Capítulo 30
Reencontro
"I will not make the same mistakes that you did."
"Because of You" – Kelly Clarkson.
O pouco de calmaria que ainda habitava em Snape foi embora junto com o mês de janeiro. Conforme os dias passaram e a neve derretia, ele via o dia que deveria cumprir sua promessa chegar à galopes. Dumbledore estava deixando-o cansado com suas omissões, Voldemort estava cobrando-o sobre Elizabeth, e – a cereja daquele bolo desastroso – Elizabeth estava se afastando.
Eles não se falavam direito desde o desentendimento que tiveram sobre Tobias. Após esse dia, Snape notou que ela vinha se ausentando do castelo com frequência. Quando questionada, a resposta tinha um padrão: ou estava comprando alguns ingredientes para poções ou estava visitando o sobrinho no hospital. Ela também voltara a dormir em seus próprios aposentos. Snape não conseguia evitar de sentir um misto de medo, culpa e alívio.
Medo de perdê-la, tanto para outra pessoa quanto para a morte. Não sabia o que esperar do tempo que ela passaria refém do Lorde das Trevas. Culpa por estar envolvido com ela, o que tornava tudo mais difícil. Culpa por ser quem mataria o padrinho dela e quem a levaria ao seu algoz. Mas alívio talvez – só talvez – por ela estar finalmente percebendo que ele não era bom para ela, que ele era perigoso, que ele sempre só trazia dor e sofrimento para os outros. Talvez, e só talvez, Elizabeth finalmente percebera que o certo a se fazer era deixá-lo.
ooOOooOOoo
Fevereiro chegou junto com a batida à porta de Snape. Estranhou porque Dumbledore raramente vinha até seus aposentos, porque Elizabeth nunca batia e porque, tirando esses dois, não havia mais ninguém que o procuraria ali. Mas qual foi sua surpresa quando encontrou os olhos castanhos de Elizabeth o fitando ao abrir a porta.
— Não precisa bater. Sabe disso.
— Mas ainda me resta educação — ela lhe ofereceu um pequeno sorriso. — Hector recebeu alta. Estou indo vê-lo e queria saber se você não quer ir também.
O professor não pôde evitar se sentir envergonhado. Com certeza não esperava por Elizabeth ali, não depois das últimas semanas que mal se viram e se falaram, e esperava muito menos que ela o convidasse para ver o sobrinho.
Acreditava que não deveria ir. Não achava adequado se envolver cada vez mais com a família Jones diante da posição que ocupava como Comensal da Morte, e, também, estava irritado com Elizabeth para simplesmente aceitar o convite após o afastamento repentino. Mas Severo gostava de Edward, era um bom rapaz. E gostava principalmente de Elizabeth para dizer "não" a ela. Ele vestiu o sobretudo e caminharam juntos até os limites do castelo, e assim aparataram.
Elizabeth se agarrou ao braço de Snape por alguns segundos até o enjoo passar. A palidez em seu rosto denunciava como o teletransporte bruxo a afetava.
— Eu odeio aparatar — soltou-se dele. — Olha só! São meus meninos.
Edward esperava por eles na varanda da casa, com Hector em seu colo. O semblante do Jones mais velho parecia muito mais saudável e aliviado do que Snape vira no Natal.
— Pode me passar esse bebê. — Elizabeth disse ao estender os braços para pegar o sobrinho no colo.
Snape assistiu com estranheza a mulher fazer vozes agudas e infantilizadas para se comunicar com o bebê. Não negou que aquela cena lhe provocou medo e desejo.
— Eu nem pude te agradecer, Snape. — Edward disse quando entraram e apontou o sofá para que se sentasse.
— Não tem o que agradecer.
— Ah, tenho. Tenho sim. Ninguém teria abertos meus olhos senão fosse você.
— E o cigarro? — A irmã perguntou interrompendo a conversa.
— Escasso. Só tenho fumado quando ele dorme e às vezes nem isso. Preciso preparar a mamadeira dele. — Disse se dirigindo para a cozinha. — Já volto.
— Oiiiiiii — Elizabeth balbuciou para Hector. Deu um beijinho no nariz do sobrinho e voltou seus olhos para Snape. — Quer segurá-lo?
