Eu me achava meio tola, meio medrosa e completamente indecisa por aceitar o desafio de Niki de dar uma volta de avião enquanto ele pilotava. Depois de um tempo, consegui admitir que meu medo era um tanto irracional e confiei no meu marido mais uma vez, acreditando que tudo daria certo. E realmente deu, fiquei feliz que tivemos um voo tranquilo e realmente a vista do céu lá de cima era incrível, me fazia me sentir tão pequena e tão maravilhada, pensando em como seres humanos bem menores poderiam ser parte de um universo tão maior e muito mais vasto.
Mas nem tudo deu certo, conforme Niki foi voltando à área de pouso, senti um enjoo terrível e repentino. Não sabia explicar direito de onde vinha aquele mal estar. Eu não tinha medo de altura e meu nervosismo tinha passado depois que estávamos lá em cima. Talvez agora eu estivesse passando mal justamente por causa do nervoso anterior.
-Niki... eu acho que vou vomitar... - murmurei, tentando procurar uma solução para não acabar com o avião com os resíduos do meu estômago.
Meu marido fez uma careta de preocupado e apontou para uma espécie de gaveta que estava no meio do painel de controle. Entendi que eu deveria abrir, encontrei um saco de papel e antes que fosse tarde demais, vomitei ali dentro.
-Me desculpa por isso - falei depois de fazer umas caretas, colocando o saco pra longe de mim.
-Tudo bem, o importante é você estar se sentindo melhor - ele me entendeu.
-E eu não ter sujado seu precioso avião - eu ri - me desculpa Niki, parece que eu não estava tão preparada assim pra andar de avião com você.
-Não, isso é bobagem, você se saiu muito bem - ele me elogiou, e depois, deixamos o assunto de lado até aterrissarmos.
Deixamos o avião ali e voltamos pra casa, preferi que Niki dirigisse dessa vez. Durante o trajeto, senti o estômago revirar outra vez.
-Você não me parece nada bem - deduziu meu marido, preocupado - está sentindo alguma dor?
-Dor? Não bem uma dor, mas um incômodo na barriga - murmurei, ainda incomodada - não me lembro de ter comido nada além do normal hoje.
-Às vezes não foi o que você comeu, você estava bem nervosa antes de voarmos, pode ter sido isso - Niki concordou com algo que eu já tinha pensado.
-Tá bem, então, é melhor eu ir pra casa e descansar um pouco, quem sabe isso passa - decidi resolver essa questão dessa forma.
Foi o que eu fiz, me deitei um pouco, esperando o enjoo passar, mas ele simplesmente não queria me deixar em paz.
-Não é melhor irmos ao médico? - Niki sugeriu, ainda preocupado, o que comecei a achar um tanto exagerado.
-Bom, é uma coisa muito simples pra precisarmos ir ao médico, mas se você insiste, vamos lá sim - acabei aceitando o que ele sugeriu.
Mais uma vez, em meio à espera para ser atendida, Niki estava sentado ao meu lado enquanto algumas pessoas olhavam suas cicatrizes com curiosidade. A expressão do meu marido não mudou ou se abateu por isso, ele realmente estava acostumado com esse tipo de reação.
-Marlene Lauda - me chamaram e me levantei imediatamente.
Respondi ao que o médico queria, esperei um pouco, até que ele analisasse o que eu disse. Por fim, pediu um exame de sangue, que só poderia ver o resultado daqui uma semana. Então voltamos para casa.
-Isso tudo foi muito sério pra um enjoo - comentei, estranhando as perguntas do médico.
-Pois é, eu também achei, mas preocupação nunca é demais, se for algo mais grave, temos que estar preparados - Niki falou seriamente comigo sobre o assunto.
-Sério? Não há nada de sério num enjoo, isso vai passar - afirmei, mais enérgica do que pretendia, e aquilo me surpreendeu - me desculpe, falei mais alto do que queria...
-Tudo bem - Niki murmurou uma resposta curta, mas eu sabia que em sua mente havia muito mais se passando.
Mais dias se passaram, meu enjoo repentino retornou e então, fomos buscar o tal do exame juntos. O médico nos entregou o papel sem nos falar nada, mas estava ali, bem escancarado e claro o motivo real do meu mal estar. Não tinha nada a ver com mal, na verdade, era uma coisa muito boa.
-Isso é mesmo verdade? - olhei do papel para o médico e para Niki, não esperava que fosse essa a resposta.
-É, é o que diz aí... - Niki murmurou, meio maravilhado - não há como negar...
-Não há dúvidas de que a senhora está grávida, meus parabéns - disse o médico, com a coragem que me faltava para dizer aquela palavra que definia meu estado atual.
-Obrigada, muito obrigada - recobrei à consciência, consegui me levantar e agradecer, indo embora.
-Isso é bom, não se preocupe, isso é muito bom - Niki repetia para mim, enquanto voltávamos pra casa.
-Você não está nem um pouquinho assustado? - fui sincera - isso não estava nos nossos planos, nos seus planos... não que eu esteja reclamando, eu queria ser mãe algum dia, é que as coisas aconteceram mais rápido do que eu esperava.
-Sim, eu concordo com você, foi inesperado - Niki afirmou - mas se tem uma coisa que eu aprendi com a vida é que ela é imprevisível, algumas coisas estão fora do nosso controle, e eu estou feliz que uma coisa boa nos aconteceu.
-Será que estamos preparados pra isso? É uma grande responsabilidade - falei com todas as letras sobre o que eu temia.
-Nós vamos conseguir, tenho certeza disso - Niki segurou minha mão, sendo prático como sempre, me garantiu que ficaríamos bem.
Por confiar em Niki, também passei a acreditar nisso, eu faria o meu melhor pela nossa família, pelo meu filho.
