Capítulo 33

Medo

"The truth is hiding in your eyes."

"Decode" - Paramore.


Harry acabou por esbarrar com Sibila Trelawney quando entrava no gabinete do diretor. A professora parecia bastante irritada por estar sendo, gentilmente, convidada a se retirar por Dumbledore. O rapaz fechou a porta assim que a professora saiu batendo os pés.

— Ela ainda está brava por Firenze estar dando aulas. — Dumbledore comentou. — Sente-se, Harry.

— Elizabeth não vem, senhor?

— Bem — o mais velho parecia confuso —, eu espero que venha.

A porta abriu logo que Dumbledore terminou de falar. Elizabeth adentrou nervosa e se sentou rapidamente na cadeira habitual.

— Demorei muito? — Perguntou num tom desconcertado.

Harry e Dumbledore observaram a mulher; Harry embaraçado e Dumbledore curioso. Elizabeth corou e passou a mão nos cabelos revoltos e ajeitou a blusa amarrotada. Dumbledore, que possuía um olhar misto de malícia e desaprovação, provocou:

— Severo está bem?

— Pelo menos, quando o deixei, ele estava ótimo — ela entrou na provocação e Harry tossiu. — Ah, Harry. Perdoe-me.

— Bem, já que estamos todos aqui — iniciou Dumbledore —, devo perguntar, Harry, se cumpriu a tarefa que deixei na aula anterior.

O garoto pareceu envergonhado por um momento e explicou ao diretor que tentou uma abordagem após uma das aulas de Slughorn, mas o professor o rechaçou. Argumentou, também, que com as pendências das aulas de aparatação, quadribol e o recente incidente do melhor amigo, a tarefa de Dumbledore fora deixada de lado. O mago pareceu compreender o garoto, mas reforçou que continuar as aulas sem a lembrança verdadeira de Slughorn era inútil.

— A partir de agora essas lembranças se tornam mais obscuras e precisaremos exercitar nossa imaginação. Se encontrar resquícios do garoto Riddle foi difícil, bem, imaginem que não foi nada fácil encontrar quem atravesse compartilhar lembranças do homem Voldemort. E tenho duas últimas lembranças para mostrar a vocês.

Antes de verem a lembrança, que pertencia a uma elfa doméstica chamada Hóquei, Dumbledore explicou que Tom Riddle se formou em Hogwarts com notas espetaculares e com o Prêmio Especial por Serviços Prestados à Escola. Todos os professores esperavam grandes feitos de Riddle e parte do corpo docente até mesmo se dispôs a arranjar entrevistas de emprego para ele. Qual foi a surpresa de todos quando souberam que o rapaz estava trabalhando na Borgin & Burkes.

— Na Borgin & Burkes? — Questionou Harry.

— Sim, Harry. — Dumbledore respondeu. — E vocês imaginarão as atrações que o lugar oferecia a ele quando entrarmos na lembrança de Hóquei. Mas, poucos sabem disso, Tom tinha outra opção de emprego. Ele pediu a Dippet, o diretor da época, o cargo de professor de Defesa Contra as Artes das Trevas.

— Como assim? Ele queria continuar em Hogwarts?

— Acredito que havia três motivos fortes para isso. O primeiro é que Hogwarts fora o primeiro e único lar de Voldemort. Ele se apegou ao castelo como nunca se apegou à pessoa alguma. — Elizabeth notou, naquele momento, que Dumbledore a olhou de soslaio. Logo ele continuou — Segundo, Hogwarts é fonte de magia muito antiga. Imagino que ele procurava tirar proveito disso. E o terceiro motivo, é claro, ele esperava se aproveitar de sua posição como docente para aliciar jovens bruxos à sua causa. Mas Dippet não o admitiu. Achava-o muito novo para ser professor. Eu mesmo o aconselhei a não o aceitar. Não queria Voldemort pelo castelo.

"Pois, bem, ele começou a trabalhar na Borgin & Burkes. Porém, bonito, inteligente e educado como era, ele logo deixou o cargo de um simples vendedor e passou a atuar numa posição que exigia dele persuasão para convencer os donos a venderem seus objetos. Dizem que ele era muito talentoso nisso."

