Capítulo 45 – Badla (acerto de contas)

O apartamento triplex de Raaja Vegeta tinha um grande e espaçoso escritório bem decorado onde ele normalmente passava muito tempo quando estava em casa, porque dali podia ter acesso a seus arquivos de trabalho ou assistir, numa imensa Smart TV, as primeiras cópias de filmes ainda inéditos antes do lançamento, coisa que ele gostava de fazer sozinho, anotando seus pareceres para passar ao diretor. Claro que ali também ele se refugiava para ver filmes e séries longe dos comentários dos filhos, preferia que eles não soubessem que ele adorava assistir algumas produções americanas como "Game of Thrones" e "Breaking bad".

Mas, naquela tarde, ele estava sentado na sua confortável poltrona, atrás de uma escrivaninha clássica do século XIX que custara uma pequena fortuna, lendo um livro que pretendia terminar ainda naquela tarde quando o filho mais velho entrou sem bater e se postou, furioso diante dele, batendo na mesa antes de perguntar:

– Por que escondeu de mim que o noivo de Bulma era gay?

Raaja ergueu os olhos, com um ar entediado para o filho e contemplou-o longamente. O rapaz tinha um olhar severo, cheio de raiva. O pai então sacudiu a cabeça lentamente e disse:

– Era algo que você poderia ter descoberto por si mesmo há bastante tempo, se tivesse o mínimo de sangue nas veias, sabia?

– Eu quero saber porque você não me disse... se eu soubesse disso há mais tempo eu poderia ter evitado que Bulma...

– Ah, sim. Você poderia ter evitado que Bulma namorasse, se comprometesse e eventualmente se casasse com ele, coisa que ela fez bem diante de seus olhos apaixonados e sob sua total apatia. Ou melhor, não foi apatia: foi orgulho. O que você queria, realmente? Que ela desistisse espontaneamente do casamento sem você mover uma única palha para isso? É isso mesmo?

– Então você sabia que...

– Eu sabia desde que você me pediu um teste para ela. E meu primeiro impulso foi dizer não. Eu pensei: "Deve ser só mais uma garota bonitinha"... e quando ela fez o teste eu vi, eu percebi um potencial de estrela. Você a descobriu. Você a trouxe... e a entregou de bandeja. Você não lutou, nem ao menos se colocou como um adversário possível. Assistiu passivamente a mulher que você amava acabar nos braços de outro, pior, um outro que sequer poderia competir contigo se você realmente se empenhasse em conquista-la. E sabe porque você agiu assim, Júnior?

– Já disse que não gosto que me chame de Júnior – foi a única coisa que Vegeta conseguiu responder, e Raja prosseguiu:

– Você agiu assim, de forma orgulhosa e estúpida porque estava acostumado a ter mulheres correndo atrás de você e achava que ela que deveria se declarar para você, dispensar o outro e cair nos seus braços sem que você tivesse tomado uma única iniciativa? Eu realmente fiquei te observando e imaginando quando você acordaria. A garota estava a um passo, um curto passo de você e você não deu esse passo antes que percebesse que poderia ser tarde demais. E vem reclamar de mim, dizer que eu não te disse que o outro sujeito era gay e reclamar que eu te chamo de Júnior? Eu errei, errei muito na minha vida. Errei com Kyra, errei com a sua mãe, errei com você e o seu irmão, errei um milhão de vezes e paguei caro por cada erro meu. Mas quando te vi se tornando um desastre de ser humano, eu te trouxe para perto de mim e te dei todos os meios para que você se tornasse um homem melhor do que eu. E você me surpreendeu muitas vezes de forma positiva, mas se mostrou um idiota arrogante e orgulhoso exatamente como eu fui quando perdi Kyra.

