Capítulo 37

A noite em que tudo mudou

"This is not what you wanted. Not what you had in mind."

"Bad Kingdom" – Moderat.


As pernas de Elizabeth tremiam enquanto andava. Porém, ela não sabia dizer se ainda era efeito do dia anterior, em que teve sua energia sugada pelo uso de magia das trevas para destruir a horcrux, ou se era medo. O ano letivo praticamente chegara ao fim – todas as avaliações já haviam sido feitas e os alunos apenas aguardavam o resultado –; então isso significava que o prazo que Voldemort dera a Draco Malfoy chegava ao fim e que o curto ano que Snape e Elizabeth conseguiram para Dumbledore também se esgotava.

Quando ela acordou na Ala Hospitalar já era madrugada. Sentia uma dor de cabeça absurda e seus músculos estavam doloridos como se tivesse passado horas fazendo alguma atividade física de alto impacto. Madame Pomfrey havia deixado sobre a mesa de cabeceira ao lado da maca uma poção analgésica e uma para reposição de energia. Depois de tomá-las, conseguiu dormir apesar da fome que sentia. Acordou muito cedo, e após um breve café da manhã, Pomfrey a liberou.

— O diretor disse que quer conversar com a senhorita — a medibruxa avisou. — Ele está na Torre do Relógio.

E era para lá que Elizabeth caminhava agora.

Dumbledore fitava o pátio da escola através dos vitrais da torre. Parecia muito compenetrado no que quer que olhava para perceber a afilhada chegar. O diretor levou um pequeno susto quando Elizabeth o abraçou por trás de repente. Ele riu e pôs as mãos sobre as dela.

— O que tanto olha?

— Os alunos. — Dumbledore respondeu. — É bom vê-los sem o estresse das provas.

Elizabeth assentiu e soltou o abraço. Colocou-se ao lado do diretor e viu que ele adquiria expressões mais sérias em sua face enrugada.

— O diadema...

— Está onde deveria estar — ele a cortou. — Com a sua família.

Dumbledore finalmente tirou a atenção do pátio e fitou a afilhada. Seus olhos muito azuis, por trás dos óculos de meia-lua, olharam para a jovem com um misto de orgulho e receio.

— Você me surpreendeu ontem. — Elizabeth sentiu-se ruborizar e abaixou os olhos para o chão. O seu padrinho continuou. — Sabia que era uma bruxa poderosa, mas não sabia o quanto. Conseguiu destruir uma horcrux sem causar danos ao objeto. Isso é incrível, Elizabeth. Mas devo dizer, também, que o uso perigoso de Artes das Trevas não me agrada. Precisei mentir para Papoula.

— Artes das Trevas só quando for estritamente necessário, esse é meu lema.

Dumbledore lhe sorriu, mas seu rosto logo ficou sério de novo. Elizabeth notou que o padrinho parecia cada vez mais cansado.

— Eu localizei o medalhão. Irei até lá amanhã, Harry deverá ir comigo.

Ela assentiu com a cabeça e permaneceu calada. Seu coração parecia revirar dentro do peito. Dumbledore pôs as mãos nos ombros da afilhada e encarou no fundo dos olhos castanhos que embargavam. Ele limpou a lágrima que caiu com o polegar da mão enegrecida.

— Sempre ouvi dizer que, geralmente, as pessoas sentem quando a hora chega — ele abaixou os braços e sorriu tristemente. — Preciso, em quanto ainda tenho tempo, acrescentar algumas informações àquilo que você já sabe.

Elizabeth concordou e lutou contra sua vontade de chorar. Dumbledore disse:

— Deixe-me explicar um ponto importante. Eu sempre digo que o amor é a magia mais poderosa de todas, e Voldemort, sempre procurando por poder, quis provar se isso era verdade. Ele queria se apaixonar, mas nós dois sabemos que isso não é possível para alguém como ele. Naquela noite, no bar, ele escolheu Valentina porque ela era a mais bonita, sangue-puro e poderosa. Ele projetou essa busca por amor na sua avó e ele realmente acredita que a amou. Voldemort não consegue enxergar seu próprio sentimento como obsessão. Ele decidiu que eu estava errado quando acreditou que Valentina tinha morrido naquele acidente. Para ele, a magia mais poderosa do mundo não poderia sucumbir à morte.

