7VERSE : REALIDADE 5
EPILOGO VIDA 5: SOBREVIVENDO AO INFERNO
CAPÍTULO 38
DISCUTINDO A RELAÇÃO
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INFERNO
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– 'Meu senhor!' Lembra que essa era a forma correta de uma esposa dedicada se dirigir a seu marido?
– Μηδεια?
– Bom revê-lo, marido. Então, do que falávamos quando fomos tão brutalmente interrompidos?
– Não fomos. Aquele não era eu. Estou aqui, na sua frente, pela primeira vez desde o meu quase casamento com Κρέουσα.
– Como assim 'não era você'? Quem, então?
– Zetes! Mas, isso não importa.
– Ah! Importa sim. Espere só eu por as minhas mãos naquele ..
– Não, Μηδεια, você não vai fazer NADA contra o Zetes. Esse é um assunto exclusivamente NOSSO. Que vamos resolver AQUI e AGORA. De uma vez por todas. Apenas eu e você. Marido e mulher.
– E o que tem a me dizer, marido? O que tem a dizer à mulher que renegou por outra mais jovem? Uma que, convenientemente, tinha um pai poderoso. Que podia abrir as portas certas. As portas que tanto lhe interessavam. E então, Iάσων? O que tem a dizer à mulher que traiu?
– Que eu era jovem, ambicioso e que fui covarde. Apesar de sua linhagem nobre, aos olhos de meus conterrâneos, você nunca passaria de uma feiticeira bárbara. Você não seria aceita como rainha e eles não me aceitariam como seu rei se você estivesse ao meu lado. Eu queria ser rei. Mas, eu ainda a amava. Ou era isso que eu acreditava na ocasião. Ainda a desejava e MUITO. Pensei que poderia acertar as coisas entre nós depois. Pensei que podia tê-la ao meu lado, mesmo que casado com outra.
– Se pensou isso, é porque nunca soube quem eu era de verdade.
– Não é verdade! Eu sempre soube. Só não quis enxergar.
E completando num sussurro quase inaudível: 'Eu preferi me iludir.'
– Então é isso, senhor meu marido? Essa é a nossa hora da verdade? Muito bem. A verdade! TODA ELA. RESPONDA! ME AMOU DE VERDADE? Mesmo que por um único e mi-se-rá-vel instante? SIM ou NÃO?
– Não é tão fácil responder. A resposta não cabe em um simples 'SIM" ou 'NÃO'.
– TENTE!
– Quando Zetes me contou que vocês se beijaram, perguntei a ele se você percebeu que quem estava ali não era eu. Doeu saber que não. Mais do que eu imaginava. Mais do que eu queria. Pensei que o que quer que eu tenha sentido por você tivesse morrido junto com nossos filhos. Foi com surpresa que constatei que restou algo. Eu senti ciúme. Mesmo depois de tudo que fizemos um ao outro. Depois de tudo que você me tomou. Eu devia sentir somente ÓDIO, mas tudo que eu senti foi ciúme. Eu sei que sentir ciúmes não é o mesmo que amar. mas, desde aquele momento, eu não paro de me fazer as mesmas perguntas. Se ainda a amo. Se algum dia eu a amei de verdade.
– E qual a conclusão a que chegou?
– Nenhuma. Eu não sei se a amei um dia. Depois de você, conheci muitas outras.
– ISSO eu tenho certeza que é verdade.
– Mas, nenhuma me despertou sentimentos tão intensos. Não sei se aquela exaltação dos sentidos que sentia sempre que a tocava pode ser chamada de amor. O que sei é que nunca deixei de desejá-la. O desejo que você me despertava quando a reneguei por Κρέουσα não era menor que o desejo que senti quando a conheci menina. Eu estaria mentindo se dissesse que, mesmo agora, sou indiferente a seu corpo. Se nos déssemos hoje uma segunda chance, talvez esse corpo fizesse mais uma vez minha alma se incendiar como incendeia meu corpo. Porque é assim que me sinto agora. Queimando de desejo.
– Isso é tudo que eu sempre fui para você? Um corpo?
