Armin lançou um olhar cauteloso ao redor da sala antes que seus olhos pousassem no único habitante. Mikasa estava sentada na alcova da janela, com os joelhos dobrados e o nariz enterrado em um livro. Ela não o tinha notado ainda.
Parecia estranho estar nas câmaras do capitão sem uma convocação, muito menos sem o próprio homem presente. Era ainda mais estranho ver Mikasa ali, que parecia bastante familiarizada com o ambiente. Talvez fosse o sol da tarde sonolento que cobriu o quarto com uma luz quente, mas havia um certo ar de conforto na cena diante dele.
Uma intimidade.
A coleção de livros do capitão era algo que a maioria das pessoas desconhecia, então, para Mikasa estar debruçada sobre um dos volumes, sugeria que ela havia alcançado um certo nível de imprudência ou que seu relacionamento com ele mudara fundamentalmente.
- Você está sozinho? - Sua voz era quase um murmúrio, mas ela visivelmente deu um pulo, o livro em suas mãos se fechando.
Ela o considerou por alguns instantes, pensamentos agitando-se por trás daqueles olhos escuros.
- Você provavelmente está se perguntando por que estou aqui, - disse ela por fim, ignorando a pergunta e olhando para o livro em seu colo. Ele não conseguia ler o título de sua posição na porta.
- Você não está se perguntando como eu te encontrei?
Mikasa sorriu - aquele feixe raro e genuíno que iluminou todo o seu rosto e tocou seus olhos.
- Você é muito inteligente, Armin. Eu parei de me perguntar como você faz as coisas há muito tempo.
Ele devolveu o sorriso dela. É por isso que eles eram amigos.
- E, sim, estou sozinha. - Seu sorriso desapareceu ligeiramente, e ela colocou uma mecha de cabelo escuro atrás da orelha.
Tranquilizado de que o capitão não o estava observando, Armin entrou na sala e fechou a porta atrás de si.
Sim, parecia muito estranho estar ali. Mikasa parecia sentir o desconforto dele.
- Levi me pediu para espanar seu quarto de vez em quando. Ele disse que eu poderia pegar um livro emprestado como uma espécie de recompensa.
Levi? Oh, as coisas definitivamente mudaram. Isso explicava por que ele a tinha visto fugir para os aposentos do capitão recentemente.
Armin se sentou à sua frente no recanto, tentando não parecer muito desconfortável. Ela não parecia estar ciente de sua estranheza, no entanto, seu olhar solene e preocupado com algo externo.
- Se você quiser ficar sozinha agora ...
Mikasa balançou a cabeça, franzindo a testa enquanto continuava a olhar pela janela. Quando ela falou, sua voz estava tensa, seus dentes cerrados para manter a emoção sob controle.
- Eu nunca me senti tão furiosa e totalmente indefesa antes, Armin.
Ele suspirou, o peito apertando em angústia.
- Não sabemos ao certo se Rubie é a cabeça dos Redentores, - ele disse, mas ela já estava balançando a cabeça.
- Sim nós sabemos. Eu entendo que estamos esperando por uma prova, mas sabemos, porra.
Armin não sabia o que esperar quando foi chamado ao escritório de Erwin há dois dias. Descobrir que Rubie, noiva de Eren e menina dos olhos dele, estava sob suspeita de ser a Mulher de Vermelho nem mesmo estava entre as dez possibilidades que ele considerou.
Em retrospecto, fazia sentido. Não era a notícia mais fácil de engolir, no entanto.
Mikasa suspirou e encostou a cabeça na parede.
- Eu sei o que parece, Armin. Eu tenho essa... história com Eren, e agora de repente suspeito que sua noiva é a líder de um grupo terrorista clandestino. - Ela o observou com olhos vulneráveis, seus dedos mexendo nervosamente no envoltório de sua tala. - Mas é o fato de que ela se aproximou de mim agora, de todos os tempos. Quer dizer, sempre fomos educadas na companhia uma da outra, mas certamente não somos amigas. - Ela zombou e acrescentou, - ela parecia respeitar a história que Eren e eu temos e, portanto, me deu um amplo espaço.