— Aposto que sim. — Elizabeth comentou, ainda incomodada com o olhar de Dumbledore.

— Agora iremos ouvir o que conta Hóquei. Ela era elfa de uma bruxa chamada Hepzibá Smith.

O diretor entornou o líquido prateado na Penseira e os três se debruçaram sobre o objeto, sendo transportados para uma sala de estar ampla, que comportava uma senhora muito gorda, de peruca ruiva. Trajava um vestido bufante rosa e passava blush nas bochechas já muito vermelhas, enquanto a elfa muito velha calçava na mestra uns sapatos com pedrarias.

— Rápido, Hóquei! — Falou Hepzibá. — Ele disse que viria às quatro e, até hoje, ele nunca se atrasou.

A velha guardou a maquiagem e se mirou no espelho que segurava.

— Como estou?

— Belíssima, madame.

Naquele exato minuto, a campainha soou. Hóquei correu pela sala abarrotada de coisas, e Elizabeth se surpreendeu pela elfa conseguir se mover sem derrubar nada. A elfa retornou logo, acompanhada de Tom Riddle, mais bonito do que nunca. Trajava um terno preto simples, os cabelos estavam ligeiramente maiores e agora começava a adquirir uma aparência mais madura. Ele se precipitou pela sala, desviando dos cacarecos como se já estivesse habituado ao local, segurou as mãos de Hepzibá fazendo mesura e lhe estendeu um bonito buquê.

— Menino levado! Não precisava. — Hepzibá disse com a voz esganiçada, apesar de já reservar um vaso para o buquê. — O que sua namorada vai pensar?

Elizabeth e Harry se entreolharam, confusos. Dumbledore continuava sereno.

Riddle sorriu encantador e respondeu:

— Ela entenderá a gentiliza, ainda mais para a senhora, Sra. Smith.

— Vocês jovens... — sorriu-lhe. — Na minha época, as mulheres eram mais ciumentas.

— Ela, na verdade, é alguns anos mais velha do que eu.

— Gosta de mulheres mais velhas, Tom? — Hepzibá perguntou num tom explicitamente malicioso.

— Gosto, particularmente, dessa mulher. — Riddle deu o assunto por encerrado.

— Bem, sente-se, sente-se. Onde está Hóquei? Ah, aí está.

A elfa vinha com uma bandeja servindo bolos e chá. Depositou a bandeja sobre a mesinha de centro e logo saiu.

— Sirva-se, Tom. Sei que gosta dos meus bolinhos. Está pálido, querido. Estão fazendo você trabalhar muito.

Voldemort sorriu mecanicamente e Hepzibá retribuiu com outro sorriso.

— Bem, qual é a desculpa para a visita desta vez? — Bebericou o chá.

— O Sr. Burke gostaria de fazer uma oferta melhor pela armadura feita pelos duendes — dizia em tom profissional, mas sempre mantendo um sorriso enviesado. — Quinhentos galeões. Ele acredita ser um preço justo.

— Ora, vamos com calma ou pensarei que só veio aqui por causa das minhas bugigangas. — Fez beicinho.

— Sou mandado aqui por causa delas. — Voldemort respondeu em voz baixa. — Sou apenas um pobre balconista, madame, que cumpre ordens. O Sr. Burke quer que eu indague...

— Ah, deixe Burke para lá! — Exclamou. — Tenho uma coisa para te mostrar que jamais mostrei ao Sr. Burke! Você pode guardar segredos, não é, Tom? Promete não contar ao Sr. Burke? Ele não me daria descanso se soubesse... Pedi Hóquei para trazer.

Tão logo a elfa surgiu novamente na sala bagunçada. Dessa vez trazia consigo dois pacotes, que depositou também na mesa de centro. Hepzibá se adiantou e abriu o estojo de couro. Dentro estava uma pequena taça dourada. A senhora encorajou o jovem Riddle a pegar para ver mais de perto. Voldemort girou a taça em seus dedos e prendeu os olhos na marca gravada no dourado.

— Uma insígnia. — Voldemort murmurou. — Isto era...

