Capítulo XIV – Relacionamentos complicados
"Odiava todos eles: meus pais, com a mania de sangue puro, convencidos de que ser um Black tornava a pessoa praticamente régia..." – Sirius Black, HP e a Ordem da Fênix.
O aroma pesado das poções fervendo estava me deixando mais sonolento que o normal – mas até aí podia ser o pouco sono que eu tivera nas últimas duas noites. Lutei para me concentrar, sabendo que era a distração que sempre me atrapalhava na aula de Poções, como Evans sempre me lembrava. Além disso, essa poção era um problema simples e eu apreciava poder resolver alguma coisa.
Queria que outros problemas tivessem soluções tão fáceis quanto apenas me concentrar.
Ao meu lado, Severo parecia mais inquieto que o normal. A poção dele já estava finalizada, com uma consistência, como usual, melhor do que a indicação no livro, mas ele não parecia presunçoso com esse fato. Esperei até colocar o último ingrediente da poção, pacientemente, antes de me virar para ele.
- O que foi? – perguntei em voz baixa. O olhar de Severo se desviou, num gesto quase inconsciente, e eu não precisava seguir a direção do seu olhar para saber quem era o foco da sua atenção.
Como sempre.
- Aconteceu alguma coisa? – ele questionou. – Entre ela e Black?
Franzi a testa, sem querer responder. Embora ninguém mais estivesse presente naquela discussão entre Black e Evans, todo mundo parecia saber que tinha acontecido algo. Desentendimentos entre os dois eram tão raros que atraíam atenção; eu presenciara mais de um cochicho a respeito deles na véspera, na Sala Comunal da Grifinória.
É claro que eles não haviam tentado disfarçar também. Sirius e Lily haviam se ignorado o dia todo, evitando-se tanto quanto possível; os dois eram tão físicos no seu relacionamento um com o outro, sempre se abraçando, sempre cúmplices, que ficara evidente que havia algo errado. Sirius havia se refugiado no dormitório na maior parte do tempo, onde eu sabia que ele estava lendo meu Manual de Animagia em paz. Evans dividira seu tempo com Lupin na biblioteca; eu os vira estudando há algumas mesas de distância, mas não me aproximara.
No jantar, Lupin e Pettigrew haviam se sentado entre eles, claramente tentando aliviar o clima, sem sucesso. Sirius e Lily não haviam trocado nenhuma palavra entre si, embora parecessem amigáveis a qualquer outra pessoa que falasse com eles. Eu não me deixava enganar; era fácil ver a fúria interna nos dois, e se eu conseguia ver isso, certamente a mesa toda também sabia. Lupin e Pettigrew não paravam de se olhar, preocupados.
Foi com certa trepidez que me aproximei de Lily Evans após o jantar, aproveitando um momento em que ela havia ficado sozinha; eu sabia que Lupin e Pettigrew estavam no dormitório, e queria lhes dar um momento com Sirius, esperando que talvez eles o ajudassem a resolver essa questão com Evans.
Quando lhe pedi desculpas por ter perdido a festa, explicando que uma emergência surgira, Evans me encarou por vários segundos, até que achei que ela gritaria comigo ou exigiria saber por que eu tinha perdido seu aniversário. Mas ela fez pior: Evans só acenou, despreocupada, disse que não tinha qualquer problema, e voltou a ler o livro em seu colo.
Comparei mentalmente sua reação pela minha ausência com a ausência de Sirius, e tentei deixar que aquilo não me abalasse.
- Tiago? – Severo insistiu, ao mesmo tempo que o Prof. Slughorn anunciava que o tempo havia acabado e que deveríamos entregar um frasco com a poção para ele.
Aproveitei essa nova chance para evitar responder Severo, separando uma amostra da minha poção. Pela primeira vez desde que eu me lembrava, minha poção estava exatamente da tonalidade e textura descritas no livro. Sorri, plenamente satisfeito, sabendo que ela aquela poção ia me valer um Excelente.
- Sua poção está ótima – ouvi alguém dizer, e quando ergui o olhar, Lily Evans estava na minha frente, olhando com aprovação para o meu caldeirão. – Você se concentrou para variar, Tiago?
Ela sorriu para mim, parecendo bastante satisfeita com o meu resultado, e meu coração deu um pulo; Lily estava bem próxima da mesa, e seu perfume era mais inebriante que qualquer aroma de poção conseguiria ser.
Ignorando todas essas sensações, eu apenas sorri de volta, conspirador.
- Alguém me disse uma vez que meu único problema era a distração.
- Parece uma pessoa sábia – ela respondeu, achando graça, antes de seu olhar se voltar para o caldeirão ao meu lado. Havia uma expressão curiosa em sua face quando ela disse: - Sua Poção do Crescimento está excelente, Snape. Você adicionou esporos de fungo junto com as gotas de ditamno?
Houve um instante de silêncio. Eu me virei para o lado, quase surpreso, porque tinha esquecido que Severo ainda estava ali, e me vi contemplando uma cena que eu nunca tinha imaginado acontecer.
Lily Evans encarava Severo Snape, aguardando educadamente que ele a respondesse; e Snape, cujo sonho de vida era que algum dia Evans falasse com ele, apenas a fitava de volta, com a boca entreaberta, sem que nenhum som saísse.
Ninguém mais parecia ter reparado na reação dele, o que considerei uma pequena benção para ele.
Chutei-o por debaixo da mesa, fazendo com que Severo pulasse, como se despertasse de um sonho. Seu rosto assumiu um tom rosado, que achei poderia não ser tão perceptível na luz fraca na masmorra.
- Antes – ele disse, numa voz rouca. Ele pigarreou, respirando profundamente, se controlando. – Antes de colocar as gotas, quando...
- A poção está em ebulição – Evans completou por ele, pensativa. – Eu coloquei os esporos depois de ferver, por isso não ficou tão boa quanto a sua. – Ela lhe lançou um sorriso tão deslumbrante, que fiquei surpreso por Severo não desmaiar na hora. – Parabéns, Snape.