Armin concordou com a cabeça; era verdade que, embora as duas mulheres provavelmente só tivessem falado algumas palavras uma com a outra antes, nunca parecia haver algo pesado entre elas. Uma trégua silenciosa. Ele estendeu a mão e pegou a dela.
- Mikasa. Eu acredito em você. E embora eu ache que o Comandante está certo em esperar que o Capitão Levi confirme nossas suspeitas, isso não significa que duvido de sua intuição. - Ele apertou a mão dela, acrescentando - Além disso, com ou sem a confirmação do capitão, já sabíamos que alguém tentaria se aproximar de você. Considerando o que sabemos sobre esta mulher Redentora, Rubie se encaixa no projeto.
Seus olhos nublaram, mas ela controlou as lágrimas, virando a mão para agarrar os dedos deles.
- Eu odeio mentir para Eren.
E aí estava o ponto crucial de seu descontentamento. O Comandante Smith, mais uma vez, foi inflexível sobre manter Eren no escuro, pelo menos até que houvesse evidências irrefutáveis. E realmente, era para a própria segurança de Eren; ele era mais próximo de Rubie do que ninguém, e se ela suspeitasse que ele sabia de algo...
Talvez o mais doloroso do que mentir para seu amigo foi imaginar a devastação de Eren quando ele finalmente descobrisse a verdade.
- Eu sei, - Armin suspirou. - Eu sinto que estou o traindo da pior maneira.
Mikasa fez um rápido movimento de limpeza em seu rosto, apagando uma lágrima velha antes que caísse por sua bochecha.
- Estou preocupada de que ele nunca possa nos perdoe.
Este era um medo que Armin compartilhava, de que seu amigo nunca mais pudesse olhá-los da mesma maneira.
- Presumo que ele finalmente lhe contou sobre o casamento?
Ela assentiu.
- Sim, ele estava um pouco nervoso, eu poderia dizer, mas então ele... - uma meio risada escapou dela, olhos marejados novamente. - Oh, Armin, ele realmente a ama.
Armin fechou os olhos, como se pudesse calar as palavras.
- Sinto muito, Mikasa. Deve ter sido difícil para você.
Outra risada, esta não tão devastada.
- Não é isso. Eu pensei que seria, mas não foi. Quer dizer, é mais como se eu estivesse ciente de que esses sentimentos costumavam estar lá. - Ela acariciou distraidamente o pescoço. - Mas agora... só vejo o quanto isso vai machucá-lo e me sinto impotente para impedir.
- Não é sua culpa, Mikasa. E você não pode parar isso. - O estrago já está feito. - O Comandante Smith está se preparando para uma unidade de infiltração. Temos que estar prontos para partir.
Ele observou aquela determinação de aço se recompor no rosto de sua amiga, sua mandíbula travada, os olhos endurecendo.
- Devo encontrar Rubie amanhã à noite para comprar vestidos.
Ela disse a palavra com tanto desgosto que Armin não pôde deixar de rir.
- É a atividade ou a companhia que o ofende?
- Ambos.
- Mas você usou vestidos, você gosta de vestidos!
- Não tanto mais. - Ela balançou a cabeça, mas um sorriso lutou para reivindicar seus lábios. - E é para o casamento dela. É uma sensação estranha.
- Bem, aí está. Você nem precisa experimentar nada, apenas fique lá e acene educadamente com a cabeça para as opções. Isso é o que nós, homens, fazemos.
- Sim você está certo. - Mikasa cedeu ao sorriso, balançando a cabeça com um pensamento. - Além disso, Levi estará lá para confirmar se nossas suspeitas sobre ela estão corretas ou não, e eu só posso imaginar o que ele terá a dizer sobre a coisa toda.
