Capítulo 36
O diadema
"I'm prepared for this. I never shoot to miss."
"Writing's On The Wall" - Sam Smith.
Potter foi surpreendido com um puxão em seu braço quando já alcançava o Salão Comunal da Grifinória. A primeira coisa que ele viu quando quem quer que o puxava o soltou em alguma sala de aula vazia foi o rosto lívido de Elizabeth.
— Você é maluco? — Ela vociferou com uma raiva que o garoto jamais vira partir dela.
— Eu...
— Eu acabei de sair da Ala Hospitalar. Estava ajudando Pomfrey a não deixar o Malfoy morrer por sua causa. Você enlouqueceu?
— Ele ia lançar uma Cruciatus. Eu apenas me defendi, não sabia o que o feitiço fazia...
— E é exatamente por isso que você é um maluco! — Gritou. — Um bruxo de dezesseis anos já deveria saber que nunca se usa um feitiço sem saber o que ele faz. Nunca! Isso é conhecimento básico.
— Me desculpa, ok? — O garoto também levantou a voz, irado.
— Acha que desculpas vão tirar as cicatrizes do Draco? Você quase matou outro aluno, Harry! Ainda por cima com magia das trevas!
Elizabeth se afastou alguns metros e respirou fundo. Passou a mão pelos cabelos e olhou para Harry, dessa vez com mais serenidade.
— Estou falando igual ao Snape, não é?
— Está — o garoto afirmou com raiva.
Ela suspirou e sentou-se em uma das carteiras da sala. Calma, Elizabeth o chamou, pedindo para que se sentasse defronte para ela. Antes que pudesse dizer algo, Harry se pronunciou:
— Está muito preocupada com Draco.
— Claro que estou — respondeu com simplicidade. — Ele é um aluno, Harry. E, querendo ou não, ele é meu primo. Existe uma espécie de preocupação familiar que não posso controlar.
Harry pareceu se convencer e assentiu com a cabeça. Por fim, Elizabeth disse:
— Ouça, mais cedo ou mais tarde, entraremos em guerra. Não estou me referindo ao que estamos vivendo agora, com esse medo à espreita. Estou falando de um momento em que tudo parecerá perdido e que, realmente, iremos lutar. Em um campo de batalha, num duelo, em qualquer lugar, você não pode usar um feitiço que não conhece. Você põe a si mesmo e outros que estarão lutando ao seu lado em risco.
O garoto pareceu verdadeiramente entender o ponto de Elizabeth e abaixou a cabeça envergonhado. Estudara tanto com Dumbledore e Elizabeth aquelas lembranças, conheceu o modus operandi de Voldemort, viu tudo aquilo, descobriu sobre as horcruxes e, no fim das contas, ele quase matara uma pessoa. Sim, era Draco Malfoy, seu desafeto de infância, um possível novo Comensal da Morte, mas ainda era pôr a vida de alguém em perigo.
Reconhecendo a gravidade do que fizera e dando razão, talvez pela primeira vez, a Snape, que o colocou de detenção para o dia do Quadribol, Potter se levantou para voltar ao seu Salão Comunal, já que ainda estava molhado e ensanguentado com o sangue de Malfoy após o breve duelo no banheiro.
Antes de fechar a porta, a voz de Elizabeth o trouxe de volta:
— E, Harry, se puder, permaneça longe da magia das trevas. É um caminho sem volta.
ooOOooOOoo
Snape segurava um copo de uísque na mão pálida quando Elizabeth o encontrou nos aposentos nas masmorras. Ela tirou os sapatos e se sentou do outro lado do sofá, completamente exausta.
Ela estava conversando com Pomfrey sobre o resultado dos exames da sua perna quando Snape rompeu pela Ala Hospitalar com o corpo mole de Draco. O garoto estava consciente, mas imaginou que ele deveria sentir dor o suficiente para não conseguir se mexer. Ela e Snape trocaram algumas palavras rapidamente, o suficiente para explicar que Harry Potter, fazendo uso de magia das trevas, havia ferido gravemente o aluno da Sonserina.
Elizabeth e Madame Pomfrey trabalharam juntas para administrar poções e ditamno ao paciente. Draco parecia esgotado, tanto física quanto mentalmente. Uma vez que fizeram o que podiam e o menino estava estável, Pomfrey seguiu para sua antessala, onde prepararia a papelada do caso do Malfoy. Elizabeth ainda ficou ao lado da maca, deixando algumas poções e medicamentos sobre a mesinha ao lado do leito e lançou alguns feitiços para ter certeza de que o garoto estava bem. Sentiu o toque muito fraco de Malfoy em seu braço antes de sair e o menino sussurrou "obrigado" antes de ceder para o sono dos medicamentos.