– Não. Vi seu corpo de menina se transformando em um corpo de mulher. Quando pensava que você já tinha atingido a perfeição física, você se superava. Mas, não era somente com o corpo que você me instigava, me desafiava, me fascinava. Comandando aquele corpo, havia um cérebro único. Determinação, inteligência, intuição, estratégia. Muito além do que seria esperado de uma menina. Ou de uma mulher. O seu conhecimento de magia. Muitos precisaram de uma vida inteira para aprender o que você dominou em poucos anos. Você era única. Diferente de todas as mulheres que eu já tinha conhecido e de todas as que conheci depois. Superior a todas. Parecia que você tinha sempre a resposta que eu precisava. Que tinha todas as respostas. Que o que você dizia me parecia certo simplesmente porque era você quem estava dizendo.
– Eu era tão especial que você correu atrás de outra.
– Sua força me fortalecia, mas eu me via fraco em comparação. Eu era o homem, o comandante, o guerreiro. Ao mesmo tempo, sentia-me dependente. Homem algum gosta de se sentir assim.
– E tudo que você queria era chegar em casa e encontrar uma esposa sorridente e receptiva. Isso só mostra o quanto você é medíocre, Iάσων. Nunca mereceu uma mulher como eu. Você sempre foi fraco. Sem mim, nunca chegaria a lugar nenhum. Nunca teria saído vivo da Cólquida. Não existiriam histórias exaltando seus feitos porque você teria morrido sem nunca ter realizado NADA.
– Isso nunca saberemos ao certo. Eu já tinha acumulado vitórias antes. Ou acha que semideuses como Hércules seguiriam um fraco, um covarde, um ninguém. Reconheço que sua participação foi importante, mas isso não significa que eu não venceria se você não tivesse intervindo. Hoje, eu sei que errei ao buscar o caminho mais fácil. Nunca devia ter deixado você vencer minhas batalhas.
– Não minta para você mesmo. Sabe que sempre foi um NADA. Deve a mim tudo o que se tornou. A mim e ao meu amor.
– Amor? O que você sabe deste sentimento? Você matou seu próprio irmão. Matou nossos filhos. Matou crianças inocentes que sequer sabiam quem as tinha gerado. Não fez isso por amor. Amor algum justifica o que você fez. Você é LOUCA, Μηδεια. Completamente insana. Nunca teve um coração. Essa sempre foi a questão. Um corpo, um cérebro e nenhum coração. Mas, eu estava cego. Cego e louco como você. Só agora eu vejo claramente isso. Eu não podia ter permitido que praticasse monstruosidades em nome do amor que dizia sentir por mim. Eu tinha que ter feito algo.
– É isso tudo que tem a dizer?
– Não. Preciso dizer também que agora vejo claramente o quanto eu falhei com você. Era meu dever de marido proteger você. Isso inclui protegê-la de você mesma. Da escuridão que pouco a pouco se instalou em sua alma. No local onde devia existir um coração, formou-se um buraco negro, engolindo tudo a sua volta.
– Adeus, marido! Nossa história termina AQUI. Já perdi tempo demais com você. Você não é digno do meu amor. Não é digno de mim. Nunca foi. Quando me conheceu, eu era uma princesa. Eu abri mão da minha posição por você. E onde isso me levou? Ficar com você não me levou a lugar nenhum. Você queria me transformar em SERVA de sua nova esposa. Agora que estou prestes a me tornar uma DEUSA, não existe um lugar para você ao meu lado.
Medeia levanta o braço, gira-o com elegância e faz surgir uma espada em sua mão. Com um movimento rápido, transpassa o abdômen de Jasão com a espada.
– Seu lugar é aqui. No Inferno.
Jasão cai de joelhos, com a espada atravessando seu corpo. Seu olhar mostra perplexidade. Medeia se aproxima, pousa o pé sobre o ombro do ex-marido e usa-o como apoio para arrancar a espada. Jasão leva ambas as mãos ao ferimento, numa tentativa inútil de deter a hemorragia. Sua expressão mostra que ele já havia assimilado a situação e que sua única surpresa era ter se surpreendido com a atitude da ex-esposa.
Jasão ainda apresentava por todo o corpo as cicatrizes do desenho místico com o qual expulsara Gabriel para o plano terreno. Medeia se ajoelha em frente a Jasão e pronuncia um encanto que faz as cicatrizes voltaram a verter sangue. Jasão tomba no chão rochoso em meio a uma poça de sangue que só faz crescer.
Medeia percorre com as mãos o peito do homem que acreditou amar molhando-as com o sangue que escorre abundante. Em êxtase, ela leva as mãos molhadas de sangue fresco ao próprio corpo, rosto e cabelos, se embriagando com o cheiro acre do sangue vivo do ex-marido agonizante.
