verdade, ele escutou muito pouco, apenas a primeira parte. A única informação que ele conseguiu foi a de que uma garota ajudaria Harry Potter.

— E, é claro, ele contou para Voldemort.

— Sim – seu padrinho confirmou. — É por isso que pedi que Snape tivesse cuidado ao se tratar de você. Não é apenas sobre a sua família, mas também sobre seu destino.

Elizabeth podia sentir as mãos trêmulas e seu nariz ardia pela vontade de chorar. Ela olhou para o irmão que parecia tão afetado quanto ela. Engolindo o bolo em sua garganta, ela apenas conseguiu perguntar:

— Voldemort sabe que a profecia se trata de mim?

— Não, não sabe. É isso que nos conforta – Dumbledore esclareceu.

— Merlin... – suspirou enterrando o rosto em suas mãos.

— Dumbledore nos contou assim que soube. – Cassiopeia falou chamando a atenção da filha, que a fitou com olhos marejados. — Nós ficamos desesperados com o pensamento de que Voldemort poderia fazer algum mal a você.

— Eu me lembro desse dia... – Elizabeth disse num fio de voz, tentando evitar que sucumbisse às lágrimas. Virou-se para a avó quando disse. – A senhora tentou me distrair enquanto Dumbledore conversava com meus pais.

Valentina apenas assentiu com a cabeça e sua mãe voltou a falar.

— Dumbledore nos aconselhou que era melhor nós nos afastarmos da guerra.

— Então nos mudamos para o Brasil. – Edward concluiu.

— Sim.

— Então vocês mentiram para mim o tempo inteiro? – Elizabeth sentiu as lágrimas finalmente caírem dos seus olhos, uma dor surreal invadindo seu âmago. – Quinze anos escondendo isso de mim! – Queria gritar, mas sentia-se sem forças para isso.

— Eu e sua mãe queríamos contar a você quando tivesse idade o suficiente para entender. – Valentina disse ainda muito séria. — Mas seu pai...

— Eu tive medo! – Robert berrou, também com o rosto banhado em lágrimas. — Eu ainda tenho medo. Medo do que ele pode fazer com você. Eu achei que...

— Achou que escondendo isso de mim estaria me protegendo? – Elizabeth perguntou magoada. — Pois me deixe te contar uma coisa, pai: não estava protegendo ninguém! – As lágrimas não cessavam. — Apenas me deixou completamente despreparada para o que acontecerá.

— Isso não está acontecendo... – Edward murmurou e se levantou, nervoso, caminhando de um lado para o outro.

Então, um silêncio longo se estendeu entre eles e era quebrado apenas pelo choro de Elizabeth e Robert.

— Então é isso, não é? – Disse por fim, sentindo-se inacreditavelmente sem forças. — Eu estou marcada para morrer pelas mãos de Voldemort.

— Não, Elizabeth. – Dumbledore disse com calma. — Você está destinada a derrotá-lo.

— E você acha que eu sou capaz? – Finalmente gritou, rompendo em um choro compulsivo.

Sem dizer mais nada, Elizabeth se levantou e correu para um dos quartos da casa, trancando-se pelo restante da tarde.

ooOOooOOoo

Quando Elizabeth se sentiu pronta para deixar o quarto já era noite. Pensou em seguir para a cozinha, mas desistiu da ideia quando escutou algumas vozes vindas de lá. Então, caminhou para a sala de jantar, agradecendo internamente pelo cômodo estar vazio. Sentou-se, sentindo-se ser engolida pelas paredes roxas e a decoração gótica, típica dos Black. Sua mente agia à mil por hora. Pensou em muita coisa. Pensou sobre a mentira da família, pensou sobre todas as vezes que questionou sobre a repentina mudança para o Brasil, pensou sobre a profecia e pensou, até mesmo, em Jonathan, o que foi devidamente afastado de sua mente após um arrepio agourento lhe correr pela epiderme. Elizabeth ouviu passos se aproximando. Eram lentos, rítmicos e precisos. Sabia a quem pertenciam e o perfume que adentrou suas narinas apenas serviu para confirmar sua certeza.