Armin sorriu por um motivo totalmente diferente, incapaz de manter suas reflexões para si mesmo.
- Ah, entendo.
Ela estava em cima dele imediatamente, o sorriso desapareceu e os olhos se estreitaram.
- O que.
Sempre foi assim que esse tipo de coisa acontecia. Mikasa podia esconder muito, mas mesmo ela não conseguia esconder tudo dele, e quando ele tinha uma teoria era apenas uma questão de tempo antes que ele arrancasse a verdade dela. Sua defesa usual nesses momentos era a indignação justa ou o fechamento completo.
Mas Armin tinha anos de prática desgastando suas paredes.
- Oh, nada, realmente. - Foi a vez dele olhar pela janela. - Achei interessante o quão confortável você ficou com o capitão.
Ele quase podia ouvir os olhos dela saltando de seu rosto. Ela começou a bufar e divagar ao contrário, indignação justa como previsto, o descontentamento dela só aumentou quando ele deu a ela um sorriso malicioso.
- O que você está sugerindo, Armin? – O rosto estava sombrio, uma expressão que fazia a maioria das pessoas, inclusive ele, às vezes, se encolher de medo.
- Não estou sugerindo nada! Quero dizer. Eu estava apenas comentando sobre o quão confortável você parece.
- Eu não estou confortável.
- Bem, não agora, talvez.
Mikasa gemeu e se afastou da janela, levando o livro com ela. Armin finalmente pegou o título: Poesia de Karanes. Interessante.
- Estou fazendo o melhor que posso para me adaptar a ter outra pessoa dentro da minha cabeça, e acho que o fato de não termos nos matado ainda não é um pequeno milagre, - ela reclamou, de costas para ele enquanto se aproximava do estante contra a parede oposta.
- Isso é verdade. - Armin sentiu pontada pequena de culpa. Apenas a mais leve. - Eu acho que é admirável como vocês dois fizeram isso funcionar. Eu nem consigo imaginar o quão difícil deve ser. - Ele fez uma pausa para causar efeito. - Então, para vocês dois, deixar as queixas do passado para trás e se tornarem amigos é uma maravilha-
Mikasa girou como um gato que teve seu rabo puxado.
- Nós não somos amigos. - Havia uma advertência em seu tom, o livro de poesia apertado contra seu peito como uma espécie de escudo. Peguei você.
- O que vocês são então? - Direto, sem fingimento, embora ele mantivesse o sorriso.
Ela pareceu vacilar aqui, para realmente procurar uma resposta. Finalmente, seus ombros cederam, toda a animosidade anterior deixando-a.
- Eu não sei.
Armin saiu da janela e se aproximou da amiga.
- Sinto muito, minha intenção não era interrogá-la, Mikasa. - Ele agarrou o braço quebrado dela suavemente, consertando um pedaço de gaze que ela havia arrancado. - Eu só quero que você seja feliz.
Ele esperava que ela contradissesse suas palavras, mas ela apenas desviou o olhar, uma expressão pensativa cruzando suas feições.
- Você está feliz, Armin?
A pergunta dela o pegou de surpresa. Armin estava tão preocupado em violar as defesas dela que se esqueceu das suas. Ela tinha aquele olhar irritantemente observador. Como se ela pudesse ver através dele.
- Estressado, cansado, mas todos esses são problemas superficiais, - ele desviou com um encolher de ombros. A expressão dela não mudou. Oh, quão rápido a situação poderia mudar. - Estou preocupado, principalmente. Sobre você... sobre Eren.
Mikasa olhou para o livro em suas mãos, traçando sua capa de couro com os polegares.
- Ele vai precisar de você, - disse ela de repente, a voz suave.
- O que?
- Eren. Depois que tudo isso acabar. Ele precisará de alguém para estar com ele.
As palavras dela o perturbaram em parte porque ela falava como se fosse não estar lá.
- Prometa-me, Armin. - Ela estava chorando. - Eu amo muito vocês dois.
