********************************* Cap 38 Próxima parada: Cardíaca!**************** ************

No mesmo dia...

Moscou, Rússia, 20:30pm

O fatídico e traumático despertar naquele começo de tarde tinha deixado em Afrodite um hematoma em forma de gargantilha no pescoço, que agora ele pelejava para esconder com repetidas camadas de base e pó de arroz, ainda que não abrisse mão do lenço ou das golas altas; a maioria dos modelos femininos que escolhia valiam-se delas, e embora o motivo fosse óbvio, esconder o pomo de adão, em sua lógica tão peculiar e por vezes contestável, havia alguma compensação em cobrir exageradamente em cima o que deixava exageradamente à mostra embaixo. Contudo, naquele dia ele sentia que apenas roupa não era o suficiente para mascarar as marcas deixadas em seu corpo depois de mais uma discussão com Camus, nem as roupas, tampouco a maquiagem. E por melhor que fossem os produtos que usava, eles não podiam esconder a culpa e o pesar impressos em cada linha de seu rosto perfeito.

Por que diabos foi fazer aquilo? O que deu em sua cabeça para tatuar uma Rosa Piranha em Camus? E num local tão íntimo e problemático, tratando de quem se tratava?

A verdade era que aquele hematoma em seu pescoço desapareceria dentro de alguns dias, mas a nádega de Camus ficaria marcada para sempre e com isso a confiança do noivo em si ganhava mais um estigma.

A lista de vacilos e quebras de promessas de Afrodite para com Camus só crescia, e parecia que quanto mais ele pelejava para diminui-la só fazia mesmo era aumenta-la.

Ao menos uma notícia boa salvou aquele dia de ser um dos piores de sua vida, visto que o havia passado quase todo dentro daquele quarto pensando, ingenuamente, num meio de reverter o processo, o que era praticamente impossível, pelo menos não sem grandes riscos de danos. Seria mais fácil convencer Camus a perdoa-lo, mais uma vez. Certo era que não podia voltar para a Grécia e deixar as coisas no pé em que estavam, por isso, enquanto se vestia para o jantar ele fez duas ligações, a primeira para Geisty, para avisa-la de que teve um contratempo com o Batman e que ficaria mais um tempo em "Gothan City" para tentar resolve-lo; a segunda para Mu, e foi dessa ligação que veio a boa notícia.

— Alôca! — disse Afrodite abrindo um largo sorriso enquanto contorcia-se todo para fechar o zíper traseiro do vestido justo de seda em tom de verde jade. O celular ele tentava equilibrar apertado entre o ombro e a lateral do rosto. — O abilolado* do Saga que achou o diário?... O quê? Tinta invisível?... Não era colocón* dele não?... Tinta lemuriana?... Carrie, a estranha?... Fala devagar, gay, não tô entendo nada... Hum... Hu-hum... Dadá, Aquenda o babado!... Aquele tapete tombado* no corredor?... Relíquia é o meu edi*... Tá de truque, gay!... Truqueeeee!... Uma câmara secreta ali?... Pelas lantejoulas da tiara de Dadá, eu tô passada! E o que tem lá dentro?... Certo, depois você me conta com detalhes, mas essa é a notícia mais incrível que poderia ouvir hoje, Mu... E como está o Kikizinho?... Ah, não... não... Mu, me escute, vai dar tempo, sei que vai... Sim, eu sei que você também tem fé e que não vai desgrudar os olhos desses livros até encontrar a cura... Precisa de ajuda? Quer que eu vá aí para... Ah, entendi... Eu sei... Aqui? Ah... sim... está tudo bem por aqui sim, eu só... só preciso resolver um aleijo* antes de voltar para o Santuário... Não se preocupe comigo, concentre-se em achar logo essa fórmula... Sim, nos vemos em breve, até mais.

A notícia de que o estado de Kiki havia piorado só não causou uma perturbação maior em Afrodite porque veio acompanhada da boa nova sobre a descoberta do diário e da câmara secreta que continha todos os livros que Mu há tanto tempo vinha procurando. Agora ele sabia que era uma questão de tempo até que ele e Shaka encontrassem a cura para o pequeno lemuriano, por isso, depois de desligar o celular e ajeitar o vestido justo no corpo, acomodando com primor os discretos enchimentos no peito, ele ficou em silêncio por um minuto e rogou à Atena que concedesse aos dois amigos esse tempo. Depois, dominando com muito custo o nervosismo, trançou os cabelos antes de enfeita-los com uma das tantas caríssimas fivelas de brilhantes que usava para compor a indumentária de seu disfarce, calçou os saltos altíssimos e deixou a suíte para juntar-se a Camus e Hyoga na sala de jantar. Já previa que o clima não seria dos melhores, e que ficaria ainda pior quando dissesse ao francês que também tatuou uma rosa em Hyoga, uma Rosa Diabólica, inofensiva, porém indelével como a que fizera nele, mas definitivamente não podia esconder o fato. Antes ele mesmo revelar e dizer que fez na melhor das intenções, sem se dar conta de que estava cometendo um erro terrível, e depois pedir desculpas por mais uma vez ter agido por impulso sem pensar nas consequências, do que Camus descobrir por si próprio e achar que ele e Hyoga agora partilhavam segredos entre si.

