Capítulo 32: Confiança

"A bondade em palavras cria confiança;

a bondade em pensamento cria profundidade;

a bondade em dádiva cria amor."

Lao-Tsé

...

Karin suspirou irritada. Já estava esperando por mais de meia hora, mas a mãe não parecia querer deixar o microscópio tão cedo. Havia trazido o obento que Yuzu fez para a mãe, já que esta não almoçara e mau tocara no café da manhã. Ambas estavam sozinhas naquele laboratório, e Karin odiava isso. Não que sentisse medo, mas depois da morte de Hinamori, estava com esses sentimentos estranhos. Mas não tinha coragem de contar pra ninguém, nem mesmo para a mãe.

Masaki digitou em seu notebook algumas informações dos resultados dos exames que pedira a quinze dias. Quando Urahara lhe solicitou ajuda, ela pensou que o amigo deveria ter ficado louco. Ela não era uma especialista nesta área, e o pouco que sabia, aprendera na graduação. Então, por quê alguém experiente e rodeado de especialistas como ele, precisava da ajuda dela?

Não demorou a compreender a complexidade da situação do amigo. Ele confiara nela como sua guardiã. Entregou-lhe sua única prova intacta do caso Kuchiki. Achou curioso sua família estar envolvida daquela maneira naquele caso, já que o marido e o filho eram advogados da principal suspeita, a filha salvara a garota contra um envenenamento, e agora ela era a responsável por provar que havia mais um ente envolvido naquilo tudo: Aoki Geon.

Um calafrio percorreu a espinha da ruiva. Olhou para traz e sorriu, ao perceber que a filha dormitava, quase sucumbindo ao sono.

Aoki era velho conhecido de sua universidade. Era estimado e muito cobiçado pelos alunos, e não fora diferente com ela. Apesar da idade inferior, o rapaz estava em um grau muito a frente dela, quando ainda era residente de medicina. E agora ali estavam, em lados opostos.

Quase não acreditou quando verificou a similaridade dos resultados com o de Geon. Não fora difícil conseguir o dele, já que todos os funcionários da universidade tinham seus dados genéticos cadastrados. Era por isso que estava naquele laboratório novamente. Tudo para verificar se realmente não errara em nada, e garantir que Geon era mesmo o dono do material genético encontrado nas joias.

Estava tão entretida em seu ofício, que não percebeu a aproximação silenciosa de uma silhueta alta. Sentiu a boca ser coberta, e apesar de tentar protestar e se libertar daqueles braços fortes, acabou perdendo a consciência ao cheirar o material químico que embebia o pano.

Karin já jazia no solo, sem ter ao menos percebido quem a atacara com uma forte pancada na nuca. Ambas foram levadas para o sedan da família. Karin foi depositada no banco carona, e Masaki no banco de trás.

O suspiro de Geon se ouviu forte, ao deixar pacificamente o laboratório, pelo portão principal. Sem levantar qualquer suspeita nos seguranças, que pouco estavam interessados em prestar atenção em quem dirigia.

— Parece que sua vingança vai se concretizar no fim das contas! Só espero que isso não atrapalhe meu projeto! – Mayuri comentou um pouco irritado, com a cabeça de Masaki no colo.

Independente dos vidros escuros não serem suficientes para atrapalhar a visão dos ocupantes do carro, quem os visse, pensaria que era uma viagem rotineira em família, já que Karin estava adormecida no banco da frente, e Masaki com Mayuri. Tudo normal para olhares desavisados.

— Sim! Agora a brincadeira vai esquentar! Veremos como Urahara receberá meu desafio! – o loiro se vangloriou com um sorriso cínico, dirigindo com diligência para não chamar atenção.


Urahara e Yoruichi se entreolhavam em silêncio, enquanto Ishin e Kuukaku perambulavam, nervosos, de um lado para o outro. Havia passado poucas horas depois do sequestro, e todos estavam entrando em desespero.

Nem mesmo ter Yuri em suas mãos, fez Urahara se manter calmo. Estava nervoso consigo mesmo por não ter antecipado nada disso. Em suas mãos, uma carta, escrita de próprio punho por Aoki, em que o desafiava a entregar Yuri e Rukia em troca das vidas de Masaki e Karin.

