J~L
No último capitulo...
O chão gelado da cela não foi bem-vindo para ela, principalmente por ter sido jogada ali dentro, ao invés de ser escoltada. Suas mãos e cotovelos arderam em contato com a pedra fria e porosa e seu vestido ficou encharcado.
- Sr. Lestrange chegará logo para você! - o homem que a acompanhou até ali cuspiu as palavras e saiu da vista de Lily com uma risada horrorosa.
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Seu silêncio e seus pensamentos foram cortados quando um tapa violento acertou seu rosto, fazendo-a virar o pescoço para o lado e soltou um bufo de surpresa. Não gritou, não reclamou e quando sua cabeça pareceu voltar para a realização do que aconteceu, sentiu orgulho de si. Os olhos verdes se levantaram para Lestrange e ela viu como ele continuou estóico com a falta de reação dela.
- Podemos continuar assim até quando você quiser, querida. Eu não me importo se você se fazer de dura no começo. Uma hora, você vai quebrar.
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Ela colocou os pés no chão novamente e soltou o pescoço do moreno, o encarando. Ele não dissera nem uma palavra para ela ainda, mas não precisava, pois vê-lo bem era a melhor coisa que poderia ter acontecido.
E ainda sem uma palavra, James segurou o rosto dela e a beijou.
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- Eu que pergunto onde ela está. Você disse que a resgataria e que deveríamos vir para a cabana imediatamente. Agora aparece aqui sozinho e...espera!
Sirius correu e se enfiou na frente de James que já descia os degraus em direção a floresta novamente.
- Nós a resgatamos. Encontramos guardas, eu os enfrentei e disse a ela para vir para cá. Se ela não está aqui, então tenho que voltar.
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Ele estava soltando o pano quando algo lhe chamou atenção entre a floresta e a cabana. Algo claro, como roupas claras, amontoadas no chão.
Seu coração disparou, fazendo James disparar também. Ele abriu a porta violentamente, correndo sem nem pensar se ainda segurava a espada ou não, ou mesmo sem checar se era uma armadilha.
E ele não se arrependeu quando vira que era Lily. James a virou cuidadosamente e começou a procurar por feridas, por qualquer indício de que ela estava gravemente ferida ou até morta. Mas não havia nada. Ela dormia pacificamente, como se fosse normal voltar para seu esconderijo e dormir em frente a ele.
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- Eu fui atacada. - Ela passou a mão pelos cabelos, como se procurasse alguma orientação em suas próprias lembranças. - Eu estava assistindo James com os soldados de Malfoy e, de repente, eu acordei já a noite, perto de uma fogueira e um velho barbudo meio maluco.
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- Sim. Ele me acertou na primeira vez, eu creio. E me acertou na segunda para me trazer de volta.- Lily olhou para os lados e se aproximou de James. - Como ele sabia nossos nomes? Eu não gritei seu nome na luta .- E mesmo que Albus havia dito que ela o chamou no sono, ela não estava tão convencida. Ele poderia ter descoberto o nome de James do mesmo jeito que ele descobriu o dela.
- Ele usava a fita negra? - James perguntou.
- Não. Ele me disse ser um solitário na floresta. - Em um piscar de olhos, ela se lembrou da última coisa que Albus havia dito. - Oh meu deus, ele também sabe da Ordem!
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- James, se você for, eu vou. Severus...
- Dane-se ele, Lily! Eu posso lidar com um Comensal que é responsável de manter Hagrid.
- Pretende matá-lo? - ela perguntou levando uma mão à boca.
Ele engoliu seco. A ruiva percebeu que ele pensava em uma boa resposta, principalmente vendo como ela estava reagindo.
- Apenas se ele se colocar no caminho.
- Ele salvou a minha vida. - ela sussurrou. - Se não fosse por ele, eu estaria morta.
James se aproximou dela e segurou seu rosto, a fitando. Os olhos castanho-esverdeados pareciam tristes.
- Eu prometo que farei o meu melhor e o possível para que nada aconteça com ele, caso isso lhe faz feliz. Assim, você pode...vocês podem...fazer o que quiser. - Ele soltou o rosto dela. O que ele quis dizer com aquilo?
- Bom, vamos entrar. Há uma sopa quente e um bom fogo lhe esperando.
James passou por ela, esperando que Lily o acompanhasse. Ela ainda demorou alguns segundos para isso, tendo a impressão que começara aquela conversa tentando escapar da conversa sobre o beijo, mas acabou afastando James.
Todos os três restantes, Sirius, Marlene e Remus, pareciam estar à sua espera quando Lily entrou na cabana. James apenas se jogou em uma cadeira, esperando o que talvez parecia inevitável: uma discussão.
- Por que se jogou na mão de Lestrange e Malfoy, Lily? - Remus começou quando ela mal fechara a porta da cabana. Ele parecia genuinamente bravo. - Tínhamos um novo plano, ele estava certo, estava pronto para ser executado.
- Um novo plano? - Ela perguntou surpresa. - Remus, quais eram as chances reais do novo plano dar certo, sem ainda todos os integrantes saberem sobre ele? - Lily respondeu.
- Você não sabia do plano, não teria como saber se daria ou não. Sirius e eu passamos boa parte da noite apenas planejando.
- Eu não sabia nada do plano e por isso mesmo executei o meu. Vocês pareciam preocupados demais com a tal Ordem. Eu durmo com um plano e acordo no outro dia cercado de pessoas falando sobre uma arma não letal contra o Novo Rei. Eu fiz o que tinha em mãos na hora. E deu certo! - Lily olhou para Marlene. A morena sorriu para ela e se aproximou.
Marlene pegou as mãos de Lily e as beijou, sorrindo verdadeiramente para a ruiva.
- Eu não tenho como lhe agradecer. Eu estaria morta agora se não fosse sua coragem e sua sagacidade. Estarei eternamente em dívida com você.
- Nós estaremos! - Sirius interviu. - Mesmo que eu esteja tão bravo quanto Remus sobre isso, eu estarei eternamente agradecido.
Ela não havia entrado nas celas das prisioneiras com Visconde Goyle e salvá-las para ser agradecida ou para ter alguém lhe devendo favores. Lily havia feito o que fez para ver o sorriso no rosto deles e toda a preocupação havia valido a pena. Sirius e Marlene estavam salvos, podendo ter um futuro brilhante pela frente, juntos!
- Isso é maluquice! - Remus cortou o clima novamente. - Quase foi morta, assim como James! Vocês dois devem...
- Nossas vidas estão em jogo desde o começo, Remus. E agora que concordamos nessa história de Ordem, será ainda pior. A morte será algo que teremos que lidar a todo instante. - Lily parou e respirou fundo. - Temos que fazer o máximo para poder alcançar o objetivo.
- Mas se você se pôr em risco assim, e colocando James junto, os dois morrerão por nada.
- Eu não sabia do plano dela também. - James se pronunciou de sua cadeira. - E que apesar dos pesares, foi um ótimo plano. Funcionou. Lily salvou todas as mulheres daquele lugar. Eu apenas a ajudei a escapar.
- E quase foi morto! - A voz de Remus estava exasperada. - Lily tem que parar de se colocar em risco assim, ela é a mais procurada entre todos.
- Chega, Remus! - Lily disse num tom mais elevado. Todos da cabana se assustaram, não acostumados a ouvir Lily levantar a voz para ninguém assim. - Você não vê? Eu sou a única sem um propósito desde o começo entre nós. Não há ninguém à minha espera, não há ninguém que eu deva resgatar, não há ninguém a quem eu devo ajudar, além de vocês! - Ela gesticulava e apontava para todos eles. - Meu futuro é correr, me esconder, fugir... se minha vida pode salvar outra, ou outras, eu o farei! Pelo menos morrerei com um bom propósito e não jogada em Azkaban ou tendo minha cabeça cortada por Comensais a mando do Novo Rei!
A última sentença foi lançada em um grito. Até Lily estava surpresa com o que falara. Tudo aquilo devia estar no fundo da sua alma, mas nunca trouxera para fora antes e nem nunca pensara assim.
Mas era verdade. Quem ela era? Ninguém esperava por ela, ninguém dependia dela. Estava sozinha agora, apenas tentando sobreviver sob o custo da recompensa de sua cabeça, tentando escapar para França. Sirius encontrara Marlene, James teria sua ajuda para encontrar Hagrid, Remus provavelmente acharia outro grupo para recrutar para a Ordem, escrever histórias ou gritar dentro de cabanas.
E Lily Evans continuaria a gastar as solas de seus sapatos em fuga.
Perceber aquilo começara a doer. Não tinha nada para lutar em sua vida, além de sua própria sobrevivência. Sua irmã estava bem e salva com o Dursley, seus pais... seus pais agora estavam em um lugar bem melhor.
- Isso não dá o direito de levar a vida de James com a sua!
