Capítulo 29
Raiva
"You do such damage, how do you manage?"
"What Kind of Man" - Florence and The Machine.
No início da noite do dia seguinte, Elizabeth e Harry se encontraram a caminho do gabinete do diretor. Ela percebeu que o garoto parecia incomodado, como se quisesse lhe contar ou questionar alguma coisa, mas decidiu por não perguntar nada ao menino. Adentraram juntos a sala esparsa do gabinete, onde Dumbledore, com sua mão feia e morta, os esperava ao lado da penseira.
— Boa noite, crianças — ele mal esperou os dois responderem. — Ouvi dizer que você se encontrou com o Ministro da Magia no Natal, Harry.
— Sim — o menino confirmou. — Ele não pareceu ficar satisfeito comigo.
— Não — suspirou o diretor. — Ele não está muito satisfeito comigo também. É preciso tentar não sucumbir ao peso de nossas angústias, Harry, e continuar a luta.
O garoto sorriu e Elizabeth segurou uma risada, já cansada das frases de efeito do padrinho.
— E o que ele queria? — Ela perguntou.
— Que eu dissesse à comunidade bruxa que o Ministério tem feito um ótimo trabalho.
— Essa ideia foi originalmente de Fudge. — Dumbledore sorriu. — Nos últimos dias como ministro, ele tentou desesperadamente se manter no cargo. Quis se encontrar com você, Harry, na esperança de ter o seu apoio.
— Depois de tudo que aconteceu no ano passado? — Harry exclamou. — Depois de Umbridge?
— Eu disse a Cornélio que não havia a menor chance. Mas a ideia não morreu e horas depois de Scrimgeour ser nomeado, nos encontramos e ele exigiu que marcasse uma reunião com você...
— Então foi por isso que os senhores se desentenderam — deixou escapar. — Deu no Profeta Diário.
— Sim — confirmou. — Bem, parece que Rufo conseguiu te encurralar, afinal.
— Ele me acusou de ser "por inteiro um homem de Dumbledore".
— Que grosseria.
— Eu disse a ele que era.
Elizabeth ergueu as sobrancelhas e olhou de Harry para Dumbledore, encontrando o padrinho sem reação e até mesmo um pouco emocionado. O garoto pareceu ficar um tanto constrangido e abaixou os olhos para fitar os próprios joelhos.
— Fico comovido, Harry.
— Scrimgeour queria saber onde o senhor vai quando não está em Hogwarts — disse ainda olhando para os joelhos.
Elizabeth olhou intensamente para Dumbledore, como se lhe dissesse "o cerco está se fechando", mas o diretor continuou impassível.
— É, ele anda muito curioso a respeito disso — comentou num tom leve e o menino voltou a olhar para ele. — Chegou a pôr Dawlish atrás de mim. Precisei azará-lo, lamento muito por isso.
— Então eles continuam sem saber aonde o senhor vai? — Perguntou claramente interessado em ter mais informações sobre as constantes ausências do mais velho.
— Continuam, e ainda não é a hora de você saber. Agora, vamos ao que interessa? Ou vocês querem dizer mais alguma coisa?
— Na verdade, quero sim, senhor — disse Harry. — Sobre Malfoy e Snape.
— Professor Snape, Harry.
— Sim, senhor — continuou. — Eu escutei os dois conversando durante a festa de Natal do professor Slughorn. Na verdade, eu os segui...
Dumbledore e Elizabeth ouviram em silêncio a história que o garoto contava. Os dois permaneceram impassíveis e tomaram o maior cuidado possível para não levantarem suspeitas.
— Obrigado por contar, Harry. — Dumbledore disse após um instante calado. — Mas sugiro que esqueça o assunto. Acho que não tem grande importância.
— Não tem grande importância? — O garoto se indignou e olhou rapidamente para Elizabeth, como se procurasse algum apoio, mas ela permaneceu quieta. — Professor, o senhor entendeu...?
