Anteriormente: No final do sexto ano, Adam McKinnon disse a Marlene que ele a amava, mas ela o rejeitou e ele começou a namorar Prudence Daly. Em agosto, Lily, os Marotos, Donna, Sam Dearborn (primo de James) e Marlene comparecem a um protesto no Ministério, e depois foram ao casamento de Frank e Alice. No dia dois de novembro, houve um ataque à conferência anual da M.P.P. (Magia Pela Paz) – uma organização liderada pela mãe de James e que incluía Sam. A Sra. Potter, tendo faltado à conferência, sobreviveu, mas oitenta e sete participantes, incluindo Sam e a irmã de Adam, Sarah McKinnon, perderam suas vidas. Tamanho golpe à comunidade mágica fez com que as aulas fossem adiadas, e os alunos voltassem para casa para ficar com as famílias. Lily decidiu ficar no castelo, pois não contou à mãe sobre a guerra.
Chapter 36- Soldiers
(Soldados)
Or
(Don't Fear) The Reaper
O Sr. Denham era um homem alto e magro de uns cinquenta anos. Era completamente careca e o topo de sua cabeça pálida refletia a luz artificial de seu escritório. Tinha um bigode amarelado, pequenos olhos azuis e um rosto comprido e plano. A gravata preta parecia sufocar seu pescoço estreito. O escritório em que estava parecia bem adequado para ele: era limpo, novo, primoroso e brilhante, exatamente o oposto dos escritórios caóticos dos aurores, dos quais Grace Potter acabara de chegar.
"Sra. Potter," começou o Sr. Denham em uma voz suave e inofensiva, enquanto oferecia a cadeira diante de sua mesa à bruxa. "Por favor, espero que entenda o propósito desta reunião. É uma mera formalidade."
Ela assentiu.
Evidentemente afobado pela falta de resposta, Denham sentou-se. "Agora, Sra. Potter..."
"Grace," corrigiu a mulher, em voz baixa mas com firmeza.
"Claro. Eu só tenho algumas perguntas. Imagino que tenha sido uma manhã muito difícil para você... eu sinto muito ter que pedir que..."
"Sr. Denham, prometi ao Sr. Moody que o ajudaria com as identificações assim que eu terminasse aqui," interrompeu a Sra. Potter bruscamente. "Eu não me sinto ofendida em ser chamada para falar com você. Oitenta e quatro pessoas morreram esta manhã, dificilmente acho que o fato de que eu deveria ter sido uma delas seja ignorado."
"Uma bruxa de sua posição..."
"Sr. Denham, estou ciente de que minha posição é a razão pela qual estou sentada em seu escritório bacana, em vez de estar em uma sala de interrogatório no andar de baixo. Acredite, sou muito grata por isso. Mas bruxas e bruxos do mesmo status que eu foram morto e mataram hoje, então vamos deixar de lado essas questões de status por enquanto. Suas perguntas, Sr. Denham?"
O bruxo assentiu. Ele cruzou as mãos sobre a mesa, finalmente relaxando um pouco, embora ainda falasse formalmente. "Você é membro da organização conhecida como M.P.P., Sra. Potter?" perguntou ele.
"Sim."
"Você não estava na conferência em Rutland?"
"Não."
"Onde foi que a senhora passou a noite passada, então, Sra. Potter?"
"Eu estava na minha casa."
"Havia mais alguém lá também?"
"Meu marido e dois elfos domésticos."
"Entendo. E por que decidiu ficar em casa?" Notando a hesitação dela, Denham acrescentou, desculpando-se: "A senhora entende que devo perguntar."
"Sim." A bruxa engoliu em seco. "Meu marido está doente. Está assim há algum tempo. O Curandeiro Bergmar de St. Mungo's poderá confirmar isso. Alex... meu esposo, tem sido acompanhado por ele há um ano. Os últimos dias foram particularmente... desconfortáveis, e então fiquei em casa com ele."
"Sinto muito por isso."
"Eu lamento por isso," respondeu a Sra. Potter levemente. "Claro, espero que, uma vez confirmada, você só compartilhe esta informação com aqueles que precisam saber disso. Nós nem contamos..." Ela parou abruptamente. "É muito pessoal."
O bruxo assentiu. "Sra. Potter," continuou ele, novamente em tom profissional, "a organização, até onde a senhora sabia, recebeu ameaças antes da conferência? Com relação à conferência ou de outra forma?"
"Não desde julho... aquelas que todos nós tínhamos conhecimento."
"Não houve nenhum contato adicional, que a senhora saiba, entre os Comensais da Morte e a Magia Pela Paz?"
"Nenhum que eu saiba."
"Algum membro com quem tenha falado pareceu preocupado em participar?"
"Quase todos eles."
Isso surpreendeu Denham. "Por quê?"
"Por causa da guerra. Por causa do que aconteceu em julho."
"A senhora estava preocupada, Sra. Potter?"
"Eu... eu suponho que o problema é que eu não estava preocupada o bastante. Se eu imaginasse... se eu realmente acreditasse que eles estavam em perigo de verdade, eu..."
"Você... teria impedido a conferência?"
"Não. Eu também teria ido." Ela franziu a testa, mas recuperou um pouco de vida enquanto continuava. "Sr. Denham, se não for muito invasivo, tenho uma pergunta para você." Ele assentiu. "Como é que um grupo de bruxos assassina oitenta e quatro outros bruxos sem sofrer nenhuma baixa... sem deixar um único sobrevivente?"
Denham desdobrou as mãos por tempo suficiente para esfregar a pele brilhante em sua careca, como se arrumasse o cabelo que não mais existia. A outra mão ossuda descansava sobre a mesa. "Oitenta e sete bruxos," disse ele por fim.
"Quê?"
"Mais três vítimas foram encontradas."
"Encontradas?"
"Um repórter e dois bruxos que acreditamos terem sido contratados para fazer a segurança. Portanto, foram oitenta e sete vítimas." Seu tom mudou. Ele se inclinou para frente e um triângulo quase perfeito se formou entre cada um dos cotovelos e o topo de sua cabeça. "Para responder sua pergunta, Sra. Potter, de como se mata oitenta e sete bruxos sem sofrer nenhuma baixa e sem deixar um único sobrevivente, é o mesmo método necessário para matar apenas um. Você o desarma."
"Mas oitenta e sete..."
Denham se sobrepôs a ela. "Sra. Potter, é comum em reuniões como essas os membros entregarem suas varinhas? Por questões de segurança?"
"Não," respondeu a Sra. Potter depressa. "Não, claro que não."
"Consegue pensar em uma razão pela qual os membros possam precisar usar as varinhas no decorrer da conferência?"
Incisivamente: "Talvez para afastar os agressores."
"E, ainda assim, nenhum deles parece ter feito isso."
A Sra. Potter franziu a testa profundamente. "Eu não entendo..."
"Estou só perguntando," disse o Sr. Denham, um arrepio distinto crescendo em sua voz. "Como é que oitenta e cinco varinhas acabaram espalhadas pelo salão, longe de seus donos. Oitenta e cinco, porque os dois bruxos contratados para a segurança estavam com as deles."
"Como isso é...?"
"Possível? Desarmar oitenta e cinco bruxos?"
"Sim."
"Minha teoria," disse Denham, inclinando-se para frente e, como que em resposta, a Sra. Potter se endireitou, de modo que suas costas se estendessem contra a cadeira atrás dela, "é que eles entregaram as varinhas voluntariamente."
"Por que eles...?"
"Por que seus companheiros entregariam as varinhas em um evento potencialmente perigoso, Sra. Potter? Num evento em relação ao qual a senhora mesma disse que eles estavam apreensivos?" A Sra. Potter assentiu. "Eu imagino," disse Denham, "que fizeram isso porque alguém em quem confiavam pediu."
A Sra. Potter assentiu novamente. Havia lágrimas em seus olhos, mas sua expressão permaneceu impassível. Ela já começara a entender, afinal de contas. "O senhor chama isso aqui de formalidade, Sr. Denham?"
"Sim, Sra. Potter."
"Essa alegação pode ser a única formalidade na coisa toda."
"Eu levo as formalidades muito a sério, Sra. Potter. Talvez mais a sério do que seus amigos lá embaixo na seção dos aurores... e os ex-colegas de trabalho do seu marido do D.E.L.M."
"O senhor mencionou minha posição," murmurou a Sra. Potter. "Quis dizer como puro-sangue ou como membro do M.P.P.?"
"Os dois. A combinação dos dois, na verdade."
"Compreendo." Suas mãos tremeram um pouco e ela as entrelaçou intencionalmente no colo. "Veja, eu fui criada para acreditar que os purossangue são intocáveis. Cresci como uma Dearborn, Sr. Denham. Minha mãe era uma Abbott. Minha avó era uma Selwyn. Eu nasci uma Dearborn e me casei com um Potter. Nunca acreditei ser melhor do que ninguém, mas acho que nunca entendi realmente a mentira disso tudo... pelo modo como fui criada. Sendo uma intocável. Meu primo Sam, que cresceu com meu filho, nasceu um Dearborn também. A mãe dele era uma Travers. Ela afirma ter laços com as famílias Nott, Greengrass e Ollivander, e Sam é um desses oitenta e sete, então eu não estou requerendo suas formalidades, Sr. Denham."
"Então, vamos parar de fazer jogo."
"Seu jogo é fingir estar assustado, e o meu é fingir ter paciência para isso," disse a Sra. Potter. "Então, vai me desculpar se eu não parar agora. Suas perguntas, Sr. Denham?"
Denham alisou de novo o cabelo invisível. "Acredito que possamos cooperar, Sra. Potter."
"Grace," corrigiu ela novamente.
"Sim. Vou precisar dos nomes daqueles elfos domésticos..."
(Três Dias Depois)
O relógio no corredor ainda não marcara oito horas, mas Grimmauld Place estava escuro e praticamente silencioso quando Regulus Black sentou-se para jantar. Ele escolheu a sala de estar e sentou-se no sofá bem diante da lareira. As chamas crepitantes cortaram o silêncio, e o jovem refletiu que, se não estivesse tão acostumado com o lugar, poderia ter achado um pouco sinistro. Depois de algum tempo, porém, os movimentos e rangidos de Kreacher na cozinha puderam ser ouvidos, e isso o confortou um pouco, saber que o elfo doméstico estava arrumando a casa antes de preparar frango, batatas, cenouras e uma grande caneca de cerveja amanteigada. Em momentos como aquele, era fácil se deixar levar pelo medo do perigo imaginado quando movimentos inesperados assombravam a velha casa, mas Regulus preferia se acalmar com as indicações de qualquer companhia. De qualquer forma, na maioria das noites, até mesmo um fantasma teria sido um agradável alívio para a solidão em Grimmauld Place.
Kreacher tinha ido buscá-lo na Plataforma Nove e Meia há uma hora, garantindo-lhe que seus pais estariam em casa para o jantar, mas ele escolhera comer sozinho... em parte porque não se importava em sentar-se à sala de jantar e suportar uma dúzia de lembretes para que comesse devagar e sentasse direito (muito menos as perguntas sobre a escola), e em parte porque não acreditava que os pais chegariam em casa tão cedo. Então, por que esperar? Eles tinham ido à casa dos Malfoy – algo sobre o noivado de Cissy... Regulus tinha ignorado as desculpas de Kreacher – e eles, supôs ele, ficariam lá até tarde da noite.
Consequentemente, o som da porta da frente, menos de dez minutos depois que se sentou para comer, o assustou um pouco. Kreacher permaneceu na cozinha, ninguém mais deveria estar em casa, e, assim, quando passos e uma voz baixa chamando seu nome vieram da entrada da casa, Regulus pousou o prato e se levantou do sofá.
Era a voz de uma mulher; ele a reconheceu um momento depois.
Bellatrix Lestrange entrou na sala de estar como se fizesse parte de sua própria casa. Ela estava muito bem vestida para uma visita noturna ao primo de quinze anos. Quando desabou no sofá, o vestido esvoaçante marrom-chocolate espalhando-se sobre as almofadas, parecia uma jovem debutante retornando de um baile.
"O que está fazendo aqui?" perguntou Regulus, enquanto Bellatrix brincava com uma mecha de seu cabelo negro longo e reluzente.
"Vim ver você," respondeu ela. "E o jantar estava um saco. A pobre Cissy não pôde escapar, mas eu sim, então eu vim. Veio para casa chorar por seus amigos mortos, hã?"
"Eu não poderia ficar no castelo quando quase todo mundo se foi," respondeu Regulus. Sua prima se sentou e, assim, ele empurrou uma cadeira grande para perto da lareira e sentou-se lá.
"Bem, acho que não terá que se preocupar com isso por muito mais tempo," disse Bellatrix. "Mais um ano, não é?"
"Dois," corrigiu ele.
"Sério?" Bellatrix encolheu os ombros, seu perfil adorável e incisivo brilhando à luz das chamas. "Um pouco de perda de tempo, Regulus. Você tem suas próprias ambições, sabe. Parece um fardo. Enquanto aquele morcego velho do Dumbledore estiver no comando, nada vai mudar."
Regulus baixou o olhar. "Farei meus N.O.M.s. este ano," murmurou ele. Bellatrix virou a cabeça de maneira desconcertante, mas o suficiente para observá-lo. Ela estudou seu rosto, seus gestos. Notou em sua voz a estranha mistura de hesitação e ambição. "Eu... eu não preciso continuar depois disso."
Bellatrix sentou-se. "Não," disse ela suavemente. Regulus olhou para ela novamente. O reflexo da luz do fogo em seus olhos o encarou de volta. "Você é o herdeiro de sua linhagem agora, afinal. Terá... maiores responsabilidades em breve." Ela sorriu, dando-lhe a entender que não se referia às responsabilidades de ser herdeiro de Grimmauld Place. Não exclusivamente, pelo menos.
"Em breve?" repetiu ele.
Bellatrix detectou que a hesitação superava a ambição naquela única sílaba. Ela se levantou do sofá e caminhou em direção à lareira; quando a alcançou, suas palavras foram cuidadosamente escolhidas: "Segundas intenções, primo?" Ela virou a cabeça de perfil para ele novamente.
"Não," respondeu Regulus. "Mas é... difícil... entender."
"O que?"
Oitenta e sete bruxos. Era difícil entender como aquilo deveria ser sua causa.
"O que eu devo fazer," mentiu ele.
Bellatrix relaxou. Ela sorriu e encarou seu jovem parente completamente, mas ao fazê-lo afastou-se do fogo e, como resultado, obscureceu seu próprio rosto quase inteiramente na sombra. Como se estivesse falando com um animal doméstico predileto: "Não se preocupe com isso, Regulus. Quando chegar a hora, você entenderá exatamente o que lhe será demandado."
"Onde está Twitchet?" perguntou James do hall de entrada escuro, pouco antes de seu pai acenar com a varinha e acender as lâmpadas ao longo da parede. Sirius sentou-se no último degrau da grande escadaria que estava entre James e o Sr. Potter, e, quando o fez, as malas que levitava com a ponta da varinha – a dele e a de James – caíram no chão com um baque. "São só nove horas," continuou James depressa. "Ele já está na cama?" O Sr. Potter amarrou o roupão, parecendo que, antes da chegada dos dois bruxos mais jovens, ele próprio estivera na cama. James prosseguiu, antes que o pai pudesse responder: "Ou foi para a cidade novamente visitar Mariette? Ele tem estado mais lá do que aqui ultimamente, não é? Não sei por que não arruma um emprego lá, em vez disso, mas suponho que ele tenha seu próprio código de honra Potter ou o que seja. De qualquer forma, onde ele está?"
"Ele está na cidade," respondeu o Sr. Potter, aproveitando para respirar rápido durante o monólogo de James. "Mas não está visitando Mariette. Ele deixou nossa casa."
James ergueu as sobrancelhas. "Deixou nossa casa? Ele foi demitido?"
"Se quiser chamar assim. Os outros dois também."
Afastando-se da cozinha – para a qual avançara em busca do elfo doméstico –, James aproximou-se do pai. Sirius se levantou também. "Os elfos foram dispensados? Por quê?"
O Sr. Potter se mexeu desconfortavelmente. "Sua mãe achou que seria melhor."
"Por quê?" repetiu James, espantado.
"Porque eles tinham que testemunhar para sua mãe como álibi, e ela acreditava que dispensá-los evitaria que o Ministério reclamasse que eles poderiam ter um conflito de interesses por serem seus empregados."
"Mas eles eram elfos livres," disse Sirius. "Não teriam que mentir por ela."
"O Ministério dificilmente reconhece o testemunho de um elfo," disse o Sr. Potter. "Quanto menos conflitos de interesse, melhor."
"Por que mamãe precisava de um álibi? Eles não podem acreditar que ela tinha algo a ver com Peverell Hall! Onde ela está, afinal?" James olhou para a escada envolta em sombras, como se esperasse que a mãe aparecesse em resposta à sua pergunta.
"Está na cama," respondeu o Sr. Potter. "E entendo que a investigação do Ministério foi uma mera formalidade. Vocês dois comeram?"
"Fizemos um lanche em Londres," respondeu Sirius.
"Então, não fará muita diferença para vocês os elfos domésticos não estarem hoje à noite, afinal," disse o Sr. Potter. Ainda assim, James se esforçou para compreender a última informação, mencionada de maneira tão casual por seu pai, e a confusão frustrou sua capacidade de articular as muitas perguntas que o inundaram subitamente. Ele conseguiu expressar que queria subir para ver a mãe, mas seu pai rapidamente se opôs. "Ela não tem dormido bem, James. Tenho certeza que pode entender. Deveria deixá-la aproveitar essas poucas horas, e pode falar com ela amanhã no café da manhã." Ele mexeu-se um pouco e depois partiu para a cozinha. "Eu vou fazer um chá, querem?"
"Chá?" murmurou James para Sirius, enquanto o Sr. Potter se afastava deles. Sirius apenas deu de ombros.
Bridget Shacklebolt adormecera no ombro da irmã, e até mesmo a bruxa mais velha parecia prestes a cochilar enquanto balançavam no banco de trás escuro de um táxi. Quanto mais se aproximavam da casa dos Shacklebolt, mais apreensiva Lily ficava – mais ela se arrependia por concordar em ir para casa com Donna pelos próximos dias.
"Bem, não pode ficar aqui sozinha, não é?" Foi a resposta de Donna quando Lily lhe disse que não podia ir para casa – para uma casa trouxa – por conta de uma guerra que sua mãe nem sabia que existia. "Deveria ir para casa comigo e com Bridget. Há espaço suficiente, e você saberá muito mais falar sobre esse tipo de coisa com Isaiah e Brice do que eu."
Mesmo que não tivesse detectado uma preocupação genuína por trás da desculpa para o convite, a ruiva provavelmente teria aceitado. Ela não sabia o que dizer sobre isso; certamente não explicaria nada aos irmãos mais novos de Donna, mas a ideia de não comparecer ao memorial – e de passar o fim de semana em um castelo vazio – era insuportavelmente solitária.
Essa linha de raciocínio fazia cada vez menos sentido à medida que se aproximavam de seu destino. Certamente estaria se intrometendo. Os Shacklebolt, tendo perdido seus próprios pais há pouco tempo, gostariam de lamentar em família, e ela estaria no caminho – uma estranha, parada lá sem jeito, sem poder participar da dor de seus amigos. Eles seriam muito educados, é claro, muito gentis com ela, mas em um momento como esse, ela não se encaixaria.
Ela desejou ter ficado no castelo. Desejou poder escrever a última carta para Sam novamente. Desejou ter se despedido de James. Ter dito algo a ele, de qualquer maneira. Ele estava lá na estação e ela tinha simplesmente...
"Não deve faltar muito agora," disse Donna, quebrando quinze minutos de silêncio com um murmúrio baixo que não perturbaria sua irmã. Ela olhou com indiferença pela janela do carro. "Eu não suporto viajar assim, sabe. Tediosamente lento."
Lily não se incomodou em recriminar a amiga, embora o taxista continuasse a lançar olhares curiosos para elas. A gaiola da coruja presa no banco da frente (a de Donna, pois Lily deixara Niko no corujal da escola) deixara o homem em alerta no momento em que embarcaram, e agora todo comentário estranho de Donna fazia com que recebessem um olhar cauteloso através do espelho. Mas faltava pouco tempo para deixarem a companhia do homem, e Lily pretendia dar uma boa gorjeta.
"Tenho certeza que não haverá jantar para nós," continuou ela. "Os garotos já terão comido. Kingsley não estará em casa ainda, e tenho certeza que não fizeram nada para a gente. Talvez tenhamos que sair para comprar comida. Devíamos ter pego alguma coisa em Londres... uma burrice, na verdade, mas..."
"Nós daremos um jeito, Donna," interrompeu Lily.
"Acho que sim."
Bridget se mexeu; ela acordou logo depois e, quando se sentou, massageou a mancha vermelha no rosto devido ao contato com o ombro de Donna. "Você não é muito macia, Donna," disse ela com um bocejo.
"Nem você," respondeu a outra. "Estamos quase em casa."
Elas chegaram cinco minutos depois. Apesar dos protestos de Donna, Lily pagou a corrida, embora tenha permitido que a amiga carregasse uma de suas malas até a casa. A entrada estava escura, mas um brilho visível vinha da sala de jantar, e lá as três recém-chegadas encontraram Brice, Isaiah e uma mulher mais velha que Lily não conhecia, mas a quem Donna cumprimentou com surpresa.
"Tia Dahlia."
Donna não parecia muito com a tia, pensou Lily, exceto que a bruxa mais velha, uma mulher alta e imponente, tinha os mesmos ombros largos e magros da sobrinha. Mas os olhos de Dahlia eram escuros, e seus cachos curtos e volumosos tinham largas mexas grisalhas. Ela tinha um nariz mais longo e uma mandíbula mais pontuda; o rosto dela era mais comprido também. Mas sua boca parecia ter o mesmo formato que a de Donna, especialmente quando falou:
"Mandei a governanta para casa há dois dias," disse Dahlia. Ela deu um breve abraço em Bridget e Donna, e então ergueu uma sobrancelha para Lily. "Você não é minha sobrinha."
"Esta é Lily, ela ficará conosco," disse Donna, distraída. "E Audrey não é a governanta. Kingsley não mencionou que você viria..." Ela largou as malas e bagunçou o cabelo de Brice como forma de cumprimento, assentindo para Isaiah também, mas mantendo a atenção focada principalmente na visita inesperada.
"Ele mal ficou mais que dez minutos em casa desde terça-feira," prosseguiu Dahlia. "Lily, não é?" A ruiva se assustou com a menção repentina ao seu nome, e então assentiu, estendendo a mão.
"Lily Evans."
"Um prazer. Dahlia Shacklebolt. Vocês três já comeram?"
Dahlia tinha uma maneira direta e eficiente de conversar; depois de averiguar que ainda não tinham jantado, ela preparou um prato para cada uma delas, enquanto Donna levitava as malas para os respectivos quartos. Somente quando todos estavam sentados, Dahlia fez as perguntas de praxe sobre a viagem e o semestre.
"Quanto tempo vai ficar, então?" perguntou Donna, juntando as últimas batatas com o garfo.
"Uma ou duas semanas. Talvez um pouco mais." Ela olhou propositalmente para Brice e Isaiah, e Donna deve ter entendido o significado daquilo, pois assentiu e não fez nenhum comentário. Quando o jantar terminou, Donna conduziu Lily de volta ao seu quarto, e as duas arrumaram uma cama. Donna transfigurou uma de suas almofadas em um colchão extra e depois desapareceu no corredor por um momento, reaparecendo com uma pilha de cobertores. Lily arrumou a cama, enquanto a amiga sentava-se na dela, olhando debilmente para a mala.
"Quer sair para algum lugar?" perguntou a anfitriã por fim. Lily ergueu os olhos, alisando a colcha grossa cor de tangerina. "Ir a Londres ou algo do tipo? Podemos visitar Marlene, Mary ou alguém... ir ao Caldeirão Furado..."
"Está acontecendo alguma coisa?"
"Não." Ela respondeu um pouco depressa demais. "Eu simplesmente não estou a fim de ficar em casa. E tia Dahlia pode cuidar de Brice, Isaiah e Bridget."
Lily sentou-se em sua cama recém-construída. Ela observou a amiga franzindo a testa para o quarto, como se procurasse, sem entusiasmo, por algo que não estava ali. "Tudo bem," disse ela.
"...Elinor Ulvan diz que o Ministério não dará mais nenhuma informação sobre o ataque, mas eu espero que seja necessário nas próximas semanas. Ao menos para os familiares mais próximos." A faca de John Lupin afundou na lateral do pedaço de carne em seu prato. Ele se concentrou em cortar um pedaço do pequeno bife bovino e deixou o restante, sem ao menos fazer contato visual com o filho.
Era um corte de carne barato, certamente inferior ao que serviam em Hogwarts, mas preparado para ficar malpassado e, portanto, mais ao gosto de Remus. Era um gesto bacana, realmente. O próprio Maroto mexia o purê de batatas no prato de porcelana verde à sua frente, perguntando-se se seu pai fizera aquilo de propósito ou apenas por hábito.
"...isso não pode durar por muito mais tempo," continuou o Sr. Lupin. "O Ministério tem que tomar medidas mais drásticas. Crouch tem que assumir o controle. Tem que haver algum tipo de solução para pegar..." O esperado e típico intervalo, "...bem, Você Sabe Quem." Com isso, ele olhou para o prato de Remus, ainda meio cheio, e isso o fez olhar de verdade para o filho. "Não está com fome? Posso pegar outra coisa para você, se quiser..."
"Não, tudo bem." Remus comeu um pouco em respeito. "Não estou com muito apetite."
"Você parece... cansado."
"Você também."
"Fiz jornada dupla," respondeu o pai. "Você... você tem mais uma semana, não é?"
Remus não conseguia se lembrar claramente de uma conversa com um dos pais que não contivesse aquele tom de apreensão e que, eventualmente, não retornasse ao seu probleminha peludo.
"Sim, outra semana. Você que fez esse purê?"
"Sim."
"Está terrível."
O Sr. Lupin riu (nervosamente, talvez) e retornou ao jantar e aos comentários sobre a guerra.