As palavras de Remus a fizeram levantar a cabeça rapidamente. Ele realmente pensava que ela fazia aquilo para colocar a vida de James ou qualquer um deles em risco? Estava contando com uma morte rápida há algumas horas e não pelo seu resgate. Fez tudo por ela mesma porque a oportunidade estava ali junto de Visconde Goyle lhe levando até as celas e ninguém viria atrás dela, se expondo a um perigo desnecessário.
Uma lágrima teimosa estava começando a se formar. Lily lutava para não chorar na frente deles.
James levantou da cadeira num rompante e se dirigiu para Remus. Sirius rapidamente entrou no meio dos dois, segurando James.
- Qual é o seu problema? Tem uma paixão por mim? Todo esse tempo está interessado em mim e não nela? - James começou a cuspir as palavras. - Sinta o que você quiser, por quem quiser, mas não chegue aqui dando ordens ou falando com qualquer um dessa cabana do jeito que está falando com ela.
Remus tinha os olhos arregalados. Lily não sabia se era de medo ou de surpresa.
- Eu apenas prezo pela vida de vocês...
- Cale essa maldita boca. Tudo o que eu fiz, eu fiz porque eu quis. Lily não me leva para a morte o tanto quanto eu a levo. - James olhou em volta. - Ou todos nós!
Um bate-boca começou a se formar entre James, Sirius e Remus, mas Lily se desligou por completo. Era a segunda pessoa a dizer isso em um pequeno espaço de horas. Eles estavam certos? Nessas ideias de ajudar os outros, ela acaba trazendo mais risco de morte?
O que diabos estava fazendo de errado? Talvez tivesse que pensar melhor nos planos, ou talvez apenas escutar mais e falar menos. Isso estava certo?
Uma dor de cabeça começou a atingi-la fortemente. Nada parecia estar fazendo sentido mais: nem o que ela pensava e nem o que as pessoas diziam.
- Venha, querida.
Sentiu duas mãos suaves abraçá-la e a conduzir para algum lugar. Seus olhos estavam tão vidrados com os pensamentos, que apenas depois de se sentar nos degraus de fora da cabana que percebeu onde estava.
Uma sopa quente estava em sua frente, sendo estendida pelas mãos de Marlene. Lily sorriu e aceitou.
- Homens são idiotas, Lily. Desculpa, posso chamá-la assim? - Lily apenas assentiu, não tirando a atenção da sopa. Marlene se sentou ao seu lado. - Não há outro animal mais idiota neste mundo do que eles. - A morena continuou. - Sirius? Pff, eu o amo, mas é um dos mais idiotas que já conheci.
Lily sorriu.
- Eu não conheço os outros, mas garanto que Remus é outro. James com certeza também. Não há escapatória!
As duas riram. Ainda podiam ouvir discussões dentro da cabana, mas elas não queriam ou evitavam entender do que se tratava.
- Eles gostam de pensar que tem controle em tudo, que sabem mais do que a gente, que pensar com o pinto é saudável e inteligente. - Lily engasgou com a sopa, deixando o prato de lado e recebendo tapinhas nas costas de Marlene. - Me desculpe, acho que minha linguagem é meio baixa demais.
- Não se preocupe, eu só fui pega desprevenida. Não estava à espera dessa palavra, de falar sobre...ahm...sobre isso.
- Sobre pintos?
Lily virou um tomate ao ouvir a palavra de novo. Marlene riu.
- Desculpe novamente. Viu como homens são idiotas? Sirius fala tanta asneira quando está bêbado, que acabei me acostumando com essa linguagem.
- Se quer um consolo, nunca vi Sirius bêbado desde que o conheci.
- Então é por isso que ainda é bem educada. - Marlene sorriu. - Ele parou de beber alguns meses depois que nós nos conhecemos. Foi difícil no começo, mas conseguimos. Quando resolvemos fugir, ele era o sóbrio dos sóbrios.
- Acho que ele havia reencontrado a razão de viver.
A morena sorriu como nunca desde que Lily a viu pela primeira vez. E ela entendia por que as pessoas pensavam que ela era uma bruxa: Lily se sentia mais calma e mais relaxada desde o primeiro toque daquela mulher. Ela parecia realmente ter poderes.
Sabia que era bobagem. Não existia tal coisa como bruxas.
As duas viraram em direção a porta quando começaram a escutar barulhos de luta. Lily estava prestes a se levantar para apartar, mas Marlene a segurou pelo braço, impedindo-a.
- Termine a sua sopa. Deixe aqueles três resolverem seus problemas, eles não vão se matar.
- Mas se eles...
- Eles se importam muito um com o outro para isso.
Lily riu nervosa.
- Eu não sei sobre James e Remus. Talvez precise passar mais tempo para ver que eles não se bicam muito.
Marlene jogou a mão no ar.
- Remus estava à espera de ambos, muito ansioso. Estava genuinamente preocupado, inclusive com James. Mas...- Marlene deu uma olhada para dentro e fez um sinal com a cabeça. - ... Por outro lado, é bem nítido que James tem ciúmes de Remus.
- Ele tinha o pé atrás, porque não entendia o motivo de Remus estar sempre conosco, ou o que o levou a nos acompanhar. Desconfiava que fosse um Comensal disfarçado.
- E de que Remus tinha interesse em você!
Lily bufou e riu, meneando a cabeça. Levou outra colher da sopa à boca. Aquilo estava uma delícia. Com o frio que agora se instalara permanentemente, ela apreciava a sopa como se nunca mais fosse tomá-la na vida. Aquilo levou a um silêncio confortável entre as duas. Marlene olhava para a floresta, pensativa, enquanto Lily terminava a sua refeição.
Dentro da cabana também estava silêncio. A ruiva esperava que era pela briga ter se resolvido e não porque os três estavam caídos no chão com espadas cravadas no peito. Alguns minutos passados, elas ouviram passos em suas costas e sentiram que um deles havia se aproximado.
Marlene se virou para Lily e sorriu, dando três tapinhas em sua perna. Ela se levantou e entrou na cabana, fechando a porta atrás de si. Lily continuava a olhar para frente, sem ter interesse algum em se virar, mesmo quando a pessoa se sentou ao seu lado, no lugar de Marlene.
- Estou profundamente envergonhado pela minha atitude, Lily. - Remus começara. Sua voz tinha um tom de preocupação e hesitação, porém firme. - Eu não deveria ter falado como falei. Espero que aceite minhas mais sinceras desculpas.
A ruiva se virou para ele pronta para responder, mas as palavras ficaram trancadas em sua garganta quando vira o estado de Remus e sua pequena bolsa pronta para partir. Seu nariz estava sangrando e seu olho esquerdo estava inchado.
- Céus, está uma bagunça. Onde pensa que vai com essa bolsa? - ela puxou um pedaço de seu vestido e começou a limpar vagarosamente o nariz de Remus. - Se eles te expulsaram daqui, eu vou expulsar todos também, mesmo não sendo a minha casa.
- Vou para Hogwarts, Lily!
A mão de Lily congelou e caiu em seu próprio colo.
- O que vai fazer lá sozinho? Não pode ir, Remus!
Ele meneou a cabeça.
- Eu posso e devo. O primeiro passo para salvar Hagrid é ir para Hogwarts.
Remus se levantou e ajeitou sua pequena mala nas costas. Lily se levantou logo depois.
- Como assim? Nós iremos com você, então.
- Se acalme, Lily. Entre e descanse, ok? Vocês partirão para Hogsmeade em dois dias e nos encontraremos lá. Eu preciso confirmar se Hagrid ainda está em Hogwarts.
Pelo tom que Remus usou, ela entendeu que ele queria confirmar que Hagrid ainda estava vivo.
- Posso te pedir um favor? - ela perguntou.
- Claro.
- Conheceria um meio de uma carta chegar até alguém dentro do castelo?
Remus a encarou por alguns segundos.
- Você vai enviar uma carta para Snape?
- Eu preciso! Se ele cuida de Hagrid, seria uma ótima oportunidade para salvá-lo.
Ela via que Remus não parecia convencido quanto aquele plano. Ela entendia a preocupação de todos por ela se comunicar com um Comensal, mas eles não conheciam Severus como ela.
- Eu não sei se é uma boa ideia.
- Acredite em mim, Remus. Isso vai ajudar. Você tem um pergaminho ainda em branco?
Ele a assistia escrever a carta e Lily sentia que seus olhos eram de pura reprovação, mas não podia perder aquela oportunidade. Após escrever suas breves palavras e dizer, em código, para encontrá-la na casa dos Evans em alguns dias ao pôr-do-sol, Lily entregou a carta para Remus.
- Eu não concordo com isso, Lily. Mas sua carta será entregue.
- Obrigada.
Lily se aproximou e o abraçou, tendo o abraço de Remus de volta.
- Tomem cuidado aqui e em seu caminho até Hogsmeade. - Ele disse.
- Você também.