Quando Afrodite chegou à sala de jantar, atipicamente em silêncio e desprovido de toda a alegria extravagante e excessiva que sempre trazia junto consigo, Hyoga confirmou no ato suas suspeitas. O pai e a amazona haviam brigado.

Mais cedo, quando chegou do colégio, e já estranhando o fato de Maman Di não tê-lo buscado como sempre fazia quando estava em Moscou, Hyoga procurou por ela na mansão. Fyodr então lhe disse que a madame estava no quarto com uma crise terrível de enxaqueca e que pediu para não ser incomodada, fato este que já soara bem estranho ao garotinho, visto que, mesmo que tivesse desmembrada e à beira da morte, ele sabia que Afrodite jamais lhe consideraria um estorvo. Todavia, ele escolheu acreditar no mordomo.

No entanto, quando foi procurar por Camus o encontrou no escritório sozinho e à luz dos abajures, com as janelas fechadas e praticamente sendo defumado por uma névoa densa de nicotina. Quando tentou puxar conversa ele lhe respondeu com monossílabos e murmúrios, mal olhando em seus olhos. Não que esperasse algo diferente, já que longos e eloquentes diálogos não eram de sua natureza, mas também o conhecia muito bem para saber que algo não estava bem. Pensou em perguntar se o pai e Afrodite haviam brigado, mas hesitou por um instante porque a resposta lhe pareceu óbvia, então em seguida resolveu esquecer o assunto. Haveria de ser só mais uma dentre as tantas discussões que eles tinham, já que ambos, tanto o pai quanto a "mãe", eram donos de temperamentos nada comedidos e viviam quase sempre às farpas. Não duvidava nem um pouco de que se amavam muito, pois que o sentimento que nutriam um pelo outro era tão forte e visível que chegava a escorrer por seus olhos, mas na mesma proporção também era a incompatibilidade de seus gênios. Ele acreditava que qualquer que tenha sido o motivo da briga da vez, certamente teria o mesmo fim das tantas outras e logo estariam sorrindo um para o outro de novo.

Pensando nisso, Hyoga relaxou e começou a se servir do jantar assim que Afrodite se sentou à mesa com eles. Ele trocou um carinhoso sorriso com a "amazona" e lhe teceu um elogio exaltando sua beleza naquela noite, perguntando em seguida se havia melhorado da enxaqueca.

Peixes respondeu apenas que sim, e nessa hora Camus, que o tempo todo estava ali calado e imóvel feito um pinheiro seco, inevitavelmente levantou o olhar para o pisciano.

O Santo de Aquário ainda estava com muita raiva, e além dela, um esgotamento emocional assolava-lhe a alma de tal forma que chegava a fazê-lo sentir-se cansado também fisicamente. Não importava quantas vezes implorasse a Afrodite que medisse as consequências de seus atos antes de executa-los, ele sempre os repetia; era como jogar palavras ao vento, como enxugar gelo ou rezar para santo excomungado. Aquele homem travestido de mulher sentado ao seu lado direito na mesa já tinha violado seu corpo, sua alma, seus princípios e suas regras incontáveis vezes e de todas as formas possíveis. Afrodite de Peixes tinha virado seu mundo do avesso, mas bastava olhar para ele, para aquele rosto cuja beleza chegava a ser uma afronta pessoal, que seu coração disparava dentro do peito. Às vezes de paixão, outras de desespero, mas jamais se punha indiferente.

Depois de um tempo em silêncio sustentando a frieza dos olhos avelãs de Camus cravados nos seus, Afrodite falou, com extrema cautela:

— Posso te servir o jantar, Camy?

Aquário engoliu em seco e no instante seguinte fechou os olhos e soltou um longo e esgotado suspiro.

Oui — disse ele.

Do outro lado da mesa, à esquerda de Camus, Hyoga disfarçou um sorrisinho. Vira que ambos começavam a baixar a guarda e logo tudo voltaria ao normal como sempre fora. Aliviado, agora até a comida parecia ter ganhado mais sabor e ele passou a desfrutar dos pelmenis* os degustando calmamente, deliciando-se com a textura que derretia na boca.

Os minutos corriam silenciosos.

Afrodite ainda arriscou alcançar um momento de descontração perguntando a Hyoga como tinha sido seu dia e, quem sabe, encontrar algum gancho para contar a Camus sobre a tatuagem que fizera nele, ainda que ele mesmo tivesse pedido ao garoto que a mantivesse em segredo e não lhe comunicara da mudança repentina de planos, mas vendo que durante, e após, os relatos entusiasmados de Hyoga sobre as atividades daquele dia Camus nem sequer levantara o olhar para participar da interação o assunto morreu e eles voltaram a nadar no silêncio.

Acostumado com o temperamento do pai, o garoto não se importou com a falta de atenção. Ele seguia confiante de que logo aquele azedume todo entre ele e a "amazona" passaria, e já tendo esvaziado seu prato esticou o braço para servir-se de mais um punhado de pelmenis; estava em fase de crescimento e sentia uma fome de leão-marinho.

Mas enganou-se Hyoga quando pensou que Camus não prestava atenção em si.