Eram quase nove horas quando Lily e Donna apareceram na porta da frente, e Marlene poderia ter gritado de alívio. "Pelo amor de Agrippa, vamos sair daqui," disse ela, antes que Lily terminasse de fazer o convite. A loira já estava usando um pijama de listras e seu cabelo estava puxado em pequenas tranças, na expectativa de passar a noite enrolada na cama com o disco que comprou no caminho da estação até sua casa, mas sair com as amigas significava uma fuga física do apartamento – o ideal. "Mary disse que queria ir para a cama mais cedo," acrescentou Marlene, tirando os elásticos do cabelo, "mas podem ir lá falar com ela mesmo assim. Duvido que diga 'não' a ir encher a cara num bar."
"Devemos esperar que você se vista?" perguntou Lily.
"Não, vá chamar Mary. Mamãe está dormindo." Ela fechou a porta antes que Lily ou Donna pudessem responder, e as duas foram obrigadas a obedecer. Mary também concordou em sair com elas, mas ao menos pediu para que sentassem na cozinha enquanto buscava seu casaco. O Sr. e a Sra. Macdonald, sempre ávidos por receber qualquer notícia do fascinante e confuso mundo mágico, receberam as garotas com entusiasmo. Naquela noite, até Lily se esforçou para elaborar informações alegres, e se viu divagando sobre a cama que Donna conjurara na casa dos Shacklebolt. Os Macdonald acharam aquilo completamente divertido e pediram detalhes, até que Mary emergiu de seu quarto, tendo aplicado uma camada de sombra cor de pêssego e retocado o blush.
"Vamos buscar Marlene," instruiu ela em voz alta, vestindo o casaco marrom. "Tchau, mãe, tchau pai..." Beijos nos dois: "Não esperem por mim."
Agora completamente vestida, Marlene estava diante do elevador quando elas saíram do apartamento dos Macdonald. "Não acredito que eu nunca tenha percebido quão pouco tenho que usar nessa época do ano... com relação às roupas trouxas, quero dizer," disse ela, enquanto suas amigas se aproximavam. Ela abriu a jaqueta cinza e revelou uma camiseta fina de cor azul. "Eu também não trouxe muita coisa para casa. Não pensei quando fiz as malas."
"Voltaremos à escola daqui a alguns dias," lembrou Donna. "Então, para onde estamos indo?"
Elas concordaram em ir ao Caldeirão Furado, especialmente porque Donna estava bastante convencida de que Tom lhe daria bebidas grátis, e aparataram do elevador.
Peter foi para a cama cedo. De seu quarto, podia ouvir a rádio e os murmúrios vagos e preocupados de sua mãe em resposta às vozes incoerentes, e ele não sabia se isso o confortava ou não. O apartamento estava muito ventilado, e ele pensou em se levantar da cama para fechar as cortinas da janela – como se isso pudesse ajudar –, mas acabou não o fazendo; nem desligou a luz. O garoto ficou sob os grossos cobertores de flanela que sua mãe colocara ali para ele e não se mexeu, exceto de vez em quando, quando inclinava a cabeça ligeiramente para a direita – para visualizar a varinha sobre a mesa de cabeceira.
Ele tentou não pensar nas oitenta e sete pessoas mortas – muitas das quais encontrara durante o verão – e, ainda assim, viu-se morbidamente fascinado ao pensar no que realmente ocorrera em Peverell Hall. Será que tinham resistido? Em todo aquele caos, ninguém conseguiu... se esconder ou algo do tipo? Ele se imaginou no lugar enquanto acontecia – escondido atrás de uma cadeira ou desaparatando... por que nenhum deles conseguiu fazer isso? O que poderia ter mantido oitenta e sete bruxos e bruxas em um lugar cheio de Comensais da Morte?
O pensamento permaneceu em sua mente até que o zumbido da rádio na sala ao lado embalou seu sono.
Sem comunicar suas intenções, as quatro garotas – Lily, Donna, Marlene e Mary – pararam diante da porta do Caldeirão Furado, respirando antes de entrarem. Mesmo assim, quando entraram, o medo de que talvez ninguém tivesse realmente entendido acabou por se mostrar irrelevante: o bar não estava lotado. Bruxas e bruxos ocupavam um punhado de mesas, mas elas não se depararam com uma multidão.
"Parece uma terça-feira," disse Donna, surpresa. "Eu nunca vi isso aqui tão calmo numa sexta."
Todos os olhares se voltaram para as bruxas quando entraram, mas se desviaram rapidamente. Mary ergueu as sobrancelhas, quase ofendida pela falta de interesse, mas só disse: "Vamos arrumar uma mesa?"
"Eu vou buscar bebidas," disse Donna. Ela caminhou até o bar, enquanto as outras rumavam para uma mesa vazia. Não tinham alcançado a mesa quando uma bruxa ao canto se levantou e acenou, chamando: "Marlene!"
Ela era pequena, de rosto redondo, com cabelos castanho-escuros cortados estilo chanel – a bruxa tinha um olhar estranho, de modo que levou um instante antes de Marlene reagir apropriadamente. "Audrey!"
Audrey McKinnon – a irmã mais velha de Adam – chamou-as à sua mesa, na qual os únicos outros ocupantes eram outra bruxa e um bruxo que aparentavam ter cerca de vinte e poucos anos, como Audrey. "Eu quase não te reconheci... seu cabelo, desculpa, está tão curto," dizia Marlene enquanto elas ocupavam as cadeiras oferecidas.
"Eu poderia te dizer o mesmo," disse Audrey. "E você está mais alta também. Acho que não te vejo faz..." Ela encolheu os ombros, embora Marlene pudesse ter dito que já fazia mais de um ano. O último verão foi o primeiro em anos no qual ela não frequentou a casa dos McKinnon.
"Como você está?" perguntou Marlene, trêmula. "Como está sua família?"
"Tão bem quanto o esperado..." Ela apresentou seus dois companheiros como Isadora e Seth, mas não deu informações adicionais. Marlene, por sua vez, lembrou a Audrey os nomes de suas amigas e, em seguida, Donna voltou com as bebidas. Audrey a cumprimentou com certo desconforto, e depois acrescentou: "Espero que não tenha ficado muito surpresa por sua tia estar em casa. Ela apareceu na quarta-feira e eu disse que iria te escrever, para dizer que não apareceria, mas Kingsley falou que cuidaria disso..."
"Ele não falou nada," disse Donna, um pouco bruscamente. "Mas ele nunca fala."
"São amigas do meu irmão mais novo," disse Audrey aos amigos. "E eu cuido dos irmãos de Donna enquanto ela está na escola."
"Shacklebolt, então?" perguntou a bruxa, Isadora. Donna assentiu. "Eu suponho que você deve saber alguma coisa sobre o que realmente aconteceu em Peverell Hall?"
"Izz," murmurou Audrey, corando.
"Eu não sei mais do que ninguém," respondeu Donna. "Meu irmão não pode distribuir segredos para todo mundo só por ser um auror."
"Seu irmão é auror?" pressionou Isadora.
"Não foi a isso que se referiu?"
"Os Shacklebolt são uma família bruxa antiga," disse o rapaz, Seth, com confiança. "Seus pais devem saber de alguma coisa. É assim que o Ministério trabalha..."
Audrey ficou escarlate; ela abriu a boca, mas Donna a interrompeu. "Meus pais estão mortos." Isso ressoou; todos bebericaram suas bebidas desconfortavelmente.
"Como estão sua mãe e seu pai?" perguntou Marlene a Audrey depois de um tempo.
"Papai não está aceitando muito bem," respondeu Audrey. "Mamãe está um pouco melhor... especialmente agora que Felicity veio para casa."
"Ah, isso é bom, então... que ela voltou..."
"Para o memorial, sim. E houve uma cerimônia privada ontem. Mas..." Audrey hesitou. "Eu acho que ela não fez bem a Adam. Ela está... ela está com raiva, é isso, e agora Adam está piorando."
"Claro que ela está com raiva," disse Donna, antes que Marlene pudesse expressar o choque que claramente se mostrou em seu rosto. "Ela deveria estar com raiva."
"Não dessa forma," disse Audrey, mas Isadora sobrepôs-se a ela, verbalizando sua concordância com Donna.
"Já é hora das pessoas ficarem com raiva," disse ela. "Era sobre isso que Barty Crouch estava falando outro dia. Os aurores têm que ter permissão para agir, ou então nada será resolvido, e os Comensais da Morte e... e Você Sabe Quem vão continuar agindo assim..."
Isadora, Seth e Donna continuaram a conversa e Marlene, recostando-se na cadeira, falou com Audrey. "O que você quer dizer com Adam está piorando?" perguntou ela em voz baixa.
A expressão de Audrey desabou. Prestes a chorar, ela começou: "Eu não sei mais o que fazer, Marlene. Ah, a família está bem. Estamos nos ajudando, sabe? É só Adam. Todos nós nos sentamos e conversamos após o jantar, mas ele não sai do quarto."
"Você falou com ele sobre isso?"
"Um pouco... ele não fala com ninguém. Ele estava bem quando chegou em casa," explicou ela com sinceridade. "Mas nos últimos dias, só ficou no quarto o dia todo, e Felicity era a única que conseguia conversar com ele. E então ele sumiu por metade da noite, eu acho que apenas vagou por aí. Papai tentou conversar com ele, mas acho ele não disse nada. Hoje ele saiu de novo por volta do almoço e depois ficou no quarto dele o resto do tempo, e não comeu nada que eu tenha visto... a namorada dele apareceu rapidinho, mas não sei se isso lhe fez bem, porque ela saiu depois de uns vinte minutos, e ele continuou sem sair do quarto depois disso." Audrey franziu a testa para a bebida. "Agora ele disse que não vai ao memorial no domingo, e isso deixou mamãe devastada... Eu não deveria estar fora de casa agora..." acrescentou, ela, pesarosa: "mas estive naquela casa nos últimos três dias, e eu só..."
"Ah, claro," consolou Marlene. Ela deu um tapinha no ombro da outra confortavelmente. "Não pode esperar tomar conta de todos."
Finalmente, as lágrimas que se agarravam aos cílios de Audrey deslizaram por suas bochechas e, fungando, ela disse: "Eu sinto falta de Sarah."
"Eu sinto muito, Audrey." Marlene sentia sua dor, mas era tão fútil; não parecia haver muito que pudesse dizer ou fazer, por mais que desejasse que sim. Então, como se tivesse ouvido esse desejo, Audrey o atendeu no momento seguinte. Ela se iluminou, enquanto a ideia lhe ocorria.
"Você não quer ir falar com Adam?"
"Quê?"
"Ah, não hoje à noite... amanhã." A ideia tomou forma, e ela encontrou mais e mais encorajamento em sua concepção. "Vá amanhã para ver Adam. Ele vai falar com você, não vai? Você é a melhor amiga..."
A ideia ocorrera a Marlene, mas ela não tinha certeza se seria totalmente apropriado. "Eu não quero incomodar sua família."
"Ah, mamãe te ama, e não será incômodo algum. Por favor, vá."
"Tudo bem, eu vou."
"Obrigada." Ela fungou novamente. "Amanhã... melhor ir um pouco mais tarde. Meus avós nos visitarão de manhã. Às quatro ficaria bom?"
Marlene disse que sim e ficou combinado. Do outro lado da mesa, Lily estava sentada ao lado de Mary, e nenhuma das duas estava realmente prestando atenção à conversa principal – Isadora, Seth e Donna –, embora fosse difícil ignorá-los completamente.
"Bem, isso é um avanço," comentou Mary, encarando a bebida. Lily sorriu fracamente.
"Não é exatamente uma noite animadora, suponho."
"Não, de fato, não. Por que o bar está tão quieto?"
"Acho que as pessoas não querem sair," respondeu Lily. Ela olhou em volta; a maioria das pessoas parecia estar reservada. "Acho que estão com medo."
"Não é como se Você-Sabe-Quem fosse atacar o Caldeirão Furado, pelo amor de Merlin."
Lily deu de ombros. "Por que não?"
"Porque isso seria loucura. É... é o Caldeirão Furado! É uma instituição!" Mary tomou um gole de sua cerveja, indignada.
"Eu não acho que Voldemort se importe muito com instituições." Se o bar estivera quieto antes, ficou em silêncio agora. Isadora e Donna cessaram momentaneamente o debate, e as bruxas e bruxos das mesas ao redor também fizeram uma pausa. Alguns segundos depois foi que a ruiva percebeu que ela tinha sido a causa disso, e, mesmo assim, não reconheceu imediatamente o motivo.
Depois de quase um minuto, os estranhos voltaram às suas conversas, mas as pessoas na mesa de Lily permaneceram imóveis.
"Eu não tive intenção, me desculpem," disse ela depressa, e era a verdade. Ela não quis dizer o nome. Já o dissera antes, claro, mas sempre com um pouco de hesitação... sempre conscientemente. Desta vez, simplesmente escapara.
Assim que a conversa recomeçou, um pouco desajeitada, Lily terminou a última cerveja e anunciou que ia tomar um pouco de ar. Marlene ansiosamente se ofereceu para ir com ela, mas a ruiva sacudiu a cabeça e saiu antes que alguém pudesse discutir. Ela caminhou até o poste de rua mais próximo e pôs-se sob a luz amarelada, desejando ter trazido gorro e luvas. Parada ali, faltou-lhe energia para resistir às lembranças que naturalmente lhe vinham... o cheiro era um pouco diferente, pois não chovera naquela noite; ela usava um casaco preto, em vez do leve vestido azul; suas pernas e pescoço estavam nus... mesmo no ar frio noturno de agosto, ela estava aquecida devido à bebida, às risadas e às cantorias... A última vez que esteve ali do lado de fora do Caldeirão Furado foi depois da festa de casamento de Frank e Alice.
Ela passara a noite com Marlene, Donna, Frank, Alice, os familiares deles, os Marotos, os Prewett e Sam. Parecia-lhe agora que passara a maior parte do tempo com Sam. Ele ficou lhe persuadindo a cantar. Todos eles invadiram o bar, encharcados da chuva – que sinalizou o fim da seca – e então tudo se transformou em apenas um borrão alegre... como todos se sentiram maravilhosos, vitoriosos e vivos, com um senso de esperança de que tiveram a chance de mudar as coisas. E agora, quando fechava os olhos, via o nome dele numa minúscula impressão em letras pretas de jornal. Dearborn, Samuel.
Quão diferente da sua assinatura engraçada e sem graça.
Mais acima na rua, havia uma loja de bebidas e Lily foi até lá. Na horrenda luz fluorescente, ela comprou um maço de cigarros e voltou para o bar. Mary a encontrou a vários metros da porta.
"Me mandaram te procurar," disse ela.
"Cigarro?"
"Não, obrigada."
Lily acendeu o seu com os fósforos que o balconista lhe dera e se encostou na lateral do prédio.
"Eu só queria que todo mundo parasse de falar sobre isso," disse Mary, suspirando.
(Sábado)
A Sra. Potter estava sentada à mesa do café quando James desceu as escadas na manhã seguinte. Ela parecia limpa e organizada, como sempre, mas estava devastada.
"Bom dia," disse James, sentando-se mais perto dela. Ela deve ter percebido o ressentimento na saudação, pois começou a pedir desculpas por não ter ido vê-lo na noite anterior. Ele desconsiderou depressa: "Não se preocupe, mãe," e acrescentou: "Como está Adele?"
"Não muito bem." A Sra. Potter pegou uma porção da toranja diante dela com uma colher; ela mastigou e engoliu antes de continuar, com uma voz forçada e uniforme: "Ela perdeu o filho, afinal. E Caradoc te enviou um bilhete."
"Onde está?"
"Na sala de espera."
Havia mais dois jogos de louça à mesa, cada um com uma toranja cortada no centro e uma colher. James selecionou um e deixou o outro para Sirius. Como se só notando agora que o amigo do filho não tinha descido com ele, Grace perguntou: "Sirius ainda está dormindo?"
"Sim, ele vai dormir por mais uma hora, eu acho." Ainda era cedo – não eram nem oito horas – e Sirius não tinha o mesmo apreço de seu melhor amigo pelas primeiras horas do dia. James encarou incerto a comida à sua frente e depois lançou o mesmo olhar para sua mãe. Ela estava pálida; seus olhos estavam vermelhos, e sua mão tremia um pouco sobre o café da manhã, o que desmentia suas impecáveis vestes negras de luto. "Mãe... os elfos domésticos..."
"Eu os liberei."
"Foi o que papai disse. O que houve? O Ministério não acredita que você tenha algo a ver com... o que aconteceu? Não podem achar que sim."
"Claro que não." Outra mordida na toranja. "Apenas uma formalidade."
"Então, por que você...?"
"Porque era a coisa certa a fazer, James," respondeu ela, impaciente. Vendo que ele não começara a comer, ela prosseguiu: "Coma suas frutas antes que fiquem quentes, e então é melhor ir pegar o bilhete de Caradoc. Ele provavelmente quer que você vá até os Dearborn."
Ela estava certa. O bilhete continha um convite para a casa deles em Poole naquela tarde. Alguns familiares compareceriam para resolverem sobre os pertences de Sam, e Caradoc queria James lá. James passou por Sirius na escada – o último descendo para o café da manhã, e o primeiro subindo para falar com a mãe, que já havia ido para um escritório no andar de cima – e o atualizou sobre os planos do dia.
"Tem certeza que eu deveria ir?" indagou Sirius. "Só família, e tudo mais."
"Eles não vão se importar, e você não pode ficar aqui. Não terá nem os elfos para conversar."
Sirius deu de ombros. "Você que manda," e continuou sua descida; James correu para encontrar sua mãe. A Sra. Potter estava sentada à mesa da sala azul, respondendo suas próprias cartas, quando James entrou.
"Doc disse para irmos depois do almoço," disse ele. "Está tudo bem para você?"
"Sim, claro. Não vou precisar de você esta tarde." A coruja empoleirada ao lado dela na mesa sacudiu suas asas. James franziu o cenho.
"Você não quer vir junto?"
"Seja razoável, querido," disse a Sra. Potter, cansada. Ela estava sentada de costas para ele, mas a pena na mão parou sobre o pergaminho à sua frente. "Eu sou a última pessoa que a família quer ver."
"Mãe, tenho certeza..."
"Bem, então, você está errado. Adele disse que não quer me ver e, francamente, eu não a culpo." James considerou um pouco essa possibilidade, e assim a declaração não o surpreendeu completamente, exceto pela aparente certeza de tudo. Como ele não respondeu, a Sra. Potter supôs que o filho precisava de esclarecimentos e continuou de uma maneira estranhamente sem emoção: "James, o M.P.P. era meu. Meu projeto, minha causa. Eles eram meus amigos e eu nem estava lá. Eu estava em casa. Na cama, e Sam e todos os outros estavam lá, porque eu os recrutei. " Ela se perdeu em um pensamento por um momento; James estava congelado em seu lugar a vários passos de distância. Quando sua mãe voltou a falar, foi com mais força: "...eles estavam todos apenas... sentados lá... Tilly e eu escolhemos aquele lugar em particular, e foi lá que..."
"Mãe, por favor, não," implorou o filho de repente. Ele não suportava ouvir. "Nada disso é culpa sua. Não vou até os Dearborn. Se eles não querem saber de você..."
"Bobagem." A Sra. Potter se recompôs. "Eu tenho muitas coisas para fazer, James. Estarei em Rutland montando chaves do portal e habilitando lareiras a tarde toda, e vou tomar chá com a filha de Tilly. Caradoc vai querer vê-lo. E você amava Sam..."
James concordou só para terminar a conversa, para que ela parasse de dizer o nome dele. Doía mais ouvi-la dizê-lo do que qualquer outra pessoa, porque sabia que ela o tinha visto. Sua mãe tinha ido identificar os corpos e, em sua voz, percebeu que havia uma visão de Sam que o rapaz não suportava imaginar. Ele desceu as escadas, juntou-se a Sirius no café da manhã e lhe disse que eles iam à casa dos Dearborn no começo da tarde.
A manhã de sábado foi conturbada nos Shacklebolt. Lily sentou-se desajeitadamente em sua cama improvisada, como se faz nessas situações, enquanto Donna, sua tia, Bridget e Isaiah discutiam no corredor. Donna queria voltar ao Beco Diagonal naquela tarde para comprar suprimentos de poções; Bridget e Isaiah queriam ir junto, embora Donna não achasse seguro, e tia Dahlia não queria que nenhum deles fosse. Ela parecia pensar se tratar de uma questão de segurança, embora não tivesse feito tanta questão na noite anterior.
Enquanto os quatro Shacklebolt mais velhos brigavam no corredor, a porta do quarto se abriu. A princípio, Lily pensou que Donna havia escapado, mas seus argumentos ainda soavam no corredor, e a ruiva viu que o visitante era, na verdade, o garotinho Brice, de seis anos. Ele hesitou perto da porta, as mãozinhas agarradas à maçaneta dourada, até a garota sorrir para ele. Então, ele entrou no cômodo. Lily ajudara Donna a colocá-lo na cama antes da expedição ao Caldeirão Furado, e assim ele se sentiu bastante familiarizado com ela. O garotinho percorreu o quarto, parando quando alcançou o pé da cama de Donna, e então se encostou nela. Ele baixou o olhar timidamente.
"Eu nunca vi essa cama antes," disse ele.
"Donna fez ontem."
"Com magia?"
"Sim."
Brice torceu um pouco do cobertor azul da cama de Donna em torno de seu dedo, os olhos fixos naquele pequeno projeto, mesmo enquanto dizia em um sussurro alto: "Eu ouvi tia Dahlia chorando esta manhã". Lily assentiu. Ela não tinha resposta, mas deu um tapinha no espaço na cama ao seu lado e Brice foi se sentar lá. "Quando Donna e Bridget voltam para Hogwarts de novo?"
"Na segunda-feira, eu acho."
"E você também?"
"Aham."
"Isaiah vai?"
"Não, não na segunda. Ele irá algum dia. E você também."
"Quando eu receber minha carta."
"Isso mesmo." Lily sorriu. "E você sabe quando receberá sua carta?"
"Quando eu fizer onze anos."
"Exatamente."
"Kingsley tem vinte e quatro anos," disse-lhe Brice depois de um tempo. "Ele foi para Hogwarts antes de eu nascer."
"Quem te disse isso?"
"Isaiah."
"Ele está certo. Lembro-me de quando Kingsley estava em Hogwarts. Ele era capitão do time de quadribol."
"Agora ele é um auror."
"Aham. E você tem orgulho do seu irmão, não tem?"
"Aham," imitou Brice, sem realmente entender a pergunta. "Você vai me levar ao parquinho hoje?"
"Eu acho que sim. Com Donna. Mas só mais tarde."
"Esta tarde."
"Sim, esta tarde."
Por fim, Donna conseguiu o que queria – em parte, pelo menos, pois concordou em levar Bridget e Isaiah, e ficou decidido que eles iriam pela lareira ao Caldeirão Furado pouco antes do almoço. Só Brice ficaria com tia Dahlia.
É claro que, quando chegou a hora de partir, o plano se complicou novamente, pois Donna não conseguia decidir exatamente a ordem em que seus irmãos mais novos deveriam entrar na lareira. Por fim, Lily pegou um punhado de pó junto à lareira, foi na frente, e deixou que a amiga resolvesse por si mesma. Donna, depois Isaiah, e por fim Bridget a seguiram.
Donna pediu a Lily que esperasse um pouco com as crianças enquanto ela, mais uma vez, cumprimentava Tom, que estava um pouco mais ocupado esta tarde do que na noite anterior, mas Lily não ficou sozinha com as crianças por mais que um minuto antes de uma jovem bruxa de vestes marrom se aproximar dela, radiante. Levou alguns segundos para Lily perceber que essa mulher – mais magra, mais enérgica, e com cabelos curtos castanho-dourados – era, na verdade, Alice Longbottom.
"Pelo amor de Agrippa!" exclamou Lily com um salto, e Alice riu. "Ah, meu Merlin, Alice, eu nem... como você está?"
Elas se abraçaram com força antes de Alice responder. Ela estava mais pálida também, Lily notou; seu rosto e seu corpo tinham emagrecido, e ela parecia muito mais velha – mas Lily estava simplesmente acostumada a vê-la com mais maquiagem. Mas ela sorriu brilhantemente para a ruiva.
"Eu estou bem. Agrippa, senti sua falta."
"Eu também senti sua falta," concordou Lily, apertando sua mão. "E o que você fez com seu cabelo?"
"Você gostou?"
"Adorei. Então, está começando uma banda?"
Alice tornou a rir; o som reverberou no bar silencioso. "Infelizmente, não. Mas é assustadoramente prático. No entanto, não sei quanto ao tom mais escuro. Não consigo decidir de qual eu gosto mais, e Frank frustrantemente não opina sobre o assunto. Diz que gosta dos dois, o idiota nada cooperativo."
"Como ele está? Ah... me desculpe..." Lily lembrou-se de seus companheiros. "Esses são Isaiah e Bridget Shacklebolt. Essa é Alice Longbottom. Ela... ela trabalha com seu irmão e costumava frequentar Hogwarts comigo e com Donna."
"Então, Donna está aqui também?" perguntou Alice.
Lily explicou, mas a própria Donna voltou alguns minutos depois. As duas se cumprimentaram. A morena estava com pressa para começar as compras, e Alice não tinha muito tempo para almoçar. Lily sugeriu ficar com a última e se encontrar com Donna quando chegasse a hora de Alice voltar ao Ministério. Donna concordou, e Lily e Alice se sentaram ao longo do bar.
"Eu senti tanto a sua falta," repetiu Lily, quando já estavam sentadas. "Sua e de Frank."
"Merlin sabe que sentimos sua falta," disse Alice. "E de Hogwarts. O treinamento não é nada parecido com a escola, se está se perguntando. Exceto pelos estudos. Muita carga de estudos e memorização de feitiços, mas também muitas questões burocráticas."
"E vocês fazem algum trabalho de campo?" cutucou Lily
"Quem está no primeiro ano não faz trabalho de campo propriamente," disse Alice. "Trabalhamos no departamento de aurores, mas nós, trainees do primeiro ano, na verdade, não saímos, não."
"Mas você trabalha com todos aqueles aurores, então..." Ela parou um pouco, mas Alice entendeu.
"E eu aqui pensando que sentia saudades de mim," disse ela secamente. "Está só tentando obter informações."
"Não, eu..."
Alice balançou a mão para ela. "Alguns dos aurores mais velhos pegam os trainees como assistentes... somos apenas corujas com perspectivas – enviando memorandos, fazendo anotações... na verdade, estamos trabalhando com as Leis Mágicas agora, vendo se eles têm um caso contra esses caras – os irmãos Hartwright... mas não é sobre isso que está perguntando, claro. Eu e Frank trabalhamos um pouco para Moody," admitiu ela. "Então... então, naquele dia, nós fomos a Peverell Hall..." Alice bateu no bar preguiçosamente com a parte inferior de sua aliança de casamento. "Nós vimos. Somos alguns dos poucos trainees que viram."