– É chegada a hora do meu triunfo, marido. Nada mais justo que esteja presente e que veja a mulher que desprezou ser transformada em deusa.
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Medeia se afasta e inicia uma espécie de dança ao redor de Jasão. Com movimentos graciosos, ela movimenta as mãos ensanguentadas desenhando símbolos no ar. Sua voz melodiosa entoa um encantamento antigo em uma língua mais antiga que a raça humana. Ela não saberia dizer o significado daquelas palavras. Se é que tinham um significado. Se é que eram realmente palavras. Os sons pronunciados reverberam e se repetem como um eco. Depois como eco do eco. Depois como eco do eco do eco. Cada fonema pronunciado se soma aos anteriores, como numa sinfonia. O som, inicialmente dissonante, ganha harmonia.
O som persiste, sem precisar de alguém para entoá-lo.
É como se o som fizesse vibrar as cordas de uma harpa, ao invés das cordas da harpa gerarem o som ao vibrarem. A paisagem árida do Inferno parece ondular junto com o som. Aqueles sons tinham o poder me alterar a realidade.
O encantamento faz o sangue que cobre o corpo de Medeia fluir sobre si mesmo, formando um desenho vermelho vivo sobre seu ventre. À medida que o som torna-se mais harmônico, o desenho ganha um brilho avermelhado levemente luminescente.
Medeia olha com desprezo para Jasão, sorri e eleva os olhos para o negro céu infernal. O encanto tinha se completado. Estava feito. Logo ela seria uma deusa.
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O segredo que Tântalo ouviu de Zeus, no Olimpo, quando o deus estava sob a influência do poderoso vinho de Dionísio. A revelação de como extrair o imenso poder que existe na alma humana. Poder suficiente para conferir divindade ou, pelo menos, alguns de seus aspectos, a quem souber utilizá-lo.
Uma fonte inesgotável de poder à disposição de quem tenha a coragem de tomá-lo. Poder à disposição de quem estiver disposto a pagar o preço. Sim, porque há um preço a ser pago no final.
Que o digam os demônios. O poder dos demônios vem das almas que absorveram após barganhá-las com humanos muito ambiciosos ou muito ingênuos. Demônios não passam de humanos energizados pelas almas de outros humanos.
O Inferno recebe almas humanas há pouco menos de 2.000 anos. Não chega a ser muito tempo, mas a população mundial cresceu exponencialmente neste período. Neste período, nasceu e morreu mais gente que nos 198.000 anos anteriores. E uma expressiva parcela de todas essas almas estava ali. Fosse como condenados, fosse como demônios.
Essas almas carregam dentro de si energia suficiente para incinerar o planeta.
§
Por todo o Inferno, as almas humanas dos condenados à danação eterna e daqueles que passaram a se reconhecer como demônios observam horrorizadas que estão perdendo substância e se convertendo em fumaça. Espirais de fumaça densa e negra sobem para os céus da dimensão infernal e convergem para um ponto específico fora das paredes muradas de Ιρονωηεελ.
A transformação atingiu primeiro os que estavam mais próximos e os menos poderosos. O que não faltava no Inferno era magos e estes tentaram de tudo para fugir a seu destino. Inutilmente. O encantamento era muito poderoso.
Quando percebeu a ameaça, Crowley perscrutou o plano material e encontrou um estudante secundarista que chegara ao ocultismo depois de tornar-se fanático por RPG's. O garoto estava em um sebo no centro histórico da cidade de Filadélfia e folheava um autêntico livro de feitiços que encontrara esquecido em meio a centenas de publicações oportunistas sobre o tema.
O livro, uma verdadeira raridade, pertencera a uma bruxa queimada em Salem dois séculos antes. O garoto se esforçava para ler a frase que acreditava estar escrita em latim. Era, na verdade, gaélico antigo, mas isso realmente não importa. Ele não pronunciara corretamente o feitiço e não tinha a menor ideia do significado daquelas palavras. Um feitiço clássico para secar plantas e azedar leite. Mas, o garoto, inconsciente do perigo, ao pronunciar o encanto desejara invocar um demônio.
Naquele momento, aquilo era o bastante. Crowley usa o garoto para fugir do Inferno no último segundo.
§
Mais ninguém escapou. As espirais de fumaça cobriram o horizonte, vindas de todos os pontos da dimensão infernal. Convergindo para o ponto onde o encantamento fora proferido.
