Obs: P.O.V = ponto de vista do personagem que está narrando

Obs 2: alguns personagens tiveram a idade alterada, e a aparência escolhida para alguns foi a descrita no livro e não no filme

[Todos os personagens pertencem a Stephenie Meyer!]


13

Visitante

Claudio P.O.V.

- Querido diário... – eu disse em voz alta.

Michael lançou um olhar para mim cheio de censura.

- O texto não começa assim.

- Eu sei – sorri – apenas queria ver sua reação.

Pigarreei enquanto ele revirou os olhos, depois continuei a leitura. Na verdade não sabia como conseguia fazer piadas numa situação dessas e apesar da situação de conspiração extrema era estranho como acabamos nos tornando colegas, quase amigos, apesar da situação.

Sentia-me muito mais confortável no andar de cima, onde os humanos trabalhavam em um emprego falso para manter a farsa que era a cidade de Volterra. As coisas estavam relativamente calmas desde que Aro e Elia voltaram do Egito, calmas demais, porém havíamos dobrado a cautela com relação às traduções do diário, pois a vigilância com os humanos havia recomeçado.

Jane parecia muito animada, mas ela se recusou a me dizer o motivo. Alec pelo contrário parecia tenso, a última vez que o vi hoje foi quando ele levou Elia até a biblioteca, aparentemente haveria uma reunião da Guarda hoje, mas não tinha interesse em ouvir o que eles tinham a dizer, era a oportunidade perfeita para trabalhar com Michael.

- "Os humanos estão construindo uma muralha ao redor da cidade. Eles pediram nossa ajuda, mas Aro nos proibiu de ajudá-los. Agora trabalham até o pôr-do-sol, o mais rápido que podem, com medo de serem atacados. Sofro por eles, pois teríamos terminado o trabalho em dias enquanto eles provavelmente demorarão anos e terminarão com metade dos homens que começaram".

- Ah, esqueci de avisar que atualizei a linguagem para você entender – foi a minha vez de olhar para ele com irritação. Por que todos daqui me tratavam como se fosse um inútil? - Ela parecia ser uma boa pessoa.

- Está falando como Elia, sempre vendo o lado bom. Se Didyme era irmã de Aro então não devia ser totalmente boa.

Virei à página a procura de uma passagem mais interessante, dessa vez me concentrei em uma data diferente.

- "Não há palavras para expressar o quanto sinto falta de casa. A vegetação não é tão exuberante quando a dessa cidade que nomeamos como Volterra, mas o mar está sempre à frente e as pessoas não me temiam. Talvez esteja muito presa a ilusão de quando era humana, agora não sei o que sou. Aro diz que somos melhores, mas vendo-o agir cada vez mais como um rei sinto que somos apenas peças em seu jogo. Contei isso a Marcus e fiquei surpresa por ele concordar comigo. Não queremos o poder que meu irmão almeja com tamanho desespero. Queremos apenas viver".

- É aí que começa a ficar interessante. – Michael disse enquanto digitava freneticamente no computador. Ele parecia concentrado no trabalho enquanto eu me encolhia debaixo de sua mesa para não ser notado.

- "A cada dia vejo meu irmão se distanciar de mim cada vez mais. Quando ele morreu achei que minha vida havia perdido a cor, mas quando ele retornou e me ofereceu a imortalidade achei que foi um presente dos deuses. Agora que estou aqui é como se não fosse o suficiente, como se eu não fosse o suficiente para ele. Minha graça parece incomodá-lo. E às vezes tenho medo do que ele é capaz de fazer".

Medo. Aquela palavra mágica me fez sorrir.

Abri a boca para fazer uma pergunta, mas Michael foi mais rápido:

- Acho que com 'graça' ela está se referindo ao próprio dom.

- Ah – respondi – Elia me contou que ela deixava as pessoas felizes. Não parece com algo que Aro possa gostar.

- Eu não sei – os pés dele começaram a balançar sob a mesa – é óbvio que os Volturi são um exército e que dons de ataque e defesa são os mais escolhidos, mas ela era irmã de Aro, sua teoria simplesmente é...

- Não pedi sua ajuda para me dizer que estou errado.