E então ela se foi, sem esperar resposta. A segui com o olhar e descobri que eu não era o único – Sirius Black estava na saída da masmorra, olhando para Evans, e tive a impressão de que ele assistira toda a cena. Mas ela passou por ele sem fitá-lo, ignorando-o completamente, e então me ocorreu que eu tinha entendido qual era o propósito de Evans no seu súbito interesse em conversar com Snape.
A julgar pela cólera nos olhos de Sirius, Evans certamente conseguiria incomodá-lo.
Voltei a olhar para Snape, com a testa franzida, mas ele não parecia ter se mexido. Ele ainda olhava para o local onde Evans tinha estado segundos atrás, com uma expressão abobalhada como se tivesse sido acertado por um balaço.
Sem dizer nada, peguei os frascos de poções que eu e ele havíamos separado e fui entregar para o professor. Quando voltei, ele estava sorrindo de ponta a ponta, os olhos brilhando de uma forma como eu nunca tinha visto antes.
Ele parecia radiante.
- Vamos? – perguntei, impaciente, recolhendo os equipamentos.
- Ela falou comigo – foi o que ele respondeu, imóvel.
- Eu percebi.
- Ela nunca tinha falado comigo antes. - Não havia como eu discutir com isso. A última vez que eles deviam ter tido algo que parecesse uma conversa deveria ter sido no Expresso de Hogwarts quando se apresentaram. Antes de eles serem de Casas diferentes. Antes de Sirius Black. – Ela é linda.
Não havia como discutir com isso também.
Severo ainda estava suspirando quando nós saímos da masmorra, os últimos a deixar a sala de aula.
- Anda, vamos atrasar para a próxima aula.
- Ela reparou na minha poção – ele murmurava, me ignorando completamente. – Ninguém nunca aprecia o meu talento. Você ouviu quando ela me deu parabéns?
- Eu estava do seu lado – respondi, revirando os olhos, mas ele ainda não estava me ouvindo.
- E aqueles olhos, são tão verdes, não há nada no mundo que se compare...
- Já te ocorreu que ela só falou com você para irritar Black? – perguntei bruscamente, antes que eu conseguisse me conter.
Isso fez Severo parar. Ele se voltou para mim, os olhos negros sem qualquer calor agora, me sondando.
- O que você quer dizer?
Hesitei brevemente, arrependido de ter falado algo e, ao mesmo tempo, satisfeito que a expressão sonhadora no rosto dele havia desaparecido.
- Talvez Evans esteja irritada com Black e tenha falado com você só para incomodá-lo.
- Você sabe se algo aconteceu entre eles? – ele perguntou novamente, e mordi os lábios, sem querer mentir, mas sem querer também dizer a verdade completa.
- Você não se importa se ela só está te usando para incomodar Black? – perguntei ao invés, incomodado com a ausência de irritação nele.
Severo franziu a testa, considerando minha pergunta, antes de voltar a sorrir, parecendo satisfeito.
- Se eu me importo? Tiago, o quer que tenha acontecido entre eles, espero que dure para sempre – ele disse honestamente, voltando a andar, e quase esperei que ele começasse a cantarolar.
Na hora do almoço, encontrei Sirius nas cozinhas, como já havíamos combinado. Sirius indicara que era um lugar e hora perfeitos para falarmos; os elfos ficavam ocupados em servir as refeições, indo e vindo, e não prestavam tanta atenção em nós. Além disso, eu imaginei que ele estava tentando evitar, por ora, qualquer lugar em que pudesse encontrar Evans. Eles tinham passado a última aula de Herbologia em completo silêncio, embora estivessem pareados na tarefa.
- Analisei a lista de ingredientes que precisaremos para a poção – ele começou, em um tom profissional, quando nos sentamos para almoçar. – Alguns conseguiremos pegar aqui em Hogwarts, outros vamos ter que colher nós mesmos – você não se opõe a andar de madrugada na Floresta Proibida, certo?
Pisquei para ele, em dúvida se ele estava falando sério ou não, mas concordei com a cabeça.
- Ótimo, porque precisamos de casulos de mariposa bem específicos. E vamos ter que cometer outro... ah... pequeno furto. – Ele sorriu marotamente. – Vamos precisar de alguns ingredientes que há apenas no estoque particular de Slughorn.
- Não conseguimos pedir pelo correio?
Sirius ergueu as sobrancelhas.
- Não queremos deixar rastro, Potter, e certamente não queremos que isso chame a atenção do Ministério da Magia. Eu posso pegar, sem problemas.
- Não, eu faço isso – me dispus. – Consigo pegar amanhã, em algum horário livre que Slughorn não tenha aula. Com a Capa da Invisibilidade, é sucesso.
- Vá na quinta-feira à noite – ele recomendou. – Slughorn tem um jantar para os favoritos dele às quintas, com toda a distração é menor ainda a chance dele de notar.
Acenei.
- Como você sabe sobre os jantares de Slughorn?
- Lily sempre é convidada – ele respondeu curtamente, desviando o olhar.
Imaginei que eu deveria ficar em silêncio e não me intrometer, mas, contra o meu melhor julgamento, me ouvi falando: - Não vamos contar para Evans sobre o nosso projeto? Se ela vai fazer parte...
- Não sei se ela tem interesse em participar – Sirius retorquiu.
- Se é para ajudar Remo, acho que ela iria, sim. Mas ela não vai poder se não contarmos, e a ajuda dela seria bem importante para conseguirmos acertar a poção.
- Eu consigo fazer sozinho – ele retrucou imediatamente, a irritação fazendo seus olhos relampejarem. Ergui as sobrancelhas, não impressionado, sabendo tanto quanto ele que nenhum de nós era metade tão bom quanto Lily em poções, mas não falei nada; Sirius suspirou. – Desculpe, eu... Não vamos começar mesmo a poção por algumas semanas até termos todos os ingredientes e fazermos a preparação. Só... me dê algum tempo, ok? No momento, não quero conversar com Lily. - Ele desviou o olhar para o próprio prato, sem parecer realmente ter apetite. Eu não precisava conhecer profundamente Sirius Black para saber que ele estava chateado. – Ela ultrapassou alguns limites.
Me perguntei do que ele falava exatamente; se era a acusação de que Sirius passara o dia com Marlene McKinnon, ou se era por ela ter mencionado a recomendação de Sirius para que Evans me evitasse.