Antes que conseguisse alcançar a colher de prata para se servir, Hyoga foi abruptamente surpreendido por Camus, que com um movimento como o de um predador que dá o bote o segurou pelo punho mantendo seu braço suspenso no ar. A mão grande do cavaleiro fechou-se inteira sobre o relógio Rolex que ele usava sobre uma pulseira larga de couro.

Hyoga olhou assustado para Camus.

Afrodite engasgou-se com o pelmeni e começou a tossir desvairadamente, sentindo a já tão familiar descarga de adrenalina golpear seu peito com um soco congelado.

Maman?!

Preocupado Hyoga olhou para Peixes num sobressalto, mas Camus deu um puxão em seu braço o obrigando a desviar o olhar para si, e nessa hora um frio intenso e repentino tomou toda a sala.

— Alexei Hyoga! Por que está usando o relógio no pulso direito? — Aquário perguntou num tom ríspido e autoritário.

Afrodite arregalou os olhos e tossiu ainda mais, mais alto e mais forte, dando leves soquinhos no próprio peito.

— O quê? — Hyoga tremeu ao ouvir o pai pronunciar seu primeiro nome. — Eu... eu sempre usei o relógio nesse pulso — disse ele gaguejando levemente. Sentia um arrepio terrível, um presságio de mau agouro.

— Mentira! — sentenciou Camus quase num rosnado enquanto apertava os olhos lançando um olhar afiado e ameaçador a ele. — Você é canhoto, Alexei. Sempre preferiu usar o relógio no pulso esquerdo apesar disso.

Hyoga prendeu a respiração. Não sabia o que responder.

De fato ele usava o relógio sempre no pulso esquerdo, mas no dia anterior, que foi quando Afrodite lhe ensinou a fazer os bolinhos e o tatuou, ele tinha colocado o relógio no pulso direito para evitar qualquer eventual acidente, já que sendo canhoto ele usaria muito mais a mão esquerda, tanto para fritar os bolinhos quanto para preparar a massa.

— Camus espera... — Afrodite chamou aflito, entre tosse, pigarros e fungadas.

Aquário desviou a mirada do filho e lançou para ele um olhar relampejante.

— Você cala a boca! — disse Aquário cuspindo as palavras, depois voltou-se novamente para Hyoga.

Nem esperou mais por uma resposta, porque algo dentro dele já a previa, só custava a acreditar. Num movimento rápido demais para os olhos de Hyoga conseguirem acompanhar ele desafivelou a pulseira do relógio e o arrancou de seu pulso junto com a de couro que estava por baixo, deixando a ambos caírem dentro da travessa dos pelmenis, depois virou a palma da mão dele para cima e então teve a suspeita confirmada.

Imediatamente uma rajada de vento congelante varreu o local e o aperto no pulso no menino se intensificou.

APHRODITE DES POISSON!

Embora o volume da voz fosse quase um grito, Camus cantou cada sílaba pausadamente, e seu tom era tão grave e terrível que Hyoga tremeu por inteiro e todo seu sangue perdeu o calor, conferindo a ele uma aparência fantasmagórica.

Do lado oposto da mesa, de frente para Hyoga, Afrodite parecia ter virado pedra.

— Peixes... porque o meu filho de apenas dez anos tem uma porra de uma Rosa Diabólica Real tatuada no pulso? — perguntou, finalmente soltando o braço de Hyoga. Este se encolheu na cadeira baixando a cabeça e recolhendo o pulso dolorido como se pudesse esconde-lo do pai furioso.

— Eu... eu ia te contar — Peixes respondeu, ainda lutando para soltar as palavras que pareciam presas na garganta.

Camus fechou o punho e deu uma pancada tão forte na mesa que fez todos os objetos em cima dela tintilarem e tremerem. Os outros dois, assustados, piscaram os olhos num sobressalto.

Aquário estava tão furioso que tinha dificuldade para conter a si mesmo, afinal desta vez Afrodite não apenas violara seu corpo, mas também o de seu filho. Estaria aquele sueco louco tão seguro de si que perdera todos os limites? Marcando a ele e a seu filho como marca-se o gado?

Respirando fundo e rangendo os dentes o aquariano voltou os olhos avelãs que emitiam um brilho azul gelado ao pisciano.

— Ah, você ia me contar? — As palavras carregadas de pura fúria e ironia saíam baixas, quase sussurradas, e em um tom absurdamente provocante e ameaçador: — Ia contar o quê? Que por acaso, assim, sem querer, sem má intenção e de brincadeirinha você tatuou o meu filho de dez anos? Era isso que ia me contar?

Afrodite sorriu sem graça, depois levou a mão ao rosto e mordiscou a unha do dedo mindinho.

— Biduzão! — Apontou o indicador para ele com um sorriso amarelo. — Era isso mesmo! Só não foi de brincadeirinha, né... porque... é uma tatuagem de verdade.

Camus bufou de raiva, e com outra pancada na mesa se levantou quase arremessando a cadeira para trás.

Putain de merde! — disse ele fuzilando Peixes com os olhos. — Non posso acreditar que você o tatuou sem a minha autorização, e que pelo jeito os dois iam manter isso em segredo!