Respirando fundo e sem se prolongar mais, Remus deu as costas e entrou na floresta. O assistiu desaparecer com um peso no peito e entrou na cabana, tentando não pensar em Remus viajando sozinho até Hogwarts. James estava perto do fogo, de costas para ela e Sirius sentava na cadeira, em frente da mesa, completamente emburrado.
- Estão todos mais calmos agora? - ela perguntou. Viu que James deu de ombros, ainda de costas, como uma criança emburrada. Sirius resmungou qualquer coisa e bateu os dedos na mesa.
- Acho que devemos todos dormir. O que acham? - Marlene opinou, vendo o ambiente nada agradável. - Ainda temos algumas horas até o sol nascer.
- Vocês podem dormir, eu fico de vigia. - A voz de James parecia sem humor nenhum.
- Você não dormiu direito desde que chegou. Eu já dormi algumas horas. - Sirius se levantou. - Marlene e Lily podem ficar na cama e você pode se aconchegar perto do fogo.
Sem esperar mais, Marlene pegou na mão de Lily e a levou até a cama.
- Durma, Lily. Você precisa e merece.
Não querendo ser abusada, mas considerando o quão cansada estava, Lily aceitou imediatamente. De repente, tudo o que aconteceu desde a última vez que acordou - com James na mesma cama, na propriedade de Malfoy -, caiu sobre si: a fuga, a pequena sessão com Lestrange, o beijo, Albus lhe dando dois enormes galos na cabeça... talvez ela merecesse mesmo um bom descanso.
Seus olhos foram para James novamente, que não havia se mexido nem por um instante e se deitou. A fina coberta era o suficiente para o frio, já que o fogo estava bem abastecido e a cabana não era muito grande. Assim que deitou sua cabeça no travesseiro, ela caiu em um profundo sono.
Acordou em um pulo, sentando-se na cama. Percebeu que tinha as mãos em sua frente, como se tentasse impedir algo de lhe acertar.
Claramente havia tido um pesadelo, mas Lily nem conseguia se lembrar. Respirou fundo e olhou para a direita, vendo Marlene adormecida ao seu lado. Seus olhos viraram para frente e viu James dormindo em uma cadeira, apoiado apenas nas pernas traseiras, ao lado da lareira. Os braços estavam cruzados e o rosto parecia calmo.
Sirius não estava na cabana, provavelmente vigiando do lado de fora. Lily segurou a pequena cortina e a abriu um pouco, vendo que o sol já estava a ponto de nascer. Se sentindo descansada e não querendo voltar para qual fosse o pesadelo que havia tido, ela se levantou e saiu da cama o mais suavemente possível para não acordar Marlene.
James continuava dormindo, então ela pegou uma maçã que havia em cima da mesa, um casaco qualquer que achou pendurado e saiu. Sirius estava no meio da clareira, perto de onde ela havia sido encontrada ontem. O moreno olhava por entre as árvores, parecendo estar completamente longe dali em pensamentos.
- Está tudo bem, Sirius?
Ele respirou fundo antes de se virar.
- Tudo bem, Lily. Apenas pensando, tentando calcular um futuro próximo, o quanto seria bom nos ver livre do Novo Rei. - ele sorriu levemente para ela enquanto caminhava em sua direção. - Graças a você, eu tenho um futuro com Marlene.
- Nós iriamos salvá-la de qualquer maneira, Sirius.
- Talvez, mas a realidade foi que você a salvou. Você arriscou sua vida para salvá-la e saiba que eu nunca esquecerei disso e irei pagar um dia!
A ruiva sorriu e deu de ombros.
- Você pode me pagar casando com aquela mulher linda e sendo felizes!
- Isso é o que eu mais quero na vida. - Sirius suspirou e desviou o olhar novamente para a floresta. - Derrotando o Novo Rei, eu vejo que poderíamos ser felizes. Todos nós. Eu quero agarrar essa oportunidade, Lily e ir até Hogwarts com eles.
- Você acha que é uma boa ideia, então? - ela perguntou cruzando os braços com o vento frio.
- De qualquer maneira, eu tenho duas opções: ir e tentar ou ficar e viver do mesmo jeito que estamos. E ficar desse jeito não é vida, você sabe. Se há uma chance de mudar algo, eu quero tentar.
As palavras de Sirius a atingiram de verdade. Se antes ela tinha alguma dúvida de tentar, agora ela não tinha mais. Talvez ela morresse tentando, talvez ela sobreviveria. Mas se desse certo, ela estando viva ou não, mudaria a vida de muitas pessoas. Seria um sacrifício para o melhor, um sacrifício que talvez todo mundo estivesse esperando por, inclusive ela, mas que talvez ela tivesse que participar.
- Então vamos fazer isso juntos, como tudo o que fizemos até hoje. - disse Lily sentindo uma paz enorme com aquela decisão.
Sirius a abraçou pelos ombros e ambos ficaram assistindo o nascer do sol em silêncio, perdidos em seus pensamentos ou planos para o futuro.
- Você quer conversar sobre o seu tempo como prisioneira? - a voz dele soou calma e ela sentiu que Sirius havia ensaiado como começar aquela conversa com ela.
- Nada demais aconteceu.
- Eu vejo uma marca no seu rosto. Ontem, com a pouca luz, não era visível. Mas agora está mais do que visível.
- Foi apenas um tapa. - ela respondeu, tentando soar como se não importasse. Ao todo, não importava muito, mas não queria que Sirius pensasse o contrário.
- Quem foi o responsável?
- Isso realmente interessa?
- Isso interessa bastante! - ele respondeu. A ruiva deu um longe e profundo suspiro.
- Lestrange. - Lily sentiu a mão dele apertar o seu braço por um momento. - Mas foi apenas um tapa. Bem dado, mas um tapa. Nada além disso. Digo, água gelada e palavras não gentis também, mas poderia ter sido pior.
- Poderia. - Sirius limpou a garganta e olhou para a cabana por um instante. - Você sabe que quando ele ver o seu rosto, haverá mais questionamentos, não sabe?
Lily revirou os olhos.
- Estamos em uma guerra, não? Eu fui prisioneira, então é normal que isso aconteça. Digo, eles não iriam me trazer um banquete, me acariciar com penas e me dar vinho direto na boca.
- Se alguém tivesse encostado um dedo em Marlene, eu iria matá-lo. Estando em guerra ou não.
- Não podemos comparar a sua relação com Marlene e a nossa, Sirius.
- Tem certeza? - Com um sorriso sacana, ele a soltou e foi em direção à cabana. - Eu vou preparar algo para comer. Conseguimos pão ontem, mas temos que sair hoje para conseguir mais comida.
Sirius entrou na cabana, mas Lily decidiu ficar no mesmo lugar, ainda admirando a natureza em sua volta. Apesar do frio, os pássaros ainda cantavam felizes com o sol que chegava, dando aquela falsa sensação de que tudo estava bem, então ficou por alguns minutos aproveitando aquela paz que sabia que era apenas criação de sua cabeça. Finalmente, foi em direção à cabana também, querendo se refugiar. O fogo estava quase acabando, então ela pegou algumas toras e se abaixou, colocando-as vagarosamente para evitar que pequenas brasas se espalhassem.
- O que é isso?
Ela se virou para o lado e viu James a encarando, ainda sentado na cadeira em que havia passado a noite. Agora, estando perto dele pela primeira vez desde a discussão com Remus durante a madrugada, ela conseguiu ver um grande hematoma em seu rosto. Provavelmente consequência de um soco.
Ela ficou feliz em vê-lo machucado pelo menos um pouco, já que Remus estava pior.
- Estou colocando mais toras no fogo. - ela respondeu.
- No seu rosto! - James apontou com o dedo para seu lado esquerdo do rosto. Bem, aquilo parecia que começaria antes do previsto.
- Não sei do que está falando, James.
Ele se aproximou dela e segurou o seu rosto com delicadeza, o analisando, os olhos correndo por cada pedaço de pele e Lily se forçando a olhar para o lado e esquecer o que aconteceu na última vez que ele a segurou daquele jeito.
- Quando isso aconteceu, Lily? - ele passou um de seus dedos pelo o que ela acreditava ser o machucado.
- Apenas consequências da fuga e de tudo o que aconteceu ontem.
- Como eu não vi antes?
- Estava escuro e acredito que tenha ficado mais marcado hoje.
Ele ainda segurava o rosto dela e isso a deixava com o coração acelerado.
- Como aconteceu?
- Eu escorreguei e bati...
- Lestrange!
Lily virou o rosto para o fundo oposto da cabana onde Sirius parecia ocupado com um pedaço de pão. Havia esquecido que ele também estava ali.
- Lestrange fez isso? - James perguntou.
- Obrigada, Sirius. - ela resmungou em resposta.
- O que vocês estão discutindo a essa hora? - Uma Marlene sonolenta perguntava enquanto se sentava na cama, claramente descontente com a conversa alta na cabana.
- Desculpe, Marlene. - Lily se levantou e se afastou do fogo.
- Lá fora. - disse um James raivoso passando por ela com um cantil na mão e saindo da cabana.
