Notas da autora

Yuugi fica...

Ele decide...

Capítulo 65 - A vida de um Faraó

- Você não gemeu tão alto. Além disso, as paredes são grossas e o quarto com os óleos fica bem longe das portas principais. Acredite, ela não ouviu. – ele fala de forma confiante, fazendo Yuugi consentir, embora ainda estivesse receoso.

Mesmo assim, caminha até as portas duplas, percebendo que de fato havia uma distância considerável para a entrada, assim como era o quarto do monarca, visando dar alguma privacidade, pois, era uma câmara imensa e igualmente luxuosa dividida em cômodos, com cada um deles sendo destinada a uma função e ao pensar no motivo da privacidade, ele cora intensamente, tentando controlar a sua imaginar fértil.

Após conseguir controlar o intenso rubor que se apoderou dele em virtude dos seus pensamentos, inspira profundamente e evitando se recordar da sua preocupação com os sons que deixou escapar, abre as portas duplas e observa os guardas posicionados próximos dali e uma jovem com joias e vestes dignas de uma nobre em frente às portas.

- Atemu está... – ele comenta timidamente, gaguejando, ainda corado, pois, tinha dúvida sobre eles não terem ouvido.

Yuugi usava o nome de nascença dele, algo que era autorizado apenas para os familiares mais próximos e algumas poucas pessoas escolhidas a dedo. Seto, Mahaado e Shimon, além de Mana, detinham tal autorização, mas, não a exerciam, com exceção da jovem aprendiza, sendo que não compreendia o motivo de um servo pessoal possuir tal autorização em virtude do seu status.

Ele sente uma onda de alívio ao ver que agiam normalmente, mesmo a jovem que sorri, perguntando:

- O Per'a'ah já está pronto para a maquiagem?

- Sim.

Ela consente e entra, após se curvar levemente, fazendo o ex-sacerdote arquear o cenho para o gesto dela, enquanto a seguia.

No quarto, Atemu estava sentado, sendo que na mesinha ornamentada ao seu lado havia todos os itens de maquiagem devidamente fechados e que foram abertas pela jovem, com o adolescente percebendo que aplicavam um pó dourado na pele dele e depois, outras maquiagens, sendo que o uso do kloh era deixado por último, com a adolescente delineando abaixo dos olhos do monarca, enquanto fazia uma linha elaborada.

Após terminar, ele se levanta e fala para o jovem:

- Sente-se. Ela vai fazer a sua maquiagem, também.

Yuugi consente e senta, com a jovem fazendo uma maquiagem tipicamente kemética no adolescente, para depois, se retirar, sendo que o adolescente observa as escravas e servas entrando com alimentos, os organizando na mesa imensa, sendo que era um banquete farto e após posicionarem o último prato, elas saem do cômodo.

Enquanto comiam, o monarca conversava com Yuugi, com ambos contando sobre as suas infâncias, sendo que o jovem havia gargalhado juntamente com o rei quando ouviu as perícias dele junto de Mana, com o pobre Mahaado agindo como babá e protetor dele e consequentemente, de Mana, pois, detinha a confiança do pai de Atemu. O jovem notou que os olhos do bronzeado ficaram pesarosos a menção do genitor e pergunta, esperando que não o fizesse se lembrar de memórias dolorosas, embora soubesse que as chances eram ínfimas disso não ocorrer:

- Há quanto tempo ele faleceu?

- Ele não foi enviado para o julgamento dos Netjer (Deuses) ainda. Mas... – Atemu fala, após suspirar tristemente, se recordando do estado de saúde precário do seu genitor.

Yuugi espera pacientemente, percebendo o quanto era um assunto triste, enquanto ficava surpreso por saber que ele ainda estava vivo e após pigarrear, o monarca fala:

- Ele tem uma doença incurável. Os curandeiros não conseguem curar. Se bem, que é a ira dos Deuses. O meu pai clamou para si a ira deles pelos atos de outra pessoa, assumindo a culpa por mais injusto que fosse, enquanto que o verdadeiro culpado não é punido pelos seus atos. Ele fez tudo isso para que os Deuses me poupassem.

- Poderia contar essa história?

Ele olha para o seu amado e sorri tristemente, consentindo, para em seguida, contar sobre a criação dos itens que eram chamados de sete tesouros, enquanto segurava o seu Sennen aitemu nas mãos, sendo que Yuugi ficou horrorizado ao saber do destino dos habitantes de Kul Elna e passa a olhar estupefato para o item nas mãos bronzeadas e que brilhava quando os raios de luz atingiam a sua superfície dourada, sendo que era preso no pescoço por um cordão simples.

Após alguns minutos, assimilando tudo o que o rei falou, Yuugi fala:

- Isso foi horrível. Eu imagino o quanto o seu genitor sofreu ao saber da origem sobre esses tesouros e o sacrifício que foi realizado para obtê-los.

