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Falha na proteção: O sistema foi comprometido
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Ao abrir os olhos, Sakura se deparou com uma clavícula bastante especifica. Piscou repetidamente por algum momento até perceber que estava bem segura dentro de dois braços que não pareciam ter relaxado nenhum pouco durante a noite, ainda que a pessoa que a abraçava tão firmemente estivesse inclusive ressonando.
Sem ter folgado seu abraço em momento algum, Kakashi dormia com a boca entreaberta produzindo um ruído baixo de quem estava num sono profundo. Era a primeira vez que Sakura viu Kakashi quase roncar, ainda que não fosse alto ou espalhafatoso. Ela riu brevemente tentando não se mexer muito, mas qualquer movimento mínimo que fazia poderia acordá-lo.
Bem, de alguma forma ela tinha que fazê-lo, porque estava com vontade de ir ao banheiro, mas acordar com aquele homem lhe abraçando daquela maneira, mesmo que estivesse completamente absorto pelo seu sono, a fazia querer ficar quietinha apreciando a sensação morna de seus corpos bem juntos.
Na madrugada, Kakashi e Sakura deram um novo passo em sua relação. Kakashi tinha decidido ficar e Sakura tinha decidido confiar, algo que ela não seria capaz em outro momento, mas que agora parecia incrivelmente libertador. O ato de confiar em Kakashi era muito mais simbólico do que qualquer outra coisa em si, e ter percebido que o homem estava de fato dentro daquele relacionamento a fazia ter mais certeza de como tudo seria a partir daquele ponto.
O futuro era completamente incerto e ela não sabia como seriam seus dias dali para frente, porque sua rotina teria que mudar, e sabia que Tsunade tomaria suas próprias providencias quanto a toda situação que se instaurava, mas ainda assim sentia que podia confiar que Kakashi suportaria tudo isso com ela. Haveriam dias muitos ruins, ela sabia, mas de alguma forma quando se imaginava junto a ele tais dias pareciam ficar um tanto mais fáceis.
Se mexeu brevemente sentindo o corpo mole. Não queria sair daquele abraço, é claro, mas sequer sabia que horas eram e sua bexiga estava no limite. Kakashi folgou seu abraço o suficiente para que a moça escapulisse sem muito cuidado, se arrastando pra fora da cama com certa preguiça. Ele a olhou com suas pálpebras pesadas enquanto Sakura sumia pela porta lateral que levava ao banheiro. Fechou os olhos novamente sentindo-se tão cansado.
Houvera tanta tensão na madrugada anterior que mesmo o banho antes de dormir não havia sido suficiente para relaxá-lo. Piscou preguiçosamente sentindo que queria dormir o dia todo, mas era incapaz de pregar o olho devidamente se Sakura não voltasse para a cama. Era como ele se sentia. Como se não pudesse descansar sem garantir que ela estivesse completamente a salvo.
Foi quando ela voltou para a cama, se enfiando novamente debaixo do cobertor. O homem a abraçou sem dar nenhuma chance para ela deitar distante dele, e Sakura prontamente se permitiu aconchegar-se em seus braços fortes e convidativos. Aspirou o aroma de cama e sabonete que Kakashi emitia, o que significava que não tinham dormido tanto tempo assim.
— A gente precisa levantar – Ela resmungou contra a pele do pescoço dele, preguiçosamente. Tinha aproveitado sua ida ao banheiro, lavado o rosto, escovado os dentes... Mas ainda sentia que poderia dormir um pouco mais, principalmente com um Kakashi tão preguiçoso lhe mantendo aquecida.
— Certo – Ele respondeu sem sequer se mexer. Sakura riu brevemente, porque Kakashi tinha esse nível de cinismo quando não queria fazer algo, a ponto de confirmar plenamente e sequer mexer-se para mudar alguma coisa.
— Não estamos na sua casa, nem no meu apartamento – Sakura lembrou se mexendo um pouco para colocar uma mão no rosto masculino, sentindo a barba por nascer espetar-lhe os dedos. — E você precisa se barbear.
— Não gosta de homens com barba? – Ele perguntou desviando completamente do assunto principal, ainda com olhos fechados e uma voz preguiçosa.
— Adoraria ver você com uma barba algum dia, mas as normas da faculdade dizem que os professores não podem ter barba. – Ela ressaltou dando os ombros, porque sim, não apenas as escolas, mas também as universidades tinham códigos rígidos sobre aparência e conduta.
Kakashi deu os ombros.
— Se você quiser eu deixo crescer.
Foi a resposta dele, obviamente tão cínico com o regimento da universidade que faria qualquer um se perguntar se ele queria mesmo manter aquele emprego. Sakura apenas riu, porque ele era tão bobo com aquela simplicidade direta e sem conseguir se segurar, a moça se empertigou apenas para encostar seus lábios nos dele num beijo pequeno e discreto, afinal apenas ela tinha escovado os dentes ali.
E como se fosse a Princesa Aurora, Kakashi precisava de um beijo para finalmente despertar de seu estado letárgico, abrindo seus olhos languidos com aquela suavidade que apenas ele detinha enquanto o sorriso largo se espalhava pelo seu rosto perfeito.
— Bom dia – Ela disse com um sorriso, vendo-o assentir com a cabeça brevemente antes de se espreguiçar ainda deitado, esticando os braços para frente com um longo ruído característico.
— Bom dia! – Respondeu um pouco mais energético, olhando para ela com bom-humor matinal que sempre tinha. — Que horas são, meu amor?
— Eu não faço ideia. – Revelou com um dar de ombros minúsculo — Talvez seis.
Kakashi pareceu considerar aquela informação e apenas pulou para fora da cama pedindo um minuto. Sumiu pela porta indo ao banheiro, apenas para voltar um minuto depois com aquela expressão sacana no rosto, deitando em cima dela para beijá-la de maneira devida. Sakura apenas conseguia rir, e era como se todos os eventos da noite anterior fossem tão distantes e insignificantes.
Seu namorado ainda era a mesma pessoa, agindo daquele jeito tão leve, como se não se importasse de maneira alguma em estar dormindo com alguém que passou tanto tempo se sujeitando a alguém tão inescrupuloso, que inclusive tinha vazado na net com sextape de baixa qualidade. Ele não se importava se ela era uma camgirl, ou se tinha se envolvido com alguém tão complicada quanto ela.
Era como se ele apenas visse a pessoa que ela tinha lutado para se tornar. Aos olhos dele, Sakura era apenas uma mulher com uma história triste, mas que não a definia em nenhum aspecto, e com aqueles olhos negros cheios de amor, Sakura sentia que poderia simplesmente confiar que ele a veria assim para sempre.
Em meio às piadas e provocações habituais, Kakashi a beijava aqui e ali, soltando um bocejo intercalado porque era visível que estava com tanto sono. Era uma segunda e Sakura já tinha decidido que seu único compromisso do dia seria seu treino com Sai e Netflix, mas Kakashi era professor e ela sabia que no período da manhã ele tinha que ministrar aula.
Teve que lembrá-lo disso, rindo da careta que ele fez enquanto considerava seriamente faltar naquele dia. Fora Sakura quem teve que insistir para que fosse, ainda que a primeira aula fosse ser claramente perdida. Kakashi a beijou novamente como se quisesse mudar de assunto, e honestamente, Sakura não queria realmente que ele fosse, por isso se deixou levar pela língua delgada que iniciava seus movimentos tão suaves dentro de sua boca.
Era um daqueles beijos matinais, super preguiçosos e cheios de tesão, algo que apenas Kakashi conseguia misturar com maestria, mas que não perduraria muito, afinal não estavam em casa.
— Sakura-sama, o café da manh~-
Pararam o que estavam fazendo apenas para olharem na direção da porta, vendo uma mulher de cabelos negros presos num coque ficar tão vermelha quanto um tomate no auge de sua cor. Ela pigarreou antes de se curvar em uma óbvia desculpa e sair correndo como quem tivesse acabado de ver algo que definitivamente não devia.
Começaram a rir com a repentina interrupção da empregada da casa, e apesar da breve vermelhidão no rosto de Kakashi, o homem voltou a beijá-la completamente focado em não desperdiçar o momento. Era uma manhã leve apesar da confusão de antes, e não era como se tivessem esquecido do mundo lá fora, mas naquele momento era muito mais fácil estar no mundo que era apenas dele, sem que nada mais importasse.
Eles tomaram mais algum breve tempo para si mesmos, deixando seus corpos fluírem através dos sentimentos mornos da manhã, divagando entre a preguiça sonolenta e os beijos cálidos que os mantinham ativos, e Sakura pensou que podia passar a manhã daquela maneira, entre cochilos e amassos, quando de repente ouviu uma voz autoritária se fazer presente depois do som oco da porta se abrindo.
— Sakura!
Com um movimento rápido, a mulher apenas jogou Kakashi para o lado, tirando-o completamente se cima de si enquanto erguia seu tronco. Estava sentada na cama com um homem completamente confuso ao seu lado, se perguntando onde ela tinha arrumado tanta força para lhe jogar daquela maneira.
— Tsunade-sama! – A moça respondeu passando uma mão no cabelo, como quem tenta parecer apresentável. Sua postura era exemplar, tal um cadete frente à um general.
Kakashi deu uma breve olhadela na situação. Sakura estava estática enquanto uma mulher loira olhava para ela depois de franzir o cenho para o homem no local. Parecia levemente irritada, com as mãos na cintura e a expressão severa.
— Você e seu acompanhante têm 20 minutos para se arrumarem e descerem. – Disse de uma vez — Isso aqui não é hotel e temos horário para as refeições!
— Hai, Tsunade-sama! – Sakura respondeu para a porta, porque a mulher apenas se virou e fez seu caminho para qualquer lugar que estivessem indo.
Sakura praguejou enquanto pulava para fora da cama dizendo tantas coisas desconexas a Kakashi que não fazia a mínima ideia do que fazer. Ele ainda se sentia limpo do banho que tomara, mas queria tomar um outro banho, só pra despertar, mas Sakura tinha sido enfática quando jogou a bolsa que tinha preparado na noite anterior com roupas diversas dele.
Obviamente ela só tinha pegado roupas aleatórias e jogado ali. Tudo estava amassado e nada combinava exatamente, e a situação piorava quando ele lembrava que teria que correr para a universidade, porque já eram sete e vinte. Sua sorte é que a aula começava apenas às nove e dez.
Mas, hey! Aquela era Senju Tsunade.
E ele não havia processado ou se atido nessa informação no relato da noite anterior, mas com todo esse rebuliço de aqui não é hotel, Kakashi deixava a ficha cair de maneira muito categórica. Tsunade era basicamente sua chefe, e ele não tinha ido a uma reunião sequer do colegiado, além de seus atrasos e... Céus...
Como se não bastasse, aquela mulher era também a responsável legal de Sakura no Japão, e mesmo que a moça já tivesse idade para responder legalmente por si mesma, era muito óbvio que Tsunade era uma figura de autoridade em sua vida, e naquele momento, enquanto andava pelos corredores numa camisa azul marinho com cara de antiga, Kakashi percebia que aquilo tudo era quase como conhecer seus sogros.
...
Deu uma olhadela em Sakura que andava como se estivesse pronta para uma guerra. Peito inflado, expressão concentrada... Ele queria dar um jeito de fotografá-la escondido, mas escolheu apenas guardar aquela imagem na sua memória ao mesmo tempo que tentava não entrar em pânico, afinal de contas, toda situação era bastante atípica, e tal distinta senhora com certeza entenderia os motivos dele ter dormido em sua casa e estar prestes a faltar um dia de trabalho.
Não é?
Sakura virou-se para olhá-lo por um momento quase como se tivesse percebido sua presença naquele instante. Ela sorriu transmitindo certa calma, mas diante de sua postura tão dura, ele sentia que deveria se preparar para o pior, mesmo assim apenas levantou seu polegar sinalizando para Sakura que estava tudo bem. Ela não precisava entrar em pânico também, né?
Entraram na sala de jantar, onde uma mesa enorme de vidro pairava central, com cadeiras de design moderno em tons de prata e chumbo. Havia uma luminária e quadros que abusavam de pinturas modernistas, com uma versão de O Beijo estampada bem atrás da mulher de olhos cor-de-mel, que sequer os olhou enquanto Sakura ocupava uma cadeira bem ao lado dela, indicando que Kakashi se sentasse ao seu lado.
A surpresa daquela manhã? Yamanka Ino sentada na frente de Sakura, bebericando uma xicara de café com um croissant bem a sua frente.
— Bom dia! – A loira de olhos azuis cumprimentou o casal logo após colocar a xícara na mesa — Como você está se sentindo, Sakura? – Perguntou diretamente e sem nenhum rodeio.
— B-bem... – A outra respondeu e Kakashi nunca a viu gaguejar para responder nada a Ino, aparentemente não queria se aprofundar naquela questão. — O que você tá fazendo aqui?
— Ela veio me deixar a par da situação – Tsunade se fez presente enquanto pegava um pão disposto numa cesta.
Sakura olhou confusa para Ino que encolheu os ombros, meio que pedindo desculpas. Kakashi ainda não sabia direito o que estava fazendo ali ou que iria acontecer. Ino parecia estar hesitante enquanto trocava aquele olhar com uma Sakura claramente confusa, e a ele só restava esperar enquanto tomava um café bem forte.
— Shikamaru já iniciou as buscas e dessa vez não vamos envolver a polícia – Ino relatava depois de um momento — Shikamaru tem seus motivos e a Transportadora Haruno já é grande o suficiente para que, caso um escândalo como esse venha à tona, seus pais percam alguns investidores – Ela falava de maneira assertiva enquanto Sakura apenas a olhava de maneira séria.