- Eu sei, pediu minha ajuda porque sabe que estou desesperado! – ele finalmente parou de digitar e abaixou a cabeça para olhar para mim – Eu quero muito ser imortal, eu preciso ser. É a única maneira de...

Michael hesitou. Ele não precisava dizer, já sabia o quanto ele amava Renata e como ela se recusava a transformá-lo. Queria dizer para ele desistir dela, pois se não o aceitava agora então as chances eram mínimas de aceitá-lo como um vampiro, mas precisava da ajuda dele.

- Você quer algo para usar contra Aro – Michael respirou fundo – mas precisa de algo muito ruim, algo que faça com que todos se voltem contra ele.

- Não acha que matar a irmã é o suficiente?

- Não sabemos se ele a matou, Claudio. Isso é apenas um diário, e falta muito para traduzirmos. Não tem ninguém aqui agora, Renata disse que todos estão se preparando para o Festival, a segurança será reforçada, então a partir de agora acho melhor você me encontrar fora do castelo...

- O que estão fazendo? – a voz de Elia fez-me levantar com tanta pressa que acabei batendo a cabeça na mesa. Todo o meu cérebro se concentrou na tarefa de esconder as folhas dentro do bolso, algo que fiz com sucesso.

Michael havia literalmente parado de respirar.

- Nada – andei até Elia e a abracei. Desde que brigou com Aro ela parecia um pouco perdida. Ainda esperava ela me chamar para caçar animais, não sabia se ela seria forte o suficiente para isso, mas estava disposto a ajudá-la – achei que estava com Alec.

- E estava... - Elia encostou a cabeça e apertou lentamente o meu ombro.

Ela parecia estar tentando me dizer alguma coisa.

- Quero que vá comigo a um lugar – Elia sussurrou. Não acho que Michael ouviu, pois o humano havia voltado a digitar enquanto seu coração pulsava na velocidade de uma Ferrari.

- Eu não posso... – sabia que ela ficaria chateada comigo, mas não tinha outra escolha. O castelo estava calmo, era o momento perfeito para continuar as traduções agora que Aro parecia tão preocupado com outros problemas.

- Mas é importante.

- Elia – eu a afastei contra minha vontade, e a maneira com que ela me olhou quase me fez desistir de todo o plano, pedir desculpas e segui-la para todo o sempre – estou ocupado agora.

Por não se alimentar desde que voltou do Egito e parecer estressada por não falar com Aro achei que ela gritaria comigo, que perderia o controle, mas Elia apenas assentiu.

- Tudo bem.

- Eu sinto muito...

- Não sinta – ela disse secamente enquanto se virou e deixou a sala.

Devia ir atrás dela. Havia uma voz em minha cabeça gritando para que eu fosse atrás dela, mas não movi um músculo. Apenas engoli em seco a sensação amarga que se formou em minha garganta.

- Não devia se preocupar tanto com Aro – Michael finalmente voltou a dar sinais de vida – acho que vocês acabarão se separando e no final você ficará livre para ir sem precisar provocar um motim.

Suspirei por ele ainda não acreditar em mim e por não ser capaz de saber o que tanto afligia Elia desde que voltou da viagem. A questão do sangue animal não parecia ser a única coisa que a incomodava.

- Sim – voltei para meu lugar sob a mesa e bati a parte de trás da cabeça na parede - talvez Elia acabe me deixando por ser um péssimo marido.

Michael me passou um dicionário de latim e começamos a trabalhar.


Elia P.O.V.

- É divertido, não é? Estarmos juntos de novo?

Luigi sorriu vividamente e continuou brincando na areia molhada, escavando até encontrar mais conchas do mar. Estava me arriscando demais estando aqui, colocando a vida de meu sobrinho em perigo, praticamente escrevendo seu nome na lista de Aro... Não, não podia pensar nele agora, não queria. Havia decidido que este seria um dia bom, mesmo Claudio não estando presente. Também não queria pensar nele.

- Vamos lavar isso – peguei as conchas que ele recolheu e as banhei nas ondas, depois as envolvi em uma toalha e entreguei para Luigi, com cuidado para não tocar nele, que as guardou na mochila.

Minha pele acabou sendo atingida pelo sol nesse pequeno processo, fazendo com que meu inocente sobrinho sorrisse. Era inverno, mas ainda conseguimos encontrar um bom lugar, como não sabia se estava muito frio apenas perguntei a Luigi sobre o clima e ele estava gostando.