"E?" pressionou Lily.
"E o quê?"
A bruxa mais jovem suspirou. "O que aconteceu, Alice? Como aconteceu? Como conseguiram matar oitenta e sete bruxas e bruxos de uma só vez... por que não houve sobreviventes?"
Alice baixou o olhar. "Não posso falar sobre isso, Lily. Não posso falar sobre nada disso, claro."
"Mas você sabe?"
"Eu não posso nem dizer o que sei, querida. Não posso falar sobre isso de forma alguma. Te contar que estive lá deve ser tecnicamente contra a lei. Eu quase não sei de nada, e tudo é sempre confidencial, de qualquer forma."
Lily queria protestar; ela se remexeu momentaneamente, em busca de alguma pergunta que pudesse ser respondida, mas a consciência interveio e ela se rendeu. "Você tem sorte," disse ela eventualmente.
"Tenho?"
"Claro. Está trabalhando em algo. Não precisa ficar sentada, presa na escola quando todo mundo está morrendo."
"Acho que tenho sorte, sim," foi a resposta comedida de Alice. Ela continuou encarando a bancada, e o peso em sua voz sugeria que a outra não podia entender. "Em muitos aspectos, tenho muita sorte. Mas você também terá sua chance. E não é... não é fácil."
"Eu sei disso." Ela sabia, claro. Não conseguiu explicar... nem mesmo Alice entenderia. Isso não era um jogo para ela... não estava simplesmente irritada... Ela estava... bem, simplesmente não conseguia explicar.
"Mas me fale algo de bom," continuou Alice. "Conte-me sobre Hogwarts."
"Algo de bom?" Da última vez que Lily viu o castelo, metade do corpo estudantil estava chorando enquanto adentrava o trem para encontrar os familiares. "Eu não sei."
"Deve haver alguma coisa. Quadribol, fofocas ou algo assim..."
"Eu não sei," disse Lily novamente e com honestidade. Ela não conseguia se lembrar de nada antes de terça-feira. Alice franziu a testa.
"Eu fui grossa, Lily, me desculpe. Claro... eles também eram seus amigos..."
"Eu mal os conhecia, na verdade."
"Mas eram seus amigos."
"Sam Dearborn e eu estávamos nos escrevendo ao longo de todo semestre," disse Lily após um tempo. Alice assentiu, inclinando-se para frente em antecipação a outra coisa... mas era isso, na verdade. Ela e Sam Dearborn se escreveram ao longo do semestre. Essa era a extensão das coisas. Ele era primo de James. Ela não se despediu dele. De James. De Sam. Sua última carta tinha sido uma bagunça egocêntrica – não conseguia nem se lembrar de como a assinara. Também deveria ter dito algo a James na estação em Londres. Será que Sam tinha lido sua última carta? Será que isso fazia a menor diferença? Na manhã seguinte, após sua carta, após o Halloween, quando descobriu sobre James e Carlotta, ela pensou que tinha mais para contar a Sam, pensou na próxima carta para ele, e pensara no quanto as coisas haviam mudado quando escrevesse da próxima vez, e ele estava morto, estava morto, estava morto... Ficaria enjoada se não se impedisse de pensar naquilo: "Como está Frank?" ela tornou a perguntar.
"Está bem. Ele adora o treinamento. E o apartamento... Merlin, ele está mais maluco com o apartamento do que eu. Age como uma criança de dez anos em sua primeira festa do pijama."
"O apartamento?"
"Claro, o que fica em..." Alice parou. "Eu devo ter escrito sobre ele para você..."
"Você não respondeu a minha última carta, querida," disse Lily. Os dedos de Alice desapareceram em seus cabelos curtos. Quanta coisa havia mudado desde a última vez que trocaram cartas...
"É só... você não pode imaginar como tudo está uma loucura agora. Doze horas de trabalho por dia e uma... uma dúzia de pequenos projetos paralelos... Mamãe passou na semana passada para dizer que fazia um mês que eu tinha falado com ela e..."
"Está tudo bem, Alice."
"Não está não. Vou ser mais atenciosa, prometo."
"Não se preocupe. Concentre-se em salvar o mundo primeiro, está bem?"
"Verei o que posso fazer."
"Quer comer?" perguntou Lily, e Alice suspirou de alívio.
"Eu achei que nunca perguntaria."
Em um instante de incomum impetuosidade, o patriarca Dearborn, no início do século XIX, eliminara o domínio ancestral dos Dearborn e construíra um novo lar para sua família em um bairro elegante de Poole, onde várias outras famílias mágicas estavam criando raízes. Todas as casas se assemelhavam vagamente: grandes, quadradas, de tijolos, com terraços, e embora as raízes das outras famílias se mostrassem frágeis – elas haviam desocupado as mansões dentro de uma ou duas gerações, e posteriormente as casas foram "atrouxadas," como Adele Dearborn qualificou – o vínculo da origem semelhante era forte. A maioria dos trouxas do bairro insistia que suas casas eram assombradas, e metade deles poderia estar certa. De qualquer forma, era óbvio que, no final, a casa – com as imóveis cortinas de renda creme que tão diligentemente escondiam seu interior – era o lar de uma bruxa. E eles estavam bastante certos sobre isso.
Era o lar de uma bruxa e, até recentemente, de seu jovem filho bruxo.
O bairro não conhecia nenhuma razão substancial para suspeitar desta casa; era simplesmente tradição fazê-lo. Todos que viveram naquela rua nos últimos cem anos suspeitavam dela e de quem morava nela, e parecia haver algo estranho no local. Dificilmente alguém já fora visto entrando ou saindo; o jovem saía ocasionalmente, mas não a senhora. Além disso, havia uma dúzia de pequenas coisas – como o aparente interesse da Sra. Dearborn por pássaros noturnos, pois nos raros dias em que uma janela do andar de cima ficava com as cortinas abertas, era possível ver uma grande coruja marrom empoleirada lá. Então, quando alguém da cidade apareceu uma vez durante os apagões, a velha recusou-se a deixá-lo entrar – insistiu que não havia problema e que informaria às autoridades se alguém tentasse interferir novamente. Também havia um gato – uma coisa feia e amarela que vagava pelo quintal e nunca se afastava. Talvez não houvesse nada de estranho nisso, mas quando alguém já suspeita de uma bruxa, a presença do gato parece ser uma peça crucial de evidência.
Porém, apenas os moradores antigos do bairro prestavam atenção à casa, e apenas porque estavam acostumados. Os recém-chegados sempre ignoravam o lugar, e mesmo aqueles familiarizados com as histórias dos estranhos e velhos Dearborn geralmente esqueciam de sua existência. Na maioria dos dias, se alguém parasse para pensar nos moradores do quarteirão, ia se lembrar dos Andrew, dos Lane, dos Park, da Sra. Hordoddle, e daquele terrível americano, canadense, ou o que ele fingisse ser da casa do jardim malcuidado – mas não dos Dearborn. A mente dos moradores parecia evitar pensar na última casa da rua.
No entanto, James teve o cuidado de fazer um bom show ao abrir o portão preto que ficava na calçada, embora soubesse perfeitamente que ele o reconheceria e teria aberto por conta própria. Sirius o seguiu, observando a casa da qual se aproximava com certa suspeita. Nunca estivera ali antes, mas sentia que sim. Passara a infância preso em locais como este: casas sutilmente disfarçadas, cujos vizinhos não tinham noção do desprezo que os moradores delas tinham por eles.
Quando chegaram à varanda da frente e James bateu duas vezes na porta com a elaborada aldrava de ouro, Sirius falou algo que o lembrou do ceticismo de seu amigo, e ele disse: "Desculpe por sujeitá-lo a isso." Mas Sirius apenas sorriu.
"Esse deve ser o lema da nossa amizade."
"O mais patético é que... nós já temos um lema."
"Merlin, somos irritantes."
Um elfo doméstico quase nu abriu a porta para eles. Ele se chamava Galloway, e James o cumprimentou pelo nome, recebendo uma ligeira reverência e uma resposta ("Mestre Potter"), enquanto os dois jovens bruxos eram conduzidos para dentro. "Vocês devem subir até o quarto do Mestre Samuel," disse Galloway, enquanto os levava por um amplo corredor. As paredes eram de cor creme, no chão um tapete branco e macio: toda a sala de estar brilhava.
"Onde está tia Adele?"
"Ela está a dormir." Sam uma vez explicara o sotaque incomum de Galloway a James: Adele Dearborn detestava "aquelas abomináveis vozes élficas" e, desde muito jovem, treinou os elfos da casa para falarem com o que considerava uma entonação mais agradável. O efeito foi estranho, mas Adele deve ter aprovado, já que prosseguiu com a prática.
"Tudo bem," murmurou James em resposta a Galloway. Eles continuaram a seguir o elfo escada acima. O segundo andar era igual ao primeiro – silencioso, branco e um tanto antisséptico. Uma fina linha dourada corria ao longo das paredes, e isso constituía quase toda a cor da decoração. Era possível ver quatro portas de onde eles estavam. Todas, exceto uma, estavam fechadas, dois quartos estavam ocultos, o terceiro era um banheiro e o último, escondido no canto e entreaberto, era o quarto de Sam. Ou tinha sido. James passou à frente de Galloway para alcançá-lo.
O quarto de Sam era grande e as paredes eram verde-escuras, cobertas por muitas fotos e pôsteres. Uma grande faixa dos Hobgoblins ficava no espaço sobre sua cama larga e macia, e enfiada atrás dos alfinetes que a prendiam estava um ingresso gasto para um de seus shows. A maioria da decoração era de artistas da música, mas havia algo de uma marca de vassoura de corrida popular na Itália e, pendurada sobre a mesa desorganizada perto da janela, havia uma bandeira feia laranja dos Chudley Cannons. É claro que Sam torcia pelos Cannons. Um conjunto de portas de vidro em uma moldura de madeira branca na parede mais afastada dava para uma pequena varanda, e um pequeno loureiro que crescia em um vaso de vime era visível através da janela.
O irmão de Sam, Caradoc, estava sentado na beira da cama, mas se levantou quando James e Sirius entraram. Dorcas Meadowes também viera; ela ficou de pé, parecendo sombria, próximo à mesa e à bandeira dos Cannons, que se chocavam com suas vestes roxas. Além dos dois, os outros eram estranhos. Havia duas bruxas e um bruxo, todos pareciam estar na casa dos vinte e andavam pelo cômodo ansiosamente. As bruxas foram apresentadas como Clo e Simone, o bruxo como Oscar, e todos eles como "amigos de Sam do clube do livro."
James não parecia nada impressionado. "É isso?" perguntou ele a Caradoc.
"Temo que sim," respondeu o bruxo mais velho, infeliz.
"Egbert?"
"Eles não estavam… se dando bem ultimamente."
"Mas é o irmão dele."
"Você esteve no Ministério em agosto. Sabe como foi."
"Bem, e os primos, então?"
"Eles estarão no memorial na terça-feira."
"Bulhufas para eles, deveriam estar aqui agora..."
James continuou seu debate com Caradoc, mas Dorcas chamou a atenção de Sirius e ele se aproximou dela na janela.
"Black da Grifinória," disse a bruxa mais velha com um sorriso. "Esta não é a ocasião em que eu esperaria te encontrar novamente."
"Não," concordou o bruxo. "Como está a sua irmã?"
"Nada bem."
"Vance era um cara bacana."
"O melhor."
"Você conhecia muitos deles, não é?"
Dorcas assentiu. "E suponho que vou conhecer muitos mais." Ela arrastou o dedo indicador ao longo do material áspero da bandeira dos Cannons. "Foi muito gentil da sua parte vir. Sam tinha muitos amigos, mas poucos íntimos, e a maioria se foi com ele. Mas talvez seja uma bênção." Sirius não sabia o que falar, então mudou de assunto.
"Eu só estive em algo assim uma vez," disse ele. "E eu tinha cerca de seis anos, então não me lembro como é." Não houve nada disso para seu tio Alphard, até onde o rapaz sabia. Depois que o testamento foi lido, a família aparentemente passou da lamentação, relutantemente, nostálgica, para a negação completa da existência do bruxo. Mesmo que eles tivessem feito algo por Alphard, Sirius duvidava que tivesse participado.
"Ah, nós embalamos as coisas, arrumamos os itens pessoais, queimamos ou guardamos as cartas," disse Dorcas. "Sam não tinha testamento, era filho único, mas sua mãe tinha uma lista de coisas que gostaria de ficar – coisas de família, principalmente, e o resto será descartado. Eu não sei como Adele deseja fazer isso."
"Ninguém mais vem?"
Dorcas encolheu os ombros redondos. "Grace Potter vem? Eu achei que ela..." Ela pensou melhor na frase e parou, mas Sirius ergueu as sobrancelhas, indignado.
"Pelo que sei ela não foi convidada," disse ele secamente. "E ela teria feito qualquer coisa por Sam."
Isso devolveu o sorriso ao rosto marcado de Dorcas. "Um Black defendendo um Potter. Santo Merlin, parece os anos quarenta outra vez. Mas não precisa se ofender por Grace. Ela é uma excelente bruxa. Eu sei disso."
"Fico feliz em ouvir isso."
James e Caradoc chegaram a algum tipo de entendimento, pelo menos o suficiente para prosseguir com os negócios em questão. O primeiro se juntou ao seu amigo e a Dorcas na janela, cumprimentou a bruxa, e disse ao outro que ficariam por algumas horas, pelo menos, se Sirius não se importasse. Sirius não se importava, e eles voltaram a atenção para Caradoc, que tornara a falar.
"Agradeço a todos por terem vindo," disse ele, como se essas palavras pudessem extrair seus últimos sopros de vida. "Eu sei que significaria muito para o meu irmão tê-los aqui. Os elfos domésticos já arrumaram a maioria das coisas dele – roupas e tudo mais. São os itens pessoais que nos restam: tudo que está aí. Eu acho que peguei tudo que minha mãe quer guardar, mas caso queiram levar alguma coisa, eu ficaria muito grato." Ele verificou o relógio de ouro no pulso. "Galloway logo trará algo para comermos, e cuidaremos das cartas em mais ou menos uma hora, eu acho."
Eles começaram guardando as coisas em caixas utilizando as varinhas na maior parte do tempo. James caminhou até a parede com o pôster dos Hobgoblins e arrancou o ingresso do alfinete que o prendia lá. De acordo com o que nele estava impresso, o show acontecera em 1974 – e isso estava de acordo com a lembrança que James tinha de Sam lhe contando tudo sobre algo que havia acontecido lá... alguma história idiota sobre um bruxo que confundiu Sarah McKinnon com a namorada do amigo, e Sam quase duelou com ele... era realmente ridículo, exatamente o tipo de situação que sempre acontecia em torno de Sam, como uma festa de aniversário surpresa para sua mãe idosa e perpetuamente mal-humorada ou um protesto no Ministério da Magia.
James esvaziou o conteúdo de uma gaveta em uma caixa e considerou o fato de que Sam era uma pessoa muito melhor do que ele: isso foi motivado pela descoberta de uma fotografia de Sam com uma de suas tias idosas e enfadonhas... do tipo que James nunca teve paciência de visitar. Sam as visitava o tempo todo. Tomava chá, sentava lá por uma hora, conversava e provavelmente ficava realmente interessado no que o curandeiro havia dito sobre o joelho dolorido da tia. Sam conseguia se comunicar com qualquer um. E se ele comunicava. James supunha que o primo ultrapassara completamente a fase de auto-absorção adolescente, porque mesmo quando tinha dezesseis anos e James apenas doze, o mais velho parecia não se ressentir de passar tempo com o primo mais novo. Eles suportaram os casamentos que suas mães os forçavam a participar se escondendo e jogando cartas; Sam tentou levá-lo para pescar uma vez – um fracasso colossal – e, embora James não pudesse realmente confiar em sua memória sobre o assunto, parecia-lhe que tinham ido a um grande número de jogos de quadribol juntos. Mas havia um em particular de que se lembrava, porque fora no seu segundo ano ou talvez no terceiro – não, definitivamente no segundo ano, pois Abraham Dyer era artilheiro, e aquela era sua última temporada – e Sam passou metade do jogo aborrecendo James com perguntas sobre Hogwarts. Bem, não aborrecendo; James não atingira sua iminente auto-absorção adolescente, então ficou mais do que feliz em contar tudo sobre a escola. Mas James lembrava agora, porque foi a primeira vez que notou que Sam não estava mais lhe falando sobre a grande e misteriosa Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, mas o contrário; na época, James já havia passado mais tempo na escola e ultrapassado a experiência que Sam tivera.
James ajudou Clo e Simone com as roupas. Clo, embora inicialmente um pouco assustadora, com suas botas cravejadas e delineador pesado, acabou por se mostrar uma bruxa de boa índole. Ela se apaixonou por todos os agasalhos na cômoda e lutou com a caixa para ficar com vários deles. Simone riu dos dilemas de sua amiga e Oscar expressou confusão sobre cada decisão tomada.
Mas, por Merlin, Sam era um idiota. Ele realmente imaginou que Adele o deixaria escapar por ser uma lufano? Aquela mulher tinha a definição mais restrita de comportamento aceitável que James já testemunhara, e isso significava que seus filhos deveriam ser sonserinos ou corvinos – das casas respeitáveis: certamente nada tão frívolo quanto um lufano.
Se, é claro, essa foi a verdadeira razão da saída de Sam de Hogwarts. James acreditava parcialmente nisso. A mãe de James certa vez sugeriu que foi coisa de Lon – o pai de Sam, mas James sempre supôs que, se houvesse outra razão, alguém lhe contaria quando fosse mais velho.
Mas Sam gostava da história da Lufa-Lufa. Combinava com sua autonarrativa. Ele estava sempre dizendo essas coisas: como ele era o Dearborn mais baixo em seiscentos anos, ou como um elfo doméstico azarara suas unhas quando ele era criança, e agora elas nunca cresciam. Parecia ridículo, claro, mas se fosse acontecer com alguém...
Sirius e Dorcas trabalhavam lentamente; eles passaram meia hora jogando sapatos em uma caixa e discutindo outras coisas em voz baixa. James entrou na conversa por um tempo, enquanto olhava alguns cartões postais em branco de lugares que Sam nunca esteve. Dorcas contou a Sirius como soubera sobre o ataque – a xícara de café na mão, o gesto inocente de ligar o rádio, as horas passadas numa busca frenética por Emmeline, que ela achava que tinha comparecido à conferência com o marido... Por que Sam tinha aqueles cartões postais, afinal?
Ele não estivera em nenhum daqueles lugares e ninguém os enviara para ele; de qualquer maneira, não havia nada escrito neles. Para que os guardou? As fotografias inexpressivas de prédios, praias acinzentadas ou uma pitoresca ponte de pedra com um riacho...? Havia um bocado de cartões trouxas também... o que se passava na cabeça do sujeito, afinal?
Caradoc monitorou todos. Era uma vergonha que Adele não se desse ao trabalho de sair da cama. Ela deveria estar ali, deveria ter organizado tudo, em vez de deixar Caradoc juntar as coisas de última hora. No mínimo, ela deveria se certificar de que as pessoas soubessem disso. Mais do que apenas alguns amigos aleatórios e um primo deveriam estar lá. Sam sempre teve centenas de amigos; toda vez que James o encontrava, ele parecia estar correndo para encontrar um novo amigo ou apenas chegando de um compromisso com algum deles. Mas Adele sempre ignorou isso, e agora ela parecia estar ignorando a morte do filho.
Mas, não, James lamentou esse pensamento ressentido em particular: era injusto.
As cartas foram o principal evento daquela tarde. A tradição na família de James – e talvez em outras, ele não tinha certeza – era se reunir após uma morte inesperada como essa, toda a família e amigos, e examinar as cartas guardadas... não para lê-las, claro, e só se podia pegar ou examinar suas próprias correspondências. O restante era queimado.
Sam tinha guardado muitas cartas, armazenadas em um pequeno baú de madeira e amarradas em pilhas. Infelizmente, o sistema organizacional parou por aí. As cartas de seus companheiros de Boston de dois anos atrás estavam logo abaixo de um bilhete de um mês atrás de Sarah McKinnon; havia cartões de Natal amarrados com a correspondência de um farmacêutico que acabara de receber um pedido especial para ele; James encontrou duas de suas cartas junto a uma breve nota de uma biblioteca trouxa.
Lily tinha escrito para Sam. James sabia disso, e ele se perguntou vagamente se as dela estavam ali. Mas seriam queimadas com o restante. Não eram dele, e você não podia pegar nenhuma carta que não fosse sua. Era isso. A regra.
Ele tentou falar com ela, com Lily, em Kings Cross no dia anterior; eles não tinham se falado desde que ela lhe entregou a carta amassada na sala dos monitores, antes que tivessem certeza, e então alguns dias se passaram, e James pensou que gostaria de dizer algo a ela. Ele não sabia o que, mas a viu do outro lado da plataforma, rumou em sua direção, e pensou que ela o tinha visto (tinha quase certeza de que ela o avistara), mas talvez não tivesse visto, pois se virou quando ele se aproximou e saiu com Donna, e ele não a deteve, porque, afinal, nem sabia o que precisava dizer. Mesmo assim, desejou ter dito.
O grupo inteiro estava sentado no chão do quarto de Sam, cercado por envelopes – alguns com endereços de devolução, outros sem – todos procurando por suas caligrafias, papelaria ou qualquer coisa que parecesse familiar. James encontrou tudo que achava que poderia ser dele ao longo dos anos, mas já havia decidido que não queria guardá-las e colocou-as com as cartas não reclamadas. Ele também encontrou duas ou três de sua mãe – essas ele guardou para devolver a ela.
Sirius e Caradoc fizeram comentários ocasionais a James (Sirius estava sem nada para fazer, exceto observar os outros), mas, fora isso, só Simone e Clo conversavam constantemente durante todo o processo. Então, não demoraram muito nisso antes que o elfo doméstico, Galloway, retornasse. Ele ficou na porta até Caradoc notar sua presença, levantar-se e se aproximar do elfo. Eles falaram em voz baixa por um momento, então Caradoc voltou e disse a James: "Mamãe quer vê-lo, James. Galloway pode mostrar-lhe o caminho, se você não se importar muito. Vamos esperá-lo para queimar as coisas..."
"Não se preocupe com isso," James assegurou ao primo. Galloway o levou pelo corredor e o guiou até o terceiro andar, que consistia quase inteiramente nos aposentos de sua tia-avó. O elfo curvou-se ligeiramente para ele do lado de fora do quarto, e James foi deixado sozinho para abrir a porta e se anunciar.
O quarto de Adele Dearborn se harmonizava muito mais com o espírito do resto da casa do que o de Sam: paredes amarelo-pálido, cortinas de renda, um lustre de cristal e uma cama branca e fofa, na qual sua tia – de roupão cinza – estava deitada, apoiada em meia dúzia de travesseiros e parcialmente coberta pelo edredom grosso.
"James, querido, por que não entra e fecha a porta?"
"Querido" nunca foi atrelado a um nome com tão pouco calor. No entanto, James atendeu ao pedido de Adele, bem como ao segundo, de trazer a cadeira com as almofadas de veludo creme da mesa para o lado de sua cama, para que o rapaz pudesse ter uma "boa conversa" com ela. Ao se sentar, imaginou que sua tia o convidaria a beijar os anéis de diamante levemente ostensivos em seus dedos, mas ela não o fez.
Adele Dearborn era uma mulher pequena. Os cabelos amarelos estavam puxados para trás, longe de seu rosto, formando um pequeno coque logo acima do pescoço. Ela tinha olhos azuis redondos, um rosto miúdo, e – junto com as joias – a mulher parecia ter colocado pó no rosto e aplicado um punhado de tinta roxa escura nos lábios, de modo que o ar de quem estava indo para a cama perdeu alguma credibilidade para James.
Ela era feia, ele pensou. Nunca tinha notado isso antes, mas ela era. E ela tinha vergonha de Sam. Ela culpava a sobrinha e tinha vergonha de Sam.
Algumas jocosidades, se essa era a palavra para isso. (Elas eram bastante dolorosas para qualquer categorização que incluísse a palavra "jocosa.") Era muito bom James ter vindo. Como estavam indo as coisas? Se ele gostaria de chá? Caradoc não parecia bem? Quando deixou a casa naquela tarde, James não conseguia se lembrar de responder a nenhuma dessas perguntas, mas deve ter respondido, pois Adele continuava lhe perguntando coisas.
Ele recordaria claramente a parte mais substancial do encontro, que começou com a seguinte declaração inexpressiva: "Suponho que sua mãe tenha lhe informado da situação."
"Ela mencionou que a senhora não queria mais vê-la," disse James, entediado. Adele não se agradou de sua franqueza e precisou de um momento para se recompor. Eu sou uma inválida, afinal, ela poderia ter dito. Praticamente disse.
"Lamento que isso possa lhe causar algum desconforto, meu querido. Garanto-lhe que o caso me machuca muito mais."
"É uma pena."
Ela não o ouviu. "O que disse? Fale mais alto, meu querido."
"Eu disse que é uma pena," repetiu James mais alto, "que toda essa questão terrível lhe cause algum desconforto."
Era engraçado, na verdade, como quantas conversas de James com adultos se seguiam assim: ele era malicioso e eles fingiam não entender. Pensando nisso, ele realmente se safava de muita coisa. De qualquer forma, Adele continuou: "No entanto, eu queria falar com você hoje porque quero que saiba que não o responsabilizo pelo que seus pais fizeram."
"Meus pais? Eu pensei que apenas minha mãe jogara Sam para os leões."
Adele estremeceu, mas ela não sabia quão a sério devia levar James. "Minha sobrinha," a bruxa quase sussurrou, "decidiu rejeitar sua família há muitos anos. Mas só agora que meu filho morreu por causa disso."
A raiva aumentou, o calor subiu por seu rosto, o sangue latejou em seus ouvidos, todos os sintomas usuais se anunciaram. Em um corredor de Hogwarts, diante de Snape ou de alguém, ele teria sacado a varinha e azarado alguma coisa. Teria dado um soco na cara de Mulciber. Batido em Sirius. Gritado com alguém. Enraivecido, isso teria assumido o controle, e ele ficaria possesso.