Como conseguiria contar a Ichigo seu fracasso? Como dizer a Rukia, que ela teria que se entregar ao assassino de seus pais, para proteger a família de Kurosaki?

Lembrar-se do interrogatório com Amaterasu, ou Yuri, como Geon a chamava, o estava fazendo suar como nunca. Seu erro colocara várias pessoas em risco ao mesmo tempo. Estava lidando com um louco, que pouco se importava em ser ou não condenado.

— PELO AMOR DE DEUS, URAHARA! ONDE LEVARAM MINHA ESPOSA E MINHA FILHA? – Ishin gritou desesperado.

As lágrimas e os lábios trêmulos denunciavam que estava a beira do colapso nervoso, para desespero de Urahara e seus companheiros.

— Eu... Eu sinto muito... Eu não imagi...

O soco de Kurosaki Ishin foi um alívio para o loiro, que caiu da cadeira com a pancada do amigo. A marca avermelhada surgiu aos poucos em sua bochecha, mas ele não fez questão de tocar o local, pois sabia ser merecedor.

— Acalme-se, Ishin-san! Não podemos nos precipitar... Kisuke vai conseguir fazer alguma coisa... A inteligência policial já está no caso também... O próprio Yamamoto e Juushirou estão cuidando do caso! Por favor, nos deixe ajudar!

As palavras de Yoruichi morreram ao ver a porta se abrir e a pequena Yuzu se lançar nos braços do pai, com um choro desesperado.

Urahara se levantou, espanou o chapéu e o terno verde, para somente depois encarar o olhar irado de Ishin para si, enquanto tentava acalmar a filha menor.

— Kisuke – sussurrou Kuukaku, ao ver o brilho de tristeza brotar no loiro.

— Eu te prometo, que isso não ficará assim! – comentou Urahara, e logo depois sorriu pequenamente para a garota loirinha, que lhe observou rápida, diante daquelas palavras.

Não comentou mais nada e saiu da sala. Urahara estava furioso com Geon. Furioso com o sequestro das garotas, mas mais furioso consigo mesmo.

Entretanto ele sabia que por mais urgente que fosse o sequestro das Kurosaki, as informações que conseguiu de Yuri eram vitais para elucidar o caso, e quem sabe, salvar a todos os inocentes. Por mais que seu coração estivesse conturbado, sua mente estava em chamas. Jamais permitira que seu emocional atrapalhasse aquele caso em sua reta final.


Quando Shiba recebeu o recado de Urahara, quase perdeu o controle do carro na auto estrada. Ainda estava seguindo os planos iniciais e levando Rukia e Ichigo para o ponto de encontro, previamente preparado por Juushirou. No entanto, por alguma razão, Kisuke havia mudado de ideia.

Ichigo se irritou com a mudança brusca de trajeto, mas tentou não transmitir isso para Rukia, que parecia cada vez mais ansiosa e preocupada. Estavam de mãos dadas o tempo todo, então ele percebia cada tremor da morena. Precisavam salvar a garota, e confiava que Urahara já tinha uma solução, ou não teria alterado o plano inicial.

— Né, Rukia, acho que vamos para algum lugar muito melhor que o planejado! Fora que isso só pode significar que aquele detetive maluco já tenha alguma carta na manga! Não concorda, Shiba? – comentou tentando parecer o mais natural possível, ocultando o próprio nervosismo e convidando o rival a participar da conversa.

— Se tem alguém em quem confio para resolver tudo isso, esse alguém é Kisuke-san! Dê-lhe um voto de confiança, Kia! – falou terno, esquecendo-se dos dois longos anos em que a chamou pelo apelido pela última vez.

Rukia deu um leve sobressalto com a fala de Kaien, mas se acalmou com o afago que seu advogado lhe deu na mão, lembrando-a que ela não estava mais sozinha. Concordou em silêncio, e retomou sua atenção para a estrada. Conhecia aquela região, estavam retornando para Tóquio. Sabia que precisaria da ajuda de sua única família.