Ele a puxou para seu peito, suas próprias lágrimas caindo nos cabelos escuros. Ela colocou os braços em volta da cintura dele, o livro pressionando as costas dele enquanto ela se agarrava a ele.
- Mikasa... nada vai acontecer com você.
Um grande suspiro estremecido escapou dela.
- Eu não estou falando sobre mim. Isso não tem nada a ver comigo. - Ela sorriu para ele, e foi como se seu coração estivesse se partindo em dois.
- Eu... eu sinto muito. - Ele não sabia porque estava se desculpando. Pela dor que ela sentia? Uma dor que ele mesmo conhecia de forma aguda? Talvez ele nem estivesse se desculpando.
Mikasa balançou a cabeça, uma lágrima escorrendo pela bochecha pálida.
- Não, Armin. - Ela estava prestes a dizer mais, mas seu queixo tremia muito violentamente, então ela apenas olhou para ele com aqueles olhos grandes e escuros. Ele a abraçou novamente, colocando a cabeça dela sob o queixo dele. Eles ficaram assim, apenas respirando, observando partículas de poeira dançando sob a luz do sol.
oooOOoooOOooo
Ela sentiu sua presença neste momento.
- Não jogue nada em mim.
- Eu não estou armada. - Ela queria ser engraçada, mas as palavras acabaram soando mais abatidas, então ela acrescentou, - salvo por isso, - e ergueu o livro.
Houve uma pausa antes de ele murmurar um desconexo, "você está bem?"
Ela se recompôs depois que Armin saiu, mas seu peito ainda parecia um buraco onde seu coração deveria estar.
- Estou bem. - Ela gesticulou vagamente sobre a sala. - Eu tirei o pó, a propósito.
Quando Levi não respondeu, ela percebeu que ele estava preocupado em examinar um ponto que ela havia perdido e se preparou para defender seu trabalho de limpeza mal feito. As palavras morreram em sua língua, no entanto, quando ela se virou da janela e o encontrou já olhando para ela.
- Obrigado.
Foi a vez dela ficar perplexa. Espanto, de verdade, porque Mikasa não conseguia se lembrar nunca dele agradecendo a ninguém. Um "muito bem", talvez depois de uma expedição, ou de uma batalha, ou não morrer, mas nunca um obrigado e nunca para ela. Ele ao menos olhou para o quarto?
- Provavelmente não está de acordo com seus padrões, mas pelo menos o lugar não está enterrado na poeira.
Ele acenou com a cabeça, mas o movimento foi mais um gesto de gratidão do que de acordo. Primeiro ele se desculpa, agora ele está me agradecendo.
Ela não conseguia pensar em nenhum motivo que ele pudesse ter para aparecer agora; ele praticamente disse o que queria naquela noite na sala de treinamento. A última vez que se falaram foi há dois dias, quando ela se conectou a ele do escritório de Erwin. A interação durou talvez dez minutos, tempo suficiente para informá-lo sobre a situação de Rubie e o plano de Erwin para seguir em frente.
- Oi, Mikasa.
Ela tinha esquecido que ele estava lá, o tom áspero de sua voz a fez começar.
- Desculpe, eu estava na minha cabeça.
- Eu sei. Eu também estou lá. - Ele pegou uma das xícaras de chá de sua mesa e a observou, passando-a de uma mão para a outra antes de pousá-la novamente. Era quase como se ele estivesse... inquieto. Por que ele simplesmente não foi embora?
- O que você está fazendo aqui? - Ela sabia que seu tom era brusco, mas esse não era um comportamento que ela associava a ele e a estava deixando ligeiramente desconfortável.
- Você me chamou.
- O que?
- Eu senti você, então despertei a conexão. - Ele se inclinou contra a mesa, os dedos batendo uma batida distraída na madeira. - Você parecia chateada.
- Você sentiu que eu estava chateada?