- Foi usado o ouro derretido, pois, é o que possuí a maior afinidade e assimilação com a magia. Há a prata, mas, ela não tem a mesma capacidade do ouro, sendo seguida pelo bronze. Aquele bastardo nunca contou ao meu pai o preço cruel da criação dos objetos. Havia o ataque dos Hekau khasut (hicsos) e precisávamos de auxílio. Mesmo assim, o meu pai teria tentando um confronto até o último homem do que permitir tamanha crueldade e ofensa aos olhos dos Deuses.

O jovem fica pensativo, sendo que se revoltava por mais um inocente pagar pelos atos de um homem, pois, Akhenamkhanen era um inocente e estava pagando o preço que o responsável deveria pagar. O antigo Faraó clamou que a fúria dos Deuses caísse sobre ele para poupar Atemu, o seu amado filho. Agora, estava sofrendo em uma cama.

Porém, Yuugi questionava se os Deuses eram tão implacáveis para punir um inocente com tanto vigor e crueldade, deixando-o agonizante em seu leito, enquanto o verdadeiro culpado ficava impune.

Claro, o antigo monarca clamou por isso, mas, eles seriam tão cruéis assim, despejando a sua ira nele em vez de despejar no verdadeiro culpado? Essa era a pergunta que permeava a mente do jovem.

- Imagino que os melhores curandeiros estão cuidando do seu genitor.

- Sim. O líder deles é o melhor curandeiro de todo o Kemet e se chama Omari. Ele está coordenando os curandeiros da sua equipe, enquanto que Sera é a superintendente dos curandeiros do palácio e consequentemente, a responsável por todos os outros curandeiros que trabalham no complexo do palácio, com ela se concentrando em fiscalizar todos os outros, enquanto que a equipe de curandeiros do meu pai se encontra sobre o julgo e responsabilidade do Omari.

- Então, ela não está envolvida com o tratamento?

- Não. Ela auxilia em alguns momentos, mas, todo o tratamento está sendo feito por este curandeiro e sua equipe, pois, selecionei os melhores. Porém, sei que contra os Deuses, nada pode ser feito. – ele termina o final suspirando tristemente.

Então, eles conversam outros assuntos, enquanto que o jovem tomava a decisão de falar com Yukiko.

Afinal, a sua amiga possuía magia e sempre parecia saber de tudo.

Portanto, ele tinha a esperança de que ela pudesse ajudar o pai de Atemu, sendo que era plenamente ciente da animosidade dela para com o monarca, embora acreditasse que o termo animosidade era apenas um eufemismo para os reais sentimentos dela para com o Faraó e que beiravam a mais pura fúria.

Porém, esperava que se ele pedisse, ela o ajudaria, pois, Yuugi não conseguia ficar sem ajudar uma pessoa, ainda mais se esta estivesse necessitada, assim como no caso da prática de uma injustiça contra um inocente, algo que nunca permitiria ocorrer, juntamente com o fato de não acreditar nessa injustiça e crueldade para com o seu povo pelo pouco que aprendeu dos Deuses daquele lugar. Era inconcebível ao jovem que eles despejassem a sua fúria em um homem inocente, enquanto o verdadeiro culpado ficava impune.

Então, antes que se retirassem da ala real no palácio, eles passam no quarto do príncipe herdeiro, sendo que a ama de leite havia acabado de amamentá-lo e quando a mesma se retira, ficando apenas Kessi no recinto, eles passam a relaxar e Yuugi chega a brincar com Ramesses (Ramessés) que sorri imensamente, adorando o colo do jovem, assim como do seu pai. Quando o bebê boceja, indicando que estava com sono, recebe um beijo paternal em sua testa, com Yuugi beijando gentilmente a testa do bebê, também, antes de colocá-lo no berço dourado que possuía uma tela protetora de tecido fino para protegê-lo de insetos.

Atemu segurava gentilmente a mãozinha do seu filho até que as pálpebras do bebê caem e ele adormece.

- Você leva jeito com crianças, Yuugi. – Kessi comenta, sorrindo.

- Você acha? – ele pergunta timidamente, coçando a nuca sem jeito, enquanto olhava o rosto sorridente da morena.

- Com certeza. – ela responde e olha discretamente para Atemu, sorrindo de canto.

Afinal, sabia que o monarca o amava e que desejava elevá-lo a Grande esposa real no futuro, tornando-o a mãe do bebê ao mesmo tempo em que concederia amplos poderes ao jovem para que pudesse governar ao seu lado.

Portanto, saber que ele amava a criança e que o sentimento era recíproco, havia deixado Atemu extasiado, embora ele conseguisse disfarçar exemplarmente.