— Ichigo, preciso contatar meu irmão! – falou em voz altiva, quase como um comando, de tão firme e decidida que estava.

Kurosaki e Shiba se encararam no espelho retrovisor, num diálogo silencioso, quando Shiba concordou com a cabeça num leve meneio. Aquela cumplicidade com o rival estava deixando o ruivo maluco. Detestava trabalhar com o inimigo, mas por Rukia faria qualquer coisa que fosse preciso, até mesmo convocar o gélido Kushiki Byakuya. Afinal, precisavam de todos os aliados possíveis para salvar Rukia.


Sua mente estava em puro frenesi quando desligou o próprio celular. Sua amada irmã o havia chamado e confiado somente nele para pedir apoio. A única coisa que ela pedira, era para não falar, nem envolver, nenhum integrante da família Kuchiki, pois só confiava nele. Aquela confiança o deixou muito feliz.

Por mais que amasse o avô, sabia que não poderia confiar plenamente em Ginrei, muito menos nos outros membros da família. Já tinha tudo planejado para destituir Kouga e outros desafetos para sempre de sua nobre família.

Chamou seu único aliado naquela casa, e pediu-lhe para que preparasse o jato, pois precisava ir urgente para uma reunião. Tsubaki não precisou ouvir duas vezes para entender a animação e determinação de seu líder. Sabia com quem ele se encontraria, e estava rezando internamente para que os dois finalmente aceitassem os próprios sentimentos, e confiassem um no outro.


"Por quê ele tinha que acompanhar aquelas malucas"? Grimm mais uma vez repassava mentalmente, sua dura sina. Se Urahara não houvesse ligado para ele ficar na "cola" daquelas mulheres, já estaria vivendo suas aventuras com belas loiras de seios fartos, muita bebida e algumas drogas, para ficar mais "ligado", como seus colegas sempre falavam.

Mas já fazia semanas que nenhum de seus amigos curtiam a vida despreocupadamente. Ichigo estava vivendo uma aventura amorosa com uma condenada. Orihime e Ulquiorra brigaram feio, e já não eram vistos fazendo qualquer contato social, além de seus empregos. Hinamori estava morta, e por conta disso, Hitsugaya virou um morto ambulante, sem vontade até mesmo de continuar a faculdade, se tornando ausente na maioria de suas disciplinas. E agora Shinji o estava metendo em problemas com aquelas fugitivas sem noção.

O furgão acelerava pela estrada, já que seu condutor, não estava animado com a viagem, e por vezes teve que frear bruscamente para não bater no carro da frente. Dentro, vários palavrões eram ditos pelas garotas. Hirako não se importava muito com tudo, pois estava tentando curtir sua relação relâmpago com Luka. Enquanto Saya meditava, preocupada, com a situação de sua pequena colega de cela. Algo dentro dela, gritava que a morena corria sérios perigos, e torcia para chegar a tempo. Entretanto, estavam indo para a direção errada, já que seguiam para a casa de praia.

Hirako estava entretido na conversa das garotas, quando sentiu seu celular vibrar. Atendeu com atenção, pedindo silêncio com as mãos para as jovens, que demoraram um pouco a se calarem, mas que com cada palavra pronunciada por ele, lhes fizeram cair em silêncio sepulcral. Shinji havia acabado de ser informado do sequestro das Kurosaki. Todo seu auto controle e pose de homem pacífico se esvaiu, tornando seu rosto transtornado e irritado. Saya observou curiosa a mudança repentina.

— Aquele desgraçado, filho de uma puta! EU VOU MATAR ELE! – gritou por fim, exaltado.

Grimm quase bateu o carro com o grito, afinal, nunca havia visto o loiro tão fora de si como naquele momento. Escutou pouco da conversa, mas entendeu a seriedade de tudo aquilo. Pensou em como seria a reação de Ichigo diante de tudo isso. Será que sobreviveria com um baque desses?


Notas da Autora: Depois um longo hiato, atualizo essa fic, que entra em reta final. Espero que curtam essa aventura! Abraços, JJ!