"Isso estando dito, preciso lhe apontar outra coisa. Voldemort não tentará matá-la, Elizabeth. Pelo menos não enquanto não souber que a profecia trata sobre você. Veja, ele não pretendia matar Valentina naquele dia. Apenas queria assustá-la o suficiente para que voltasse para ele. Talvez essa seja a única coisa da qual ele se arrepende, se ele se arrepende... Você é um troféu aos olhos dele. Ele não cometerá o mesmo erro de novo."

Elizabeth quis falar alguma coisa, mas não sabia o quê. Estava completamente apavorada com o que, agora, parecia mais próximo do que nunca.

— Voldemort está instalado na casa dos Malfoy — comentou Dumbledore. — Durante o tempo que ficará lá, você não irá ficar desamparada. Mas isso é tudo que posso dizer a você agora. Além disso, uma hora ou outra Voldemort descobrirá que você é a garota da profecia. Fuja antes que ele descubra.

Ela balançou a cabeça em concordância, mas se perguntou como fugiria da Mansão Malfoy e, principalmente, como saberia quando fugir.

Dumbledore suspirou muito forte e, pela primeira vez, deixou seu medo transparecer para a afilhada. Ele não tinha medo nenhum da morte, não era seu assassinato que o amedrontava. Ele temia por Elizabeth, sua única afilhada. Esta era a primeira vez que Alvo Dumbledore nutria medo por Lorde Voldemort, porque não sabia dizer o que esperava Elizabeth. Voldemort era instável.

Parecendo lembrar-se de algo, o diretor procurou por alguma coisa no bolso na túnica azul. De lá, tirou o colar de safira, aquele que ele enviara Elizabeth e Snape para encontrá-lo há mais de um ano.

— Quando eu entendi que algumas horcruxes eram objetos pertencentes aos fundadores de Hogwarts, eu achei que esse colar era uma delas. O diadema estava perdido há séculos, até mesmo me questionava se ele realmente existia. Por isso pedi que fosse encontrar o colar, mas não, não era uma horcrux. Na verdade, ele é um amuleto. Rowena o fez para Helena.

Dumbledore pôs as mãos ao redor do pescoço de Elizabeth e fechou o colar na base da nuca. A safira, assim como na primeira vez, emitiu um brilho como se reconhecesse o sangue de Ravenclaw. Os olhos de Elizabeth lacrimejaram de novo e desta vez ela não segurou. Dumbledore a abraçou com toda força que podia, deixando que ela chorasse sobre seu ombro.

— E-eu estou com m-medo. — Elizabeth soluçou, apertando-se ainda mais no padrinho

— É claro que está. É sábio estar com medo — ele disse com a voz também embargada. — Eu também estou apavorado.

— Eu achei que Alvo Dumbledore não tivesse medo de nada — respirou fundo ao se afastar.

O ancião retirou os óculos e limpou as próprias lágrimas. Ele sorriu enquanto ajeitava os óculos sobre o nariz torto novamente.

— É claro que eu tenho medo. Tenho medo de perder você, Lizzie.

Elizabeth respirou fundo mais uma vez e limpou o rosto. Seu coração pareceu doer. Não lembrava se o padrinho já havia sido tão aberto sobre seus sentimentos antes. Eles passaram muitos anos afastados quando os Jones se mudaram para o Brasil; eles apenas se comunicavam por telefonemas – uma ferramenta trouxa que era mais prática para realizar uma comunicação entre pessoas em diferentes continentes do que cartas. Quando retornou ao Reino Unido, ela logo ingressou no Programa Bruxo de Especialização, então só via Dumbledore nos feriados e férias. O maior tempo que passou perto do padrinho fora nos últimos quase dois anos que passou em Hogwarts; tempo este que foi gasto com deveres da Ordem da Fênix e preocupações com a guerra.