- Como é? - ela perguntou cruzando os braços. James voltou.
- Por favor.
Ela foi até a porta bufando, saindo atrás dele, mas parou.
- Muito obrigada mesmo, Sirius. - Ela repetiu. O homem olhou para ela e sorriu.
- Se não for ele fazer algo sobre isso, serei eu.
Sem paciência para aquilo, ela apenas deu as costas e saiu da cabana. Não antes de ouvir Marlene resmungar:
- Você é muito intrometido e fofoqueiro, Sirius!
Não havia fechado a porta e dado dois passos, James já estava esbravejando.
- O que aconteceu naquele lugar? - Ele andava de um lado para o outro na clareira, o sol o pegava em cheio agora e seus olhos quase pareciam ouro. Ele deu um gole no cantil.
- Eles me trataram como uma princesa. Me deram comida, afagos, uma cama e um machucado. Esse último foi sem querer, claro.
A raiva nos olhos dele era visível.
- Lily! - ele passou a mão no rosto. - O que ele fez?
- O que você acha? - Perdendo a paciência, ela abriu os braços enquanto quase gritava. - Eles queriam saber o que eu estava fazendo ali. Acha que iriam me perguntar enquanto tomávamos um bom vinho?
Lily podia ver que a raiva dele havia sido transferida para ela, pois viu quando os olhos dele caíram com tristeza ao ouvir aquilo, enquanto ela sentia a raiva borbulhar dentro de si.
O que diabos ele pensava que Lily estava fazendo lá dentro após ser capturada? Apenas esperando a vida passar? Claro que ela havia passado por maus momentos lá dentro e tinha que ficar grata por ter saído antes do pior acontecer.
Um tapa no rosto e duchas geladas eram o mínimo que estava planejado para ela, tinha certeza.
- O que mais ele fez?
- Nada mais.
- Por favor, me diga se ele fez algo mais. - James perguntou se aproximando.
- Apenas um tapa, James. E água fria. Nada mais.
James fechou os olhos e pareceu soltar o ar antes de voltar a falar.
- Nós vamos encontrá-lo, eventualmente. Eu tenho certeza. E se não for por acaso, será por caça.
- Lestrange é o menor dos nossos problemas. Nós temos que focar em Hagrid! - Ela comentou.
- Eu posso focar em duas coisas ao mesmo tempo.
- Pelo amor, James, esqueça Lestrange. Isso é uma guerra, nossa contra eles. Nós vamos ser feridos, mortos ou torturados. Quando aceitamos fazer tudo isso, conhecíamos as consequências, não? Eu sabia, pelo menos.
- Claro que sabíamos, mas isso ainda não impede que eu o faça pagar pelo o que ele fez com você.
- Se um dia encontrarmos Lestrange, você pode ter certeza que eu tenho mais interesse em fazê-lo pagar por isso do que você. Mas até lá, até o dia chegar, nós vamos focar em Hagrid. Apenas nele. Estamos de acordo?
James cruzou os braços, claramente contrariado.
- Não, não estamos completamente de acordo. - Ela abriu a boca para revidar, mas ele continuou. - Mas acho que não é a hora para falarmos sobre isso.
- Você vai ser esse tipo de idiota que apenas faz o que quer, sem ouvir o que eu quero também?
- Eu estou ouvindo o que você quer.
- Não, não está. Estou pedindo para deixar isso de lado e você ainda está insistindo, querendo voltar neste assunto depois. Sem essa, James. Lestrange ficou para trás, espero que tomando um coro de alguém por ter deixado todas as bruxas fugirem e, depois, a responsável por isso também.
Ele não respondeu, apenas deu um outro gole de seu cantil e desviou os olhos. Era só o que lhe faltava agora: não ser ouvida sobre um assunto que lhe dizia respeito. Talvez a maioria das mulheres passassem por isso em suas residências, mas seus pais haviam sido um grande exemplo em como viver em uma casa cheia de respeito. Sua mãe tomava decisões junto com seu pai e ele nunca havia passado da linha com ela.
- Você está certa! - a voz de James a trouxe de volta.
- O que? - ela perguntou sem acreditar. Estava tão pronta para continuar a brigar, para lutar contra aquilo, que a sua frase a deixou sem rumo.
- Vamos esquecer isso. Temos coisas mais importantes para pensar agora e eu não posso e nunca irei forçá-la a fazer nada.
- Ah! Obrigada! - ela respondeu ainda perdida.
- Acabaram ou não?
A voz de Sirius vinda da cabana os fizeram se virar. Ele espiava pela porta.
- Marlene vai ter que dar um jeito nele! - James resmungou e voltou para a cabana.
O dia passava lentamente. Os três homens haviam combinado de que Remus iria na frente para coletar mais informações e que os quatro que ficaram para trás partiriam em dois dias para Hogsmeade, então não havia muito mais o que fazer, além de esperar. James havia saído para caçar sozinho, Sirius foi atrás de lenha e Marlene estava contente em poder cozinhar mais sopa com os legumes e batatas que havia conseguido. Não tendo muito o que fazer depois de ajudar Marlene, Lily decidiu limpar sua espada.
Da cama, ela tinha a visão de uma das janelas da frente e seus olhos não saiam de lá, ansiosa em ver algum deles voltar.
Por que não poderiam ir logo para Hogsmeade? Sentia que perdiam tempo estando ali, sem avançar. Estava acostumada a viver pulando de lugar a lugar, fugindo, preparando algo para um plano deles. Mas a espera foi longa, com as horas se arrastando. James voltou da caça e continuava irritado, enquanto Sirius e Marlene pareciam querer distraí-los da maldita espera com histórias engraçadas de suas vidas.
O dia seguinte foi tão longo como o anterior. Saber que faltava apenas uma noite para partirem, fazia Lily ficar mais impaciente. James, novamente, saiu para caçar algo para o jantar, alegando que queria todos bem alimentados para a viagem e ficou o dia todo fora. Ela duvidava que ele levasse tanto tempo para caçar e, provavelmente, não estava querendo ficar na cabana. Depois que todos se alimentaram, ela se forçou a dormir o quanto antes, querendo apenas deixar as horas passarem enquanto descansava.
- Lily, acorde! - A ruiva pulou da cama. Marlene já estava acordando, provavelmente Sirius havia chamado-a primeiro.- Temos que ir.
Aquilo era como músicas para os seus ouvidos. Ela rapidamente se levantou.
- Sairemos em uma hora. - dizia James já pegando algumas coisas da cabana e levando para fora, provavelmente arrumando os cavalos.
Sirius era o responsável por apagar o fogo e limpar a chaminé, para não deixar nenhum vestígio para trás. As duas mulheres começaram a se movimentar no mesmo instante: levando mantimentos e tudo que poderiam precisar até James, que distribuía tudo entre três cavalos. Iriam demorar um dia para chegar, já que teriam que desviar das rotas reais e das costumeiras estradas.
Conseguiram arrumar tudo em menos de uma hora. Sirius e James seguiriam cada um em um cavalo, enquanto Lily e Marlene dividiriam um para caso tivessem que fugir, as duas mulheres pudessem ficar juntas. Antes de cada um montar em seu cavalo, Sirius cortou uma longa fita negra em quatro, passando para cada um deles a sua parte. Sabendo que não havia outro jeito e que teriam que mantê-la até o fim de sua jornada, eles se ajudaram a colocá-la em seus braços. Quando saiam da clareira da cabana, entrando na densa floresta, Lily olhou para trás. Havia sido uma boa experiência naquele lugar, quase se sentindo...em casa.
- Está tudo bem? - Marlene perguntou atrás dela.
- Sim. - ela respondeu com um suspiro.
Após alguns minutos cavalgando lentamente entre as árvores e galhos, eles chegaram em uma parte da floresta mais ampla, então aceleraram. Sirius na frente, as duas mulheres no meio e James fechando a fila. Em um ritmo constante e sem parar nem por um segundo, eles seguiram daquele jeito por horas. Campos enormes e bonitos, riachos e rotas para outros vilarejos ficavam para trás a cada minuto.
Pararam apenas quando a noite chegou e a lua estava bem alta no céu. Acharam um lugar mais escondido na floresta, em uma grande árvore. Como Sirius havia ficado de vigia novamente na noite passada, descansando pouco, James seria o vigia da vez. Fizeram um pequeno fogo para se esquentarem, já que a floresta estava muito úmida e fria.
E Lily tentou dormir. Dessa vez, Sirius dormia com Marlene, podendo ambos se esquentarem em um abraço firme. Já a ruiva, não parava de rolar em cima das folhas e mesmo estando perto do fogo, com um cobertor e quente o bastante para dormir, seus olhos não conseguiam se manter fechados.
- O que está acontecendo?
Ela virou a cabeça em direção ao sussurro.
- Ahn?
- Está há mais de uma hora rolando no chão, parecendo um porco assado. - James continuou.
- Está difícil dormir.
