Capítulo Vinte e Nove: Uma Visita de Dobby

Harry abriu os olhos lentamente. Ele sabia que algo o estava cutucando, mas ele não soube imediatamente o que era. Parecia um dedo longo e estreito, e os olhos o encarando de cima pareciam olhos de elfo doméstico. Mas por que eles seriam? Elfos domésticos nunca vinham e acordavam os alunos no meio da noite, e já era madrugada agora. De manhã, Harry tinha que receber o presente de equinócio de primavera de Lucius. Ao pôr do sol, ele tinha que encarar seu irmão. Ele queria ter todo o descanso que pudesse antes disso.

Mas então ele percebeu que o elfo doméstico era Dobby, e a névoa do sono se dissipou de sua mente. Ele se sentou, mantendo a voz baixa. "Qual é o problema, Dobby? Aconteceu alguma coisa com o Sr. e a Sra. Malfoy?"

Dobby balançou a cabeça com tanta força que suas orelhas balançaram. Seus olhos são enormes e parecem brilhar, Harry pensou. "Não, Dobby veio atrás de Harry Potter, senhor", ele disse. "Harry Potter, senhor, deve se levantar."

"Aconteceu alguma coisa com Draco, então?" Harry perguntou, enquanto pegava seus óculos. Ele conseguiu colocá-los e ouvir os ruídos atrás das cortinas ao mesmo tempo. Ele não conseguia ouvir nada além da respiração familiar de seus colegas de quarto. Draco parecia profundamente adormecido.

"Não," Dobby sussurrou, e então gesticulou. Harry olhou. Fawkes sentou-se na ponta da cama, não estava dormindo como de costume, mas olhando para ele com olhos brilhantes e graves. Ele inclinou a cabeça ligeiramente quando Harry olhou para ele e deu um sussurro.

"Harry Potter deve vir passear com Dobby e Fawkes," Dobby traduziu. "Temos algo para mostrar a você."

Perplexo, mas obediente, Harry assentiu. "Deixe-me colocar uma capa. Se vamos sair, então vou precisar."

Dobby não disse nada para contradizer isso, então Harry andou como um fantasma ao redor de sua cama até seu malão. Ele ouviu atentamente a respiração ao seu redor enquanto tirava a capa e a colocava sobre os ombros. Greg, Vince, Blaise e Draco pareciam convencidos de que nada estava acontecendo.

Harry estremeceu ao pensar no que Draco e Snape diriam sobre esse passeio, mas não era como se ele estivesse inseguro com Fawkes. Ele tinha certeza de que um deles teria aprovado a fênix que o acompanhava como uma guardiã, se eles tivessem pensado nisso.

Então, tendo satisfeito sua consciência, Harry se virou. Ele presumiu que eles sairiam do quarto, mas Dobby segurou sua mão com firmeza.

"Harry Potter, senhor, deve segurar firme", ele disse.

Harry mal assentiu com a cabeça quando eles pareceram pular no ar e ficar parados ao mesmo tempo. Ou talvez todo o resto tivesse se movido ao redor deles, Harry pensou, impossível como isso fosse. Ele usou o pensamento para manter seu jantar no estômago. Seu cérebro e seu estômago bateram violentamente contra o interior de seus respectivos recipientes. Ele piscou quando foi capaz de ver novamente, e olhou ao redor para o lugar que Dobby o trouxera, provavelmente por aparatação de elfo doméstico.

Era familiar, mas ele ainda não conseguia compreende-lo até que Fawkes apareceu acima deles e o iluminou com suas chamas. Então Harry reconheceu a clareira onde ele havia negociado com centauros pela vida de Draco. Ele bateu os pés e estremeceu. Estava mais frio agora do que quando ele fez aquela negociação, e a neve lamacenta ainda se amontoava sombriamente no abrigo das árvores nuas, sendo primavera amanhã ou não. O chão parecia ferro, como se não fosse vivo.

"Harry Potter deve estar vendo", disse Dobby em sua voz estridente. "E este é o melhor lugar para ver." Ele olhou com expectativa para Harry.