De volta aos aposentos de Snape, o professor só se pronunciou quando terminou de beber o conteúdo âmbar do copo. Ele o levitou até a mesinha de centro e virou-se para Elizabeth.
— Como está a sua perna?
— Bem — sorriu com agonia. — Os exames mostraram que o dano é irreversível, mas não vai me prejudicar muito. Conseguirei viver normalmente, embora às vezes ainda sinta dor e manque.
Ficaram em silêncio por alguns segundos. Elizabeth podia ver claramente que Snape estava desestabilizado com o que acontecera e com o que tinha acabado de ser dito, e essa reação não era inesperada. Tinha consciência da gravidade do feitiço que fora lançado na perna de Elizabeth, e esteve preocupado com as consequências daquilo há muito tempo. Sobre o rapaz sonserinos, bem, Draco Malfoy não só era aluno da casa que Snape era diretor, mas como também era filho de um casal muito próximo a ele. Narcisa era uma pessoa querida pelo professor. Não possuíam nenhuma amizade, mas confiava na mulher e a admirava. Ora, não pensou duas vezes em fazer o Voto Perpétuo para proteger o filho dela. Filho esse que naquele dia poderia ter morrido.
— O livro era meu.
Elizabeth franziu o cenho confusa com o que o homem falara. Snape explicou, então, toda a história do seu antigo livro de Poções, onde ele deixara diversas anotações, desde modos de preparos alternativos até feitiços criados por ele, como o fatal Sectumsempra. Ele contou que juntou muitos livros e apostilas para doar para a escola depois que se formou. Tempo depois notou que havia perdido seu exemplar de "Estudos avançados no preparo de poções" e hoje descobrira que, por engano, o livro tinha ido junto na leva para Hogwarts.
— É uma sensação muito estranha pensar que Draco foi ferido por um feitiço criado por mim.
— Eu espero que você não esteja tentando se culpar pelo que aconteceu. — Elizabeth repreendeu-o. — O único culpado é o Harry, que jamais deveria ter usado um feitiço que não conhece.
O silêncio se instalou, pois Snape não queria permanecer no assunto e Elizabeth tentaria dissuadi-lo de que não tinha culpa de nada. Mas ainda querendo concluir a conversa, ela persistiu.
— Ele está bem. — Elizabeth disse. — Ficará com poucas cicatrizes. Ele até mesmo me agradeceu.
O professor permitiu um leve curvar do canto da boca e olhou para Elizabeth. Balançando a cabeça como se concordasse com alguma coisa, ele declarou:
— Eu aprendi a gostar do Draco. É uma pena que ele tenha que sofrer pelos erros do pai dele.
Elizabeth não disse nada, mas sabia que, naquela frase, ele não falava apenas de Draco. Apenas concordou com ele e o abraçou, por fim.
ooOOooOOoo
Os Jones estavam em silêncio reunidos na sala do casarão em Blakeney. Todos olhavam atentamente para a caçula da família. A quietude só não era total pois era quebrada pelas fortes sugadas que Hector dava na mamadeira. Edward olhou por um momento para o filho, que estava completamente alheio ao que acontecia, e voltou os olhos para irmã com temor.
— Diga logo, Elizabeth. Sabe como nosso pai é.
Robert lançou um olhar magoado para o filho, embora não negasse que era uma pessoa intensa e o primogênito tinha razão. Ele ficava cada vez mais nervoso com a demora da filha em revelar o que quer que precisasse dizer. Elizabeth, por sua vez, parecia tomar coragem para a conversa que teria.
— Chegará uma hora... — hesitou. — Na verdade, muito em breve, Snape parecerá um verdadeiro Comensal da Morte para todo mundo, inclusive para a Ordem da Fênix.
Parou de falar por não saber como continuar. Parecia que dizer tudo aquilo em voz alta realmente tornava tudo realidade. Temia, também, a reação da família. Mas tinha total certeza em seu coração de que estava fazendo a coisa certa.
— Elizabeth, minha filha, por favor, seja direta. — Robert pediu.