- Bem, venha colocar os seus pensamentos para fora dessa cabeça ocupada. Assim, talvez, consiga dormir.
James deu espaço no tronco que estava sentado, do outro lado da pequena fogueira, a convidando. Lily levantou e sentou-se ao seu lado.
- Eu não sei realmente o que está me deixando inquieta. Há tantas coisas na minha cabeça neste momento.
- Qual a preocupação que volta mais vezes neste turbilhão? Apesar de estarmos com várias coisas rondando ao mesmo tempo, há sempre uma que volta mais frequentemente.
"Você" ela quis dizer. Você e seu beijo, você e seus olhos, sua boca, seu corpo. O jeito que você tem me olhado, a distância que está mantendo, a falta de conversa.
- Hogwarts, eu acho. - ela respondeu. Bem, não era mentira também.
- Certo. - ele respirou fundo e mexeu no fogo, não o deixando diminuir. - Você não é obrigada a ir, Lily. Eu preferia que você não fosse.
- Não vamos entrar nessa discussão novamente, por favor.
- Assim como você precisa botar para fora as coisas que estão em sua cabeça, eu também gostaria. E essa é a principal, que continua a voltar, atropelando qualquer outra preocupação.
- Você não pode fazer nada quanto a isso, então eu vejo como uma preocupação desnecessária. - Lily comentou enquanto saía do tronco que dividia com ele e se sentava no chão, mais perto do fogo.
- Dizer que eu não posso fazer nada, não irá tirar a minha preocupação.
- Pois deveria. Minha decisão já está tomada, assim como todos nós. -James fez um barulho estranho, como se tivesse soltando todo o ar pela boca, frustrado. - E você? Quais são as suas grandes preocupações?
- Há uma lista delas. - ele respondeu.
- Eu não me vejo dormindo tão cedo, então sou toda ouvidos.
James ficou em silêncio por um momento. Estranhando, ela olhou para trás, para onde ele estava sentado e viu que ele tinha a cabeça caída, os ombros tensos.
- A primeira é Hagrid, Hogwarts e você. Tudo junto: o fato de Hagrid estar lá e o fato de eu estar te levando lá.
- Você não está me levando. - ela o corrigiu.
- Se Hagrid não estivesse lá e eu não precisasse recuperar ninguém, você iria até Hogwarts?
Aquela pergunta a fez ficar sem palavras. Sabia que a principal razão de estar indo para Hogwarts era Hagrid, ele estando sendo guardado por Severus ou não.
Hoje ela iria para ajudar a Ordem também, mas... ela iria até lá caso Hagrid não estivesse preso?
- Eu não sei como estaríamos caso Hagrid não estivesse lá. Você não sendo preso e levado para Azkaban, nós nunca teríamos nos encontrado.
Argh. Dizer aquilo lhe soava horrível. Apenas a possibilidade de não conhecer ou encontrar James lhe dava palpitações.
- Talvez nossos caminhos teriam cruzado de outra maneira. - James disse com a voz um pouco longe.
- Eu estaria fugindo cada vez mais, para mais longe de Hogwarts. Nossos caminhos nunca se cruzariam.
- O importante é que nos encontramos. - ele disse rapidamente. - Nós nos encontramos, Lily. - Ele levantou e se sentou ao seu lado no chão. - O que poderia ter acontecido não importa.
Lily se virou para ele, que tinha uma ruga no meio da testa mostrando o quão descontente estava com aquela conversa.
- Bom. Qual a sua segunda maior preocupação? - ela perguntou, tentando mudar de assunto.
- Lestrange!
A ruiva revirou os olhos, sem acreditar no que ouvia.
- Você está falando sério?
- Absolutamente.
- James, por favor. Você está precisando de uns problemas reais em sua vida, para parar de pensar nesse tipo de coisa pequena.
- Não é coisa pequena. - Ele se virou para ela, seus olhos focando diretamente para onde Lily estava ferida. - Lestrange cometeu todos os erros possíveis desde que nos encontramos: ele não me matou e ele te feriu. Agora ele vai se arrepender de não ter feito o primeiro, porque eu vou fazê-lo se arrepender do segundo.
- E se eu quiser matá-lo pelo o que fez comigo?
- Então, infernos, eu vou te ajudar. E se você não precisar de ajuda, eu quero assistir.
Talvez fosse o cansaço, mas aquilo lhe fez rir. Sem entender, James a olhava confuso.
- Eu não sei por quê estou rindo, sendo que você está aqui dizendo essas coisas violentas de querer me assistir matar alguém.
- O importante é que está rindo. Eu não a vejo rindo há algum tempo.
O rosto dele parecia mais calmo agora, se deliciando ao ver Lily rir e quebrar a tensão que os rodeava.
- Eu não o vejo rindo há um tempo também. - Ela apontou. - Ou sorrir.
- A última vez que me viu sorrir, foi após a sua fuga, provavelmente, ou quando a achei em frente da cabana e viva. Se eu sorri depois, eu não me lembro do que poderia ter me feito tão feliz novamente.
Oh Deus. Ali estavam eles de novo. Lily sentiu sua boca secar, sem saber o que responder. Aquilo a fez sorrir enquanto os olhos acompanhavam as formas e movimentos do fogo.
Sem poder impedir, ela deu um longo bocejo e sentiu seus olhos encherem de lágrimas de sono.
- Eu acho que você deve ter resolvido, de alguma forma, um dos problemas. - a voz dele soou suave ao seu lado. Lily se virou e James passou uma de suas mãos pelo rosto dela, onde Lily sabia estar o seu machucado. - Vá dormir, Lily.
- Eu não quero te deixar vigiando sozinho ou vigiar novamente. Eu posso ficar e você dormir.
- Você não tem escolha. - ele respondeu docemente. - O seu estado de alerta está comprometido pelo sono.
Não contente, mas sabendo que ele estava certo, ela ficou em pé.
- Boa noite, James.
- Boa noite, Lily.
Os olhos dele tão expressivos lhe davam a coragem e o calor suficiente para voltar onde estava deitada antes. Ela se aconchegou, não tirando os olhos dele, tendo o olhar dele fixo nela também.
Suas pálpebras piscavam cada vez mais lentamente, o sono a vencendo. Não tinha certeza, mas achava que a última coisa que viu antes de adormecer foi um sorriso torto dele.
Espalhados pelo chão, ela via corpos. Muitos deles, amontoados, afundados em sangue.
O que estava acontecendo?
- Lily?
Se virou para trás ao ouvir a voz de James. Ele estava parado no meio de todos eles, voltado para ela. Suas mãos estavam vazias, mas sangrentas
- Você os matou?
- Não! - ele respondeu com um tom de sofrimento. - É a Ordem. Eles estão todos mortos.
Os olhos verdes se voltaram para baixo e logo ao seu lado, estava o corpo de Sirius.
- Não! - ela tentou gritar, mas sua voz parecia estar trancada em sua garganta. Ela segurou Sirius em seu colo, tentando estancar a ferida em seu peito, mas o sangue não parava. Ele estava pálido, seus lábios azuis. - Não...
Ao lado de Sirius, viu Remus e Marlene. Ambos no mesmo estado. Seu coração não parecia querer bater mais, seu peito estava pesado, suas mãos tremiam. A tristeza descomunal a atingiu.
Eles estavam mortos. O que ela faria agora sem eles? Sem sua família?
- Eu vou matar todos! - ela disse levantando-se. - Temos que ir atrás deles, vingar cada um.
James assentiu, mas uma espada, vinda por suas costas, atravessou seu corpo logo em seguida. Lily quase caiu com a dor que sentiu ao ver a cena.
Ela correu até ele, o desespero sendo o único a comandar agora. Não, não James. Não ele.
A espada saiu de seu peito e o atravessou na barriga. James caiu em seus joelhos quando ela finalmente chegou até ele.
- Não. Não!- ela repetia, o segurando contra si. - Não, você não pode ir. - As lágrimas escorriam descontroladas. O sentimento de impotência, de solidão, de vazio a invadia.
- Você pode vencer todos eles. - A voz dele estava fraca. Não, James não tinha aquela voz, nunca.
- Não sem vocês. Não sem você.
Lily o beijou, mas os lábios dele não corresponderam. Começou a sentir falta de ar, seus pulmões não parecendo funcionar. James estava morrendo...
- LILY!
Levantou procurando o ar.
Marlene estava segurando-a pelos ombros, ajoelhada ao seu lado.
- Está tudo bem, foi um pesadelo.
Continuava com dificuldade em respirar, limpou as lágrimas verdadeiras que continuavam vindo e seus olhos procuravam desesperadamente pelo lugar.
- Está tudo bem. Todos estão bem. - Marlene continuou, vendo que Lily procurava por Sirius e James ao redor. - Foram olhar ao redor para saber se podíamos continuar nosso caminho sem problemas. - Ela continuava a soluçar, sem conseguir encontrar o ritmo de sua respiração. - Respire fundo, vamos. Isso. Agora solte. Mais uma vez.