Ele pensou em negar, mas a resposta ficou aprisionada em sua garganta. Elizabeth se aproximou do sofá e transferiu o pequeno embrulho que era Hector envolto pela manta para os braços do homem. Snape sentiu seu corpo inteiro se enrijecer, e não atreveu a se mover ou falar. Estava completamente paralisado com um bebê em seus braços.
— Vou ver se Ed precisa de alguma. Vocês vão ficar bem?
Ele conseguiu balançar a cabeça afirmativamente antes de ela ir e manteve seus olhos presos na parede. Ficou sem se mover pelo o que pareceu uma eternidade. Seus braços doíam de tensão e até mesmo sua respiração estava desregulada.
Um pequeno balbucio fez com que Snape abaixasse os olhos para o pequeno ser em seus braços. Hector tinha grandes olhos castanhos, que, naquele momento, fitavam curiosos o homem que o segurava. Os dois se olharam por muitos segundos. O bebê, então, balbuciou mais alto dessa vez e se mexeu como se estivesse se ajeitando mais confortavelmente naquele colo. Foi quando Severo sentiu seu corpo relaxar e, até mesmo, acariciou a mãozinha que segurava a manta.
ooOOooOOoo
Já era quase a hora do jantar quando retornaram ao castelo. Foram contra o fluxo que seguia em direção ao Salão Principal e caminharam para as masmorras. Snape estranhou quando passaram direto pelo dormitório de Elizabeth e ela não adentrou. Em vez disso, a jovem professora continuou a acompanhá-lo até chegarem aos aposentos de Snape.
Ele fez um gesto para que ela entrasse primeiro, aproveitando para disfarçar sua face de desagrado. Estava confuso e irritado com o comportamento de Elizabeth. Odiava quando as pessoas voltavam a agir como se nada tivesse acontecido. Ela não poderia simplesmente fingir que não estava há semanas sem conversar com ele direito, sem vê-lo, sem beijá-lo e, muito menos, sem estar intimamente com ele. Mas optou por não dizer nada. Queria que ela tomasse a iniciativa. Não era ela quem se auto convidara para ir até os aposentos dele? Pois que resolvesse a situação.
Elizabeth sentou-se no sofá, esfregando as mãos suadas no jeans da calça. Severo seguiu direto para o aparador bar e se serviu de um pouco de gim. Elizabeth já sabia reconhecer o modus operandi de Severo. Ele estava irritado com ela e tinha toda a razão de estar. Depois de semanas inventando desculpas para justificar sua ausência, seu estoque de mentiras estava acabando. A resposta que procurara tanto surgiu apenas recentemente. Porém, agora já não se sentia mais tão confiante como quando decidiu fazer o que fez.
— Gostou de ver Hector? — Tentou iniciar uma conversa, ressentindo-se por ele ter se servido sem lhe oferecer nada.
— Fico feliz que ele esteja bem — disse enquanto se sentava na poltrona.
— Você ficou muito calado lá na casa do Edward... Mais do que o normal.
A resposta do professor foi um olhar ferino para a mulher, que suspirou.
— Olha, eu sei que eu me afastei nas últimas semanas. E não foi sem motivos.
— Tenho certeza que não. — Severo comentou mordaz.
— Depois da última reunião com Dumbledore, eu tive um desentendimento com o Harry. Ele sabe sobre a gente, e eu fiquei com medo de que outras pessoas também percebam.
— Eu sabia que mais cedo ou mais tarde você perceberia que o melhor para você é a gente se afas...
— Nem termina a frase. — Elizabeth o interrompeu. — Em nenhum momento eu falei que estaria deixando você.
— Eu não posso te salvar se você não me deixar...
— Para com isso! — Fechou os olhos com força. — Eu não estou pedindo para ser salva, Severo. Não estou com você porque quero que me proteja. Eu te amo. E eu estou morrendo de medo de Voldemort. Me afastei porque precisava pensar um pouco, pensar sobre nossas atitudes e decidir como podemos ser mais discretos.
Ela o fitou esperando encontrar o mesmo semblante raivoso, mas ganhou um olhar comedido e leve. Severo se perdera nas três palavras que ela disse no meio de tantas outras.