Kakashi passou uma mão por debaixo da mesa para segurar a dela, que tensa, aceitava o gesto retribuindo com um leve aperto. Tsunade pareceu perceber, mas se resignou ao seu suco de limão enquanto Ino continuava. No final, o homem não queria parecer um bajulador, mas diante da conversa não restava a menor duvida de que deveria fazer o que trouxesse mais conforto a Sakura, ainda que fosse apenas um ofertar de mão.
— Além disso a polícia não fez absolutamente nada no passado, além de atrapalhar – A loira bufava passando a mão nos cabelos, alheia à movimentação — E falando em atrapalhar, solicitei as imagens das câmeras do seu prédio e descobri que eles ligam em dias alternados para economizar energia.
— Deixa eu adivinhar... – Sakura disse com um suspiro — Ontem estavam desligadas.
— Exatamente. – A outra respondeu antes de bebericar mais de seu café — Eu já falei com o Chouji, então a Advocacia Akimichi vai tomar conta do caso. Aquele síndico vai entender que com segurança não se economiza. – A mulher falava num tom calmo e ameaçador, fazendo Kakashi perceber o quanto poder aquela pós-adolescente tinha nas mãos. — Shikamaru também vai descobrir como diabos ele entrou no seu apartamento sem passar pela guarita.
— E vamos vender seu apartamento.
Sakura girou o rosto na direção de Tsunade com certo espanto, perguntou porque de uma forma bastante enfática, com sua voz mais aguda em um claro tom de indignação. Era sua casa afinal, tudo bem que Ino tomasse conta de todo o resto, mas a venda de seu apartamento era algo que deveria ter sido, no mínimo, negociado com Sakura, e não uma ordem súbita resultante de uma conversa prévia entre Ino e Tsunade.
Porque ficava muito óbvio que as duas tinham tricotado a manhã toda.
— Não quero discutir isso. Seu apartamento foi comprometido, a segurança é fraca e mesmo quando essa situação com Akasuna Sasori se resolver, eu não vou permitir que você continue morando num lugar inadequado como aquele. – A mulher falou daquele jeito autoritário sem se importar com a expressão de Sakura — Inclusive já mandei pegar suas coisas.
— Mas, Tsunade-sama!
— Sem mas, Sakura. – Disse interrompendo qualquer que fosse a reclamação da mulher — Você vai morar aqui enquanto essa situação perdurar, e mais, quero você sempre às dez horas em casa. Sem saídas noturnas. A localização do celular deve sempre estar ligada também em sincronia com meu celular.
— O que!? – Sakura exclamava num claro tom de surpresa e indignação — Vocês vão me tratar como se eu tivesse 13 anos? – Disse perplexa — Vão contratar uma babá também?
Tsunade se mantinha completamente blindada às reclamações de Sakura. Sua expressão não se alterou em nenhum momento enquanto falava tais coisas tomando seu suco e beliscando um pouco de tudo o que havia na mesa. No entanto, Ino parecia estar devendo. Afundada na cadeira em silêncio, com uma expressão desconfiada, como se esperasse se passar despercebida diante o olhar de revolta da amiga, que era pega de surpresa em quase todas as regras.
Sim, ela esperava que fosse habitar a casa de Tsunade durante o período que Sasori estaria em alerta, e tudo bem ser rastreada pelo GPS do celular, até lhe trazia mais segurança de que poderia transitar por aí, mas toque de recolher? Venda de apartamento? Limites na sua vida noturna?
— Já que você tocou no assunto – Tsunade recomeçou, dessa vez apoiando seus cotovelos na mesa, entrelaçando os dedos das mãos num gesto que parecia muito natural de si — Conheça seu segurança particular, Maito Gai.
— O QUÊ? – Ela praticamente gritou, soltando a mão de Kakashi para se levantar em pura indignação. — Isso é um exagero! – Declarou olhando para Tsunade em um claro conflito.
Kakashi olhou para Gai com surpresa. Outra surpresa matinal. Não o cumprimentou desde que Gai estava no modo profissional, com aquele rosto sério e meio zangado, totalmente diferente do Gai-palhaço que lhe desafiava a fazer qualquer coisa idiota. O Gai-segurança era um homem sóbrio que não manifestava muitas reações além do que era esperado a alguém que estar servindo como uma sombra protetora para outra pessoa.
Olhou para Sakura sem saber se ela o havia reconhecido enquanto Tsunade usava seu tom habitual para dizer a moça que a opinião dela fazia pouca diferença naquele caso e que era melhor aceitar as mudanças breves de sua vida.
Mas falar assim com Sakura ou qualquer outra pessoa a coisa mais empática a se fazer.
— Sem ofensas, Gai – A mulher disse antes de começar seu discurso e naquela hora Kakashi soube que ela o havia reconhecido — Mas eu não preciso de uma sombra existindo em todos os lugares que eu vou! Na verdade, eu já to tentando me livrar de uma! Babá e toque de recolher? Céus! Vocês vão regular o tempo que eu passo vendo TV também?
— Sakura, só queremos que você fique bem – Ino disse com um semblante temeroso. A voz assertiva dando lugar a um tom cuidadoso e angustiado. Não era como se Ino quisesse que tudo aquilo acontecesse, e tudo bem que achava algumas coisas exageradas, mas no final das contas era melhor pecar pelo exagero.
— Como? Me enclausurando dentro de casa, regulando meus horários, colocando alguém pra me monitorar? – Dizia tudo com sua voz transbordando naquela raiva repentina — Sabe quem fazia isso para me deixar bem? – Perguntou agressiva, parecendo um pássaro acuado sem opção além de atacar – Sasori! – Declarou fazendo Ino assumir uma expressão de choque.
Elas se olharam por apenas um instante enquanto a loira vacilava em seu olhar. Sério? Sasori? Kakashi não saberia dizer, mas aquilo pareceu acertar Ino em cheio.
— Chega! – Tsunade disse de maneira imperativa — Se você não quer seguir minhas regras, então é só fazer a mala que consigo um voo para Coréia ainda para esta manhã. Não vou ficar aqui com uma mulher de 22 anos que age como se tivesse 13. Ou você entende a gravidade da situação e aceita, ou vá pra Coréia e resolva com seus pais.
O ar pesava toneladas enquanto o silêncio pairava cruel naquela sala. Sakura olhava Tsunade como se estivesse sendo traída ao passo que Ino apenas mantinha sua expressão meio ferida, meio hesitante, mas completamente resignada a tudo que havia sido dito.
No fundo, Kakashi estava totalmente de acordo com tudo que fora dito por Tsunade. Tudo bem, tinham coisas que soavam como um baita exagero, mas se fosse manter Sakura a salvo, então ele não tinha ressalvas. Sasori parecia uma pessoa extremamente perigosa e com contatos preocupantes, além disso conseguiu invadir o apartamento dela para revelar-se ser um stalker de primeira.
Mas ele também achava que todo mundo estava um tanto alterado. Tsunade parecia estar de ressaca e sem saco para qualquer drama, o que resultava em uma conversa muito pouco empática com a vitima de toda essa situação, que se sentia cada vez mais acuada e sem ninguém que a apoiasse. Tudo que Sakura precisava naquela manhã era de conforto, mas as duas loiras presentes eram claramente mulheres de ação, e para que elas se sentissem confortáveis, medidas precisavam ser aplicadas.
A mulher de cabelos rosas levanto abruptamente, jogando a cadeira para trás com um ruido enquanto pisava forte saindo do ressinto, como se ficar ali fosse fazê-la estourar. Gai continuou parado próximo a mesa e sua expressão era tão neutra que parecia não ter ouvido nada. Tsunade soltou um longo suspiro, apoiando a cabeça na mão enquanto Ino o olhava com um claro pedido em seu semblante.
Mas ela não precisava pedir aquilo.
Kakashi se levantou pedindo licença. Viu Tsunade o olhar com certeza curiosidade, mas não se importou. Deu às costas de maneira tão natural enquanto seguia um tanto incerto, sem saber exatamente onde Sakura estaria, e cedendo aos seus instintos para encontrá-la rapidamente dentro de um salão amplo com um piano de calda branco chamando completa atenção sob o tapete chique que decorava o recinto.
Ele sabia que era um pensamento ridículo, mas ela realmente parecia uma criança com os braços cruzados e aquele bico nos lábios, olhando pela janela para uma área com piscina lá fora. Kakashi se aproximou sem pressa, pigarreando quando só restava três passos para alcançá-la, que o olhou de soslaio antes de simplesmente revirar os olhos com qualquer pensamento que estava tendo.
Irritada, ela apenas se manteve resignada enquanto Kakashi se posicionava ao lado dela, olhando além da janela assim como ela. Várias coisas poderiam ser ditar naquele momento, mas o homem achava que a primeira pessoa a dizer qualquer coisa deveria ser Sakura, afinal era isso que tinham tirado dela durante aquele café caótico no qual tinha participado.
— Desculpe pelo show – Disse um pouco emburrada, com uma voz que não parecia realmente se desculpar.
Kakashi deu os ombros.
— Senju Tsunade faz jus à fama que tem – Respondeu sem dar muita importância, não era como se Sakura tivesse mesmo que explicar ou desculpar-se por qualquer coisa que tivera acontecido.
— Humpf. – A outra bufou irritadiça — É inacreditável! É como se as duas tivessem combinado um boicote contra mim – Confessava sem olhá-lo, vendo qualquer coisa além da janela enquanto seus pensamentos borbulhavam. — Prisão domiciliar ou Coréia, a escolha é sua! – Disse com um visível deboche na voz.
Era ridículo.
Estava encurralada como se suas únicas opções fossem aceitar o seu fatídico destino. Sua vida, novamente, saia das suas mãos e o controle de tudo estava com Ino e Tsunae. Não tinha raiva dela porque no fundo sabia que tudo tinha sido feito para que ela pudesse ficar segura e a investigação correr sem problemas, mesmo assim, custava discutir tais medidas com a parte mais interessada? Porque ela não podia opinar sobre a própria vida?
— Vamos fugir.
A voz de Kakashi se fez presente daquele jeito calmo, como se fosse uma manhã qualquer e ele tivesse acabado de ter uma ideia aleatória, como tomar sorvete num local específico. Sakura girou a cabeça, direcionando seu olhar no rosto do homem com surpresa. Ele fazia ideia do que estava propondo? Fazia ideia do significado daquelas palavras?
— O quê? – Ela perguntou ainda olhando para o homem que apenas olhava para algo além da janela sem nenhum interesse específico enquanto içava o celular de dentro do bolso da calça.
— Escolha um lugar – Ele continuou dando alguns cliques na tela daquela maneira serena de sempre — Eu voto na Austrália. Sempre quis ir lá, mas talvez possamos ir à algum lugar mais romântico... Que tal Paris?
Sakura não conseguia desviar o olhar dele. Era sério? O jeito com que ele falava, a postura relaxada, sua voz tão certa quanto sempre foi. Kakashi era um homem que pouco brincava em suas palavras e por isso era difícil reconhecer alguns tipos de brincadeira.
Se ela aceitasse, ele recuaria?
Riu nervosa.
— Você tá louco? – Ela disse tentando parecer natural — E o seu trabalho? – Perguntou porque precisava sondar antes de responder, precisava ter certeza.
Afinal, Sakura nunca havia fugido de nada em toda sua vida.
Mesmo de Sasori, mesmo do caos que viveu, Sakura nunca fugiu. Na verdade, pensar nessa possibilidade era até inusitado, afinal parecia de alguma forma algo tão irreal. Sonhou com uma fuga de Sasori por dias e dias, e essa pequena esperança de que ele vacilasse em algum momento era dolorosa, porque envolvia espera e atenção às oportunidades que nunca chegavam.
Sakura nunca fugiu porque nunca teve a oportunidade.
Mesmo quando descobriu, pela boca de Sasuke, que ele era gay, Sakura permaneceu frente a ele com seu coração partido, mas não correu. Quando quebrou aquele jarro da sua mãe, Sakura não tentou se safar, ela apenas assumiu seu erro e aguentou o sermão assustador. Nem mesmo quando se afastou de Ino, Sakura nunca escondeu que aquilo tinha sido culpa sua, nunca tentou fugir da culpa.
Mas ali estava sua primeira oportunidade de fuga. Kakashi era a primeira pessoa que a oferecia isso.
E ela não sabia como se sentia.
— Peço uma licença, digo a Genma pra cuidar dos cachorros – Ele deu os ombros, mostrando para ela a tela do celular naquele site de passagens — Tem um voo para a Nova Zelândia saindo em três horas, o suficiente para pegarmos nossos documentos e partir.
— O que Tsunade-sama colocou naquele café? – Ela perguntou ainda tão confusa, tão incerta olhando da tela do celular, que exibia o botão comprar de maneira tão convidativa, para os olhos plissados do homem a sua frente que exalava bom-humor.
— Só estou dizendo que você tem opções – Kakashi disse por fim como se fosse algo tão natural, ainda sem deixar claro se era apenas uma lição ou se ele realmente estava falando sério, algo que a irritou brevemente.
— Ok, eu posso ir para a Coréia ficar com meus pais e nunca mais voltar à Kyoto, posso ficar em prisão domiciliar, ou posso fugir. – Dizia de maneira categórica, encarando o homem ainda com sua aura irritadiça.
Como ele conseguia dizer aquelas palavras sem considerar tudo o que estava acontecendo? Sim, fugir era uma opção, mas não era como se resolvesse o problema. Aliás, fugir nunca resolveu nenhum problema, principalmente em um caso como aquele, porque ainda que Ino pudesse lidar com Sasori, quando ambos retornassem o caos estaria instaurado, Tsunade iria querer seu sangue e o de Kakashi, enquanto que Ino ia colocar um satélite em seu rastro pra sempre.
Seria vigiada eternamente, isso se seus pais não a obrigassem em definitivo a ir para a Coréia.