Após algumas respirações longas e profundas, Lily começou a relaxar e o desespero se dissolveu.
- Marlene...- ela disse segurando o ombro da morena. Marlene a olhou tão profundamente, que sentiu estar sendo invadida.
- James está bem. Foi só um pesadelo. - Ela disse, a acalmando. - Venha, tome um pouco de hidromel.
Lily aceitou a pequena garrafa e deu alguns goles. Barulhos apressados pela floresta fizeram ambas pegarem uma espada cada.
Os cabelos mais longos e bem escuros de Sirius foi o que impediram as duas espadas de atacá-lo.
- Eu ouvi gritos! - ele disse.
- Não foi nada. - Marlene respondeu. Lily agradeceu com um aceno de cabeça. Para Marlene tê-la acordado, não tinha dúvidas de que estava bem agitada no sono, mas gritos?
Para não mostrar que estava chorando, ela resolveu se ocupar com os objetos que usaram desde que se instalaram e que teriam que levar pela viagem novamente.
Aquelas cenas: Sirius, Remus e Marlene mortos aos seus pés. Os olhos sem vida, o rosto sem os sorrisos ou expressões que estava acostumada. Apenas corpos, como se fossem nada.
A espada atravessando o peito de James. Os olhos surpresos dele, a boca entreaberta e aquele homem forte e parecendo invencível, caindo de joelhos. Suas mãos voltaram a tremer enquanto segurava o cobertor. Não queria perdê-lo, não poderia perdê-lo.
Deveriam fugir, ir o mais longe possível de Hogwarts.
- Podemos continuar o caminho.
Ela soltou um grito com o susto que levou e se virou para ver James que acabara de chegar. Os três a olharam sem entender.
- Desculpe, eu me assustei.
Sim, ele estava bem. Vivo, inteiro e bem. Tinha que focar na realidade e não no pesadelo: eles estavam todos bem e nada iria acontecer. Lily ignorou os olhares confusos de cada um deles e focou em juntar o que tinham e acomodá-los nos cavalos.
Poucos minutos depois, estavam de volta à estrada. A ruiva já começava a reconhecer os lugares, alguns campos e placas com nomes de vilarejos. Não estavam longe de Hogsmeade agora, talvez mais uma hora de um rápido trote.
James, que estava na retaguarda, passou por elas e se alinhou com Sirius na linha de frente, conversando rapidamente sobre algo. Sirius olhou para trás por um segundo e assentiu. Os dois homens diminuíram a velocidade e começaram a se embrenhar pela floresta.
- O que eles estão fazendo? - Marlene perguntou às suas costas.
- Não tenho ideia.
Elas o seguiram e viram que eles já haviam desmontado de seus cavalos e conversavam sobre algo.
- Qual o problema? - Lily perguntou.
- Seus cabelos. - James respondeu e tirou uma pequena bolsa pendurada no próprio cavalo. - Você não pode chegar em Hogsmeade com o seu cabelo ruivo. Você não deveria estar viajando com os cabelos ruivos.
Por um momento, havia esquecido completamente daquele detalhe. Desmontou de seu cavalo.
- Obrigada. - disse enquanto James oferecia a pequena bolsa. Estava grata por ele ter pensado e estar preparado, porque nem um pouco de fuligem ela tinha.
Não poderia fazer aquilo enquanto cavalgava, então se abaixou perto de uma árvore e começou o trabalho. Marlene se abaixou com ela, sorrindo, enquanto pegava um pouco de fuligem e passava nos cabelos de Lily.
- Seu cabelo é lindo. - Marlene comentou. - Logo você poderá exibi-lo por aí.
Enquanto as duas se ocupavam com os cabelos de Lily, James e Sirius checavam as patas dos cavalos, tirando a terra seca e pedras presas nas ferraduras. Todos terminaram rapidamente.
- Ainda bem que você pensou nisso. - Lily jogou a bolsa de volta para James.
Ele olhava atentamente para os cabelos agora negros, um pequeno sorriso surgindo.
- Me sinto de volta naquela noite que a reencontrei no celeiro de Filch, você fugindo, lutando contra mim, querendo apenas que eu desaparecesse de sua frente. Seus cabelos negros não combinando com o resto de seu rosto.
- Você estava sendo um idiota.
- Não nego. - Ele respondeu com um sorriso maroto no rosto.
Não faltava muito agora, então todos retornaram para seus cavalos e voltaram para a estrada.
Eles começaram a encontrar pessoas pelo caminho agora. A floresta havia ficado para trás, cavalgavam por descampados, fazendas, portas de propriedades e celeiros. Lily tentava não se desesperar ao ver toda aquela gente em volta, estando tão perto de Hogwarts, da casa de sua família e, inevitavelmente, das pessoas que querem cortar sua cabeça.
Algo gelado no seu nariz a fez olhar para cima. Outro floco de neve caiu em seu rosto.
- Chegamos na hora certa. - Marlene sussurrou em seu ouvido.
Lily abaixou o rosto enquanto o cavalo fazia a última curva e se depararam com a entrada de Hogsmeade. O desespero que ela afugentava há alguns segundos atrás, foi substituído por uma nostalgia e felicidade. A casa dos Evans ficava entre Hogwarts e Hogsmeade, o que proporcionava muitos passeios com sua mãe e irmã pelas feiras de ambos, caminhadas com o seu pai e jogos e brincadeiras com seus amigos na infância. Ainda que não conhecesse todos os cantos de Hogsmeade, saber que estava entrando novamente naquele lugar, lhe trazia um sentimento bom.
E agora começava a nevar. A felicidade explodia em seu peito, mesmo sabendo que deveria estar em estado de puro alerta.
- Cubra o seu rosto!
A voz de James ao seu lado lhe assustou. Marlene, que estava sentada atrás de Lily, jogou o capuz do casaco pelos cabelos de Lily no mesmo instante, criando um véu preto ao redor de seu rosto. Era fato de que as pessoas da vila pareciam curiosas pelos quatro recém-chegados e seu cabelo poderia estar disfarçado, mas o seu rosto não.
- Precisamos achar o sinal. - Sirius disse esperando os dois outros cavalos aparelhar-se com o seu. - Remus nos disse que entrando em Hogsmeade, não seria difícil tê-lo.
- Ele disse que tipo de sinal? - Marlene perguntou.
- Não. Apenas para ficarmos alertas. - James respondeu.
Eles decidiram, então, continuar o caminho a pé, chamando menos atenção do que montados. As gentis pessoas de Hogsmeade cumprimentavam os quatro com acenos de cabeça e seguiam seu caminho, sem os interromper.
- Pads!
Sirius e Lily pararam imediatamente. Aquela voz e aquela palavra levaram Lily de volta ao baile dos Malfoy. Uma senhora com olhar gentil estava na frente de uma casa simples, a mesma senhora que Sirius e Lily encontraram no começo do baile. Como ela se chamava mesmo?
- Aquela não é a velha doida da festa? - Sirius perguntou ao lado da ruiva. - Figa?
- Figgs! - Lily disse ao se lembrar.
- Por aqui! - A velha disse, acenando discretamente.
- Vocês a conhecem? - James perguntou não parecendo convencido.
- Sim e não. Mas eu acho que esse é o sinal. - Lily respondeu. Só podia ser, senão, o que ela estaria fazendo ali, chamando-os? Ela usou o nome que Lily deu para Sirius no baile.
- Se ela der um passo em falso...- Marlene murmurou e olhou para James, que assentiu. Enquanto isso, Sirius e Lily pareciam convencidos de que estavam certos sobre a mulher. Pelo menos, esperavam.
Quando se aproximaram, Figgs se adiantou e abraçou os dois "conhecidos".
- Estávamos esperando por vocês. Remus me disse que chegariam hoje. - ela disse para ambos. O moreno e a ruiva se entreolharam enquanto ainda estavam sendo abraçados por Figgs. - Vamos sair das vistas.
A mulher os soltou e caminhou pela pequena viela entre duas casas. Sem pestanejar, os dois a seguiram. James e Marlene, sem entender, não tiveram outra alternativa além de segui-los.
Lily avistou uma espécie de celeiro aos fundos. Passaram por um pequeno portão e seguiram caminho para as grandes portas do lugar. Ela colocou sua mão na espada, pronta para tirá-la, assim como os outros três, porém, quando a porta foi aberta e eles entraram logo atrás de Figgs, seus queixos caíram.
Eles poderiam ser quatro com boas espadas, prontos para lutar, mas se fosse uma armadilha, eles nunca conseguiriam vencer as mais de cinquenta pessoas que estavam lá dentro. Todos que pararam de conversar e os encararam, sorrisos estampados em seus rostos, olhares dóceis e amigáveis. Eram cinquenta pessoas que eles, aparentemente, não precisariam morrer em mãos.
- Essa é uma parte da Ordem da Fênix.- Figgs disse ao seu lado e se apressando para um grupo de pessoas perto da porta.