O ventre de Medeia se abre para receber as almas dos condenados.
Pareceu levar horas, mas, finalmente, terminara. Medeia havia absorvido milhões de almas humanas. Ela mantinha a forma humana de sempre, mas a forma se expandira para acomodar melhor as múltiplas almas em seu interior. Tinha agora quase quarenta metros de altura.
Esgotada, Medeia cambaleia. Como se estivesse bêbada. E era como se sentia. A sensação de euforia, leve confusão mental, dificuldade de controlar os próprios movimentos, sensações alteradas e ligeiro desconforto físico lembravam a embriaguez. Sua mente e seu corpo ainda estavam se adaptando ao novo patamar de energia. Ela estava embriagada de energia.
Medeia tomba de joelhos, quase em cima de Jasão. Ela ouve sua própria voz saindo embolada e sorri. Um sorriso sem malícia e sem maldade, o primeiro assim em milênios. Como acontece com os bêbados, as palavras simplesmente lhe escapavam. Eram meros pensamentos em voz alta.
— Tão pequeno. É como vejo você, Iάσων. Eu me tornei uma Deusa. Enquanto você continua o que sempre foi. Um nada. Um menos que nada. Eu não preciso de você, Iάσων. Para nada.
— Você está errada, Μηδεια. Eu sou, sempre fui, tudo aquilo que você precisa para ser completa. Você precisa tanto de mim, que me conservou por milênios. A mim. Aquele que eu realmente sou. Não Jasão. Mas, seu coração.
— Mais baboseiras.
— Você precisa de um coração, Μηδεια. E esse sempre foi o meu destino. Ser sou coração. Era para eu ter conduzido você por outros caminhos. Mas, eu fui fraco, ambicioso e estúpido. E acabei deixando que você me arrastasse para sua loucura.
— Sim, você foi tudo isso que acabou de dizer. Fraco, ambicioso e estúpido. Mas, quanto a todo o resto, está se iludindo. Agora que eu sou uma Deusa, não preciso de nada nem de ninguém. E, principalmente, não preciso de você.
— Não estou me iludindo. Não mais. Mas, é verdade que eu ainda estou preso a uma ilusão. A ilusão derradeira. A ILUSÃO DE SER UM HOMEM. Eu não sou um homem. NUNCA FUI. Eu sou apenas o CORAÇÃO de um homem. Mas, isso não me torna menor. Pelo contrário, me torna maior. O homem de quem fiz parte morreu muito tempo atrás. Eu permaneci, mantido vivo de uma forma antinatural. O destino de um coração não é pulsar solitário numa caixa de cristal. É pulsar dentro de uma caixa viva, envolto por carne e sangue. Esse é o destino de um coração. Mas, .. agora sou eu quem está divagando.
— Divagando, não. Está DELIRANDO. A proximidade da morte está fazendo você delirar.
— Eu não estou morrendo, Μηδεια. Eu não vou morrer sem antes cumprir meu destino. Sei agora que não. A hemorragia estancou e eu sinto que meus ferimentos começaram a fechar. Acho que tem a ver com a natureza do Inferno.
— Vai desejar a morte rápida e misericordiosa que lhe ofertei.
— A morte não me assusta, Μηδεια. Antes mesmo de iniciarmos esta jornada, a Senhora da Noite nos alertara que o Inferno reclamaria uma alma. Eu sempre tive a intenção de que essa alma fosse a minha. Eu arrastei meus amigos para o Inferno. É minha responsabilidade garantir que sairão vivos daqui. Se alguém tem que ficar para trás, esse alguém sou eu.
— Quanto a isso, eu posso ajudá-lo. Como eu disse antes, seu lugar é aqui, no Inferno, Iάσων.
— Posso não ter certeza quanto a tê-la amado. Mesmo assim, meu último ato será um ato de amor.
— Diz que não vai morrer e fala em último ato. Você se contradiz o tempo todo. Está me fazendo perder tempo. Se ainda tem algo a dizer, diga. É sua última chance.
— Dizer, não. Fazer. E a primeira coisa é me livrar da forma que mantém viva a ilusão. É hora de finalmente cumprir meu destino. Vai ser como você sempre quis, esposa. Eu vou realizar seu desejo mais profundo. O desejo que te deu forças para sobreviver por 3.300 anos e que a trouxe até aqui, o Inferno dos cristãos, um lugar tão estranho às crenças de nossos ancestrais. Você queria ter para si o coração do homem amado. Queria que nos tornássemos um só. É isso que você terá. É isso que seremos. Um só.