Tomando as mãos trêmulas de Elizabeth entre as suas enrugadas, Dumbledore declarou:

— Eu a amo, Elizabeth, como se fosse minha filha. Me desculpe por ter sido tão duro com você durante os últimos meses. Gostaria que as circunstâncias fossem outras e que pudéssemos viver como uma família, sem nos preocuparmos com a guerra. — Abaixou os olhos como se estivesse envergonhado, mas retornou o olhar para o rosto bonito da jovem. — Sobre Severo... Sei que falei coisas terríveis, mas saiba que não falei realmente sério. Achava, sim, que estarem separados seria o melhor, mas apenas porque temo demais pela vida de vocês dois. Tenha em mente que eu morrerei aliviado, querida, porque sei que Severo estará a protegendo.

Elizabeth, mais uma vez, não conseguiu segurar seu pranto e perdeu a noção do tempo enquanto chorava sendo aparada pelo padrinho.

ooOOooOOoo

Quando Elizabeth acordou no dia seguinte já era hora do almoço. O verão já havia chegado, mas as temperaturas nem se comparavam às do Brasil. Os 16º Celsius fizeram com que ela permanecesse enrolada em seu edredom por muito tempo ainda. Quase cinco anos que tinha voltado à Grã-Bretanha, mas seu corpo ainda não desacostumara com as temperaturas mais elevadas da América do Sul. Mas, de qualquer forma, era o início do verão e fim de junho.

Mais precisamente, era dia 30 de junho.

Ela se dirigiu até a cozinha, onde os elfos lhe serviram as sobras do almoço. Forçou-se a se alimentar mesmo que não sentisse fome alguma. Depois passou rapidamente em seus aposentos e escreveu uma nota rápida em um pedaço rasgado de pergaminho. Dirigiu-se até o corujal e Vênus veio até ela sem que precisasse chamá-la. Amarrou o bilhete à pata da coruja com os dedos trêmulos.

— Leve até meus pais. Não volte, Vênus. Fique em Blakeney. — Fez um leve carinho na cabeça da ave e não ficou para vê-la alçar voo.

Quando Elizabeth deu-se por si, suas pernas tinham a levado de volta às masmorras. Sua mão já virava a maçaneta dos aposentos de Snape. O professor estava sentado, como o habitual, em sua poltrona de couro verde musgo. Um copo de uísque estava em sua mão esquerda e seus olhos de obsidianas fitavam a bebida girar enquanto rodava o copo.

— Você tem bebido muito. — Elizabeth comentou parando defronte a ele.

— Vai ser hoje — foi tudo que ele conseguiu dizer.

Elizabeth tomou o copo da mão dele e o surpreendeu ao acabar com o restante do uísque com um único gole. Ela tossiu quando sentiu a bebida queimar sem piedade sua garganta e esôfago.

— Seguimos o plano, então — declarou ao mesmo tempo que deixava o copo sobre a mesa de centro.

— Seguimos o plano. — Snape repetiu como se falasse consigo mesmo.

Elizabeth abriu os botões de sua camisa azul com muita rapidez. Quando Snape teve o lampejo do tecido caindo sobre o chão, ele levantou seus olhos para os de Elizabeth. Ela se adiantou e sentou-se sobre o colo dele, os joelhos pressionando o acolchoado da poltrona a cada lado do quadril do professor. Ela não fez nenhuma cerimônia e selou os lábios nos dele, sem esperar para introduzir sua língua na boca morna de Snape. Ele a segurou pelos braços e a afastou delicadamente com certa resistência.

— Liz...

— Por uma única na vez na vida, Severo Snape — ela levou as mãos às suas costas abrindo o fecho do sutiã, e deixou-o cair em algum lugar no chão também —, cala a boca.