Ou se era alguma outra coisa que eu não conseguia enxergar.
Felizmente, Sirius não insistiu no assunto.
- Mas falando sobre pessoas que precisaremos envolver... Quero falar com Pedro.
- Pettigrew?
- Ele é a melhor pessoa que eu conheço para desenhos, quero dizer, você viu o que ele fez com o Mapa do Maroto. Vamos precisar desenhar aquelas runas, seria bom se ele já fosse treinando e... – Sirius hesitou, como se procurasse as palavras certas. – Ele não é muito bom em transfiguração, vamos precisar ajudá-lo bastante. – E então ele franziu a testa, como se um pensamento ruim lhe tivesse ocorrido. – Tudo bem por você?
- Em contar para ele? Claro.
- Não, o que eu quis dizer... Pedrinho vai precisar de muita ajuda.
- Qual o problema?
- Eu quis dizer muita ajuda mesmo, do tipo que pode nos atrasar por um bom tempo se ele ficar entalado em alguma etapa do processo, mas... não quero abandoná-lo.
Assenti tranquilamente.
- É claro que não. Posso ajudá-lo a estudar as runas e os feitiços enquanto a poção não fica pronta. E não vamos abandoná-lo. Estamos juntos nessa, vamos todos virar animagos.
Sirius pareceu agradavelmente satisfeito. Algo brilhou nos olhos dele quando ele sorriu para mim, e me descobri sorrindo de volta, como se aquilo fosse a coisa mais fácil do mundo. Era evidente a confiança que ele depositava em mim, na minha ideia e na crença de que conseguiríamos realizar isso juntos.
Mas então me lembrei, mais uma vez, dele dizendo para Lily Evans ficar longe de mim, e o sorriso morreu, conforme o desconforto crescia em mim. Sirius deve ter percebido, porque ele pareceu acanhado.
- Tiago – ele começou, estalando as mãos –, sobre o que você ouviu...
- Não é da minha conta – repliquei automaticamente, mas ele ignorou.
- Eu lamento por ter dito a Lily para ficar longe de você. Vocês estavam ficando mais próximos e isso me deixou nervoso. – Soltei uma exclamação de surpresa, que ele também não pareceu registrar. – Quero dizer, você estava conversando com o meu irmão, de todas as pessoas, e... eu fiquei preocupado com Lily. É claro que ela me deu uma bronca quando eu falei desse assunto com ela, e ela estava certa. – Ele sorriu quase nostalgicamente. – Ela me lembrou primeiro que não precisaria de ninguém para protegê-la, e me lembrou que vocês são amigos. – O olhar dele encontrou o meu. – Acho que você se preocupa com ela e não deixaria que nada de ruim lhe acontecesse.
- É claro que não – garanti, fazendo com que Sirius assentisse.
- E depois do que você ouviu, imagino que pareça um tanto hipócrita da minha parte – ele continuou. Quando ergui as sobrancelhas, questionando, Sirius corou. – Por causa da sua prima.
- Bem – comecei, tentando aliviar a situação. – Pelo menos você não odeia toda a minha família.
Sirius riu um pouco.
- Eu não odeio sua família e certamente não te odeio – ele garantiu. Quando ergui as sobrancelhas, contestando-o, ele meneou a cabeça. – Nunca odiei. Eu só não te entendia; na verdade, ainda não entendo exatamente a sua amizade com Snape, quero dizer, não entendo o que faz uma pessoa como você ser amigo de alguém como ele, mas já peguei a ideia. – Ele sorriu levemente. – Você é fiel, Potter, e parece considerar como a maior desonra não acreditar em um amigo.
Assenti, surpreso e agradado pelo fato de que ele tinha me interpretado corretamente. Depois de alguns minutos em silêncio, questionei, em uma voz tentativa:
- Hm... Sirius? Sobre você e Marlene...
- É complicado – Sirius respondeu imediatamente, seu tom defensivo. E então ele meneou a cabeça, relaxando. – Desculpe, foi automático. Depois de tanto tempo eu só me acostumei a não falar sobre o assunto.
Franzi a testa, confuso.
- Mas o que não dá certo? – e então um pensamento me ocorreu quando me lembrei dos alertas de Marlene. – É por causa de Evans?
Sirius pareceu igualmente confuso.
- O que Lily teria a ver? Não, o problema é minha família, como sempre.
- Eles não aprovam Marlene...?
Sirius soltou uma risada desdenhosa.
- Ela é sangue puro, Tiago, é claro que eles absolutamente amaram a ideia. Esse foi o problema. – Ele ficou em silêncio por algum tempo, claramente debatendo algo internamente, até que ele voltou a falar. – Nós começamos a namorar no começo do ano passado. – Quando ergui as sobrancelhas, surpreso, ele sorriu. – Nós fomos bem discretos no começo, para não estragar, sabe? Não era para ser um namoro, acho, mas era tão fácil e bom ficar com ela e quanto mais tempo nós estávamos juntos, mais eu queria continuar. Ninguém sabia, nem mesmo os meus amigos no início... mas aí finalizamos o Mapa do Maroto e então foi difícil manter o segredo por muito tempo. Lily ficou tão chateada porque eu não tinha contado... – Ele se perdeu em memórias por alguns segundos. – Estava tudo bem, até que minha família descobriu. Não sei quem contou, talvez nós não tenhamos sido tão cautelosos quanto devíamos, qualquer uma das minhas primas poderia ter visto, só sei que eu voltei para casa nas férias e de repente eles sabiam.
- Isso foi um problema?
- Ah, não. Minha mãe ficou estática porque eu estava finalmente fazendo algo certo pela família. Ela me parabenizou, me tratou da forma mais gentil e carinhosa que você pode imaginar, quase como se fosse realmente uma mãe – Sirius respondeu, a voz enojada. – Por alguns dias eu achei que não teria problema, que eles até desencanassem de mim um pouco, mas então meus pais resolveram marcar um jantar com os McKinnon. Eles queriam celebrar um pacto de casamento.
- Pacto? Essa tradição sumiu há anos!