— Você também pode voltar lá dentro e negociar sua prisão domiciliar – Kakashi voltava a falar de maneira ainda tranquila — Pode também ignorar aquelas duas e falar com seus pais, você é uma adulta, eles não podem te obrigar a ir morar com eles, assim como aquelas duas não podem te obrigar a fazer nada que você não queira.
— É muito fácil falar. – Ela resmungou percebendo onde ele queria chegar. — Não é você que está sendo encurralado. Ninguém me escuta! Ficam me tratando como criança! Eu sei, Kakashi, eu sei que só fiz escolhas duvidosas na minha vida, sei que não sou assertiva como Ino, ou durona como Tsunade-sama, mas isso não significa que eu não... – Sua voz esmorecia depois da súbita explosão.
Sakura abaixava brevemente a cabeça com seu lábio tremulo.
Sim, Ino era preparada para o futuro e não perdia tempo com trivialidades. Ela fazia aulas de administração, lia o jornal impresso todos os dias, sabia ler aqueles gráficos confusos com previsões para a bolsa de valores, e com um telefonema conseguia resolver a maior parte dos problemas.
Ino gastava seu tempo com coisas importantes, enquanto Sakura apenas se distraia em aulas de dança, filmes clássicos e exibicionismo online.
Se fosse só um pouco como sua amiga, talvez conseguisse ter mais voz. Talvez conseguisse voltar naquela sala de cabeça erguida e dizer que as coisas não seriam como aquelas duas queriam. Negociaria, faria de tudo para conseguir, pelo menos, algum tipo de controle sobre sua vida, porque ela não se importava em deixar tudo nas mãos de Ino, desde que sua liberdade fosse garantida.
Algo que obviamente tinha se perdido no acordo implícito que tinham.
— Elas só estão assustadas, meu bem – Kakashi disse puxando-a para si, dando o abraço que sabia que ela precisava desde o momento em que entrou naquela sala de jantar — Tá todo mundo assustado e com medo de que você possa ser uma vítima novamente. Elas não puderam fazer nada antes, então meio que estão compensando. – E passava a mão nos cabelos dela, apoiando seu queixo no topo da cabeça feminina.
— Eu sei que elas não estão fazendo isso por mal – Sakura resmungava ainda agarrada a Kakashi, com seu rosto afundado no peito dele — Mas... Droga! Eu ainda me sinto tão sem opção! Eu sei que deveria ligar pros meus pais, mas céus, eles já se sentem tão culpados! E eu sei que a Ino também sente culpa, mas ela é minha melhor amiga! E Tsunade-sama... Ela só quer que eu fique bem.
No fundo, Sakura sabia de todas essas questões. As intensões de todos eram completamente explicitas e ela queria poder simplesmente tomar conta de si mesma e dizer a todo que ficaria tudo bem, que ela daria conta, mas não havia nada que Sakura pudesse fazer além de depender de Ino, como sempre, e mesmo sabendo que não podia fazer nada, ainda assim estava rejeitando as atitudes daquelas pessoas que sabiam exatamente como proceder.
Parecia uma menina perdida, uma ingrata. Mas Sakura ainda sentia como se elas estivessem se aproveitando disso, abusando da sua incapacidade de tomar conta de si mesma para superprotegê-la. Sakura não queria que as pessoas tomassem decisões por ela, Sakura queria apenas ajuda.
Era apenas isso.
Ela só queria ajuda.
E quando percebeu o cerne do problema, tudo pareceu clarear um pouco mais, e a tranquilidade do homem finalmente conseguiu alcançá-la de algum modo.
— Então volte lá e fale com elas – Kakashi disse de repente, se afastando brevemente para ver os olhos verdes da moça — Tenho certeza que você pode negociar uma liberdade condicional.
— Vou pedir acesso livre pra você – Sakura disse com um sorriso no rosto.
— Não espero menos que isso – Ele respondeu tocando o rosto dela — E lembre-se de dizer que tenho 8 cães de guarda ultra treinados, câmeras de segurança com visão noturna que sempre estão ligadas, e uma enorme cerca elétrica.
— Pensei que sua cerca fosse só uma cerca. – Sakura disse com humor, porque ele obviamente estava exagerando em tudo.
— Shhh... Elas não precisam saber. – Ele disse como se fosse um segredo, fazendo a moça apenas rir enquanto balançava a cabeça — E por você eu mudaria. – Ele deu os ombros pensando que teria que avisar ao vizinho de trás, por conta do gato fujão que insiste em ficar no seu muro debochando de seus oito cães de guarda ultra treinados — Além disso, como Gai é um grande amigo, diga que ele pode dormir lá em casa.
— Você não existe – Sakura disse com humor, segurando o rosto dele entre as mãos para um beijo simples antes de tentar resolver um mistério em sua cabeça. — Kakashi, se eu tivesse decidido fugir, você teria realmente ido comigo? – Ela perguntou de repente, olhando para ele com curiosidade e expectativa.
— Hmmmmm – Ele soltava um longo ruido pensativo — Quem sabe? – E deu os ombros por fim, ouvindo os protestos dela enquanto lhe roubava um beijo singelo. — Quando quiser fugir me deixe saber, aí você poderá descobrir se é ou não verdade.
— Céus!
Se olharam por um longo momento até que ela simplesmente desviava seus olhos verdes dos dele com um sorriso discreto nos lábios. Ele quase podia ouvi-la dizer para não a olhar daquela maneira, mas era impossível. Kakashi sabia que Sakura não queria ouvi-lo tentar mediar uma situação, ele não precisava fazer isso e não era papel dele, afinal ela sabia dos motivos de todas aquelas medidas serem tomadas, e ele não tinha que lembrá-la disso. Kakashi estava ali para apoiá-la, e se isso significava ir à extremos, então ele o faria.
Afinal, tudo valia a pena quando a via recuperar aquele sorriso.
A convidou para voltarem à sala da inquisição, onde reocuparam seus lugares antes que Sakura apenas se desculpasse pelo comportamento anterior. Não demorou muito para Tsunade admitir que estava sendo superprotetora, entretanto não abriu mão das regras impostas. Pediu para que Sakura fosse razoável e que, dessa forma, ela também seria. Gai ainda seria sua sombra, mas o toque de recolher havia sido dissolvido desde que Sakura não fosse a festas públicas ou bebesse a noite.
Ino insistiu para que ela tivesse um motorista, mas Sakura foi inflexível ao dizer que precisava de certo nível de privacidade. Acabou que Gai a seguiria num carro a parte, o que não era o ideal, mas já era um avanço. Além disso, Kakashi não tinha ganhado o livre acesso que tanto queriam, por segurança ele seria tratado como qualquer outra pessoa que tentasse entrar no condomínio, tendo que ter entrada autorizada, mas estava liberado a dormir na casa de Tsunade desde que não faltasse ao trabalho.
E quando isso foi dito de uma forma tão direta, foi Kakashi quem se sentiu uma criança.
Para finalizar, a expressão de satisfação no rosto de uma certa loira de olhos azuis foi absoluta quando Tsunade liberou qualquer saída com Yamanaka Ino, podendo inclusive passar uma noite ou duas na mansão desde que a mais velha fosse avisada previamente, o que significava que Sakura ainda podia manter parte da vida completamente normal, afinal passava boa parte do seu tempo com a amiga.
A reunião fora encerrada com um breve sermão sobre Sakura começar a namorar e não comunicar isso devidamente. A bronca se estendeu a Kakashi por outros motivos, todos relacionados a trabalho – sua falta de interesse nas reuniões com o corpo docente e seus longos atrasos – apesar de no final de tudo, o homem ter recebido algo como um elogio pelo trabalho exercido com maestria, ninguém podia negar que era um bom professor.
E a única coisa que fora dito a ele sobre toda a nova rotina de Sakura fora simplesmente um conto com você. Foi depois disso que Tsunade se levantou dizendo ter assuntos pessoais a resolver, mas Kakashi desconfiava que ela iria voltar para a cama e tentar curar a ressaca. De toda forma, ele precisava ir. Tinha pedido para Aoba trocar de horário consigo nas aulas devido a todo o caos, e como tudo estava resolvido, o homem precisava deixar a moça.
— Posso te ligar a noite? – Ela perguntou deitando a cabeça no ombro frente a porta principal da casa.
— Pode me ligar a qualquer hora – Respondeu o homem com um sorriso — Se der, ainda passo aqui depois da aula.
— Não se force tanto. Eu estou bem. – Sakura disse sabendo que ele faria um esforço maior para vê-la dali por diante, vendo-o dar os ombros como se dissesse "eu vou aparecer de qualquer jeito". Ela riu brevemente e deu longo suspiro, porque ele ainda era como seu mundo particular e intocado. — Só me promete que não vai se arriscar, Kakashi.
— Como assim?
— Exatamente o que você ouviu. Prometa que não vai assumir riscos. Prometa que vai ficar bem. – Ela pediu mais séria, porque não queria que ele a transformasse numa espécie de prioridade em sua vida, se colocando em segundo lugar por conta das necessidades dela, e mais ainda, queria que ele se mantivesse tão perfeito quanto era.
Kakashi sorriu enquanto afagava o rosto da moça.
— Eu prometo.
E foi o suficiente para que ela apenas o beijasse no rosto para deixá-lo ir. Voltou para dentro apenas para encontrar Ino em sua cama soltando um longo bocejo enquanto seus cabelos loiros se espalhavam pela roupa de cama chique. Sakura subiu na cama buscando espaço entre os travesseiros para se aconchegar na amiga, que a olhou brevemente antes de voltar ao seus stories com naturalidade.
— Desculpa o que eu te disse mais cedo – Sakura falou depois de um momento — Você não é como Sasori. – Disse claramente quando capturou o olhar azul da moça, que jazia tão tranquila quanto uma manhã de primavera.
— Não se preocupe, Sakurinha, eu sei. – E sorriu com leveza — Desculpe por ter falado com Tsunade-sama pelas suas costas.
— Tudo bem. – Sakura deu os ombros — Ainda amo você.
Ino riu brevemente, abraçando Sakura com força enquanto soltava um ruido, lhe dizendo que tudo ia ficar bem no final das contas e que podia confiar nela para tudo. A loira sabia que eventualmente poderiam se magoar, mas não tinha medo de errar porque Sakura estava consigo e ela ainda a amava.
Rapidamente conversaram a conversar sobre qualquer outra coisa enquanto não se importaram em perder as aulas do dia, e em algum momento simplesmente adormeceram.
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Saíram da loja de vestidos animadas com as escolhas. Kurenai tinha provado uma seleção de trajes para o casamento, incluindo vestidos e saias longas. Rin tinha insistido para que ela provasse todos aqueles conjuntos de cropped e saias que estava na moda para casamentos, mas Kurenai se sentia velha demais para croppeds e muita inovação. Optou por um vestido simples, cauda de sereia, cheio de renda nas extremidades com um tecido branco acetinado que a envolvia ate o busto, se apoiando em um só ombro com detalhes que combinavam com a cauda.
Suas madrinhas tinham escolhido vestidos vermelhos bem parecidos com o de Kurenai, numa versão mais simples, apesar dos protestos de Anko para simplesmente diversificarem. A verdade é que Rin estava se inspirando nos casamentos ocidentais e tinha tido o aval de Kurenai para planejar algo dessa maneira, então Anko que lute.
Todas estavam satisfeitas e animadas, e a muito tempo que não se reuniam daquela forma. Shizune estava sempre ocupada entre as aulas da especialização, os plantões, as cirurgias e as consultas. Seu tempo livre era gasto com boas sonecas, livros e paz. Anko trabalhava na indústria farmacêutica, o que significava que tinha que viajar para vários locais, quase nunca parando em sua cidade natal. Rin e Kurenai eram as únicas que se encontravam com frequência, e mesmo assim ultimamente estavam tão atoladas em trabalho que se comunicavam apenas para questões referentes ao casamento.
Por isso, quando saíram do local contaminadas pelas conversas fáceis e nostalgia, Kurenai sugeriu que fossem ao bar mais próximo e curtissem um pouco só entre elas. Nada de chamar namorado, noivo, peguete... Seria como uma despedida de solteiro improvisada, porque tinha combinado com Asuma de não cederem aos desejos de depravação dos seus amigos e apenas esperariam para o grande dia.
Não era exatamente o Icon, mas era um local charmoso e intimista. Sem palcos ou música alta, a conversa conseguia rolar facilmente na mesa do canto direito onde o quarteto de amigas jazia. Pediram cerveja barata e Anko foi a única que quis beber destilados, optando por uísque sem gelo. Depois de tanto tempo e de tantos altos e baixos, Rin se sentia no melhor ambiente do mundo. Suas amigas eram completamente diferentes umas das outras e todas essas personalidades reunidas a fazia sentir-se nostálgica e acolhida, principalmente porque nos últimos dias as únicas pessoas com quem conversava eram Obito e Aoba.
Céus...
Sua relação com Aoba tinha ficado brevemente esquisita depois daquele beijo aleatório que tiveram. Já faziam quase duas semanas desde aquilo, e apesar de eles claramente evitarem o assunto, ambos não conseguiam parar de pensar nisso. Aoba corava quando seus olhos acabavam encontrando os de Rin de um jeito que a mulher nunca vira acontecer. Começaram a se acostumar com conversar sem olho-no-olho, e ela sentia que um segundo beijo só não havia rolado por conta de oportunidade, porque ela evitava sempre criar um clima.
Era confuso pensar em Aoba, e talvez fosse o clima do casamento já que eles estavam trabalhando juntos para fazer aquela festa acontecer, mas Rin sentia que tinha ultrapassado uma barreira que não podia mais voltar atrás. Não era como se estivesse sentimental, mas era como uma curiosidade. Aoba nunca falava muito de suas conquistas, e apensar de todos saberem que ele era o parceiro das nights de Genma, ainda assim ele parecia nada pegador.