Desta vez, os dois foram ao encontro dos lábios um do outro ao mesmo tempo. O toque dos seios de Elizabeth contra o tecido grosso do sobretudo de Snape lhe causava pequenos arrepios. Ele a empurrou gentilmente para que saísse de seu colo, pegou-a pela mão e caminharam até o quarto.

Snape fechou a porta atrás de si com o pé e desabotoou o sobretudo. Elizabeth continuou a beijá-lo e ajudou a abrir a camisa que ele usava por baixo. Com os dorsos desnudos, Snape a deitou sobre a cama. Abandonou os lábios da mulher para tê-la suspirando sob si quando sugou uma área específica de seu pescoço. Ele seguiu entre beijos, lambidas e mordidas pelo pescoço, colo e seios de Elizabeth. Passou a ponta do nariz pela pele sedosa, pôr cima da tatuagem na costela e em direção ao vale entre os seios. Ela cheirava à sabonete de lavanda, mas o perfume frutado, com notas de jasmim e patchouli, era o que predominava.

Ele abriu o botão da calça quando seus lábios chegaram no encontro entre a barriga e o cós do jeans. Snape se levantou e removeu, com calma, os tênis que ela usava. Voltou para a calça e a tirou para deixá-la embolada no chão, próximo aos tênis. Snape mordiscou o interior das duas coxas de Elizabeth e passou a ponta do nariz sobre o tecido úmido da calcinha, o que fez com que seu pênis contraísse pelo cheiro feminino que ela exalava.

A calcinha foi retirada lentamente. O bruxo agarrou a renda com os dentes e a puxou até que o corpo de Elizabeth estivesse totalmente nu. Beijou-a intensamente, e antes que ela conseguisse alcançar o fecho da calça dele, Snape segurou seus punhos e os pressionou contra o colchão. Elizabeth gemeu em frustração e ergueu o quadril na direção de Snape. Ainda a segurando pelos punhos, ele finalmente colou os lábios nos inferiores dela, fazendo com que arqueasse as costas em agrado. Ela tentava se soltar das mãos de Snape, desejando poder segurá-lo pelo cabelo para mantê-lo entre suas pernas, mas o toque firme do professor não deixava. Na verdade, Elizabeth apreciava e muito todo aquele toque de dominação. Snape só a soltou quando a teve tremendo, com as pernas quase se fechando contra a sua cabeça.

Quando Elizabeth se recuperou do torpor do orgasmo, Snape já havia se livrado do restante de roupa que ainda vestia. Sentou-se na cama, com as costas contra a cabeceira, e não precisou dizer nada para que Elizabeth se sentasse sobre ele.

Não saberiam dizer se era o medo do que estava prestes a acontecer, o receio de não saber quando se veriam novamente, todo o amor que, agora, sabiam que sentiam um pelo outro, ou toda a conjuntura daquela cenário, mas o sexo parecia diferente. Ao mesmo tempo que o medo fazia com que agissem de maneira apressada, o amor fazia com que se demorassem nos olhares e toques, como se tentassem gravar cada detalhe. Cada movimento que Elizabeth realizada com os quadris – de baixo pra cima, de trás pra frente ou um movimento circular – arrancava gemidos muito altos dos dois, até mesmo de Snape, que sempre fora relativamente quieto durante a intimidade dos dois.

Quando o cansaço abateu as pernas de Elizabeth e seus movimentos se tornaram tortuosamente lentos, Snape a deitou novamente e assumiu a liderança com estocadas fortes e rítmicas. O corpo dos dois já brilhava de suor – a mão que segurava a cintura de Elizabeth escorregava na pele úmida – e os fios próximos à nuca do homem, que Elizabeth segurava como se sua vida dependesse daquilo, também estavam molhados. Snape enterrou o rosto no espaço entre o pescoço e ombro de Elizabeth e murmurou próximo ao seu ouvido:

— Liz...

— Dentro de mim... — ela conseguiu dizer entre os gemidos. — Por favor!