Raaja passou a mão pelos cabelos, num gesto irritado, e prosseguiu:

– Eu tive a mulher mais perfeita do mundo apaixonada por mim e consegui perde-la. E quando ela disse que não me perdoava, eu me tornei um cretino da pior espécie e a vi cair nos braços de outro exatamente da mesma forma e pelos mesmos motivos que você. Eu sempre soube que estava lá, vivo entre Kyra e Cutelo... e em vez de apoiá-la quando ele a desprezou eu a espezinhei casando-me com sua mãe, fazendo não apenas uma, mas duas mulheres infelizes. E quando achei que teria uma chance, Kyra me disse que era tarde demais e ela tinha razão. Era tarde demais para nós porque eu não podia ser irresponsável de deixar você aos cuidados da desequilibrada da sua mãe.

E se eu paguei pelos meus erros, esperava que você errasse menos que eu, que fosse mais inteligente do ponto de vista emocional. Você teria se empenhado mais se soubesse que sua musa estava caminhando para um casamento com um homossexual? Talvez. Mas você não percebeu o óbvio: que ela estava esperando VOCÊ tomar uma iniciativa. Você teve todas as chances! Beijou-a em cena. Esteve só com ela no Holi, depois trabalhou com ela na tradução dos textos do pai dela, livrou-a de um sequestro... o que você estava esperando para dizer que a amava, Júnior?

– EU TINHA MEDO DELA ME DIZER NÃO! – gritou Vegeta, de repente, encarando o pai, furioso. – Eu tinha medo dela estar realmente apaixonada pelo verme e me rejeitar, satisfeito agora? Mas esse medo desapareceu. E realmente não tem nada a ver com o que você não me disse, mas com o que eu decidi.

– E o que você decidiu?

– Ela não vai se casar com ele. Vai se casar comigo. Porque ela me ama, eu a amo. Nada mais importa. Se eu tiver de apanhar do irmão dela ou bater nele, se eu tiver de me colocar entre ela e quem quiser me impedir, eu vou me colocar. Se eu esperei demais, não quero mais esperar. Amanhã, antes da cerimônia, quando ela estiver lá se arrumando, vou até a casa de casamentos e vou leva-la de lá, a um templo, a um sacerdote, aonde for, é comigo que ela vai se casar e não com Yamcha Kapoor.

Um sorriso de lado surgiu na face de Raaja Vegeta. Ele ficou em silêncio e levantou-se, indo até um arquivo, num canto do escritório, de onde tirou um documento que entregou ao filho, depois de caminhar até ele. Vegeta passou os olhos pelo documento e seu rosto cobriu-se de espanto.

– Você passou a casa de Juhu... para o meu nome?

Raaja assentiu e disse:

– Há alguns meses, quando comprei a parte de Shallot na produtora. Também passei esse apartamento para o seu irmão e 10% da produtora para cada um de vocês dois e Chichi. O avião eu comprei no nome dela, claro que todos os bens estão em meu usufruto até a minha morte.

– Por quê? – Vegeta encarou o pai, incrédulo e ele disse:

– Você precisa de uma casa para morar com a sua futura esposa, não precisa? E eu estava esperando você, meu filho mais velho, finalmente ter uma atitude digna do orgulho que eu tenho de você – ele encarou o filho – e você finalmente se tornou o homem que eu esperava que se tornasse. Perdoe seu pai se ele não foi um bom exemplo.

De repente, Vegeta compreendeu tudo que seu pai fizera por ele, tudo que esperara dele e toda a raiva se esvaiu por completo. Ele o olhou nos olhos e disse:

– Baudjee (patriarca)... me perdoe por dizer mentiras sobre você quando era menino... dizer que batia na minha mãe e...

Raaja pôs a mão no ombro do filho e disse:

– Eu sempre soube que você dizia isso porque desejava muito o amor de sua mãe, queria que eu fosse o vilão da história. Eu fui agredido por Fasha inúmeras vezes mas jamais revidei... porque eu merecia o ódio que ela sentia. Mas minha história com sua mãe não tem heróis nem vilões, ela não merecia ter se casado comigo. Você não merecia ter passado a infância toda entre mim e ela, sendo usado e jogado de um lado para o outro. Eu que deveria te pedir perdão.

Então, o que parecia impensável para Vegeta quando ele entrara naquele lugar, aconteceu. Ele, depois de anos de relação distante e fria, foi até o pai e o abraçou. E quando se separaram, Raaja perguntou:

– Então... o que você pretende fazer?