Só que, na sincera opinião de Kurenai, ele era um come quieto, porque apesar de não falar muito do que fazia, Genma era um tagarela e geralmente deixava escapar quando o amigo acabava levando alguém para casa.
Rin nunca fora curiosa com relação a Aoba. Era como se ele fosse cinza, como se fosse alguém que existisse, mas que ela nunca considerou nada além de uma amizade. Na verdade, sendo bem honesta, ela não o via como homem, e não era questão de masculinidade ou coisa do tipo, mas sim porque ele era seu amigo.
E, tudo bem, Obito também era seu amigo e ainda assim ela acabou tendo um caso com ele, mas Obito sempre deixou claro que seus sentimentos eram muito mais que amizade, ao contrário de Aoba, que sempre riu da ideia absurda de Kurenai na época que ela queria juntar os dois. Não havia química. Ninguém estava interessado em avançar num relacionamento que funcionava perfeitamente bem. Aoba era maravilhoso.
Ponto.
E mesmo que estivessem um pouco fora de sincronia quando se encontravam pessoalmente, por mensagem eles ainda eram como sempre foram.
Olhou seu telefone e viu a mensagem não lida do homem. Abriu apenas para conferir a foto de Asuma vestido num smoking ao lado de outra do homem vestido num terno. Qual dos dois? Ele perguntou diretamente, como se só houvessem duas opções no mundo para um casamento.
Nohara Rin: Ele só provou isso?
Yamashiro Aoba: ... Não?
Yamashiro Aoba: Talvez.
Riu da resposta confusa que claramente era um "sim, ele só provou isso". Deu um suspiro divertido se sentindo meio bêbada enquanto digitava.
Nohara Rin: Faça-o provar mais! Se esforce, Aoba! Confio no seu potencial!
Yamashiro Aoba: Quando você fala assim, até me sinto mais motivado.
Yamashiro Aoba: Conseguiram escolher os vestidos?
Nohara Rin: Sim, estamos num bar agora!
Nohara Rin: Me sinto meio bêbada!
Nohara Rin: E estou usando muitas exclamações!
Yamashiro Aoba: !
Yamashiro Aoba: Use quantas quiser, e tenha cuidado quando for pra casa. Qualquer coisa pode me ligar.
Nohara Rin: Você é meu chofer afinal!
Yamashiro Aoba: Devo tudo a quem me ensinou a diferença de branco, off-white e marfim.
Nohara Rin: Besta! XD
Tinha desligado completamente do mundo real enquanto digitava uma resposta engraçadinha sobre a diferença de cores tão óbvias que sequer percebeu que suas amigas estavam emudecidas, olhando para ela como se estivessem assistindo um vídeo interessante no youtube. Rin dava risadinhas enquanto digitava, revirava os olhos e realmente parecia meio bêbada, mas não completamente alcoolizada.
Foi Anko quem puxou o telefone da mão dela subitamente, enquanto a mulher acordou de seu momento abruptamente, escutando as risadinhas de Shizune e Kurenai enquanto Anko declarava querer saber o que estava provocando tantos sorrisos.
— Ei! Devolve isso! – A jornalista se empertigou tentando alcançar seu celular por cima da mesa, sendo puxada por Kurenai ao seu lado enquanto Anko fazia aquela expressão de quem está sacando tudo.
— Quem diria, Nohara Rin – A mulher com uma enorme tatuagem de cobra no braço falava em um tom acusatório e divertido, deixando o alvo de sua provocação bastante vermelha.
— O cara é bonito? – Shizune perguntou com humor — Porque só sendo muito gato para você ficar toda animadinha apenas com um chatzinho.
— Você tá saindo com alguém e não me contou? – Kurenai perguntou com uma falsa expressão afetada.
— AAAAA PAREM COM ISSO! – Rin choramingou conseguindo recuperar seu celular apenas para ver uma foto de Aoba vestido num terno preto padrão e seus óculos juliet. Rin riu lembrando de MIB: Homens de Preto, enquanto recebia as mensagens de texto: Olhe bem para a luz (do flash) e não tenha medo de segui-la, porque logo você vai estar no paraíso, gata.
Colocou a mão na boca para segurar a risada porque, céus! Ele era péssimo com cantadas. Horrível. Um fracasso completo. Sabia disso desde a época da escola e ele nunca tinha aprendido uma boa cantada.
Nohara Rin: Sério?
Yamashiro Aoba: Sim.
— Eu sempre disse que vocês formavam um casal bonito – Kurenai falou de repente e Rin percebeu que tinha fugido novamente para o mundo da internet enquanto a bisbilhoteira Kurenai lia sua conversa de maneira descarada. Shizune e Anko riam do outro lado da mesa.
— Argh! – Exclamou desligando a tela do celular antes de apenas cruzar os braços em protesto — Vocês são horríveis! E não tem nada rolando entre mim e Aoba! Somos só amigos!
— Por experiência própria, ele não é tão solícito com os amigos – Anko falou dando os ombros.
Rin revirou os olhos.
— Olha, ele ficou com você uma vez. Não é como se você soubesse tudo sobre ele – Retrucou — Eu e Aoba somos amigos a anos. Eu saberia se ele estivesse dando em cima de mim de verdade. – Respondeu com um ar de sabichona.
— Rin, eu ainda converso bastante com o Aoba e sei identificar quando ele tá dando em cima e quando ele não está dando em cima.
— Ele não tá afim de mim – Reforçou dando os ombros — É só flerte de amigos.
Anko olhou de maneira significante para Kurenai e Shizune antes de dar um gole em sua bebida com aquele ar debochado. Tudo bem que ela podia não ser a melhor amiga de Aoba, mas não era como se não o conhecesse bem o suficiente para ler as entrelinhas, e o principal indicio de que ele estava afim era a velocidade com que respondia as mensagens.
Aoba nunca fora tão veloz e jamais se esforçara para tal.
— Ok, vamos mudar a perspectiva – Kurenai disse se empertigando — Você está afim do Aoba, Rin?
Céus!
A desgraçada sabia provocar!
A pergunta a pegou desprevenida, fazendo-a engasgar com a bebida imediatamente. Maldita Kurenai tão direta! Anko dava uma longa risada enquanto Shizune a olhava com divertimento, obviamente não queria piorar a situação, mas ao mesmo tempo estava nítido em seus olhos que poderia continuar como expectadora a noite toda.
— Vocês estão loucas? – Disse controlando a tosse causada pelo engasgo — Eu acabei de sair de um relacionamento de anos! A única coisa da qual estou afim é de tirar Kakashi da minha cabeça por completo.
Disse e era a pura verdade.
Tinha contado a Kurenai sobre o beijo surpresa que tinha acontecido entre ela e Aoba naquela noite, e apesar de achar que a amiga a empurraria direto para esse possível relacionamento, Kurenai fora extremamente sensata ao dizer que Rin não estava pronta. Aquele beijo podia ser qualquer coisa, desde um simples interesse, atração sexual, carência, ou até mesmo um sentimento novo acontecendo. Podia ser qualquer coisa, e Rin jamais descobriria se ainda estivesse ocupada se magoando com qualquer coisa em relação à Kakashi.
Ela precisava organizar seus sentimentos, aprender a lidar com o fracasso daquele relacionamento e não fazia muito tempo, mas tinha decidido tentar se perdoar com mais afinco, e isso incluía reconhecer o que tinha sido sua culpa e o que não tinha, porque Kakashi havia admitido que ele também tivera sua parcela de culpa, porque ela não tinha errado sozinha.
Tudo bem, ela o traiu, o abandonou, não confiou nele para se abrir... Mas ele foi relapso. Ele não prestou atenção nos detalhes, e ainda que no fundo soubesse que ele não é nenhum adivinho, ainda assim Kakashi poderia ter sido mais atencioso.
Além disso, tinha que lidar também com sua própria frustração e desconstruir esse amor perfeito a qual tinha se apegado. Já sabia que não havia mais volta. Kakashi tinha sido muito claro e sua conversa final com ele havia sido brutal. Não havia espaço para se iludir.
Restava apenas aceitar.
Mas todo esse processo de racionalização levava um tempo, e ela sabia que iria tropeçar várias vezes antes de atingir um nível onde pudesse dizer que seu ex estava de fato no passado, mas Rin estava disposta a se dar uma chance, ainda que as incertezas quanto a tudo ainda se fizessem presentes, porque ela não sabia se um dia iria realmente esquecê-lo, e se o fizesse, não saberia se conseguiria reunir forças para recomeçar.
Além disso, ainda havia a questão de Obito que tinha voltado para sua vida de uma maneira surreal. Tinham transado naquele dia, e também na semana passada no dia que faria mais um mês sem Kakashi. Meio que ele estava se tornado seu pau amigo e guardião de lamurias. Falava de Kakashi e como se sentia vendo-o rendido nas mãos da ninfeta-rosa. Com Obito, Rin podia externar seus pensamentos mais danosos e descarregar tudo que era ruim, seja verbalizando ou através do sexo degradante.
Kurenai a censurava quando passava de algum limite moral, mas Obito apenas ria como se tivesse um humor tão sombrio a ponto de não se importar. O Uchiha a conhecia bem, sabia que era tudo da boca pra fora, mas ainda assim precisava dizer porque se sentia leve depois, pronta para um recomeço. E tudo bem que estava usando Obito, mas ele mesmo tinha dito que não se importava.
Então tudo bem, não é?
Viu Kurenai suspirar diante da fala dela. Mesmo diante das provocações, Kurenai não tinha revelado para as outras que algo havia rolado entre Aoba e Rin, mas ali diante do álcool e da boa conversa, acabou por ceder a vontade de simplesmente empurrar a amiga para um relacionamento que poderia ser benéfico a ela, só que Rin ainda tinha todas essas questões sobre Kakashi, como um cão cansado que já tinha perdido todos os dentes, mas insistia em continuar roendo o osso.
— Aé, já faz quanto tempo mesmo? – Anko perguntou em nenhuma discrição.
— Sei lá – Mentiu sorvendo um pouco de sua cerveja já quente, sentindo seu humor morrer um pouco junto com a questão — Parece que já faz muito tempo, mas as vezes é como se tivesse sido ontem. – Revelou num resmungo.
— São 20 anos de idas e vindas – A mulher respondeu solene — Não é fácil esquecer algo assim tão fácil.
— Sinto muito por não poder estar mais presente pra você, Rin – Shizune disse esticando a mão através da mesa para segurar a da amiga.
— Tudo bem – E deu os ombros com um sorriso muxoxo — Vocês têm coisas para fazer e eu não posso ficar falando de Kakashi o tempo todo. – Suspirou — Eu só preciso arrumar um jeito de conseguir estar com ele no mesmo espaço físico sem parecer esquisito, porque não quero ser a pessoa que faz um climão no casamento. – Revelou afundando na cadeira.
Porque ainda havia essa questão. Kakashi estaria lá com a ninfeta-rosa, e todos os seus amigos que já a adoravam iriam ficar conversando e se divertindo... Restava a ela se adaptar ou ficar depressiva em algum canto.
— Ele vai levar a novinha, né? – Anko perguntou olhando para a Kurenai, que confirmou com a cabeça, revelando que tinha acrescentado o nome de Ino à lista de convidados também. — Qual é a do Kakashi e do Genma? Tão passando por uma crise da meia idade? Aquelas garotas podiam ser filhas dele. – Resmungou solidária com Rin, que secretamente respondeu que não, porque sua primeira vez com Kakashi tinha sido aos 18, e Sakura era 14 anos mais nova que ele.
E com o pensamento, Rin se odiou um pouco mais, voltando a tomar sua cerveja quente enquanto se resignava.
— Você vai ficar bem com a Yamanka lá? – Kurenai perguntou a Shizune só por segurança, porque já sabia da resposta.
— Porque não ficaria? – Shizune deu os ombros.
— Você sabe que teu ex tá saindo com a Yamanaka, não é? – Anko falou bebericando o uísque enquanto a olhava completamente interessada.
— Sim, ele me disse. – E deu os ombros novamente de forma genuína. Shizune não podia se importar menos. — Ele foi lá em casa esses dias pegar os meus patins emprestados para um clipe que vai gravar com ela. É bizarro porque ela podia comprar um, mas ele não queria perturbá-la com isso – E riu lembrando do homem lhe contando — O Genma é muito idiota. – Comentou divertida e completamente sincera.
— Como você consegue?
Todas olharam para Rin praticamente fundida com o estofado do assento enquanto levantava aquela questão completamente perplexa.
— O que?
— Se dar bem com seu ex? – Especificou fazendo Kurenai rir brevemente — Céus, pensando agora, eu não consigo lembrar de uma só vez que vocês tenham gerado um clima esquisito quando estavam juntos depois do término, e agora ele tá saindo com a Yamanaka Ino e você tá só... cagando pra isso. – E viu Shizune rir da forma com que ela falava sobre tais coisas — Você pelo menos o amava?
— Wow! – Anko soltou e Rin percebeu que tinha soado rude.
— Eu- Shizune, desculpa! Eu não quis-
— Relaxa, Rin – E deu os ombros — Meu relacionamento com Genma sempre foi algo muito... Sei lá! Nós sempre fomos amigos e do nada ficamos naquele dia. Foi super romântico, vocês sabem. – Ela riu, ganhando um tom avermelhado — Nós continuamos ficando e tudo parecia tão certo, tão divertido. Genma é uma ótima companhia.
— A gente sabe que você tem um gosto peculiar, Shizune – Anko zombou. — Só você aguentou o idiota por tanto tempo.
— O Genma é um cara muito sensível, mas ele não curte deixar esse lado dele transparecer. Ele só gosta que vocês achem que ele é idiota, mas a verdade é que... – Ela pausou com um sorriso se perdendo por um momento nas próprias memórias — Ele é incrível. Ele é um homem bastante apaixonado à sua maneira, e sim, Rin, eu o amei muito, mas amor não é tudo num relacionamento.