— Bem — disse atendendo ao pedido do pai —, vocês já devem ter se questionado sobre o que aconteceu com a mão do Dumbledore. — Toda a família assentiu com a cabeça e ela continuou. — Meu padrinho entrou em contato com um artefato de magia das trevas. Fomos eu e Snape que o socorremos. Fizemos o que estava ao nosso alcance, mas... Um ano foi tudo que conseguimos para Dumbledore.
Ela deixou que a família absorvesse a notícia. Todos ficaram visivelmente tristes, mas ninguém parecia surpreso. Elizabeth concluiu que sua família tinha conhecimento o suficiente sobre magia para entender, por conta própria, que a mão enegrecida de Dumbledore era um mau presságio.
— Acontece que no meio de tudo isso, Voldemort incumbiu Draco, o filho da Narcisa — disse olhando para a mãe, que assentiu —, a matar Dumbledore. Narcisa procurou Snape para pedir que protegesse Draco e ele acabou tendo que fazer um Voto Perpétuo para garantir que manteria a palavra. No fim das contas, Alvo quer que Snape o mate no lugar de Draco. Com isso ele pretende evitar que o menino se torne um assassino e garante que Severo caia nas graças de Voldemort.
Os Jones se entreolharam em silêncio. Ninguém parecia saber o que dizer naquele momento. Eles reconheciam o papel fundamental que Severo Snape possuía na guerra, e, até mesmo, já suspeitavam que em determinado momento o espião iria precisar ter a total confiança de Voldemort. Mas matar Dumbledore colocava tudo numa perspectiva diferente. Não só porque era a morte de um velho amigo da família, o padrinho da caçula dos Jones, mas porque matar, especificamente, Dumbledore colocava Snape em uma posição extremamente perigosa e repulsiva para os demais. Todos os Jones gostavam de Snape e confiavam nele. Saber que em breve ele seria taxado como assassino e teria que virar, falsamente, as costas para a Ordem era impactante demais.
— Estou contando isso a vocês porque conheço a família que tenho, principalmente o irmão que tenho. — Elizabeth olhou intensamente para Edward. — Sei que vocês não descansariam até, não sei, fazer algo contra ele, caso acreditassem que Severo realmente é leal a Voldemort. Além disso, no meio de toda essa loucura, ele precisará de apoio.
Ela, então, fez menção de continuar o assunto, mas hesitou. Contar que Snape mataria Dumbledore já não era fácil, mas como contar que ele a levaria até Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado?
— Diga, Lizzie — o pai falou. — Sei que há algo ainda a ser dito.
— Voldemort, algum tempo atrás, conseguiu passar por cima da Oclumência de Snape e viu meu rosto. Aquela história de eu parecer com a vovó... — Ela olhou intensamente para o pai e Robert entendeu, ao olhar no fundo dos olhos da filha, que ela sabia sobre o envolvimento da avó com o bruxo das trevas.
Valentina, por mais que já estivesse ciente de toda a história, enrijeceu sua postura. O momento chegava. Robert quase disse algo sobre, mas uma breve olhadela para a mãe fez ele se calar novamente. Edward, que agora estava de pé tentando fazer o bebê arrotar, perguntou:
— Ele teve acesso ao restante da profecia? Sabe que é sobre você?
— Não, ele não sabe. Mas como viu que sou parecida com a vovó, ele mandou que Snape me levasse até ele depois que... Bem, depois que Dumbledore estiver fora da jogada.
— Você não vai — a mãe se pronunciou. Seus olhos azuis entregavam todo pavor que ela sentia naquele momento. — Não vou deixar que se entregue assim. É suicídio!
— Mãe, não é uma alternativa. É a profecia, ela precisa se cumprir. Preciso ir.
— Eu vou no seu lugar então.
— Mãe...
— Posso tomar a Polissuco!
— Cássia, ouça o que você está dizendo — o marido apontou.
Mas Cassiopeia estava tão decidida quanto apavorada. O instinto materno gritava pelos seus poros. Não poderia deixar sua filha se arriscar da maneira que pretendia. Seu medo era tanto que não conseguia pensar com coesão. Elizabeth chamou a atenção da mãe para si, e procurando manter um tom de voz cuidadoso, mas firme, declarou:
— Mãe, esse é um plano destinado ao fracasso. A senhora acha que deixariam você ficar com um frasco de Polissuco? E quando descobrissem, acha que deixariam a senhora viva?