Elizabeth sentiu seus olhos lacrimejarem ao perceber o que revelara e enterrou o rosto nas mãos. Sentiu o sofá afundar ao seu lado e o perfume inconfundível de Severo invadiu seu olfato.
— Liz... — afastou as mãos dela para olhá-la nos olhos.
— Eu preciso que você me escute até o final — disse de repente. — Existe mais um motivo para o meu afastamento.
O professor secou suas lágrimas escassas e assentiu com a cabeça. Seu semblante se fechara novamente.
— Por favor, Severo. Preciso que me prometa que vai ouvir até o final.
— Você está me assustando.
— Por favor...
— Eu prometo.
Ela respirou fundo. Não fazia a menor ideia de qual seria a reação de Severo. Sabia que ele ficaria chateado, mas o quanto? Ele se afastaria? Ele terminaria o que tinham? Pois sabia que estava sendo invasiva.
— Isso parecia uma ideia brilhante algumas semanas atrás. Hoje vejo que muito provavelmente eu fiz uma merda das grandes. — Engoliu em seco. — Você se lembra do Philip? Ele é amigo do Edward, foi padrinho no casamento dele. — Severo confirmou e ela continuou — O Philip é policial, é investigador da Scotland Yard. Eu pedi para que procurasse pelo seu... Por Tobias.
A primeira reação foi a pior de todas: o silêncio. Conforme a informação era absorvida pela mente dele, a expressão de Snape se transformava da apatia para a raiva.
— Eu falei para não se meter nisso — Snape falou com raiva, levantando-se para longe dela.
— Sev...
— Você não tinha o direito de se meter! — Gritou com o dedo erguido na direção dela.
— Você prometeu que escutaria! — Gritou de volta.
A muito contragosto, Severo se silenciou para ouvi-la, mas não retornou para o lado dela.
— Onde ele está enterrado?
— Ele ainda está vivo.
— E?
— Philip me deu um endereço. Eu entrei em contato.
— É claro que você entrou em contato — riu com amargura. — Você é impossível, Elizabeth! Impossível! — Praguejou enquanto esfregava a mão no rosto, totalmente descrente.
— Ele quer vê-lo.
— Como? — A voz do homem tremeu.
— Tobias. Ele quer ver você.
— Quando? — Foi a única coisa que ele conseguiu dizer.
— Amanhã. Eu deveria ter te preparado antes, mas... Me desculpa. Eu não sabia como te dizer.
A atitude de Severo foi se dirigir novamente para o aparador e beber dois grandes copos de uísque. Elizabeth o observava assustada e temerosa. Snape vestiu novamente o sobretudo que tirara em algum momento e disse ao estender a mão para ela:
— É bom eu não estar sóbrio para fazer isso.
— Ma-as — gaguejou — nós marcamos para amanhã.
— E eu digo que irei hoje — disse com frieza. — Quero acabar logo com isso.
Eles retornaram pelo caminho que tinham feito há pouco tempo, e mais uma vez Elizabeth os aparatou.
Estavam em um bairro trouxa. Snape olhou em volta se certificando que ali era muito melhor do que a Rua da Fiação, embora não fosse grande coisa. Sentiu uma pontada de raiva e, até mesmo, inveja. Tobias o abandonou e, no fim, vivia melhor do que ele próprio. Assistiu à Elizabeth caminhar na direção de um prédio um pouco deteriorado, e quando ela ergueu a mão até a campainha, desesperou-se.
— Elizabeth, espere! — Ele a impediu correndo até ela. — Esquece. Não posso fazer isso.
— Podemos ir embora, se quiser — segurou a mão dele.
Depois de muito hesitar, o professor cerrou os olhos e negou com a cabeça, decidido ir até o fim. A campainha soou. A voz de uma mulher soou no interfone. Elizabeth se identificou e logo o portão foi destravado.
Subiram dois lances de escada e pararam defronte ao apartamento de número 233. Uma mulher, que devia ter cinquenta anos, abriu a porta. Ela era baixinha, um pouco gordinha e carregava um sorriso incerto. Os cabelos eram de um tom castanho avermelhado e os olhos eram de um azul desbotado.
— Boa noite, Sra. Harrington. — Elizabeth a cumprimentou. — Sei que marcamos a visita para amanhã, mas algumas coisas aconteceram. Esse é Severo de quem falei.