Kurenai soltou o ar com uma breve risada, colocando mais cerveja em seu copo para brindar com Shizune. Amar não basta. Era algo que tinha aprendido a tanto tempo. Amor é só uma coisa, porque haviam todas essas outras coisas que eram necessárias para a manutenção de um relacionamento. Amor era só a faísca inicial, mas a chama só se mantinha se você tivesse arrumado o carvão direito.
A mulher continuou explicando sobre seu relacionamento enquanto as outras apenas se dispunham a escutar. Shizune nunca reclamava sobre Genma e sempre o elogiava de maneira tão honesta que parecia estar falando de uma pessoa completamente diferente. De alguma forma aqueles dois combinavam bastante, mas não era só isso que fazia um relacionamento funcionar.
Shizune vivia para o trabalho e Genma estava ascendendo com a produtora. Ambos mergulhados em suas atividades e querendo crescer cada vez mais profissionalmente, até nisso combinavam. Mas a rotina que construíram era incompatível com a vida romântica, de modo que quase nunca tinham tempo livre, e quando tinham estavam cansados demais. Shizune lidava com imprevistos o tempo todo e Genma precisava frequentar todas aquelas festas para fazer contatos.
Todo mundo lembrava quando saiam que eles quase nunca estavam juntos. Shizune sempre ficava olhando para o telefone, como se esperasse a mensagem de que ele conseguiria chegar, e Genma parecia meio borocoxô quando saia com o grupo e Shizune era bipada pelo hospital. Depois de insistir por algum tempo, eles chegaram à conclusão juntos de que talvez fosse melhor terminar aquela história por ali.
Foi uma decisão complicada, mas ambos concordaram que era o melhor, desde que apenas se magoavam com esses desencontros. Não houve nenhum motivo além disso. Genma era perfeito no sexo, e Shizune acreditava fortemente que nunca havia sido traída, assim como jamais o traiu. As conversas eram boas e eles se deram bem quando juntos, mas os momentos de estar juntos eram tão raros que não fazia sentido levar aquilo adiante.
Entretanto, eles sabiam que nada seria como antes. Não conseguiriam voltar pro patamar anterior de só amigos, e ao mesmo tempo não queriam parecer esquisitos quando saíssem em grupo, por isso resolveram tirar a estranheza, e combinaram de continuar tentando se ver por mais alguns meses, para confirmarem que podiam ser os ex-namorados-que-são-amigos-pra-caralho. No começo, ambos fizeram um esforço absurdo para aparecer nos almoços um do outro, comiam quase sempre em silêncio com comentários pontuais, e as vezes só tinham longas DR's, porque eles estavam se vendo muito mais no pós-término do que no relacionamento.
As vezes transavam, porque ninguém é de ferro e Genma tinha aquele oral.
E com o tempo tudo foi se transformando em algo tranquilo, em conversas casuais ou profundas, como dois velhos amigos que se conheciam muito bem e tiveram um relacionamento incrível, mas que precisaram se separar porque a vida é dessa forma. Eles insistiram naquilo, e ainda que tivesse sido um tanto difícil, Genma e Shizune tinham conseguido, de forma que hoje a mulher emprestava seus patins para que o ex pudesse gravar um clipe para o atual interesse amoroso sem parecer nenhum pouco incomodada.
Rin ouvia tudo aquilo e ficava admirada. Shizune sempre fora a mais madura e tranquila do grupo. Zero neurose. Ela sempre sabia o que estava acontecendo consigo, a identificar seus sentimentos, a trabalhar suas angustias. Inclusive, Shizune emitia uma energia tão boa sempre que era como se nunca tivesse um mau-humor. Rin queria ser um pouco como ela, ter aquele tipo de maturidade emocional e conseguir sair de uma vez daquele buraco onde estava.
Tirar a estranheza.
— Droga, você é perfeita – Rin resmungou com humor, fazendo todas rirem — Eu não consigo imaginar eu e Kakashi fazendo algo assim. A gente liga um pro outro às vezes, pra falar coisas estranhas, como buscar uma roupa que tá na casa do outro. – Suspirou — Meio que a gente podia só pegar tudo de uma vez só, mas é como se fosse uma garantia que ainda temos motivos pra nos falar.
Confessou se sentindo uma idiota. Ela quem começou com isso e Kakashi apenas foi na onda, começando também com esse ritual bizarro de preciso daquela camisa para logo em seguida perguntar se ela estava bem, e as vezes era tão difícil responder essa pergunta, outras vezes era tão fácil, apesar da resposta ser sempre a mesma: Sim, Kakashi, estou bem.
— No seu caso é mais complicado, né Rin. – Anko disse — Vocês não terminaram pelos motivos da Shizune.
— E ele já está com outra – Kurenai lembrou de maneira categórica — Então seria até esquisito se ele ficasse almoçando com você. Poderia dar uma conotação errada.
— A ninfeta-rosa... – Rin resmungou bebendo sua cerveja que tinha sido reposta por Kurenai, agora gelada.
— Ninfeta-rosa? – Shizune perguntou com humor — Quantos anos você tem pra tá implicando desse jeito com a Sakura? – Ralhou sem nenhuma misericórdia.
— Ah, para! As vezes é mais fácil só odiá-la. – Confessou dando os ombros emburrada, porque a última coisa da qual precisava era um sermão.
— Primeiro que a Sakura é uma menina muito gentil, e não fez nada além de se apaixonar pelo Kakashi. Segundo que ela não se importaria caso vocês resolvessem sair mais vezes, desde que o Kakashi conversasse direito com ela e explicasse a situação. – Comentou como se conhecesse a garota de muito tempo, fazendo todas na mesa levantarem essa questão secretamente. — Sakura é uma pessoa muito honesta, e não merece que você fique chamando-a dessa forma, como se ela fosse algum tipo de oportunista.
— Porque você tá defendendo tanto ela? – Shizune perguntou com o cenho franzido — Eu sei que ela não tem culpa, mas as vezes eu preciso odiar alguém nessa história e é mais fácil odiar quem eu não conheço – Revelou dando os ombros — Além disso, quem garante que ela não tá de olho no dinheiro dele?
Shizune riu.
— Vocês realmente não sabem nada sobre ela, não é?
— E você, no entanto, parece saber muito – Kurenai retrucou completamente curiosa sobre tudo o que a amiga estava dizendo tão de repente.
— Eu e Sakura somos quase como família. – E não escondeu a expressão divertida quando todas as amigas pareciam completamente chocadas, se adiantando em explicar a situação. — Ela é afilhada da esposa do meu falecido irmão. Sakura é uma protegida de Tsunade-sama assim como eu.
— Não brinca! – Anko largou completamente chocada.
— Céus! É muita coincidência! – Kurenai exclamou enquanto Rin permaneceu em puro choque. O mundo adorava ferrar com ela.
— Sakura é riquíssima. Provavelmente tem muito mais grana que Kakashi. Definitivamente ela não está interessada no dinheiro dele. – Disse satisfeita com a cara de tacho de Nohara Rin, que parecia uma criança emburrada no canto da mesa — Olha, Rin, eu sei que é difícil acabar um relacionamento tão longo quanto o seu, mas eu não vou tolerar que você fique chamando a Sakura dessa maneira. Nós não nos vemos tanto, mas a conheço o suficiente para dizer que ela já passou por situações muito tensas, e eu a admiro muito. Na verdade, até fico feliz em saber que ela conseguiu se abrir e escolheu alguém como Kakashi para isso, porque mesmo que saibamos dos defeitos dele, ainda assim ele é alguém que vai tratá-la com respeito e amor.
Rin quase podia sentir o olhar de concordância de Kurenai direcionado a ela. O que Shizune estava dizendo era uma verdade. Não tinha que ofender a garota daquela maneira, mas as vezes era como se ela precisasse direcionar seus pensamentos ruins para alguém, e Sakura era a escolha óbvia, porque ela quem tinha roubado seu namorado, ela que era a pessoa de fora de tudo isso, e Rin não precisava ser empática com ela pelo simples motivo que não a conhecia.
Tudo que sabia sobre Sakura vinha dos stories de Yamanaka Ino, e não era muita coisa. Sakura soava como uma menina mimada, amiga da maior influencer da cidade, e só. Não era como se Rin fosse encontrá-la e ficar zombando dela, mas por trás, chamá-la de ninfeta-rosa e interesseira era como um alivio para seus sentimentos confusos.
— Situações tensas? – Anko repetiu curiosa — Que tipo de situação tensa uma garota de 22 anos, podre de rica, poderia passar? – Perguntou sem desdém, porque em sua cabeça, tal redoma social dificultava experiências ruins.
— Eu não vou entrar em detalhes, mas ela passou por um relacionamento abusivo – Shizune respondeu categoricamente — E é muito pior do que vocês estão pensando, acreditem. – Deu uma pausa enquanto uma expressão séria tomava conta do rosto dela, sumindo logo após o longo gole que tinha dado em sua bebida — De toda forma, Sakura merece coisas boas, então se você quiser odiar alguém, então odeie Obito, que foi o grande filho da puta de toda essa sua história, Rin.
Relacionamento abusivo pior do que imaginava?
Rin absorveu aquelas palavras com amargura. Apesar de ser algo vago, ainda era algo especifico, e Shizune não era de exagerar em suas declarações, logo a única conclusão que Rin podia tirar disso tudo era que Sakura era uma sobrevivente.
Fechou os olhos se sentindo uma imbecil, porque agora o sentimento de culpa lhe invadia por ter direcionado seus sentimentos ruins para ela. Como poderia zombar de uma pessoa que tinha vencido dificuldades como a de um relacionamento abuso? Era como Shizune tinha dito mais cedo, Sakura não tinha feito nada além de se apaixonar por Kakashi. Seu ódio por ela se resumia a pura birra infantil, que não podia mais se instaurar depois de saber das informações vagas de Shizune.
No final das contas, Rin achava que mulheres deveriam apoiar umas as outras, e sabia que estava indo contra essa crença quando implicava com Sakura sem sequer conhecê-la, mas era que... Era tão mais fácil lidar com tudo dessa forma. Era tão simples. Seu plano era odiar Sakura até sentir que seus sentimentos por Kakashi não eram tão mais fortes, e então ela iria parar de odiar Sakura e tudo ficaria bem.
Ela só precisava direcionar aquela raiva para alguém, porque senão o fizesse, aquilo iria se transformar em ódio de si mesma, e isso não colaborava com o seu plano para se perdoar. Culpar Kakashi também não era uma opção desde que ele tinha sido deixado no dia que estava disposto a avançar naquele relacionamento, e agora Sakura lhe soava como alguém que merecia mais respeito.
Sobrava Obito.
— Obito? – Rin questionou irritada — Porque vocês fazem questão de demonizá-lo? Ele não fez nada além de me apoiar.
Sim!
Obito não tinha culpa de nada! Em toda aquela história, a única coisa que Obito tinha feito fora apenas lhe apoiar nas decisões confusas que tinha tomado. Ele ouviu suas lamurias, seus temores, e a aceitou mesmo que estivesse naquele lugar incerto de sua vida. Obito era alguém que Rin não podia odiar, porque eles estavam do mesmo lado. Só ela sabia o que eles tinham vivido e o que tinham passado.
Era fácil para os outros verem apenas o lado de Kakashi e dela, mas se havia uma vítima nessa história, essa pessoa era Obito, porque seu único pecado foi amá-la, e esse amor foi tão grande que ele colocou Rin como uma prioridade até mesmo sobre sua amizade com Kakashi.
Mas as pessoas só enxergavam o que queriam, não é?
— O quê? Te apoiar? – Shizune perguntou confusa — Rin, ele te manipulou. – Falou de maneira muito direta, muito tranquila.
— Pelo amor..! – Resmungou passando a mão entre os cabelos exasperada — Ele me deu uma saída! Eu já estava sem perspectiva e Obito me deu uma saída! Ele me chamou para Tóquio, mas eu podia ter recusado!
— Não estou falando só disso – Shizune disse rapidamente antes que Rin iniciasse um discurso maior — Você me disse que Kakashi ia te fazer o pedido no dia que você o deixou. – A mulher disse e Rin confirmou de forma irritada. Shizune olhou para as outras duas que estavam tão confusas quanto a irritada Rin — Ninguém pensou sobre isso?
— Mas que merda, Shizune! É claro que eu pensei sobre isso! Eu só penso nisso a semanas! – Esbravejou batendo a mão na mesa, sentindo que a bebida estava colaborando para suas reações um tanto mais desmedidas, mas ninguém a censurou, estavam mais interessadas no raciocínio de Shizune.
— Rin, não é pensar sobre o que isso significa pra você, mas pensar no que isso significa na relação do Kakashi e do Obito.
— Caralho, Shizune! Você acha que eu não sei que eu fui o motivo para eles pararem de se falar? Não preciso pensar nisso, Shizune!
— Oe! Rin! – Anko falou de maneira mais presente — Tenha calma. Shizune não parece...
— Rin, eu to dizendo que Obito e Kakashi eram melhores amigos na época, e tudo bem que Kakashi sempre foi reservado, mas se ele fosse pedir você em casamento, então certamente teria compartilhado isso com o melhor amigo dele.
...
A mulher franziu o cenho em resposta, recuando até suas costas encontrarem o apoio da cadeira. O silêncio se fez presente na mesa enquanto a música de fundo ao bar tocava como um mero ruido de fundo. Pessoas falavam, garçons passavam com bebidas, havia o tilintar de copos batendo brevemente no tampo das mesas, passos...
Tantos estímulos, e mesmo assim era como se sua cabeça tivesse esvaziado completamente apenas para sustentar aquela ideia que Shizune acabava de insinuar.