— De Helga Hufflepuff, como você bem sabe, seu danadinho! — Exclamou Hepzibá, interrompendo Riddle. Curvou-se para apertar a bochecha do rapaz, seu espartilho estalando pelo movimento. — Não havia lhe contado que sou descendente distante de Helga? A taça vem passando de geração em geração na família. É linda, não é? E possui vários poderes também, mas nunca testei todos...

Seu espartilho fez outro som constrangedor quando ela se curvou de novo, pegando a taça das mãos do rapaz. Hepzibá estava tão absorta pondo a taça na posição exata que se encontrara antes, que não percebeu a sombra que passou pelo rosto bonito de Voldemort.

— Agora, onde está Hóquei? Ah, aí está — a bruxa disse alegre. — Leve isto de volta.

Hepzibá voltou-se para o outro pacote remanescente sobre a mesa de centro. Ela o trouxe até o colo enquanto tagarelava:

— Acho que vai gostar ainda mais deste, Tom — sussurrou. — Chegue mais perto para ver melhor. É claro que o Sr. Burke sabe que tenho ele. Ora, comprei-o diretamente com ele.

Ela abriu a caixa e dentro, sobre o forro de veludo vermelho, descansava o medalhão de Slytherin. Voldemort, desta vez, não esperou por nenhum convite, e logo se curvou para pegar o medalhão em mãos.

— É a marca de Slytherin — disse baixinho, fitando o S floreado e serpentino. Elizabeth achou ter visto um lampejo vermelho nos olhos dele.

— Exatamente! — Hepzibá exclamou encantada com o fascínio de Voldemort. — Paguei uma fortuna nele, mas não poderia deixar passar a chance de ter um tesouro desses na minha coleção. O Sr. Burke disse que comprou de uma mulher esfarrapada, que, pelo visto, roubou ele.

Desta vez não houve engano, tanto Elizabeth quanto Harry notaram o vermelho brilhar nos olhos de Voldemort, que segurava o medalhão com tanta força que os nós dos dedos embranqueceram.

— Acho que Burke pagou uma mixaria à mulher — a bruxa continuou. — É bonito, não é? Dizem que também possui poderes, mas prefiro apenas mantê-lo em segurança.

Ela se adiantou para pegar o medalhão. Harry e Elizabeth acharam que ele se recusaria a devolver, mas prontamente ele escorregou o medalhão para as mãos de Hepzibá, que logo o guardou novamente na caixa.

— Bem, Tom, espero que tenha gostado — ela disse olhando-o fixamente e, pela primeira vez, seu sorriso vacilou. — Está tudo bem, querido?

— Sim — respondeu quieto. — Estou sim.

— Pensei... Bem, deve ter sido uma ilusão de ótica. — Hepzibá desviou o olhar. Com certeza também deve ter visto a vermelhidão nos olhos de Voldemort. — Hóquei, leve isto também.

— Hora de voltarmos. — Dumbledore declarou, e, poucos segundos depois, todos estavam de volta ao gabinete.

Eles se acomodaram em suas respectivas poltronas.

— Começo dizendo que Hepzibá Smith foi encontrada morta, dois dias depois. Hóquei foi condenada pelo Ministério, acusada de ter envenenado o chocolate quente de sua senhora, por engano.

— Não acredito! — Harry esbravejou.

— Pois é. Com certeza há muitas semelhanças entre essa e a morte dos Riddle. Nos dois casos, outra pessoa levou a culpa pelas mortes, alguém com lembranças perfeitas sobre o acontecimento.

— Hóquei confessou?

— Ela se lembrou de ter colocado alguma coisa no chocolate. A investigação concluiu que não tinha sido açúcar e, sim, um veneno raro e letal. — Explicou Dumbledore. — Concluíram que não houve intenção, pois Hóquei já estava velha e confusa.

— Voldemort alterou a memória dela também, não é?

— Foi o que concluí também. E o Ministério estava predisposto a suspeitar de Hóquei...

— Porque era uma elfa. — Elizabeth concluiu com pesar.

— Precisamente. — Dumbledore respondeu. — Ela já estava velha e admitiu ter misturado a bebida, os investigadores não viram porque indagar mais. Assim como o caso de Morfino, quando consegui vê-la, já estava à beira da morte. Mas a lembrança, também, não comprova que Voldemort foi o autor do homicídio, apenas que tinha conhecimento sobre a taça e o medalhão.