- Não para os Black. Todas as minhas primas tiveram um enquanto estavam em Hogwarts ainda... É claro que Andrômeda fugiu antes de fechar o dela, foi o maior drama na minha família, mas ela está bem melhor assim. – Um olhar sonhador surgiu no rosto dele. – Ela se casou com um cara nascido trouxa, sabia? Meus tios a cortaram da árvore da família, mas acho que ela não liga. Ela tem uma filhinha adorável e está longe da família Black, não vejo destino melhor.
Ele pareceu perdido em pensamentos, como se cogitasse essa vida para si mesmo.
- Então você não aceitou o pacto de casamento? – perguntei.
- Não, claro que não. Só que... eu poderia ter lidado com isso de forma melhor, mas como você já deve ter percebido, sutileza não é meu estilo – ele sorriu brevemente, sem humor. - Eu recusei no meio jantar, e minha mãe ficou furiosa, porque eu sou o "herdeiro da família", é esperado que eu carregue o nome e tenha filhos de sangue nobre – havia repulsa novamente em sua voz. – E Regulus resolveu se intrometer, dizendo que eu devia aceitar, que Marlene McKinnon era a melhor companhia que eu tive em todos os anos de Hogwarts, finalmente estava com alguém aceitável... E então o nome de Lily surgiu na conversa.
Sirius respirou fundo, olhando para além de mim, e havia chamas nos seus olhos.
- Meus pais nunca aprovaram minha amizade com Lily, é claro que não, e geralmente eu evito mencioná-la para não chamar a atenção deles para ela... Só que eu estava tão irritado que eles estavam se interferindo na minha vida, estavam criando política onde não havia e que eles estavam estragando o meu relacionamento com Marlene que eu explodi e falei... – Ele hesitou, e me perguntei se ele já tinha conversado desse assunto com alguém. – E então eu falei no meio do jantar que preferia mil vezes me casar com Lily Evans do que com qualquer bruxa sangue puro que existisse.
- Oh.
- É, foi ruim – Sirius murmurou. – Meus pais quase me expulsaram, eu quase saí de casa, mas para onde eu iria? Não nos falamos por semanas, me trancaram no quarto, me isolaram de tudo e todos. Mas a pior parte foi que os McKinnon estavam presentes e eu vi o rosto de Marlene no momento em que falei aquilo.
Olhei para Sirius, tentando desvendar o turbilhão de nuvens cinzentas que havia ali, mas não encontrei a resposta que eu procurava, então questionei, em voz baixa:
- Você estava falando sério? Sobre se casar...
Sirius riu, ainda sem humor.
- Eu te garanto que não penso em casamento com ninguém no atual momento, Tiago. Mas não importou muito. Quis explicar para Marlene, mas como se explica que você não quer continuar com alguém porque a ideia de se casar com ela é horrível? – Quando eu abri a boca para questioná-lo, ele acrescentou: – Eu não sei se é horrível, Tiago, eu só não quero ter que pensar no assunto agora e definitivamente não quero ser forçado a nada... E então voltei a sair com outras pessoas, sem consequências, sem me importar, até ter certeza de que meus pais jamais voltariam a propor um casamento para mim de novo.
Analisei-o, lembrando de como eu vira Sirius Black com outras garotas ao longo desse ano, daquela forma despreocupada dele. E então me lembrei de Marlene esperando por uma correspondência que nunca veio no Natal, e de Sirius a beijando há poucos dias, da expressão aflitiva e saudosa em seu rosto.
- Funcionou bem demais, não foi? – deduzi.
- Eu quis tanto afastar Marlene dos Black que consegui isso – ele concordou, amargurado. – Achei que ela tinha entendido que o problema não era ela, nunca foi ela, mas... Não tenho o que fazer. Não posso voltar ao que tínhamos antes. E Marlene parece tão chateada e brava comigo.
Encarei Sirius, mas ele parecia honesto; ele realmente não entendia qual era o problema. Para minha surpresa, me vi rindo da situação, e ele ficou irritado.
- Não, desculpe – pedi, me controlando. – É só que é tão óbvio qual foi o problema, Sirius.
- O que tem de óbvio?
- Marlene escuta você rejeitar um casamento com ela porque preferia muito mais se casar com Evans do que com ela e, no instante seguinte, você está saindo com outras garotas e... continuando com Lily Evans ao seu lado. Não é à toa que as coisas ficaram estranhas.
Sirius fez uma careta, como se o que eu falava não lhe fizesse o menor sentido.
- Mas... é Lily. Marlene sabe que eu nunca abandonaria Lily, ela é minha melhor amiga.
- Bem, você sabe que eu não sou a melhor pessoa para conselhos amorosos, mas você nunca negou sua amizade com Lily Evans. Enquanto isso, você rejeitou Marlene publicamente, e ninguém quer ficar escondido em um relacionamento.
Sirius ficou calado por um longo tempo.
- Acho que você está certo – ele disse finalmente. – Mas não sei como resolver. Não posso fazer nada sem que minha família queira interferir de novo.
- Você sempre pode fugir para minha casa – lembrei, e o meu comentário pareceu tranquilizá-lo de alguma forma. Ele sorriu, como se aquela não fosse uma má ideia.
Nós terminamos de almoçar em silêncio, mas não era um silêncio estranho. Sirius estava pensativo só, e eu não negaria que aquela conversa tinha me dado vários pensamentos também.
Eu não conseguia imaginar como seria fazer parte da família de Sirius. Meus pais, apesar de serem sangue puro, jamais tinham tido qualquer visão conservadora – eles nunca tentaram me instigar a manter o nome da família ou tiveram qualquer expectativa sobre minha vida, sobre o legado que eu deveria deixar. Eles me amavam do jeito que eu era, tinham orgulho de mim e realmente só queriam o melhor para mim – e pelo que eu começava a entender de Sirius, tudo nele era um problema para a família.
Pela primeira vez na vida, me vi tendo pena de Sirius Black.
Saímos juntos para a próxima aula, que era Feitiços. Talvez devêssemos ter combinado de nos separarmos, para disfarçar o fato de que estivéramos juntos durante todo o almoço, mas nenhum de nós realmente se lembrou disso até chegarmos próximo à sala de aula. Do seu lugar na fila, aguardando para entrar na sala de aula, Lily Evans ergueu as sobrancelhas aos nos ver juntos, mas além disso, não demonstrou qualquer outra reação a se virar para as amigas, nos ignorando.