— Claro, Harry. Abençoado como sou com uma extraordinária capacidade intelectual, eu entendi tudo que disse. — Falou com rispidez, e Elizabeth revirou os olhos diante da grosseria desnecessária.
Mas Potter insistiu em sua linha de pensamento e mais uma vez questionou o julgamento que o diretor fazia sobre a confiança em Snape. Elizabeth notou que Dumbledore parecia irritado com a situação e, até mesmo, tratou o pupilo grosseiramente. Por mais que quisesse, ela achou melhor não se intrometer. Aquilo era assunto entre os dois. Além disso, não estava disposta a falar sobre Snape após a noite anterior.
— Bem — Dumbledore prosseguiu —, na nossa última reunião vimos o pequeno Tom no orfanato. Arrogante, animado com a revelação de que era um bruxo. Ele chegou à Hogwarts e logo foi selecionado para a Sonserina, o chapéu seletor mal lhe tocou a cabeça. Não sei dizer em que momento descobriu que o fundador da Casa também era ofidioglota, mas imagino que deve ter sido ainda naquela noite. Com certeza isso lhe aflorou ainda mais o senso de importância.
"Contudo, se ele estava assustando ou impressionando os outros alunos com demonstrações de ofidioglossia ou magia das trevas, nenhum professor soube disso. Tom, na verdade, se mostrou muito educado, quieto e interessado no aprendizado. Os professores o adoravam."
— Não contou aos professores sobre como ele se comportou no orfanato? — Elizabeth questionou.
— Não. Mesmo que ele não tivesse demonstrado remorso, eu quis acreditar que ele havia se arrependido da maneira que agiu e que queria virar a página. Escolhi lhe dar essa oportunidade.
Harry pareceu querer dizer algo, mas se calou. Elizabeth imaginou – considerando a conversa anterior sobre Snape – que o garoto o questionaria se, naquela época, o diretor confiava em Tom Riddle como confiava no agora professor de DCAT. Depois de parecer deliberar sobre o que dizer, Harry disse:
— Mas o senhor não confiava realmente nele, não é? O Riddle que saiu do diário me disse: "Dumbledore nunca pareceu gostar de mim como os outros professores."
— Digamos que eu não pressupus que ele fosse confiável. — Dumbledore respondeu. — Como eu havia dito, decidi vigiá-lo de perto, mas não posso dizer que obtive grandes coisas com as minhas observações. Tom tinha noção de que deixara escapar muita coisa em sua euforia durante o encontro no orfanato e tinha ciência da minha conversa com a governanta. Ele decidiu agir cautelosamente comigo. Nunca se abriu comigo ou tentou me agradar como fazia com meus colegas.
"Com o passar dos anos aqui na escola, ele reuniu ao seu redor um grupo de 'amigos' dedicados. Claro, ele não se importava realmente com eles. O grupo exercia uma espécie de fascinação sombria no castelo. Era um grupo bem curioso; uma mistura de fracos buscando proteção, ambiciosos à procura de poder, violentos que rondavam um líder capaz de ensinar outras formas de crueldade. Pode-se dizer que estes foram os primeiros Comensais da Morte. Na verdade, alguns realmente se tornaram comensais depois que se formaram.
"Riddle os controlava com rigor, então eram muito cuidadosos. Nunca foram apanhados, mesmo que durante aqueles anos tivessem acontecido alguns episódios preocupantes, o pior deles, é claro, a abertura da Câmara Secreta, que deixou uma aluna morta.
"Não consegui encontrar muitas memórias sobre seus anos em Hogwarts. Aqueles que conviveram com ele estavam assustados demais para falar sobre. Procurei por muito tempo pelos poucos que estavam dispostos a falar sobre Tom, e soube que ele era uma pessoa extremamente interessada em sua ascendência. Afinal, ele cresceu num orfanato. Parece que ele procurou por vestígios do pai nos brasões na sala de troféus, na lista de monitores antigos, nos livros de formandos, livros de História bruxa, até se convencer de que seu pai nunca havia pisado em Hogwarts. Creio que, então, abandonou o nome de batismo, adotou o codinome de Lorde Voldemort e começou a investigar a família da mãe que ele desprezava, pois não achava que uma bruxa poderia sucumbir à morte.