— Chá? – Snape ofereceu segurando duas canecas fumegantes.

Ela negou com a cabeça sem tirar os olhos das próprias mãos.

— Não gosto.

— Uma inglesa que não gosta de chá? Isso é novidade.

Seu tom era uma novidade para Elizabeth. Estava entre a cautela e o cuidado, e isso fez com que ganhasse o olhar curioso dela. Pôs a caneca na sua frente e viu que, na verdade, era café. Teria sorrido para ele se pudesse. Snape puxou a cadeira ao seu lado e se sentou, sorvendo um pouco do seu chá.

— Dumbledore me contou – disse após um momento de quietude.

— É... – ela voltou os olhos para a superfície da mesa. — Acabei de descobrir que minha vida foi uma mentira.

— Conversei com seu irmão – bebericou o chá e apontou para a caneca dela, indicando para que bebesse. — Ele está bem abalado também.

— É claro que está, conheço meu irmão – disse com amargura e bebeu o café. — Mas não é ele que está na mira de um genocida.

Com os olhos fixos entre a caneca e a mesa, não notou quando Snape olhou em volta, se certificando de que estavam realmente sozinhos e de que não seriam ouvidos. Ele arrastou a própria cadeira alguns centímetros na direção dela e disse aos sussurros:

— Dumbledore pediu para que eu não te contasse – hesitou um pouco, embora soubesse que já quebrara regras demais. — Mas você deve saber.

Elizabeth levantou a cabeça, curiosa, depositando lentamente a caneca sobre a mesa, mas suas mãos não soltaram o objeto quente.

— O Lorde das Trevas sabe sobre você. Calma! – Pediu ao ver a garota arregalar os olhos assustada. — Ele não sabe sobre quem você é, apenas sabe que tenho uma estagiária. Não demonstrou nenhum interesse sobre quem você era. Acho que é um direito seu saber disso.

Elizabeth abaixou a cabeça visivelmente abalada. O professor sentiu-se perder o ar por um momento quando a garota voltou a levantá-la, o rosto carregava olhos cheios de lágrimas. Nunca soube lidar com mulheres chorando, característica adquirida das centenas de vezes que viu a própria mãe se lamentar pelo marido.

— Severo – Elizabeth sussurrou —, se você souber de mais alguma coisa, qualquer coisa, você vai me contar, não vai? Não vai esconder de mim como eles fizeram?

— Vou ser sincero, sim.

— E se eu precisar de ajuda, você vai me ajudar?

— Sim.

Elizabeth mordeu os lábios com nervosismo. Sabia da responsabilidade e confiança que estava entregando abertamente a Snape, embora a confusão em sua mente lhe nublasse a percepção. Respirou muito fundo e piscou, sentindo algumas lágrimas caírem.

— E se... – fungou e sem perceber aproximou-se do homem. — Se eu precisar de proteção...

Snape, que também estava muito perto, tocou delicadamente a mão direita da jovem mulher, fazendo-a se calar. Sério e com os olhos sempre nos dela, ele disse:

— Eu vou proteger você, Elizabeth. Não tem que me pedir isso.

Ela fechou os olhos causando a queda de mais duas lágrimas. Como um bálsamo, sentiu o toque delicado dos dedos de Snape secando seu pranto e abriu os olhos para encontrar as duas obsidianas fitando-a intensamente, muito mais perto do que seria adequado.

Observando-a assim tão perto, Snape pôde ver como os olhos de Elizabeth eram de um castanho muito profundo, e só dessa maneira, bem próximo, ele podia diferenciar as pupilas das íris. Percebeu, também, como a sua pele era levemente bronzeada, como se os resquícios da tropicalidade brasileira jamais a tivessem deixado. Tinha alguns sinais pelo rosto, ele viu. Dois próximos ao olho esquerdo e um no queixo. Cometeu o pecado de deitar seus olhos sobre a boca dela. Talvez não tão consciente do que acontecia, Elizabeth lambeu os lábios, fazendo com que Snape se sentisse convidado a se aproximar ainda mais.