- Que lugar é esse? – Luigi perguntou.

- Estamos em uma praia, é claro. Na Croácia. Escolhi esse lugar por ser privado.

- O que é privado?

- Isolado – respondi, mas acho que ele não entendeu – quer dizer que não tem ninguém ao redor.

Luigi finalmente assentiu. Ao contrário dele, que corria e brincava sem parar, permanecia sentada debaixo de uma sombrinha, preta e grande o bastante para cobrir boa parte do sol. Não tive certeza sobre fazer isto no começo, mas Alec me disse que este lugar era perfeito...

- Então quando voltaremos para casa?

- Bom – não estava pronta para responder aquela pergunta, então evitei olhar diretamente para ele e me concentrei em colocar as luvas que havia trazido - eu te levarei de volta, querido, então terei que ir embora.

- De novo? Mas por quê?

- Porque eu preciso, meu amor, está bem? – tentei sorrir com todas as minhas forças, não queria que ele ficasse assustado, apesar da tristeza já estar se formando em seus olhos azuis.

- Passei o Natal sozinho, sem você.

Natal, tentei diversas vezes não pensar em minha família durante o final do ano passado, mas ouvir que Luigi esteve solitário foi demais para mim.

- Eu sempre estarei cuidando de você, só que a distância. – foi à única coisa que respondi.

- Preferia que estivesse perto.

Coloquei Luigi em meu colo e apoiei sua cabeça em meu peito. Seu cabelo estava crescendo, já cobria as orelhas, e ele estava mais magro. Andrea não o estava alimentando direito? E quanto ao meu pai?

- O tio Claudio pode vir da próxima vez?

- Claro que sim, querido – suspirei e beijei várias vezes o alto de sua cabeça – ele ficará muito feliz de te ver de novamente.

Estava imensamente feliz por estar com Luigi de novo, mas devastada por ter que devolvê-lo, eu era praticamente sua mãe, ele tinha que estar comigo.

- Você está gelada. – Luigi disse depois de alguns minutos.

- Eu sei – respondi, enquanto tirava um pesado pacote de minha bolsa, junto com o colar que Andrea me deu anos atrás, e colocava em sua mochila, cortesia de Gianna – é meu novo super poder.

XXX

Deixar Luigi em casa no meio da noite como se fosse uma criminosa foi difícil, meu pai estava dormindo na sala e Andrea não estava em lugar algum, imaginei que ele estivesse procurando o filho enquanto meu pai esperava por notícias. A despedida foi longa e dolorosa, especialmente para mim, pois não sei se poderia fazer isso de novo, talvez devesse tê-lo trazido para o castelo, Aro disse uma vez que o aceitaria, mas não queria dever mais favores agora.

Aquela ida a praia provavelmente foi à última para mim, foram ótimos momentos, mas não sei se teria forças para viver tudo novamente. Sentia muita falta de ser humana e de poder andar no sol sem cintilar como um vaga-lume. Queria poder ir à praia e sentar despreocupadamente na areia, molhar os pés e sentir o cheiro do mar sem me preocupar se alguém estivesse olhando.

- A senhorita voltou! – Gianna suspirou aliviada quando entrei na recepção.

- Mas você sabia que eu voltaria – respondi, jogando a bolsa na cadeira mais próxima, ainda sem entender sua preocupação, pois avisei a ela que estaria saindo, na verdade Gianna até me ajudou a conseguir o dinheiro que entreguei para Luigi. – ainda preciso te agradecer por...

A humana balançou a cabeça tão depressa que desfez metade de seu penteado, mas eu estava mentalmente desgastada para fazer perguntas.

- Temos um convidado.

- O que? – ela finalmente conseguiu me surpreender.

- É um amigo de Aro... – Gianna engoliu em seco - Mestre Aro. É melhor a senhorita entrar.

Olhei para a grandiosa porta de madeira com medo. Que tipo de vampiro estava a minha espera? Aro não havia me dito nada, na verdade ele não me dizia nada há dias, evitávamos um ao outro propositalmente.

Entrei no salão sem ser anunciada, mas acho que nenhum dos dois vampiros que conversavam se incomodou com isso. Aro pareceu aliviado, na verdade, ele abriu um largo sorriso, que não retribuí, enquanto o outro permaneceu de costas para mim.