Père... — Hyoga murmurou levantando o olhar para Camus, que lhe devolveu uma mirada de fazer trincar os ossos. — Eu... eu não ia esconder do senhor para sempre... eu só...

— Só ia esconder até quando te fosse conveniente ou até quando eu descobrisse por acaso, non é? — Ele disse interrompendo o garoto, se avolumando sobre ele feito uma fera prestes a dar o bote. — Quem você pensa que é o seu pai? Você achou mesmo que conseguiria esconder algo de mim, Alexei? IDIOTA!

— CAMUS! — Peixes gritou, e Aquário nem se deu o trabalho de olhar para ele. Apenas esticou o braço em sua direção e com o indicador em riste fez um sinal para que ele não o interrompesse.

— Que merda você tem na cabeça para se tatuar sem a minha permissão, seu moleque? Você é um fedelho de dez anos! E non se esqueça que eu sou o seu pai, mas também sou o seu Vor! Sou eu quem decido se você terá tatuagens, quando você terá ou quais você terá. E muito além de ser o seu pai e o seu Vor eu sou o seu MESTRE!

Hyoga se encolheu ainda mais na cadeira. Não havia um só músculo de seu corpo que não estivesse tremendo frenético. Seu coração estava acelerado e seus olhos tão arregalados que ele nem piscava. Já tinha presenciado incontáveis rompantes de fúria assassina do pai, mas nunca direcionados a si. Sempre fora um filho e aprendiz exemplar, e nunca provocara a ira de Camus a ponto de vê-lo perder o controle daquela maneira, e agora estava verdadeiramente apavorado.

— Me desculpe, père... — murmurou com os lábios trêmulos.

Mas Camus não se apiedou. Hyoga o afrontara como pai, mestre e Vor, e não podia deixa-lo passar por cima de sua autoridade dessa maneira.

— Você non pode, e non vai, fazer nada sem antes ter a minha permissão. — Camus continuou, ainda mais furioso. — Ponha de vez nessa sua cabeça que enquanto você for meu aprendiz, enquanto depender do meu dinheiro e da minha proteção, você é MEU! Cada pedacinho desse seu corpo, cada unha e cada fio de cabelo loiro da sua cabeça pertencem a mim! — Bateu forte contra o próprio peito. — Você está sob minha responsabilidade, então você non tem autorização nem para respirar se eu non permitir. Faça o que você bem entender com seu corpo quando você puder sozinho mantê-lo e zelar por ele, ou se por acaso for desligado da Vory v Zakone, e mesmo assim ainda me deverá respeito por ter sido seu mestre! Você me entendeu?

— Sim senhor. — O menino respondeu com lágrimas gordas se acumulando no canto dos límpidos olhos azuis.

Antes mesmo de Hyoga terminar de responder, Afrodite já tinha levantado da cadeira.

— Camus, não fale assim com ele — pediu o sueco num tom bem mais cordial do que pretendera, afinal tudo aquilo estava acontecendo por culpa sua — E também, olha, você está fazendo muito barulho por coisa pequena sem importância. É só uma rosinha de nada.

Imediatamente Camus voltou-se para ele; a respiração acelerada e curta, os lábios trêmulos levemente arroxeados e os olhos avelãs faiscantes.

Aphrodite... — ele rosnou contraindo as mandíbulas.

Mon amour, olha, eu não tiro a sua razão, você está cobertinho, quentinho nela... Eu deveria ter falado com você antes, mas é que ele é meu filho também, né? Eu sou a mãe dele, então alguma autoridade eu tenho.

Aphrodite... — outro rosnado.

— Eu só queria que ele levasse um pedacinho meu para a Sibéria com ele e...

— PEIXES! — Camus berrou alucinado — Não basta o que me aprontou essa madrugada?

— Eu já pedi desculpas! — lamentou ele. — Deixa de tanto rancor nesse coração, tá boa!

— Rancor? Olha o que você fez? Você marcou o meu filho de dez anos como se fosse gado e o mandou esconder isso de mim! É isso que você chama de coisa pequena sem importância? Será possível que você não percebe o que você fez?

— O quê? — Afrodite arregalou os olhos depois sacudiu a cabeça freneticamente. — Não. Não foi isso não.

Prestes a ter um ataque de fúria, Camus puxou os próprios cabelos e recuou alguns passos, iniciando um caminhar desordenado e desalinhado ao redor da mesa.

Afrodite vinha atrás dele exasperado e com passinhos curtos.

Hyoga permanecia na cadeira, mas agora acompanhava a discussão dos pais com os olhos marejados e aflitos.

Dieu, porque eu ainda perco meu tempo ouvindo você, Afrodite? — Camus murmurou, e ao passar pela grande estante de madeira que abrigava vários aparelhos luxuosos de porcelana e cristais deu nela um murro com toda força.

A estante e tudo o que tinha dentro dela só não virou poeira e veio abaixo porque foi congelada no instante da pancada, virando um monumento de gelo em plena sala de jantar.

— Eu por acaso sou uma piada para vocês dois? Um palhaço?

— Camy... mon amour...

— Como eu vou comandar a droga de uma máfia inteira se nem o meu próprio filho me respeita? — Aquário virou-se de frente para Peixes, mas enquanto gritava apontava o dedo também para Hyoga. — Você queria uma lembrança da sua mãe para levar para Sibéria? Levasse uma foto, uma flor, qualquer merde!

