Capítulo 34

O segredo de Valentina

"I'm gonna tell you something you don't want to hear."

"Nightcall" – London Grammar.


Ele acordou com o toque sedoso dos lábios de Elizabeth em seu pescoço. Um leve mordiscar na pele pálida de Snape fez com que ele soltasse um grunhido grave. Severo só abriu os olhos quando sentiu os dedos ousados de Elizabeth alcançarem sua semi-ereção dentro da calça de moletom.

— Jones... — ele chamou em tom de advertência.

Elizabeth riu contra seu pescoço e desceu, abaixando a calça do homem ao mesmo tempo. Severo a encarou com a sobrancelha erguida, mas não disse nada. Ela sorriu e levou a boca ao membro dele, que suspirou audivelmente. Entrando na brincadeira luxuriosa dos dois, ele se ergueu minimamente, o suficiente para alcançar uma das pernas dela. Ele a puxou, o que fez com que ela soltasse um gritinho de espanto. Snape a pegou pelas pernas e colocou-a sentada sobre seu rosto, e ele não esperou nem mais um minuto para encontrar seus lábios no clitóris dela.

Após alguns segundos, que sentiu-se ficar fora de órbita, Elizabeth abaixou o tronco para encontrar novamente o falo que apontava para ela. O gemido de Snape enviou pequenas vibrações pela genitália da jovem mulher, que sentiu seu ponto de prazer pulsar. Ela precisou abandonar o pênis de Snape quando um gemido alto veio pela garganta. Ele ainda ergueu minimamente o quadril, em pedido para que continuasse, mas Elizabeth estava absorta demais no seu orgasmo iminente.

— Severo... — ela gemeu sofregamente. — Eu vou...

Ela não conseguiu terminar a sentença, pois seu corpo entrou em combustão – tremendo violentamente e fechou as coxas contra a cabeça do homem. Elizabeth deixou-se cair sobre o colchão, respirando profundamente, tentando encontrar o ar que Severo a retirara. O homem levantou e engatinhou até se pôr por cima de Elizabeth. Ela fitou com prazer o rosto molhado de Snape pela sua umidade e ele a beijou apaixonadamente ao mesmo tempo em que a penetrou com força.

Olhos nos olhos – castanhos presos nas obsidianas –, parecia que eles se comunicavam pelas íris e pupilas dilatas. Ele prendeu as mãos dele nas de Elizabeth e as pressionou contra o colchão, pegando impulso para se mover com mais força e rapidez. Elizabeth alcançou seu ápice na mesma hora em que Severo gozou, derramando-se sobre uma das coxas da mulher.

Ele escondeu o rosto entre o pescoço e ombro de Elizabeth, e ela acariciou seus cabelos negros. Snape, então, afastou-se enquanto a olhava com malícia.

— Bom dia? — Ergueu a sobrancelha.

— Bom dia — ela riu, mas seu sorriso logo vacilou.

Severo se afastou totalmente e sentou-se contra a cabeceira da cama, puxando Elizabeth pelas mãos para que levantasse o tronco também.

— O que foi?

— Eu sei que tínhamos combinado de passar o dia juntos — ela disse —, mas vou precisar ir até Blakeney hoje.

— Aconteceu alguma coisa? — Preocupou-se.

— Dumbledore, na última reunião que tivemos, me deu a direção que eu precisava.

— Como assim? — Franziu o cenho, não entendendo o que ela dizia.

— Não é Dumbledore que irá sanar minha dúvida sobre a profecia.

Snape afastou-se minimamente, pensativo, mas logo entendeu o que ela queria dizer. Ele assentiu com a cabeça e pegou a mão dela nas suas.

— Boa sorte.

— Obrigada.

ooOOooOOoo

A lareira acendendo subitamente em chamas verdes não pareceu assustar Valentina Jones, que tocava seu piano. Não pareceu surpresa, também, quando a neta saiu do fogo, espanando as poucas cinzas das roupas.

— Meus pais estão?

— Não, querida. — Valentina continuou a dedilhar as teclas. — Foram visitar Hector. Fiquei porque não estava me sentindo muito bem.

— Não parece surpresa com a minha vinda. — Elizabeth caminhou em direção ao instrumento e fechou delicadamente a tampa do teclado, obrigando a avó a parar de tocar.