"Sua única pista era o seu nome do meio, 'Servolo', que sabia pelos funcionários do orfanato que era o seu avô materno. Finalmente, depois de longas pesquisas, descobriu a existência do ramo sobrevivente da família Slytherin — o diretor percebeu que Elizabeth se mexeu desconfortável na cadeira. — No verão de 1942, ele saiu do orfanato e foi à procura de seus parentes Gaunt. E, agora, crianças, se vocês levantarem..."
Elizabeth e Harry se aproximaram da Penseira e giraram juntos até seus pés aterrissarem num chão sujo. Demorou alguns segundos até que percebessem que estavam de volta à casa dos Gaunt, mas a residência estava mais imunda do que imaginavam ser possível.
Jogado na poltrona próxima à lareira, estava um homem cujos cabelos e barba estavam tão longos que mal podia-se perceber os olhos e boca. O homem acordou num pulo quando ouviu as batidas na porta. Ele se ergueu da poltrona, apunhalando a varinha numa mão e uma faca na outra.
A porta de abriu com um rangido terrível. À soleira, segurando uma lamparina, estava Voldemort adolescente: alto, pele pálida, cabelos escuros e muito bonito. O homem maltrapilho arregalou os olhos diante da visão.
— VOCÊ! — Berrou. — VOCÊ!
Ele correu na direção de Tom e derrubou as várias garrafas espalhadas pelo piso de pedra.
— Pare. — Tom disse em ofidioglossia.
O outro parou subitamente, surpreso que o jovem soubesse falar a língua das serpentes. Ele cambaleou para trás e atingiu a mesa, fazendo com que alguns utensílios embolorados caíssem com estrondos.
— Você sabe falar?
— Sei. — Tom adentrou a casa e analisou o interior. Seu semblante apenas transmitia desprezo e desapontamento. — Onde está Servolo?
— Morreu. Morreu há muitos anos.
O jovem franziu o cenho.
— Quem é você, então?
— Sou o Morfino, não sou? — Respondeu confuso.
— O filho de Servolo?
— Claro que sou.
Morfino afastou os cabelos do rosto para analisar melhor o jovem rapaz e Elizabeth percebeu que ele usava o anel.
— Pensei que você fosse aquele trouxa — sussurrou Morfino. — Você é a cara do trouxa.
— Que trouxa? —Riddle perguntou com rispidez.
— Aquele que minha irmã gostava, o que morava na casa grande na estrada. —O homem respondeu e cuspiu no chão entre os dois. — Você é igualzinho a ele. Riddle. Mas ele está mais velho agora, não é? Sim, agora estou percebendo... É... Ele está mais velho...
Morfino pareceu atordoado por alguns instantes e encostou-se na mesa coberta de lixo.
— Ele voltou —acrescentou dementemente.
Voldemort fitava o outro como se avaliasse suas possibilidades. Aproximou-se lentamente e perguntou:
— Riddle voltou?
— Ah! Ele a deixou... E foi bem feito, pois se casou com a ralé! —Morfino voltou a cuspir no chão em total desprezo. — E ainda roubou a gente antes de fugir! Onde está o medalhão, hein? Onde está o medalhão de Slytherin?
Voldemort não respondeu. Morfino se enraiveceu outra vez e tornou a brandir a faca gritando:
— Ela desonrou a gente, aquela vadia! E quem é você para entrar aqui e ficar fazendo perguntas sobre isso? Já acabou, né... Saia!
Desviou o olhar quando cambaleou e Voldemort adiantou-se em sua direção. Logo a parca luz do ambiente se apagou e Dumbledore segurou Elizabeth e Harry pelos braços. Retornaram ao gabinete do diretor; a claridade ofuscando os olhos após a escuridão da memória.