Elizabeth se levantou para abraçar a mãe com força. Sentiu as lágrimas de Cássia molharem seu ombro e apertou a mãe ainda com mais amor. Afastou-se e limpou o choro do rosto bonito de Cássia.
— Preciso cumprir a profecia. Eu tenho um dever e devo cumpri-lo. – Elizabeth virou-se para o restante da família. — Severo tentará manter vocês informados sobre mim. Vai ficar tudo bem.
ooOOooOOoo
A papelada sobre a mesa de Dumbledore parecia infinita. Eram documentos sobre as crianças nascidas trouxas que deveriam ingressar na escola no próximo semestre, alguns boletins que precisava conferir, cartas de pais e do Ministério, pedidos de diplomas para os alunos que se formariam no fim daquele ano letivo, folha de pagamento dos funcionários... Havia de tudo que estivesse sob a responsabilidade de um diretor de escola. Ele tentava adiantar seus deveres e tudo que estava ao seu alcance visando... Bem, visando sua morte iminente. Queria deixar tudo preparado para quando Snape assumisse o cargo de diretor, pois, Dumbledore sabia, isso aconteceria com toda a certeza.
Snape tornar-se-ia comensal do mais alto escalão de Lorde Voldemort. Seria seu preferido, seu braço direito, seus olhos onde não pudesse estar. Era muito claro que, uma vez que Dumbledore estivesse morto, Voldemort e seus seguidores avançariam naquele tabuleiro de xadrez. Sendo assim, o bruxo que as pessoas temiam até o nome jamais deixaria a direção de Hogwarts para Minerva McGonagall ou qualquer outra pessoa. Ele teria a escola em suas mãos e deveria pôr alguém de sua mais alta confiança no posto de diretor. E que outra pessoa seria perfeita para esse cargo se não o assassino de Alvo Dumbledore?
Mas o monte de papéis e as divagações de Dumbledore foram interrompidas quando a sua afilhada adentrou o gabinete. Subitamente, sem bater à porta, sem se anunciar, Elizabeth parecia tão determinada quanto assustada.
Alvo Dumbledore não era um bruxo – na verdade, podia-se chamar de mago – de se deixar impressionar facilmente, mas a maneira como os olhos de Elizabeth brilhavam com um misto de louvor, medo e incerteza, e sua respiração que parecia ligeiramente alterada – talvez pela excitação, talvez pela velocidade que correu até o gabinete do diretor –, provocaram confusão no ancião.
Antes que ele pudesse largar a pena, que ainda pendia na mão saudável, e questionar o que acontecia, Elizabeth disse:
— É o diadema.
— O quê?
— A horcrux. É o diadema perdido.
Dumbledore respirou fundo e deixou a pena dentro do tinteiro. Ele descansou as costas no encosto da cadeira, mas a ansiedade fez com que se curvasse à mesa novamente. Elizabeth continuava com o mesmo olhar de antes.
— Como descobriu?
— Helena me contou.
— E onde ele está? — O diretor, então, pareceu se entusiasmar também.
— Aqui.
— Como?
— Aqui em Hogwarts. Na Sala Precisa.
Nem mesmo Fawkes se atreveu a fazer algum som naquele momento. Todos os quadros olhavam com expectativa para a cena que se desenrolava. Dumbledore parecia igualmente surpreso. De todas as suas apostas, não imaginaria que um objeto histórico como aquele e, também, uma horcrux estava debaixo de seu nariz torto todo aquele tempo.
Ele voltou de seus pensamentos ao sentir que era puxado pelo braço.
— Vamos!
— Para onde? — Perguntou deixando-se levar.
— Ora! Pegá-la.
E o mago deixou-se levar pela afilhada até o corredor do sétimo andar. Era um sábado de passeio à Hogsmead, então o castelo estava tão deserto e silencioso quanto ficava nas férias.
Elizabeth andou de um lado para o outro três vezes diante da parede de pedras, e viu surgir a porta da Sala Precisa. Adentrou ainda trazendo o padrinho pelo braço. Dumbledore parecia em choque. Jamais achou, quando acordou naquela manhã nublada, que encontraria uma horcrux.
O ambiente que a Sala Precisa se transformou parecia um grande depósito de tudo. Absolutamente tudo poderia se encontrar ali. Parecia guardar séculos e séculos de objetos que alunos e funcionários quiseram esconder por diversos motivos. Dumbledore não entendeu como poderiam encontrar o diadema ali. Era quase impossível. E, com o conhecimento que possuía, sabia que o feitiço Accio não funcionava com as horcruxes. Mas, por um breve momento, ele quase se esqueceu de um fator importante. Elizabeth era uma Ravenclaw.