— Eu sabia que viria. Dumbledore me avisou.

A idosa se levantou para sentar no sofá. Bateu na almofada ao seu lado, convidando a neta para se juntar a ela.

— Eu sei para que veio até aqui — disse assim que Elizabeth se sentou ao seu lado. — Mas preciso que me pergunte o que quer saber.

A jovem respirou fundo e fitou as mãos. Retornou o olhar para a avó – ela, Elizabeth, era a cópia quase perfeita da matriarca, talvez, exceto pelos olhos esverdeados da avó – e admirou-a, pensando que dali a muitos anos, quando estivesse enrugada, estaria muito parecida com a atual imagem da mulher que a fitava de volta.

— Eu ouvi a profecia que foi feita. — Elizabeth disse, por fim. — Analisei linha por linha, letra por letra, e deduzi praticamente todo o conteúdo.

Ela mordeu o lábio inferior e controlou a vontade repentina que sentiu de chorar. Cruzou as mãos sobre o colo e perguntou:

— Porém, um dos trechos diz sobre "o fantasma da única paixão do Lorde das Trevas". A senhora sabe dizer o que significa?

Valentina permaneceu impassível; olhava para a neta com um sorriso pequeno. Desviou os olhos por alguns segundos e endireitou a postura.

— "Paixão" não é a palavra que eu usaria — a mais velha comentou, voltando a observar a neta. — Bem, eu não imaginava precisar contar isso a você algum dia. Pelo menos, não até a profecia ser feita. Pois bem, então vamos lá.

"Eu nunca atendi aos padrões da minha época. Todas as outras moças já estavam noivas, antes mesmo de se formarem, enquanto eu traçava planos para me mudar. Estudar música na Alemanha, talvez. Mas meus pais, seu bisavô, mais precisamente, me arranjaram um marido. Christopher era um solteirão, quase dez anos mais velho do que eu, e ele procurava uma esposa pois os pais tinham morrido de tuberculose e ele descobriu que só teria acesso à herança quando se casasse. Seu avô era um homem muito exigente e estava decidido a se casar com a mais bela, a mais inteligente e virtuosa. Parece que havia uma primeira pretende, acho que alguma Malfoy, mas desistiu dela depois que me viu em um pequeno evento no verão de 33. Noivamos em 1934, quando me formei. Eu tive, então, uma ideia brilhante. Passei a agir como uma completa megera, achando que, assim, ele desistiria de se casar comigo. Eu o desrespeitava na frente da família, não tinha modos à mesa, flertava com outros homens na presença dele. Mas Christopher estava muito decidido. Ele não voltou atrás.

"Depois do casamento, eu ainda agi assim por algum tempo. Acredito que você saiba, Lizzie, que naquela época o pedido de anulação ou divórcio não podia ser feito pela mulher. Eu estava contando que seu avô me desse essa alegria, mas ele não deu. E, apesar de tudo, ele sempre me tratou muito bem. Acabei por cansar daqueles joguinhos e decidi tentar manter uma boa relação. Em 1936, eu engravidei. E, isso vai soar de modo terrível, mas aquilo foi a gota d'água para mim. Eu nunca quis ser mãe. Não me interprete mal, eu amo seu pai. Mas não, eu não queria um filho. A boa relação que havia se estabelecido entre mim e meu marido foi por água abaixo. Christopher não conseguia entender como uma mulher podia não querer a maternidade. Ele passava o dia inteiro no Ministério, trabalhando. O tempo que ficava em casa era totalmente dedicado ao Robert. Quando acontecia de nos encontrarmos pela mansão, brigávamos a ponto de assustar os empregados.

"Seu pai cresceu e se tornou menos dependente de mim. Eu taquei tudo pras alturas. Deixava Rob com a babá e saía, ia me divertir. Voltava só no dia seguinte, às vezes nem voltava. As pessoas fofocavam... Foi a primeira vez que Christopher ficou zangado com minhas atitudes perante ao casamento, mas porque elas afligiam Robert também. Foi nesse meio-tempo, já nos anos 40, que conheci Tom Riddle."

— Vó... — Elizabeth começou, mas foi interrompida.