Ele teria gritado para a tia que não era culpa de sua mãe. Que Grace era corajosa, Sam era corajoso e toda a M.P.P. era realmente muito, muito corajosa. Na verdade, era culpa de Adele, mais do que de Grace. Sam sentia prazer em irritar os pais – eles teriam vergonha dele de qualquer maneira, não é? Por que ela achava que ele se orgulhava tanto da M.P.P.?
James tinha nervos para dizer isso à mulher. Mas estava cansado… extremamente exausto.
"Sinto muito," foi sua resposta tensa. Adele confundiu o tremor em sua voz com remorso sincero – até mesmo culpa pelos supostos crimes de seus pais. Mas em sua óbvia apreciação do pedido de desculpas, ela desmentiu sua própria alegação de que não culpava James. Ela quase sorriu.
"Sua mãe..." com muita aversão, "tomou algumas... decisões duvidosas em relação à sua educação..."
Merlin, o carinho materno deve ter sido esmagador para Sam...
"...mas eu acredito firmemente, James, que você é um bom garoto. Certamente a família se preocupou com você no passado..."
Bem, legal ouvir isso.
"...mas agora você é um jovem forte... monitor-chefe, capitão de quadribol... você sempre preferiu os Potter, mas há algo dos Dearborn em você..."
É o queixo. Classicamente o Grande Tio Rogan.
"...e deve saber que tem... outra família, James. Se assim escolher, você... ficamos perfeitamente felizes em recebê-lo a qualquer instante, querido. Eu não quero que pense que as escolhas de seus pais impedirão que você seja membro desta família. Você é um Dearborn, e é um Potter, e desde que queira, haverá um lugar para você aqui."
"Então, por que ele ficou?" Sirius havia perguntado antes. Eles se aproximaram da frente da casa dos Dearborn, e James – antes que pudesse se conter – quase se engasgou com a confissão de que Sam sempre odiara esta casa, que sua família tinha vergonha dele, que ele sentia uma necessidade diabólica de fazê-los se envergonhar dele e que nunca o apreciaram pelo que ele era. O que era excelente. Ele era excelente. Talvez Sirius também não tenha conseguido se conter, pois perguntou: "Então, por que ele ficou?" Afinal, Sirius não tinha ficado... Ficou tão cansado do lugar que enlouqueceria se ficasse em Grimmauld Place por mais um minuto.
Para Adele, James, levantando-se da cadeira, disse: "Obrigado. É melhor eu voltar para os outros... não quero perder as cartas."
Mesmo quando o quarto ficou em foco o suficiente, e mesmo depois de reconhecê-lo como pertencente a Donna, Lily se esforçou para lembrar por que estava ali. Então, as lembranças voltaram, e ela rolou de costas.
De um modo geral, Lily descobriu que adormecer de jeans era um erro. O botão cobre apertava desconfortavelmente contra seu estômago e deixou manchas vermelhas na pele logo abaixo do umbigo. As calças provavelmente haviam perdido toda a forma, esticadas enquanto ela se enrolava em uma bola de lado, e agora que estava deitada de costas, com as pernas estendidas sobre a cama e o estômago para cima, o jeans parecia mais largo.
Vozes distantes e abafadas adentraram o quarto. Ela se levantou da cama e as seguiu até a cozinha.
Quando Lily emergiu, com os olhos turvos e cheios de sono, Donna estava colocando leite em uma xícara com sua varinha, Brice – profundamente focado em não derramar – segurava a xícara com as duas mãos, Bridget e Isaiah estavam sentados à mesa comendo biscoitos, e tia Dahlia se inclinava contra o balcão ao lado da pia, concentrando-se no jornal e girando uma pena entre os dedos – provavelmente trabalhando nas palavras cruzadas. O cômodo inteiro cheirava a biscoitos.
Donna terminou de colocar o leite e olhou para a amiga. "Como foi a soneca?"
"Boa, é... quanto tempo eu dormi, afinal?"
"Tempo suficiente para eu fazer biscoitos." Ela ofereceu um para Lily.
"Tempo suficiente para você se tornar o tipo de pessoa que faz biscoitos também, estou vendo."
Donna fez uma careta, mas se absteve de uma resposta mais característica devido à presença da família. Em vez disso, ela disse: "Não seja tola: sou brilhante em tudo." Então, ela acrescentou: "Kingsley acabou de chegar em casa, na verdade. Chegou um dia antes."
O auror em questão se revelou um momento depois, vindo de seu quarto. Ele cumprimentou Lily educadamente e perguntou sobre a viagem daquela manhã ao Beco Diagonal. Então, ele se sentou à mesa e roubou um dos biscoitos de Isaiah.
"Encontramos Alice Griffiths… hum, Longbottom, que seja," disse Donna ao irmão, enquanto tornava a guardar o leite. "Uma dos seus, Kingsley."
"Hummm, isso é uma maravilha," disse Kingsley distraidamente. "Os trainees geralmente não veem a luz do dia."
"Ela estava na hora do almoço."
"Ainda é uma maravilha. Nada mal, Donny." Ele indicou o biscoito que mastigava. Donna, que estava limpando o balcão, congelou.
"Você acabou de me chamar de 'Donny,' seu idi..." Ela parou e limpou a garganta, enquanto Kingsley ria. "Donny jamais pode ressurgir como apelido. Donny acaba agora."
"Eu gosto," disse o irmão mais velho.
"Você realmente está se transformando no papai, pelo amor de Agrippa."
"Combina com você, Donny."
"Não na frente das crianças, Kingsley." Donna retomou a limpeza. "Você sabe como é... Brice ouvirá uma vez e depois começará a falar, e os pais dos amigos dele se queixarão de que seus pequenos pivetes estão sendo expostos a esse tipo de linguagem, e eu terei que explicar que má influência é o irmão mais velho deles..."
"De qualquer forma," Bridget interrompeu, "sempre poderíamos começar com Kiki novamente."
Kingsley riu alto agora. "Merlin, esse é pior..."
"Kiki?" perguntou Tia Dahlia, erguendo os olhos das palavras cruzadas.
"Era como eu costumava chamar Kingsley quando eu era bebê," disse Isaiah. "Eu não conseguia dizer o nome dele... Kingsley virou Kiki."
"Donny ali achava graça, como tenho certeza que pode imaginar," declarou Kingsley
"Eu costumava apresentá-lo aos amigos dos meus pais como 'Kiki,'" lembrou Donna com carinho. "Lembra quando aquelas bruxas do trabalho da mamãe vieram..."
"Quando você disse àquela mulher que eu e ela tínhamos o mesmo nome? Ah, você era uma fedelha." Ele pulou da cadeira e pegou a chaleira. "Alguém quer chá?"
"Merlin, você ficou furioso. Você se achava tão incrível. Tinha acabado de ser nomeado monitor, eu acho..."
"E capitão de quadribol! – Quer um pouco, Dahlia? – Não se esqueça do capitão de quadribol!"
"Você não me deixa esquecer."
"Bem, essa história fica mais engraçada se você... Onde está a caneca azul? Não a azul escuro..."
"Brice está usando."
"Brice não pode usá-la!"
"Você é tão criança, Kings..."
"Não estou sendo criança... ele vai quebrar a caneca."
"Não vou não! Olha!"
"Ele está bem, Kings, apenas use uma dessas..."
"Como é que a história fica mais engraçada, Kingsley?" Bridget queria saber.
"Quê? Ah, sim." Kingsley já arrumara as canecas de chá no balcão e se virou para encarar a irmã. "Acontece que a tal bruxa trabalha no andar acima do meu agora..."
"Você está de brincadeira..." disse Donna.
"Ela se lembra também. Me chama de 'Kiki' todo santo dia!"
"Ela não..."
"Chama sim. Moody gritou como todo o escritório dela por enviar memorandos irrelevantes para o nosso andar, porque ela enviou um para mim com esse nome..."
"Isaiah, acho que Kiki pode ter sido sua melhor invenção até agora..."
"Eu era um bebê inteligente, não era?"
"Você já contou ao seu chefe que era para você?" perguntou tia Dahlia.
"Espere um minuto, eu vou tomar uma xícara também, Kings."
"Sim, sim... então, vou contar o que aconteceu. Moody terminou de gritar com a metade do andar... dia ruim, sabe..."
Kingsley continuou, e Lily – que se afastara para a parede mais afastada – tentou desaparecer no cenário. Os Shacklebolt tinham tão pouco tempo juntos, afinal...
Essa, de qualquer forma, foi a narrativa mais reconfortante que Lily estabeleceu para aquele momento, apesar de simplificar tudo.
Na verdade, ela não se sentia uma intrusa. Os Shacklebolt poderiam continuar perfeitamente bem com ela ali; eles até podem ter apreciado a plateia. O fácil ir e vir, a natureza confortável e familiar de tudo – e, ainda assim, eles conseguiam ter uma conversa referencial e nostálgica sem excluí-la. Era possível, refletiu Lily, que a sensação de saudosidade se originasse da noção de que ela não experimentara um relacionamento familiar como esse em, bem, anos, ou possivelmente nunca na vida (ela era tão jovem, afinal). Mais provavelmente, porém, a garota percebeu o quanto gostaria de ter ido para casa naquele fim de semana.
Para ficar com seus entes queridos, Dumbledore havia dito. Eles deveriam ir para casa para ficar com seus entes queridos. Porque quando coisas assim aconteciam, você deveria estar com sua família. Deveria estar em casa. Ela deveria ir até a mãe – pelo menos até a mãe – para ser abraçada pela pessoa que a amava mais do que qualquer outra coisa, que era mais familiar, que a conhecia melhor, que teria feito tudo ao seu alcance para amenizar a tristeza avassaladora que tudo isso causava. E doía ainda mais porque, quando Lily fechou os olhos, não conseguiu imaginar adequadamente o rosto de sua mãe.
A água de Kingsley havia fervido e ele começou a encher uma série de xícaras com a chaleira. "Quer uma, Lily?" perguntou ele, mas ela sorriu e recusou.
Marlene se assustou ao ouvir seu nome vindo da cozinha enquanto ela folheava o caixote de discos na sala de estar, e – em um apartamento tão pequeno – a jovem bruxa espantou-se por ter conseguido ignorar a presença da mãe, parada ali ao lado do balcão com um copo na mão.
"Para onde está indo tão depressa?" perguntou Vivian Price, enquanto Marlene se voltava para ela, passando os braços pela jaqueta.
"À casa de Adam," respondeu Marlene. "Eu não sabia que você já tinha chegado do trabalho..."
"Largo às três aos sábados. E o que está levando aí?"
"Quê? Ah." Marlene olhou para os discos que havia escolhido. "Apenas alguns dos clássicos. Você se importa?"
"Pode levar, querida, mas haverá problemas se eles não voltarem para casa em perfeitas condições."
"Eu prometo, mãe."
"Aham. Divirta-se com seus amigos."
Apesar da pouca probabilidade disso, Marlene garantiu à mãe que iria, e mais uma vez se virou para a porta, apenas para ser interrompida por seu nome sendo chamado outra vez. "Hum?" Vivian franzia a testa agora, e o copo verde em sua mão tremia um pouco, Marlene notou. "O que houve?"
Ela abriu a boca para responder, fechou-a abruptamente e depois largou o copo. A mulher pareceu escolher suas palavras cuidadosamente antes de começar de novo: "O que está acontecendo, Marlene? O que está fazendo aqui?"
"Eu te disse..."
"Marlene... eu não frequentei um colégio interno chique, muito menos para bruxas e bruxos, mas sei que é fora do comum – mesmo para Hogwarts – enviar vocês todos para casa no meio do semestre."
"Eles estavam consertando o encanamento, mãe... o Ministério da Magia disse que não era seguro..."
"Tente de novo, Marlene. Contei mais histórias à minha mãe do que você, então levará um tempo até me convencer. Aposto que foi suspensa ou algo parecido, mas eles teriam escrito para mim, tenho certeza, e com todos os seus amigos por aqui também, não vejo como isso tenha acontecido. " Vivian cruzou os braços e Marlene considerou suas opções. Isso era raro, um confronto, mas sabia que se ela se mantivesse firme o suficiente – e o suficiente não levaria mais que dois minutos – sua mãe cederia e decidiria que preferia acreditar na mentira do que começar uma briga. Entre mãe e filha havia o entendimento de que se Marlene mentisse para Vivian, ela tinha um bom motivo. Afinal, a garota geralmente não precisava mentir: poucas expectativas eram colocadas sobre ela e poucas limitações. Consequentemente, ela se surpreendeu ao responder à mãe com a verdade.
"Há uma guerra," respondeu ela. "No nosso... no mundo mágico, há uma guerra, muitas pessoas morreram na semana passada, e há um memorial no domingo de manhã, e o Professor Dumbledore mandou todos nós para casa para ficarmos com nossas famílias antes disso."
Vivian a encarou. "Uma guerra?" perguntou ela, antes de se tornar cética. "Como poderia haver uma guerra que ninguém percebeu?"
"Bem..." Marlene guardou os discos em sua bolsa e avançou mais em direção à cozinha, eventualmente sentando-se no balcão, apesar de ainda estar tentando encontrar uma maneira de explicar. "Não é que não tenha notado, você simplesmente não sabe o que é. Semana passada, nos jornais, houve algo sobre um cano explodindo em Rutland, né? Um prédio antigo quase foi demolido... algo assim..."
"Não sei." Vivian não lia muito os jornais. "Posso ter visto algo sobre isso."
"Bem, o prédio não estava vazio, e não foi uma explosão. Foi um ataque e... e muitas pessoas morreram." Com relutância, mas ela tinha pouco a perder neste momento: "Incluindo a irmã de Adam."
"Um ataque?" repetiu Vivian, em pânico. "A guerra está aqui? Mas quem está nos atacando?
"É... não é assim, mãe. Não é com... sabe, países e bombas e essas coisas... é mais como uma... uma rebelião, ou... algo assim, eu não sei. Veja, há esse homem, esse bruxo, e ele tem alguns... seguidores, e eles estão tentando... assumir o controle."
Os olhos azuis de Vivian estavam arregalados. "Assumir o controle do que?"
"Bem..." Marlene franziu a testa. "Do país."
"Da parte mágica, você quer dizer?"
"Bem..."
"Quer dizer," continuou ela depressa, "ele não pode demitir o primeiro-ministro, pelo amor de Deus, pode? Ele não pode simplesmente derrubar a rainha! Não quando ninguém sequer ouviu falar dele… qual é o nome dele?"
Marlene suspirou. "Você está certa," ela mentiu. "E... e nunca ouviu falar dele, isso é verdade, então... é... é apenas o mundo mágico que está... lutando." (De que adiantaria dizer a verdade?) "Tudo terminará em breve, tenho certeza."
"Então, você não acha que esse... bruxo vai ganhar?"
"Ah, não." Marlene conseguiu sorrir, e talvez fosse uma mentirosa melhor do que sua mãe imaginava, porque Vivian pareceu acreditar nela quando acrescentou: "Eles vão pegá-lo qualquer dia." Então, novamente, a mentira tornou-se mais palatável. "Mas é como todo o resto, mãe, por favor, lembre-se disso. Não pode falar sobre isso. Com ninguém. Nem mesmo com os Macdonald, entendeu?"
Vivian desistiu de discutir, mas Marlene se inclinou sobre o balcão da cozinha e beijou a mãe na bochecha antes de seguir para a porta, acrescentando – embora nenhuma pergunta tivesse sido feita – que voltaria mais tarde, mas que não sabia quando exatamente.
"Marlene, querida..." Marlene esperou, a mão na maçaneta da porta. "Você está segura, não está? Ninguém vai tentar machucá-la, não é?"
"Perfeitamente segura, mãe. Te amo."
"Também te amo."
Depois disso, Marlene correu para o corredor. Ela não gostava de aparatar na frente da mãe, e não era exatamente aconselhável fazer magia no apartamento. A vantagem de morar em uma área densamente povoada era que "magia praticada por menor" era difícil de ser atribuída a qualquer bruxa ou bruxo menor de idade, mas não havia muito sentido em correr o risco adicional. De qualquer forma, saindo de casa para aparatar ela poderia visitar Mary no caminho.
Seguindo as instruções da Sra. Macdonald, Marlene encontrou sua amiga na loja dos Macdonald. O pai dela estava trabalhando atrás do balcão, e Mary estava ao seu lado, enrolando uma mecha do cabelo escuro ao redor de um lápis e sem parecer particularmente útil.
"As maçãs serão remarcadas esta semana," disse Mary quando Marlene subiu ao balcão e se inclinou sobre ele.
Marlene ignorou isso e respondeu: "Podemos conversar?"
"Claro." Mary saiu de baixo do balcão e a levou para a frente da loja, além do alcance do ouvido do Sr. Macdonald. "Algum problema, Mar?"
"Eu contei à minha mãe," respondeu Marlene. "Sobre a guerra e tudo mais. Eu disse a ela para não contar à sua mãe e ao seu pai, mas achei que você deveria ser avisada de qualquer maneira."
Mary fez uma careta. "Eu gostaria que não tivesse contado. Viv não consegue guardar um segredo nem para salvar a própria vida."
"Ah, não sei não… não tenho visto nenhuma manchete com 'Mulher de Newham Revela Um Universo Inteiro de Bruxas e Bruxos Vivendo Secretamente na Inglaterra' ultimamente. E ela teve seis anos para entregar isso."
"'Não significa que não vá conversar com mamãe e papai sobre o nosso potencial perigo," disse Mary. Ela ficou cada vez mais irritada. "Você podia ao menos ter me avisado antes."
"Ela me perguntou e eu disse a verdade, só isso. Eu não queria mentir."
"Por que não? Funcionou muito bem nos últimos seis anos, não é?"
"Bem, ela vai acabar descobrindo eventualmente. Todos eles vão, Mary."
"Talvez não." Mary cruzou os braços sobre a estampa floral brilhante de sua blusa. "Pode acabar mais cedo do que pensamos, e teremos preocupado eles sem uma boa razão."
"Bem, eles são pais," disse Marlene, sombria. "Não vai matá-los se preocupar um pouco."
"Fácil para você dizer isso. Nunca deu motivos a ela para se preocupar."
"Você não é tão ruim, Mary."
"Eu não estava falando de mim."
Marlene se acalmou. Ela estendeu a mão e passou um braço em volta dos ombros da amiga, puxando-a. Mary suspirou e relaxou. "Sinto muito, Mare. Eu sei que... mas seus pais não são tão frágeis quanto você pensa que são. Na verdade, eles já provaram isso até agora."
"Eu sei." Mary deu um aperto rápido em Marlene pela cintura antes de recuar. "Você não deveria estar na casa dos McKinnon?"
"Hum, estou indo agora. Atrasada, na verdade. É melhor eu ir... mas te vejo amanhã. Podemos ir juntas ao memorial."
"Eu não sei," disse Mary. Ela começou a enrolar o cabelo novamente, desta vez em torno do dedo. O esmalte vermelho brilhante na unha se misturou à mecha castanha. "Eu estava pensando em não ir."
"Mary..."
"Bem, para onde digo aos meus pais que estou indo durante horas em uma manhã de domingo, afinal?"
"Eu não sei... pra igreja?"
"Pelo amor de Agrippa, Price, preciso de algo que seja ao menos possível. De preferência provável."
"Bem, ache alguma coisa. Por favor, você tem que vir comigo."
Mary suspirou novamente, mas sua resistência era fraca. Ela assentiu e concordou, e Marlene deu-lhe outro abraço rápido antes de voltar para os fundos da loja. Ela acenou para o Sr. Macdonald e entrou no banheiro – era apenas para funcionários, mas eles nunca se importavam com Marlene – sem se incomodar em trancar a porta, pois aparataria antes que ela se fechasse.
A uma curta caminhada familiar da cidade de Ford, a casa dos McKinnon ficava escondida entre árvores, arbustos e estradas que levavam a outros lugares. Parecia séculos desde a última vez que Marlene deixara a estrada lamacenta e marrom e seguira pelo caminho de lajotas cinza até a varanda da frente – até a porta verde-floresta em seu arco de pedra, a janela em meia-lua de vidro âmbar acima lançando uma luz estranha sobre o tapete de boas-vindas e sugerindo que a casa poderia ter entrado no século XX – ou até nos anos setenta.
Marlene limpou as botas no tapete, mas estava procrastinando, na verdade, pois não sabia como enfrentar os McKinnon agora. Se já não tivesse ficado na varanda por um minuto inteiro, e se o constrangimento de fugir e ser pega não fosse um impedimento tão forte, a loira poderia não ter tido coragem de bater à porta. Mas então ela o fez, e estava tudo bem, porque Audrey abriu a porta.
"Estou atrasada, desculpa..."
"Não, chegou na hora, obrigada," disse Audrey, puxando Marlene rapidamente para dentro. Ela fechou a porta com magia e depois guiou a outra pela entrada – que se estreitava devido à escada que ficava junto à parede à direita – na direção da sala de jantar. Quando entraram, Audrey pisou em algo vermelho e plástico: Marlene não podia ver o que era, mas fez um estalo alto sob seu sapato. Ela mordeu o lábio, aparentemente para conter um xingamento e gritou: "Donald McKinnon, pela última vez, recolha seus brinquedos! Desculpe..." acrescentou Audrey para Marlene, que dispensou graciosamente. Donald saiu correndo de um dos quartos, o rosto meio escondido atrás de uma juba de cabelos loiros escuros, e juntou os restos do brinquedo em questão, parando por um momento só para sorrir para Marlene antes de tornar a desaparecer em outro quarto.
A casa inteira parecia mais silenciosa do que o habitual, e também parecia mais calma; por um lado, Adam não corria pelos corredores, jogando uma goles nas paredes, Felicity não estava lhe mandando parar, e a Sra. McKinnon não se movia pelos quartos, ditando apressadamente algo importante para um pergaminho e uma pena que a seguiam. Apenas Frances McKinnon apareceu, sentada na escada com um livro aberto no colo e, depois que ela disse "olá" para Marlene, retomou a leitura imediatamente. O Sr. e Sra. McKinnon não estavam à vista. Audrey não explicou.
"Adam nos agraciou com sua presença no café da manhã," disse ela, subindo as escadas na frente, embora Marlene conhecesse muito bem o caminho. "Por cerca de quinze segundos e depois se foi novamente quando Felicity e mamãe iniciaram uma conversa."
"Audrey, não sei o que você acha que eu posso fazer," começou Marlene. "Ele está chateado..."
"Eu não espero que faça nada, querida," disse Audrey com ternura. "Apenas descubra se ele vai ao memorial amanhã... e, bem, se ele não for, acho que quero que você faça uma coisa."
"Convença-o a ir."
"Isso mesmo. Escute, não quero uma cena amanhã de manhã quando estivermos indo. Esse é o tipo de coisa que se faz em família... se ele não for..." Elas chegaram ao segundo andar, e a porta do quarto de Adam estava a poucos passos. "Devo te anunciar?"
Marlene sorriu. "Melhor não."
"Certo. E obrigada."
"Claro." Audrey desceu a escada e Marlene desejou ter ao menos a ajuda da procrastinação de um capacho dessa vez. A loira suspirou profundamente, dirigiu-se à porta do amigo e bateu. Ele não respondeu. "Adam?"
Ela ouviu a confusão em sua voz quando ele respondeu com a voz abafada pela porta: "Quem é?"
Inexplicavelmente, o som de sua voz veio como um alívio, e Marlene sorriu. "Feche as calças, McKinnon, eu vou entrar."
Ainda assim, ela ficou aliviada quando seu aviso se mostrou desnecessário, porque Adam, embora reclinado em sua cama, segurava um livro que estava apoiado em seu estômago.
"Oi," disse ela, entrando no quarto e largando a bolsa no chão.
"O que está fazendo aqui?" Ele se sentou e colocou o livro de lado, mas não conseguiu esboçar nenhuma emoção perceptível.
"Eu vim visitar Donald. Ele sente minha falta."
Adam revirou os olhos. "Certo."
O quarto do rapaz continuava igual. Sentindo-se confortável com o ambiente, ela caminhou até a mesa e sentou-se na cadeira, passando o braço pelas costas dela para encarar o amigo na cama. Os cartazes eram os mesmos, as caixas de discos cobriam todo o perímetro do cômodo até o teto, seu velho cachecol gasto da Grifinória grudado na parede acima da mesa com um alfinete vermelho... quase nenhuma das paredes brancas ficava visível em meio a todas as... coisas, ela não sabia como mais chamar a variedade de coisas que as adornavam. E, então, enquanto pensava sobre isso, a familiaridade do quarto perdeu o conforto e tornou-se algo triste, como um brinquedo velho e perdido que a garota encontrara, mas não conseguia localizar o sentimento outrora associado a ele.
"Audrey me pediu para vir te ver, sabe," disse Marlene, tirando os olhos das paredes e voltando-se para o rapaz. "Achei que deveria saber. Na verdade, sou uma espiã."
Isso pareceu surpreender Adam, e Marlene ficou feliz por ao menos ter dissipado a indiferença anterior. "Com o que estão preocupados?" perguntou ele. "Eu não fiz nada."
"Você não andou se trancando e saindo para caminhadas misteriosas o tempo todo?"
"Bem, se colocar dessa maneira." Ele cruzou os braços sobre o peito e Marlene pôde vê-lo se afastando dela. "Eu deveria estar alegre agora, é? E você deveria me animar? É isso?"
"Não, não é isso."
"Então, o que é?"
"Eu só… eu só imaginei que poderia querer companhia."
"Bem, não quero." Ele olhou sombriamente para sua colcha xadrez azul com verde. Marlene assentiu.
"Está bem, então." Mas ela não se mexeu, e não achou que ele esperava que ela o fizesse. "Sinto muito, muito, Adam," acrescentou ela um minuto depois. Adam fechou os olhos e inalou profundamente. Quando os abriu novamente, olhou para Marlene.
"Então..." começou ele bruscamente, "o que trouxe pra mim?"
Marlene sorria enquanto saltava da cadeira para pegar sua bolsa. Ela foi até o toca-discos na cômoda ao lado da porta e retirou da bolsa os três discos, que colocou ao lado do toca-discos, enquanto removia o vinil que estava nele e o devolvia à sua caixa. "Então, primeiramente, é um dos da minha mãe," disse ela enquanto trabalhava. "E é tão bom que nem o fato de serem da minha mãe pode arruiná-los."
"Por que isso os arruinaria?"
"Sempre que ela estava triste por conta de um cara, enchia a cara e os tocava tão alto que todo o apartamento tremia." Marlene deu de ombros.
A música encheu o cômodo e Marlene voltou-se para Adam, que a observava. "Não é nem uma música triste," apontou ele após alguns acordes. Marlene sentou-se sobre os pés na ponta da cama, e balançou a cabeça.