- Você chegou, finalmente! – Aro levantou da cadeira e bateu palmas. Percebi que ele não tentou me abraçar à medida que se aproximava. Ele não parecia mais tão chateado.

Ainda usava as luvas, então acho que ele entendeu a mensagem. As coisas continuavam estranhas e acredito que nenhum de nós havia se acostumado. Na verdade tinha começado a pensar em como devia dar outra chance a ele, mas não hoje.

- Gianna disse que temos visita – olhei para a longa cabeleira grisalha que permanecia sentada.

- Sim – Aro respirou fundo enquanto me analisava com o olhar, provavelmente tentando obter informações de onde eu estive - este é Minos, um velho amigo meu.

O vampiro finalmente se levantou e olhou para mim, ele era alto e esguio, seus olhos tinham a mesma tonalidade dos de Aro. Minos falou em uma língua estranha e também demorou a soltar a minha mão quando me cumprimentou.

- Desculpe-me – finalmente consegui entendê-lo – faz algum tempo que não falo italiano.

Não reconheci o sotaque em sua voz, era como se várias línguas se misturassem quando ele falava, quantos anos ele tinha?

- Minos é médico – Aro começou a gesticular e se virou para o visitante – ele já trabalhou comigo em casos peculiares. Já se acomodou?

- Sim, sim, Jane fez questão de levar minhas malas... – ele se virou para mim, ignorando Aro completamente - Então, agora que fomos apresentados, prefere ficar a sós comigo ou não se importa se Aro continuar na sala?

Tentei não me apavorar. Olhei para Aro, seu rosto jovem e ansioso, com seus curiosos olhos esbugalhados nesse ambiente escuro pela primeira vez me deram a sensação de que estava prestes para ser devorada.

Resisti à tentação de segurar sua mão em busca de apoio.

- Prefiro que fiquemos a sós. – respondi.

Minos assentiu e se virou para Aro, toda a animação desapareceu de seu rosto.

- Então boa sorte aos dois.

Aro estava prestes a sair, mas antes afagou meus ombros em um movimento lento, automaticamente me retraí, por medo que ele tocasse em minha pele, mas por sorte usava minha blusa cobria aquela área.

O senhor Minos indicou que me sentasse em sua cadeira, ele ocupou a de Aro e tirou um caderno de anotações do paletó, foi quando tive chance de analisar o seu rosto, que apesar de parecer empoeirado era delicado.

- Aro não disse que tipo de médio o senhor é.

- Não sou um médico comum – ele sorriu – digamos que trabalho apenas com a nossa espécie. Sou procurado quando um talento precisa ser desenvolvido.

Comecei a me arrepender de ter mandado Aro embora. Esse homem iria fazer algum tipo de experiência comigo?

- É claro que nem todos sabem que eu existo – ele acrescentou – Jane e Alec foram meus primeiros pacientes, casos fascinantes.

- Eu não quero ser estudada!

- Não, Elia, não é isso. – ele escrevia sem parar enquanto falávamos, aumentando meu nervosismo – Não é isso o que eu faço.

- Então o que você faz exatamente?

- Eu ajudo pessoas especiais a se desenvolverem, a crescerem – ele deu de ombros de uma maneira quase infantil – use o termo que preferir.

Cruzei os braços, ainda não estava convencida.

- Mas se isso a fizer se sentir melhor – ele finalmente parou de escrever - saiba que Aro não me trouxe apenas por sua causa, estou aqui por causa das crianças híbridas.

Aquilo me acalmou um pouco, era bom saber que não era a aberração prioridade do clã. Estranhamente, Minos começou a sorrir.

- O que foi? – perguntei.

- Você estava em modo de defesa desde o momento em que entrou aqui. Sem odor, sem presença, como um fantasma na sala. Mas agora estou sentindo o seu cheiro. É muito bom se me permite dizer.

Fiquei em silêncio, tentando entender o que ele tinha acabado de falar.

- Bom, esse foi nosso primeiro contato e vejo que parece ter acabado de voltar de um encontro interessante. Espero que esteja mais a vontade da próxima vez.

Ergui as sobrancelhas. Não acho que conseguiria ficar a vontade.