Sirius franziu a testa ao fitar Evans e me fez parar, aguardando as pessoas entrarem na sala de aula recém-aberta, até ficarmos sozinhos no corredor.
- O que ela estava falando com Snape hoje? – ele perguntou, sem esconder a súbita irritação na voz.
Meu corpo ficou tenso; aquela cena de manhã havia sido muito estranha e eu não gostava de me lembrar daquilo.
- Ela só estava elogiando a poção dele – falei, numa voz neutra. – Não foi nada demais.
Mas o meu olhar encontrou o de Sirius e eu sabia que ele também tinha chegado à mesma conclusão sobre os motivos que levavam Evans a subitamente falar com Snape.
- Não gosto disso – Sirius reclamou. – Não quero que aconteça o mesmo que aconteceu com Mary.
- Severo jamais faria qualquer coisa com Lily – discuti imediatamente. – Ele...
E então me calei, porque havia limites que não se ultrapassavam, e eu não iria confessar a Sirius Black qual era o nível de adoração que Severo sentia por Evans.
Sirius só piscou, não parecendo se enganar pela minha fala interrompida, e me perguntei até onde ele entendia os sentimentos de Severo Snape por Evans.
- Só cuide para que não aconteça nada, ok? – ele pediu. – Posso estar irritado com Lily, mas não quero que ela se machuque.
Assenti, e ele me encarou um momento, como se extraísse minhas reais intenções – ou até onde minha fidelidade ia. O quer que ele tenha visto pareceu tranquilizá-lo, porque ele acenou e entramos juntos na sala.
Apesar de compartilharmos um dormitório, eu nunca havia tido muita convivência com Pedro Pettigrew nos últimos anos; enquanto Remo Lupin sempre fora simpático comigo, e Sirius Black saía do seu caminho para me importunar, não houvera interação com Pettigrew. Ele sempre estava na sombra dos amigos, sempre o primeiro e último a rir das piadas, mas jamais as fazendo, e minha opinião geral sempre fora que ele não se importava comigo o suficiente para me dar atenção. O mundo dele era formado pelo Marotos, e ele parecia satisfeito com aquilo; não havia espaço para outras pessoas.
Talvez pela completa ausência de proximidade entre nós, ele apenas escutou calado enquanto eu explicava todos os passos que seriam necessários para conseguirmos virar animagos.
O rosto dele estava pálido e, mais de uma vez, durante a explicação, me perguntei se ele estava realmente de acordo com se tornar um animago. Sirius me garantira que sim, que ele estivera empolgado com a ideia imediatamente ao ouvi-la, mas eu também tinha a consciência de que Sirius não queria desistir daquele projeto e não conseguiria ouvir um "não" nesse momento, ainda que Pettigrew estivesse disposto a lhe negar qualquer coisa – o que eu duvidava também.
Quando acabei de falar, Pettigrew continuou olhando para a página do livro que eu deixara aberta, com todas as fórmulas finais da magia diagramadas, que eu sabia serem magia extremamente avançada.
- Você está bem? – perguntei, à guisa de questionar se ele tinha alguma dúvida, que era minha pergunta original.
Ele me encarou. Seus olhos eram castanhos e aguados, como se ele estivesse prestes a chorar, mas sua voz estava normal quando ele falou.
- Sim.
Por alguma razão, aquilo não me convenceu.
- Mesmo? Eu sei que é muita informação para assimilar, é um feitiço bem complexo...
- Eu consigo – ele garantiu, num tom mais esganiçado agora, e imaginei que eu o tinha irritado. Aquela não era minha intenção.
- Eu sei que você consegue. Só quero que você entenda tudo que está em jogo. Sei que Sirius pode ser um tanto impositor se...
- Sirius não manda em mim – Pettigrew retrucou imediatamente, e então ele corou, como se percebesse o que tinha dito. – Quero dizer, eu não estou fazendo porque Sirius mandou, eu quero participar. É só que...
Ele se calou, inseguro, e resisti à vontade de abraçá-lo e lhe garantir que tudo ficaria bem. Eu sempre pensara em Pettigrew como alguém mais esperto do que se deixava mostrar, mas agora havia algo em Pedro Pettigrew que me dava vontade de protegê-lo de todos os males; me perguntei se era essa a razão pela qual os demais Marotos eram amigos dele.
- Você pode falar – incentivei, e quando meu olhar encontrou o dele, acrescentei numa voz baixa: - Não vou falar para Sirius.
Ele me fitou profundamente, como se tentasse decifrar se eu estava brincando com ele ou mentindo para ele. O que quer que ele tenha visto, Pettigrew pareceu se convencer, porque no instante seguinte ele abaixou a cabeça, envergonhado.
- Eu tenho medo – admitiu, como se confessasse um pecado mortal. – E se der errado? E se eu ficar preso como meio humano e meio animal? E se descobrirem? E se eu não conseguir? Não sou como Sirius e você, não sou bom em magia, vou ficar para trás, e vocês vão brilhar, é claro, e quem se importaria com um bruxo idiota que nem consegue...
- Ei – interrompi. – Você não é um bruxo idiota.
- As minhas notas...
- Notas não fazem ninguém um bruxo melhor. Você tem algo que nunca se vê em outras pessoas – dedicação, esforço e coragem.
- Mas se eu tenho medo...
- Medo é o que você sente, coragem é o que você faz – falei, replicando um dos ensinamentos mais antigos do meu pai. – E o que você está fazendo agora é encarando o medo e estando disposto a participar de algo extraordinário só para ajudar um amigo. Isso não é ser uma pessoa covarde.
Ele piscou.
- Você realmente acha isso?
Sorri.
- Sim, eu acho. E uma das primeiras coisas que eu e Sirius combinamos é que ninguém fica para trás. – Indiquei o livro. – Isso aqui é tão complexo para nós dois quanto deve ser para você. Mas nós vamos fazer por partes, com calma, e, principalmente, juntos. – Respirei fundo, sondando-o. – Mas está tudo bem por você? E eu quero dizer tudo bem mesmo. Sirius não vai pensar menos de você se você não quiser fazer parte.