O corpo de Jasão brilha intensamente e, então, o invólucro de carne torna-se mais e mais transparente até desaparecer e restar somente um coração pulsante, que cresce em tamanho e guarda o mesmo brilho. Uma luz suave, branca e pura.
Medeia se levanta e dá um passo para trás. Ela ainda não consegue raciocinar com clareza, mas pressente a ameaça representada por aquele coração. Aquele coração pode destruir tudo o que conquistou. Destruir tudo o que se tornou. Tudo que ela não precisa agora é de um coração. De que vale um coração no Inferno?
Ela se cobre de eletricidade e centelhas azuis percorrem seu corpo. Ela estende os braços e mais e mais eletricidade se concentra no espaço vazio entre suas mãos. O sorriso maldoso volta ao rosto de Medeia. Seus pensamentos começam a clarear. Ninguém vai roubar seu triunfo. É hora de romper o último vínculo com o seu passado humano. É hora de erradicar do mundo o último vestígio do único homem que ousou desprezá-la.
Respondendo à vontade de Medeia, raios saltam de suas mãos e atingem o coração que flutua imaculado no ponto onde Jasão tombara. Raios de potência comparável apenas aos vistos em grandes tempestades elétricas. Raios capazes de iluminar todo o horizonte. Energia suficiente para iluminar uma cidade de tamanho médio. Energia centena de vezes maior que a necessária para carbonizar um corpo humano.
Mesmo assim, o coração mantém-se incólume.
Medeia não deveria estar surpresa. Ela conhece os fundamentos da magia. A magia responde a desejos e o desejo obsessivo de toda uma vida é muito mais forte que a ira que agora a domina. Sua obsessão por Jasão supera até mesmo seu instinto de sobrevivência e sua ânsia de poder.
Os raios que atingem o coração de Jasão não o afetam porque, como Jasão disse, um coração é tudo o que Medeia sempre precisou e, no ponto mais profundo de sua alma negra, ela SABE disso.
Mais e mais perto. Perto demais. Sua mente resiste, mas seu corpo não obedece. Assim como antes seu ventre se abriu para receber as almas dos condenados, agora seu peito se abre para receber o coração de Jasão.
O coração se aloja e se integra ao peito de Μηδεια.
Não o coração quebrado e sem ilusões tirado do corpo sem vida do homem que viu suas vitórias da juventude arrancadas de suas mãos.
O coração novamente sem mácula do jovem príncipe cujo entusiasmo contagiou os corações de outros cinquenta jovens, com promessas de aventuras e glórias. O coração do guerreiro que conquistou o respeito e a lealdade de guerreiros tão bravos quanto ele próprio. O coração apaixonado e atrevido que conquistou para sempre uma princesa que nasceu sem a capacidade de amar.
Pela segunda vez em um tempo curtíssimo, a princesa é invadida por sentimentos que não são seus. Os sentimentos de ódio, vingança e violência dos habitantes do Inferno lhe eram tão familiares que não chegaram a abalá-la. Estava preparada para eles.
Para os sentimentos que agora experimentava, não.
Quando a princesa que nasceu sem um coração sente pulsar em seu peito o coração do único homem que tocou sua alma, ela é dominada por uma sensação desconhecida, ao mesmo tempo quente e reconfortante. Ela se agacha e toca o ponto onde Jasão tombara.
De seus olhos escorrem lágrimas silenciosas. Lágrimas não de dor ou de arrependimento. Lágrimas de um sentimento que, por nunca ter experimentado antes, não sabia identificar.
Tivera um único contato anterior com sensações tão perturbadoras. Quando enfrentara Kälï. Na ocasião, conseguira isolar sua mente daquelas sensações e seguir em frente. Agora sentia essas sensações desconhecidas brotando dentro de si e não sabia o que fazer.
Quão poderoso era o coração de Jasão?
Jasão era basicamente bom. Era otimista, entusiasmado, impulsivo e capaz de atos verdadeiramente heroicos. Como este acabara de realizar. O mundo em que ele viveu não tinha, no enquanto, lugar para o conceito de perdão. Muito embora pudesse ser praticado, não era exaltado como uma virtude. Era encarado com uma fraqueza. A virtude estava na espada. A espada era a fonte da justiça. A justiça do olho por olho. Não seria justo, portanto, que Jasão fosse julgado pelos padrões éticos atuais.