- Estou ansioso para testá-la – Minos acrescentou.

Saí do salão depressa com os punhos cerrados, achei que Aro estaria ouvindo tudo do outro lado da porta, mas me surpreendi por encontrar apenas Gianna.

- Como foi? – ela perguntou. Agora seu cabelo estava solto e arrumado.

- Encantador. – respondi, precisava manter a cabeça no lugar. Peguei minha bolsa e a apertei contra o peito – Obrigado por tudo, Gianna, pelo dinheiro e por não dizer nada a ninguém.

- Não precisa agradecer, senhorita. O dinheiro é do clã. E quanto ao meu silêncio, bom, é isso o que eu faço.

- Mesmo assim... Sei que conheceu meu irmão e ainda não tivemos a chance de falar sobre isso.

- Não precisa fazer tudo no mesmo dia, senhorita, deve estar cansada. – ela mostrou um sorriso complacente – E o menino? Como está?

Pensei em como responder a ela sem ter uma crise emocional, mas não consegui dizer nada. Gianna entendeu, porque assentiu e voltou a trabalhar.

Achei que ver Luigi me faria feliz de novo, mas apenas serviu para me entristecer ainda mais e abrir um buraco em meu peito. Queria poder dizer a Claudio o que estava sentindo, mas ele parecia muito disperso com seus próprios interesses agora e sentia que o irritava todas as vezes que tentava me aproximar.

Avistei Aro passando logo atrás de mim, indo em direção ao salão, onde seu amigo Minos ainda esperava.


Demetri P.O.V.

Hoje era definitivamente um dia estranho.

Não achei que sentiria falta do Egito tão cedo, mas bastou alguns dias para que as coisas voltassem à anormalidade, algo habitual para os Volturi. Estávamos com um visitante, um intruso, e boa parte Guarda estava em alerta extremo por causa da aproximação do Festival e pelo a chegada daquele ser estranho significava para o resto de nós.

Apesar de nossas tarefas terem dobrado por causa da chegada de vários humanos na cidade, nos reunimos em uma área reservada da biblioteca, com exceção de Heidi, que estava caçando, Claudio, que ninguém, a não ser por Jane e Santiago, se importou pelo fato de não estar aqui, e Elia. Já havia procurado por ela por todo o castelo, mas sem sorte.

Jane era a única que parecia feliz enquanto discutíamos, é claro. Estávamos finalmente nos preparando para voltar a perseguir nossos inimigos, então às torturas, conspirações e batalhas estavam inclusas no pacote. Ela amava cada segundo desse jogo, mas dessa vez havia um bônus: Minos. Aquele homem misterioso havia aparecido pela manhã e pegou Gianna de surpresa. A humana quase desmaiou quando o viu, mas por sorte Felix estava por perto para ajudá-la.

A reação dos meus colegas foi bem diferente, não esperávamos alguém, então é claro que ficamos surpresos. Jane parecia saber de tudo, mas Alec parecia que iria vomitar a qualquer minuto. Acho que ele me falou acabando de Minos uma vez, mas há muito tempo e sem muitos detalhes.

- Havia boatos entre os vampiros na Irlanda quando ainda morava lá – disse Corin, esse era um dos momentos incomuns em que a víamos e estava sendo ainda mais especial porque falara de sua vida antes dos Volturi, algo que raramente fazia – ele procura recém-nascidos talentosos.

- Chelsea me falou sobre ele – Afton a interrompeu – a última vez que apareceu foi quando estávamos em guerra contra os romenos, bem quando Aro descobriu os gêmeos...

Tive a impressão de que Afton tinha mais a dizer, só que o olhar de Alec o fez se calar.

- Então é isso o que ele veio fazer? – Renata agarrou o braço de Alec, que continuava quieto, porém atento – Trazer outra guerra?

- Mas estamos ocupados por causa do Festival – Felix retrucou - Aquela derrota humilhante nos Estados Unidos não foi o suficiente para Aro?

A declaração de Felix foi o bastante para Jane se irritar. Aquela ferida ainda estava aberta.

- Não foi uma derrota! – ela se levantou, o que não ajudou muito em sua estatura, pois continuava baixa e angelical – Tivemos um contratempo.