Ele me lançou um olhar engraçado por um instante, como se eu estivesse errado, ou como se eu tivesse acertado demais sobre o que Sirius pensaria. Antes que eu pudesse entender, porém, um sorriso pequeno surgiu nos lábios dele, e sorri de volta.
Quando ele não estava me ignorando totalmente, havia algo em Pedro Pettigrew que era acolhedor.
- Eu estou dentro – ele garantiu. – Posso pegar o livro para estudar?
- Claro. E você acha que poderia me emprestar o Mapa do Maroto? – Quando ele abriu os olhos, surpreso, eu só dei de ombros. – Sirius me disse que você é o guardião do Mapa.
- Ele te contou sobre o Mapa do Maroto? – Pettigrew perguntou, surpreso.
- É. Eu vou guardar segredo, é claro... Algum problema?
Havia novamente a expressão estranha no rosto dele. Pettigrew pareceu perceber que franzia a testa, pois ele respirou fundo e sua expressão desanuviou facilmente.
- Nenhum problema se Sirius te contou – ele garantiu, numa voz tranquila. – É só que nós nunca tínhamos contado para ninguém de fora, sabe. – Ele me lançou um olhar especulativo. – Eu teria cuidado sobre falar disso para Lily ou Remo. Não acho que eles vão levar isso numa boa.
- Oh, claro. Não quero causar uma briga entre vocês.
Ele soltou uma breve risada, folheando o Manual de Animagia.
- Acho que é tarde para isso – e quando seu olhar encontrou o meu, ele ficou vermelho e sem graça. – Eu quis dizer por causa do passeio em Hogsmeade. Já que Sirius sumiu com você...
- Foi sem querer – respondi, incomodado com a suposição que ele havia feito. – Eu e ele nos empolgamos com esse "projeto", não foi planejado, nós só perdemos a hora.
- Claro, Tiago – ele garantiu rapidamente. – Eu sei que você não quis causar nada.
Mas me passou pela cabeça que eu não sabia se ele realmente acreditava nisso. Ou se ele estava certo. Eu tinha causado a briga entre Sirius e Lily?
De certa forma, sim, mas eu não me sentia culpado, não tinha feito de propósito e certamente não tinha previsto.
A verdade era que eu não tinha pensado em nada na hora – só naquela ideia maravilhosa que eu havia tido e como não era possível esperar para compartilhá-la, para torná-la real. E ao longo do dia, dos estudos, dos planejamentos e da conversa com Sirius, eu realmente havia me esquecido do aniversário de Lily.
Estranhamente, por tanto que eu a associava com Sirius Black na minha cabeça, e pelo tanto de tempo que eu havia ficado próximo a Sirius, meus pensamentos não tinham se concentrado em Lily Evans naquele dia.
- Eles vão fazer as pazes – Pettigrew acrescentou, interpretando errado meu rosto fechado. – Eles sempre fazem.
- Eles já brigaram antes? – questionei, curioso. Eu nunca havia reparado realmente qualquer brecha na amizade deles; mas até aí, até esse ano, os Marotos não estavam no topo da minha lista de prioridades.
Pettigrew ficou pensativo por alguns segundos.
- Nada sério e sempre pelo mesmo motivo. – Ele sorriu enviesado da curiosidade estampada no meu rosto. – A única coisa que causa briga entre eles é quando um está escondendo algo do outro. Então, quando Sirius contar sobre esse projeto de vocês, vai ficar tudo bem.
Desviei o olhar, achando que talvez a situação fosse mais complicada, mas sem querer expor isso exatamente. Antes de sair para vir encontra Pettigrew, eu vira Sirius conversando com Marlene; era uma conversa tranquila, os dois com uma distância razoável entre si para que ninguém suspeitasse de nada, mas eu imaginei que ele havia se posicionado de uma forma que Lily pudesse vê-lo antes de sair para o jantar dela com Slughorn.
Eles estavam se provocando, e me lembrei de Sirius falando que havia limites que não se ultrapassavam.
Meneei a cabeça para afastar esses pensamentos.
- Você é perspicaz – falei, impressionado. Ele pareceu satisfeito.
- Eu vejo coisas... e sou bom em guardar segredos. – Pettigrew retirou o Mapa do Maroto do bolso e me entregou. – É por isso que, de nós quatro, eu sou o guardião do Mapa. O Mapa é perigoso. Ele revela muito às vezes – ele acrescentou, me olhando de lado, e me perguntei quais segredos meus ele poderia saber de olhar no mapa.
Ou talvez eu estivesse exagerando. Pedro Pettigrew certamente tinha pessoas mais interessantes para acompanhar no Mapa do que eu. Certamente Sirius e Lily, por si só, deviam gerar mais entretenimento.
Só que Lily tem andado bastante com você, não é?
E então me ocorreu a lembrança de Sirius apontando os pontos colados no Mapa do Maroto, e de como era fácil assumir o que os pontos estariam fazendo. O pontinho de Tiago Potter deveria ter estado bem próximo do pontinho de Lily Evans, e se Pedro Pettigrew tinha visto isso – se ele tinha falado para alguém...
- O que você vai fazer com o Mapa? – ele perguntou. Encarei-o, me perguntando, o quanto Pettigrew saberia de mim e o quanto ele tinha contado para Sirius. Pedro pareceu interpretar errado mais uma vez o meu olhar, porque ele recuou, constrangido. – Você não precisa me falar, claro, eu só...
- Não tem problema – garanti, escapando das minhas divagações e querendo tranquilizá-lo. – Vou entrar na sala de poções hoje à noite, precisamos de alguns ingredientes que só tem no estoque particular do Slughorn, então eu vou, sabe, pegar emprestado sem intenção de devolver.
Pettigrew ergueu as sobrancelhas, surpreso.
- Você realmente é tão surpreendente quanto Lily sempre diz – ele comentou, sem notar como esse elogio me deixou subitamente aquecido. – Boa sorte.
- Com esse Mapa, não vou precisar – respondi, me levantando. Eu estava na saída da sala quando me virei para ele. Pettigrew estudava atentamente o Manual do Animago e essa cena me deu mais confiança. – Pedro? – chamei, numa voz suave. Ele se virou para mim. – O projeto não é meu e de Sirius. É de todos nós.