"Bem, precisa ouvir."
Eles ouviram por um tempo, sem dizer nada, até Adam perguntar: "Audrey escreveu para você, então? Para que viesse aqui?"
Marlene explicou sobre encontrá-la no bar. "E agora ela está preocupada que você não vá ao memorial amanhã, então quer que eu te convença a ir."
"Eu irei se eles quiserem," disse Adam. "Mas não vejo sentido nisso. Não significará nada para ninguém lá, para mim ou para Sarah."
"E para sua família?"
"Não achei que se importariam, mas acho que sim já que Audrey mencionou."
"É claro que se importam," disse Marlene. "Pensou que sua mãe não se importaria que você fosse?"
"Por que se importaria? Eu não me importo." Então, sua expressão mudou; apareceram linhas em sua testa, o rosto contorcido de preocupação. "Isso é errado? Por que eu não sinto que... devo isso a ela, ou algo assim? Eu não sei, eu..." Seu tom ganhou urgência. "Eu sinto que ela está viva na maior parte do tempo. Sei que não está. Eu me forço a lembrar que ela se foi. Mas não vi seu corpo... é como se ela tivesse acabado de sair da sala. Estou tentando me convencer de que ela realmente não vai voltar, mas fiz isso tantas vezes que... até isso não dói mais, e não significa nada." Marlene foi virar o disco e Adam concluiu: "Isso não te faz querer... ir morar em outro lugar? Ter uma casa e viver como trouxa ou algo assim?"
"Não," disse Marlene. "Eu entendo... foi o que Mary disse, mas não, não para mim. Talvez porque eu moro com uma trouxa, sabe? É só que..." ela encolheu os ombros, "me faz querer matar Comensais." O pensamento soou muito mais horrível quando verbalizado, mas Adam aceitou bem. Na verdade, ele pareceu achar graça quando ela se virou e o encarou novamente, o lado "b" do disco tocando.
"É por isso que somos amigos, Price."
"O fato de isso não ter te assustado é o motivo de sermos amigos, na verdade." Ela se sentou na cama novamente, desta vez ao lado de Adam na cabeceira. A garota ajeitou um dos travesseiros para que a protegesse contra a cabeceira da cama.
"Está falando sério?" perguntou ele. "Sobre os Comensais da Morte?"
"Eu não sei. Acho que sim."
Adam imitou sua posição com o outro travesseiro. As meias dele terminaram a vários centímetros de distância da ponta das botas dela. "Como é que as coisas voltarão ao normal de novo?"
"É... eu não sei."
"Você acha que voltarão?"
"A maior parte, sim."
"Como?"
Marlene deu de ombros.
"Como é que sabe, então?"
"Ah. Eu não sei. Não é uma história muito boa para hoje."
"Você não quer falar?"
"Não." Adam aceitou e Marlene ficou agradecida. Ela deu um tapinha na mão dele, que estava entre seus corpos, gentilmente. "Você ainda não precisa pensar nas coisas voltarem ao normal. E até que voltem..."
"Eu sei."
"Bom."
"Obrigado."
"Sim. E, sabe..."
Mas Audrey McKinnon os interrompeu, batendo na porta e abrindo-a sem esperar resposta. Marlene pensou que só despertaria mais suspeitas ao sair de sua posição, mas, de qualquer forma, Audrey não parecia terrivelmente chocada. "Você ficará para o jantar, não é, Marlene?" indagou ela, provavelmente assumindo (e estava certa) que Adam seria compelido a socializar com a família enquanto a convidada estivesse lá.
"Sim, Aud, valeu, tchau," disse Adam. Marlene fez uma careta para ele.
"Eu não quero incomodar sua família..."
"Não é incômodo algum," disse Audrey.
"Mas, sério, eu..."
Audrey fechou a porta parcialmente, mas a abriu de novo e enfiou a cabeça. "Você come carne, Marlene?"
"Eu... como bastante."
"Certo."
"Assassina," acusou Adam quando sua irmã se foi. Marlene o chutou. Então, ela pulou da cama. "Onde você vai?"
"Ajudar com o jantar."
Adam gemeu. "Não precisa fazer isso."
"Mas eu vou. Vamos."
Os protestos dele foram ignorados, e, arrastando os pés, Adam a seguiu para fora do quarto, descendo a escada até a cozinha. Audrey estava lá sozinha, vasculhando um dos armários e, equilibrando-se na ponta dos pés como estava, ela quase tombou quando viu o irmão.
"Nós vamos ajudar," disse Marlene.
"Ah, não é necessário..."
"Está vendo, Price?"
"Então, nos dê as tarefas chatas, e eu farei Adam fazê-las."
Eles ficaram com as batatas. Marlene lavou e descascou meia dúzia delas, depois Adam, usando a varinha, cortou-as em círculos finos e uniformes. Então, Adam não gostou do arranjo das fatias feito por Marlene na travessa de porcelana branca, e a forma que as colocou em longas fileiras ficou, de fato, esteticamente mais agradável, embora Marlene sustentasse que não importava a posição que ficassem. Audrey não a convenceu de que não arrumara terrivelmente, embora não tenha impedido o irmão de consertá-las.
Enquanto Audrey assumiu a maior parte do trabalho com o assado, Marlene cortava o alho ("Não zombe, McKinnon: a maior parte da preparação de alimentos que fazemos na família Price é pagar ao cara que o entrega..."), e Adam refogou as cebolas e mexeu o molho de queijo no fogão, gerenciando com alegria as duas tarefas ao mesmo tempo.
Eles estavam assim ocupados quando Felicity – a irmã mais velha de Adam – entrou na cozinha. Ela era uma bruxa alta e esbelta, com cabelos ruivos claros e a mesma mistura de olhos azuis, verdes e castanhos que seu irmão mais novo. O anel de ouro em seu dedo anelar esquerdo era uma adição que Marlene ainda não tinha visto, mas nos verões anteriores, quando a loira costumava ser uma visita mais frequente dos McKinnon, ela interagiu com Felicity, mas nunca no mesmo grau que o fez com Audrey, Sarah ou com os mais novos. Como uma McKinnon, Felicity costumava ser bem-humorada, mas, como a mais velha, ainda tendia a assumir a autoridade que exercera no passado.
Hoje, ela certamente parecia pior para a ocasião, entrando no cômodo com o ar da Professora McGonagall se aproximando de estudantes barulhentos no corredor.
"Aud, se precisava de ajuda, podia ter me pedido," disse ela calmamente. "Espero que não precisemos fazer os convidados trabalharem para ter o jantar à mesa."
Audrey corou, mas Adam falou depressa: "Marlene se ofereceu, na verdade," disse ele, e Felicity se assustou visivelmente.
"Marlene? Eu não..." Ela também corou, e Marlene percebeu o que tinha acontecido. Felicity não a reconheceu.
"Ah, sim, meu cabelo se foi," disse a loira, abandonando o alho. "Crise existencial. Apenas meio que cortei." Adam levantou uma sobrancelha curiosa e Marlene concluiu levemente: "Foi muito dramático."
Uma pausa curta e desconfortável, e então Audrey perguntou sobre o esposo de Felicity. "Ele foi passear com mamãe e as crianças," respondeu a irmã mais velha.
"Papai não foi?" perguntou Audrey.
"Não, ele teve que passar no escritório."
"Em pleno sábado?"
Felicity encolheu os ombros. "Deixe-me ajudar, então. Mamãe vai querer jantar quando voltarem."
"Você pode ajeitar a salada," disse Audrey. "Ou fatiar o pão. E é melhor a gente se apressar com essas batatas, Adam."
"A gente?"
"Sem biquinho, maninho."
Marlene não encontrou como consertar a disposição da mesa e acabara de terminar quando a Sra. McKinnon, o marido de Felicity, Prateek, e os três McKinnon mais jovens retornaram da caminhada. A Sra. McKinnon parecia exausta, mas bem. Seus cabelos castanhos grisalhos estavam presos em uma trança longa e brilhante, e ela usava vestes pretas de luto. Ao adentrar a sala de jantar, a bruxa não teve forças para se surpreender com Marlene arrumando a mesa, mas conseguiu dar um sorriso fraco e perguntar como estava a convidada.
O jantar ficou pronto logo depois e, quando o Sr. McKinnon – com aparência mais cansada do que a esposa – chegou, eles se sentaram para comer.
"Qual é esse?"
"Os Kinks, claro."
"Não gosto deles."
"Eu não gosto de você."
Adam revirou os olhos novamente e Marlene tornou a se sentar à mesa, eram quase nove horas. O jantar se passara... razoavelmente bem, e então Marlene conseguiu manter Adam perto da família por bastante tempo, limpando a cozinha com Felicity e Prateek, fazendo café para o Sr. e a Sra. McKinnon e sugerindo que acompanhassem Donald e Frances ao mercado para comprar sorvete. Na realidade, Adam oferecera pouquíssima resistência – nada além de um superficial "precisamos fazer isso?", e, então, quando tudo foi dito e feito e eles poderiam ter se retirado para o quarto para ouvir os discos novamente, ele se juntou voluntariamente aos irmãos na sala de estar para conversar sobre... bem, qualquer coisa, menos Sarah.
Foi quando Marlene planejou fugir, mas Adam lançou-lhe um olhar suplicante, e ela cedeu e se juntou aos pequenos McKinnon. A garota permaneceu alerta ao longo da uma hora que passou ali, buscando indicação de que estava se intrometendo ou que deveria partir, mas, por mais autoconsciente que fosse, não viu sinal algum e ficou até Frances ir para a cama, quando Adam disse: "Tudo bem, então, vamos ouvir o restante daqueles discos."
O que os levou de volta ao quarto, Marlene à mesa, Adam na cama e os Kinks no toca-discos.
"Você precisa tirar a cabeça dos anos sessenta, Price," disse ele depois de uma música ou duas.
"Nunca. Enfim..." Ela descansou o queixo sobre as mãos, "isso é 1970. Ou 71?"
Adam largou a cabeça em um travesseiro e fechou os olhos; Marlene tentou se concentrar na música, e eles ficaram em silêncio por um tempo. "Eu tenho que decidir," disse Adam eventualmente.
"O que quer dizer?"
"O que fazer a seguir. Como seguir em frente... voltar para Hogwarts, trabalhar o entusiasmo para me preocupar com as tarefas de poções. Partidas de quadribol. N.I.E.M.s. Eu ainda nem fiquei triste direito e não quero ficar, mas se não ficar, não sei como devo prosseguir. Mas se eu estiver, também não sei como devo continuar e fazer o restante. Não sei como fazer nada agora... não falei com minha mãe ou meu pai sobre isso direito, não fui ao apartamento dela, não consegui fazer nada, exceto sentar aqui, ou sair para andar sozinho, porque... bem, eu não sei por que, simplesmente não posso." Marlene se levantou para desligar a música, mas Adam a interrompeu: "Não, não vá." Ele abriu os olhos quando a ouviu se levantar, pois a olhou quando ela se virou para encará-lo. "Pode... pode se sentar por um minuto?" Marlene assentiu. A loira se sentou na beirada da cama e Adam fechou os olhos novamente, massageando a ponte do nariz. "Agora... me diga que tudo vai ficar bem, o.k.?"
Cada centímetro dela doía e, assim, foi um tremendo esforço encontrar as palavras e começar: "Sarah te amava muito e você a amava. Isso nunca, nunca, desaparecerá, eu prometo, nem mesmo quando você... quando você descobrir como quer voltar ao normal de novo, de maneira alguma. Então... não, me escute. Tudo vai ficar bem." A voz dela ficou tensa. "Tudo bem?"
Adam engoliu em seco. "Tudo bem."
Ele está morto. Ele é alguém que você mal conhece. Ele é uma assinatura no final de uma página. Ele é muitas histórias. Ele é uma pessoa e você nem o conhece.
Não ajudou em nada repetir essas frases para si como um mantra. Até piorou as coisas, porque destruiu a pequena esperança de que Lily pudesse, de alguma forma, formular frases sobre seus sentimentos e, assim, controlá-los.
Ela também queria se livrar deles desesperadamente. Esse fato já era ruim o suficiente – a fazia sentir-se fraca e cruel, mas a ruiva estava deitada no escuro na cama montada no quarto de Donna, e não havia nada que pudesse fazer sobre esses sentimentos. Eles não trariam Sam de volta; não devolveriam Tilly Figg ou Sarah McKinnon, ou uma perspectiva brilhante ao mundo, e ela não podia descansar a cabeça no ombro da mãe e se sentir bem, então queria que a dor desaparecesse.
Mas algo estava faltando, e Lily não conseguia descobrir o que poderia ser. Ele se foi. Ele se foi. Ele se foi. Todos eles se foram. Todos eles se foram. Estão todos mortos.
Ela pensou nisso repetidamente, queimou as imagens das próprias palavras em seu cérebro, em alguma tentativa bizarra de se fazer chorar e exorcizar o sentimento. Também era culpa. Sam não era dela. Outros – James, Adam e tantos outros – haviam perdido muito mais do que ela. Os oitenta e sete bruxas e bruxos haviam perdido a vida, pelo amor de Merlin. Assim, a jovem se sentia culpada por seu próprio sentimento patético de perda.
Ela só queria ir para casa. Só queria se enrolar no sofá; queria que sua mãe beijasse sua cabeça e lhe dissesse que tudo ficaria bem. Ela queria calor, amor e inquestionável conforto. Enquanto saía da cama, a ruiva supôs que aqueles eram pensamentos muito egoístas. O fato de ela conseguir cogitar esses pensamentos agora a envergonhava – e Donna, adormecida do outro lado do quarto, jamais poderia sentir aquele calor, amor e inquestionável conforto. Mas a ruiva não pôde evitar. Simplesmente não podia.
Lily trocou de roupa, deixando o pijama em uma pequena pilha na cama e trocando-o por uma calça marrom, uma blusa verde e um par de botas. Vestiu o casaco, as luvas e o chapéu, e tirou a carteira da bagagem, guardando-a no bolso da frente do casaco, onde estavam alguns recibos das compras de Natal do ano anterior.
Ela escreveu um bilhete e deixou em sua cama, para o caso de Donna acordar durante sua ausência (eram quase onze horas – os Shacklebolt tinham ido para a cama cedo, antecipando a cerimônia de amanhã). Então, o mais silenciosamente possível, ela saiu. O ar do outono ardeu em seu rosto – tocou o espaço atrás de suas orelhas e a deixou tonta. Ela caminhou rapidamente pela estrada, apertando o casaco ao redor do corpo e, quando estava a uma curta distância da casa, em um espaço escuro após os postes da rua, Lily fechou os olhos e aparatou. Quando os abriu novamente, uma nova rua se estendeu diante dela.
Mas não tinha ido para casa. Estava em Camden.
O pequeno beco escuro em que aparecera não estava vazio, mas as duas mulheres bêbadas que tropeçavam assumiram que a companhia inesperada as surpreendera devido à sua falta de atenção, ao invés do fato de ela ter se materializado no ar. Lily passou rapidamente por elas, indo em direção à rua principal.
Ela não sabia por que escolheu aquele lugar. Podia entender por que escolheu a Londres trouxa... por que, hoje à noite, escolheu se cercar de pessoas que não sabiam. Também sabia que não podia ir para casa, e precisava ir a algum lugar. Mas por que escolheu aquele local em particular... Lily nem questionou isso até praticamente alcançar seu destino, e então estava subindo os degraus para o bar.
The Lantern mudou pouco nos últimos meses – a placa na frente parecia diferente, mas sem causar incômodo. Ela não tinha certeza, mas parecia a mesma música surreal e psicodélica flutuando sob o zumbido geral do que parecia ser o mesmo grupo de clientes trouxas. Será que permaneceram ali o tempo todo, felizmente alheios ao mundo desmoronando ao redor, escondidos em uma parte da cidade não visitada?
Ela se sentou no bar desta vez, ao invés da mesa que ocupara com James durante o verão.
Enquanto esperava o barman atender um grupo de garotas do outro lado do balcão, Lily inventou um daqueles cenários impossíveis que se inventa quando secretamente espera que isso ocorra. Se James Potter aparecesse, atraído para lá por lembranças de outra época, ele afundaria na cadeira ao seu lado e, sem olhar para ela, faria um barulho que a pegaria completamente de surpresa. Ele perguntaria o que ela estava fazendo ali, mexendo um pouco nos óculos, e ela xingaria pela pura surpresa de vê-lo.
Eles não flertariam, é claro. Estariam infelizes. Conversariam sobre como estavam deprimidos e se atualizariam de suas respectivas situações de vida. Ela perguntaria por sua mãe. Ele responderia. Ela praticamente podia vê-lo em sua camisa azul escura e casaco preto (as roupas trouxas pareciam improváveis, mas, novamente, o cenário era inventado por ela, não era? Podia vesti-lo como quisesse). Eles conversariam sobre Sam.
"Não sei o que dizer," diria ela.
"Também estou um pouco perdido," responderia ele.
Não era totalmente impossível, na medida em que acontecia com cenários impossíveis que se inventa quando secretamente espera que ocorram. Afinal, eles tinham ido juntos ao The Lantern, e isso explicava muito bem por que pensara nele. (Não importava que tivesse estado ali com Dursley e Petunia também e que não produziu nenhuma fantasia ociosa sobre encontrá-los). Eles estiveram ali pouco antes da Semana das Exigências, antes das primeiras mortes no M.P.P. Fazia sentido. Ele poderia estar aqui, não poderia?
Seu eu mais racional lembrou que James estava em casa com sua família e amigos e, com toda a probabilidade, permaneceria lá, considerando o que acabara de acontecer. De qualquer forma, não sabia se queria vê-lo agora. Foi até ali para escapar do mundo mágico, não foi? Mas desejou ter falado com ele apenas uma vez enquanto ainda estavam em Hogwarts. Desejou não ter se escondido na biblioteca e gritado com Colista Black, mas ter encarado James e apenas... apenas o encarado, porque era o mais próximo que ela conseguiria encarar Sam e exaltar esse sentimento. Desejou ter dito que sentia muito.
O barman subitamente ficou livre, e Lily acenou para ele antes de tirar o chapéu e as luvas e colocá-los no balcão. Nesse ponto, ela percebeu que não estava muito a fim de beber e pediu uma coca. O cara do bar fez uma piada sobre isso, e a ruiva – para sua própria surpresa – respondeu... até sorriu ao fazê-lo, pois as conversas dos clientes, a música que ela quase reconhecia, a rádio que transmitia os resultados das partidas de futebol, e o menu distintamente não mágico operavam o efeito que entrar no mundo trouxa sempre lhe trazia. Uma pequena parte dela começava a acreditar que havia sonhado com a magia: que sua existência se resumia àquilo, e o resto era apenas um truque que ela usava. Um cenário impossível que se inventa quando secretamente se espera que isso aconteça. No The Lantern, sua dor era balela; ela era uma garota muito comum de dezessete anos de idade. Estaria estudando para os exames de inglês, matemática, história e coisas comuns (reais) como essas... considerando uma educação universitária e reclamando sobre... o que quer que os trouxas estivessem reclamando hoje em dia.
Ela sairia para tomar um drinque em uma noite de sábado, talvez com os amigos, o namorado ou algo assim, e riria da piada do barman sobre sua escolha de bebida.
A ruiva podia se ver lá, naquela vida. Coisas terríveis também aconteciam no mundo trouxa – havia guerras, mortes e tragédias. Como ela sabia – como sabia, com total certeza – que a Lily daquela outra vida não se sentaria em uma taberna em Camden com o coração partido por pessoas que mal conhecia? Qual era a diferença?
"Está sozinha?"
Ele não era feio, o cara que lhe fez essa pergunta, enquanto ela tomava alguns goles de coca. Ele tinha meia década a mais que ela, mas não era feio.
Suas bochechas estavam vermelhas por causa da bebida, e ele não parecia estar exatamente dando em cima dela quando fez a pergunta. Ele tinha uma pequena dobra amigável na testa e se inclinou sobre o balcão, inclinando-se apenas um pouco em sua direção, de modo que seu interesse pudesse realmente estar na bebida que acabara de pedir – algo chamado Batty Betty. O único ingrediente que Lily registrou foi uísque.
Lily estava, claro, sozinha, mas a Lily da outra vida não teria estado. A Lily que pertencia àquele lugar teria chegado com os hipotéticos amigos e o hipotético namorado, a quem espontaneamente chamou de Nicholas.
"Receio que não," disse ela, sem ser rude, mas em um tom que não deixava margem para qualquer convite. "Meu namorado saiu para fumar um cigarro."
Nicholas fumava – um mau hábito. Lily esperava que ele parasse.
"Ele não sabe que essas coisas são perigosas?" perguntou o homem, ainda esperando pela bebida. Ele tinha sotaque londrino. Nicholas era galês.
"Isso acalma os nervos dele. Nick é muito nervoso." Pelo que Nick deveria estar nervoso, afinal?
"O câncer também não deve ser gentil com os nervos."
Friamente, porque ela realmente não se importava mais: "Meu pai morreu disso." Ela tornou a beber. O cara – ela nunca soube seu nome – pegou a deixa; quando pegou seu Batty Betty, voltou para os amigos, e Lily pediu uma cerveja.
Nicholas ia ser médico. Nicholas era um pouco obcecado com pentear o cabelo. Ele gostava de jogos de cartas, mas era muito competitivo. Ele era doce. Era politicamente consciente. Tinha um péssimo gosto musical e um excelente gosto para filmes. Ele era alto, tinha olhos azuis e era sensível. Muito sensível. Estava muito longe do herói romântico que a garota pensara ser adequado para ela. Ele não era Luke. Não era Robbie Castle. Não era o Sr. Darcy. Ele certamente não era James Potter.
Nick era simples, amoroso, e Nick não a fazia sofrer assim. Ele está morto, ele está morto, estão todos mortos, ele está morto.
Nick não era possível.
Seus amigos imaginários provavelmente também eram uma porcaria.
"Está bebendo sozinha?" perguntou James Potter, inclinando-se sobre o balcão.
A verdade era que fugira dele na Plataforma Nove e Meia, mas se arrependeu imediatamente, e talvez estivesse tentando consertar as coisas indo até ali, ao The Lantern. Talvez estivesse à procura dele.
O que era muito legal, mas não explicava por que, em nome de Merlin, ele realmente apareceu.
"Caramba, Potter!"
James calmamente apossou-se do assento ao lado do dela. Ela quase tombou.
"Lily Evans, o que sua mãe diria se a visse aqui?"
"Diria para não falar com homens estranhos, eu espero," respondeu ela, ainda sem acreditar.
Absolutamente ridícula. Toda essa situação era absolutamente ridícula.
"Mas eu não sou um estranho," James a lembrou. De um modo desapegado, Lily reconheceu que sua voz, embora vagamente provocadora, carecia de humor, diversão ou alegria. Não era nenhuma surpresa, mas mesmo assim...
"Não significa que não seja estranho," disse ela.
"Você se acha espertinha." James pediu vodca com tônica.
"Pelo amor de Agrippa, Potter, o que está fazendo aqui, afinal?" perguntou Lily, se recuperando mais.
James virou-se para encará-la totalmente, um cotovelo apoiado no mesmo local do balcão onde o outro cara colocou o dele minutos antes. James estava mais pálido do que o habitual, seus cabelos pareciam um pouco mais desgrenhados, e círculos escuros se formavam sob seus olhos, embora seus óculos os ocultassem parcialmente. Enfim, eles tornaram os traços sombrios da insônia um pouco mais sutis.
"Você quer que eu vá embora?"
"Eu não quis dizer isso," defendeu-se Lily. "Você me assustou, só isso."
Ela tentou se lembrar das coisas inteligentes que dissera naquele Cenário Impossível, mas teve a sensação de que ele não seguiria o script. "Como você está?" perguntou ela baixinho, tomando um pequeno gole de sua bebida.
"Fantástico." (Com muito sarcástico).
"Você está... você está sozinho?" Ela olhou em volta, esperando que Sirius, Remus ou Peter aparecessem do nada.
"Sim." Ele também olhou à volta: "Você está?"
Lily assentiu. "Eu meio que fugi da casa de Donna. Não consegui dormir."
"Eu também. Sirius queria vir, mas eu não estava a fim de conversar. Ou de encher a cara, aliás. E acabaria acontecendo uma dessas coisas."
"Então, por que veio aqui?"
Ele se virou e inclinou-se com os cotovelos na beira do bar, encolhendo os ombros. "Uma garota me recomendou."
"Bom, ela tem bom gosto," disse Lily, e então ela também se mexeu para se sentar de perfil para ele. "Você vai amanhã?"
"Para… o negócio? Aham. E você?"
"Sim, com os Shacklebolt."
"Isso é... bom. Como eles estão?"
"Ah, estão bem, eu acho. Eu..."
"Quê?"
"Nada, eu acho."
"Não... o que houve?"
"Eu... me sinto um pouco por fora lá." Lily encolheu os ombros. "Eles são todos da família, e a tia de Donna está na cidade, e eu só... não sei se me encaixo lá. Ah, eles são muito gentis e tudo mais, não é desconfortável, é apenas..." Ela encolheu os ombros. Não era como deveria ser.
"Você poderia ir para sua casa, não é?"
"Eu teria que mentir para minha mãe. Ela não sabe sobre... sabe... Comensais da morte e tudo mais."
"Você poderia contar."
"Acho que não há sentido nisso."
Depois disso, Lily e James tomaram suas bebidas em silêncio. A falta de conversa causou um certo desconforto, mas persistiu em grande parte porque sentiram quão pouco havia a ser dito. Afinal, os dois acabaram ficando sozinhos entre os trouxas. Isso fez Lily se lembrar de algo assim que esvaziou o copo.
"Sinto muito," gaguejou ela de repente; "Você saiu para ficar sozinho, e eu estou... aqui. Me desculpe..."
"Você estava aqui primeiro..." apontou James, confuso.
"Sim, mas não quero mais beber nada, e..." Ela já havia largado o copo e começado a recolocar as luvas; enfiou o chapéu no bolso e deslizou para fora do banco do bar, "...está ficando tarde; eu... eu não quero que Donna se preocupe."
"Sim, mas..." (Ela não o interrompeu como ele esperava) "...quer dizer, é claro, se você quiser partir..."
"Sim, é melhor. Eu provavelmente... te vejo amanhã?"
"Aham."
"O.k." Ela tocou-lhe o ombro de uma maneira abstrata e tranquilizadora, e acrescentou: "Boa noite."