O diretor continuou explicando que, depois da condenação de Hóquei, a família de Hepzibá dera falta dos dois tesouros mais valiosos, mas que isso demorou devido à quantidade exorbitante de pertences que a bruxa possuía. Mas antes que pudessem dar conta da falta da taça e do medalhão, Tom Riddle, o balconista da Borgin & Burkes, o jovem que visitava Hepzibá com tanta frequência e que a encantara tanto, tinha se demitido e sumido. Seus empregadores ficaram tão surpresos quanto os demais. E, durante muito tempo, aquela havia sido a última vez que alguém ouvira falar nele.

— Agora — continuou o diretor —, se vocês não se opuserem, gostaria de inserir um parêntese aqui. Voldemort tinha cometido mais um assassinato. Se era o primeiro desde que matara os Riddle, eu não sei, mas acho que sim. Mas desta vez, como devem ter percebido, ele não matou por vingança, mas por lucro. Queria os dois troféus que aquela pobre mulher vaidosa mostrou a ele. Da mesma forma que roubara aquelas crianças no orfanato, como roubara o anel de Morfino, ele agora fugia com a taça e o medalhão.

"E agora vamos à última lembrança. Bem, pelo menos a última até você conseguir a do professor Slughorn, Harry. A lembrança que vamos visitar agora é minha, e aconteceu dez anos depois da de Hepzibá."

Os três rodopiaram novamente pela Penseira, encontrando de novo o gabinete do diretor. A única diferença para o atual era a neve que caía lá fora. Fawkes estava pousada graciosamente no poleiro e um Dumbledore já muito parecido com o atual – apenas sem a mão enegrecida e menos rugas – parecia esperar por alguém.

Uma batida à porta logo foi ouvida e Dumbledore pediu para que entrasse. Elizabeth estremeceu ao ver Tom Riddle dez anos mais velhos. Ele não era, ainda, como estava atualmente. Sua beleza se esvaía aos poucos. A pele estava pálida e macilenta, suas feições pareciam estar distorcidas e contraídas. Parecia estar mais magro também. Trajava uma longa capa preta e retirava a neve sobre os ombros.

— Boa noite, Tom. — Dumbledore disse calmamente. — Quer se sentar?

— Obrigado — agradeceu ao se sentar. — Soube que se tornou diretor. — Voldemort possuía, agora, a voz mais fria e sem emoção. — Foi uma escolha merecida.

— Fico satisfeito que tenha aprovado — disse o diretor sorridente. — Posso lhe oferecer alguma bebida?

— Seria bem-vinda. Vim de muito longe.

Dumbledore se dirigiu ao armário onde agora guardava a Penseira, e que, naquela época, estava cheio de garrafas. Serviu duas taças de vinho e voltou a se sentar após dar a bebida para o outro homem.

— Então, Tom, a que devo o prazer?

Voldemort bebeu um pequeno gole do vinho antes de responder.

— Não me chamam mais de Tom. Hoje em dia sou conhecido como...

— Eu sei como é conhecido. — Dumbledore o interrompeu, mas ainda sorria agradavelmente. — Mas para mim, receio, que você sempre será o Tom Riddle. É uma das coisas irritantes dos antigos professores. Eles nunca esquecem a juventude de seus alunos.

O diretor ergueu a taça como se brindasse a Voldemort, cujo rosto permaneceu inexpressivo. Tanto Elizabeth quanto Harry conseguiram perceber que a atmosfera do gabinete mudara sutilmente. A recusa de Dumbledore em usar o nome escolhido por Voldemort era uma recusa a permitir que o homem ditasse os termos do encontro e, Elizabeth e Harry notaram, Voldemort percebeu isso.

— Estou surpreso que ainda esteja aqui após tanto tempo — recomeçou Voldemort após uma breve pausa. — Sempre me perguntei por que um bruxo como o senhor jamais quis deixar a escola.

— Ora — Dumbledore ainda sorria —, para um bruxo como eu, não há nada mais importante do que transmitir as artes antigas, ajudar a afinar a mente dos jovens. Se me lembro bem, no passado você também se sentiu atraído pelo ensino.