Vegeta deu um sorriso de lado e disse:

– Acho que vou precisar de sua ajuda e da do Tarble... eu tenho um plano.


O carro de Raditz estava quase chegando ao Palladium Mall quando a esperada chuva da monção desabou como uma cortina translúcida diante deles. Raditz deu um suspiro:

– Não fui rápido o suficiente, mas já estamos bem perto... acho que chegamos antes do trânsito dar um nó...

– Você tinha razão, eu nunca ia achar esse lugar vindo lá de Navi Mumbai – admitiu Tights. – não tinha um shopping mais perto?

– Até tinha... mas eu tenho certeza que minha mãe te mandou vir aqui para que eu a leve na loja favorita dela. A dona Gine Sayajin depois que melhorou de vida ficou bastante consumista, que você quer saber... até Chanel nº 5 ela usa.

– Bom saber! Já sei que vou comprar alguns para ela quando for a Paris...

– Que filha adotiva fina e chique minha mãe arranjou... – brincou Raditz – pretende ficar aqui até quando?

Tights deu um suspiro fundo e disse:

– Se Bulma não fosse casar eu estenderia minhas férias aqui mais um pouco, mas minha passagem está marcada para terça-feira.

Raditz não disse nada, mas sentiu um ligeiro incômodo com a ideia dela indo embora tão rápido. A conversa deles até ali, apesar da provocação inicial dos dois, havia fluído de forma muito amena e agradável, conforme ele ia explicando por onde passavam, desde os quase dois quilômetros pela moderna Vashi Bridge, que ligava as duas cidades, passando por todos os bairros desde os campos de sal de Mumbai até a moderna avenida no bairro de Uper Worli onde ficava o shopping, passando por bairros mais pobres ou ricos que ele ia explicando, orgulhoso do tanto que conhecia da sua cidade. De repente, ela perguntou sobre as locações de "Quem quer ser um milionário" e ele disse, aborrecido:

– Vocês, ingleses... tanta coisa para se ver em Mumbai e se interessam por favelas... – ele olhou para ela, com um ar um pouco hostil e disse – sabia que nossa pobreza não é circo?

Tights sentiu-se mal, chocada por perceber que sua curiosidade realmente soava ofensiva e pediu desculpas, dizendo:

– Sabe... a Inglaterra e a Europa não são exatamente o que pensam... também há cada vez mais pobres por lá, acho que o mundo não está indo para um bom rumo.

Raditz deu de ombros e disse:

– Não podemos consertar tudo, sabe? Mas o lugar onde foi filmado é mais para o centro-oeste, raramente passava por lá. Não que Andheri, onde eu fui criado, fosse muito melhor, mas é um lugar pobre, não miserável – ele deu um suspiro – às vezes tenho até saudades de quando eu chegava de viagem e os meninos da rua me chamavam para jogar Cricket. Outro dia vi um deles por aqui, vendendo verduras perto de Vadala. Um futuro parecido com o que Kakarotto teria se não tivesse sido abençoado tanto pelos deuses.

– Acha mesmo? Não sei, vocês parecem tão bem estruturados e tudo mais...

– Não se engane, somos a exceção, não a regra. Sem a sorte de Kakarotto, Bulma não teria viralizado como dançarina na internet, não faria o teste e seria... uma analista de sistema a mais no nosso competitivo mercado. Sei que ela inteligente, praticamente um gênio. Mas isso não conta tanto no mundo corporativo daqui. Os iguais normalmente ajudam iguais. Nem preciso dizer que eu jamais teria esse carro ou meu emprego sem meu irmão. A essa hora estaria em algum lugar nas estradas do Norte...

– Por que não nas do Sul?