A mão enluvada que fez contato com ele deslizou pelo braço enquanto o rapaz murmurava sua resposta, e depois desapareceu no bolso dela junto ao chapéu. Por cima do ombro, ele a observou caminhar até a porta e, quando ela se foi, ele esvaziou o copo.
Ela se foi novamente. Desapareceu, fugiu, o que fosse. Ela estava sempre fazendo isso agora. Há... há décadas, ao que parecia, eles não ficavam juntos no mesmo ambiente e conversavam diretamente. Ela estava sempre escapando, pouco antes que ele pudesse descobrir o que deveriam dizer um ao outro.
Ele não deveria se importar, é claro, porque foi até ali para ficar sozinho, mas isso inexplicavelmente perdera a graça.
Ou talvez tivesse ido procurar por Lily, como sempre fazia, porque não ficara surpreso ao vê-la. Bem, não muito. Quando avistou o cabelo ruivo no bar, sabia que devia ser ela, e pensou bem, é claro, e seu estômago meio que revirou, mas não porque estava surpreso – mas porque sempre revirava. E ele falou com ela como sempre o fazia, ela terminou a bebida e foi embora, como ela sempre fazia, e tudo foi muito típico para uma cena tão estranha.
Talvez tivesse sido melhor conversar e curtir sua amargura com Sirius. Apesar do que Lily tinha dito, ainda não era muito tarde, não era nem onze e meia, e eles ainda podiam ficar conversando por horas antes que tivesse que fingir que ia dormir. Se isso acontecesse, provavelmente poderia desmaiar com o uísque, embora, com a sorte que tinha, provavelmente só ficaria enjoado e depois deitaria na cama enquanto o quarto girava.
"James?"
Lily voltara. Ela caminhou até ele. Aquilo não era nada típico.
Ele se virou enquanto ela se aproximava. "Olá..."
Ela estava tão pálida – chocantemente branca, naquela noite, exceto por um pequeno rubor em suas bochechas, provavelmente causado pelo frio lá fora. Estando tão pálida, o vermelho em suas bochechas e cabelos, o verde de seus olhos, os cílios pretos e o rosa de seus lábios – que estavam comprimidos e franzidos – pareciam surrealmente brilhantes, contrastados de maneira artificial. Ela não olhava para ele, mas para o copo vazio sobre o balcão, quando disse: "Quer dar uma volta?"
Ele nem precisou pensar nisso. "Sim."
Na rua, o ar parecia mais frio do que James se lembrava de sua breve jornada até o The Lantern; ele desejou ter trazido luvas, como Lily. Os dois deram alguns passos em silêncio, mas lhe pareceu bobagem evitar o assunto que naturalmente os ocupava.
"Sam é a verdadeira razão de eu ter vindo aqui," disse ele, assustando-a pela segunda vez naquela noite. "Era um dos únicos bons lugares em que jamais tinha ido com ele. Eu não podia ir ao Caldeirão Furado... estaria cheio de gente... falando sobre isso, sabe? E, de qualquer forma, me lembraria o casamento de Frank e Alice. Foi a última... quer dizer, voltamos para Hogwarts poucos dias depois... "A expressão de Lily ficou ilegível. "Fui à casa dele hoje. Eu e Sirius fomos. Para ajudar a embalar seus pertences."
"Como foi lá?"
James encolheu os ombros. Ele relatou alguns detalhes insignificantes, mas deixou de fora o confronto com Adele. "Mas é um daqueles lugares," prosseguiu ele, com dificuldade, "ao qual não se pode voltar sem sentir que tem dez anos de novo."
"Você passou muito tempo lá na infância?"
"Sim. Quando Sam deixou Hogwarts e eu ainda não tinha ingressado na escola, eu passava quase todo o meu tempo lá. Por um tempo, pelo menos. Mas, então, quando comecei a escola, paramos de nos encontrar lá. Eu não sei, sempre me senti tão... enjaulado ali. Você se acostuma a ficar sozinho quando está na escola, sabe? É difícil simplesmente voltar a ter parentes lhe dizendo o que fazer."
"Bem, há professores que te dizem o que fazer em Hogwarts," apontou Lily, mas é claro que James sorriu e respondeu:
"Sim, mas eu não dou ouvidos a eles."
"Naturalmente."
Para James parecia que Lily esperava por algo dele. Ela esperou pacientemente, caminhou em silêncio, não o pressionou por detalhes, apenas caminhou ao seu lado até que ele soubesse o que queria dizer. "Quando eu era criança," começou ele, sem entender por que, dentre tantas coisas, isso veio à sua mente, "eu era... pequeno. Baixo e... esquelético, sabe? Quer dizer, você provavelmente se lembra..." (Ele esboçou um sorriso hesitante, que Lily imitou) "...não que eu tenha tido qualquer problema com isso, veja bem, mas... quer dizer, outras crianças que... não me conheciam pensavam que eu era... uma espécie de... de..."
"Banana?"
James bufou. "É, isso mesmo. E eu era, muito provavelmente... eu era miúdo, e a maioria dos meus amigos eram mulheres idosas... exceto por Sam, quero dizer. Quando eu tinha... oito ou nove anos, ele deixou Hogwarts, e ele sentia falta da escola, era visível, e eu costumava perguntar a ele sobre isso... só que de formas diferentes. Ele me contou sobre a Lufa-Lufa e os amigos que fez lá, então perguntei em que casa ele pensava que eu ficaria." James sorriu novamente. "Ele me lançou um olhar, como se eu não pudesse ser mais burro, e disse – um tanto orgulhoso – 'Grifinória, idiota.' Essa era a resposta que eu esperava, é claro... meu pai era da Grifinória e ele costumava contar histórias... mas eu não acreditei nisso, porque, como eu disse, eu tinha cerca de um metro de altura, não pesava quase nada e, na minha opinião, os grifinórios eram grandes, altos... leões... ou, sabe: meu pai; então eu perguntei a ele... a Sam... por que..." James deixou a história em suspenso por alguns segundos.
"O que ele disse?" Lily finalmente perguntou quando eles passaram sob um poste de luz.
"Bem, Sam era muito dramático," disse James. "Ele recitou um pouco da música. A parte sobre a Grifinória..." O rapaz parou de falar novamente, mas Lily já sabia o restante.
"Onde habitam os corações indômitos," murmurou ela, e James encontrou seu olhar novamente: não os olhares agitados que ele lançou em sua direção ao longo da história, mas de forma direta. Lily sorriu e deu de ombros. "Acho que foi a primeira coisa que você me disse."
Ele não sabia o que dizer com isso e, por um tempo, nenhum deles tinha recursos emocionais para entender o que a declaração dela poderia significar. Mas James continuou a observá-la de perto por alguns segundos. "Ele gostava de você," disse o bruxo por fim. "Ele realmente gostava, sabe."
Lily assentiu. "Eu sei. Não sei direito o porquê, mas..." Ela suspirou. "Suponho que você não saiba?"
Ele balançou sua cabeça.
"Como está sua mãe?" perguntou Lily depois de um tempo.
"Indo," respondeu James, quase casualmente, pois trabalhou para manter seu tom impassível. "Mal falamos sobre isso, para ser honesto. Ela está entrando e saindo de casa, organizando as coisas para esta... cerimônia amanhã. Mas minha tia não quer vê-la..." (diante da expressão confusa de Lily, ele elaborou) "...É a mãe de Sam. Ela culpa minha mãe por Sam se juntar à M.P.P. Mamãe sempre foi a grande rebelde da família, sabe..." Ele falou mais e mais depressa: "Então, na opinião da minha tia, minha mãe é culpada por Sam estar naquele lugar. Assim, minha mãe está preocupada com isso – não consegue ficar quieta – e passa a maior parte do dia visitando parentes de outros membros da M.P.P... tentando montar proteções, caso precisem, ou caso aceitem... vendo se precisam de alguma coisa, sei lá. De qualquer forma, isso a manteve ocupada desde que tudo aconteceu, e acho que é um alívio."
"O que quer dizer?"
"Isso a mantém ocupada... a distrai. De se sentir culpada por todos eles. Como se pudesse compensar ou algo assim..." Ele olhou para Lily e viu que sua expressão havia mudado consideravelmente; ela estava olhando para ele, consternada, e antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, ela sussurrou, como se tropeçasse em uma realização assustadora:
"Você a culpa..."
Ele pretendia se defender, mas, por algum motivo, as palavras faltaram a princípio e, quando conseguiu falar, a resposta veio com menos força do que ele pretendia. "Eu não. Ela... ela se culpa! Eu não," acrescentou ele com mais confiança. "Sam... Sam era adulto. Ele era membro porque acreditava nisso. Todos eles. É isso. Não por causa da mamãe ou de qualquer outra pessoa."
Lily assentiu devagar. Ela não acreditou nele.
Com os olhos na calçada, a bruxa puxou a manga de James, deixando-o confuso, até que ele percebeu que ela o estava guiando até o meio-fio. Eles andaram até um lugar mais calmo da estrada, onde havia pouco perigo de um carro parar e esmagar os pés de alguém, e Lily, apertando o casaco em torno do corpo, sentou-se na calçada. James a seguiu.
Do bolso – o que não continha o chapéu – ela tirou algo... algo que mostrou-se ser uma carteira de cigarros. Benson e Hedges, dizia o rótulo. A ruiva ofereceu um a James, e ele arqueou uma sobrancelha.
"Eu pensei que desaprovasse."
"Profundamente." Ela não deu mais detalhes, mas tirou as luvas novamente. A garota pegou um cigarro e, depois de acender um fósforo, entregou o maço a ele. James lutou um pouco com os fósforos, estando um pouco fora de prática com os dispositivos trouxas, e ela acabou acendendo para ele. Então, a garota olhou para o carro estacionado do outro lado da rua e o observou em silêncio.
A estrada estava escura, pois a maioria das lojas desse lado estavam fechadas. Apenas algumas luzes dos postes de rua e os feixes ocasionais dos faróis de um carro interrompiam a escuridão. Então, quando James exalou, as correntes de fumaça branca, inchadas no ar frio, cobriram a paisagem.
Metade do cigarro dele havia se transformado em cinzas a seus pés antes que os dois falassem. "Eu sinto muito," disse Lily com a voz rouca.
James bateu na ponta do cigarro. "A culpa não é sua," disse ele, indiferente. Quando ela ficou quieta, ele olhou para ela: "Bom, não é."
Lily fumou o cigarro em um silêncio infeliz. Ela não se atreveu a olhar para ele. Sentia o que sentiu na sala dos monitores, segurando a carta amassada de Sam entre os dedos. Mas quando James falou novamente, teve que encará-lo, pois sua voz falhou: "Eu ainda não consigo acreditar. Não posso acreditar que isso seja verdade."
"Sim."
"Como isso pôde... Como isso pôde acontecer?" Ele parecia querer algo dela, e outrora Lily poderia ter algo encorajador para dizer... que isso aconteceu com eles porque eram corajosos e porque lutavam por algo. Mas a verdade – que eles morreram e não foi em batalha, mas sem nenhuma chance de defesa – permanecia. Eles foram vítimas, não soldados.
"Eu não sei," disse ela. Afinal, não podia lhe dizer que havia se enganado todos aqueles meses atrás, quando acreditara com tanto fervor que havia propósito em tudo. Coisas assim... não havia propósito nisso. Abandonar aquele ideal era... era muito, muito mais fácil do que ela já havia previsto. Nem tinha notado até agora, e, ainda assim, toda aquela esperança parecia uma lembrança distante. Mas não estava com medo. "É... é injusto."
"Não faz sentido."
"Não." Então… "Me desculpe, eu não... na escola, me desculpe, eu não estava lá."
James bateu levemente no cigarro. Um carro deu partida em algum lugar na estrada. Vozes do bar e de outros edifícios flutuaram no ar frio e lembraram-na de Nicholas e um mundo que não existia.
"Você está certa," disse James. Os olhos dele brilhavam. "Sobre a minha mãe."
"Eu não quis dizer isso," falou Lily rapidamente. "Não deveria ter dito isso. Não sei o que deu em mim." Ela estivera pensando em sua própria mãe.
"Não, você está certa. Eu... eu a culpo. Isso é foda, não é? Tia Adele a culpa... a família toda a culpa. Acho que o Ministério pode até suspeitar que ela esteja... envolvida ou algo assim, não sei..."
"Mas..."
"Eu não entendo mais do que isso. Eu não consigo... ficar no mesmo cômodo que ela, é tão ruim assim. Ela tentou me contar sobre o que acont... sobre o que viu, e eu não consegui ouvir. Não é culpa dela. Não é. Eu sei disso, mas é... não consigo me convencer, sabe? Assim que eu soube, eu não consegui nem olhar para Sirius. Só porque ele tem parentesco com..." Suas mãos tremiam. Ele largou o cigarro e pisou nele. "Eu sei que não é culpa deles... é dos Comensais da Morte. É... de Voldemort e dos Comensais da Morte, mas não ajuda em nada odiar eles. Entende?" Mais uma vez, ele olhou para ela, como se quisesse uma resposta.
A mandíbula de Lily estava firme; seus olhos continuavam fixos no carro escuro do outro lado da estrada. Ele está morto, ele está morto, estão todos mortos. A mão com o cigarro tremeu quase imperceptivelmente.
Na plataforma Nove e Meia, no dia anterior, James tentou falar com ela – ela sabia disso. Ele estava vindo em sua direção, e ela se virou... praticamente fugiu dele, pelo amor de Merlin, só porque não queria falhar. Não podia consertar nada, não tinha forças para se sentir esperançosa ou soar esperançosa, e não tinha como consolá-lo – como lhe dizer como sentia muito, então fugiu.
Agora, ela ainda não tinha nada de bom para dizer. Então, em vez disso, tentou, com todas as suas forças, compartilhar com ele o pensamento que a mantinha sã: "Essa... essa coisa... a guerra, ou do que quiser chamar..." (Nada em sua voz gélida indicava que estivesse chorando, mas James descobriu que ela estava) "...é sobre mim." Ela encontrou o resto da frase ali. Encontrou a parte que estava faltando quando formou as palavras em sua mente no escuro do quarto de Donna. "É sobre nascidos trouxas. Sam... Sarah, todos eles, morreram por algo que não tinha nada a ver com eles. Por nós... pelos nascidos trouxas, mestiços, trouxas e por mim. Eu não... eu não posso dizer que os Comensais da Morte não vão matar mais ninguém por nossa causa, mas eu... vou fazer algo a respeito. Não vou ficar assistindo as pessoas morrerem sem... sem fazer nada... tenho que lutar. Não sei como, mas preciso, e vou."
Ela largou o restante do cigarro na calçada e pisou com a ponta da bota. Então, ergueu os olhos para James. Ele olhou para o papel murcho no chão. No começo, ela não tinha ideia se tinha ajudado ou não, mas então ele olhou para ela e meio que sorriu.
"Se importa se eu me juntar a você?"
Lily imitou sua expressão. Ela estendeu a mão e segurou uma das mãos dele, entrelaçando os dedos nos dele e segurando-a com muita força. Era engraçado como estar tão inexprimivelmente triste e zangado funcionava como intoxicação... você podia fazer ou dizer qualquer coisa, sem pensar em como as coisas poderiam parecer no dia seguinte. Por enquanto, Lily queria segurar a mão de James, e isso não parecia nada estranho. "Estou contando com isso," disse ela bruscamente.
Estava muito frio, mas, por algum tempo, eles não saíram da beira da calçada. A mão nua de James tremia, mas estava estranhamente quente.
"Ei," disse ele eventualmente. Lily olhou com curiosidade para ele, e o rapaz ergueu uma sobrancelha. "Você confia em mim?"
"Nem um pouco."
"Bom, tudo bem." Com a mão livre, ele afastou os cabelos que caíam na lateral do rosto dela e os colocou atrás da orelha. Ele se inclinou para frente, hesitante, e, por um momento, Lily pensou... mas, então, ele beijou seu rosto. Ela mal registrou o beijo e acabara de começar a reconhecer a rajada do ar noturno quando ele se afastou, e, então, ele se levantou e a ajudou a se levantar. "Venha, então."
"Pra onde...?"
Ele ainda segurava sua mão. Eles iam aparatar... ela imaginou um instante antes que isso acontecesse e, embora nunca fechasse os olhos conscientemente, quando tudo acabou, ela se viu os abrindo, piscando à luz laranja de um poste. Eles estavam diante de uma casa, e nem mesmo o fato de terem aparecido de forma brusca e irresponsável ao ar livre poderia causar a emoção que cresceu dentro de Lily quando compreendeu onde ele os havia levado. Ele a levou para casa.
Todas as janelas da casa dos Evans estavam escuras – é claro que a Sra. Evans já estaria na cama, dormindo sozinha lá em cima –, mas a luz da varanda acendeu, iluminando a passagem até a porta da frente.
Eles não podiam entrar, é claro. Até onde a mãe dela sabia, Lily deveria estar em segurança em um castelo, não bebendo em bares de Londres, dormindo em uma cama extra na casa de uma amiga, ou indo a memoriais porque havia uma guerra. Não deveria haver uma guerra, pelo que a Sra. Evans sabia. Não era remotamente suficiente ficar ali na varanda, e doía muito, muito, encontrar-se tão perto, sem poder se aproximar. Mas doeu muito menos.
Lily quis perguntar a James como ele sabia que, naquele momento, mais do que tudo, ela queria estar ali. Se ela tivesse perguntado, ele teria dito que o palpite exigia pouca imaginação, e que alguns dias antes ele sentira exatamente a mesma coisa em relação à sua própria casa. Mas Lily jamais chegou a perguntar. Em vez disso, encostou a cabeça no ombro de James e observou a casa.
Mais tarde, ela tentaria identificar o momento exato em que aconteceu, e nunca teve muita sorte com isso – talvez tenha sido meses antes, quando ele apareceu na varanda da frente com aquele chapéu estúpido, ou na plataforma naquele miserável 1º de setembro, ou talvez tenha sido há muito tempo, de alguma forma irreconhecível e constantemente mutável, mas sempre que pensava no assunto nos meses e anos vindouros, sabia com absoluta certeza que não ultrapassara aquele momento. Possivelmente, Lily não se apaixonou por James Potter naquela noite, mas, ela concluiria mais tarde, não houve momento depois daquele em que tenha deixado de amá-lo.
"'Gostaria que você pudesse entrar," disse James, arrependido.
Muito abalada para responder adequadamente, Lily só conseguiu dizer: "M-muito irresponsável aparatar em campo aberto assim." James ainda olhava para a casa, mas os cantos de seus lábios se contraíram, e a ruiva supôs que ele entendeu o que ela quis dizer. Ela teria que ficar na ponta dos pés para beijar seu rosto, então, relutante como estava em se mover no frio, ela pressionou os lábios em seu ombro e depois se virou novamente para a casa.
Em breve, haveria tempo para travar guerras. Por enquanto, era o que tinham.
Meia hora depois, Lily se enrolou sob os cobertores da cama no quarto de Donna e fechou os olhos. O silêncio e a escuridão do quarto a tornaram consciente de cada centímetro de seu corpo – ela pensou poder sentir seu próprio batimento cardíaco. Ele está morto, ele está morto, ele está morto, ele está morto, todos eles estão mortos, todos eles estão mortos e... (essa era a parte que ela sabia instintivamente, mesmo que James negasse, como ela sabia que ele faria) - era culpa dela.
Havia uma luz na cozinha quando James voltou para casa naquela noite. O brilho suave da fenda debaixo da porta o guiou pelo corredor escuro, e, como parecia mais provável que Sirius tivesse ido fazer um lanche, James decidiu se juntar ao amigo. No entanto, era sua mãe, não Sirius, sentada à mesa da cozinha quando ele entrou.
Grace Potter recostou-se na cadeira com uma taça de cristal cheia de vinho tinto sobre a mesa à sua frente. Quando olhou para cima, seu rosto foi banhado pela luz. Com os cabelos presos em um coque, as linhas profundas ao redor dos olhos e na testa pareciam mais pronunciadas. Seus olhos pareciam menores, de alguma forma, inchados e vermelhos como estavam, eram a única cor em seu rosto envelhecido e cansado.
James sentou-se na cadeira vazia diante dela.
"Estou com dor de cabeça," disse a Sra. Potter, fechando os olhos enquanto falava. Quando os abriu novamente, ela assumiu um tom sério e perguntou ao filho se ele havia falado com o pai sobre os planos para o dia seguinte. "Eu tenho que sair pela manhã para me encontrar com Arabella novamente... a filha de Tilly, sabe... resolver umas coisas," continuou ela, quando James disse que não conhecia. "Eu vou encontrar você e seu pai no memorial. Sirius vai?"
"Claro. Por que não iria?"
"Eu imagino que parte da família dele estará lá," insistiu a Sra. Potter serenamente. "Pode ser estranho."
Isso irritou James. "Por que os Black estariam lá?" resmungou ele.
"Porque seria ruim estar ausente, é claro. Eles têm orgulho de suas... suas opiniões, mas não são estúpidos. Ao menos um deles aparecerá." Ela tomou um gole de vinho.
"Suas opiniões," repetiu James amargamente. "Isso é ótimo." A Sra. Potter não disse nada, e James se perguntou se deveria deixá-la a sós.
Mas não era isso, não é? Lily percebeu imediatamente, então sua mãe deve ter percebido também, e ele desejou que pudesse parar de sentir isso, mas por mais que rejeitasse o pensamento, uma pequena parte desprezível dele acreditava...
Você a culpa.
"Como você está?" perguntou ele.
"Viva," ela respondeu secamente. James não conseguia se lembrar de um momento, em toda a sua vida, em que ela soou assim... certamente jamais em um diálogo com ele.
"Não é sua culpa," disse ele.
A Sra. Potter abriu a boca para responder, mas depois notou as roupas do filho. "Por onde esteve?" questionou.
"Fui dar uma volta."
"Quando? Agora?"
"Sim."
"Sozinho?" O tom dela subiu perigosamente. "Onde?"
"Mãe, é..."
"Aonde você foi?"
"Londres, pelo amor de Merlin..."
"O que te possuiria para fazer algo estúpido assim?"
"Eu não..."
"É perigoso, James! Você não percebe... você não percebeu até agora que há uma guerra? Você não pode simplesmente... simplesmente sair perambulando à noite assim! Algo poderia ter acontecido..."
"Mãe, foi..."
"Não é seguro, James! Foi muito, muito tolo!" Suas bochechas ficaram vermelhas de raiva. "Eu simplesmente não acredito que você poderia fazer algo tão... tão irresponsável! Tão estúpido! Agora, de todos os momentos! Por Merlin, você não tem ideia do que está acontecendo por aí? O que aconteceu em Peverell Hall não foi tudo! Quase toda semana acontece algo, e o Ministério não pode defender ninguém disso... E você... você não sabe o que o filho de pessoas como eu e seu pai...?"
"Eu não sou mais criança," retrucou James. "Tenho dezessete anos. Sou um adulto..."
"Sam era mais velho que isso!" gritou a Sra. Potter. "Victor Vance tinha trinta e seis anos e está morto. Eu o vi, James. Vi todos eles." Sua voz falhou e ela continuou. "Sentados lá, em suas cadeiras... todos alinhados, como... como bonecos. Eles não lutaram... não puderam. Isso é o que ninguém está dizendo. Você acha que eles foram apenas dominados? Alguns dos melhores bruxos e bruxas que conheço estavam naquele lugar! Eles teriam lutado se pudessem, e eu soube disso no instante em que entrei no salão... não puderam lutar porque estavam paralizados..."
Ele não queria perguntar, mas precisava saber. Era algo de que ninguém estava falando: "Como?"
"Dementadores," respondeu ela. "É o que eu acho. O Ministério não vai admitir. Nem os aurores... nenhuma evidência. Mas... mas eles estavam sentados lá, e eu soube... soube imediatamente..."
"Mãe..."
Mas isso, afinal, era o que ela não havia lhe dito. Isso constituía a barreira entre eles: ela tinha visto, conseguiu expressar para ele... queria protegê-lo, talvez, do horror impronunciável do que testemunhou e do que sabia, mas James não podia ser protegido, e por isso ela insistiu, sobrepondo-se a ele: "...O salão estava muito frio. Qualquer um que... que sabe poderia ter sentido. Moody sabe disso. Alex sabe disso. Em seus últimos momentos... eles estavam... estavam petrificados. Todos eles estavam lá... todas as pessoas que deveriam estar lá estavam sentadas naquele lugar... exceto eu."
"Não é sua culpa, mãe..."
"Claro que é. Eu recrutei metade daquelas pessoas. Elas estão mortas por minha causa..."
"Era a causa deles também!"
"Naturalmente, depois que eu os convenci," disse a Sra. Potter amargamente. "Eles não tiveram chance, não de verdade. Confiavam completamente em nós. E nós sabíamos... depois de julho..."
"Você não pode se culpar, mãe," James insistiu. Ele não conseguia compreender sua própria certeza ou de onde retirou as palavras que se seguiram, mas falou com honestidade: "Não pode fazer isso. Não é justo com eles... eles acreditavam em algo que não... não é apenas seu."
"Eles não precisavam morrer por isso."
"Mas morreram, está bem? E se isso ocorresse daqui a um ano, eu provavelmente estaria lá também, então é... é por acaso eu estar aqui tanto quanto você."
"Não diga..."
"Eu não vou desistir e me esconder por causa do que aconteceu com a M.P.P., mãe. Sam ia querer que lutássemos, não é? Todos eles iam... não apenas pela questão do bem maior, mas porque se morressem, eles iam querer que garantíssemos que tenham sido os últimos que morreram por isso."
Mas talvez toda a resistência tenha sido drenada da Sra. Potter. Ela estava nisso há muito tempo. A bruxa esvaziou a taça. "Mas não serão, James."
"Bem..." O jovem encolheu os ombros. Ele era mais jovem, afinal, e tinha uma chance. "Não com essa atitude."
"Eu preciso que você esteja seguro," foi o máximo que sua mãe pôde dizer. "Eu preciso que esteja seguro por mim. Nada de assumir riscos estúpidos, está bem?"
James se levantou. "Tudo certo." Afinal, "estúpido" era um termo muito vago. "Você deveria ir para a cama. Vamos, temos que acordar cedo amanhã." Ele a ajudou a se levantar e depois caminhou com ela para fora da cozinha, subindo as escadas. Ele não a levou até seu quarto, pois pararam no corredor que levava ao dele.
Com o contínuo ar de cansaço apenas ligeiramente diminuído, a Sra. Potter beijou seu rosto. "Boa noite, James."
