Rússia, São Petersburgo, 27 de abril de 1912
A viagem entre os Estados Unidos e a Rússia foi cansativa, difícil, terrivelmente monótona e dolorida. Marina estava em uma situação delicada que piorou naquela viagem, seus enjoos triplicaram e ela o fazia quase que a todo momento, não aguentava sentir o cheiro de certos alimentos e estava sonolenta ao extremo. Não aproveitou – já não podia mesmo – nada da viagem, não conseguia nem mesmo ir ao convés pela manhã, que era algo para ela quase que comum quando viajava em um navio. Comia por obrigação, mas logo colocava tudo para fora. Serguei proibiu que as doenças de Isabella e de Marina fossem discutidas, para ele não passava de frescura e sensibilidade.
Em razão da chegada iminente de Serguei, todo o palacete que ficava localizado na capital russa foi obrigado a acordar de seu sono. Suas janelas, anteriormente enfeitadas com cortinas rasgadas, deram lugar a lindas cortinas brancas de tecido requintado. Os quartos foram limpos, quadros recolocados em seu devido lugar, os lustres foram acesos e os relógios, ligados. O palacete era um luxo por fora e por dentro, sua construção fora baseada nos palácios imperais russos, era mistura de todos eles de forma mais simples, mas ainda assim, um belo prédio de três andares bem alinhados, muitas grandes janelas e portas com detalhes em branco. Na entrada havia um muro separado por um portão, nas colunas deste mesmo portão haviam dois postes para iluminação na parte noturna e uma trilha dava acesso a grande porta de entrada. Se durante dois anos o local foi visto como objeto de assombro, que as mães usavam para fazer as crianças russas irem para cama mais cedo, essas lendas urbanas se desfizeram com a abertura das janelas pelos empregados que caminhavam sem parar pelos imensos corredores que lembravam os labirintos para deixar tudo na mais perfeita ordem, o senhor Hondjakoff odiaria se seu palacete não estivesse da forma como ele queria.
– Está tudo pronto. – Uma empregada de cabelos ruivos assentiu para uma senhora de idade, a governanta.
– Espero mesmo, senhorita Anayev. – A senhora respondeu. – Estamos a receber sobreviventes do Titanic, eles devem ser recebidos como heróis e com uma casa acolhedora.
– Sim, senhora. – Respondeu a jovem, se retirando.
A velha mulher havia visto Serguei se tornar um homem psicótico e sabia de sua personalidade e história de vida. Aquela casa tinha muito o que contar, a mais alta sociedade russa já havia passado por ali em algum momento da história. A buzina indicava que o senhor Hondjakoff havia acabado de chegar e deveria ser recebido como um rei. A governanta caminhou rapidamente e retomou sua postura de pessoa séria. Desceu do carro um homem de terno e chapéu, em seguida uma bela jovem, uma mulher de idade e uma menina muito baixa. Karennina Ekomov arqueou a sobrancelha.
– Senhora Ekomov. – Serguei exclamou. – Quanto tempo não vejo minha tão querida governanta!
– Ora, Serguei, sem tantas formalidades, já nos conhecemos a anos. – Sorriu.
– Oh, Karennina, esta é minha noiva. – Apresentou uma Marina claramente desconfortável. – Marina Claire Potter.
– Prazer em conhecer a senhorita. Sou Karennina, a governanta dos Hondjakoff.
– O prazer é todo meu. – Falou Marina, desconfortavelmente e muito enjoada. – Se não for muito inconveniente de minha parte, posso ir ao banheiro?
– Claro. – A mulher percebeu o desconforto de Marina. – Vou lhe levar.
Marina subiu aos degraus e acompanhou. A jovem nunca havia visto na vida algo que pudesse ser comparado ao luxo do palacete dos Hondjakoff. Pinturas, lustres, quadros, escadas, objetos que cintilavam, detalhes em ouro. Era tudo muito bonito e refinado, e à medida que subia as escadas em direção ao corredor dos quartos encontrava ainda mais luxo. Entrou no seu quarto provisório – afinal depois de casada iria dormir com um monstro – e a primeira coisa que reparou foi em um vestido de noiva estirado sobre a cama e em cima desse vestido, uma espécie de tiara que ela nunca havia visto, mas era pesado e feito de joias. Marina pegou aquilo em sua mão, olhando cada detalhe minuciosamente, ao colocar na cabeça e se encarar no espelho, sentiu o vômito lhe fazer saltar para uma porta que suponha ser o banheiro, e felizmente, acertou.
– Senhorita Potter, tudo bem? – A mulher perguntou, estranhando.
– Quais os sintomas de uma gravidez? – Marina foi direta na pergunta.
– Perdão, senhorita, não entendi.
– Quais os sintomas de uma gravidez? – Voltou a perguntar, a encarando e em seguida colocou o rosto na pia.
– Aversão a cheiros fortes, atraso nos dias de mulher, sensibilidade e aumento nos seios e aumento excessivo de sono. Não me diga que...?
– Não. Desse infeliz eu não aguardo nada! – Gritou. – Se for, é de outro homem.
Karennina estava chocada.
– Santo Deus. Se for de fato gravidez, ele não vai demorar a perceber.