Os dois gozaram com diferença de poucos segundos. O gemido estrangulado que Snape emitiu quando permitiu-se mesclar seus fluídos com os dela fez com que ela se arrepiasse. Nada nunca havia sido tão intenso para eles dois.

E nada nunca mais seria o mesmo depois daquela noite.

ooOOooOOoo

Elizabeth estava sentada no sofá dos seus aposentos há muito tempo já. O silêncio era quase ensurdecedor. A varinha passava de uma mão para outra aguardando ansiosamente para se fazer útil. Ela respirou fundo pelo que pareceu ser a milésima vez. Focou em limpar e blindar a mente; sua Oclumência estava mais forte do que nunca. Sua mão agarrou os pingentes dos dois cordões que usava: a runa, presente de sua avó, e a pequena safira dada por Dumbledore no dia anterior. Levou os dois pingentes aos lábios e os beijou pedindo por forças.

O silêncio foi quebrado pelo primeiro som de feitiço, que foi seguido por mais um e mais um e um grito.

Era a hora.

Quando a mão de Elizabeth encontrou a maçaneta da porta, ela lembrou-se de maneira vívida de dona Carmen, avó de sua primeira namorada. A família materna de Thamires era indígena, mas sua avó paterna era uma católica fervorosa. Elizabeth lembrou-se com clareza da oração que dona Carmen sempre fazia. Viu-se mentalizando os trechos e mesmo que não fosse religiosa, aquilo lhe deu a coragem que precisava. Abriu a porta e nem por um momento olhou na direção dos aposentos de Snape. Seguiu direto para o andar superior.

O primeiro Comensal da Morte que derrubou estava lutando contra Tonks. Atingiu-o com um simples Impedimenta, pois não queria usar feitiços pesados e expor os alunos a atrocidades.

— A Ordem está aqui? O que está acontecendo? — Elizabeth despejou as perguntas em cima da prima, embora soubesse muito bem o que estava acontecendo. Precisava manter o plano.

— Comensais invadiram a escola, ainda não sabemos como... — Tonks atingiu um outro comensal enquanto Elizabeth olhava para todos os lados, procurando por um certo professor. — Hermione nos avisou por Flu. Elizabeth, sua fam...

Mas a fala de Tonks se perdeu quando uma voz forte gritou por Elizabeth. Edward correu na direção da irmã e a pegou pelo braço, levando-a para um corredor mais deserto. Lá, seus pais a esperavam.

— O que estão fazendo aqui? É perigoso! Com quem está o Hector?

— Tudo é perigoso agora, Lizzie. — Cássia rebateu com temor. — Precisávamos dar suporte agora, fazemos parte da Ordem. Hector está com a sua avó.

— Vocês receberam meu bilhete? Eu enviei hoje mais cedo.

— Ainda não deve ter dado tempo da sua coruja chegar, querida. Mas sua avó está em casa, ela irá recebê-la. Era algo muito importante? — Robert perguntou. Elizabeth notou que ele tinha um rasgo no casaco de tweed.

— Era só avisando que seria hoje e para vocês não se preocuparem.

— Precisávamos ver você antes de... Antes de tudo — a mãe disse com lágrimas nos olhos.

O som da batalha era alto e um grito medonho acordou toda a família do transe. Os Jones se abraçaram de maneira rápida e desajeitada, e saíram juntos de volta aos corredores.

O grito era de um aluno da Lufa-Lufa que era torturado por um comensal. Edward o atingiu com um filete de fogo, que queimou o braço direito do torturador. Robert correu para acudir McGonagall que duelava com Amico Carrow e Cassiopeia ajudou Kingsley a desarmar um outro bruxo.

Adiantando-se, Elizabeth encontrou Greyback pronto para atormentar uma aluna que não deveria ter mais do que treze anos. O olhar de prazer e fome do lobisomem era repugnante enquanto avançava na direção da menina. Elizabeth o atingiu com feitiço que o fez voar de encontro com a parede. Deu ordens para que a aluna se refugiasse em sua Sala Comunal e manteve a varinha na direção do comensal.