O sorriso que surgiu no rosto dele era reconfortante.
Havia uma música animada soando da sala de Slughorn quando me aproximei nas masmorras, são e salvo embaixo da Capa da Invisibilidade, analisando o Mapa do Maroto; diversos pontinhos andavam pela sala, mas o escritório dele estava, como esperado, vazio.
Entrei pela sala de aula; a porta de madeira rangeu irritantemente, e fiquei feliz porque a música alta abafava o som. A sala estava escura, cheia de sombras; desviei das mesas que eu conhecia, seguindo meu pontinho no Mapa do Maroto.
Eu estava tranquilo; invisível e sabendo quem estava por perto, não havia como eu ser pego jamais. Aquela combinação era perigosa e excitante; mais uma vez, a vontade de explorar Hogwarts me envolveu, mas eu tinha uma missão naquela noite.
Destranquei a porta do escritório com facilidade e me esgueirei para dentro, procurando o armário com o estoque particular do Slughorn. A Poção Inicial de Animagia precisava de ingredientes tão específicos que seria bem difícil ele reparar o sumiço, mas tomei cuidado para não mexer demais nos outros ingredientes nos armários – uma das recomendações de Sirius para reduzir as chances de descobrirem.
Depois de alguns minutos, encontrei os ingredientes que eu precisava e guardei-os no bolso. Saí da sala e ia trancar a porta do escritório quando as velas da masmorra se acenderam atrás de mim. Eu me virei, me xingando mentalmente por ter me esquecido completamente de confirmar no Mapa se ninguém estava se aproximando antes de sair.
Era Snape. Ele entrou cuidadosamente na Sala de Poções, olhando em volta, provavelmente estranhando porque a porta da masmorra estava aberta. Ele olhou na minha direção mais de uma vez, mas a Capa, como sempre, me manteve protegido.
Depois de alguns minutos, ele provavelmente decidiu que o professor só devia ter esquecido a porta aberta, porque ele relaxou e foi até uma mesa, começando a separar seu kit de poções e a acender o fogo sob seu caldeirão.
Para meu alívio, ele manteve a porta da masmorra aberta. Eu estava me dirigindo à saída quando lembrei de tomar o cuidado de conferir no Mapa do Maroto – havia um pontinho se aproximando da sala.
O nome de Lily Evans quase brilhava no pergaminho.
Por um instante louco, cogitei fechar a porta, para impedir aquele encontro – mas aí eu teria que me revelar demais, revelar a Capa, e sequer seria eficaz. Evans entraria na sala eventualmente.
E então eu precisaria explicar para Severo a razão pela qual havia tentado impedi-lo de encontrar Lily Evans.
Eu poderia sair ainda; seria fácil passar pela porta, desviar de Evans no corredor e voltar para o dormitório. Mas a voz de Sirius ecoou na minha cabeça, pedindo para não deixar nada acontecer com Evans, e sem que eu pudesse me controlar, parei no canto da masmorra, alerta.
Severo não reparou quando Evans entrou na sala. Ele estava concentrado, como sempre ficava, no preparo da poção, medindo os ingredientes que usaria. Evans fitou as costas dele por um momento, reconhecendo-o, e hesitou – pude vê-la lançando um olhar para a porta, considerando apenas sair – antes de avançar na masmorra.
- Olá? – ela chamou, fazendo com que Severo se virasse de repente. Quando seu olhar encontrou o dela, o tubo de vidro que ele segurava na mão caiu no chão, se despedaçando.
O som fez com que Severo pulasse. Ele corou, se abaixando para pegar os cacos de vidro, mas Evans o superou. Em passos largos, ela se materializou do lado dele, sacando a varinha e reparando o tubo.
Ele se ergueu, com uma expressão irritada no rosto, aceitando o tubo que ela oferecia.
- Desculpe – ela pediu, parecendo incerta diante da expressão dele. Severo piscou, surpreso.
- Não foi sua culpa... Quero dizer, não estou irritado com você, eu jamais... – ele respirou fundo, se controlando, deixando evidente que estava chateado consigo mesmo. – É só que eu nem pensei em consertar, foi tão...
- Trouxa – Evans completou por ele, e Severo recuou um passo, meneando a cabeça e fazendo com que seu cabelo balançasse ao lado do rosto.
- Não que isso seja problema – Severo garantiu rapidamente, quase em pânico, como se temesse tê-la ofendido.
Evans o encarou por alguns segundos antes de acenar com a cabeça.
- Eu entendo. Às vezes esqueço que magia resolve quase tudo. Principalmente nos primeiros dias depois das férias, fico tão concentrada em evitar feitiços em casa que levo um tempo para me acostumar quando volto.
Ele assentiu, parecendo compreender.
- Eu sou o contrário. Piso no Expresso de Hogwarts e estou tentando fazer todas as mágicas possíveis para compensar. Odeio não poder fazer nada fora de Hogwarts.
- Eu também – ela respondeu, e por um instante os dois se entreolharam, como se compartilhando a saudade que sentiam da magia quando estavam de volta à sua vida no mundo trouxa. Então, Evans desviou o olhar, parecendo perceber a estranheza de dividir uma empatia com Snape. – Ah, eu preciso...
Ela indicou o escritório de Slughorn. Severo acenou, seu rosto mais pálido que o normal na luz das velas da sala. Ele voltou a olhar para a sua poção, mas assim que ela se afastou, o olhar dele voltou a segui-la, com aquela expressão tristemente apaixonada que ele sempre lhe reservava. Evans não reparou; ela tinha tirado uma chave do bolso, mas a porta do escritório de Slughorn não estava fechada, claro. Ela hesitou e se virou para Severo, que abaixou os olhos rapidamente, como se não quisesse ser pego fitando-a.
- Você entrou no escritório? – ela questionou, e me perguntei se havia um tom acusador em sua voz ou se eu estava imaginando.
- Não – Severo respondeu apressadamente. – A porta da masmorra já estava aberta também quando cheguei, talvez alguém tenha vindo antes.
- Hum... – Evans olhou ao redor, mas ela não via mais ninguém além dos dois. – Talvez Horácio tenha esquecido então. Ele é distraído às vezes.