— Camus, não foi ideia dele, foi minha — disse Afrodite desesperado.

— Ah, mas é óbvio que foi ideia sua, Afrodite. Uma ideia de MERDE como essa só poderia ser sua... E non foi a primeira vez, diga-se de passagem!

— Eu... só achei que estava dando um presente a ele, para fazer companhia, sabe? Eu não achei que você fosse ficar tão louco do c... tão atacado. Achei que fosse até gostar — lamentou.

— Gostar?

— É! — Peixes sorriu.

Camus soluçou de nervoso.

— Afinal é um ato de amor — disse Afrodite, depois vendo que Camus pareceu ficar ainda mais irritado, começando a suar de molhar o colarinho da camisa apesar do ambiente gelado, ele ficou sério e suspirou profundamente: — Sabe, eu me esforço muito para fazer o meu melhor para você, Camus, mas acaba saindo o de sempre.*

Camus olhou para ele, incrédulo. O ar frio que tomava a sala se intensificou abruptamente.

A raiva insana chegava a escorrer dos olhos do Santo de Aquário, e junto com ela um sentimento desagradável de frustração parecia varrer sua alma e comprimir com força descomunal o peito lhe causando uma dor excruciante.

Não era uma simples tatuagem. Assim como não era um motivo pequeno para tanto escarcéu. Era mais uma vez ele nadando sozinho e à braçadas contra a maré enquanto Afrodite lhe passava por cima em sentido contrário com um transatlântico. Ele educava Hyoga e Afrodite deseducava. Ele lhe ensinava os princípios da máfia, lhe impunha regras e horários rígidos, cobrava disciplina, mas bastava duas palavras de Afrodite para que tudo isso caísse por terra. Hyoga jamais sobreviveria na Vory v Zakone, tampouco no deserto de gelo siberiano se seu treinamento e educação ficassem a cargo do cavaleiro de Peixes, mas parece que nenhum dos dois se dava conta disso, e como sempre era ele o carrasco.

Sentindo a respiração cada vez mais difícil, trêmulo de raiva Camus encarou os dois, Afrodite à sua frente e Hyoga encolhido na cadeira, que nessa hora parecia uma criancinha e não mais o garoto afrontoso que ousara lhe enfrentar.

— Vocês dois passaram de todos os limites — disse ele num tom gutural, então começou a andar com certa pressa na direção de Hyoga — Mas essa foi a última vez que tolerei ser feito de idiota nessa casa.

Rapidamente Afrodite o acompanhou andando de costas.

— Ei, Camus, espera... o que vai fazer?

— Após a morte de Natássia, quando eu me tornei oficialmente o seu pai, eu jurei a mim mesmo que nunca na minha vida eu iria encostar a mão em você, Alexei Hyoga, a não ser para treina-lo — disse ele enquanto seguia em frente sem hesitar — Jurei que nunca recorreria à violência e me igualaria àquele desgraçado que me colocou no mundo apenas para me espancar dia e noite... Mas você, Afrodite, vai me fazer quebrar mais esse juramento.

Ao ouvir aquilo a alma do sueco gelou e seu corpo pareceu sofrer o impacto de uma saraivada de flechas afiadas.

— O quê? — Peixes sussurrou de olhos arregalados, meio engasgado pelo torpor assombroso.

Já diante de Hyoga, com um só movimento bem bruto Camus o agarrou pelo braço enquanto com a outra mão rapidamente começou a desafivelar o cinto da própria calça.

O menino estava assustadíssimo, mas em momento algum rogou por clemência ou se acovardou diante da sentença do pai e mestre, apenas se encolheu envergonhado, escondendo o pulso e o comprimindo contra o peito.

— Se vocês dois non me respeitam e acham que podem fazer o que quiserem pelas minhas costas sem pensar nas consequências, é porque devo estar sendo frouxo — disse Camus, e com um puxão arrancou o cinto da calça — Mas isso muda hoje, porque a dor... ela também ensina!

Père, eu sinto muito! Eu prometo que nunca mais farei nada sem a sua permissão! — Nesse momento Hyoga desandou a chorar, não apenas pelo temor da surra, mas principalmente por ter decepcionado o pai, por ter infringido suas regras a tal ponto que ele iria quebrar uma promessa e castiga-lo fisicamente.

Com rudeza Camus o virou de costas para si e o empurrou contra a mesa, depois com ambas as mãos livres dobrou o cinto em dois, apertando o couro com tanta força que os nós de seus dedos ficaram brancos.

Já Afrodite parecia reviver um pesadelo que por anos ele lutou para esquecer. Por um momento sentiu-se anestesiado. Não tinha uma só parte de seu corpo que não parecesse que a qualquer momento fosse derreter, enquanto ao longe, em ecos, ele ouvia a voz de Camus, mesmo este estando a poucos palmos diante de si e lhe encarando firme nos olhos.