— É só isso? — Perguntou Harry. — Por que ficou escuro? O que aconteceu?
— Porque Morfino não conseguiu se lembrar de mais nada daquele ponto em diante. — Dumbledore disse e pediu para que se sentassem. — Quando ele acordou na manhã seguinte, estava jogado no chão, sozinho. O anel havia desaparecido.
"Nesse meio-tempo, na aldeia em Little Hangleton, uma empregada corria pela rua principal gritando que havia três corpos caídos na sala de visitas na casa grande: Tom Riddle pai, e a mãe e o pai dele.
"As autoridades trouxas ficaram perplexas. Acredito que nunca conseguiram descobrir o que houve com os Riddle, porque a Maldição da Morte não deixa rastros... A exceção está na minha frente – acrescentou apontando para a cicatriz do garoto.
"Por outro lado, é claro, o Ministério percebeu logo que se tratava de um homicídio causado por um bruxo. Percebeu, também, que um sentenciado que odiava trouxas morava perto da cena do crime. Um bruxo que já havia sido preso por ter atacado uma das vítimas.
"Então o Ministério fez uma visita a Morfino. Não foi preciso Veritaserum nem Legilimência. Morfino confessou os assassinatos logo de cara, inclusive deu detalhes. Disse que sentia orgulho de ter acabado com os trouxas. Entregou a varinha e foi comprovado que fora usada para o assassinato dos Riddle. Foi levado para Azkaban sem maiores dificuldades. A única coisa que o perturbava era a perda do anel. Ele ficava dizendo: 'Ele vai me matar por ter perdido o anel.' E, aparentemente, era a única coisa que passou a conseguir dizer. Ele morreu em Azkaban anos depois."
— Então Voldemort roubou a varinha de Morfino para cometer os assassinatos?
— Exatamente — o diretor confirmou. — Não temos memórias para ter certeza do que aconteceu, mas não é difícil de se presumir. Voldemort estupeficou o tio, seguiu para a "casa grande na estrada", matou o pai que abandonou sua mãe e, por precaução, matou os avós também. Voltou para a casa dos Gaunt, pôs a varinha ao lado de Morfino, implantou uma lembrança falsa sobre o crime e roubou o anel.
— E Morfino nunca percebeu que não tinha sido ele? — Harry parecia um pouco confuso.
— Não. Como puderam ver, Morfino já possuía a mente fragilizada.
— Mas ele guardou a lembrança verdadeira esse tempo inteiro!
— Sim, mas foi necessária muita Legilimência para consegui-la. E por que alguém iria perder tempo investigando a mente de Morfino se ele já confessara o crime? Mas consegui permissão para visitá-lo em suas últimas semanas de vida, quando estava procurando o máximo de informações possíveis sobre o passado de Voldemort. Foi muito difícil conseguir a lembrança. Quando percebi o conteúdo, tentei usá-la para absolvição de Morfino, mas ele morreu antes do Ministério tomar uma decisão.
— Mas como o Ministério nunca percebeu que Voldemort tinha feito tudo isso? — Indignou-se. — Ele não era menor de idade? O Ministério não detecta o uso de magia por menores de idade?
— O Ministério detecta o uso da magia, mas não o autor. — Elizabeth respondeu. — Se, por exemplo, a magia for realizada numa casa de bruxos, pode ter sido feita por qualquer pessoa.
— Agora, numa casa de trouxas onde só há um bruxo... — Dumbledore complementou. — Foi o que aconteceu com você, Harry, em seu segundo ano, quando foi acusado de realizar o Feitiço de Levitação.
— E tinha sido o Dobby — o garoto entendeu. — Ora, isso é ridículo! Veja o que aconteceu com Morfino!
— De fato. Mas está ficando tarde e ainda precisamos ver mais uma lembrança, a mais importante. — O mago pegou outro frasco de memórias. — Essa será bem rápida.
