Capítulo 31

Amor

"I thought I could live without you, but together we got plenty power."

"Superpower" – Beyoncé ft. Frank Ocean.


Severo se sentia quebrado e renovado na manhã seguinte. Parecia que um peso de toneladas havia se esvaído junto com as coisas que dissera a Tobias. Era aquele, então, o alívio que as pessoas comentavam sobre desabar? Bem, ele era real. E apesar de sentir uma dor de cabeça horrenda, já que caíra no sono em meio ao pranto, definitivamente se sentia mais leve.

Permitiu-se ficar quase até o fim da manhã deitado, apenas divagando. Não sabia qual fora a última vez que ficou desse jeito, deitado, sem se preocupar com que horas levantar, apenas pensando sobre problemas seus, pessoais, e nada relacionado à guerra.

Faltavam alguns minutos para o almoço de domingo quando ele finalmente se levantou. Encontrou quem desejava à beira do Lago Negro. Elizabeth estava sentada sobre as pedrinhas do lago e tinha um livro apoiado no colo. Ela não tirou os olhos das páginas mesmo ouvindo os passos atrás de si.

— Victor Hugo? — Ele arriscou um palpite sobre a autoria do livro.

— Austen — ela respondeu ainda sem tirar os olhos do livro. — Sabe, Darcy me lembra você.

— Temo não ser tão cavalheiro.

Elizabeth sorriu e finalmente dirigiu os olhos a ele.

— Mas com certeza é tão orgulhoso quanto.

— Quem é cheio de orgulho é a senhorita Elizabeth Bennet — rebateu. — E olhe que curiosidade interessante: até os nomes são iguais, Lizzy.

Snape deixou que o canto de sua boca curvasse e se sentou ao lado dela enquanto Elizabeth também sorria e fechava o livro. A brisa gélida fez com que o cabelo deles voassem e ela percebeu que ele não parecia sobrecarregado.

— Ontem — ele começou com os olhos fixos no horizonte —, quando vi você com Hector no colo, eu senti uma coisa muito estranha.

— O quê?

— Eu quis ser pai. — Severo não precisou pôr os olhos sobre ela para saber que Elizabeth o fitava com incredulidade. — E depois, quando você o colocou no meu colo, eu senti outra coisa muito estranha. Senti medo de ser pai.

Apenas o som do movimento das águas do lago quebrava a quietude entre o casal. Snape finalmente voltou suas íris escuras para Elizabeth, que ainda o encarava com surpresa.

— Você não está entendendo — ele virou o corpo completamente na direção dela. — Eu fiquei apavorado. Eu nem conseguia me mover direito, parecia que nem conseguia respirar. E me perguntei como uma criatura daquele tamanho, daquela inocência, poderia ser tão dependente de alguém e como os erros desse alguém podem impactar aquela coisinha. Eu fiquei atordoado com a ideia de alguém precisar de mim, o peso que isso traz.

— Aonde você quer chegar, Severo? — Questionou, confusa.

— Eu, na minha posição, não posso julgar homens como Tobias ou Edward. Eu não sou pai. Não entendo o peso que a paternidade pode trazer. — Snape direcionou novamente seus olhos para o lago. — Eu julguei Tobias, julguei o Edward, até mesmo apontei o dedo para Lúcio algumas vezes, mas... Se eu estivesse no lugar deles, eu não erraria também? Eu também não estaria igualmente apavorado? Também não estaria certo de que meu filho ficaria melhor sem mim?

— Severo... — precisou respirar fundo. — O que exatamente você e Tobias conversaram?

— Não sei se foi uma conversa. Acho que foi muito mais um desabafo de ambas as partes. Mas, inegavelmente, estou tentando ver as coisas por outra perspectiva. Talvez nós dois possamos conversar da próxima vez.

— Espera aí — estava completamente assombrada. — Pretende voltar lá?

— Não — disse simplesmente. — Eu espero, dessa vez, que Tobias venha até a mim. Por ora, tenho outras coisas para me preocupar. A guerra está chegando. E você, Srta. Madelene Jones — ela torceu o nariz perante o uso do seu nome do meio —, serei eternamente grato. Mas, por Salazar, nunca mais faça isso!

— Me desculpa — murmurou com rubor nas bochechas. — Mas, se me permite perguntar, você o perdoou?

Severo se calou por alguns segundos, pensando sobre sua resposta, enquanto a água se movia para banhar as pedrinhas da costa. O lago, em sua extensão, era tão negro que jamais deixaria visível o que escondia em seu fundo. Contudo, quando a água alcançava o raso, a pouco mais de um metro de onde o casal estava, ela nada mais era do que uma água límpida e cristalina. Snape, então, estava certo de sua resposta.

— Ainda não estou pronto para perdoá-lo, Liz. Mas estou pronto para tentar entendê-lo.

ooOOooOOoo

Após o jantar, ainda naquele dia, o casal bebericava um vinho tinto enquanto lia em silêncio. A conversa à beira do Lago Negro havia sido esclarecedora para os dois, mas Elizabeth se pegava pensando em determinado ponto.