"Boa noite. Te amo, mãe."
"Também amo você."
Era algo estúpido para acrescentar, mas, há alguns dias, ele não teria pensado duas vezes antes de falar – estivera com medo de barganhar com o universo acerca da segurança de sua mãe, e só fazia sentido agora dizer a ela e esperar que ela entendesse um pouco de como fora antes de ele ouvir a voz dela na rádio: "Estou muito feliz que você esteja viva."
O sorriso que ela esboçou foi fraco, mas ela bagunçou o cabelo dele com carinho, como costumava fazer quando ele era menor, e depois foi para a cama.
Como acontecera muitas vezes em sua vida, Marlene acordou com o silêncio. Ela meio que esperava por isso às vezes, pois muitas vezes adormecia com um disco tocando e depois se agitava no meio da noite, muito tempo depois que a música terminara. Então, lenta e confortavelmente a princípio, ela tornou à consciência em um quarto escuro, relutante em deixar o conforto da cama: cama que decididamente não era a do dormitório de Hogwarts, nem do apartamento de sua mãe...
E, então, os olhos de Marlene se abriram e ela se levantou, percebendo onde estava.
"Merda."
No quarto de Adam. Esse era definitivamente o quarto de Adam.
O próprio Adam ainda dormia, por enquanto pelo menos, enquanto Marlene fazia várias coisas ao mesmo tempo, procurando um relógio e tentando se lembrar de como haviam adormecido. Eles estavam conversando – ela conferiu a hora às duas, não, às duas e trinta e quatro, e continuaram conversando e, em algum momento, – bem, ela deve ter cochilado, mas não conseguia se lembrar... também não se lembrava de Adam adormecendo.
O relógio estava na mesa de cabeceira do outro lado da cama – do lado de Adam e, assim, com o maior cuidado possível, a loira desceu da cama e se esgueirou para ver. Eram cinco e seis.
"Merda," sussurrou ela novamente e começou a procurar seus sapatos e a jaqueta. Ela acabara de atravessar o quarto na ponta dos pés em direção à mesa, onde os deixara, quando Adam se mexeu.
"Price?" perguntou ele, grogue. Ele se atrapalhou, localizou a varinha na mesa de cabeceira e acenou uma vez, iluminando o quarto. Os dois estremeceram e Marlene voltou-se para ele.
"Nós adormecemos," sussurrou ela – embora, se a conversa deles não tinha acordado o resto da casa, não sabia se isso os perturbaria. Ela colocou os sapatos. "Tenho que ir para casa."
Adam sentou-se devagar. "Sua mãe vai ficar com raiva?" Sua voz soou áspera e lenta, como se ainda estivesse meio adormecido.
"Espero que ela não tenha notado."
"Que horas...?"
"Cinco." Ela enfiou os braços na jaqueta e pegou a bolsa antes de ir em direção ao toca-discos.
"Cinco? Agrippa." Ganhando um pouco de consciência e levantando-se: "Você pode ficar, sabe. Está no meio da noite, talvez não deva..."
"Não, não, eu tenho que ir."
As mãos dela tremiam, deixando-a confusa, e ela lutou para colocar o disco de volta na capa. Adam se aproximou para ajudá-la, mas Marlene apenas acelerou o passo para evitar qualquer contato entre eles.
"Price, está tudo bem, sua mãe vai entender..."
"Não, eu sei, está tudo bem, eu só tenho que ir."
"Pode aparatar da estrada... desculpe, toda a casa é, você sabe, protegida." Ele se espreguiçou e bocejou, fazendo a camiseta se erguer acima da cintura da calça, e ainda não acabara de bocejar quando disse: "Vamos, eu te acompanho..."
"Não precisa..."
"Eu não me importo..."
"Sério, não precisa." Marlene o encarou, tendo juntado seus pertences e seus nervos um pouco. "Está tudo bem. Te vejo em algumas horas."
"Certo." Ele murchou. Aquilo o atingiu novamente: o memorial, Sarah, a razão de Marlene estar ali... Ela tomou isso como sua deixa para partir, mas não se virara antes de Adam insistir: "Mas obrigado por ter vindo."
"Claro."
"Sério. Fico... fico feliz que Audrey tenha te chamado."
Algo naquilo relaxou Marlene. Ela assentiu e sorriu. "Se houver algo que eu possa fazer..."
"Sim, claro." Eles ficaram ali um pouco mais, sem dizer nada, porque, bem, eram cinco da manhã, eles se veriam em poucas horas, e tinham conversado bastante, não é? Mas foi um momento agradável, mesmo que tivesse que terminar. Marlene enfiou as mãos nos bolsos, pronta para sair novamente, quando Adam – calmamente, num tom que implorava por discussão e desconstrução – disse: "Eu te amo, Price."
Claro que ele deve ter falado platonicamente. Deve ter falado como amigos, sim... ele a chamara de "Price," e estava agradecido, e eles eram melhores amigos, não eram? Ele a olhou calorosamente, não como o fizera no campo de quadribol há alguns meses, quando dissera aquelas palavras pela última vez, mas de maneira confortável e afetuosa, como se apreciasse a presença dela em sua vida.
Mas, sinceramente, toda vez que Marlene imaginava aquela cena no campo de quadribol em sua cabeça, era muito diferente. Sabia por que havia dito o que dissera. Ela se entendia bem o suficiente por isso... não necessariamente se arrependia. Mas se ao menos soubesse na época... e se essa Marlene estivesse naquela cena, ela teria lhe dito que também o amava. Ali, agora, claro, ela sabia que esse Adam devia ter falado platonicamente, como amigos, por uma série de razões. Marlene apenas não conseguia se lembrar de quais eram. Não estava pensando direito.
A loira deu um passo à frente e pressionou os lábios nos dele.
Ele era macio, quente e, por um momento, ficou imóvel. Então, ele correspondeu e Marlene o puxou para mais perto.
Não houve tempo suficiente. O beijo evoluiu rápido demais, aprofundando-se, ficando mais quente e exigente ao mesmo tempo. Seus lábios se moviam de maneira deselegante, apressada, porque em um minuto, apenas mais um minuto, por favor, eles teriam que acordar, abrir os olhos, perceber, compensar, reconciliar, o que quer que fosse, mas, antes disso, havia muito o que comunicar e experimentar. Eles não poderiam compensar todas as oportunidades perdidas e pensamentos não expressados, não poderiam satisfazer todas as curiosidades, não poderiam sentir tudo... não naquele minuto que haviam roubado da progressão natural, adequada e ordenada das coisas, não podiam, então o esforço deles foi inútil, como se caso ela se agarrasse a ele com força suficiente ou se ele pressionasse mais, com mais fervor contra ela, eles pudessem fazer um entender o outro.
Quando Adam relaxou o aperto em sua blusa por baixo da jaqueta, Marlene sentiu-o se afastando. Algo estava prestes a acontecer – ela estava prestes a se lembrar do que havia esquecido no momento, e resistiu o máximo que pôde, mesmo enquanto saía da ponta dos pés, afastando os lábios dos dele, a garota não abriu os olhos. Ele beijou o canto de sua boca uma última vez e apoiou a testa na dela; a garota se esforçou para recuperar o fôlego, para não se lembrar das razões...
Ele abaixou as mãos, mas não se afastou, e ela segurou seu rosto entre as mãos por mais alguns segundos.
Então, por fim, Marlene abriu os olhos e a palavra que evitou – não, que afugentou de sua mente – apareceu em seu cérebro, de modo que ela tivesse que se afastar.
Prudence.
Adam a encarou – não apenas isso, ele procurou por sua mão, mas ela a puxou de volta.
"Marlene..."
"Eu tenho que ir."
"Não... espere um segundo..."
Miles beijara Carlotta Meloni naquela festa no ano passado. Há quase dez meses. Ela chorara por isso.
Mas ela já estava do lado de fora, e correu escada abaixo um segundo depois. Adam a seguiu.
"Marlene, espere um segundo, o.k.? Ouça, nós temos que..." Era como se ele estivesse tentando gritar e sussurrar ao mesmo tempo, enquanto lhe faltava fôlego, e ela não queria ouvir nada disso. O corredor, a porta da frente, passaram em um borrão, e então ela tropeçou na varanda fria, seguindo pela curta passagem para a estrada sob o céu cinzento da manhã, e virou-se para ver Adam ainda a seguindo, com uma expressão suplicante, em pé no tapete sujo de boas-vindas, com meias nos pés. Ele abriu a boca para dizer algo, mas ela fechou as pálpebras sobre os olhos lacrimosos e aparatou.
A garota chegou ao corredor do lado de fora da porta de sua casa.
Merda.
Ela encontrou a chave na bolsa e teve a presença de espírito de ficar quieta enquanto entrava. A lâmpada e a televisão estavam acesas, e Marlene percebeu a razão um momento depois – sua mãe dormia no sofá sob um cobertor de tricô. Vivian se mexeu quando a filha adentrou mais na sala.
"Marlene?" Ela apertou os olhos quando conseguiu abri-los e se apoiou. "Que horas são, meu amor?" Marlene ficou parada e não respondeu, enquanto Vivian se levantou instável, cambaleou até a televisão e a desligou. Isso a aproximou da filha e ela viu melhor a expressão da jovem bruxa: "Marlene? Qual é o problema?"
Ela beijou Adam. Ela amava Adam. Realmente o amava, e agora estava tudo... tudo arruinado...
"Eu..." Marlene vacilou; ela estava chorando agora. "Mãe, eu fiz algo terrível."
Vivian estava ao seu lado em um instante. Ela colocou os braços em volta dos ombros da garota e a levou ao sofá. "Me fale, Marlene, me conte… você está machucada? Alguém te machucou?"
Marlene balançou a cabeça no ombro da mãe. "Não, não, eu só... cometi um erro..." Vivian afastou os cabelos curtos e pálidos do rosto manchado de lágrimas da filha, colocando os fios soltos atrás da orelha. Suas mãos finas e envelhecidas, com as rugas, calos e unhas vermelhas escuras, porém, pareciam suaves ao se mover por sua bochecha... suaves como sua voz, implorando gentilmente que Marlene lhe contasse o que tinha acontecido.
Mais tarde, em cerca de meia hora, Marlene contaria o que havia acontecido. Quando Vivian mais uma vez se descobriu para ir fazer um chá, a história toda veio à tona – quase toda – do campo de quadribol na primavera, quando ela leu a carta dele sobre Prudence e, então, algo que aconteceu ainda antes, no Dia dos Namorados, talvez, quando quase estivera pronta, quase, mas não exatamente... e, então, ela o beijou, porque o amava, amava mesmo, mas, Deus, ela arruinou tudo.
Enquanto isso, antes que Marlene encontrasse as palavras para articular qualquer coisa, tudo que conseguiu dizer foi: "Eu menti para você, mãe. Disse que estava segura, mas não estou. Realmente... realmente não estou. Essa... essa guerra, não acho que esteja perto de terminar. Acho que está apenas começando, e eu estou bem no meio dela, pois meus pais não são bruxos. É disso que se trata toda a briga. Se trouxas e nascidos trouxas são ou não tão... bons, eu acho, quanto bruxas e bruxos. E eu não estou segura, de jeito nenhum, e estou..." Ela achou difícil falar, engasgando com as lágrimas. "Estou assustada... muito assustada que algo aconteça comigo, ou com meus amigos, ou com você, porque eu realmente te amo, mãe, e não sei como vou protegê-la de tudo isso."
A cabeça de Marlene subia e descia com a respiração de Vivian enquanto a menina chorava, molhando a camisa da mãe com lágrimas; Vivian alisou os cabelos dela novamente e beijou sua testa.
"Você não precisa me proteger, meu amor," sussurrou ela. "Eu tenho que te proteger, o.k.? Esse é o meu trabalho. Não vou deixar nada acontecer com você. Jamais. Entendeu?"
Marlene assentiu. Ela não sabia quão fortemente acreditava em nada disso... ou nas promessas contínuas de sua mãe de que tudo ficaria bem, mas, naquele momento, foi bom ouvir aquilo.
(Domingo)
Kingsley já estava sentado com o jornal e uma xícara de café quando Donna desceu à cozinha no domingo de manhã cedo.
"Então, suponho que você não irá conosco ao memorial," disse a bruxa ao irmão, em resposta ao seu animado bom dia. "Você vai ter que ajudar com a segurança ou algo assim?"
O irmão dela suspirou. "Essa é a disposição ensolarada que eu espero de você de manhã."
Donna, aparentemente, usou a preparação de torradas como um escudo contra o sarcasmo de Kingsley. "Tia Dahlia acha que Brice é jovem demais para ir. Ela quer ficar com ele... o que você acha?"
"Você discorda?" perguntou Kingsley, político como sempre.
"Não é exatamente o primeiro funeral dele."
"Eu não acho que ele se lembre muito do último, Donna."
"Não," concordou ela baixinho. Ela ficou de costas para ele, então ele se esforçou para ouvi-la. "Ele não vai se lembrar deles, eu acho. Claro que pode ser mais simples para ele do que para Isaiah e Bridget... que meio que se lembram..."
"Mas você acha que ele deveria ir?"
Donna hesitou. "Sim," respondeu ela eventualmente. "Ele não vai se lembrar da mamãe e do papai, como você disse, e ele deveria ver..."
Quando ela não conseguiu concluir o pensamento: "Ver o que?"
"Eu não sei... que as pessoas não simplesmente... desaparecem. Que as pessoas se lembram delas." Ela encontrou um prato para sua torrada agora pronta e começou a espalhar manteiga sobre elas.
"Eu concordo," disse Kingsley. Donna olhou para ele por cima do ombro, surpresa. "E se estiver preocupada em cuidar de todas essas crianças, eu vou com você esta manhã."
Donna fez uma careta. "Isso não é típico do Ministério? Relaxado com a segurança em um dia como esse..."
"Isso é embaraçoso," admitiu Sirius, examinando um conjunto de vestes pretas que só se distinguiam das últimas por um fecho prata, em vez de dourado.
"Meu armário ou você o invadindo?" indagou James. Ele deitou na cama, assistindo com diversão enquanto Sirius vasculhava os artigos em seu guarda-roupa.
"Bem, os dois... por que tem tantas roupas? Serei honesto... não previ isso."
"Mamãe está sempre me comprando roupas."
"Sabe, essa é a parte de ser um vagabundo deserdado que ninguém menciona: você não apenas precisa se alimentar, mas também precisa comprar roupas. É uma tarefa e tanto para um garoto em crescimento."
"Hum, e você está engordando sem os treinos de quadribol."
"Calado, Saco de Ossos, preciso de algo para me aquecer neste inverno."
"Vista as vestes de Hogwarts."
"Não são vestes. Não tenho vestes pretas."
"Bem, pode querer investir em algumas."
"Certo." Sirius escolheu um conjunto com um fino cordão de couro que dava um nó na garganta. "Acho que serão bem utilizadas em breve. O que você tem no departamento de gravatas?"
Mary Macdonald nunca fazia nada pela metade, e então, quando ela abriu a porta para Marlene por volta de quinze para as nove, colocando brincos verde esmeralda, a garota parecia ter saído de uma revista de moda, embora com tema de funeral: em um vestido justo de seda preto, de saltos altos que tinha tanto talento em usar, com uma capa jogada sobre o ombro e uma faixa de cor creme luxuosa entre cachos castanho-acetinados, ela deveria ser a estrela de qualquer cerimônia.
"Vá se trocar," ordenou Marlene, que usava um vestido muito mais simples.
"Por quê?" Mary fez uma avaliação rápida e autoconsciente de sua roupa. "O que há de errado nisso?"
"Você está me deixando mal."
"Ah, querida, eu sempre faço isso."
"Cale a boca."
"Aqui, entre, estou quase pronta." Mary levou a convidada até o quarto, onde, depois de terminar com os brincos, ela começou a jogar as coisas, incluindo batom e varinha, em uma bolsa. "Como foi em Adam? Eu fui na sua casa por volta das nove para ver se queria um pouco do bolo que mamãe fez, mas você ainda não estava em casa..."
Marlene sentou-se na cama de Mary e mexeu na colcha verde brilhante. "Nós nos beijamos," disse ela apática.
Mary congelou. "Perdão, o que?"
"Nos agarramos, talvez, eu não sei."
"Espere. Droga. O que?"
"Eu sei."
"Mas..."
"Eu sei..."
"Isto é..."
"Absolutamente."
"Por Deus, Marlene."
"Eu sei!"
Mary suspirou. Ela jogou mais alguns itens em sua bolsa e depois fez um gesto para Marlene se juntar a ela. Enquanto sua amiga atravessava o quarto, Mary entrelaçou o braço com o dela e disse: "Bem, tudo bem, me conte tudo sobre isso no caminho."
Elas tinham acabado de chegar à porta da frente quando a Sra. Macdonald saiu da cozinha e avistou as garotas. "Para onde estão indo a essa hora?" perguntou ela curiosamente, mas sem se opor.
Mary suspirou e conduziu Marlene pela porta à sua frente. "Igreja!"
Além de Hogwarts, Remus se sentia deslocado quando se via em grandes aglomerações de bruxos. Sempre que ia a jogos de quadribol com James, e quando foram ao Ministério durante o verão... mesmo no Beco Diagonal em um dia agitado, uma inquietação estranha surgia nele, embora nunca tivesse entendido o porquê. Havia explicações lógicas, é claro: obviamente, sua licantropia e a inevitável noção de que, se alguém ao seu redor soubesse o que ele era, ficaria, na melhor das hipóteses, incomodado, e muito provavelmente sentiria repulsa – e isso nem se comparava ao que diriam se o vissem em uma noite ruim.
No entanto, essa explicação para seu desconforto não o satisfez inteiramente. Pareceu-lhe antinatural de alguma forma ver todas aquelas bruxas e bruxos em campo aberto. E esse sentimento fazia ainda menos sentido para ele, pois crescera no mundo bruxo. James e Sirius nunca indicaram sentir algo semelhante.
As vestes pretas de Remus se revelaram muito pequenas e, na pressa da manhã, foi obrigado a pegar emprestadas as vestes velhas de seu pai, que estavam desgastadas nos pulsos e grandes demais em volta dos ombros. Uma capa as escondia, e, assim, ele podia agradecer por uma manhã fria e cinzenta (podia começar a chover a qualquer momento), mesmo enquanto ele e o pai caminhavam pelo bosque lamacento em direção a Alston Glade.
Através das brechas entre as árvores, ele vislumbrou outras bruxas e bruxos indo na mesma direção, muitos carregando guarda-chuvas, todos vestidos de preto. Isso apenas o perturbou ainda mais – todas aquelas pessoas simplesmente aparecendo assim (houve pedido para que não aparatassem, para que usassem as lareiras designadas, solicitassem uma chave do portal ou usassem transporte trouxa, mas é claro que as pessoas sempre aparatavam), como se fossem insetos, arrastando-se para fora do chão e agora rastejando despercebidos pelos cantos escuros da paisagem. Remus podia entender a necessidade de se manter a magia em segredo – talvez pudesse, de qualquer maneira –, mas não conseguia entender tantas pessoas escondendo esse segredo de tantas outras. Era isso que ele achava verdadeiramente desconcertante, especulou – que quando todas aquelas bruxas e bruxos estavam juntos, todos sabiam. Todos eles sabiam o que os outros eram, e ninguém sussurrava quando diziam palavras como Hogwarts, trouxa, magia, Comensais da Morte...
(Lobisomem, seu cérebro, um tanto irônico, substituiu. Não... eles ainda sussurravam isso.)
E essa era a parte que o incomodava em toda aquela questão do M.P.P. O pensamento não o deixaria em paz.
Eles se aproximaram da orla do bosque – havia uma espécie de luz pálida vindo da clareira adiante, onde o memorial seria realizado. Não era a localização real do ataque, é claro, pois Peverell Hall ficava muito perto de um bairro trouxa. Alston Glade estava a vários quilômetros de distância, enterrada em uma mata rasa, conferindo a proteção do afastamento físico, além das dezenas de feitiços que Remus supunha que o Ministério havia lançado para proteção anti-trouxas.
Proteção anti-trouxas – um pensamento engraçado. Mas, sim, era o que dizia a si mesmo – a coisa que o incomodava no ataque a Peverell Hall. Todas aquelas bruxas e bruxos reunidos – e eles deveriam ter varinhas, não teriam caído sem lutar, tinha certeza disso. Conheceu o suficiente deles para saber disso.
Eles saíram ao ar livre no campo e já deveria ter duzentas pessoas lá.
No centro da clareira, havia um monólito de mármore branco, aproximadamente na altura da cintura, com uma gravura que Remus supôs que teria que ler mais tarde. A maioria dos bruxos ali se misturava à toa, em um amplo corredor central criado entre a coluna do memorial e uma formação circular de cadeiras ao redor. Devia haver uma dúzia de fileiras – algumas cadeiras ocupadas, outras não – e, mesmo assim, o Sr. Lupin não pôde conter a observação prática: "Não haverá assentos suficientes."
Remus pensou que não se importaria de ficar lá atrás. Às vezes, em multidões como essa, ele se sentia um pouco claustrofóbico.
Mas a luz que vinha das árvores impressionou mais do que o monumento. Ela vinha de cerca de cem velas brancas que levitavam no alto, como no Salão Principal da escola, exceto que as chamas eram pálidas – quase brancas – e devia haver um feitiço para mantê-las firmes e acesas sob o vento.
Remus e seu pai sentaram-se quase tão longe do centro do círculo – e da maioria dos outros – quanto possível, perto do corredor que cortava as cadeiras e levava ao próprio monumento. Ao menos seu pai viera, pensou Remus; teria sido terrível vir sozinho. Quando se está sentado no perímetro com outra pessoa, podia-se fingir que era uma escolha.
Mas depois de um ou dois minutos observando as pessoas, Remus viu alguém que conhecia, James, cercado por um grupo de adultos que momentaneamente escondeu seu sempre presente compatriota (Sirius). Porém, se James não parecia nada animado por ter um monte de idosos fazendo alarido com ele, isso não era nada comparado a Sirius, que fazia caretas profundas. Um grupo de amigos da família Potter podia não ser a aglomeração ideal para um Black – mesmo um como Sirius.
Aliás, qualquer situação que exija roupa formal podia não ser ideal para Sirius.
Ou para Remus, por falar nisso, o que foi responsável por sua decisão de não procurar seus amigos.
Mas essa decisão acabou se tornando irrelevante, já que Peter o encontrou alguns minutos depois. Sua mãe decidiu ficar em casa, e ele claramente apreciou o convite imediatamente estendido para sentar-se com os dois Lupin.
"Eu ouvi uma idosa dizer que existem oitenta e sete delas," disse Peter a Remus e seu pai, olhando para as velas. "Uma para cada, sabe?"
Os Shacklebolt e Lily chegaram cinco minutos atrasados, quando todas as cadeiras estavam ocupadas e ainda assim um grande grupo havia se formado em torno do perímetro externo do anel de cadeiras.
"'Não vejo nada, é claro," reclamou Donna, erguendo Brice e espiando por cima das cabeças da multidão o melhor que podia.
"É sua culpa estarmos atrasados," murmurou Isaiah, que estava de mau humor por causa de uma discussão sobre seus cabelos.
"Ah, certo," disse Bridget, "Sr. Quarenta e Cinco Minutos no Banho..."
"Parem de brigar," ordenou Kingsley. "Venham por aqui, há um pouco mais de espaço para ver..."
O memorial ainda não havia começado, mas os Shacklebolt haviam acabado de entrar no espaço que Kingsley encontrou para eles quando um bruxo lá na frente pediu que todos sentassem, pois o serviço estava prestes a começar.
"Sentaríamos se pudéssemos," disse Donna.
Kingsley arqueou uma sobrancelha. "Perspectiva, Donny."
"Há uma razão para você não estar segurando Brice?
"Claro. Você é mais forte"
"Bem, isso é verdade."
"Apenas o levite," sugeriu Isaiah.
"É por isso que não saio em público com vocês," sussurrou Donna. Mas as coisas estavam mesmo prestes a começar, e os Shacklebolt – junto aos outros enlutados – ficaram em silêncio. Devia haver algumas centenas, e eles se amontoaram, uma multidão vestida de preto embaixo daquelas bizarras luzes brancas das velas e do céu prateado. Lily se perguntou se já tinha visto tantos bruxos juntos ao mesmo tempo fora de Hogwarts; apenas um incidente veio à sua mente, e aquele dia terminou na prisão. Isso explicava sua cautela, de qualquer maneira.
Quando a quietude finalmente se instalou na multidão, o mesmo bruxo que pedira silêncio começou a falar. Era um homem comum de meia-idade, usando um terno preto listrado. "Nós nos reunimos aqui após uma grande tragédia," começou ele, e sua voz tinha aquele som estranho e esticado causado pela ampliação mágica.
Tragédia, pensou Lily, é uma palavra engraçada. Soou muito acidental. Como se muitos infortúnios tivessem se reunido para resultar em uma grande bagunça, e agora Romeu e Julieta estavam mortos, mas, pelo menos, graças a Merlin, tinha acabado.
"Não estamos aqui para discutir as tragédias dessas mortes..." Lá estava novamente, tragédias, no plural, "mas para celebrar a vida daqueles que nos deixaram..."
"Quem é esse bruxo, afinal?" Lily sussurrou para Donna, que deu de ombros.
"Algum sujeito do Ministério que quer ter o nome no jornal?"
Se Donna estava certa, o bruxo provavelmente alcançou seu objetivo naquela manhã, pois uma série de flashes vindos de toda a multidão indicava a presença de câmeras. No entanto, um bruxo mais velho próximo a elas não gostou do cinismo de Donna e lançou-lhe um olhar ameaçador, de modo que as duas bruxas ficaram em silêncio novamente.
"...logo mais, ouviremos familiares e amigos dos oitenta e sete bruxos e bruxas corajosos pelos quais nos reunimos nessa homenagem, mas, primeiro, algumas palavras do estimado bruxo que dispensa apresentações: Ordem de Merlin Primeira Classe, diretor da escola de Hogwarts, Albus Dumbledore... "
A figura familiar de Albus Dumbledore, de barba prateada e óculos, caminhou de sua cadeira até ficar ao lado do outro bruxo, e Lily percebeu algo...
"Pelo amor de Agrippa, ele ainda está vestindo roxo..."