Os três rodopiaram novamente através da Penseira e aterrissaram na frente de um homem que logo reconheceram.
Horário Slughorn estava mais jovem, mas era perfeitamente reconhecível. Estavam no escritório do professor. Ele estava sentado sobre uma bela poltrona, com os pés sobre um pufe, e havia meia dúzia de garotos sentados ao redor do professor. Riddle era facilmente reconhecido, sentado relaxado em sua cadeira com o anel de Servolo no dedo.
— Senhor, é verdade que a professora Merrythought está se aposentando? — Perguntou Riddle.
— Tom, Tom, se eu soubesse não poderia lhe dizer — respondeu Slughorn, balançando a cabeça em censura, mas piscou para o aluno logo em seguida. — Gostaria de saber onde obtém suas informações, garoto. Sabe mais do que os outros professores.
Os outros alunos deram risadinhas e olharam para Riddle com admiração.
— Com sua fantástica habilidade para saber o que não deve e sua bajulação cuidadosa das pessoas certas... Aliás, obrigado pelo doce, é o meu preferido...
Os garotos riram e algo estranho aconteceu. A sala foi tomada por uma névoa densa que impossibilitava a visão de qualquer coisa na cena. Então, a voz de Slughorn se fez ouvir, visivelmente alterada:
— ... você vai acabar mal, rapaz... escute bem o que estou te dizendo.
De repente, a névoa se desfez, tão repentina quanto quando surgira. Os personagens da cena pareciam completamente alheios ao que acontecera. No mesmo momento, um pequeno relógio em cima da escrivaninha batia onze horas.
— Santo Deus, já é assim tão tarde? — Exclamou o professor. — É melhor irem andando ou vamos nos meter em confusão. Lestrange e Avery, quero o trabalho de vocês amanhã, sem adiamento.
Os garotos saírem aos poucos enquanto Slughorn se dirigia para sua escrivaninha. Notaram, Elizabeth e Harry, que Riddle se demorava de propósito para ficar a sós com o professor.
— Ande logo, Tom. — Slughorn disse quando se virou e o viu ali ainda. — Não quer arrumar encrenca estando fora da cama depois do horário. Ainda mais sendo monitor.
— Professor, eu queria fazer uma pergunta.
— Pois pergunte.
— Senhor, estive me perguntando o que o senhor sabe sobre... sobre horcruxes?
O coração de Elizabeth palpitou e o mesmo fenômeno da névoa voltou a acontecer. Então a voz de Slughorn ecoou novamente:
— Não sei nada sobre horcruxes e não diria se soubesse! Agora saia imediatamente daqui e não me deixe pegá-lo falando disso novamente.
— Bem, é isso. — Dumbledore declarou. — Podemos voltar.
Eles retornaram ao escritório e Elizabeth se sentou pensativa.
— É só isso? — O garoto perguntou.
— A lembrança foi alterada, Harry — ela respondeu.
— Alterada? — Repetiu enquanto se sentava também. — Mas por quê?
— Acredito que o professor Slughorn tenha vergonha da lembrança. — Dumbledore comentou. — E então ele tentou alterá-la, torná-la mais favorável, apagar o que não quer que eu veja. Fez isso, como deve ter reparado, de uma maneira tosca. Mas o que foi muito bom, porque mostra que a lembrança verdadeira ainda está lá.
"Então, Harry, pela primeira vez, você tem dever de casa. Preciso que convença o professor Slughorn a lhe dar a lembrança verdadeira, pois ela terá a informação mais crucial para nós."
— Mas, senhor — o menino disse no tom mais respeitoso possível —, com certeza o senhor pode fazer isso sem mim. Pode usar Legilimência ou Veritaserum...
— O professor Slughorn é um bruxo muito competente, Harry. Ele é muito melhor em Oclumência do que Morfino, e com certeza deve ter algum antídoto no bolso contra a Poção da Verdade, principalmente depois de eu ter extraído essa lembrança dele.