— Você acha que o Obito sabia? – Anko perguntou confusa.
— Vocês não? – Retrucou.
— Oh, céus! – Kurenai deixou escapar num suspiro pasmo, pegando seu copo para um longo gole. Precisava de álcool no seu sistema enquanto sua cabeça articulava todos os detalhes daquela suposição — Isso faz tanto sentido – Disse de repente passando a mão nos cabelos negros, com seus olhos perdidos em algum lugar enquanto juntava as peças.
— Não pode ser – Rin disse de repente, com seu rosto baixo e sua voz distante. — Obito teria me dito na época. – Continuou quase como se estivesse falando consigo mesma — Ele sabia que isso... Ele sabia! – E riu sem humor, num escárnio de si mesma, apoiando a cabeça na mão num gesto débil.
Como podia ter sido tão estúpida?
Até isso tinha deixado passar? Até isso precisava ser dito a ela? Quando foi que ela começou a ser tão cega nas suas relações?
Tudo em si queria negar, e um filme começou a rolar em sua memória. Todas aquelas conversas com Obito, todos aqueles momentos em que ele a fazia sentir-se melhor pelo seu estado de estagnação, todas as vezes que ele era tão fofo... Obito foi como um oásis no meio do deserto, lhe trazendo alivio quando seus sentimentos eram pura incerteza.
Ele a amou. Deu-lhe todo carinho que tinha sem pedir nada em troca. Até mesmo no final, quando ele a chamara para ir à Tóquico com ele, ainda assim Obito tinha sido um completo cavalheiro, dizendo que não iria ficar chateado se ela resolvesse ficar, porque sabia dos sentimentos intensos que ela tinha por Kakashi. Obito nunca fez nada além de estimá-la.
— Rin. – Kurenai disse com uma mão em seu ombro.
— Isso não pode ser verdade. – A mulher disse novamente, magoada e irritada. Traída. — Não pode... – Sua voz era apenas um fio enquanto as lágrimas rolavam em sua vergonha.
Colocou ambas as mãos no rosto sentindo uma desolação que a muito tempo não sentia. Suas amigas logo estavam todas ao seu redor lhe dizendo coisas que não conseguia ouvir. Tudo em sua cabeça era Obito e tal revelação, porque sim, Kakashi era um homem reservado, mas uma notícia boa como aquela certamente seria compartilhada com seu melhor amigo.
Eles eram inseparáveis.
Era uma amizade bonita onde ambos se apoiavam mutuamente. Tinha até uma espécie de rivalidade, porque Obito queria alcançar Kakashi de algum modo e ser tão bom quanto ele na época da escola, tentando vencê-lo nas competições do clube, estudando além do tempo para superar as notas do outro e sempre falhando. E apesar de Kakashi valorizar Obito, era como se isso nunca fosse suficiente. Eles tinham esse lance de amigos e rivais que funcionava bem. Raramente estavam brigados, e sempre acabavam uma discussão em risadas.
Rin era a pessoa entre eles, que entrou como uma intrusa naquela relação e conquistou seu espaço ao lado de Kakashi. Ela sempre fora louca por ele, mas Obito sempre fora louco por ela, e nesse triangulo amoroso que não tinha vértices, Kakashi e Rin se tornaram um casal, e Obito aceitou bem, deixando seus sentimentos abaixo da amizade que tinha com Kakashi e construindo uma boa relação com Rin.
Ela nem lembrava direito como começou a falar mais com o menino, como eles se tornaram amigos tão íntimos a ponto de sentir-se à vontade para compartilhar as lamurias de sua vida, mas parecia muito mais certo falar com alguém que conhecesse os dois e que pudesse entender o lado de cada um nessa história, como se o fato dele ser um grande amigo de Kakashi fizesse a diferença nos conselhos que dava.
E Obito sempre a incentivou a continuar com ele, a vencer seus medos, a confiar em Kakashi, até que um dia seu discurso mudou brevemente. Talvez você devesse pensar como seria sua vida sem ele. Era algo tão surreal, mas que com o tempo fez sentido em sua vivencia. Obito passou a ser seu confidente, e Rin ousava dizer que houve um curto período de tempo em que ele fora mais seu amigo do que de Kakashi.
Mas ainda assim Obito e Kakashi ainda tinham essa relação estreita, mesmo durante o período em que estava articulando sua ida a Tóquio com Rin, ainda assim eles saiam como se nada estivesse acontecendo por trás de tudo. Pensando naquele momento, Rin percebia o quão dissimulado Obito foi com Kakashi, só agora ela conseguia perceber isso.
Dissimulado.
Ela chorava em soluços enquanto seus pensamentos giravam. A bebida não ajudava no foco e suas amigas simplesmente resolveram que era hora de lhe tirar dali. Shizune pedia desculpas em algum lugar distante, mas Rin não a culpava, porque ela precisava saber. Era tão óbvio! De alguma forma, parecia até que ela mesma tinha resolvido passar por cima disso sem pensar, porque no instante em que articulasse tal pensamento, então estaria tudo perdido. Porque nesse momento ela saberia que não tinha passado de uma vítima.
Mais do que fazer as escolhas erradas, pensar que tinha errado por influência de alguém era pior ainda. Era como se fosse um fantoche nas mãos do homem, como se tão ingênua a ponto de simplesmente se deixar levar. Sentia raiva de Obito, algo genuíno. Não era uma raiva direcionada, não era algo que resolveu ter para aliviar sua dor.
Não.
Era rancor.
E logo ela que chegou a pensar que estavam do mesmo lado.
Tch.
Idiota.
Tão estúpida.
Sentia-se como se estivesse descobrindo que toda sua vida fora uma mentira, e por um momento odiou Kakashi por não ter lhe dito aquilo antes, por não ter revelado tudo de uma só vez, por tê-la deixado cometer erro após erro, achando que tudo era sua culpa, quando na verdade o vilão da sua história era Obito, mas Kakashi jamais lhe contaria. Até mesmo seu pedido de casamento frustrado fora algo que ele não planejou dizer.
Todo comportamento de Kakashi fazia tão mais sentido agora... Ele havia voltado com ela na época porque sabia que Obito tinha minado seu relacionamento, sabia que não tinha sido culpa dela e tentou, de verdade, dar-lhe outra chance. Porque parecia certo.
Céus...
Se sentia sem forças enquanto Kurenai lhe tirava do táxi, fazendo questão de levá-la ao seu apartamento. Elas ficaram na cama enquanto Rin dizia coisas desconexas entre sua raiva e tristeza, entre a dor da descoberta e a ferida que se mostrava mais profunda cada vez mais.
Quando isso iria sarar? Quando isso tudo iria acabar?
Parte de si queria confrontar Obito, mas ela sequer sabia o que dizer. O que ela deveria falar? Já fazia tanto tempo. E o pior é que ela ainda estava transando com ele, achando que estava no controle de tudo quando na verdade ela estava apenas caindo no seu jogo. Achou que poderia estar usando Obito, mas na verdade era ela quem estava sendo usada.
Naquela noite, enquanto Kurenai lhe aparava mais uma vez, Rin chorou tudo o que tinha e prometeu a si mesma que seria a última vez que aquela história lhe afetaria, que amanhã ela superaria tudo, mas por hora apenas sucumbiu a tristeza nos braços de sua melhor amiga.
E assim dormiu um sono sem sonhos.
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Estava sentada no meio-fio enquanto via Yamanaka Ino andar de patins para um lado e para o outro enquanto Genma ia logo atrás num hoverboard segurando uma câmera presa numa parafernália que, segundo ele, servia para estabilizar a trepidação e garantir uma imagem limpa e fluída. Já estavam gravando a horas e Ino já tinha feito várias coisas ao som de a song like you.
Antes de começar, Genma tinha dado uma longa explicação de como gravação de clipes funcionava, e depois explicou porque havia escolhido aquela música: Ele achava o clipe oficial uma bosta. Bea Miller tinha escrito aquela música para ser algo sofrido, mas Genma tinha sua própria interpretação, que envolvia pessoas livres que se encontravam e continuavam se encontrando.
A song like you i play it every night.
Era como se sentia sobre Ino, era como Ino se sentia sobre ele. Eram a música que gostariam de tocar toda noite.
Sakura riu quando eles passaram novamente, Genma concentrado em capturar o melhor ângulo da loira que rebolava enquanto impulsionava seu corpo. O cabelo mexendo ao vento natural e o olhar no horizonte. Eles eram ótimos juntos e Sakura gostava de vê-los interagir, conversando as vezes de maneira muito séria e as vezes apenas com aquelas expressões de sabe-tudo.
Sentando-se ao seu lado, Kakashi lhe passava uma casquinha de sorvete. A moça agradeceu dando uma lambida. Coco com abacaxi, seu favorito.
Duas semanas tinham passado voando. Sasori havia entrado em contato algumas vezes por mensagens e telefonemas, e o rastreio dos números nunca dava certo. Era como se o homem ativasse o chip apenas para falar naquele momento e então encerrava a linha. Sakura tinha resolvido trocar de número já que estava sendo improdutivo tentar rastreá-lo daquela maneira, mas de alguma forma ele sempre descobria seu novo número e Sakura apenas configurou seu celular para receber telefonemas de pessoas da agenda.
Tivera algumas crises de ansiedade nesse tempo, mas não era como se estivesse sozinha. Ino sempre estava por perto, assim como Sasuke e Naruto. Hinata morava no condomínio, o que era um alívio, porque sempre podia contar com ela para ficarem relaxando piscina ou estudarem juntas, já que Tsunade não gostava de deixá-la tanto tempo a solta na biblioteca da faculdade.
Suas aulas de dança tinham se tornado aulas particulares num dos cômodos da enorme casa, assim como as de boxe. Infelizmente, as aulas de acrobacia tinham sido suspensas e Sakura já sentia sua flexibilidade ir pro saco, não fosse as aulas de yoga que Ino tinha encomendado para as duas na mansão, porque Ino odiava exercícios físicos, mas adorava yoga.
E claro, havia Kakashi. O homem estava tornando esse período menos caótico, aparecendo todos os dias nem que para ficar com ela poucos minutos. Às vezes ele dormia consigo e estava usando seu tempo em cárcere para fazê-la ver Jaspion, um tokusatsu tão antigo que Sakura se surpreendia que ao saber que Kakashi já era vivo na época. Kakashi era incrível, e sua tranquilidade a contagiava de maneira absurda.
Apesar da situação, era tudo perfeito.
Aquela era sua primeira saída oficial a um local que não fosse pré-determinado. Ino estava gravando um clipe pelas lentes de Genma e Sakura era sua assistente juntamente a Kakashi, que lhe puxava para um longo beijo gelado naquele momento, misturando os sabores dos sorvetes enquanto suas bocas se mexiam em sincronia.
Estava redescobrindo Kakashi, porque agora seu relacionamento era de plena confiança um no outro. Se sentia fortalecida por esse sentimento enquanto ele apenas lhe dava tudo. Era como uma explosão no espaço, onde todos os fragmentos mantinham sua velocidade, invadindo orbitas, se transformando em milhões de estrelas cadentes, como chuvas de uma energia poderosa que a dominava.
Kakashi a energizava.
— Ei, pombinhos! – Genma gritava no final da rua com sua câmera na mão, e Ino jazia ao seu lado com uma mão na cintura e seu olhar presunçoso — Vamos trabalhar! Cadê o rebatedor? Preciso do bastão de led também!
— Ele devia saber que só me ofereci para ajudar porque queria ficar com você – Kakashi resmungou com uma mão cobrindo a lateral da boca.
— Sem reclamação, Hatake! – O homem gritou novamente como se tivesse ouvido a reclamação.
Sakura riu dando-lhe um pequeno beijo estalado.
— Vamos logo antes que ele venha aqui. – Disse se levantando para pegar o equipamento que ele precisava — Você quer o led ou o rebatedor?
— O led – Kakashi falou devorando o resto do sorvete em duas mordidas antes de pegar a luz.
Ino assistia a cena de longe, vendo Sakura passar o equipamento para Kakashi enquanto conversavam sobre qualquer coisa. Pareciam bem apesar de toda situação e Ino gostava de como ele era cuidadoso com ela. No final das contas, mais uma vez, ela estava certa e sua intuição continuava tão afiada quanto nunca. Kakashi era um bom cara pra Sakura, e céus, com a carreira que ela tinha, a amiga definitivamente precisava acertar dessa vez.
— Droga, eles são fofos. – Resmungou com humor quando viu a amiga sujar o rosto do namorado com sorvete.
— E a gente?
Ela girou o rosto para encarar Genma ao seu lado, sorriso daquele jeito descarado como se esperasse pela resposta afiada dela. A gente? Pff... Ela riu brevemente.
— O que tem a gente? – Perguntou girando o corpo em seus patins azuis claro e short curto.
— Você acha que as pessoas olham para nós e pensam "eles são fofos"? – Ele perguntou e usava uma bandana verde amarrada aos cabelos longos, e aquilo o deixava com uma cara mais safada ainda.
— Sério, Genma? – Ino disse com humor — Nós não somos um casal fofo. — Declarou com certeza, porque a última coisa que precisava era ser fofa. Deixaria isso para Sakura, Ino se contentava com ser apenas...
— Mas nós somos um casal, não é?
Ela o encarou por um momento percebendo o que estavam fazendo. Genma a encarava com expectativa e Ino revisitava alguns lugares numa velocidade assustadora. Eles estavam saindo regularmente, e se falando com frequência no celular. Tinha que admitir, com todas as letrar, que gostava dele de um jeito romântico. Sentimentos foram envolvidos e Ino estava deixando a vida lhe levar, sem pensar muito no terreno que estava pisando.