"O que você quer que eu veja?" Harry olhou em volta novamente. Lá estavam as grandes pedras que os centauros usaram para formar a forca improvisada para Draco, e o caminho que seguia pelo topo da colina com a forca e então continuava mais adiante. Ele não viu nenhum centauro esperando, nenhuma árvore impossível, nada que ele pensasse que um elfo doméstico e uma fênix poderiam tê-lo tirado de Hogwarts para mostrar a ele.

Fawkes cantarolou e Dobby já traduziu. "Harry Potter, senhor, é para ver o que ele viu na jornada com Fawkes."

As chamas? Harry pensou, mas percebeu a verdade em um momento.

As redes.

Ele se lembrou do que sentiu durante a jornada com Fawkes, e imediatamente suas emoções sobre a Trouxa tentaram se levantar e atacá-lo. Harry respirou calmamente e as subjugou com sua Oclumência. Ele recuou com pura memória, pensando nas emoções presas entre painéis de vidro, como a coleção de borboletas que a Trouxa descrevera ter uma vez. Ele sempre tivera uma boa memória, o que o deixava reter informações sobre feitiços e história e os inimigos de Connor e as danças puro-sangue.

Quando ele teve certeza de que estava tão aberto quanto possível para ver outro mundo por trás do mundo bruxo, ele olhou para cima.

Ele ficou olhando. Ele não esperava ver tantas teias diferentes. Elas eram do mesmo dourado da teia da fênix em alguns lugares - e Harry sentiu os restos despedaçados dela em sua mente se agitarem brevemente, como se sentisse o parentesco - mas um grande e intrincado padrão no centro de todas elas brilhava num prata sutil e de partir o coração , e havia padrões pontiagudos de verde escuro que fizeram Harry querer sibilar. Ele achou que aquelas eram provavelmente cobras mágicas presas. Ele se virou lentamente e observou as teias subirem ao redor dele. Era como estar no centro de um floco de neve, se os flocos de neve brilhassem como arco-íris e com mais cores do que em qualquer arco-íris.

"O que elas são?" ele sussurrou.

Fawkes sussurrou e Dobby falou em um tom moderado. "O que Harry Potter viu uma vez antes. As redes que nos prendem."

Harry se virou, apertando os olhos com força para Dobby, e viu a rede que circulava ao redor dele, um azul-gelo brilhante. Ela desaparecia para o Solar Malfoy. Ele inclinou a cabeça. "Elas prendem os elfos domésticos ao serviço?"

"Sim," Dobby sibilou, e por um momento, ele pareceu selvagem, quase assustador. Harry pensou sobre a magia dos elfos domésticos, que podiam aparatar até mesmo em áreas, como Hogwarts, onde bruxos humanos não podiam, e que não precisavam de varinhas, e se perguntou se isso era o que os bruxos que os prendiam tinham visto. Mas Dobby se acalmou por um momento e olhou tristemente para Harry. "E pior do que o serviço. Eles fazem os elfos gostarem do serviço." Ele tapou a boca com a mão e gemeu por entre os dedos, algo sobre ser um elfo mau.

Harry assentiu com a cabeça. Genial, realmente. Isso significa que eles não tentarão retirar a teia sozinhos. Ele se voltou para o labirinto de redes novamente e acenou com a mão. "E essas?"

"Diferentes criaturas mágicas," disse Dobby, e apontou para a teia prateada. "Os unicórnios."

"Unicórnios?" Harry ecoou inexpressivamente. "O que eles fizeram com os bruxos?" Ele podia entender as redes sendo usadas em criaturas perigosas como gigantes ou dragões e, claro, elfos domésticos viviam entre bruxos e tornavam suas vidas mais fáceis, mas amarrar unicórnios parecia inútil.

"Eles eram bonitos demais", disse Dobby.

Harry rangeu os dentes. "E esta?" ele disse, apertando os olhos para uma teia azul escura que ele mal conseguia ver, da cor do céu ao pôr do sol.