"É tolice tentar extrair a lembrança à força, faria mais mal do que bem. Não quero que ele abandone Hogwarts. E acredito que você seja o único capaz disso."
— Mas...
— Bem, boa sorte, Harry — disse repentinamente, dispensando o garoto. — E boa noite.
Harry pareceu transtornado por alguns instantes antes de se levantar. Olhou de Elizabeth para Dumbledore, como se se questionasse se a professora também não iria embora. Mas Dumbledore havia dispensado apenas ele e o rapaz se sentiu irritado.
O mago esperou Harry fechar a porta ao sair enquanto fitava atentamente a afilhada. Um silêncio constrangedor preencheu o ambiente e, ao som de um gralhar de Fawkes, o diretor se debruçou sobre a mesa.
— Preciso começar a ser honesto com você — hesitou. — Há muito tempo, eu e Grindewald éramos amigos.
Elizabeth ergueu levemente as sobrancelhas em surpresa, tanto pelo assunto inesperado quanto pela informação nova, e o padrinho desistiu completamente do disfarce.
— Éramos mais que amigos, na verdade — ele a viu assentir com a cabeça, ainda surpresa. — Mas com o passar do tempo, ele foi mudando. Ou, talvez, apenas se revelando. E eu não cabia mais nas escolhas dele, na... Na vida dele.
Ele desviou brevemente os olhos para uma das estantes, mas logo retornou a fitar Elizabeth.
— Houve um duelo, muito antes daquele em que ele foi capturado, e... — A voz fraquejou. — Algum dos feitiços escapou, nunca soubemos de quem, e atingiu Ariana, a minha irmã caçula.
Elizabeth assistiu com estranhamento uma lágrima se perder na barba do velho, sem saber como reagir diante daquilo. Alvo Dumbledore, sempre tão poderoso, importante, acima de aprovações, era apenas um homem, afinal. E naquele momento, Elizabeth percebeu que conhecia muito pouco sobre o homem que a batizou.
— O anel — ele retirou a joia destruída de dentro de uma das gavetas da escrivaninha — é uma horcrux.
— Sim, o senhor já tinha dito — ela falou pela primeira vez; a voz cheia de incerteza.
— Mas a pedra — apontou — é a Pedra da Ressurreição. Uma das três Relíquias da Morte.
Dumbledore deixou com que Elizabeth absorvesse a informação. Os olhos se arregalaram aos poucos, a testa franziu e a boca se abriu para emitir um arfar de surpresa. Ela apenas percebeu que não piscava quando seus olhos começaram a arder. Balbuciou algumas vezes até conseguir, enfim, formar as palavras.
— Elas são reais, então? Não são apenas uma história?
— A história eu não posso garantir — ele se recostou na cadeira. — A Morte não anda por aí desafiando as pessoas. Mas, sim, os objetos, as relíquias, são reais. A pedra, a Varinha das Varinhas — pegou a própria varinha e a descansou ao lado do anel — e a Capa da Invisibilidade, que está com o Harry.
— E ele não faz ideia, não é?
— Temo que ele nem conheça o conto, Elizabeth.
— Ele sabe sobre as relíquias? Voldemort. Porque o anel era uma horcrux...
— Eu acredito que não, Elizabeth. Ou, pelo menos, ainda não. Mas eu temo que uma hora ele descobrirá sobre o núcleo gêmeo das varinhas dele e de Harry. E, sabendo disso, ele procurará por outra varinha para usar.
— Nós podemos esconder a sua varinha depois... — sentiu um aperto na região do estômago. — Depois que morrer.
— Não. Quero ser enterrado com a minha varinha de acordo com a tradição.
— Mas Voldemort não tem escrúpulos. Ele irá até o fim se descobrir sobre a varinha. Pode até, sei lá, violar o seu túmulo!
— Se ele descobrir que não fui enterrado com a varinha, saberá o porquê. E saberá, também, que estamos à frente dele. Isso não pode acontecer, Elizabeth.