- Um contratempo? – Felix continuou, estava surpreso pela sua coragem e por Jane não tê-lo machucado na mesma hora – Aro simplesmente não consegue machucar aquela bruxa vidente, teríamos vencido se ela não tivesse aparecido.

Não gostava de relembrar aquela batalha fracassada, principalmente agora que estávamos entrando em outra ainda mais complicada. Era óbvio que Aro mandaria a mim atrás das outras crianças híbridas, mas isso poderia levar muito tempo. Claudio adoraria, pois ficaria com Elia sem preocupações.

- Por que estamos falando sobre aquela mulher? – Jane respondeu, furiosa, logo voltando ao ponto principal da reunião – Minos é uma boa pessoa e...

Alec finalmente explodiu:

- Será que vocês não podem calar a boca? – Renata o soltou rapidamente enquanto ele se voltou para a irmã - Eu não ligo se gosta dele, Jane, mas aquele homem é...

- Alec? – a voz de Elia interrompeu a discussão.

A raiva deixou o rosto dele de uma só vez, todos olhamos para ela, a espera do que aconteceria.

Elia estava com uma expressão péssima e espremia os dedos das mãos com força. Ela sequer olhou para mim ou tentou me procurar no meio dos outros. Alec não disse nada, apenas deixou a sala com Elia seguindo-o de perto.

- Acho que isso encerra a discussão – Jane aproveitou que o irmão partiu para fazer seu jogo preferido, fazer com que todos a obedecessem – Minos está aqui e todos devemos aceitar e trabalhar duro para não termos problemas no Festival desse ano, entenderam?

Todos assentiram em uníssono, com exceção de Santiago, que nunca expressava sua opinião. Jane olhou para mim e tive que fazer o mesmo, que escolha eu tinha?

XXX

Deixei Jane com seu séquito amedrontado e segui o rastro de Alec. Aparentemente ele seguiu para a Torre do Relógio, também conseguia sentir o cheiro de Elia, só que mais fraco.

- E como está o garoto? – me escondi na escadaria enquanto para ouvir a voz de Alec.

- Bem – Elia respondeu, a voz amargurada – não sabe o quanto foi difícil deixá-lo.

- Eu imagino, mas Claudio foi com você, não foi?

- Não – ouvi passos, Elia estava andando em círculos – ele está muito ocupado com seu novo amigo.

"O primo de Renata", pensei. Afinal o que eles tanto faziam juntos?

- Como ele pode deixá-la sozinha em um momento como esse? – consegui sentir a tentativa de manipulação de Alec, ele não perdia nenhuma chance – Por que não me disse nada? Eu teria ido com você.

- Foi um assunto de família, Alec. – a resposta de Elia foi dura o suficiente para fazê-lo se calar.

Contive um sorriso.

- Agora quero que me fale sobre esse doutor estranho que tive o desprazer de encontrar assim que cheguei! Que tipo de negócios ele faz com Aro?

Alec parecia ter perdido a voz. Demorou um pouco até que o ouvi novamente:

- Ele é... – Alec hesitou – Uma pessoa ruim.

Elia esperou por mais alguma informação, mas era como se Alec não conseguisse continuar, então ela desistiu.

Havia ouvido algumas histórias sobre Minos ao longo dos anos. Ele era como um fantasma que aparecia quando Aro precisava, mas até agora só conhecia dois de seus principais trabalhos.

- Falarei com Aro – disse Alec - Minos não chegará mais perto de você.

Elia não pareceu satisfeita com aquela resposta, pois continuou a andar em círculos, mas depois percebi que não era com Alec que ela estava chateada.

- Sabemos que está aí, Demetri!

Saí de meu esconderijo sem demonstrar surpresa.

Alec e Elia me encaravam, ele ainda parecia nervoso e Elia irritada.

- Acho melhor deixá-los a sós. – Alec suspirou.

- Mais uma vez, obrigada – Elia disse antes que ele saísse, mas Alec não respondeu. Imaginei que estava indo se encontrar com Aro para resolver a questão do estranho médico que estava instalado em nosso castelo.

Agora que estávamos a sós dei uma boa olhada em Elia. A expressão estava melhor, mas os tênis estavam sujos e gastos e havia um buraco no tecido jeans em um dos joelhos.

- Te procurei para a reunião da Guarda – eu disse – mas você havia saído.