- Acho que não podemos questionar os meandros de tudo isso, Ackerman. - Uma resposta muito Levi e ela a achou estranhamente reconfortante.
Bem, não adianta fingir.
- Eren nunca vai me perdoar quando descobrir que eu escondi isso dele.
Levi suspirou.
- Se o pirralho tiver algum bom senso, ele vai entender o porquê você escondeu isso dele, - e então mais quieto, baixinho, - você o mima demais.
Houve um tempo, não muito tempo atrás, em que suas palavras a teriam irritado, mas ela não conseguia encontrar energia para ficar na defensiva agora.
- Suponho que você esteja certo.
Sua cabeça virou para ela.
- Como? - Ela concordou com ele. Ele não esperava por isso.
- Eu disse que você está certo, preciso deixar algumas coisas de lado. Velhos hábitos são difíceis de abandonar, eu acho.
Ele ainda não estava indo embora. Por que ele não ia embora? Ele poderia ir embora. Ele sabia como.
Era o quarto dele; talvez ela devesse ir embora. Na verdade, Hanji queria que ela testasse o que aconteceria com a conexão deles se eles se afastassem o suficiente. - Você... quer alguma coisa?
Olhos cinzentos se ergueram para olhar para ela, e ele fez um som afirmativo - um zumbido baixo no fundo de sua garganta.
- Há algumas coisas que eu quero. - Ele olhou de volta para a xícara de chá. - Uma boa xícara de chá, para começar.
Oh, então ele queria brincar de tímido.
Mikasa fervia de raiva, colocando o livro na mesa com uma lentidão deliberada. Ele observou o movimento, os olhos não encontrando os dela.
- Eu vou te dizer o que eu quero, - disse ela, mantendo a voz baixa e uniforme enquanto cruzava a quina da mesa. - Eu quero que você pare de me afastar.
Ele olhou para ela então e ela viu um breve lampejo de surpresa em seu rosto.
- Eu não gosto de ser segurada com o braço esticado. - Para enfatizar seu ponto, ela deu um passo à frente no espaço dele.
- Não faça isso. - A palavra foi um estrondo em seu peito, um aviso, e ainda assim seu rosto estava impossivelmente em branco.
- O que, chegar perto demais? - Ela sibilou, cerrando os dentes para manter a raiva sob controle. - Do que você tem medo?
- Eu não estou com medo, pirralha. - Seu rosto se contorceu em uma carranca, e ele se inclinou para frente como se para mostrar que não iria recuar. - Mas você não pode perder a perspectiva sobre o que é importante—
- Oh, merda de merda! - Agora ela estava louca. Ela espetou o dedo em seu peito, martelando as palavras. - É você quem está perdendo a perspectiva.
Levi bateu em sua mão, empurrando-a e cruzando para a janela.
- Não se esqueça de si mesma, Ackerman. Você é um soldado primeiro, - ele rosnou, - aja como um.
Apesar de suas palavras, sua voz carecia do vitríolo anterior. Ela o seguiu até a janela. Ela não permitiria que ele escapasse, não quando ela o estava cansando assim.
- Eu sou. É você quem está agindo como um covarde.
Seus ombros enrijeceram e ele lentamente virou a cabeça para olhar para ela. Ele não falou, apenas a olhou com aquela expressão predadora. Ele estava esperando para ver se ela resistiria e recuaria com o rabo enfiado entre as pernas. Ele poderia dizer mais com aqueles olhos do que a maioria dos homens poderia com suas palavras. Ele devia saber como era enervante quando olhava para as pessoas daquela maneira. A luz fraca do sol lançava sombras sobre os planos angulares de seu rosto, destacando a severidade de sua expressão.
Ela viu, para seu choque, que havia manchas azuis nos olhos dele. Como ela nunca percebera antes? Eles certamente não estavam o tom surpreendente de azul de Erwin, mas sob essa luz, tão perto de seu rosto, ela podia ver claramente as cores mais profundas em suas íris. O que era... azul aço?