Evans sorriu com carinho, como se estivesse falando de um tio; ela sempre fora próxima a Slughorn. Severo suspirou baixinho enquanto a fitava, quase como se o carinho dela fosse dirigido a ele, e não ao professor.
E então Lily deu de ombros, entrou no escritório e sumiu lá dentro por alguns minutos.
Snape voltou a cortar os ingredientes da sua poção, mas eu sabia que ele estava concentrado em ouvi-la; quando Evans saiu, carregando um pequeno barril de hidromel envelhecido, a faca escorregou da mão dele e ele quase se cortou.
Evans abraçou a garrafa e seu olhar se dirigiu à saída, próximo a onde eu estava, como se estivesse considerando novamente uma fuga. Mas ela só respirou fundo, como se tomasse uma decisão, e se dirigiu novamente à mesa onde Snape estava.
Severo fingiu ignorá-la até que ela estava à sua frente e então ele ergueu a cabeça. Havia um brilho extra nos seus olhos negros ao fitá-la, apreciando-a, e dessa vez eu não poderia repreendê-lo. Provavelmente por causa do jantar, Evans estava em um daqueles dias em que ela tinha se arrumado com esmero, dispensando as vestes do uniforme para umas mais formais, e tinha se maquiado; ela estava linda, com os lábios vermelhos e os olhos esfumaçados de uma forma que ressaltavam o verde neles.
E o ponto fraco de Severo sempre fora aqueles olhos verdes.
- Você está preparando uma poção nova? – ela perguntou, cautelosa; a resposta deveria ser óbvia para os dois, mas entendi o que ela estava fazendo: estava dando a ele a chance de ignorar a pergunta, de respeitar que eles eram de Casas diferentes, que jamais haviam tido contato nos últimos cinco anos.
O que só demonstrava que Evans não conhecia nada sobre Severo Snape. Em nenhum universo ele deixaria de lhe dar atenção.
- Estou testando venenos – ele respondeu animado, e então piscou como se percebesse o que tinha falado. – Quero dizer, não venenos exatamente, estou testando os antídotos, para ver o que funciona ou não. O Prof. Slughorn me deixa usar a sala à noite às vezes; eu gosto de experimentar, e assim não incomodo ninguém e não tem chance de acontecer qualquer acidente. Uma vez a poção explodiu e o teto quase desabou, ficou uma nuvem de fumaça roxa...
Ele se calou, ciente de que estava balbuciando, mas Evans estava distraída com os frascos de poção que ele havia separado. Novamente, ele fitou o rosto dela com adoração, sua mão tremendo como se ele estivesse lutando com a tentação de tocá-la.
- Antídotos são bem importantes. Você tentou usar essência de murtisco para os venenos que causam hemorragia?
Severo ergueu as sobrancelhas, surpreso, seu rosto perdendo momentaneamente a expressão sonhadora.
- Não! Mas é claro, não sei como não pensei nisso antes, murtisco tem efeitos curativos – ele abriu o livro ao seu lado, que reconheci como o presente de Natal que eu o havia dado, e rabiscou algo em uma das páginas. Quando ele ergueu os olhos, viu Evans olhando curiosa para o livro. – Estou fazendo anotações aqui para não esquecer.
- Eu faço isso também – ela disse, e os olhos dele brilharam com a coincidência. – Não esqueça de anotar para pegar um bezoar, serviria para todos os venenos que você separou aqui – Evans acrescentou, num tom maroto, mas Severo registrou fielmente o que ela havia dito. Evans sorriu, achando graça, mas quando voltou a falar sua voz era cuidadosa. – Eu também gosto de testar e criar poções. É relaxante, porque...
- Faz sentido – Severo disse, ao mesmo tempo que ela. Isso fez ele corar e abaixar a cabeça, para evitar encará-la. – Quero dizer, mesclar os ingredientes, mexer o caldeirão, controlar o fogo, se você faz igual é sempre o mesmo resultado.
- É o que me relaxa. Gosto da estabilidade, da lógica, da química que faz as reações serem sempre as mesmas. – Uma porta bateu ao longe e Evans suspirou. – Preciso ir, Horácio está esperando esse hidromel. – Ela olhou dele para o caldeirão, mordendo os lábios. – É uma pena, eu gostaria de conversar mais sobre os antídotos.
Ela não tinha o rosto erguido para reparar como o rosto de Severo se iluminou com esse comentário.
- Eu estou sempre aqui – ele disse rapidamente. – Se você quiser praticar comigo... quero dizer não comigo, mas a sala é aberta, tenho certeza de que Slughorn não se importaria.
- Eu já uso uma sala antiga de poções no quinto andar para praticar – Evans respondeu, ao que ele pareceu diminuir de tamanho.
- Oh, não sabia de outra sala.
Evans pareceu surpresa.
- Não? É a que eu e Tiago usamos, achei que ele tinha mencionado.
Uma breve irritação surgiu no rosto dele antes de Severo voltar a falar, numa voz suave.
- Talvez eu só não tenha prestado atenção. Mas se você quiser saber mais, tenho algumas notas que eu poderia dividir.
- Eu adoraria – Evans sorriu, só um pouco cautelosa. – Tiago fala muito bem de você. – A surpresa piscou nos olhos dele. Evans desviou o olhar para a porta. - Preciso mesmo ir. Boa sorte com os antídotos, Snape. – Ela sorriu, partindo.
- Obrigado, Evans – ele respondeu, atrasado. Por um longo tempo, ele ficou fitando a porta por onde ela tinha saído, com uma expressão no rosto mais apropriada para quem tinha sido atingido por um raio – e estava feliz com isso.
Quando ele finalmente se voltou para o seu caldeirão, fumegante e com o conteúdo provavelmente queimado, eu me esgueirei para fora.
Na manhã seguinte, quando nos encontramos na aula de Trato das Criaturas Mágicas, ele ainda tinha um sorriso sonhador nos lábios, mas quando lhe questionei sobre isso, Severo só deu de ombros, sem dizer uma palavra sobre Evans.
No próximo capítulo: Lily divide um problema com Tiago. Sirius apresenta Tiago ao seu modo infalível para lidar com estresse.
N.A.: Olá! Se você está lendo e curtindo, manda uma review com seus pensamentos! :)