"Centauros", disse Dobby. "Para evitar que eles se mostrem aos Trouxas, para evitar que eles prejudiquem os bruxos, para evitar que eles usem demais sua própria magia." Ele deu de ombros. "Dobby só conhece alguns dos efeitos. Dobby lamenta. Ele não é estudado em história."

"Todos os elfos domésticos sabem disso?" Harry se sentiu um pouco enjoado. Isso poderia ter sido corrigido tão facilmente no passado, talvez, por qualquer bruxo poderoso, se eles tivessem pensado em perguntar aos elfos domésticos. Ele se perguntou se Dumbledore sabia, e se ele realmente deixaria as teias assim se soubesse.

Bem, ele usou uma em mim. Provavelmente, a resposta é sim.

"Sim", disse Dobby. "Elfos foram os primeiros a ser amarrados, Harry Potter, senhor." Pela primeira vez, Harry percebeu como o elfo estremeceu um pouco quando acrescentou o título. Em um ser humano, Harry teria chamado aquilo de vacilação de nojo. "Os elfos podem ver as outras teias. Os elfos sabem o que elas fazem."

"Mas vocês não podem se rebelar," supôs Harry.

"Apenas elfos maus se rebelam," disse Dobby, e então colocou a mão sobre a boca novamente e olhou para Harry com olhos arregalados.

Harry respirou fundo para se acalmar. "E você quer que eu desate as teias e te liberte?" ele perguntou.

"Não é tão simples, Harry Potter, senhor," Dobby guinchou.

Claro que não, Harry pensou, e esperou pelo motivo. Acho que eu morreria de choque se alguma coisa na minha vida fosse simples.

"Harry Potter, senhor, pode ser um vates", disse Dobby simplesmente. "Profeta, cantor, poeta, vidente." Suas palavras foram silenciadas com reverência e tinham o som, Harry pensou, de um canto, um mantra. "Harry Potter pode ver maneira de nós saírmos das teias. E ele pode fazer isso respeitando o livre arbítrio." Ele esperou, olhando Harry com expectativa.

Harry percebeu a verdade logo. "Eu tenho que libertar vocês sem atropelar o livre arbítrio de ninguém", ele disse. "E isso inclui os bruxos que se beneficiam de ter vocês amarrados e não querem que vocês fiquem livres."

Dobby balançou a cabeça para cima e para baixo e uma de suas orelhas o atingiu no olho. "Agora, Harry Potter, senhor, vê," ele disse, e bateu palmas.

Fawkes voou para o ombro de Harry e se acomodou, seu corpo era uma presença quente perto da bochecha direita de Harry. Harry acariciou suas costas, do pescoço à cauda, sem realmente pensar nisso. Ele estava pensando ferozmente no que eles haviam lhe dito.

Tenho a habilidade de compelir outras pessoas. Pode ser fácil encantar outros bruxos para libertar as criaturas mágicas. Mas então eu nunca me perdoaria. E a maioria dos bruxos não são os que colocaram as teias. E eu não tenho ideia do que liberar as teias causaria. Os elfos domésticos se voltariam contra eles—

Nós, Harry. Eu também me benefício disso. Não é como se eu nunca tivesse comido a comida que os elfos domésticos cozinham, e eu dependo deles para limpar meu quarto, minhas roupas e meus lençóis.

Harry suspirou. Aposto que realmente é mais simples ser das Trevas. Você apenas faz o que quiser sem pensar nas consequências para os outros e, se alguém reclamar, você o compele novamente. Ou você pode ser um Lord da Luz e pensar que está indo bem, e não se importar com o que os outros pensam, porque obviamente eles não estão vendo claramente se discordam de você. Você é bom.

Não é à toa que Starborn disse que tantos Lords da Luz e das Trevas enlouqueceram ou desistiram disso. Como vou fazer isso?

Para tirar sua mente da aparente impossibilidade de sua tarefa, ele perguntou a Dobby: "O que o fez pensar que eu poderia ser um vates? Meu irmão encontrou algumas informações em um livro sobre goblins que davam a impressão de que ele era um." Só que não parecia tanto, agora que Harry pensava sobre isso. Poderia um vates usar compulsão, muito menos tão natural e livremente como Connor fazia? Se os goblins também estivessem amarrados—e Harry suspeitava que sim—então eles realmente seguiriam um bruxo ou seriam compelidos a fazê-lo pelas teias que tinham e nada mais?