— São crianças, Lobo. Por que você não pega alguém do seu tamanho? — Elizabeth segurou a varinha com firmeza enquanto assistia ele se levantar aos poucos.

— Como você? — Ele rosnou com um sorriso obsceno.

Greyback correu na direção de Elizabeth, mas foi impedido quando ela quase o atingiu com o mesmo feitiço de fogo que Edward usara. O homem tentou a atingir com algum feitiço de magia das trevas, mas Elizabeth utilizou-se do Protego, fazendo com que o feitiço ricocheteasse ainda mais forte. Não esperando por aquilo, Greyback foi atingido e uma feia ferida abriu-se em seu peito. Rosnando de ódio, partiu para cima da bruxa lançando uma enxurrada de feitiços, que Elizabeth conseguiu rebater sem falta. Ele até tinha um certo poder, mas sua selvageria e raiva o tornavam inconstante e facilmente derrotável. Ficando cada vez mais irritada, ela mandou o seu bom senso às favas.

Crucio! — O grito de dor de Greyback chamou atenção dos outros que lutavam. Tanto alunos quanto Comensais da Morte a olharam espantados.

Ela não manteve a Imperdoável por muito tempo; apenas o suficiente para deixá-lo fraco. Algum outro bruxo a atingiu com um feitiço fraco que a fez cair, mas logo virou-se para acertá-lo em cheio com um Estupefaça. Levantou-se rapidamente e permitiu-se mais um momento de insensatez. Deu um forte chute no rosto de Greyback, o que fez surgiu um corte perto da boca. Sabia que havia comprado uma briga feia com o lobisomem.

Mais à frente, encontrou Lupin a lutar contra dois comensais. Enquanto ele se ocupava com um, o outro estava pronto para lançar a Maldição da Morte no bruxo. Assim que ouviu o comensal proferir as palavras do feitiço, Elizabeth lançou uma barreira em torno de Lupin, o que fez com que a maldição rebatesse na proteção e acabasse por atingir o próprio comensal que a lançou. O outro seguidor de Voldemort correu em direção a outro lugar e Elizabeth foi checar se Lupin estava bem. Nem mesmo percebeu que Snape passou por ela.

A batalha seguiu por mais algum tempo. Elizabeth duelava bravamente com Yaxley quando viu Snape seguir para fora do castelo com Draco em seu enlaço.

Estava feito.

Seu breve momento de desatenção fez com que Yaxley a atingisse com um feitiço que cortou o tecido da calça. Voltando a si, lançou na direção do comensal um feitiço qualquer que o deixou desacordado sobre o chão de pedra.

— Elizabeth! — Harry Potter a gritou.

O pavor nos olhos de esmeralda do garoto foi a confirmação que faltava para Elizabeth. Ela correu até ele enquanto o garoto tentava falar:

— Snape... Ele... Ele...

Elizabeth balançou a cabeça em negativa, pedindo para que ele não dissesse nada. Segurou o queixo de Harry em seus dedos e olhou profundamente nas bolotas verdes que eram os olhos do rapaz e, por Legilimência, assistiu todo o horror que acontecera na Torre de Astronomia. Viu Draco desarmar Dumbledore, lutar contra seu dever, a chegada dos Comensais da Morte, a chegada de Snape...

Dumbledore estava certo o tempo todo. Draco jamais conseguiria, era apenas um menino assustado. A frieza com que Snape tinha agido quase pôs Elizabeth em dúvida e ela se culpou por isso. Era o plano. Ele precisava agir assim, precisava ser convincente. Sabia que a alma do homem que amava estava dilacerada.

Quando saiu da mente do garoto, seus olhos estavam embaçados de lágrimas e sua mente revivia a toda hora a visão de Dumbledore sendo atingido e caindo para o nada. A batalha estourava ao redor deles.

— Elizabeth — Harry a chamou —, o Snape.

— Snape… — murmurou e logo se lembrou das palavras do professor dizendo "siga o plano". Reuniu todo ódio que sentia naquele momento por Voldemort, Greyback, Bellatrix e, até mesmo, Jonathan e disse de maneira cortante. — Snape!