— A minha vontade é de bater em você também, Afrodite, mas ambos sabemos que isso é inútil... E além disso, eu tenho plena certeza de que eu só pararia quando estivesse surrando o seu cadáver!... Agora ele vai apanhar por sua culpa e você vai assistir... porque o que está acontecendo aqui é consequência das suas atitudes egoístas e inconsequentes e do que elas causam na vida das pessoas — disse arfante, apontando para Hyoga com o cinto na mão trêmula.

Nos olhos de Camus, lágrimas amontoavam-se brilhantes como cristais de gelo. Ele sentia-se tão mal que era como se seu corpo todo fosse colapsar a qualquer momento. Mas nada no mundo o faria parar. Era sua autoridade que estava em jogo. Afrodite podia fazer o que quisesse consigo, mas jamais permitiria que ele arruinasse seu filho.

Então, uma faísca dourada relampejou nos olhos agonizantes de Camus na mesma hora em que ele jogou o braço para trás com toda força fazendo dançar no ar o cinto de couro.

Em reflexo Hyoga encolheu os ombros e cerrou os olhos, aguardando resignado pela lapada ardida do couro.

Mas ela não veio.

Sobressaltado Hyoga olhou para trás, por cima dos ombros, e então viu as costas de Afrodite, com a longa trança de seus cabelos azuis perfumados e a seda fina do vestido tremendo levemente devido à grande força que fazia. Ele tinha o braço levantado um pouco acima da cabeça e segurava no ar o punho de Camus que empunhava o cinto.

— Eu não vou deixar você fazer isso — Afrodite sussurrou encarando Camus nos olhos sem hesitar nem por um segundo. — Você não vai tocar em um só fio do cabelo dele.

— Solte. O. Meu. Braço. — Camus ordenou cuspindo palavra por palavra com um ranger forte de dentes, mal acreditando no tamanho da audácia do cavaleiro de Peixes em detê-lo.

Peixes por sua vez, colhia mais uma vez os frutos de seu egoísmo e inconsequência, e o resultado estava ali, bem à sua frente, na figura de um pai revoltado por ter sua autoridade contestada e suas regras de disciplina ignoradas. Camus estava prestes a cometer um erro do qual certamente iria se arrepender e se condenar para o resto da vida, prestes a abandonar a figura do pai carinhoso e atencioso, ainda que a seu modo peculiar de demonstrar afeto, para assumir a de um carrasco cruel; e a culpa era toda sua.

Liderar sozinho uma organização criminosa tão violenta e poderosa, sendo o tempo todo depreciado por não ter sangue russo, e enfrentar constantemente os fantasmas de seu passado, obrigava Camus a ser rígido e inflexível como rocha, o fazendo ignorar muitas vezes que era humano. Mas Afrodite estava lá para lembra-lo disso, quantas vezes fosse preciso, pois que mesmo as rochas são moldadas pela persistência da água.

— Podemos duelar aqui e agora por mil dias, mas eu não vou deixar que você se torne aquilo que mais odeia — ele disse, e seu rosto tinha uma expressão tão severa que suas bochechas maquiadas e seus longos cílios claríssimos tingidos de rímel negro tremiam.

Quase sem conseguir respirar, tremendo da cabeça aos pés sem mais se esforçar para conter as lágrimas, Camus abriu a boca e tentou dizer algo, mas o único som que saiu de sua garganta foi o de um rosnado baixo e sufocado.

— Fui eu quem errou... com Hyoga e também com você... Você ainda está bravo pelo que eu te fiz mais cedo e agora vai descontar em quem não tem culpa de nada. Se quer bater em alguém então bata em mim! — disse Afrodite segurando firme e resoluto o braço de Camus que fazia uma força impressionante para baixo.

Hyoga desesperou-se ao ouvir aquilo, especialmente porque tinha acabo de ouvir Camus dizer que se batesse em Afrodite não pararia até matá-lo, e não seria a primeira vez que veria o pai espancar alguém até a morte. Não podia permitir que ele agredisse sua mãe, e embora ela fosse uma "amazona" de Ouro, alucinado o garotinho virou-se e agarrou Peixes pela cintura na intenção de protege-lo.

— Não, Maman! Não! — gritou Hyoga aos prantos, e olhando para Camus como quem implora por perdão em seu último ato em vida rogou: — Não, papa, por favor! Não faça isso, papa! Não bate na minha maman, por favor! Por favor papa!

A voz do filho de repente despertou Camus da letargia terrível que tolhia todo seu corpo e mente. Seus olhos desceram lentos para a linha da cintura de Afrodite e estacionaram no rostinho atormentado de Hyoga, e nessa hora seu coração falhou uma batida.

Sentindo os dedos da mão formigarem e amolecerem Camus soltou o cinto, que caiu no chão aos seus pés.

Afrodite na mesma hora soltou o punho do aquariano e levando ambos os braços para trás tentava agora confortar Hyoga, mas sem desviar os olhos do rosto abalado de Camus, como se ele fosse uma terrível ameaça.

O instante se deu tão breve quanto um lampejo de memória. De repente Camus sentiu que não estava mais ali, mas na casa antiga onde nascera, e na posição onde agora estava Hyoga, acuado e em pânico, os olhos inchados pelo choro e os golpes inclementes do pai.

O que estava fazendo? Estava fadado a repetir em Hyoga as terríveis feridas de seu passado?

Não.