– Exatamente. – Marina correu em direção a mulher. – A senhora precisa me ajudar a fugir daqui, para começo de conversa eu fui sequestrada, tive meus pulsos amarrados, fui agredida e vou ser obrigada a casar com um psicopata em uma terra que eu não sei nem sei como se fala um bom dia!
– Eu vou ajudar a senhorita. Eu sei quem Serguei é, o conheço desde menino e lhe garanto que ele sempre foi assim. – Ela olhou para trás. – Agora vamos esperar para ver se seus sintomas vão passar ou piorar.
– Ele não vai deixar um médico me examinar. Minha irmã de sete anos está com alguma doença grave, ela tosse sangue e o infeliz não permitiu que ela fosse examinada. Duvido muito que ele permita.
– Se acalme. – Karennina tocou em seu braço. – Não se estresse ou vai fazer mal ao seu suposto bebê.
– O café da manhã está na mesa. – Falou uma voz juvenil. – O senhor Hondjakoff quer ver todos imediatamente.
– Um momento. – A mulher falou calmamente. – Mantenha a postura e não o provoque. – Karennina sussurrou.
– Vou tentar.
Marina e a mulher saíram do quarto em direção a sala de jantar. Isabella já estava sentada, tentando assimilar o que era aquilo que estava espalhado pela grande mesa. A garota não estava animada em chegar em solo russo, não era nada do que ela lia nos livros, na verdade era muito diferente de tudo que leu. As pessoas eram fechadas, raramente sorriam, tinha rostos cansados e pareciam muito revoltados com alguma coisa. Pela cidade eram espalhados cartazes e caricaturas horrorosas, mas ainda assim, São Petersburgo parecia ter uma certa magia a envolvendo.
– Explique para elas do se tratam estes alimentos espalhados. – Serguei ordenou em sua língua natal.
– São panquecas... – O homem começou a falar em russo.
– Em inglês, idiota!
Marina fingiu não estar vendo nada.
– Aqui temos mingau de semolina. – Apontou para uma tigela com uma mistura branca e frutas picadas. – Blini. – Apontou para as panquecas russas. – E Charlotka. – Mostrou uma torta de maçã a moda russa.
– Isso está mais para gororoba. – Isabella sussurrou para a irmã.
– Cale-se, Isabella. – A mãe ordenou.
– Tinha um vestido de noiva em uma tiara em meu quarto. – Marina não escondeu sua curiosidade. – Por algum acaso tem haver com o que penso?
– Sim. Iremos nos casar em breve. Mas antes quero fazer um pequeno baile para apresentação da mulher de minha vida a alta sociedade russa e ao imperador.
– Imperador? – Indagou Riley, sem entender.
– Sim. Ao czar Nicolau II, o governante de toda essa vasta extensão chamada Rússia. – Ele falou, orgulhoso.
– Esse não leu os jornais. – Sussurrou um empregado. – Nicolau está afundando este país.
– Ele tem quatro lindas filhas e um herdeiro. – O homem pegou um Blini. – Oh, que prazer será receber o imperador em minha casa.
– Que bom para ele. – Marina rebateu fria. – Espero que demore bastante.
– Não. Já está marcado. – Serguei respondeu. – Não pense que suas sensibilidades vão impedir meus planos.
– Mas Isabella está doente e pode ser contagioso. Seria um erro fazer um noivado e contaminar o próprio imperador. – Marina o encarou.
– Essa pirralha só atrapalha. – Sussurrou. – Ela não vai ao noivado, simples.
– Quer dizer que eu não posso participar dessa catástrofe na vida da minha irmã? – Isabella não teve medo de enfrentar. – No mínimo esse noivado vai causar problemas, já que é só isso que o senhor sabe causar. Quer causar problemas na frente do imperador russo?
– E se for, é da sua conta? – Serguei estava furioso. – Quem disse que você vai ver a família real? já que você gosta tanto de dizer que está doente, vai ficar de cama e trancada no quarto até melhorar! Problema resolvido.
Riley continha a vergonha de ter um genro tão louco. Marina nem sabia o que falar.
– Karennina, leve essa pirralha para o quarto dela e ela só sai de lá quando eu mandar.
– Sim, senhor. – A mulher ajudou Isabella a descer da cadeira.
– Que cena patética, Serguei. – Marina o encarou. – Quando eu penso que você não pode se tornar ainda pior.
– Quando você casar comigo eu irei mudar. Prometo.
Marina vomitou na mesa, sujando tudo de vômito.
– Sua desgraçada! – Ele vociferou. – Como você foi capaz de sujar minha prataria de vomito?
– Foi sem querer. – Marina tentou se explicar.
– O que aconteceu com você, Marina? – Riley estava estranhando. – Tantos vômitos...
– Não... – Serguei falou não repetidas vezes. – Você não está grávida daquele marinheiro de quinta...
– Claro que não! – Marina gritou. – Nunca me senti tão ofendida!
Marina sabia que se Serguei pelo menos suspeitasse de uma gravidez seria o seu fim. Uma criança iria desencadear o ódio quando era pra ser o contrário.
– Vou descansar. Talvez a viagem tenha me feito mal.
A jovem se retirou rapidamente, mas sabia que poderia estar esperando um bebê. Um bebê do Titanic, um bebê de Harold Godfrey Lowe.