— Ainda me sinto — disse Voldemort. — Simplesmente me perguntei por que você, a quem o Ministério já pediu conselhos tantas vezes, e a quem já foi oferecido, acho, duas vezes o posto de ministro...

— Na realidade, foram três vezes. Mas o Ministério nunca me atraiu como carreira. Mais uma coisa que temos em comum, acredito.

Voldemort curvou a cabeça sem sorrir, voltando a bebericar o conteúdo rubro da taça. Um breve silêncio se estendeu entre os dois, e foi Voldemort quem o quebrou.

— Voltei, talvez mais tarde do que o professor Dippet esperava, mas voltei, mesmo assim, para solicitar o que ele uma vez me recusou alegando que eu ainda era jovem demais. Vim procurá-lo para pedir que me permita retornar a este castelo como professor. Acho que deve saber que vi e fiz muitas coisas desde então. Eu poderia mostrar e contar coisas aos seus alunos que não poderiam aprender com qualquer outro bruxo.

O diretor o fitou por cima da taça antes de falar.

— Certamente eu sei disso — disse Dumbledore muito calmo. — Os rumores sobre seus feitos chegaram até nós, Tom. E eu lamentaria ter que acreditar sequer na metade deles.

— A grandeza inspira inveja — sua expressão não se alterou —, inveja engendra o despeito, o despeito produz a mentira. Você deve saber disso, Dumbledore.

— Você chama de "grandeza" o que tem feito?

— Sem dúvida — os olhos de Voldemort brilharam. — Levei as possibilidades da magia a extremos que jamais alguém levou...

— De alguns tipos de magia. — Dumbledore corrigiu-o educadamente. — De outros, eu temo dizer, você continua lamentavelmente ignorante.

Voldemort, então, sorriu pela primeira vez. Era um sorriso de completo escárnio e arrogância, quase ameaçador, mas que resgatara um pouco da beleza que ele teve um dia.

— O mesmo velho argumento — disse brandamente. — Mas nada que vivi corroborou com suas famosas declarações de que o amor é mais poderoso do que o meu tipo de magia.

— Talvez procurou no lugar errado — o diretor declarou com firmeza.

Elizabeth percebeu o Dumbledore do presente vacilar por alguns segundos. Ela achou ter percebido os olhos do padrinho a fitarem rapidamente.

— A magia mais poderosa do mundo não deveria sucumbir à morte. — Voldemort rebateu num tom muito duro. Sua voz tremeu ligeiramente, mas logo retornou ao normal. — Então, que lugar melhor para começar minhas novas pesquisas do que aqui, Dumbledore? Você me deixará voltar? Você me deixará dividir meu conhecimento com seus estudantes? Coloco a minha pessoa e meu talento à sua disposição. Estou às suas ordens.

Dumbledore ergueu as sobrancelhas.

— E o que acontecerá àqueles que seguem as suas ordens? Aqueles que, segundo aos boatos, se minha memória não falha, se intitulam Comensais da Morte.

Harry e Elizabeth notaram que Voldemort não esperava que o diretor tivesse conhecimento daquele nome. Seus olhos pareceram faiscar novamente e suas narinas se inflaram.

— Meus amigos — disse após uma pausa — prosseguirão sem mim, tenho certeza disso.

— Fico contente ao ouvir que os considera amigos. Pelo que soube, estavam mais para servos.

— Está enganado.

— Então se, hoje à noite, eu fosse ao Cabeça de Javali, não encontraria Nott, Rosier, Mulciber, Dolohov a sua espera? Amigos verdadeiramente dedicados, se me permite dizer. Fizeram uma longa viagem com você, sob uma nevasca, para lhe desejar boa sorte na tentativa de emprego.

Voldemort ficou claramente ainda mais insatisfeito pelo comentário detalhado sobre o grupo, e rebateu quase imediatamente.

— Continua onisciente, Dumbledore.

— Ah, não... Apenas mantenho boas relações com donos de bares locais. — Dumbledore respondeu com simplicidade e Elizabeth lembrou-se de Aberforth. — Tom, vamos falar francamente. Por que veio aqui hoje, cercado de capangas, para tentar um emprego que você não quer?

— Um emprego que não quero? — Mostrou-se friamente surpreso. — Pelo contrário, diretor. Quero e muito.