A magia do diadema de Rowena parecia tentar se sobrepor à alma de Voldemort, ainda mais agora que sentia sangue do seu sangue por perto. O diadema chamava por Elizabeth, chamava pela sua herdeira de direito. Elizabeth não saberia explicar como aquilo funcionava. Não era como se ela pudesse ouvir alguma coisa nem nada. Ela apenas sabia. Tinha uma certeza absurda sobre cada passo que dava em direção a um lugar que ela nem mesmo sabia qual.
Até que ela o encontrou.
Ele era diferente da maneira como o representaram durante a História. Ele não era grande e se moldava como asas de uma águia, nem tinha aquelas pequenas pedras de safira penduradas em seu centro. Na verdade, o diadema era delicado. Ele não era como uma tiara; parecia mais uma coroa. Era arredondado, perfeito para acolher a cabeça de uma Ravenclaw. Era feito de diamantes, o que lhe dava uma aparência muito mais branca e cristalina do que prata. As safiras que traziam o azul da joia eram muito pequenas no meio dos diamantes. E no seu centro lá estava ele, o símbolo da família. Não a águia, mas o corvo.
O animal representante da família e, originalmente, da casa da Corvinal havia sido substituído ainda no século XV, devido aos bruxos acreditarem fervorosamente que o corvo era um símbolo de mau presságio. Era tão temido quanto um Agoureiro. Na época, ninguém queria ser selecionado para uma casa que tinha tão feia ave como mascote. O diretor de Hogwarts da época, junto dos descendentes dos Ravenclaw até então – os Everglot –, decidiram por alterar a ave símbolo da casa e escolheram a águia.
Elizabeth ergueu as mãos para pegar o diadema, mas hesitou ao lembrar das palavras do fantasma de Helena.
Tocar no assunto sobre o diadema perdido era difícil para Helena, devido a tudo que ele representava. Era lembrar do pesadelo da vida ao lado de Audric e, também, das mentiras criadas por Salazar de que teria inveja da própria mãe e que roubara o diadema.
Não foi fácil fazer Helena falar. A morta estava receosa por precisar relembrar do que acontecera e com medo de sua descendente se envolver com aquele objeto, agora impregnado de magia das trevas. Mas Elizabeth poderia ser muito insistente quando lhe convinha e, no fim das contas, Helena Ravenclaw se convenceu de que era o certo a se fazer.
— Ele parecia inofensivo — o fantasma disse. — Não fazia ideia do que faria, apenas achei que estava curioso sobre o diadema. Eu não fazia ideia de quem ele iria se tornar...
— Helena, não precisa se justificar. — Elizabeth procurou tranquilizá-la. — Nenhum de nós confiaria nele se soubesse o que ele era. Minha avó cometeu esse erro também. Talvez, na pele de vocês duas, eu também teria o cometido. Apenas me diga onde está para que eu possa destruí-lo.
Tom Riddle, como sempre, fizera-se de bom moço e Helena, assim como Hepzibá e Valentina, acreditaram. Pareceu interessado na história da joia, e Helena, já há algum tempo sem ninguém que ao menos a reconhecesse como a herdeira de Rowena, entusiasmou-se com o interesse e contou a história de que sabia que Salazar almejava o diadema e, por isso, escondeu-o em uma floresta na Albânia. Riddle o localizou, prendeu a quinta parte de sua alma em sua quinta horcrux e, espertamente, aproveitou sua "entrevista de emprego" – aquela que Elizabeth e Harry assistiram na Penseira – para escondê-la na Sala Precisa.
E, então, após séculos perdido, envolto das mais diversas lendas, o diadema estava ali para sua herdeira. Infelizmente, não intacto como se esperava. Na verdade, era até melancólico pensar que Elizabeth Jones, a herdeira de Ravenclaw, encontrou o diadema para destruí-lo.
Vencendo a hesitação, e sob o olhar acurado dos orbes azuis de Dumbledore, Elizabeth pegou o diadema em suas mãos com a maior delicadeza que suas mãos de pocionista permitiam. Esse breve contato, que não durou mais do que trinta segundos antes de pô-lo no chão, pareceu queimar seus dedos. Conseguia sentir as forças de Ravenclaw e Voldemort lutarem no objeto. A olho nu nada se via, mas o espetáculo de magia que se desenrolava dentro do diadema era magnífico e Elizabeth podia sentir em suas veias.