— Deixe-me terminar. Se é para me odiar, que saiba a história toda antes. — Valentina demonstrou temor pela primeira vez. — Bem, eu conheci Tom em um bar. A Segunda Guerra havia acabado, todos comemoravam. Ele... Ele era lindo, charmoso, inteligente, tinha se formado há pouco tempo. Tom fazia eu me sentir jovem de novo, algo que eu tinha perdido com os anos.

"Mantivemos um caso por poucos anos. Ele me devotava. Me tratava como uma rainha; tudo o que uma mulher poderia desejar. Mas, então, ele começou a agir de maneira muito estranha. Estava apático, frio. Começou a agir de modo extremamente obcecado, um ciúme doentio. Falava sobre se tornar grande, reunir seguidores e me tornar sua milady. Eu tomei a decisão de encerrar nosso caso e ele teve uma reação muito estranha. Tom apenas sorriu e disse que eu iria me arrepender, porque se eu não fosse dele, então não seria de mais ninguém.

"A princípio, eu não tomei a ameaça como verdadeira. Foi um erro tremendo. Pessoas próximas a mim começaram a desaparecer, eram envenenadas, eu recebia encomendas amaldiçoadas, até mesmo brinquedos do Robert apareciam enfeitiçados. Ninguém entendia aquilo, Christopher muito menos. Achava que era algum rival do Ministério querendo atingi-lo. Até que, logo depois do assassinato de Hepzibá Smith, esses acontecimentos cessaram. E eu soube que, na mesma época, Tom se demitira do trabalho e desaparecera. Achei que ele havia desisto por exaustão, que tinha decidido se mudar para estudar e amedrontar outro lugar. E, mais uma vez, eu estava errada.

"Uns dois anos depois, eu me senti confiante novamente para sair. Acordei um dia e quis ir ao museu. Eu sempre gostei muito de passear como uma trouxa. Eu pegava o trem, o ônibus. Nesse dia, optei pelo táxi. Eu estava colada à janela, admirando a paisagem, vendo Londres se reerguer anos após a guerra. E ele estava lá. Eu o vi parado em uma das calçadas olhando para o táxi. Foi apenas um borrão, o carro estava em movimento, mas eu sabia que era ele. Percebi na hora que havia algo errado. Virei-me para falar com o motorista e foi quando notei que ele estava sob uma Imperius. Tentei pegar a varinha, mas não deu tempo. O motorista perdeu o controle, de propósito, e batemos de maneira... horrível."

Valentina deu um sorriso triste e Elizabeth percebeu o rosto que puxava mais para um lado do que para o outro. As peças começavam a se encaixar.

— Acordei do coma três meses depois. Perdi parte do movimento do lado esquerdo da face, perdi 40% do olfato e ainda tenho pequenos lapsos de memória. Dumbledore era um velho amigo da família e foi ele que estava ao meu lado quando acordei. Contei tudo a ele. Ele me disse que Tom não pararia até ter o que queria, então decidimos forjar a minha morte.

— O que disse para o meu avô? — Elizabeth se encontrava apavorada.

— A verdade.

— E ele continuou com a senhora?

— Elizabeth, seu avô me deu a maior lição que eu poderia receber. Minha sede desenfreada e inadequada por liberdade me pôs numa gaiola ainda mais terrível do que o casamento ou a maternidade. Minha negligência me prendeu dentro de mim mesma, numa casa isolada, onde minha única companhia era um cachorro e meu marido quando chegava do trabalho. Seu pai passava o ano todo em Hogwarts, praticamente. Christopher estava legalmente viúvo. Ele poderia ter seguido em frente, eu disse para ele que poderia e deveria me deixar. Ele disse que não me deixaria quando eu mais precisava dele. Foi só aí que eu percebi que Christopher realmente me amava. Em algum momento, naquele casamento desastroso, ele conseguiu se apaixonar por mim.

Valentina deixou as primeiras lágrimas caírem. Falar sobre Christopher era sempre um assunto delicado, sentia uma enxurrada de sentimentos, sendo o principal deles a culpa. Sentiu-se sozinha por muitos anos. Com a invenção de sua morte, Christopher e o filho viviam uma vida dupla. Mantinham a velha mansão em Great Wakering, mantinham amigos e familiares, todos acreditando que eram um viúvo e um órfão de mãe. Iam visitar Valentina em Norfolk periodicamente para não levantarem nenhuma suspeita.

A idosa secou as lágrimas e levou as mãos ao rosto da neta, que também chorava. Enxugou com os dedos enrugados o choro de Elizabeth e a olhou atentamente.