— O que está procurando, Tom? Por que não experimenta pedir abertamente uma vez na vida?

Voldemort riu com desdém.

— Se você não quer me dar um emprego...

— Claro que não quero. E nem por um momento acho que você esperava outra resposta. Entretanto, mesmo assim, você veio e pediu. Logo, deve ter uma razão...

Voldemort se levantou abruptamente; o rosto em fúria, fazendo-o parecer, pela primeira vez, com sua atual aparência.

— Esta é sua resposta definitiva?

— Sim — o diretor também se levantou.

— Então não temos mais nada para conversar.

— Não, não temos — e uma tristeza notável estampou o rosto de Dumbledore. — Passou-se o tempo em que eu podia assustá-lo com um armário em chamas e forçá-lo a repensar sobre seus crimes. Mas quem me dera poder, Tom.

Voldemort pareceu mexer na varinha no bolso da calça, mas deu as costas e saiu do gabinete. Pouco tempo depois, todos os três estavam de volta para o escritório atual do diretor.

— Por que ele voltou? — Harry perguntou. — O senhor chegou a descobrir?

— Tenho ideias. Apenas ideias.

— Quais?

— Tudo ficará mais claro quando conseguir aquela lembrança, Harry. Ah, observem que nunca conseguimos manter nenhum professor de Defesa Contra as Artes das Trevas por mais de um ano depois que recusei o cargo a Voldemort. Bem, por hoje é só.

Harry e Elizabeth se levantaram para deixar o gabinete. Elizabeth já tinha a mão na maçaneta quando o garoto se voltou para o mago.

— Professor, Hepzibá falou sobre uma namorada. Voldemort realmente teve uma?

Elizabeth não soube dizer porque sentiu um embrulhar no estômago. Talvez fosse nojo ao pensar que alguém poderia se envolver com Voldemort.

Dumbledore pareceu considerar por alguns segundos e, por fim, respondeu:

— Acho que pode ter sido apenas uma história inventada para provocar simpatia em Hepzibá. Até porque, Harry, como já lhe disse uma vez, Voldemort não é capaz de sentir amor.

O garoto assentiu e atravessou a porta que Elizabeth mantinha aberta. Ela ouviu a gárgula se abrir e fechar para o garoto, e voltou-se para o padrinho.

— Ele amaldiçoou o cargo?

— Eu temo que sim

— Então é por isso que nunca quis dar o cargo pro Severo. Mas agora... Bem, ele não vai terminar o ano letivo como professor, não é?

Dumbledore balançou a cabeça negativamente e assistiu Elizabeth se virar para sair, mas antes que ela pudesse fechar a porta, ele disse:

— Eu sei o que ainda a incomoda na profecia — ela parou abruptamente e virou-se para observá-lo. — Você é muito inteligente, Lizzie, e isso não é só pelo seu sangue Ravenclaw, é algo inerente seu. Sei que a essa altura você já desvendou grande parte dos trechos da profecia.

Elizabeth respirou fundo e deu um passo de volta para dentro do escritório. Ela enumerou:

— "A garota nascida no despertar do novo ano", eu nasci no Ano Novo; "filha da constelação do norte", Cassiopeia é uma constelação do hemisfério celestial norte; "águia serpentina", eu sou descendente de Rowena e Salazar...

— Exatamente — balançou a cabeça. — Mas há um trecho ainda. — Dumbledore suspirou com pesar. — Sinto que, no fundo, você sabe quem sanará sua dúvida. Acho que sempre soube. Então não demore.

Elizabeth não disse mais nada, nem mesmo demonstrou alguma emoção. Fechou a porta do escritório, deixando seu padrinho para trás. O comentário de Dumbledore dera o clique que ela esperava.

E ela estava com mais medo do que nunca.


Notas da autora:

- Contém trechos adaptados da obra de J.K. Rowling "Harry Potter e o Enigma do Príncipe", 2005.

Olá, leitores! Essa fanfic já estava sendo postado em outros sites, então fiz uma pequena maratona para postar todos os capítulos necessários aqui e igualar as postagens. Todo sábado tem capítulo novo, e eu espero de todo coração que gostem dessa história. Beijão!