Lily voltou os olhos novamente para o grande grupo: idosos, adolescentes e jovens da sua idade. Todos reunidos para vencer o Novo Rei, arriscando suas vidas para mudar o futuro. Naquele momento, sentiu, mais do que quando conversou com Sirius, de que estava fazendo a coisa certa.
Viu quando quatro adultos, dois homens e duas mulheres, se aproximaram, medindo os quatro recém-chegados. Figgs vinha com eles.
- O que é isso? - James perguntou.
- Vocês precisam trocar de roupas, rápido. - Figgs dizia, indo até o fundo do celeiro. - Por aqui! - Eles a seguiram, ainda chamando a atenção dos presentes. - Um de cada vez. Vocês vão trocar de roupa com um deles. - A mulher apontou para os quatro adultos que também o seguiram e foi naquele momento que Lily percebeu que eram dois homens com cabelos escuros - um deles era quase tão comprido quanto o de Sirius - e duas morenas.
- Para que? - Sirius perguntou.
- Algumas pessoas da cidade viram quando chegaram e precisamos fingir que vocês foram embora. Remus me passou um pouco da característica marcante de cada um, então vocês darão suas roupas para eles, assim eles sairão da cidade e vocês ficarão.
Lily gostaria de um pouco mais de explicações, mas foi empurrada gentilmente por Figgs para entrar em uma cozinha, fechando a porta logo em seguida. Ela se encontrou com uma das mulheres morenas, que não tinha nenhuma semelhança com ela.
- Desculpe. - Lily começou. - Eu viajei por todo esse tempo com esse vestido e agora ele está todo sujo e mal cheiroso.
- Não há problema algum. Eu estou tão feliz em poder ajudar. Eu acabei de ser escolhida. Estávamos esperando uma morena e uma ruiva. - A mulher sorriu e começou a tirar o próprio vestido. - Eu coloquei o meu vestido hoje, então terá a sorte de ter algo decente depois de horas na estrada. Figgs irá preparar um bom e quente banho para vocês, além de lhes mostrar seus aposentos. - A mulher continuava a tagarelar enquanto tirava o vestido. Lily, criando coragem, começou a tirar o seu, se sentindo mal por entregar aqueles trapos para a mulher e congelar o corpo naquela cozinha enquanto o fazia.
Quando terminaram, ambas saíram e deixaram Marlene e sua "sósia" entrarem na cozinha. James e Sirius estavam um pouco afastados, conversando. Lily imaginava que eles não estavam confortáveis, já que nenhum deles tirava a mão da espada e tinham os olhos rondando o lugar a todo o momento. Quando um deles foi trocar com o seu sósia, o outro ficava ao lado das duas mulheres, tão atentos quanto podiam.
- Agora já trocados, eu gostaria de levá-los para os seus aposentos. - Figgs riu sozinha por um segundo. - Desculpem, mas não são verdadeiramente aposentos, porém poderão descansar em um lugar seguro e quente.
- Madame, poderia nos dar licença por um momento antes de sermos levados? - James pediu.
Figgs os encarou de volta, um pouco surpresa, mas assentiu e voltou para a parte principal do celeiro, junto com os outros.
- Eu sou o único a achar que tudo está acontecendo muito rápido? E se isso for uma armadilha? - James perguntou assim que se viram sozinhos.
- Eu não acho que seja. - Lily respondeu.
- Sirius me explicou sobre esta mulher, sobre terem encontrado-a no baile do Malfoy. - James continuou. - Mas também estamos esquecendo que era um baile do Malfoy. Com comensais, famílias que apoiam o Novo Rei. O que nos garante que ela também não faz parte deles?
- Ela conhece Remus. - Marlene comentou.
- Remus conhece muitas pessoas, o que impediria muitas pessoas o conhecerem também? - Sirius, Marlene e Lily não tinham uma resposta para aquilo. - Onde estão os Longbottom e aqueles gêmeos? São os únicos, além de Remus, que conhecemos da Ordem.
- Tenho certeza que Remus deve estar por aqui. Podemos sair e procurá-lo por Hogsmeade. - Sirius disse.
- Não podemos deixá-las aqui, sozinhas. - James retrucou, apontando para as duas mulheres. - E não podemos ir com elas. Qualquer um poderia reconhecer Lily e levá-la.
- Podemos tomar conta de nós mesmas. - Lily, obviamente, respondeu.
- Vocês duas contra todas aquelas pessoas ali?
- Certamente não. - a ruiva murmurou mais para si do que para ele.
Mas não havia muita escolha. Eles poderiam ir embora, ficar ali até alguém conhecido chegar ou ir atrás de algum deles por Hogsmeade.
- Olá.
A voz doce e gentil veio da direção onde Figgs havia saído. Era uma mulher muito bonita, com sua pele morena, cabelos longos e enrolados. De repente, Lily se pegou pensando que todas as mulheres que vinha conhecendo ultimamente eram absurdamente lindas. Aquele pensamento a fez se virar para Marlene por um segundo, antes de voltar seu olhar para a nova recém-chegada.
- Senhorita! - James e Sirius fizeram uma pequena mesura para ela.
- Não se incomodem com mesuras, por favor. - ela se aproximou deles. - Me chamo Dorcas. Eu sou esposa de Remus. - Os quatro pares de olhos que se abriram fizeram Dorcas rir. - Ele não deve ter contato que era casado, eu vejo. Remus gosta de ouvir, observar e saber tudo sobre todos, mas pouco fala sobre si mesmo.
- É um prazer conhecê-la. - Lily parou ao seu lado. - Ele nos ajudou muito.
- Eu não esperaria nada diferente de meu marido.
- Onde ele está? - James perguntou sem rodeios. Lily lançou um olhar reprovador em sua direção.
- Em uma taverna não muito longe daqui. Está se encontrando com um dos infiltrados no castelo. Eu posso levá-los lá. - Dorcas dizia para os dois homens.
- Prontas para um banho, queridas?
Era Figgs novamente. O lembrete de um banho quente arrepiou a pele de Lily, que parecia implorar por aquela experiência deliciosa.
- Você se importa de ir encontrar Remus sozinho? - James perguntou para Sirius. Figgs e Dorcas não ouviam a conversa.
- Não.
- Então vá e eu fico com elas. - Sirius abriu a boca para dizer algo, mas James o cortou. - Eu vou cuidar de Marlene, não se preocupe. - Sorriu brevemente para o outro homem. Sirius assentiu.
- Certo. Obrigado.
Não muito depois, Sirius saiu com Dorcas e os outros três foram levados para o andar superior. A água dos dois grandes recipientes de madeira estavam tão quentes, que uma névoa quase cobria por completo o enorme cômodo.
- Se aprontem e eu entro depois. Eu não vou arriscar deixá-las aqui dentro sem saber se há passagens ou algo do tipo. - James apontou para o cômodo e se virou de costas, ficando como um guarda na porta entreaberta do lugar.
- Ele não pode ficar aqui dentro enquanto se banham. - Figgs comentou ajudando as duas mulheres com os vestidos recém-trocados.
- Eu não acho que há qualquer coisa que alguém possa pensar ou fazer que impediria James de entrar nesse cômodo e ficar de guarda.- Marlene disse enquanto abria um sorriso, os olhos encontrando os de Lily.
- Ora, onde já se viu isso?! - Figgs comentou mais para si mesma do que para as duas mulheres.
As duas entraram na água escaldante e soltaram o ar ao mesmo tempo, se deliciando com a sensação do calor em contato com a pele gelada.
- Eu vou deixá-las. Mas virei de tempos em tempos.
Para Lily, havia ficado claro o que significava aquilo: se James não estava tirando proveito da situação.
Assim que Figgs saiu, ouviram batidas na porta e, sabendo que era James, elas pediram para entrar. A névoa era tão densa, que ele não veria nada que não se esforçasse muito para ver. O que ele não fez. Apenas entrou com os olhos baixos e foi para o fundo do cômodo, se acomodou no beiral de uma janela, de costas para elas. Pela posição, ambas podiam ver que ele estava preparado para qualquer ação que ocorresse: dessa vez, a mão na espada não era o suficiente, tendo-a fora da bainha e bem segura ao seu lado.
Lily se banhou, utilizando um delicioso sabão com cheiro de rosas dado por Figgs querendo terminar aquela parte o mais rápido possível para, então, apenas aproveitar a água quente depois. Fechou os olhos, tentando relaxar, mas vivia abrindo-os na direção de James. Não, ela não estava incomodada com a presença dele, ou não de uma maneira ruim. Apenas não conseguia tirar seus olhos e pensamentos dele.
Se perguntava se James pensava nela daquele jeito também. Com tudo o que havia acontecido entre eles até o momento: as palavras, gestos e o beijo... não era possível que ele fosse tão indiferente. Que não pensasse em tudo aquilo em algum momento. Ou ela era apenas uma tola? Ele tinha mais experiência com essas coisas, com certeza, o ato de cortejar, de beijar, de levar alguém para o quarto. Mas seria ele tão despreocupado a ponto de não dar segundos pensamentos para o histórico deles?