Ela pensou em argumentar, mas desistiu logo depois, pois conhecia o quanto o padrinho podia ser teimoso.
— Ele pega a varinha e o que acontece?
Dumbledore deu de ombros.
— Não podemos saber. Na verdade, nem mesmo podemos ter certeza de que ele descobrirá sobre as relíquias. Além disso, ele não será o Senhor da Varinha. Imagino que saiba como ela funciona.
Elizabeth assentiu distraída, sem perceber a fundo o que Dumbledore queria dizer. Ficou quieta por algum tempo enquanto digeria as informações. Olhando para Fawkes, frágil e despenada, sua mente retornou ao ponto inicial da conversa.
— Pôs o anel porque achava que conseguiria ver Ariana novamente — sentiu o canto de seus olhos arderem e piscou para afastar possíveis lágrimas. — Caramba!
— Fui um tolo — seus olhos azuis também estavam embargados. — Me desculpe.
— Não há o que desculpar, padrinho. A dor da perda é algo que ninguém pode julgar. — Quase inconscientemente, ela levou a mão até a profunda cicatriz na barriga e manteve seu irmão em seus pensamentos.
Padrinho e afilhada ficaram em silêncio por mais algum tempo. Elizabeth esperava Dumbledore se recompor para que pudesse sair sem soar indelicada.
— Isso era tudo? — Perguntou, enfim.
— Não. Na verdade, não — ele se levantou, mas continuou parado por de trás da mesa com as mãos sobre a madeira. — Quero que pare de ver Severo.
Elizabeth o olhou passivamente e, de repente, explodiu em gargalhadas, o que provocou um tremendo desconforto no diretor. Ela em nenhum momento achou graça no que o mago havia dito. Sua risada era um escape para esconder a raiva que a tomou.
— Claro, padrinho — ela disse com sarcasmo. — Já que pede com tanto carinho, eu irei parar de dar pro Snape.
— Elizabeth! — Repreendeu, estarrecido. — Estou tentando proteger você.
Elizabeth respirou fundo e juntou as mãos com um som de palmas.
— Qual é sua preocupação, Alvo? — Ela mexeu o pescoço nervosamente. — Que Voldemort descubra sobre nós? É a mesma probabilidade de ele descobrir que Severo é um agente duplo. Se a Oclumência de Severo fraquejar, aquele doido filho da puta vai ver tanto a mim quanto a você. — Aquietou o tom e disse, sarcástica — Então, Alvo, eu sugiro que pare de ver Snape. Estou tentando proteger você.
— Por Merlin, você é impossivelmente teimosa!
— Todos falam isso — murmurou. — Alvo, preste atenção — ela se curvou para frente, os cotovelos apoiados no joelho. — O que você me pede não faz sentido. Terminar com Severo não vai desfazer as lembranças dele. Você não gosta do fato de estarmos juntos e está tentando arrumar desculpas para nos afastar. Seja franco comigo. Por que não me quer com ele?
Ela notou que algo mudara no olhar do ancião, como se os azuis tivessem perdido o brilho. Erguendo o tronco e o queixo, Dumbledore declarou:
— Está atrapalhando o meu espião. Está desviando-o do real objetivo aqui.
Elizabeth abriu a boca em total incredulidade perante à frieza das palavras cruéis do padrinho. Ela sentiu sua máscara de sarcasmo se transformar em fúria ardente e se surpreendeu com suas próprias palavras.
— Seu desgraçado!
Os quadros no gabinete exclamaram surpresos e indignados; o diretor parecia igualmente assustado. Ela se levantou num rompante e a poltrona quase caiu.
— Ele tentará protegê-la, talvez salvá-la, e isso irá pôr tudo a perder!
— Meu Deus, cala a boca! — Gritou e gesticulou com as mãos como se tentasse afastar os pensamentos de si.
— Uma distração e Severo morr...