"Connor Potter, senhor, não é um vates", disse Dobby. Se um elfo doméstico pudesse rosnar, Harry pensou, Dobby estaria fazendo isso agora. "Connor Potter, senhor, é um compelidor, e é feliz por ser assim. Um vates nunca pode compelir. Ele não pode compelir os bruxos. Ele não pode compelir os elfos domésticos. Ele não pode compelir centauros. Ele não pode compelir as fênix."

Harry balançou a cabeça. "Então eu também não posso ser um. Eu posso compelir as pessoas, e eu fiz isso."

"Mas Harry Potter, senhor, se arrepende", disse Dobby prontamente. "E Harry Potter, senhor, não queria. E Harry Potter, senhor, está cuidando, agora, como sua vontade afeta outras pessoas."

Harry piscou. Era verdade que ele estava treinando com Snape para tentar encontrar os limites de sua estranha compulsão, para que ele pudesse amarrar aquela parte de sua magia sem amarar a magia em si, mas ele não achava que isso o qualificaria para o título de Dobby. "E se arrepender já é o suficiente?" ele perguntou baixinho. "Certamente outros bruxos se arrependeriam, se soubessem sobre isso."

Fawkes começou uma longa e complicada série de gorjeios e trinados. Dobby esperou até que a fênix terminasse antes de tentar traduzir. "Os vates também não podem ser compelidos. Dobby e Fawkes não podiam dizer a Harry Potter, senhor, o que ele era e o que significava, até que ele começou a aprender por si só, com medo de empurrá-lo para o caminho errado. Forçar o vates a fazer uma escolha antes do tempo é destruí-lo. Mas agora você viu as redes e Fawkes sentiu seu horror a elas. E um vates deve odiar a compulsão com toda a sua alma." Dobby assentiu para ele, como se dissesse que essa parte era evidente. Harry assentiu de volta, embora estivesse menos confiante nesse aspecto. Nos dias ruins, ele ainda queria a segurança reconfortante de sua teia de fênix, por tudo que sabia, lutaria contra qualquer um que tentasse jogá-la sobre ele novamente, porque tornaria as coisas muito mais simples. "Muitos outros bruxos disseram que eles seriam vates. Mas eles tropeçaram no caminho e decidiram usar a compulsão para atingir seus objetivos, ou gostaram da compulsão o suficiente para não conseguir desistir de usa-la." Dobby hesitou, então acrescentou relutantemente. "Ou as criaturas mágicas os pressionaram demais e eles acabaram escolhendo agir como vates por um senso de dever e obrigação. Os vates devem escolher, sempre. Ele deve tomar decisões. Ele não deve recuar diante das escolhas. E ele deve estar de livre arbítrio."

Harry soltou um suspiro trêmulo. "Dumbledore é um vates?" ele perguntou. "Minha m—a Trouxa que me deu a luz disse uma vez que ele tomava as decisões que ninguém mais poderia tomar, as decisões difíceis de sacrifício e guerra."

"Dumbledore poderia ter sido um vates", disse Dobby. "Mas ele compeliu os outros e disse a si mesmo que estava tudo bem."

Então, eu também não vou conseguir mentir para mim mesmo, se fizer isso, Harry pensou. Terei que ser absolutamente honesto. Terei que saber quando poderei desculpar minhas deficiências, quando estarei fazendo as coisas apenas porque são fáceis e não porque estão certas, quando estarei protestando demais e me culpando demais. Eu terei que me ler o tempo todo, sem nunca ter um lapso.

Isso parecia, Harry teve que admitir para si mesmo, realmente assustador.

E eu não posso fazer isso, ele percebeu com um suspiro. Ainda minto para mim mesmo sobre muitas coisas. Draco e Snape dizem isso, o tempo todo, e acho que eles saberiam melhor do que eu.