"Acho que ele não tem nada de outra cor," murmurou Donna quando Dumbledore começou a falar... sobre o M.P.P., provavelmente, mas Lily não prestou atenção, porque, de repente, viu-se dominada pelo desejo de rir. Ela se esforçou para abafar as risadinhas por trás da palma da mão, Donna a olhou incrédula, e o bruxo que os encarara antes tentou se impedir de matá-la com o poder de seu olhar. Não fez diferença.
"Se não parar de rir neste instante, Lily Evans, vou queimar todos os livros do seu dormitório," Donna continuou a sussurrar furiosamente.
"Eu não consigo evitar! Você sabia..." ela ofegou, "sabia que a última coisa que escrevi para Sam foi... foi sobre M-M-Meloni versos Mumps!"
Donna levantou uma sobrancelha. "Isso não tem graça, Lily, o que você...?"
Dumbledore falava sobre generosidade de espírito e contribuições para o bem da comunidade mágica...
"Não, não tem, é horrível. É tão, tão horrível, ah, meu Merlin, mas pode imaginar? A última coisa sobre a qual escrevi para ele... antes... a-antes que ele fosse assassinado foi... foi... um r-r-r-relato dramático sobre... sobre um... um concurso de popularidade! Entre Carlotta e Shelley!"
"Você está fora de si."
"Eu sei," Lily riu, "eu sei, mas..." Antes que ela tivesse alguma ideia do que estava acontecendo, a emoção borbulhando dentro dela, que não encontrou outra saída além das risadas maníacas que tentou e não conseguiu reprimir, mudou completamente de direção. Ela já estava chorando devido àquela alegria inexplicável, até que de repente não estava mais, e apenas chorava.
"Pelo amor de Agrippa," gemeu Donna.
"Garotas," murmurou Isaiah. As duas irmãs o golpearam e, em seguida, Donna colocou Brice no chão e instruiu Kingsley a cuidar dele, enquanto conduzia Lily para longe do restante do grupo.
"Caramba, controle-se, Evans!"
"Não consigo!" Lily soluçou, um pouco mais alto do que pretendia, e Donna deu um tapinha em seu ombro desconfortavelmente. "Ah, volte à cerimônia, eu volto num minuto."
"Você está louca."
"Eu sei, eu sei..."
Donna começou a se afastar, mas Lily acenou para que voltasse, e enquanto ela se aproximava novamente, a ruiva a puxou para um abraço. Donna parecia preferir a risada. "O que você...?"
"Obrigada por me levar para casa com você este fim de semana," choramingou ela. Donna revirou os olhos.
"Estou feliz que tenha gostado, já que nunca mais falarei com você depois de hoje. Ah, tudo bem, aí, acalme-se, por nada, Lily... você está bêbada?"
Lily soltou a amiga e empurrou-a de volta para a multidão, e, enquanto Donna voltava à sua família, a ruiva procurou no bolso de sua capa por algo para enxugar os olhos. Devia se lembrar de levar lenço consigo com mais frequência – sua mãe sempre levava.
Ela não estava bêbada, apenas sobrecarregada e, francamente, por mais humilhante que fosse (as pessoas ao fundo da multidão, que estiveram perto dela, continuavam lançando olhares perplexos em sua direção), sentia-se positivamente aliviada. Foi a primeira vez desde que tudo aconteceu que ela conseguiu sentir algo que não fosse oitenta por cento raiva.
No fim, a jovem usou a manga para secar o rosto e, quando sua respiração desacelerou para um ritmo mais natural e ela quase reprimiu os soluços, Lily voltou até os Shacklebolt – bem a tempo de ver Dumbledore reclamando seu assento e a Sra. Potter colocando-se no centro do círculo, ao lado do monumento.
A alguma distância, Marlene estava sentada com Mary – tendo chegado a tempo de encontrar cadeiras – e a cada instante falhava em não vasculhar a multidão em busca dos McKinnon.
"Pare de procurar," Mary aconselhou em voz baixa, e ela estava certa, é claro, porque e se os encontrasse? E se fizesse contato visual com ele? E se Prudence estivesse lá?
Ela reconheceu a mãe de James Potter, que estava em pé de perfil para elas agora enquanto falava sobre o M.P.P. "As bruxas e bruxos que estamos aqui para homenagear eram minha família," disse ela, e sua voz tremeu, de modo que Marlene acreditou. Sua família de verdade – James, de qualquer maneira – estava sentada na segunda ou terceira fila de cadeiras, ligeiramente visível através do círculo de onde Marlene estava sentada. Ele olhava para o espaço e sua expressão era, para Marlene, ilegível.
O memorial realmente ajudou, pensou Marlene, à medida que muitos lenços apareciam na multidão. Isso fez com que as violentas mortes de oitenta e sete pessoas parecessem muito – não exatamente normais, mas talvez comuns. O Ministério da Magia estava oficialmente reconhecendo isso. Todos estavam reunidos para lamentar. Falariam sobre o quão horrível era, e depois, mais tarde, falariam sobre quão horrível tinha sido, e era tudo muito oficial. Não tão chocante. O processo fazia sentido. Ela não se importava.
Mas Sirius sim.
Impaciente por natureza, ele achou tedioso ouvir a fileira aparentemente interminável de pessoas que subiram ao púlpito após Grace Potter voltar ao seu lugar. O rapaz provavelmente não chamaria de prejudicial ou algo assim, mas simplesmente não lhe parecia terrivelmente necessário. Ele gostava de ação, e a decidida falta dela o irritava.
O Maroto considerou isso ilógico, pois ficar sentado numa cerimônia naquela manhã não afetou sua capacidade de agir. Na verdade, os meses escolares que ainda lhe restavam impediam mais a ação do que ficar sentado ali – ao lado de James, por James. No entanto, quando não havia nada a fazer além de sentar, pensar e saber que as pessoas que se odiava, que haviam feito algo tão horrível, estavam andando completamente livres (vivendo com segurança, conforto e até mesmo luxo), e quando não vinha nada para distraí-lo desse fato, tanto a paciência quanto a lógica desapareciam um pouco.
Dorcas Meadowes tomou a palavra por alguns momentos. A cunhada de Victor Vance. Caradoc Dearborn também falou, e muitas pessoas que Sirius não conhecia. Teve um bruxo com um forte sotaque francês, uma bruxa que só falava alemão e exigiu um tradutor, e uma menina de dez anos cuja mãe havia sido morta. E ainda houve outros, mas ele perdeu a noção. Havia um bruxo do Profeta Diário (a duas cadeiras de Alex Potter) que ficava tirando fotos. A manhã se arrastou.
Então, sem muito aviso, o serviço parecia estar chegando ao fim.
O sujeito que apresentou Dumbledore levantou-se da cadeira na primeira fila e retomou a posição de orador ao lado do monumento de mármore. Talvez nervoso por se dirigir a tantas pessoas, ele parecia efetivamente indiferente ao processo e, embora falasse de uma grande sensação de perda, Sirius detectou pouco disso em sua fala. É claro que a emoção pode ser difícil de transmitir em um discurso pré-elaborado e ampliado por magia. Mais fotos para o repórter do Profeta.
"Concluiremos a cerimônia de hoje," disse o bruxo, "com a dedicação do monumento em homenagem aos mortos. A placa diz..." Ele pigarreou "...Em memória dos que caíram, bruxas e bruxos que perderam a vida no dia dois de novembro de mil novecentos e setenta e seis. Eles permanecem conosco, em sinal de paz, honra e bravura."
O bruxo se afastou do monumento e foi até as cadeiras. Ele não voltou ao seu lugar, mas estendeu a mão e ajudou uma bruxa que estava na primeira fila a se levantar. Emmeline Vance parecia quase entediada ao se levantar, e o bruxo continuou a falar.
"Como presente de um doador generoso, podemos homenagear cada uma das vítimas dessa... dessa terrível tragédia com marcadores individuais – placas com inscrições dos nomes dos mortos – Sra. Vance, faça o favor..."
A bruxa ergueu a varinha e deu um aceno rápido e impassível. Na grama que circundava o monumento de mármore, apareceu uma série de marcadores de bronze – não muito grandes, pois havia oitenta e sete deles – que deviam estar escondidos lá o tempo todo. Talvez Emmeline não tivesse a empolgação necessária (ela voltou imediatamente para o seu lugar), ou talvez todo o espetáculo tenha sido mal concebido, pois apenas os das primeiras fileiras puderam ver claramente o que havia acontecido, mas o bruxo se apressou em deixar que todos soubessem que algo muito impressionante acabara de ocorrer. "Esses memoriais carregam os nomes de cada bruxa e bruxo que perdemos nesta semana, bem como uma mensagem personalizada, escrita pelos familiares dos que partiram... é realmente comovente..." E havia lágrimas em seus olhos enquanto falava; ele não parecia falso, pelo menos.
"Quem é esse cara, afinal?" James perguntou à mãe, enquanto o bruxo encerrava o processo. A Sra. Potter revirou os olhos.
"Algum sujeito do D.E.L.M. que praticamente implorou para estar aí," respondeu ela. "O nome dele é Fudge, dá para acreditar?"
A multidão só aumentou quando a cerimônia terminou, pois todos convergiram para o monumento de uma só vez. Sirius e os Potter tiveram a sorte de estar sentados próximos ao púlpito, pois conseguiram chegar às placas, onde leram o nome de Sam e a pequena mensagem ("Um coração amável e leal," de Caradoc, de acordo com a Sra. Potter) antes que tudo ficasse muito bagunçado.
O bruxo do jornal, que estava muito perto deles agora, aproximou-se da Sra. Potter, empurrando algumas jovens bruxas que se amontoavam para ver as placas do memorial, e fez uma reverência solene.
"Lamento profundamente, Sra. Potter."
"Obrigada." Ela tentou se afastar, mas o bruxo continuou.
"Existe algo que a senhora gostaria de compartilhar com nossos leitores?"
"Não, obrigada."
"Tem certeza?"
"Sim."
"Muito bem." Ele tirou outra foto da família e se afastou.
Jack Lathe desviou o olhar da grande massa de pessoas que cercava o memorial; ele assimilou o resto da clareira, examinou as árvores, manteve os olhos se movendo constantemente – um hábito de quem ficou encarregado da guarda de um evento como aquele. Como tal, o homem estava perfeitamente ciente de que Alastor Moody se aproximava dele pela esquerda antes de o Chefe dos Aurores anunciar sua presença com um rosnado "Lathe."
"Sr. Moody," respondeu Lathe. Ele olhou para o chefe, e o bruxo mais velho tinha uma longa e fina incisão no rosto – uma nova cicatriz que o outro ainda não tinha visto. Moody chegou atrasado ao memorial: estivera em missão, e a cicatriz deve ter sido parte do pacote. Mas Lathe optou por não comentar. Moody, ao contrário dos aurores mais jovens e tranquilos do departamento, não falava sobre suas cicatrizes. Elas eram incidentes casuais para ele. "Paz, honra e bravura. Diga a verdade, senhor... você sugeriu isso?"
Moody ignorou a impertinência – outro hábito dos aurores, sem dúvida – e, em vez disso, disse: "Isso os faz se sentir melhor."
"É um pouco sentimental da sua parte, senhor."
"Você preferia Cornelius Fudge lá em cima, dizendo a todos exatamente como aconteceu?" O bruxo mais velho suspirou.
"Eu não sei," admitiu Lathe. "Não parece certo falar de paz, honra e bravura, sabendo o que fizeram..."
"Não foi culpa deles." Isso ele disse muito severamente; aquele tom era um aviso e um digno de atenção.
"Eu sei disso," disse Lathe depressa. "Eu não... mas não podemos esconder isso para sempre, não é? Eventualmente, eles vão querer saber."
Moody ignorou isso também. "Ele nos avisou," disse ele sombriamente.
"O que quer dizer?"
"Ele nos avisou," repetiu Moody. "Em julho. Ele nos avisou que isso ia acontecer. Exatamente como prometeu."
Sarcasticamente: "Ele é muito educado."
"Mas talvez isso signifique que ele é previsível." Moody era bom nisso – em encontrar vantagens estratégicas em situações horríveis. Poderia soar como frieza para quem não o conhecia – talvez até mesmo para quem o conhecia, porque Lathe entendia, ou pensava que entendia, e ainda estranhava a absoluta objetividade de Moody.
Por um longo tempo, os dois ficaram quietos e Lathe quebrou o silêncio: "Acho que não consigo mais fazer isso." O auror-chefe olhou para ele, mas não pareceu surpreso.
"Não pode se demitir," ressaltou. "Não agora."
"Então, me transfira," disse Lathe. "Coloque-me na... segurança. Escoltarei o ministro. Escoltarei o ministro trouxa, não me importo. Mas não quero mais entrar em Peverell Halls. Não quero mais matar se não fizer nenhuma diferença."
"Quem disse que não faz diferença?"
"Os malditos nobres caídos, eles que dizem. Não era isso que eu queria fazer. Não foi por isso que me tornei auror."
"Mas você é bom nisso."
"Eu não quero ser bom nisso."
"Não é escolha sua."
Lathe olhou para ele, quase implorando agora. "Não vou mais fazer isso," disse ele. "Encontre outra coisa para eu fazer."
Em qualquer outro dia, Moody teria bradado que Lathe não podia escolher, mas hoje ele ficou quieto enquanto voltava o olhar para os enlutados de preto. "Conversamos depois," murmurou ele.
Com todos lotando o memorial e as placas, Lily decidiu não ir até lá. Talvez dentro de pouco tempo, se o movimento diminuísse, mas por enquanto ela se desconectou da reunião e se afastou pelo campo. A ruiva caminhou por um minuto ou dois, e então o caminho começou a descer, inclinando-se suavemente até a linha das árvores, a uma dúzia de metros adiante. Lily fez uma pausa, sentindo o vento leve, mas frio, e olhando para a floresta, vividamente verde sob o céu prateado. Então, ela se sentou na grama.
Lá fora, em algum lugar na vastidão, provavelmente distante, mas só Merlin sabia onde, havia um bruxo – o bruxo que matara Sam, deixara Emmeline Vance viúva, reunira todos eles em Alston Glade, e agora havia um pedaço de mármore e muitas placas de bronze para homenageá-lo. Talvez ele estivesse orgulhoso de si mesmo.
Ela dissera seu nome no bar há dois dias. Voldemort. Simples assim, sem qualquer lampejo de medo... sem sequer reconhecer que deveria ter medo. Mesmo agora, tentando imaginá-lo (ela percebeu que não sabia como ele era... havia muitos rumores sobre pele pálida e olhos vermelhos, mas nunca viu o rosto dele, viu?), Lily não conseguia achar razões para temê-lo ou para temer o que ele poderia fazer com ela. Ele poderia matá-la, como matou Sam, e embora ela quisesse muito viver, e a ideia certamente a incomodasse, não a aterrorizava. Isso, ela pensou, era destemor.
A bruxa olhou por cima do ombro para os outros; estava mais longe do grupo do que esperava. Eles eram uma grande massa de vestes negras, exceto por um, que se dirigia a ela.
"O que está fazendo aqui, Evans?" indagou James, quando estava perto o suficiente. "Se escondendo?"
"Não muito bem, eu acho," respondeu Lily. Ela o viu se aproximar e depois se sentar ao seu lado. "Como você está?"
"Bem... eu acho que minha foto estará n'O Profeta, já que tiraram umas cinquenta fotos minhas com mamãe e papai. Mas já era hora... meu rosto nos jornais, quero dizer."
"Dê as pessoas o que elas querem."
"Exatamente."
Lily sorriu. Eles não estavam se tocando agora – a luz severa do dia e tudo mais, mas ela se sentia perfeitamente à vontade e achava que ele também se sentia assim. "Você vai voltar para os Shacklebolt?" ele perguntou sem rodeios.
Lily balançou a cabeça. "Acho que não. Acho que quero voltar a Hogwarts amanhã."
"As aulas não começam até quinta-feira..."
"Eu sei, mas... só acho que já é hora."
"Eles vão deixar você ir?"
"Não vejo por que não. Outros alunos ficaram no castelo, não é?"
"Acho que sim." Após uma breve pausa, James mudou de posição e agora a encarava, com um brilho intenso e determinado em seus olhos, que só aumentou a multiplicidade de emoções que a invadiam naquele momento. Se ela pudesse acalmar todas elas e não sentir nada: se ao menos a visão de James em sua plenitude novamente, em meio a todos aqueles bruxos e bruxas familiares e adultos, não a levassem de volta a outro dia: ela sendo apresentada a Sam em seu chapéu marrom e a alegria ingênua dos jogos de cartas na cela. A ruiva desviou o olhar para as árvores de novo, porque isso era mais fácil, até ele começar a falar novamente: "Há algo que eu queria te dizer."
"Eu acho que estava errada ontem à noite... acerca do que disse sobre a guerra."
"Eu não..."
"Eu sei que é sobre você," interrompeu ele. "Sobre os nascidos trouxas, eu sei disso, mas todas aquelas pessoas no M.P.P. também faziam parte disso. Esse era o objetivo deles, sabe... fazer parte disso, e é o meu também, o de Sirius, de Remus, de Pete, dos meus pais e de todos nós. O que eles... o que ele quer e os Comensais da Morte querem... está errado. Não é apenas errado para você... é errado para todos. Então, tem tudo a ver conosco."
"Eu não quis..."
"Eu sei." James parecia calmo; ele até sorriu um pouco. Determinado, intenso. "Eu sei que você não quis dizer que não é da nossa conta ou algo assim. Você quis dizer que... que pessoas como Sam não deveriam ter morrido. Os Comensais da Morte não têm nenhum problema com o status sanguíneo dele. Mas ninguém deveria morrer por isso e… e o que quer que aconteça nisso tudo, a culpa não é sua."
Era isso que ele estivera tentando dizer o tempo todo, pensou o rapaz. Desde que ela lhe entregara a carta na sala dos monitores e soubera, antes que ele estivesse disposto a acreditar, que Sam estava morto, ele sentiu como se ela o tivesse matado. Como se ela prever aquilo tornasse a situação verdade. Como se sua existência, estando no centro da causa de Sam, significasse que ela era culpada. E havia algo mais...
"Eu falei... eu te disse que não sabia por que Sam gostava de você, mas não era verdade. Ele me contou no casamento de Frank e Alice..." Doía lembrar disso, da penumbra do bar e da leve sensação de intoxicação e puro contentamento, mas ela segurou sua mão na noite anterior e entendeu, e ele queria dizer isso de qualquer maneira. "Ele disse que você amava tudo. Ele alegou que viu isso imediatamente, não sei se é verdade, mas ele disse que você olhava para o mundo e via as coisas boas, e que você tinha uma 'boa energia...' o que é algo muito estúpido, bem típico de Sam, mas... bem, aí está."
Lily baixou o olhar. "Isso é... sabe, acho que é a coisa mais legal que alguém já disse sobre mim."
James exalou pesadamente. "Bem, você está contando com quando eu disse que você seria bonitinha se suas sardas desaparecessem?"
As coisas estavam leves novamente. "Claro que não," disse Lily, "essa foi a melhor de todas."
"Ahh, bom." Como ele conseguiu fazer a próxima declaração Lily não sabia, pois ele não tirou os olhos dela, mas falou: "Outros estão por vir."
Os outros em questão eram Sirius, Remus, Peter e Marlene, que logo se juntaram a eles no gramado. Sirius caiu na grama primeiro, bem ao lado de Lily, e disse: "Vocês dois deveriam ter filhos. Podem imaginar a loucura dos cabelos? Vermelho brilhante e apontando para todas as direções. Um caos."
Lily e James escolheram ignorar isso, a primeira cumprimentando Marlene e perguntando a ela: "Mary está aqui?
"Aham, está dando uma olhada no memorial." Ela se sentou à direita de Sirius, enquanto Remus e Peter escolheram lugares ao lado de James. "Acho que foi uma cerimônia legal."
Os outros apenas murmuraram vagamente em resposta. Os seis ficaram em silêncio até Remus falar: "É realmente uma guerra, não é?" disse ele sombriamente. "Eu nunca pensei nisso assim antes. Não de verdade. Uma batalha ou uma causa, talvez, mas uma guerra..." ele parou. "Eu nunca entendi."
"Nem eu," disse James.
"Não," concordou Marlene.
Peter balançou a cabeça.
Sirius não disse nada, e Lily pensou que ele deveria entender por que ela também permaneceu em silêncio. Era diferente para eles. Há muito tempo os dois foram forçados a escolher ou aceitar um lado naquela guerra. Desde o momento em que soube que existia magia, ela soube que havia conflito. E Sev dissera que não importava nascer bruxa ou trouxa, e isso tinha sido reconfortante, mas ela sabia que não era verdade, porque importava para Petunia. E, depois, importou para alguns colegas de escola; a ruiva não conseguia se lembrar de um mundo mágico em que não existisse conflito acerca da existência dela.
E Sirius... a infância de Sirius não tinha sido como a infância dos outros. Talvez eles pudessem se lembrar de um mundo que não era dividido. Mesmo Remus, cuja inocência lhe foi roubada, não havia crescido em uma casa que amaldiçoava sangues ruim e traidores do sangue. Talvez ele e os outros estivessem melhor protegidos. Marlene tinha uma mãe entusiasmada, uma melhor amiga que a acompanhou a Hogwarts, e a segurança de um dormitório da Grifinória que não se importava com sua presença. Mas Sirius, com sua família no centro da guerra, e ele encontrando seu caminho do outro lado da linha – quase sozinho –, foi forçado a ter consciência da escolha que teria que fazer. Foi uma escolha feita talvez de forma petulante, talvez pela amizade de alguém que ele ainda não conhecia, talvez por pura rebelião, ou talvez por ele ser melhor que seus familiares, mesmo estando inserido em um amargo conflito interno que certamente deixou suas cicatrizes.
James, Remus, Peter e Marlene nunca tiveram seus corações divididos dessa forma, e não conheceram a guerra até estarem diante do campo de batalha. Por outro lado, talvez eles agora estivessem mais conscientes que qualquer um.
Lily passou o braço pelo de Sirius, numa estranha demonstração de solidariedade que esperava que ele reconhecesse. "Vocês querem voltar?" perguntou ela. "Vi Frank e Alice mais cedo e gostaria de dizer oi."
Suspirando, Sirius se levantou e a ajudou a se levantar. "Tudo bem," disse Marlene, "mas eu vou embora em um minuto..." Diante da sobrancelha erguida de Lily, ela lhe enviou uma espécie de sacudida de cabeça que dizia explico depois e limpou a grama de sua capa.
"Vocês acham que haverá muitos desses tipos de coisas?" perguntou Peter enquanto voltavam.
"Claro," respondeu Sirius. "Eu me preocuparia em comprar minhas próprias vestes, mas Prongs tem cerca de sessenta delas..."
"Não seja sombrio, Sirius," repreendeu Remus.
"Não estou sendo. Ele possui literalmente sessenta..."
"Não é ser sombrio, é ser realista," disse Marlene severamente. "Não podemos fazer nada sobre isso, podemos?"
James olhou para Lily, e ela estava olhando para ele também. A ruiva lhe lançou um sorriso sombrio e triste, e ele acenou com a cabeça. Eles não disseram mais nada, mas pareciam, naquele momento, entender um ao outro.
(The Lantern, Camden, Oito Meses Depois)
"À Ordem e ao velho e louco Dumbledore?" Lily repetiu o brinde em tom de zombaria que seu namorado fizera antes, e James imitou seu sorriso, batendo o copo contra o dela, antes de acrescentar: "E à batalha."
O álcool teve um pequeno papel na tontura que James sentiu após esvaziar o copo, pois o calor da taberna, típico do mês de julho, e a agitação geral do dia contribuíram, e ele decidiu tomar outra dose de uísque com refrigerante.
"Ao menos que já esteja farto disso por enquanto," brincou Lily, descansando a cabeça no peito dele. "De lutar, quero dizer."
"Ah, o que é uma experiência de quase morte aqui e acolá entre velhos amigos?"
"Hum, pessoalmente, não vejo como as pessoas estudam para os N.I.E.M.s sem vivenciar ao menos uma delas."
"Não teria outro jeito."
"Deixa a vida interessante."
"Sim, exatamente." Mas ele não se sentia tão irreverente quanto deixou transparecer, e James deu um beijo no topo da cabeça de Lily. Ela respondeu pousando o copo agora vazio e passando os braços em volta da cintura dele. "Mas pelo menos agora temos chance… com a Ordem e tudo mais," acrescentou ele em um tom sério. Lily ficou tensa.
"Eu te disse que teríamos. É claro que houve algumas situações perigosas, então nada de se arriscar de forma estúpida, o.k.?"
"Você primeiro."
"Mas estúpida é um termo tão vago..."
"Aham, bem, vamos trabalhar em uma definição, então, Snaps?"
"Unhum," murmurou ela indistintamente contra a camisa dele.
"Não adormeça aí," disse ele, enquanto ela relaxava contra ele. "Vamos encontrar os outros em meia hora."
"Um pouco cedo para o jantar, não é?"
"Marlene e Adam não podiam mais tarde." Mas James se arrependeu de ter mencionado isso, pois Lily suspirou e tornou a se sentar, separando-se dele.
"Vamos andando, então?"
"Sim, tudo bem."
Eles saíram da cabine. Lily acenou educadamente para o barman e, enquanto se dirigiam à porta, ela pegou a mão de James e disse: "Sabe de uma coisa?"
"Hum?"
"Eu meio que te amo."
"Sério? Que bom."
Lily revirou os olhos quando ele largou sua mão apenas para colocar o braço em volta de seus ombros. "Mas eu também te odeio."
James sorriu. "Essa é uma reação bastante comum, meu amor." Então, ele abriu a porta e eles saíram pela calçada.
N/T: Bom, pessoal, é isso! Chego ao fim da tradução do que a Jules disponibilizou dessa fic incrível pra gente. Fico feliz de ter concluído o trabalho, mas triste por fazer tanto tempo da última atualização, o que indica que ela realmente abandonou essa história. Acho que não saberemos quem era o bruxo mais velho do prólogo, infelizmente... Mas, enfim, caso um dia ela retome, procurarei fazer a tradução. Foi uma ótima aventura traduzir uma fic que amo tanto, agradeço demais a todos que acompanharam, que comentaram e me deram estímulo para não deixar o trabalho no meio do caminho. Comecei a tradução há 7 anos, muita coisa aconteceu em minha vida nesse tempo, então foi algo que me acompanhou ao longo da minha jornada nos concursos, meu casamento, minha gravidez e agora o nascimento do meu bebê, que tem apenas 5 dias 3 Com o coração cheio de satisfação, portanto, entrego o último capítulo da fic a vocês! Boa leitura!