— Você não se escuta, não é, quando fala essas coisas? — Cortou o diretor. O tom da voz se normalizava, contudo, era possível sentir a raiva em cada sílaba. — Você nem soa mais como um homem, Dumbledore. O Bem Maior te consumiu por inteiro. "Meu espião". Inacreditável! E eu aqui sentindo pena de você por causa da porra desse anel!
— Eliz...
— Não quero saber!
Exclamou enquanto saía do escritório. Desceu as escadas a passos duros. Sentia tanta raiva naquele momento que sentia vontade de chorar. Para piorar, Harry ainda estava no corredor da gárgula e olhava para Elizabeth com ansiedade e irritação.
— Por que não falou nada sobre Snape? — Questionou. — Também acha que não tem importância? Também confia cegamente nele?
— Potter, me poupe — estava extremamente irritada. — Você já deveria estar em sua Sala Comunal. Não se esqueça que também sou professora agora.
Lançou um último olhar de raiva para o garoto e caminhou com o propósito de ir para seus próprios aposentos. Mas a fala seguinte de Harry a fez parar.
— Olha só, já está até falando igual a ele — disse com sarcasmo. — Vamos lá, Elizabeth. Não é tão difícil perceber o que está acontecendo.
Elizabeth virou-se para olhar o garoto, sentindo uma mistura de surpresa, confusão e raiva. Os olhos de esmeralda estavam cravados nela. O garoto parecia inseguro com o que dissera, mas suas narinas estavam infladas conforme inspirava o ar.
Ela caminhou rápido até ele e o pegou pelo braço, levando-o até o próximo corredor mais deserto. Ela o soltou bruscamente, quase o empurrando contra a parede de pedras.
— Escute bem, Potter — vociferou —, se Voldemort sonhar que eu, que sou a garota da profecia, estou envolvida com Snape, eu morro! Você entendeu?
Ele assentiu com a cabeça, os olhos arregalados de assombro tanto pela atitude agressiva de Elizabeth quanto pelo que ela lhe dizia.
— Voldemort já quer a minha cabeça — amenizou o tom. — Então, em nome de Ártemis, cuidado com o que fala. E, principalmente, não solte esse tipo de coisa num corredor qualquer da escola.
Os dois permaneceram em silêncio por alguns instantes. Harry tentava regular a respiração, enquanto Elizabeth tentava se acalmar. Antes de irem embora, o garoto perguntou:
— Por que você também é ofidioglota?
— Por que você é ofidioglota? — Ela devolveu a pergunta.
— Dumbledore acha... — hesitou. — Acha que quando Voldemort tentou me matar, ele pode ter transferido parte dos poderes dele para mim.
Sua mente exausta não absorveu com eficiência a informação. Estava mais preocupada em inventar uma desculpa rápida para o garoto, pois não seria prudente dizer que, assim como Voldemort, também era descendente de Slytherin. Então optou por uma meia verdade.
— Alguns bruxos muito antigos da minha família eram ofidioglotas. E isso passou de geração em geração. Parece que eles eram bruxos das trevas. Escute — disse quando viu que o garoto pareceu se convencer —, me desculpa, tudo bem? Eu ando muito estressada.
— Eu entendo, de verdade. — Harry respondeu com sinceridade. — É muita coisa para qualquer pessoa aguentar. Eu surto de vez em quanto também. Hermione e Rony devem ter um lugar garantido no Céu.
Elizabeth sorriu para ele e assistiu-o ir embora. Por sua vez, sentia-se totalmente esgotada. Seu coração doía pelas palavras duras do padrinho e mais do que nunca sentiu muito medo do que a aguardava durante a guerra.
Com toda conversa sobre as memórias, Relíquias da Morte e a briga que tivera com o padrinho, o desentendimento com Potter e, também, Snape, ela não havia notado ainda o que Dumbledore havia lhe dito.
Voldemort não seria o Senhor da Varinha.
Seria Severo.
Notas da autora:
- Contém trechos adaptados da obra de J.K. Rowling, "Harry Potter e o Enigma do Príncipe", 2005.