Não perguntei onde ela esteve. Se ela havia tratado Alec com tamanha frieza não queria saber o jeito com o qual me trataria.

- Tive que resolver um problema – ela se aproximou – mas quando voltei às coisas estão diferentes. Esse lugar muda muito depressa.

Ela falava do médico.

- Ele não foi gentil com você? – perguntei.

- Não acho que aquele homem sabe o que é ser gentil. Ele me olhou como se eu fosse uma experiência de laboratório.

- Quer que eu o mate?

- Não gosto desse tipo de brincadeira, Demetri – Elia levou a mão direita ao pescoço após me advertir, mas pareceu decepcionada, acho que ela procurava o colar antigo que costumava usar.

- As coisas vão mudar por aqui. – eu disse.

- Como assim?

- Você chegou em um momento de trégua, mas acho que estamos voltando para a guerra.

- Não acho que enfrentar os romenos foi uma trégua.

- Aquilo foi rotina para o resto de nós, mas você é muito inexperiente para o que está por vir então, por favor, não saia mais do castelo sem me avisar, está bem?

Disse aquilo por preocupação, pelo carinho que sentia por ela, mas Elia não pareceu aceitar.

- Para que? Para que vá atrás de mim? Para continuar me vigiando como todos os outros?

- Eu não...

- Não quero que me proteja, Demetri – Elia suspirou - quero que seja meu amigo. Alec sabe ser um bom amigo.

- Está mesmo me comparando com Alec? – perguntei. Ele era um mestre da manipulação ao lado de Aro.

- Prefiro Alec a você.

Elia disse aquilo com a pura intenção de me machucar, com a mesma frieza com a qual havia respondido a Alec, e devo dizer que finalmente conseguiu. Ela havia acabado de arrancar meu coração e jogá-lo aos cães.

- Desculpe – ela disse logo depois - não devia ter dito isso.

"Mas você disse".

- Não importa, acho que devo ser algum tipo de masoquista porque apesar de me chicotear com suas palavras não consigo me afastar de você, o que deve fazer de mim um idiota.

- Você não é idiota, Demetri – Elia se aproximou mais uma vez, dessa vez com os braços estendidos. Ela me abraçou, mas não consegui abraçá-la de volta, pois não achei que conseguiria soltá-la dessa vez e precisava me lembrar que ela era casada.

Notei como seu cabelo estava coberto de grãos de areia e dessa vez consegui reconhecer o cheiro que emanava de sua pele e a essência de sua mente. Ela havia estado em uma praia, em um lugar quente, e não estava sozinha.

- Da próxima vez que Claudio lhe deixar sozinha venha falar comigo – eu disse – sempre ficarei do seu lado.

- Eu sei – Elia suspirou e me soltou. A cada dia as olheiras sob seus olhos ficavam cada vez mais profundas.

Queria muito tê-la conhecido ainda humana.

- Mas talvez Aro e Caius me mandem para longe por um tempo, então você ficará sozinha, é isso o que mais me preocupa.

- Não estarei sozinha, eu tenho Claudio e Alec comigo – ela pensou por dois segundos - e Aro.

- É exatamente com ele que me preocupo.

- Aro nunca me faria mal, Demetri – ela disse enquanto se dirigia à saída da Torre do Relógio. Sorri devido a sua ingenuidade. Aro havia escondido coisas extremamente importantes dela, havia transformado-a contra sua vontade, afastando-a de sua família, mas de alguma forma ela ainda acreditava nele.

- Apenas tenha cuidado. - disse na esperança de que ela me levasse a sério, mas Elia já havia ido embora.


N/A: Todas as vezes eu digo que não gosto de um capítulo dividido em três POVs, mas eu fazia muito isso em 2017... Enfim, a fanfic está muito perto de entrar na segunda fase, são originalmente 26 capítulos e ainda não sei se acrescentarei alguma coisa. Pensei muito na época sobre a Elia ter um 'dom', porque acho meio improvável que o Aro se interessaria em conviver com alguém comum (mesmo a esposa dele sendo comum, enfim, isso ficará mais pra frente) e principalmente que ele encontraria essas pessoas especiais sozinho, por isso criei o Minos, e ele é um personagem que me fascina muito. Se tiverem alguma crítica, opinião, etc, estou ouvindo.