- Você vai me acompanhar na parte da manhã. Vamos para o local destinado as minhas orações matinais. Depois, irei de liteira até o ḥwt-nṯr (mansão/recinto de um deus) para fazer a cerimônia de adoração em um templo fora do palácio, conversando em seguida com o Hem-netjr (sumo sacerdote e líder do templo) deste ḥwt-nṯr (templo). Farei uma reunião com os meus conselheiros e guardiões sagrados antes do almoço, sendo que vou receber algumas visitas e provavelmente, terei que julgar algumas causas que não podem esperar até o Qenbet semanal. Vamos almoçar juntos em meu quarto e depois, você será acompanhado por Mana na parte da tarde, sendo que, provavelmente, ficará com Kisara. Parece que Jounocuhi trará Nuru, também. Depois de algum tempo, Mana terá que voltar aos estudos e você ficará com Jounouchi, sendo que Ryou, Honda e Mariku também vão estar no jardim público da ala Oeste. Espere-me, que eu irei busca-lo. É o mesmo com Kisara. Vocês ainda não conhecem o palácio e podem se perder. Depois de amanhã, na parte da manhã, você começará com as aulas. Portanto, não me seguirá. Quanto ao período das aulas, podemos negociar. Eu quero que tenha um tempo para você e os seus amigos.

- Por que será, somente, depois de amanhã?

- Amanhã, não vou ter nenhum compromisso quando a barca de Ré (Ra) começar a sua jornada no céu, após as orações e a visita diária e matutina a um dos ḥwt-nṯr para orar aos Deuses, sendo que faz parte das minhas atribuições diárias. Somente terei outras obrigações à tarde. Portanto, só começará depois de amanhã.

- Tudo bem. O que você fará à tarde? – Yuugi pergunta, enquanto inclinava fofamente a cabeça para o lado, fazendo o monarca sorrir.

- Vou visitar a construção da minha pirâmide, algumas construções em Per-nefer (principal doca e porto marítimo) e percorrer as searas de trigo, assim como verificar campos de outras culturas e alguns apiários, sendo que irei fazer isso em uma liteira, para depois, verificar os treinos do Medjay. A sua pele é clara demais para ficar embaixo de um sol tão forte. Eu não apreciaria ver os raios de Re marcarem a sua pele de marfim. Antes da barca noturna de Ré começara sua jornada pelo submundo lutando contra Apep, irei oferecer flores e óleos ao Netjer (Deus) Re (Rá).

Yuugi fica surpreso com a agenda de um Faraó e as obrigações matinais diárias dele, no caso, as orações e rituais ao Deus que ele venerava, sendo que havia ficado emocionado com a preocupação dele em relação ao sol em sua pele clara, para depois, ficar interessado nessas aulas, sendo que não está aborrecido em tê-las, pois, adora aprender e estava curioso sobre elas, frente ao fato de Atemu manter segredo do motivo dele ter tais aulas.

Suspirando ao saber que não conseguiria descobrir o que era, o jovem consente e o segue para fora, com Atemu colocando a máscara do Faraó, enquanto Yuugi assumia o papel servil, sendo que havia planejado perguntar a Mana e aos amigos deles, com o jovem saindo dos seus pensamentos com a voz barítono que provocava arrepios prazerosos em sua espinha, fazendo-o corar levemente:

- Você sabe montar a cavalo?

- Sim.

- Amanhã, após as orações, quero levá-lo aos estábulos. Você pode escolher um dos animais para ser a sua montaria. Eu também quero apresentar a minha montaria.

- Isso seria legal! – ele exclama com empolgação e com um imenso sorriso, enquanto percebia que naquele corredor de calcário, os guardas estavam mais afastados.

- Eu tenho que aproveitar os raros momentos em que posso relaxar. Além disso, eu fico feliz de ter a sua companhia.

As bochechas do ex-sacerdote ficam ruborizados, enquanto ele sorria, sentindo borboletas em seu estômago ao ver o sorriso no rosto do imperador ao mesmo tempo em que ruborizava intensamente perante os orbes carmesins do seu governante, sendo que o monarca adorava ver os olhos que eram da mesma cor do lótus, brilhando de felicidade, enquanto o sorriso dele fazia surgir covinhas no rosto oval.

Yuugi fica fascinado com as orações e assume a mesma postura de Atemu por educação, conforme ouvia as orações em um templo dentro do palácio, para depois, saírem, sendo que embaixo dos degraus da entrada, havia duas liteiras preparadas, assim como guardas e servos.

Conforme passava pelo corredor, havia percebido comentários sussurrados das pessoas ao vê-lo, sendo que captou alguns deles que comentavam da cor exótica da pele dele, com o jovem se recordando que os keméticos sentiam apreço por pessoas que possuíam uma cor diferente da pele deles, fazendo com que a sua pele de alabastro chamasse demasiada atenção. Ele também ouviu sobre os olhos lembrarem a cor da flor de lótus, fazendo-o se recordar de que o lótus era uma flor sagrada para aquele povo. O adolescente também ouviu sobre o seu cabelo que chamavam de juba coroada e que lembrava o do governante deles, com exceção da cor nas pontas ser violeta em vez de carmesim e a ausência das franjas douradas espetadas.

Tal comoção e murmúrios de admiração eram usais por onde ele passava, principalmente para aqueles que o viam pela primeira vez.

Conforme se aproximavam das liteiras e do grupo que iria acompanhá-los, o jovem cogitava a hipótese de ter que seguir atrás da liteira, junto de alguns servos e escravos, enquanto que se encontrava curioso sobre a identidade daquele que sentaria na outra liteira.