— Quero que tenha em mente, Lizzie, que eu jamais me envolveria com Voldemort se eu soubesse quem ele iria se tornar.

— Eu sei — a jovem soluçou.

— Você não é o fantasma de uma paixão. Você lembra ao Voldemort a sua maior obsessão. Ele não quer matá-la porque você é parecida com a primeira que se ergueu contra ele. Essa Valentina nunca existiu. Ele quer você ao lado dele, para que você seja o que ele queria de mim: a Lady das Trevas. Isso põem sua "estadia" na Mansão Malfoy sob uma perspectiva completamente nova. — Elizabeth encarou a avó com espanto. Valentina disse — Eu sei que Dumbledore morrerá e sei que Snape o matará. Dumbledore me contou tudo.

Elizabeth se afastou do toque da avó. Apoiou os cotovelos sobre as pernas e descansou o rosto nas mãos. Estava farta. Completamente exausta daquilo tudo. Quanto mais remexia, mais coisas vinham à tona. Parecia que a esperança de sair viva da guerra estava cada vez mais longínqua.

— É muito a se digerir. Sei que precisará de tempo.

A neta apenas assentiu com a cabeça e se levantou, alegando que caminharia um pouco para espairecer a mente. Quando alcançou a porta, ela virou-se para perguntar uma última coisa:

— A senhora o amou? O meu avô.

Valentina disse sem pestanejar:

— Sim. Mas acho que já era tarde demais.

ooOOooOOoo

Elizabeth andou por muito tempo debaixo do céu completamente nublado de Blakeney. Ela remoía tudo que sabia e, agora, tudo que havia descoberto.

Voldemort não tentaria matá-la. Ele não correria o mesmo risco, o mesmo erro que cometeu com Valentina. Pelo menos, não enquanto não soubesse que ela era a garota da profecia. Uma vez que soubesse que Elizabeth era a menina destinada pela profecia, Voldemort veria as coisas de uma maneira diferente. Talvez julgasse que se livrar de Elizabeth era muito mais importante do que ter uma esposa, uma milady.

Ela, definitivamente, não poderia passar por aquilo sozinha. Estava decidida a deixar a família à par do que aconteceria. Sabia como eram os Jones. Não descansariam até acabar com Snape se realmente acreditassem que ele era um traidor. Era questão de proteção contar a verdade aos pais e ao irmão. Não poderia deixar Severo em risco em meio a tanta coisa pela qual ele já passava.

Precisava, também, acertar com Snape e Dumbledore todos os detalhes sobre a morte do diretor e seu sequestro. Como ela precisaria agir para convencer a todos que havia sido ludibriada pelo Mestre de Poções? Como se defender do sequestro, mas deixando-se ser pega sem levantar suspeitas de que foi fácil demais? Eram todas questões que precisava analisar com calma. Precisava treinar sua Oclumência, sua magia defensiva e de ataque. Precisava praticar sua magia das trevas, mas sempre tomando o cuidado para que ela não tomasse conta de seu corpo.

Ela tinha menos de cinco meses para isso. O relógio ameaçava soar a qualquer minuto.

E foi quando o bater de sinos anunciaram as 16h que Elizabeth percebeu que chegara até a vila de Blakeney. A igrejinha parecia a olhar de volta. Um pequeno grupo saía pelas portas da igreja e Elizabeth adentrou, fazendo o sinal da cruz, como sabia que era o costume.

Sentou-se em um dos bancos mais afastados. Algumas beatas estavam ajoelhadas mais à frente, rezando pelos seus problemas e ente queridos. As senhoras saíram uma a uma. O padre, um homem baixinho de pela escura, os cabelos já grisalhos, acendia algumas velas no altar. Ele não se virou ao ouvir os passos de Elizabeth que se aproximavam, mas sorriu ao dizer:

— Esperava que viesse ter comigo. Senti que precisava de alento assim que entrou. — Ele se virou e encontrou uma Elizabeth assustada. O padre riu e se aproximou. — Sei reconhecer um coração desesperado, criança.

O homem sentou-se em um dos bancos e convidou Elizabeth para fazer o mesmo. Um pouco perdida e, até mesmo, tímida, ela não sabia como iniciar a conversa. Mas, mesmo assim, tentou.