Mas ali estava Genma querendo, de alguma forma, confirmar um relacionamento dentro de certos moldes. Confirmar que eram um casal significava o quê para ele? O que aquilo poderia representar dentro da relação que estavam construindo? Ino não tinha como dizer. O que sabia era que estava passando um tempo de qualidade com o seu peguete, que por acaso era um grande produtor de vídeo clipes musicais e agora estava gastando uma quantidade de energia, dinheiro e tempo para produzir um vídeo só por diversão.
— O que você acha? – Ela devolveu a pergunta, sem querer ser a pessoa que define alguma coisa, principalmente quando ela sequer sabia o que aquilo significava.
— Eu acho que nós-
— Onde você quer que nós fiquemos?
A pergunta surgiu vinda de trás na voz de Sakura, que andava ao lado de Kakashi com um rebatedor enorme aberto. Ela parecia animada e tinha sorvete perto da bochecha. Genma sorriu porque obviamente Kakashi tinha se vingado. Voltou a olhar para Ino e trocaram olhares como quem combinam de conversar em outro momento antes de simplesmente começar a dizer como iriam proceder a partir daquele momento.
Depois do ataque de pânico de Sakura naquele dia, Ino parecia ter retirado uma das várias barreiras que o impediam de prosseguir. De alguma forma ele se sentia mais confiante para investir naquele relacionamento, porque ela estava cedendo pouco a pouco, sem tentar se esconder por detrás de toda sua confiança e independência.
Ino o estava deixando entrar, e Genma estava mais que pronto para ser alguém que fosse importante para ela, num nível de relacionamento como o de Kakashi e Sakura.
Num nível de namoro.
Porque naquele momento Genma não sabia exatamente o que eram. Ela não parecia fazer questão de tirá-lo da zona de peguete, ao mesmo tempo que agia como se ele fosse mais que isso. No final das contas, Genma estava pronto para buscar uma definição e deixar os contornos daquele relacionamento mais fixos, mas queria saber se ela também estava sentindo o mesmo que ele, afinal com Ino nada é apenas o que parece ser.
Mas naquele momento Genma voltou sua concentração para o que estavam fazendo, afinal de contas ele sentia como se, de alguma forma, aquele fosse o clipe da sua vida.
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Era uma noite quente de domingo. O céu jazia sem nuvens com uma brisa morna dançando pela cidade antiga de Kyoto. No condomínio mais caro da cidade, Sakura assistia um filme de besteirol com Uzumaki Naruto enquanto Ino copiava o trabalho da amiga para a aula do dia seguinte. Do outro lado da cidade, num prédio perto do canal, Rin e Kurenai decidiam a posição das mesas no salão enquanto tomavam refrigerante e comiam sushi.
Mas ali, num dos bairros tradicionais de Kyoto, seis homens estavam num quintal com varanda, sentados em cadeiras de praia enquanto enxiam a cara com cerveja barata e saquê chique que Yamato tinha trazido como um presente. O dono da casa vestia um avental verde com um símbolo de um redemoinho estampado no peito, virando a carne na grelha enquanto música brega soava nos autofalantes.
Era dia de churrasco na casa dos Sarutobi-Yuhi.
Dia dos cuecas.
Clube do Bolinha.
Ou, como Kurenai disse antes de sair de casa, dia da masculinidade frágil.
Que seja!
O lance é que Asuma elaborou aquela noite para ele e seus amigos poderem confraternizar como a muito tempo não faziam, e mais importante, longe dos olhares críticos das mulheres com a quais conviviam. Ali era um espaço acolhedor onde ele e seus amigos podiam falar do que quisessem, expor suas opiniões sem nenhum medo de soar indelicado, ou sem receber os olhares fatais de suas amigas ou namoradas.
Ali era pura testosterona!
—... Daí branco é meio "encardido", off-white é super-branco, e marfim é meio cinza? – Gai perguntou com os braços cruzados, querendo confirmar a informação.
— Uhum – Aoba disse ainda com sua expressão interessada — Tipo, você tem que olhar muito bem pro tecido, de preferencia sobre uma luz branca, porque a diferença é bem sutil. Muito sutil. — Explicava de maneira séria, porque era uma diferença tão inútil que requeria certo nível de seriedade para ser explicava.
— Então Kakashi tem cabelo marfim. – Gai disse serrando seus olhos para o amigo, incerto sobre a declaração.
— Não, o cabelo de Kakashi é muito cinza pra ser marfim.
— Ei, meu cabelo é prata! – Kakashi disse quando percebeu a conversa girar na sua direção — Cinza é cabelo de velho, o meu é prata. Ainda nem cheguei nos 40.
— Ih, desde quando você entende de cor para saber a diferença de prata e cinza? – Genma questionou cruzando os braços daquele jeito provocativo.
— Essa eu sei! – Yamato falou animado — Cinza é meio opaco, e prata é mais brilhante.
— Tenho quase certeza que essa não é a diferença. – Gai disse confuso.
— Não, não... Deve ser isso mesmo. A diferença está na sutileza – Aoba disse imitando as palavras de Rin naquele dia — Sabe a diferença de pêssego para salmão? – Perguntou em seguida para o grupo.
— Ah! Um é meio rosa e o outro é meio laranja – Genma disse um tanto incerto — Só não me pergunte qual é qual, porque na prática eu não sei.
— Sério que vocês ainda tão nesse papo de cor? – Asuma perguntou chegando com uma tábua cheia de carne, colocando numa mesa junto com farofa e vinagrete — Que tal discutirmos o melhor ponto da carne: mal passada, ao ponto ou bem passada?
Metade respondeu mal passada, a outra respondeu ao ponto. Ninguém apoiou a carne bem passada.
— Asuma, e os convites do casamento? – Yamato perguntou bebericando a cerveja gelada — Preciso da data certa para a Yugito poder se programar para vir.
— Ahn... Eu acho que os convites vão ficar prontos na próxima semana, mas tá marcado pra daqui dois meses, né Aoba?
— Hai – O outro confirmou ainda com a boca cheia — Mas acho que a gráfica vai atrasar. A Rin tá usando a mesma gráfica que imprime os jornais pra ter um desconto bom, então pode ser que demore um pouco mais.
— Caramba, o Asuma vai mesmo casar – Disse Kakashi de maneira nostálgica — Cheguei a pensar que ninguém nunca casaria do nosso grupo.
— Ei, eu sempre tive interesse no matrimonio — Yamato retrucou com humor — Mas tem a logística com a Yugito, por ela ser de Fukuoka. Provavelmente eu vou me mudar quando casar.
— Olha só, Asuma casando, Yamato com planos... – Gai disse de maneira divertida — Kakashi e Genma estão namorando... Aoba, a gente precisa arrumar alguém, ou vamos ficar sobrando nas saídas.
— Ei, o Genma não namora – Kakashi ressaltou recebendo um sorriso sacana de Genma — E não se preocupem, as meninas estão solteiras até onde eu sei.
— Solteiras? – Aoba questionou rindo — Anko tá morando com o Iruka, viu? Só a Shizune e a Rin estão na pista.
— Com o Iruka? Ele ainda existe? – Asuma perguntou divertido, recebendo uma confirmação de Aoba — Não escuto falar dele a anos.
— Pois é. Praticamente casados. A gente incluiu o nome do Iruka na lista de convidados – Aoba informou dando os ombros.
— A Yamanaka também, né? – Genma aproveitou para emendar.
— Sim, Yamanaka Ino está na lista, assim como Haruno Sakura – Ele disse adiantando para um Kakashi que apenas sorriu.
— Tá ai! – Genma disse se levantando abruptamente com sua cerveja nas mãos — Hoje, meus caros, eu digo que virei gado! Vou transformar a Yamanaka Ino na senhora Yamanaka Ino.
— Céus, ele já tá bêbado. Não tá falando nada com nada. – Asuma riu pegando o celular do bolso para filmar.
— Calado! – Genma insistiu apontando para a câmera — Saiba, mundo, que Ino será a senhora Yamanaka e eu o futuro senhor Yamanaka. — Todos começaram a rir da declaração e Genma apenas continuou empolgado — Eu vou casar com essa mulher!
— GAAAADOOO! – Asuma gritou aproveitando a situação.
— Vocês nem namoram! – Kakashi disse novamente com humor — Vai com calma Romeu Shiranui.
— Vou resolver esse problema em breve, então me põe na lista de futuros casados junto com o Yamato!
— Oh céus! Genma vai abandonar as noites na esbornia? Está finalmente se aposentando? – Yamato disse em tom zombeteiro.
— Sim! Encontrei minha alma gêmea – Ele declarou rindo, girando para ficar frente a Aoba enquanto Asuma ainda mantinha o celular levantado — Aoba, passo para você a missão de entreter as moças de Kyoto em meu lugar!
— Como se ele já não fizesse isso! – Gai disse cruzando os braços — Todo mundo sabe que o Aoba é o maior come quieto!
— Cala a boca, Gai – O homem disse levemente constrangido, mas sem perder o bom humor. — E Genma, não quero essa missão, passa pra outro!
— Iiih! Porque você não quer? – Asuma disse pondo lenha na fogueira — Tá interessado em alguém, Aoba? Tá comendo alguém no sigilo?
— Ah, vai se foder, Asuma!
— Ele tá vermelho! – Yamato disse naquela sua voz sacana.
— Ixi, deve tá apaixonado – Foi a vez de Kakashi opinar.
— A gente voltou pra quinta série? – Aoba perguntou tentando manter a dignidade. — Só porque eu não quero comer todo mundo, não quer dizer que eu to comendo alguém.
— Deve ser alguém importante, porque se ele ainda não comeu... – Genma sugeriu.
— Talvez a gente até conheça – Gai se fez presente corroborando para a zombaria com o amigo.
— Ele falou em quinta série, talvez seja a Anko – Asuma provocou — Eles já tiveram um lance, né?
— Vão tomar no cu. – Ele disse cedendo a pressão, todos riram.
— Nhé, não pode ser a Anko porque ela tá com o Irukinha. – Genma começou com aquela voz idiota que ele fazia quando implicava com alguém — E a Shizune não é porque ela teria me contado – E todos sabiam que era verdade — Restando apenas...
— Nãaaaaoooo! – Asuma disse diante do óbvio suspense.
— Simmmm! – Genma devolveu.
— Vão procurar o que fazer! Tem carne queimando! – Disse querendo fugir do que viria a seguir.
— Nem deixou o defunto esfriar? – Genma disse rindo — Kakashi, parece que a regra dos brothes não funciona pro Aoba. Ele tá pegando a Rin!
Yamato cruzou os braços e resolveu que ficaria apenas assistindo aquilo. Na visão de Gai a brincadeira estava crescendo demais, porque Genma conseguia ser um idiota sempre que se empolgava e Asuma ia na onda, principalmente quando Kurenai não estava para regulá-lo. De toda forma, todos olharam para Kakashi que tinha saquê nas mãos e uma expressão divertida no rosto.
— Esperava mais de você, Aoba – Kakashi disse simplesmente entrando na brincadeira — Mas olha, como você é meu amigo e eu sei que você é um cara legal – Kakashi se levantou como se estivesse prestes a fazer uma grande declaração — Vou te perdoar e dizer pra cuidar bem da Rin.
— Fala sério, Kakashi! – Genma resmungou com sua voz de tédio — Estragou a brincadeira sendo legal!
— O que? – O outro arqueou a sobrancelha — Era para fazer o cara mau? Puts. Me envia o roteiro antes, produtor!
— Vou mandar uma gostosa lhe entregar, assim a Sakura arranca seu pau fora.
— A manchete do outro dia, escrita pela Rin como vingança: Produtor musical é denunciado por assédio sexual. – Asuma disse acendendo um cigarro enquanto olhava a gravação no próprio celular.
— Mais respeito: Produtor de videoclipes musicais. – Corrigiu.
E a noite dos meninos continuou cheias de piadas idiotas, cerveja gelada e carne mal passada. Kakashi realmente não se importou com os arroubos de Genma em insistir na ideia de que Aoba poderia estar interessado nela, na verdade isso tinha se prolongado justamente porque o outro ficava sempre tão vermelho toda vez que aquilo era sugerido que Genma não podia ignorar.
Quando resolveram encerrar aquela farra, Kakashi chamou um táxi e ficou na porta esperando com suas mãos enfiadas nos bolsos. Tinha bebido demais e apenas queria chegar em casa para telefonar para sua namorada, bater aquele papo e simplesmente dormir para começar uma nova semana.
Assim como Sakura, ele continuou recebendo ameaças de Sasori, mas por recomendação do investigador de Ino, ele bloqueou todas as formas de contato que não fossem números conhecidos, e isso criava a falsa sensação de que tudo estava resolvido. Ele se forçava a lembrar, todos os dias, que havia um louco atrás de Sakura, e isso implicava também em ter um louco atrás de si.
Apesar de Sakura estar tendo cuidados redobrados, Kakashi sentia que estava falhando com sua própria proteção, mas contratar um segurança particular soava tão esnobe em sua cabeça. Ele não tinha esse nível de importância. Por isso colocou apenas um GPS no carro separado do sistema nativo, com algumas câmeras dentro e fora. Também mandou colocar a cerca elétrica, mas o vizinho de trás, que tinha um gato, o pediu para deixar a cerca desligada até ele colocar uma cerca na própria casa, o que levaria alguns dias a mais.
Fora isso, por recomendação de Ino, Kakashi deixava a localização do celular sempre ligada, compartilhando com Genma e Gai, as únicas pessoas do seu ciclo social que sabiam da situação pelo qual Sakura passava.
Viu o táxi se aproximando e andou vagarosamente até o veículo quando de repente fora abordado de surpresa. Girou o rosto em estado de alerta para encontrar Aoba em seu casaco pesado de cor azul olhando para Kakashi numa expressão quase ansiosa. Kakashi franziu o cenho e em seguida arqueou uma sobrancelha. Aoba o cumprimentou e Kakashi acenou com a cabeça, virando-se para o carro novamente.