Ele explicou isso a Dobby, que assentiu enquanto ouvia. Sob a luz do fogo da fênix, Harry se pegou pensando, o elfo doméstico não parecia bobo nem estúpido. Havia uma luz própria em seus olhos, uma que Harry pensou que se apagaria quando ele terminasse sua explicação. Mas Dobby apenas sorriu para ele.

"O vates não é ser", disse ele. "Um vates não é um vates apenas uma vez, e depois nunca mais. O vates escolhe repetidamente, todos os dias de sua vida, e faz algumas escolhas erradas, mas sempre volta para o caminho certo."

"É um caminho espinhoso", murmurou Harry.

Fawkes sussurrou para ele.

"Fawkes diz que há rosas entre os espinhos." Dobby estava com as mãos cruzadas à sua frente. "Fawkes diz que Harry Potter, senhor, não deve escolher ajudar elfos, fênix e outros por obrigação, mas apenas porque quer. E deve ser uma escolha. Harry Potter não é totalmente vates agora. Ele pode ser no futuro." Ele fez um gesto para Harry. "Mas primeiro ele deve parar de mentir, como disse, e deve se livrar de suas próprias teias."

Surpreso, Harry tocou sua têmpora. "Você quer dizer a teia da fênix?"

"E outras", disse Dobby, apontando insistentemente para Harry.

Assustado, Harry olhou para baixo. Ele não tinha notado as teias atravessando seu próprio corpo, parecendo entrar e sair e se enredar além das teias da Floresta Proibida. Ele não as reconhecia. Elas eram de um vermelho profundo e taciturno, não era uma cor que a teia da fênix havia alcançado, mesmo na plenitude de seu poder. Ele pousou a mão em uma delas e sentiu uma leve sensação de calor, mas nada mais. "O que elas são?" ele perguntou.

"Barreiras que Harry Potter, senhor, colocou em si mesmo", disse Dobby, parecendo triste. "Barreiras que ele não escolheu, barreiras nas quais ele não pensou. Barreiras do medo." Ele encontrou os olhos de Harry. "Barreiras que Harry Potter reforçou com sua magia, porque ele não consegue suportar a ideia de certas coisas serem verdadeiras."

Harry fechou os olhos e desviou a cabeça. Era verdade que havia coisas em que ele não queria pensar. Mas ouvir que ele usou sua magia consigo mesmo, e que ele nem mesmo tinha consciência disso...

Isso o surpreendeu.

Ele respirou fundo e fez outra pergunta que vinha pairando em sua cabeça desde que Dobby começou a explicar o que era um vates. "Isso tem que ser a coisa mais importante do mundo para mim, assim que eu começar a fazer isso?"

"Não tem", disse Dobby. "Nunca dever, precisar ou ser compelido a ser. Só querer e ser. "

Harry concordou. "Mas um vates que se concentra em outras tarefas não seria um que você desejaria como seu desamarrador", ele disse.

Dobby balançou a cabeça.

Harry suspirou e passou a mão pelo cabelo. "Então eu não vejo como eu posso ser um. Você sabe quanto do meu foco vai para o meu irmão. Ele é a coisa mais importante do mundo para mim, Dobby. Eu me importaria mais com ele do que com os outros. Eu sacrificaria algumas das criaturas mágicas pela segurança e felicidade dele." Ele se perguntou se isso era ser honesto consigo mesmo. Honestidade geralmente envolve uma boa dose de feiura, ele pensou, memórias do incidente com a Trouxa mais uma vez preenchendo sua mente. "Eu o amo demais. Eu sinto muito. Eu não acho que seria um vates muito bom."

Ele deu um sorriso fraco e abriu os olhos. Ele quase pensou que Dobby iria embora desapontado, e Fawkes também. Mas a fênix permaneceu, uma presença calorosa e contente em seu ombro, e Dobby ainda o encarava atentamente.

"Se tornar", disse Dobby. "Harry Potter, senhor, pode se tornar o vates, mesmo que ele não seja agora. Ele pode mudar. A menos que ele pense que nunca vai mudar?"