— Boa noite — ela tinha uma voz rouca. — Oh! Entrem, entrem.
O casal adentrou em silêncio. O aquecedor que funcionava cansadamente levava um calor aconchegante para o resto da casa.
— Sentem-se. Querem chá?
A Sra. Jane Harrington falava quase entusiasmada, mas o jeito como dobrava constantemente os dedos mostrava que não estava exatamente confortável com a situação.
— Café seria ótimo. — Elizabeth disse.
— Onde ele está? — Severo perguntou de uma vez.
— No...
— Severo? — A voz inconfundível o chamou de algum lugar.
Tobias Snape estava parado no corredor com o corpo ainda metade para dentro do cômodo. Estava aparentemente bem. A calvície o atingira totalmente, mas portava uma barba cheia e grisalha no rosto. Os olhos cor de mel permaneciam quase os mesmos, embora transmitissem muita dor.
Tobias abriu totalmente a porta e gesticulou para que Severo entrasse. Ele caminhou pelo corredor curto como se caminhasse para a forca. Todos os anos de sua infância e adolescência passavam como um filme diante de seus olhos. Sonhou com aquele momento por muito tempo e ele finalmente chegara. Nunca imaginou que seria daquela forma, encontrando Tobias num apartamento em um bairro qualquer. Esperava que o encontrasse ainda viciado, que o repelisse ou até mesmo que já estivesse morto.
Os dois adentraram o pequeno escritório em absoluto silêncio. Tobias apontou uma das poltronas para o mais novo e se sentou na defronte.
— Vou ser sincero. Achei que não viria. — Falou com sua voz grave e rouca.
— Nem eu — respondeu. Não havia nenhuma emoção estampada na máscara que era o rosto de Severo.
— Sua namorada é muito obstinada, se me permite dizer.
— Ela não é minha namorada.
— Não é? — Questionou com certa graça. — Vocês jovens são avançados demais — Riu sem humor, mas não conseguiu quebrar a tensão. — Você... Você bebeu?
— Isso importa? — Imaginou que o hálito forte de uísque o entregara.
— Sabia que alcoolismo é genético? — A única resposta que teve foi o revirar de olhos do professor.
Severo analisou atentamente Tobias. Estava com um peso saudável e não magro como estava quando o viu pela última vez. Além da barba grisalha, agora usava óculos e tinha algumas cicatrizes no rosto, que Severo julgou serem dos machucados mais feios da surra que levou.
— A garota — apontou para a porta, indicando a sala —, Elizabeth, me contou algumas coisas.
— Minha mãe morreu quando eu tinha dezenove anos — disse de repente. Não sabia porque achava que deveria dizer isso. Talvez fizesse Tobias se sentir culpado.
— Eu... Eu soube — respondeu com pesar. — Quando fui tirar meus documentos novos, descobri que estava viúvo. Cheguei a visitá-la no cemitério algumas vezes.
— Então as flores que estavam lá eram suas?
— Margaridas? Sim, eram as favoritas dela.
Os Snape permitiram que o silêncio vagasse como um fantasma entre eles. Existia ali muita mágoa, raiva, desespero e saudade, mas Severo não sabia qual das sensações sentir primeiro.
— Por que nos deixou? — Sussurrou com os olhos cravados no chão.
— Eu era um fardo. — Tobias disse com amargura. — Vocês estariam infinitamente melhor sem mim.
— Estaríamos? — A voz de Severo estava carregada de sarcasmo, que ele usava como escudo. — Passamos por maus bocados, Tobias. Mamãe morreu no buraco mais obscuro que a depressão dela a levou e eu... Dumbledore, você deve se lembrar dele, sempre me confrontou perguntando que tipo de homem eu desejava ser. Nunca consegui responder, mas sempre soube que não queria ser igual você.
— Jamais poderia ser igual a mim, Severo — os olhos de Tobias perfuravam o filho com ternura e medo. — Você sempre teve capacidade de se tornar um homem muito melhor do que eu fui.
— Então tenho uma péssima notícia para te dar — levou a mão inconscientemente ao antebraço esquerdo. — Eu quero entender o que aconteceu.