Ele definitivamente não era como aquele homem, e só de pensar que esteve prestes a repetir a violência que sofrera e se igualar a ele a dor em seu peito se tornou ainda mais excruciante.

Quando sua mente apiedou-se de si e o transportou de volta para o presente, Camus levantou os olhos e olhou para Afrodite à sua frente. Uma lágrima quente contornou seu rosto pálido e tão frio que logo tornou-se um cristal de gelo antes de que pudesse pingar do queixo. Seu corpo todo vibrava de raiva.

Então de repente era como se uma verdade dramática lhe fosse revelada. Ele era capaz de ter controle sobre tudo o que quisesse, fosse através de seu poder esmagador de cavaleiro ou de sua apurada inteligência e perspicácia, mas ele jamais seria capaz de controlar Afrodite.

No entanto... até quando suportaria sofrer as consequências do narcisismo daquele homem sem perder a cabeça e cometer uma loucura é o que ele temia.

Sentindo que seu corpo todo começava a ficar dormente, tomado por uma súbita ira insana Camus reuniu toda a força que conseguiu e deu um tapa no rosto de Afrodite com peito da mão.

Peixes cambaleou para lado devido à surpresa e tremenda força do golpe; sentiu como se no lugar da mão Camus tivesse um martelo.

PAPA! — Hyoga gritou desesperado.

Ainda agarrado à "amazona" ele olhava para o pai com um olhar suplicante e cheio de medo, enquanto Camus, de pé diante deles, respirava com dificuldade e chorava olhando para Afrodite, que permaneceu com o rosto inclinado para o lado.

Aquário sentia-se preso num looping de dor, raiva, revolta e desgosto de tal forma que ofegava sem conseguir sequer pronunciar uma única palavra. Se antes queria agredir Peixes até a morte, agora ele queria enfiar as duas mãos no peito e rasgar o próprio corpo para arrancar o coração e então poder esmaga-lo entre os seus dedos. Quem sabe assim nunca mais sentisse nada e todos os sentimentos terríveis que o assolavam desapareceriam definitivamente.

Sem conseguir mais olhar para aquela cena que lhe despertava os piores gatilhos, Camus deu as costas aos dois e de forma estranhamente lenta, pois que sentia seu corpo colapsado ao ponto de seus passos tornarem-se vacilantes, ele rumou para fora em silêncio absoluto.

Afrodite não voltou a olhar para Camus até que ele deixasse a sala de jantar.

Apesar de muito forte e de deixar seu rosto marcado quase que instantaneamente, o tapa que Camus lhe dera doeu muito mais na alma.

Mas antes ele tivesse tomado mais uns trinta tapas como aquele do que ter visto Camus deixar a sala de jantar aos prantos e alterado como estava.

Peixes sentia-se preso mais uma vez no mesmo e recorrente pesadelo. E sendo ele o agente do próprio sonho ruim agora se perguntava o que fazer, como acordar, como remediar o irremediável, afinal só agora ele se dava conta de que era o único responsável por toda a alteração causada na vida de Camus. Não fosse por ele, tudo estaria correndo como o aquariano planejara desde o começo. Não fosse por ele, Hyoga seria exatamente uma cópia sua, moldado e lapidado a seus moldes como bem quisesse. Não fosse por ele, Camus talvez tivesse mesmo se casado com uma bela mulher que afirmasse sua masculinidade, e sua homossexualidade se resumiria a um desejo trancado no fundo de sua alma. Talvez ele até tivesse sete filhos ruivos com ela, já que o sexo se resumiria à produção de herdeiros legítimos que criariam raízes na liderança da Vory.

Afrodite suspirou. Ele era mesmo tóxico, e estava envenenando aquela família em doses homeopáticas.

Com o coração partido tomou a única decisão que lhe cabia no momento: compensar seu erro com um acerto. Não iria para a Sibéria. Não visitaria Hyoga, nem uma única vez. Escreveria cartas, mandaria fotos, afinal nada nesse mundo mudaria o fato de que agora era "mãe" dele, mas Camus estava sofrendo em ter de quebrar mais uma de suas rígidas regras. Isolamento e privações faziam parte do treinamento de todo e qualquer cavaleiro e ele sabia muito bem disso. Não querendo sofrer com a separação acabou obrigando Camus a ceder e mais uma vez fora egoísta.

Não comunicaria Hyoga sobre sua decisão agora, pois que seria terrível fazê-lo passar por mais essa tristeza naquele dia já tão tenso. Como o tempo e sua ausência ele logo perceberia.

Depois de um breve momento ali refletindo, no qual Hyoga passou tentando chamar sua atenção para verificar-lhe o rosto, Afrodite finalmente respirou fundo e virou-se para ele ficando de cócoras para poder segurar seu rostinho com ambas as mãos e olhar em seus olhos azuis aflitos.

— Shiii, calma... está tudo bem, meu amor, estou bem. — Ele disse com um sorriso doce e forçado, depois esticou o braço e apanhou um guardanapo sujo de cima da mesa. O passou sobre os olhos de Hyoga para lhe enxugar as lágrimas deixando em sua bochecha um risco de molho de tomate.

Maman... eu sinto muito — Hyoga falou entre soluços.