E ele o fez.

Aproximou seu rosto do dela, os narizes quase se tocando. Os olhos de Elizabeth se fecharam lentamente, pronta para se jogar no abismo que era Severo Snape e seus olhos de obsidianas. Contudo, a propinquidade fez com que ao inalar, o cheiro de Elizabeth invadisse suas narinas e seu ser quase violentamente. O choque fez com que se afastasse imediatamente. Elizabeth demorou alguns segundos para perceber o afastamento e, então, abrir seus olhos.

Snape já estava de pé, próximo à porta – sua caneca de chá esquecida sobre a mesa há muito tempo. Com muita estranheza, notou que Snape estava incapaz de manter contato visual, e por mais que parecesse que ele olhava na sua direção, seus olhos estavam focados longe de seu rosto.

— Não precisa trabalhar pelo resto da semana – disse por fim, e Elizabeth sentiu suas bochechas corarem. — Tome o tempo que precisar para si. Boa noite, Srta. Jones. — E tão rápido como uma onça, Snape a deixou, não dando nem mesmo oportunidade para que também lhe desejasse boa noite.

Elizabeth ainda permaneceu muitos minutos na sala de jantar, divagando sobre o que acabara de acontecer – ou quase acontecer. Esqueceu seu café assim como ele abandonou o chá. Sua cabeça dava ainda mais voltas agora, e ao mesmo tempo que se sentia inegavelmente protegia após a conversa com o professor, também se sentia angustiada, tendo, então, muita certeza do que estava sentindo.

Não sabia que horas eram quando finalmente se levantou. A casa estava totalmente mergulhada no silêncio e pensou que já deveria ser tarde. Ao pôr a cabeça no travesseiro, seus olhos se fecharam com muito sono, devido ao esgotamento mental. Todavia, Elizabeth não percebeu a mais nova responsabilidade que depositou sobre Snape naquela noite:

Estaria ele pronto para ter o coração dela em suas mãos?

Snape, por sua vez, andou o mais depressa que pôde para fora do Largo Grimmauld; para o mais longe que podia de Elizabeth. Seus lábios pareciam arder após o quase toque nos lábios da jovem mulher e a mão que segurou a dela ainda podia senti-la.

O que diabos Elizabeth Jones provocava nele? Por que não conseguia impor uma distância segura? Por que quis beijá-la? Como sabia que iria protegê-la e cuidar dela e por que queria tanto fazer isso?

Correndo o mais rápido que podia, com sua longa capa revoando atrás de si, ainda completamente abismado com o que acontecera, alcançou as masmorras de Hogwarts e, depois, o seu laboratório. Agarrou, então, o frasco da Poção do Amor na prateleira, a mesma que Elizabeth preparara sob as ordens dele. Respirou avidamente o aroma, quase como se sua vida dependesse daquilo. O aroma o deixou entorpecido por alguns segundos e todo seu corpo relaxou, da mesma maneira que relaxara quando estava próximo de Elizabeth.

Passado o torpor, devolveu o frasco para a prateleira e socou a parede mais próxima com raiva e culpa, perguntando-se como deixou aquilo acontecer. Teve, então, a resposta para todas as suas perguntas, até mesmo aquelas que ainda não haviam surgido. O perfume que lhe invadiu as narinas não era mais de lírio, chocolate e hortelã. Era apenas, unicamente, o cheiro mascarado que sentira na primeira vez: lavanda, ervas e livros.

O cheiro da maldita mulher de cabelos escuros e lindos olhos castanhos.


Notas da autora

- Contém trechos adaptados da obra de J.K. Rowling, "Harry Potter e a Ordem da Fênix", 2003.