— É claro — suspirou. — Depois que... Que fui embora, morei na rua por algum tempo. Tentava juntar dinheiro da forma que podia para pagar o que devia, mas no fim sempre acabava me drogando de novo.
"Até que, um dia, eu passei por uma igrejinha e... Eu pude escutar o Senhor, voltei a ouvir a voz de Deus. — Severo revirou os olhos e Tobias o repreendeu — Não faça isso. Estou dizendo a verdade. Bem, eu entrei naquela igreja e rezei tanto, Severo, tanto! O padre me viu, nós conversamos e ele me encaminhou para uma clínica de reabilitação filiada à igreja.
"Me tratei, me curei, arranjei um trabalho e paguei minhas dívidas. Foi lá que conheci Jane. Ela era voluntária, ainda é. Tinha ficado viúva há pouco tempo. O falecido marido era militar, deu a vida pelo Reino Unido. Construímos um relacionamento e... Levei muito tempo para aceitar que Deus estava me dando uma nova chance. Achei que Ele já tivesse desistido de mim."
— Comovente. A velha história do cristão arrependido. Deus parece ter alguns filhos favoritos, não é?
— Severo...
— Você não tem ideia de como isso tudo me afetou — cortou-o com frieza. — Eu sempre me senti rejeitado. Primeiro, a família da mamãe. Depois os professores, a escola, as outras crianças, minha melhor amiga, meu pai. E agora até mesmo Dumbledore, que foi a coisa mais próxima de um amigo que tive desde Lilian, que, acho que você não se importa, mas, para seu conhecimento, ela também morreu.
Tobias desviou o olhar para o lado querendo esconder o marejar. Permaneceu calado e permitiu que o filho destilasse sobre si toda sua raiva. Ele tinha razão para isso.
— Você não tem ideia dos danos que o seu abandono me causou! — Sua voz vacilou. — Todas as decisões erradas que cometi, tudo de errado que fiz... Eu só precisava de alguém que me orientasse, que dissesse: "calma, vai ficar tudo bem". Mas nada nunca fica bem, porque você NUNCA ESTÁ LÁ!
Foi quando seu grito reverberou que o professor percebeu que lágrimas desciam pelo seu rosto. Não se lembrava qual fora a última vez que chorou. Talvez tivesse sido quando Lilian morreu, mas não tinha certeza. Tobias, por sua vez, se debulhava silenciosamente em lágrimas, incapaz de olhar para o filho.
— Às vezes, eu acho que te odeio — ele se levantou da poltrona. — Às vezes, eu só quero me esconder do mundo, porque acho insuportável admitir que sinto a sua falta.
— Eu sinto sua falta todos os dias... — Tobias soluçou.
— Então por que não me procurou? — Levantou a voz de novo.
— Porque eu sou um covarde! — Ele gritou de volta. — Eu encontro você e digo o quê? "Oi. Sei que te abandonei, mas pode aceitar seu pai de volta?". Não te procurei porque sei que você não está pronto para me perdoar. Talvez nunca esteja, e eu entendo isso, Severo.
— É... Eu não estou — disse simplesmente.
Mais um grande momento de silêncio se fez presente. Severo se encaminhou para sair dali, mas Tobias o impediu por um momento.
— Isso ainda foi muito melhor do que achei seria. Não acho que eu mereça tanta misericórdia. Você pode achar que não está sendo misericordioso — disse quando viu que o filho iria questioná-lo —, mas está. Me deu o benefício da dúvida, Severo, isso para mim já é o bastante.
Severo não pôde olhá-lo nos olhos novamente, e apenas alcançou a maçaneta o mais rápido possível. O vulto negro atravessou tão rápido a sala, seguindo para a saída, que Elizabeth e a Sra. Harrington se assustaram. Ela se despediu brevemente da senhora e o seguiu escadas abaixo, até alcançarem a rua deserta.
— Severo...
— Só vamos embora, ok? — Estendeu a mão para ela.
— Ok — ela deu a mão para ele e eles aparataram.
Quando chegaram ao corredor de seus aposentos, Snape parou defronte ao dormitório de Elizabeth e disse sem deixar espaço para questionamentos.
— Você fica aqui! Preciso de um tempo.
E seguiu como um jato para o seu quarto, onde se permitiu chorar como a criança que fora um dia, mas sem o colo de sua mãe.