Harry estremeceu. "Depois de tudo que aconteceu desde o primeiro ano, não posso dizer isso", ele murmurou. "Mas você tem certeza de que quer esperar que eu, possivelmente, me torne o desamarrador de que você tanto precisa? Você poderia estar perdendo muito tempo comigo, quando outra pessoa seria um candidato melhor."

"Não há candidatos melhores", disse Dobby imperiosamente. "Harry Potter, senhor, é o melhor desde que Dumbledore falhou conosco." Ele deu um breve estremecimento e puxou as orelhas. "E o L-Lord das Trevas nunca foi uma opção."

Harry inclinou a cabeça. "São apenas bruxos poderosos? Alguém como Connor não serviria a vocês também, se não fosse por gostar tanto de compulsão?"

"Bruxos poderosos", disse Dobby.

"Mas somos nós que podemos compelir os outros com mais facilidade", disse Harry.

Fawkes virou o pescoço e emitiu um trinado borbulhante que subiu e desceu na escala. Dobby sorriu para Harry enquanto traduzia. "Fawkes sabe disso. Todos nós sabemos disso. O poder que torna Harry Potter, senhor, capaz de ser vates é o que o torna perigoso. E isso o mantém seguro de outras pessoas. Outros não podem compelir Harry Potter."

"Eles podem tentar," murmurou Harry, pensando em Dumbledore e na possessão de Tom Riddle. Então ele voltou a pensar, enquanto Dobby e Fawkes o observavam com expectativa.

Se ele escolhesse este caminho, muita coisa teria que mudar. Ele teria que pensar nas outras pessoas como mais importantes do que Connor. Havia algumas pessoas contra as quais ele teria que lutar em vez de perdoar, ele sabia, e não gostava de pensar nisso. Ele não tinha ideia de como libertar criaturas mágicas sem pisar no livre arbítrio dos bruxos, e nenhuma ideia de como persuadir ou influenciar os bruxos sem pisar no livre arbítrio das criaturas mágicas. E o que aconteceria se, digamos, gigantes ou Dementadores fizessem algo prejudicial acontecer quando fossem libertados? Por outro lado, ele poderia realmente justificar a libertação de apenas algumas das criaturas mágicas, aquelas que podem ser inofensivas para os bruxos?

Minha vida nunca foi simples, certo, mas esta seria a coisa mais complexa que eu já fiz. E ... eu não posso fazer isso agora. Minha vida ainda é Connor. Ele ainda é o importante.

"Não posso fazer isso agora", disse ele. Fawkes deu um chilreio rápido e impaciente, e Dobby traduziu prontamente.

"Harry Potter, senhor, pode esperar. Mas Harry Potter, senhor, não tinha pensado nas teias desde sua noite nas chamas, não tinha procurado por elas. Dobby e Fawkes queriam ter certeza de que Harry Potter, senhor, não esqueceria."

Harry concordou. "Não vejo como posso esquecer, agora", ele disse. Fawkes proferiu outro sussurro que Dobby não traduziu, provavelmente porque percebeu que não havia necessidade disso.

"Harry Potter, senhor, é bem-vindo para fazer perguntas a Dobby a qualquer momento", disse Dobby, e se curvou ligeiramente. "As teias de Dobby são mais fracas do que outras, porque Dobby nasceu de uma maneira estranha, e então um de seus antigos mestres era estranho e tentou libertá-lo. Então, Dobby pode responder a perguntas e, às vezes, vir de seus mestres para respondê-las."

"Obrigado, Dobby", disse Harry. Ele estava tentando descobrir quando estaria pronto para fazer mais perguntas. Ele tinha a sensação de que deveria tentar perguntar a eles imediatamente, que era importante que as criaturas mágicas fossem libertadas imediatamente, mas se ele fizesse isso, então ele não estava sendo um vates. Dobby disse que ele não sentir como se isso fosse um dever. Tinha que ser uma decisão.

Mas então, como vou fazer isso? Dever e sacrifício são as maneiras como penso nas coisas.