Levi inalou lentamente como se fosse falar, e o olhar dela caiu para a boca dele, uma sensação estranha, mas familiar, vibrando em sua barriga. Ele se afastou dela novamente, um som de dor escapando dele. Apenas para onde ele pensava que estava indo estava além dela. Ele poderia facilmente cortar a conexão. Ele já tinha feito isso antes. E ainda...
- Ei! - Ela respondeu às costas dele, um estranho tremor em sua voz. - Olhe para mim. - Ele parou no meio de um passo e virou a cabeça, mostrando seu perfil. - Por que você me afastou? - Ela falava mais baixo, não gritava mais porque tinha sua atenção, e porque aquela maldita hesitação ameaçava quebrar sua voz. Por que ela estava tão chateada?
- Você sabe o porquê, - veio sua resposta concisa, olhos baixos e parcialmente escondidos sob a franja escura.
A fúria acendeu seu peito em chamas novamente e o desejo repentino de atacá-lo como naquela noite na sala de treino ameaçou tomar conta de seus sentidos. Isso estava se tornando ridículo. Ela cobriu a distância que ele colocou entre eles em três longas passadas, agarrando o tecido áspero de sua camisa com os punhos e puxando-o para encará-la. Ela viu quando a incredulidade dele rapidamente deu lugar a uma raiva própria, e ela finalmente foi recebida com toda a intensidade daquelas orbes.
Não, raiva não. Não inteiramente. Seus olhos eram como fumaça, queimando e quentes... e sim, ela sabia o porquê.
- Talvez, mas eu quero ouvir você dizer isso, - ela mordeu os dentes cerrados, a voz baixa, mas desprovida de sua raiva anterior. Havia desespero nisso agora. Antecipação.
Levi olhou para ela com aqueles olhos azul-acinzentados, sem piscar, sem se mover. Finalmente, ele bufou pelo nariz e balançou a cabeça.
- Foda-se tudo.
Mikasa o encontrou no meio do caminho, seus lábios se conectando em um beijo que era tudo menos gentil. Não que ela realmente se importasse naquele momento. Ela só precisava mais dele, não conseguia se aproximar o suficiente.
Ao contrário do beijo, seu cabelo era incrivelmente, incrivelmente macio. Ela emaranhou as mãos nele, sentindo onde seu corte estava começando a crescer. Um gemido escapou dele quando os dedos dela arranharam sua nuca. Ele agarrou a cintura dela, as mãos deslizando sob o tecido de sua camisa. Ela engasgou contra a boca quando de repente ele a içou sobre a mesa, o jogo de chá sacudindo com o impacto. Nenhum deles se importou. As mãos dele deixaram a cintura dela para deslizar sobre a curva da bunda, e ela envolveu as pernas em torno das costas, prendendo-o contra ela.
Isso era... diferente de tudo que ela tinha feito antes. Seu primeiro beijo foi uma experiência sombria que ela manteve trancada no fundo de sua mente, rotulada como nada mais do que apenas isso, uma experiência. Feito. Realizado. Lição obtida. Jean Kirschtein estava mais do que disposto, mas ainda menos capaz, embora ela não pudesse culpá-lo por tentar.
Não pense em Kirschtein.
Levi gemeu quando ela mordiscou seu lábio inferior, e ela usou a separação das bocas para encontrar a língua dele com a dela. O aperto dele em seus quadris aumentou, puxando-a contra ele ainda mais perto, e ela sentiu...
Oh.
Uma sensação eletrizante percorreu o corpo de Mikasa como um raio, e ela interrompeu o beijo abruptamente, apesar do melhor julgamento da parte dela. Levi piscou para ela com um olhar desfocado, seu hálito quente e misturado ao dela.
E então ele parou. Parou de respirar, parou de se mover.