— Não, você não tem culpa de nada, entendeu? — disse Peixes jogando o guardanapo longe para poder afagar os cabelos dele. — A sua mãe aqui, ela... ela tem um coágulo na cabeça que de vez em quando a faz agir meio torto, sabe? A culpa foi minha... eu não devia ter feito uma tatuagem no seu pai... quer dizer, eu não devia ter feito uma tatuagem em você — corrigiu-se apressadamente — nunca mais vamos fazer nada sem consultar o seu pai antes, combinado?

Hyoga fez que sim com a cabeça.

— Hyoga, o que o seu pai ia fazer, bem... ele não queria fazer, ele só estava fora de si. Sabe, quando ele era criança, bem menorzinho do que você é hoje, bem mirim mesmo, ele foi muito judiado e ele sentiu muita dor e muito medo, e depois que ele cresceu toda essa dor e esse medo viraram raiva, e para não sair por aí descendo a porrada em todo mundo ele guardou toda essa raiva dentro dele, só que às vezes ela escapa para fora, e por isso, às vezes, ele é assim meio bravo além da conta... Mas você não deve ter medo dele, porque ele te ama muito, muito mesmo, e jamais te faria mal.

Com os olhos vermelhos devido ao choro, Hyoga levantou a mão e tocou o rosto de Afrodite com as pontas dos dedinhos. Um hematoma arroxeado em forma de meia lua se formava em torno do olho direito.

— Eu sei, Maman... eu não tenho medo — disse o garotinho, com o coração pesado. — Está doendo?

Um dos cantinhos dos lábios de Afrodite, tintos de rosa claro, fez uma curva para cima.

— Não. Nem um pouquinho. Sou uma amazona de Ouro, embora seja uma mulher que finge ser um homem que... enfim — disse dando um suspiro. — Estou é preocupada com o seu pai. Ele não está nada bem... Filho, vamos fazer a coisa certa agora?

— O quê?

— Eu queria muito ir atrás dele, mas eu acho que se eu for e fizer a pêssega* ele vai ficar ainda mais louco, então quero que você vá — disse ele e nessa hora se levantou de supetão e visivelmente apressado foi até a mesa e encheu uma taça com água fresca.

Maman, eu não entendi o que a senhora disse.

Afrodite virou-se para ele e lhe entregou a taça com água.

— Eu disse para ir atrás do seu pai para ver se ele está bem. Anda, vá rápido! — disse mordiscando a unha do dedo mindinho.

— Certo, já estou indo — disse Hyoga antes de sair andando apressado.

Afrodite ficou olhando ele deixar aquela sala levando consigo a taça com água para Camus. Quando o garotinho enfim desapareceu do seu raio de visão, ele fechou os olhos e respirou fundo uma, duas vezes.

Um sentimento avassalador de desespero comprimia seu peito e lhe fazia sentir uma vontade enorme de chorar.

Estava decidido. Voltaria agora mesmo para o Santuário.

Tudo o que queria naquele instante era voltar para sua casa e deixar aquela família em paz, mesmo que isso lhe custasse caro, pois sabia que definharia de tristeza. Porém, ainda mais triste era fazer Camus passar por todas aquelas situações sem conseguir nunca de fato evita-las.

— Dadá, afinal qual é o meu problema? — Suspirou dando três soquinhos na própria cabeça. — Por que fui meter uma tatuagem na bunda dele? Sim, porque não fosse pela da bunda a do Hyoga seria aleijo pequeno e não teria causado tanto babado... Afrodite, que bela bicha do além* é você!

Com lágrimas nos olhos Peixes deixou a sala de jantar e já caminhava em direção à porta da saída da mansão quando de repente ouviu Hyoga chama-lo com um grito aterrador.

MAMAN DI, DEPRESSA! CORRE AQUI! CORRE AQUI!

Peixes sequer pensou duas vezes.

Na velocidade da Luz ele surgiu na suíte de Camus diante de um Hyoga terrivelmente pálido e assustado que pelejava para levantar do chão a cabeça e o torso do pai inconsciente.

— CAMUS!

Afrodite gritou correndo até eles e se jogando no chão de joelhos.

Na hora em que puxou Camus para seu colo para verificar a respiração e principais funções vitais, Peixes entrou em pânico.

O corpo dele estava assustadoramente frio e inerte.

Era como ter nos braços um cadáver.

Dicionário afroditesco

Abilolado – louco; com o juízo prejudicado.

Aleijo – problema; situação ruim.

Colocón – drogado; dopado de remédios.

Do além – pessoa ruim; pessoa que só causa problemas; mal caráter.

Edi – ânus.

Fazer a Pêssega – agir como se nada tivesse acontecido; fingir demência.

Tombado – feio; ruim; fora de moda; estragado.

* Pelmeni – é um prato da culinária russa. Bolinhos feitos de massa fina e recheados com carne picada.

Curiosidade – A frase do Dite dizendo que tentou fazer o melhor para Camus mas acabou fazendo o de sempre foi inspirada na de Viktor Stepanovich Chernomyrdin, que foi o primeiro ministro russo entre 1992 e 1998. (O governo não é aquele órgão onde, como dizem, só se mete a boca. Nós queríamos o melhor, mas veio o de sempre)