Ele deixou Dobby aparata-lo de volta para sua cama e acenou com a cabeça para retribuir sua despedida. Não estava longe do amanhecer, pelo vislumbre que ele teinha do céu, e isso significava que não valia a pena tentar voltar a dormir. Ele ficou deitado com os braços cruzados atrás da cabeça, e Fawkes dormindo perto do travesseiro.

Ele continuou tentando imaginar o mundo mágico sem elfos domésticos, e não conseguiu. Então ele tentou imaginar ele com elfos domésticos predadores ou ferozes em vez de elfos domesticados, e não conseguiu. Talvez essa fosse outra parte do problema: se ele queria esperança para o futuro, primeiro teria que aprender como ela seria. Agora, sua mente estava em branco.

Harry afastou os pensamentos quando ouviu os outros meninos se mexendo. Ele tinha outras obrigações a cumprir hoje, e a primeira delas era esperar o movimento das asas de um grande corujão-orelhudo na mesa da Sonserina.


No meio do café da manhã, Harry percebeu que não era o único aguardando o aparecimento da coruja de Lucius. Pansy e Millicent cochichavam juntas como sempre faziam, mas paravam e esperavam com expectativa sempre que a sombra de uma coruja cruzava os pratos. Blaise pulava de vez em quando, como se tivesse deixado sua atenção vagar das janelas para sua comida por muito tempo. Draco apenas parecia tenso e infeliz.

"Seu pai vai escolher o presente perfeito," Harry o tranquilizou, e Draco simplesmente olhou para ele.

"Eu sei, Harry", ele disse. "Esse é o problema."

Finalmente, quando o suspense estava quase chegando ao limite, Julius entrou pela janela. Então ele demorou um pouco circulando. Harry ouviu murmúrios de agitação ao seu redor; até mesmo alguns dos sonserinos mais velhos se levantaram e esticaram o pescoço em sua direção, o que fez Harry se perguntar quando eles começaram a se interessar pelas coisas que um humilde terceiro anista fazia.

Julius finalmente baixou para pousar precisamente na frente de Harry. Seus olhos fixos nele. A perna que ele estendeu com o pacote preso quase arranhou as costas da mão de Harry com suas garras.

Harry inclinou a cabeça, se livrando da sensação de ser um rato, e pegou o embrulho sem desviar o olhar de Julius. A coruja continuou a olhar fixamente para ele no momento seguinte. Então ele se levantou e ganhou velocidade e força, viajando da outra extremidade do Salão até as janelas como se alguém o tivesse atirado de um estilingue.

O pacote era fino e longo o suficiente, para Harry se perguntar se ele continha uma varinha. Mas ele não iria descobrir até que desembrulhasse, então ele o fez.

Uma lâmina caiu na mesa, fazendo um baque surdo ao pousar. Harry a pegou, com cuidado para não tocar no fio ou na joia verde no cabo. Era uma faca - uma faca de esfolar, com cerca de 25 centímetros de comprimento. Harry estudou o fio com atenção e cuidado, captando um brilho sutil de vez em quando, como se o fabricante tivesse colocado diamantes no aço. Então ele examinou a joia.

Tinha a forma de um laço de forca.

Harry teve a noção, então, do que era. Ele nem se atreveu a olhar para o rosto pálido de Draco. Em vez disso, ele pegou do pacote a carta cuidadosamente dobrada de Lucius. Era muito mais longa do que a nota que ele havia enviado com o último presente de primavera.

Sr. Potter:

Quando um bruxo poderoso se alia a outro, geralmente é para reparar erros cometidos no passado entre os dois ou entre suas duas famílias. A família Malfoy não tem nenhuma briga em especial com a família Potter, embora sempre os tenhamos desprezado. Suspeito que você esteja se perguntando por que comecei esta dança da trégua.

Comecei esta dança para me aliar a você, Harry Potter, não a sua família. Conforme o tempo passa e eu observo o que aconteceu com seu pai covarde, seu irmão fraco, sua mãe Sangue-Ruim, tenho mais certeza que nunca de que tomei a decisão certa.