Lançou um olhar para ele novamente. Tinha a cabeça contra o batente da janela, olhando para fora. Uma perna descansando no beiral da janela e a outra apoiada no chão. A espada estava com a ponta no chão, rodando enquanto James rodava o cabo dela nas mãos. Ele parecia longe, pensativo.
E tudo o que ela queria, era saber se em algum momento daqueles longos minutos que se passaram, ele havia pensado nela pelo menos uma vez.
- Sirius está voltando com Remus! - A voz dele quebrou o silêncio.
- Ótimo. Irei me encontrar com eles. - Marlene começou a se levantar, pegando sua toalha e se secando. Quando Lily fez menção de fazer o mesmo, Marlene balançou a cabeça. - Você está se deleitando aí dentro. Fique até a água esfriar.
- Mas...
- Aproveite a chance. Sabe-se lá quando poderemos aproveitar um banho quente novamente.
James não se moveu um centímetro sequer, deixando Marlene confortável para se trocar.
- Eu vou levar Marlene até Sirius. - James comentou de seu lugar. - Mas volto em breve.
- Não precisa me acompanhar, James.
- Preciso. Eu disse que cuidaria de você.
- São apenas alguns degraus até lá embaixo.
- Que poderiam ter qualquer pessoa mal intencionada no caminho. - O tom dele era de fim de conversa. Marlene olhou para Lily.
- É, eu sei. - Lily concordou. - Insuportável, não?
Os dois saíram do cômodo, deixando Lily sozinha, mas não por muito tempo, já que James voltou em menos de dois minutos. Ele não lançou nem um olhar para ela, se postando na janela novamente.
A água da banheira estava completamente branca rosada por conta do sabão utilizado, o cheiro pelo cômodo era delicioso, enquanto a névoa fazia as janelas embaçar. A cada minuto, Lily via James desembaçando a janela onde estava, lhe dando visão de Hogsmeade.
Ela limpou a garganta e viu que ele virou minimamente a cabeça para o lado, como se estivesse prestando atenção nela.
- Você teria mais fuligem? - Ela perguntou.
- Não muito, mas não seria difícil conseguir mais. - James respondeu.
- Ótimo. Eu posso lavar meus cabelos então.
- Sim, você pode. - a voz dele estava leve e tranquila, como se agradecesse pelo ato. Não que fosse novidade que ele gostava dos ruivos de seus cabelos, já que ele mesmo já havia dito.
Lily mergulhou por completo, lavando seu cabelo para tirar a fuligem da viagem. Com a névoa e a umidade, a maior parte já devia estar escorrendo, então seria melhor lavar os cabelos e prepará-los melhor depois. Quando voltou à superfície, tirando a água dos olhos, se sentia completamente limpa.
- Acho que terminei.
- Quer que eu saia para...? - Mas a pergunta dele foi interrompida por Lily já se levantando e pegando sua toalha. Ela viu quando James abaixou a cabeça, ainda que estivesse de costas, e respirou fundo.
Secou a maior parte do corpo e se enrolou na toalha, indo em direção ao vestido, quando alguém bateu na porta. Não podia atender naquelas condições e James imaginava que Lily não teria tido tempo de se vestir, então ele saiu de seu lugar, sem levantar os olhos nem uma vez e foi até a porta.
- Temos algo preparado para comer - era a voz de Sirius do outro lado.
- Estaremos lá embaixo em cinco minutos. - James respondeu.
A porta foi fechada novamente e de repente os olhares se encontraram. Lily ainda tinha apenas a toalha enrolada em seu corpo e a segurava firmemente, enquanto James apenas a admirava.
- Desculpe. - ele disse e abaixou o rosto novamente.
- Não há problema.
Ela se virou até o vestido e o pegou, pronta para vesti-lo.
- O seu cabelo...- A voz de James a fez se virar para trás e levar a mão automaticamente para os cabelos. - Ainda há fuligem, principalmente nas pontas.
- Ah sim? - Foi a única coisa que Lily conseguiu responder.
- Venha!
James pegou a mão de Lily e a trouxe de volta para perto do recipiente que se banhou. O moreno pegou um banquinho que fora usado para que elas pudessem tirar os sapatos antes e Lily se sentou ali. James apoiou um dos joelhos no chão, usando a outra perna como apoio para as costas de Lily enquanto a trazia para se deitar, tendo a nuca apoiada contra a borda do recipiente.
As mãos dele seguraram os cabelos ruivos e os colocou de volta na água. Lily fechou os olhos enquanto sentia o seu coração bater bem forte contra seu peito. Os dedos dele começaram a passar levemente por seus cabelos, os lavando cuidadosamente, quase como se a acariciasse.
Lily se permitiu aproveitar aquele momento. Havia sido bem cuidada na vida, com regalias e mimos, mas nada do que teve em sua vida adulta, nem os banhos com sais especiais, os tratamentos que sua mãe conseguia de comerciantes estrangeiros e os melhores cuidados com as mãos mais leves eram bons o bastante para chegarem aos pés das sensações que tinha com as mãos de James em seus cabelos, lavando-os.
Quando abriu os olhos, assistiu-o focado em sua tarefa, até os olhos dele desviarem para os seus. Como ela o queria. Não tinha nada para comparar com aquele sentimento que tinha por ele e ela sabia que esconder ou negar seria contraproducente. Então quando percebeu, se viu levantando o corpo na direção dele, a água morna de seus cabelos escorrendo por suas costas agora. James esperou, querendo saber o que ela queria e estava fazendo, mas não demorou muito para entender, já que Lily segurou seu rosto delicadamente, o acariciando.
Os rosto se aproximaram e Lily quase pulou de felicidade ao beijá-lo novamente. Lento e doce, sem pressa e sem a profundidade que conheceu anteriormente. A sensação que tinha era de apreciação de ambas as partes, a vontade de estarem tão perto novamente, de se tocarem minimamente, de terem os lábios juntos sem terem que correr da morte depois.
Mas quando Lily teve a coragem de abrir os lábios, convidando-o para algo mais profundo, James a parou.
- Eu não posso fazer isso agora. - James sussurrou, fechando os olhos com força logo em seguida. Ele se afastou lentamente.
- Por que? - Lily perguntou, o tom agoniado em sua voz.
- Porque se eu beijá-la agora, eu não vou querer parar e eu farei coisas que a farão pedir para que eu não pare.
-O que isso quer dizer?
- Que é melhor você se vestir e sairmos desse cômodo antes de sujarmos sua reputação por completo.
Lily queria pedir para que voltasse, que a beijasse até ela implorar para não parar. Queria ter e sentir tudo aquilo novamente, sem a preocupação de estarem sendo seguidos por guardas depois de uma fuga.
- Não me olhe assim, Lily. - James segurou o rosto dela com as duas mãos. Ele encostou o rosto contra o dela. - Por favor, eu faço isso por você.
- Eu não me importo com o que eles vão pensar.
- Você diz isso agora, quando me olha cheia de vontade. Mas depois, irá se arrepender. - Ele deu um leve beijo em sua bochecha. - Eu não quero que você se arrependa de nada que fizer comigo.
Ele não devia ter ideia de como piorava a situação ao dizer tudo aquilo. Saber que ele se importava com ela naquele nível, só a fazia querê-lo mais.
Porém, entendia o que ele dizia. Ainda que quisesse fazer o que queria ali, naquele momento, ouvir seu corpo e seu coração, as coisas poderiam ficar complicadas depois. Eles estavam sendo esperados lá embaixo e as pessoas já deviam se perguntar o motivo da demora. A reputação dela poderia ficar manchada e James poderia sofrer consequências por isso e Lily não queria que ele se arrependesse de nada que fizesse com ela também. Então, com um aperto no coração, ela se afastou e foi até a cadeira onde estava seu vestido.
- Eu estarei esperando do lado de fora. - Ele disse e ela pôde ouvir a porta se abrindo e fechando logo depois.
Pegou o vestido e começou a se vestir, enquanto pensava no melhor jeito de fazer com que a sua reputação se mantivesse e as consequências para James não exisitissem, enquanto eles ainda pudessem fazer o que quisessem.
Lily o queria e, aparentemente, James a queria também. Não deveria ter nada e nem ninguém que deveriam estar entre eles e ela se certificaria disso.
N/A: Feliz 2021 para todo mundo :D
Agora vamos entrar em uma fase da história que as coisas vão começar acontecer :P
Vejo vcs logo mais.
Beijos ;*
N/A: Apareceu a margarida. Mais um capitulo para esses meus leitores fantasmas hahahahahaha eu vejo voces todos ai, viiiu? hahahahaha Espero que tenham gostado e aproveitado esse cap. Primeiro beijo Jily FINALMENTE xD
Beijos, pessoas lindas.