Virou e caminhou muito rápido na direção em que Snape fora. Seus passos eram duros e as lágrimas escorriam pelo seu rosto sem que ela percebesse. Harry vinha ao seu lado. Assim que alcançaram o Saguão de Entrada, foram surpreendidos pelos irmãos Carrow às suas costas.

— Eu cuido disso — disse ao garoto. — Vá atrás do Snape.

Harry Potter hesitou por um momento, mas assim que Elizabeth lançou o primeiro feitiço contra os irmãos, o garoto concluiu que ela ficaria bem. Ele correu na direção dos jardins deixando Elizabeth com os dois comensais. Eles eram dois e eram muito mais eficientes do que Greyback. A adrenalina não deixava com que Elizabeth sentisse cansaço ou dor na perna ferida num passado não tão distante. Finalmente conseguiu atingir Amico com um Petrifico Totalus e Aleto com uma magia que a deixaria desorientada por algum tempo. Tempo o suficiente para que Elizabeth corresse até os jardins.

A cabana de Hagrid em chamas era o que iluminava os jardins naquela noite fúnebre. Queria poder apagar o fogo que lambia as paredes do casebre do meio-gigante, queria salvar Canino que esganiçava dentro da cabana da mesma forma que queria poder ter salvo Sirius, Emma e Dumbledore.

Mas não podia. Não estava em suas mãos.

— Bloqueado outra vez — ouviu Snape dizer a Potter — até você aprender a calar a boca e a fechar a sua mente!

Elizabeth entendeu que, mesmo naquela hora, Snape ainda tentava dar instruções ao garoto, mas sabia que ele não escutaria, não assimilaria. Severo Snape era um traidor agora, um assassino.

— Revide, seu covarde! — O garoto gritou.

— Covarde? — Snape gritou. — Do que você chamaria seu pai, hein? Que só atacava quando eram quatro contra um.

Elizabeth corria.

Sect...

— Você se atreve a usar meu próprio feitiço contra mim, Potter? — Snape voltou a gritar depois de bloquear o feitiço e lançar um que fez Harry voar e cair quase perto de onde Elizabeth chegava. — Eu sou o Príncipe Mestiço!

Snape deu as costas na mesma hora que Harry erguia a varinha de novo. Elizabeth pretificou o garoto que a olhou, paralisado, sem entender.

— Desculpa, Harry — gritou enquanto passava pelo garoto. — Mas proteger você é a prioridade.

Correu mais do que nunca agora. O feitiço que lançou, diferentes dos de Harry, acertou Snape nas costas e ele cambaleou.

— Pelas costas, Jones? — Berrou num tom que fez Elizabeth se arrepiar de maneira ruim. — Achei que era mais corajosa.

Ela e Snape duelaram brevemente. Conforme haviam combinado, o duelo não era nada mais do que ataques leves, mas convincentes, de Elizabeth e defesas eficientes de Snape. De acordo com o plano, ela deixaria que Snape a atingisse com um Incarcerous e ele a levaria dali. Mas Elizabeth se esquecera dos Carrow que, àquela altura, já tinham se livrado dos feitiços e alcançavam o grupo que fugia.

Talvez tenha sido Aleto que a acertou com um feitiço que não saberia dizer qual era. Seu corpo todo endureceu e doeu como se estivesse levando uma Cruciatus, e aos poucos ela viu sua visão escurecer e sua mente se esvair. Já estava desacordada quando caiu com tudo no chão, abrindo um machucado na testa.

Antes de desmaiar, as últimas duas coisas que pensou foi em Snape e na oração favorita de dona Carmen:

"Deus,

Dai-me serenidade para aceitar as coisas que não posso mudar,

Coragem para mudar as que posso

E sabedoria para discernir uma da outra."


Nota da autora:

- Contém trechos adaptados da obra de J.K. Rowling, "Harry Potter e o Enigma do Príncipe", 2005.