Para Jasão, o perdão era um conceito estranho.
No entanto, seu coração fora apresentado a um conceito ainda mais estranho. Algo muito além do perdão.
A travessia do Flegetonte apagou da mente de Jasão as memórias de Dean Winchester, deixando apenas os conhecimentos e habilidades do homem do século XXI. Era o que parecia. Mas, não foram somente conhecimentos e habilidades que ficaram. Sem que Jasão suspeitasse, seu coração guardou um sentimento perigoso. Um sentimento poderoso o bastante para destruir o Inferno.
Aquele coração fora infectado pela capacidade de amar incondicionalmente do homem criado para ser o receptáculo do anjo preferido de Deus. Uma centelha da consciência de Dean Winchester permanecera oculta naquele coração. Um fragmento da sua alma. E, agora, esse fragmento da alma de Dean Winchester fora contrabandeado para o peito e do peito para a mente de Medeia.
Dean Winchester vivia um momento difícil de sua vida quando fora lançado pelo Trickster naquela aventura transdimensional. Seu tempo estava acabando e ele tinha plena consciência disso. Ele disfarçava, mas estava sendo cada vez mais difícil esconder o medo atrás de seu habitual sorriso cínico. Em noites insones, ele frequentemente se perguntava se merecia o Inferno.
Se alguém realmente merecia pagar os erros de uma vida curta por toda eternidade.
Dean combatia demônios e monstros, mas sabia que existiam seres humanos capazes de praticar atos ainda piores. Sua mente racional dizia que mereciam pagar. Que para alguns atos, mesmo a eternidade não era o suficiente. Mas, a resposta de sua alma era outra.
Sua alma clamava que ninguém merecia uma eternidade de sofrimento.
Nem ele, nem ninguém.
Aquele fragmento de consciência mantinha a lembrança de sua identidade original e de sua história. Alojado em um canto da mente de Medeia, era como se, do alto de uma plataforma, o próprio Dean Winchester enxergasse os demônios, os condenados e a própria Medeia se digladiando furiosos, envoltos em loucura e crueldade vazia. Almas condenadas, além de qualquer redenção.
E, mesmo assim, ele se apieda delas. De todas, sem exceção.
Não fora difícil para Medeia silenciar as vozes dos demônios que absorvera. Silenciar seu recém-adquirido coração não estava sendo tão fácil.
Medeia tinha planos para quando se tornasse a Senhora do Inferno. Planos que não se limitavam ao Inferno. Medeia pretendia fazer-se a senhora absoluta do Universo: Inferno, Terra e Paraíso.
O coração tinha outros planos.
Jasão estava determinado a mudar a distorcida visão de mundo de Medeia. Fazê-la pela primeira vez a senhora de si própria. Alguém capaz de sentir-se realizada sem a necessidade mórbida do amor incondicional de outra pessoa. Alguém que não precise controlar a tudo e a todos para ter certeza que não vão feri-la.
O conflito interno imobiliza Medeia. Ela não estava conseguindo mobilizar o imenso poder que absorvera em nenhuma direção. Mas, era uma questão de tempo para ela levar seus planos adiante. Podemos escolher NÃO OUVIR nosso coração. A mente pode prevalecer, desde que aceite pagar o preço. Só não pode vencer. Não existe vitória quando o preço é ter o próprio coração esmagado.
Pode ter durado um segundo.
O que é importa é que durou o suficiente para que o fragmento prevalecesse sobre o todo. Dean Winchester olha para as almas dos condenados e deseja com todas as suas forças que aquele lugar de sofrimento e punição desapareça. As energias em Medeia respondem a seu comando. Uma explosão de luz branca ilumina o Inferno.
Como não acreditar que aquele não era desde o princípio o plano divino?
Que Deus não planejara desde o começo dos tempos usar o Mal para destruir o Mal?
O poder absorvido por Medeia e a natureza fluida do Inferno era tudo o que Dean Winchester precisava. Sua vontade férrea muda para sempre a natureza do Inferno.
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O Inferno era o pior lugar que alguém podia ter a infelicidade de estar. Um lugar de sofrimento e punição.
Sempre fora assim.
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Fora, mas não mais seria.
12.10.2020