"Eu quis ser pai". Ela jamais imaginou que ouviria aquelas palavras vindas de Snape, e, também, a incomodava o quanto a frase mexeu com ela. Já pensara muito sobre maternidade, assim como, ela acreditava, qualquer outra mulher. A vontade, o medo, a conclusão de que era uma responsabilidade muito grande para se adquirir. Com o tempo, Elizabeth deixou o assunto de lado. Decidiu por focar em sua vida profissional e em seus estudos. Às vezes tinha pequenos envolvimentos sexuais, mas, desde o breve namoro com Thamires na adolescência, não havia se envolvido seriamente com ninguém. Não ao ponto de cogitar a ideia de formar uma família.

Afinal, o que eram ela e Severo? O que eles tinham? Depois que tudo aquilo acabasse, ainda estariam juntos? Eles sobreviveriam? Se sim, casar-se-iam? Teriam filhos? Quantos?

A enxurrada de questionamentos deixou Elizabeth aérea por alguns minutos; foi quando Snape percebeu que ela já não tinha a atenção focada na leitura. Ele fechou o livro que lia e se sentou ao lado dela.

— Dez galeões pelos seus pensamentos.

— Eles não são tão valiosos assim – ela riu, saindo do seu estado de torpor.

— Conversamos tanto sobre mim e eu nem perguntei sobre você — reconheceu. — Você tinha dito que se desentendeu com Potter na última reunião. O que houve?

— Foi por causa da cisma que ele tem com você. — Elizabeth, então, abandonou o livro sobre a mesinha de centro e se voltou para Snape. — Ele presenciou sua conversa com Draco na festa de Natal do Slughorn e resolveu contar pro Dumbledore. Só que, bem, você imagina que Alvo deixou o assunto para lá e confirmou mais uma vez a confiança que tem em você. E o Harry ficou chateado por eu não ter defendido ele e por ter me omitido no assunto.

— E foi quando ele disse que sabia sobre a gente?

— Sim — suspirou. — Harry disse que estou começando a agir como você.

— Isso sim é preocupante. — Severo brincou e ela riu. — E Dumbledore? Quando irá conversar com ele sobre a profecia?

O leve sorriso de Elizabeth foi sumindo aos poucos de seu rosto e lembrou-se da briga que tivera com o padrinho. Ela brincou com os dedos da mão, desviando os olhos dos de Severo.

— Parece que sempre que começamos a nos entender, nós acabamos brigando.

— O que houve dessa vez?

— Dumbledore pediu para que eu parasse de ver você. Pediu que eu me afastasse.

— Olhe, Liz, você não pode culpá-lo. Alvo está morrendo de medo por você. Ora, você é afilhada dele.

Elizabeth se mexeu desconfortavelmente no sofá. Não era aquilo que Dumbledore alegara durante a discussão. Ainda se arrepiava quando recordava do olhar gélido do diretor, da maneira cruel que ele disse que o envolvimento dela e de Snape poria o disfarce do professor em risco. Mas não diria isso a Severo. Sabia que o magoaria e, talvez, colocasse tudo a perder.

— Precisa conversar com ele. — Snape voltou a cobrar. — O tempo está se esgotando.

— Eu sei — olhou nos olhos do professor. — Vou conversar com ele.

Severo assentiu, satisfeito com a resposta, e se aproximou para beijá-la calidamente. Afastou os lábios do dela e, com os olhos ainda fechados, desfrutando da paz que o beijo dela lhe transmitia, sussurrou:

— Eu te amo, Elizabeth Jones.

Liz soube que, se morresse naquele momento, ela morreria feliz. O sorriso que se instalou nos seus lábios, tão grande e sincero, era um sorriso que há muito tempo não dava. Elizabeth levou as mãos ao rosto austero do homem e acariciou a pele pálida.

— Pois eu também te amo, Severo Snape.

Severo rompeu com o pequeno espaço que havia entre eles e tomou-a novamente pelos lábios. Jamais se cansaria da sensação de estar nos braços de Elizabeth. Ele se sentia invencível. Sentia como se fosse capaz de qualquer coisa, desde que tivesse a mulher que amava ao seu lado.

Elizabeth se moveu para sentar sobre o colo dele. Os lábios descansavam por uma minúscula fração de segundos para tomarem ar. Ela gemeu contra a boca dele quando Severo apertou suas coxas, trazendo-a para mais perto de sua ereção. Ela se empenhou em abrir botão por botão do sobretudo de Severo, enquanto ele a carregava para o quarto.

Eles removeram as roupas sem pressa. Era como se tivessem todo o tempo do mundo. Não existia universo fora daquele quarto, não existia guerra, profecias, Voldemort... Nada. Apenas eles.

Mais uma vez, encontrou paz quando se enterrou no corpo dela e ela gemeu em resposta. Chegaram ao ápice juntos, olhos nos olhos, corpos em perfeita sincronia, gemidos que se mesclavam em uma bela sinfonia erótica. E ali, desfrutando do abraço um do outro, as respirações desreguladas, Elizabeth percebeu que não ligava para rótulos. Severo não precisava pedir ela em namoro ou qualquer coisa do gênero, não precisava de um anel nem de uma demonstração grandiosa. Ele a amava verdadeiramente, e isso bastava para ela.