— Padre, pode parecer uma pergunta tola, mas o senhor acredita no Diabo?

O religioso não pareceu surpreso com a pergunta. Ele fitou a imponente imagem de Jesus Cristo, que olhava por todos pregado em sua cruz.

— Veja — ele começou —, no cristianismo, o Diabo é a personificação do mal. É o anjo caído, Lúcifer, muitas vezes também chamado de Satanás. Em algumas religiões ele tem outro nome. Em outras, ele nem mesmo existe. Mas, às vezes, ele é uma coisa. Para os mais fervorosos, ele é a modernidade, a ciência, o diferente.

— Então... Não acredita? — Estava confusa.

— Deixe-me contar uma história, criança — ele sorriu, mas a garota viu que o padre possuía um semblante triste. — Eu cresci em Felixstowe, em Suffolk. Cidade pequena e tudo mais... Bem, acho que era 1960, e eu viajei para os Estados Unidos para continuar aprofundando meus estudos em religião em filosofia. As leis Jim Crow¹ ainda existiam, o racismo era lei naquela terra. Em uma noite, eu estava de carro com um amigo e vimos ao longe uma grande fogueira rodeada de pessoas vestidas em longos mantos brancos. A Ku Klux Klan² é ainda mais medonha vista tão de perto. Eu, um homem preto, senti minha espinha congelar. Vi e ainda vejo muitas atrocidades vindas daquelas pessoas, não só na América, mas aqui também. Eu vejo o Diabo nessas pessoas, criança. Então, respondendo a sua pergunta, sim, eu acredito que ele vive entre nós, tomando diferentes formas. Mas permite que eu pergunte o porquê da pergunta?

Elizabeth ainda digeria a experiência tenebrosa contada pelo padre e a repentina pergunta dele a pegou desprevenida. Perguntou aquilo porque achava que Voldemort era a grande personificação do mal. Porém, tinha consciência de que ambos partilhavam o sangue dos Slytherin e que as mãos de Elizabeth tinham um assassinato. Mesmo que em legítima defesa, era um assassinato.

— Eu estive me questionando sobre a maldade de outras pessoas — respondeu. — Me questionando se não sou tão diferente dessas pessoas que julgo tão perversas.

— Se pensa assim, mostra que tem um coração muito humilde e bom.

— Eu descobri muitas coisas nos últimos tempos. Coisas que mudaram a minha vida completamente, colocaram tudo de cabeça para baixo. Existe um... um dever à minha espera, mas não sei se consigo sozinha.

— Mas quem disse que está sozinha? Olhe em volta — o padre disse ao acenar para as diversas imagens distribuídas pela igreja. — Todos estão olhando por você. Não a deixarão sozinha. Mas, eu acho que, conheço um em especial que pode ajudá-la.

O padre se levantou e apontou para uma estátua em específico. Sorriu ternamente para Elizabeth e adentrou à sacristia.

Ela percebeu que outras pessoas começavam a chegar à igreja, à espera da próxima missa. Dirigiu-se até a imagem e a observou atentamente. O homem barbudo, trajado de verde e vermelho, segurava um livro e um cajado e olhava serenamente de volta para Elizabeth. Ela atreveu-se a chegar ainda mais perto da figura, olhando-a com temor e súplica.

— Eu já ouvi falar sobre o senhor. Não sei se meus pedidos caberão aqui. Sei que sou mística e que os homens de sua religião queimaram muitos como eu. Mas, São Judas Tadeu, o senhor é o santo padroeiro das causas perdidas, não é? — Ela secou uma pequena lágrima antes de unir as mãos à frente do peito.


Notas da autora:

¹ As leis Jim Crow foram leis regionais estabelecidas no sul dos Estados Unidos entre 1876 e 1964. Essas leis tinham como objetivo encorajar e reforçar a segregação racial.

² A Ku Klux Klan (conhecida pela sigla KKK) é uma organização terrorista que surgiu no século XIX nos Estados Unidos. Suas práticas envolvem perseguição, tortura e assassinato de não-brancos, judeus e imigrantes.

- Contém trecho inspirado na série da Netflix, "Demolidor", 2018 (episódio 09 da 1ª temporada).

- Contém, também, trecho inspirado na canção "Salve Os Proscritos", do filme da Disney, "O Corcunda de Notre Dame", 1996.