O que não consigo entender é por que você pediu tão pouca justiça de sua família em troca da maneira como eles o trataram. Privar a mulher que o carregou da sua magia dificilmente conta. Sob as leis antigas, você poderia ter exigido a morte dela, e a morte de todos os outros em sua família, como recompensa. Eles amarraram você, um bruxo poderoso. Quanto mais forte a magia do injustiçado, mais justiça ele tem direito. E você é o bruxo mais poderoso vivo agora.

Harry estreitou os olhos. Ele tinha certeza de que não era verdade. Dumbledore ainda poderia superá-lo, e o poder de Voldemort era terrível e assustador. Ele se perguntou se Lucius estava simplesmente tentando bajulá-lo e, em caso afirmativo, por que ele pensava que Harry seria suscetível a esse tipo específico de elogio.

Essa faca é uma forma de garantir que você possa receber justiça de sua família. Quando você lhe dá um nome, ela o ouvirá. Quando você comanda a faca pelo nome para afastar aqueles que deveriam tê-lo amado e não o fizeram, ela cortará os laços que o prendem à sua família, sejam eles de afeto, magia ou sangue. Daquele momento em diante, você estará livre. Você pode usar esta lâmina para se impedir de amar seu irmão fraco, seu pai covarde, sua mãe Sangue-Ruim. Você pode usá-la para se retirar da família deles, e então nenhuma força no mundo bruxo, incluindo o Ministério, poderá alegar que você legalmente pertence a eles. E você pode usá-la para romper quaisquer laços e limites que viver perto deles colocou em sua magia.

Feliz primeiro dia de primavera, Sr. Potter. Aguardo ansiosamente sua resposta e para ver o que você fará com sua nova liberdade.

Lucius Malfoy.

Draco estava inclinado sobre seu ombro, lendo a carta. Sua mão apertou convulsivamente o cotovelo de Harry. Então ele se afastou e olhou para ele de boca aberta.

"Seu pai é um bastardo, Draco," disse Harry em tom de conversa.

"Você poderia ser livre, Harry," Draco sussurrou. "E ele te deu um presente inestimável. Eu sei o que é essa faca. Está na família Malfoy há séculos. Usamos ela para nos libertar de alianças matrimoniais que não deram certo, quando as famílias em que nos casamos se voltaram contra nós. Eu sei que funciona. Eu ouvi as histórias. Pense, Harry! Você poderia ser livre. Este é o maior presente que ele poderia ter dado a você." O rosto de Draco brilhou como a lua.

Harry olhou para a faca. Ela brilhou fracamente para ele. Harry se perguntou se ela já estava atenta, mesmo sem nome. Parecia que estava olhando para ele.

"Eu nunca vou usar ela," disse Harry, e colocou a faca e a carta n os bolsos de sua veste, sem se importar que quase cortou a mão com a ponta. "Eu não quero—isso é obsceno, Draco, que exista algo que possa cortar esses laços."

E você quer fazer isso. Parte de você quer fazer isso.

Harry reconheceu e superou o reconhecimento. Só porque ele queria usar, não significava que o faria. Ele estava muito certo disso. A faca era obscena e seu desejo de usá-la era obsceno. Não se podia simplesmente cortar o amor assim.

Ou talvez ele pudesse, mas isso não significava que deveria.

"Mas, Harry—" Draco choramingou, seguindo-o.

Harry tampou os ouvidos. Ele não iria ouvir. Ele tinha uma reconciliação com seu irmão pela frente.


Degrau, degrau, degrau e degrau, e então Harry completou a escalada para o corujal. Ele ficou lá por um momento, ouvindo o farfalhar dos pássaros e o arrepio das penas. Ele olhou pela janela e viu o sol mal tocando o horizonte.

Pôr do sol, em um céu de um azul tão profundo que parecia quase verde.

No equinócio vernal.

Ele manteve sua palavra e não procurou Connor durante as semanas entre a entrega de sua mensagem e o momento do encontro. Resta saber se Connor manteria sua parte no trato.

"Olá, Harry", disse a voz de Connor atrás dele, calma e controlada.

Harry respirou fundo e se virou para seu irmão. "Olá, Connor."