O local em que estavam era um dos poucos mais espaçosos que existia naquela sala abarrotada de itens. Dumbledore permanecia parado ao lado de uma estante; fascinado e assustado com a exuberância do diadema de Ravenclaw. Elizabeth se afastou alguns passos do diadema, que agora jazia delicadamente no chão, e puxou a varinha do bolso. A visão dos 28cm de madeira pareceu trazer Dumbledore de volta.
— O que vai fazer? — A voz firme não traiu o ancião, que intimamente estava assustado.
— Padrinho, o que acha que vou fazer?
Elizabeth voltou o olhar para o diadema e ergueu a varinha. Dumbledore se precipitou um passo, mas parou quando os olhos da afilhada o fitaram novamente. Lívido, o diretor questionou:
— Ao menos sabe como destruir uma horcrux?
O olhar que Elizabeth o ofereceu fora algo totalmente diferente do que o diretor já vira. Percebeu, só então, que sua afilhada estava mais preparada do que ele pensava para a guerra. Ela não era mais o bebê que batizou, a criança que quis proteger quando presenciou a profecia, ou a jovenzinha de dezoito anos quando retornou para o Reino Unido, nem a mesma garota para quem deu o estágio em setembro de 1995. Elizabeth crescera. Perguntou-se em que momento, em meio toda aquela loucura que viviam, a afilhada amadurecera diante de seus olhos sem que ele notasse. Um olhar mais minucioso e ele viu que ela mudava e transparecia. As olheiras debaixo dos olhos acompanhavam uma certa magreza que ele lembrava que ela não possuía. Os cabelos estavam mais longos e emolduravam um rosto muito decidido e poderoso. Elizabeth se tornara uma bruxa que, se ele não fosse quem era, lhe provocaria medo.
Então, sabendo do olhar fixo do padrinho, Elizabeth apontou sua varinha na direção da horcrux e ergueu a outra mão com a palma virada para a frente. O encantamento que seus lábios proferiram era milenar e perigoso.
As forças inimigas não me atingem,
Pois meu corpo é feito de bronze e fogo,
E minha alma é armadura contra o teu veneno.
Com o poder que me foi concedido,
Eu expulso as mazelas,
O ódio e a trapaça.
Eu exorcizo tua alma profana
Que se prende a objetos agora podres.
Eu elimino você.
Quebro, mato, extermino.
Transformo-te em pó
E das cinzas não voltarás,
Porque meu corpo é feito de aço em chamas,
E minha alma é protegida por deuses milenares.
Eu, Elizabeth Madelene Jones,
A herdeira de Rowena Ravenclaw,
Reivindico o diadema.
Dumbledore aparou o corpo de Elizabeth quando seus joelhos cederam. Era uma magia poderosa demais para alguém que não mexia com Artes das Trevas há algum tempo. Aliás, era uma magia forte demais para qualquer bruxo, seja ele quem fosse.
— Você perdeu a cabeça? — Dumbledore ralhou com preocupação, mas não conseguiu transformar o tom da voz, que soou carinhosa. — É magia das trevas das mais terríveis, Elizabeth! Onde teve acesso a esse encantamento?
— Nos... Nos livros... herdados — ela se referia aos muitos livros que passaram de geração em geração pela sua família. Dentre eles, alguns volumes sinistros sobre os mais diversos tipos de Artes das Trevas.
Ainda ajoelhado, com o corpo de Elizabeth em seus braços, o padrinho continuou seu sermão, totalmente horrorizado com o feito da afilhada.
Os olhos desfocados de Elizabeth, devido à alta magia das trevas, voltaram aos poucos ao castanho original. Um breve sorriso em seu rosto fez surgiu um franzir de cenho no seu padrinho. Mesmo fraca e esgotada, Elizabeth conseguiu reunir forças para um último gesto e uma última frase antes de desmaiar. Apontando para o chão à sua frente, ela disse:
— Eu consegui.
E realmente conseguira.
As íris azuis de Dumbledore fitaram a joia no chão. O fragmento da alma de Voldemort se desprendia lentamente, com um gemido medonho. A névoa etérea se dissolvia a uma determinada altura.
O diadema?
Estava intacto.