— Kakashi – Aoba chamou de maneira mais presente. O Hatake se perguntava o que diabos ele queria com aquela expressão ansiosa. Será que tinha esquecido a carteira em casa?
— Hm?
— Sobre mais cedo... Aquela parada sobre eu a Rin... Eu só queria dizer que-
Ah, então era isso...
— Você não precisa se explicar, Aoba. Eu sei que só foi o Genma implicando com você – Disse dando os ombros.
— Não, Kakashi. Eu não vim me explicar. – O homem falou olhando para o outro de maneira séria — Eu vim saber se o que você disse é verdade.
— Hm? O quê eu disse? – Perguntou confuso, ainda sem saber onde o amigo queria chegar.
— Que você não se importaria se eu ficasse com ela.
Kakashi recuou por reflexo, sendo pego completamente desprevenido pela resposta de Aoba, que o olhava diretamente, esperando por uma declaração consistente.
— Você está mesmo saindo com a Rin?
Foi a única coisa que ele conseguiu pensar.
— Não. – Aoba respondeu rapidamente — Mas tenho interesse nela e quero garantir que isso não vai ser um problema na nossa amizade.
Enfiou a mão dentro dos cabelos coçando sua nuca prateada num gesto de confusão. Rin nunca fora sua propriedade, e desde que estavam separados não cabia a Kakashi estar de bem ou não com qualquer relacionamento que ela tivesse com outra pessoa, mas não era disso que Aoba estava falando, ele em momento nenhum pediu permissão ou disse que não investiria em Rin.
Ele só queria saber se Kakashi seria o amigo babaca que proíbe os amigos de ficarem com suas ex, quando na verdade a única preocupação de Kakashi com relação aos relacionamentos de Rin era saber se Obito tinha voltado para vida dela, porque ele não servia para ela, e mesmo assim ainda não era da conta dele.
Mas Aoba...?
Eles sempre foram amigos, e ele sempre a tratou bem, então não tinha nenhum motivo para ser contra aquele possível relacionamento.
— Aoba, vá em frente – Kakashi disse dando os ombros — Se você quer sair com a Rin, isso não é da minha conta. E não, não vai afetar nossa amizade, na verdade, acho que vocês podem formar um bom casal. E é como eu disse mais cedo, você é um cara legal. Apenas cuide bem dela. Sei lá, seja o homem que eu não fui pra ela.
O amigo sorriu satisfeito com a resposta, acenou com a cabeça num momento que soava cúmplice, como se acabassem de firmar um acordo. Se despediram brevemente e Kakashi sentia algo engraçado dentro de si, porque nunca imaginou que um dia algo como aquilo aconteceria com ele. Entrou no táxi finalmente e foi para casa seguir com seus planos, satisfeito com as opções de Rin.
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Alguns dias se passaram, e naquela quinta-feira, enquanto terminava de colocar a louça para lavar, Kakashi assistia pela tela do seu celular uma mulher mergulhada numa banheira cheia de espuma tocar seus seios de maneira erótica enquanto uma música tortuosa serpenteava pelo ambiente, junto com a luz amarelada que coloria sua pele num tom quente.
Healer suspirava ao passo que os estímulos no mamilo se tornavam mais intensos e presentes. O ângulo era um super close de sua pele umedecida, as gotas se projetando na clavícula e a espuma cobrindo uma parte de seu corpo, prometendo muito mais. Seus lábios também eram visíveis, e Kakashi sabia que ela estava usando o celular como câmera, afinal não podia montar um equipamento de filmagem sem levantar suspeitas.
Sakura continuou com suas lives mesmo encarcerada. Justificou a mudança de ambiente aos seus superfãs como um imprevisto no seu apartamento e que logo tudo se resolveria, enquanto isso fazia shows de seu celular com ângulos fechados em seu corpo, as vezes narrando histórias pervertidas, as vezes brincando com algum objeto ao seu alcance.
Qualquer coisa virava um ato erótico quando Sakura estava na frente da câmera.
O botão de show privado finalmente emergia, sinalizando que meia hora de show já havia se passado. Kakashi sentiu-se nostálgico quando clicou sem pensar no link, que exigiu a confirmação que estava disposto a pagar cinco mil ienes por apenas 1 minuto de tempo exclusivo com ela. Sakura havia aumentado seu valor e diminuído seu tempo para afastar de vez qualquer um que quisesse exclusividade, porque isso era algo que apenas Kakashi detinha, algo que combinaram assim.
Estou ciente e desejo continuar.
Viu o sorriso breve nos lábios da moça segundos antes de sua tela mudar para a tão característica tela dos shows privados. Sakura afastava o celular dando uma visão melhor para Kakashi, mantendo sua máscara branca bem colocada na face.
— Boa noite.
Ela disse naquele tom de voz que usava sempre que assumia sua identidade como a segunda maior stripper da internet. Healer: Online.
— Sentiu saudades de mim, Sakura? – Ele perguntou sacana, olhando para ela com aquele sorriso pervertido no rosto, como se fosse o Kakashi de meses atrás, entrando ansioso em suas lives porque não conseguia tirá-la da cabeça, e tanta coisa tinha mudado desde então, mas ela continuava como um pensamento tão frequente em si.
— Você sabe a resposta para essa pergunta. – Respondeu deslizando um dedo pelo seu pescoço, com seus olhos verdes ardendo em luxuria — Sempre sinto falta dessa sua voz.
— Eu não consigo tirar você da cabeça – Kakashi continuou como se nada tivesse mudado, porque certas coisas ainda permaneciam as mesmas — Ainda sinto seu gosto na minha boca, e ainda é tão bom quanto da primeira vez.
Sakura sustentou seu olhar para a câmera, penetrando os pensamentos de Kakashi com seu brilho perigoso em tom verde, e talvez fosse o vapor quente da água em sua pele, mas por um segundo Kakashi achou que a viu corar, mas aquele perigo excitante ainda brilhava através da lente da câmera.
— Acho que vou te fazer uma visita noturna – Kakashi disse enfiando a mão dentro de sua cueca para conferir sua ereção latente enquanto a tão erótica stripper escorregava suas mãos para dentro da espuma, fechando os olhos de uma maneira muito específica.
— Por mais que eu quisesse, acho que não consigo esperar – Ela disse com um gemido fino no final, ondulando seus ombros enquanto jogava a cabeça para trás, deixando muito claro estar tocando a si mesma da forma mais prazerosa que conhecia.
Kakashi soltou o ar.
— Lembra da última vez que estivemos juntos numa banheira? – Ele perguntou com uma voz mais grave enquanto as sensações daquele dia se misturavam com sua excitação causadas pelas imagens em seu celular. Sakura soltou uma confirmação que soou como um gemido longo, abrindo seus olhos enquanto mordia os lábios discretamente. — Céus, você é tão gostosa. Hoje essa banheira seria pequena demais para nós dois.
A mulher sorriu brevemente em seu estado de prazer e divertimento.
— Não consigo me decidir o que faria se você estivesse aqui – Ela disse dando os ombros daquele jeito manhoso — Acho que te deixaria aqui, deitado do outro lado da banheira, para você conseguir me ver.
— E o que eu estaria vendo você fazer? – Ele perguntou esfregando a cabeça de seu pau imaginando Sakura com um pé sob seu peito enquanto tocava a si mesma, jogando a cabeça para trás, expondo aqueles seios rosados e seu pescoço convidativo.
— Você sabe... – Sorriu umedecendo os lábios, fazendo-os brilhar com a luz quente que tocava sua pele. Kakashi deixou escapar um gemido baixo enquanto segurava mais firme meu membro, começando movimentos de vai e vem. — Se você se comportasse, até te faria gozar com meus pés.
— Sakura... – Ele se curvou para frente, colocando o celular sob uma mesa de forma descuidada, o ângulo torto cortava uma parte de seu cabelo alto, pegando a ponta de seu pau.
— Adoro quando você geme meu nome – Ela disse com sua voz embargada naquela satisfação libidinosa que a tomava em momentos como aquele, quando ela deixava para trás todo o resto e se concentrava exatamente no que estava a sua frente. — Eu definitivamente quero rebolar no seu pau. – Declarou voltando a se tocar com urgência, completamente estimulada pelos gemidos roucos emitidos pelo homem que aumentava a velocidade do ato. — Kakashi... Ah...
Não era só ela que adorava aquilo.
Kakashi apertou os olhos com força enquanto seu corpo se preparava para o ápice. Sua respiração descompassada e o suor na pele aumentavam drasticamente, se sentia tão quente, prestes a explodir, e quanto mais seu pau pulsava, mais Sakura gemia pelos autofalantes, mais ela dominava seus sentidos com sua aura erótica tão intensa.
Abriu a boca para deixar o ar escapar enquanto o liquido viçoso escorria pela sua mão. Ficou um instante parado sentido o corpo ainda tão quente antes de olhar para a tela do seu celular e encontrar Sakura em pura agonia. Estava buscando o prazer com afinco, mordendo seu lábio com força enquanto se remexia na banheira, agitando a água em sua volta, com seus joelhos emergindo e submergindo ao passo que sua agonia aumentava.
Céus...
Ele só queria estar por cima dela agora, cobrindo seu corpo ondulante, gozando em sua boceta quente e convidativa. Estava fascinado pela visão da moça em sua intimidade violada, em sua expressão de desejo ardente, tentando conter seus ruídos que eram um deleite para qualquer homem que pudesse ouvir.
— Você não faz ideia de como eu queria poder foder com meu pau agora – Ele disse sem nenhum receio, porque era exatamente como se sentia. — Sakura, goze. – Pediu porque estava prestes a perder a sanidade — Apenas goze – Disse novamente porque desejava tanto ver...
Aqueles olhos nublados, sua boca tremula, sua respiração ofegante... Queria ouvir aquele último gemido, e podia ser baixo ou mais alto, mas o último era sempre o mais gostoso. Queria poder ter o vislumbre, mais uma vez, daquela expressão que o fascinava completamente, do ápice de seu orgasmo que a dominava.
— ... Kakashi...
Sim...
— Eu estou aqui, Sakura. Estou aqui com você.
De corpo e alma.
E então, Sakura era apenas prazer.
Deixou o corpo amolecido na banheira enquanto sentia os efeitos do orgasmo em seu corpo. Abriu seus olhos brevemente para ver Kakashi parecendo atordoado. Riu brevemente, se afundando um pouco mais no resto de água presente na banheira enquanto seu rosto em tom avermelhado se fazia presente. Ele soltou uma risada com a demonstração de vergonha da mulher, que céus, ia de um extremo a outro em segundos.
— Você é muito fofa – Ele declarou com humor enquanto ela jogava um pouco de água na direção do próprio celular.
— Me sinto insultada quando você faz esse tipo de comentário logo após o sexo – Ela disse de maneira petulante. — Quer dizer, imagine eu dizer que você é fofo logo depois de te chupar?
— Eu quis dizer que você fica fofa quando fica com vergonha de repente – Explicou depois de uma breve risada — Durante o sexo a última coisa que você é, é fofa.
— Bajulador – Sakura resmungou com humor, dando uma breve pausa antes de continuar — Eu realmente tô com saudades de só... Ficamos juntos.
— Eu também, meu amor.
Eles conversaram por um longo momento. Sakura finalmente saia da banheira resmungando sobre estar engelhada enquanto Kakashi entrava no chuveiro para o banho. Era estranho, mas parecia que tinham voltado à época dos seus encontros nada casuais no site pornô, e ao mesmo tempo parecia que tinham desbloqueado um novo nível de intimidade a ponto de Kakashi tomar banho durante uma vídeo-chamada apenas para continuar conversando com a moça que se enchia de hidratante.
Se despediram quando o sono finalmente os alcançou com a promessa que se veriam no outro dia. Kakashi depositou o celular na mesa de cabeceira e apenas cedeu ao mundo dos sonhos que havia se tornado cor de rosa.
Mas não ficou ali por muito tempo.
Acordou subitamente com longos latidos advindos do seu quintal. Havia um alvoroço acontecendo entre seus cachorros que, geralmente, eram bem silenciosos. Coçou os olhos com preguiça enquanto ouvia Buru uivar tão alto que Akino e Shiba resolveram acompanhá-lo. Kakashi já conhecia o som da voz de todos eles, diferenciando seus ruídos com facilidade. Buru, Akino e Shiba eram os únicos que uivavam, enquanto os outros apenas latiam de maneira desconexa.
Ele se levantou num pulo quando o latido esganado de Pakkun se fez presente. Era o único que não se importava com visitantes no quintal. Nunca se animou em perseguir esquilos, gambás ou qualquer outra coisa que pudesse aparecer, e por isso, quando Pakkun latia, Kakashi sabia que havia algo muito errado.
Olhou pela janela enquanto via Ūhei correr de um lado para o outro, como se não soubesse o que fazer. Todos pareciam agitados, inclusive Urushi circulava o local onde Buru, Akino e Shiba estavam de pé, uivando como uma melodia lamuriosa. Kakashi se apressou para descer as escadas, abrindo a porta num solavanco e sequer se importou em estar descalço ou com o vento frio que lhe cortava a pele.
Andou depressa pelos animais que logo o circulavam, como se esperassem que ele pudesse fazer alguma coisa. Pakkun lhe pulava, arranhando sua panturrilha com as unhas, como se quisesse lhe avisar. Quando chegou no trio uivante, Kakashi viu um saco plástico amarelo completamente destruído com restos de algo que não parecia saudável, um bilhete estava borrado por saliva num aviso já conhecido.
Fique longe dela.
E ao logo ao lado, Bisuke jazia sem vida.
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I'm think about to translate this story to english HAHAH but i dont know if i haver the skills for that. It's just a think in the moment... So no expectations.
Well... Love u, guys, and STAY WITH ME, this fanfiction is gonna be blow mind