A clareza despontou em seus olhos, uma mistura de confusão e alarme, e de repente os dois estavam se separando. Ele abriu a boca para falar apenas para fechá-la novamente, e a princípio ela pensou que talvez ele estivesse pensando em dar-lhe outra desculpa. Ela certamente jogaria o jogo de chá se ele fizesse isso.
- Isso é o que eu... - Levi apontou para o espaço entre eles enquanto procurava as palavras. Ele desistiu de procurar e se afastou, passando as mãos pelos cabelos. - Eu queria evitar isso.
Para seu completo horror, Mikasa sentiu seus olhos queimarem e ela estava grata por ele ter virado as costas. O pedido de desculpas teria sido melhor, na verdade, ela queria agora. Ela arrumou sua camisa amarrotada, usou a tarefa de piscar para tirar a umidade irritante de seus olhos.
- Porque você está com medo. - Ele sacudiu a cabeça para olhar para ela, mas ela falou novamente antes que ele pudesse, a voz decidida enquanto se aproximava dele. - Eu estava com raiva antes quando chamei você de covarde, mas agora vejo que estava certa.
- Mikasa—
A mão dela em seu peito o silenciou. Então, ela o chamou ali. Certamente ela poderia mandá-lo de volta.
- Por mais que eu queira continuar esta pequena troca, acho melhor fazermos uma pausa. -Ela observou uma série de emoções acontecendo atrás dos olhos dele. - Preciso de tempo para ter minha perspectiva.
oooOOoooOOooo
Ela o havia afastado dela. Jogou nele.
Levi olhou para o espaço onde ela estivera, seu contorno queimando em suas retinas como um flash de luz brilhante. Ele estava sentado de bunda no meio da cela. Na sujeira. Como um cachorro. Ele caiu de costas, suspirando de frustração.
Ele estava frustrado. E impossivelmente excitado, e isso teria que ser um problema só dele.
Covarde.
Porra, ela estava certa, claro que estava; com ou sem vínculo, a atração estava lá, e negá-la não a faria ir embora. Ele deveria saber que ela não iria simplesmente deixar para lá, que ela não iria deixá-lo escapar impune por encerrar a conexão ou alguma outra besteira. Então, novamente, quando ela tinha se tornado isso? Aquela mesma boca que o beijou, oh, como ela o beijou, o cortou com ferocidade implacável. Ela o beijou de volta, encontrou cada passo dele e mais um pouco. Levi nunca, nunca quis alguém dessa maneira.
Deitado na terra, seu sangue esfriando, os resquícios de sua conexão piscando contra sua mente, Levi percebeu que o vínculo era apenas uma desculpa, que mesmo sem ele não seria capaz de se esconder dela. Ela tinha visto através dele desde o primeiro dia, deu uma olhada nele e viu a verdadeira forma que estava sob sua fachada cuidadosamente construída.
Mikasa Ackerman sempre esteve lá. E ele estava cego demais para ver. Ela se aproximou, viu mais do que quase qualquer pessoa já viu e veria.
Mas principalmente, ela o fez tremer. Algo sem precedentes.
-Levi, você está bem? - Veio a vozinha de Dennard da cela oposta. - Você caiu?
Ele rolou sobre as mãos e os joelhos, amaldiçoando a poeira em suas calças e fazendo uma nota mental para nunca, nunca deixar Mikasa Ackerman com raiva novamente. A menos que ele estivesse fora do alcance de empurrões.
- Porra. - Ele ainda não conseguia acreditar. - Que porra é essa, Ackerman? - E, realmente, ele não sabia a qual deles se dirigia.
Covarde.
- O que? - O rosto de Dennard estava pressionado entre as barras de sua cela, seu olhar âmbar procurando cegamente.
Ele suspirou e deu um passo em direção à porta gradeada.
- Eu disse, essa mulher é um pé no saco.
oooOOoooOOooo
N/T.: Beijos Daiane. E o que acharam? Eu achei bem inesperado. Desculpem os erros. Beijos e boa semana.