– Já tentou negociar uma carga com um mercador de Tamil ou Telangana? Aposto que não. Eles não falam a mesma língua que nós e nós desconfiamos deles e eles de nós. Nem sei como ainda somos um país apenas, porque em Gujarate e Jaipur, ah, também lá desconfiam de nós, se você fala Marati e não Hindi, desconfiam de você no Norte, se fala Urdu, vai ser escorraçado no Sul... a Índia tem uns 40 países dentro de um mesmo país... mas é engraçado que quando toca o hino ou hasteia-se a bandeira... ah, aí somos todos nós filhos da mesma grande e bela Mãe Índia.

– Pois então... Gandhi os uniu contra nós... – ela deu um suspiro – é chato ver a si mesma como parte do problema, mas isso vive acontecendo comigo. Deve ser por isso que minha empresa investe tanto em pesquisas médicas, combate ao aquecimento global...

Raditz riu e disse:

– Culpa de colonizadora. Nunca tinha visto manifestada ao vivo.

– Já começou a testar minha dureza, Raditz?

– Não sei, quem sabe... talvez. – Ele riu. – Estamos chegando ao shopping. Tem alguma preferência em relação ao sári que vai escolher?

– Essa pergunta é séria? Eu sequer imagino que tipo de sári eu poderia escolher! Eu nunca vesti um sári na vida, eu não faço a MÍNIMA ideia de como vestir um sári...

Raditz gargalhava procurando uma vaga no estacionamento do shopping, enquanto ela ia desfilando seu pânico.

– Eu estou falando sério! – ela disse, vendo que ele não parava de rir e ele exclamou:

– Eu sei, e é por isso que eu estou achando tudo tão engraçado! A mulher durona, CEO de uma empresa mundialmente famosa – ele estacionou o carro, olhando diretamente para ela, assim que parou – em pânico por causa de um simples sári... quanto drama!

Ela estreitou os olhos para ele e disse:

– Então você se recusa a me ajudar?

– Longe de mim! – ele sorriu, radiante e saiu do carro, dando a volta rapidamente para abrir a porta para ela – Estou à sua disposição para te ajudar a encontrar o mais adorável e apropriado sári para vestir uma mulher durona e inglesa...

– Por que sinto um ar de deboche nessas palavras? – ela disse, andando ao lado dele, que sacudiu a cabeça à moda indiana dizendo:

– Não leva nenhuma fé em mim...

Logo eles estavam nas galerias do shopping e Raditz riu quando ela disse que shoppings eram realmente iguais em qualquer lugar no mundo:

– É o modelo americano...

– Bah... por lá mesmo eles estão falindo – ela comentou – estive nos Estados Unidos recentemente... americanos são arrogantes e desagradáveis! E escreva o que vou te dizer: vão eleger aquele sujeito medonho, Donald Trump!

– Ah, não tem a mesma boa vontade com todos os colonizados, a nossa colonizadora!

– Claro que não. – ela riu e ele disse:

– Chegamos. Satya Paul, a loja favorita da minha mãe para comprar sáris... e eu espero que seu cartão internacional tenha um bom limite, porque aqui é bem caro...

– O evento pede algo caro – ela disse, desafiadora.

– Siga em frente, então – ele disse – as vendedoras certamente falam inglês...

Ela entrou na loja e olhou para ele, que fez um gesto para que ela seguisse e ela fez um gesto para que ele a acompanhasse e ele entrou e ficou num canto, de braços cruzados. O olhar de Tights logo foi atraído para um sári totalmente branco, com poucos enfeites, discreto e bonito. Ela pensou "Hum, branco. No ocidente é gafe usar branco porque é a cor da noiva..." ela então perguntou a Raditz, que pareceu surpreso com a escolha mas disse com um ar inexplicavelmente cínico:

– Não se preocupe... as noivas vestem vermelho e dourado na índia.

Ela se afastou e pediu à vendedora para experimentar o sári, e a mulher a olhou com estranhamento e perguntou se era aquilo mesmo que ela procurava, com uma solicitude educada que ela amou e ela afirmou que queria exatamente o sári branco. Em um minuto a vendedora trouxe uma peça de pano que ela ficou olhando sem jeito e uma blusa curta, e ela pediu ajuda e a moça prontamente a ajudou com um sorriso discreto e profissional dizendo:

– A senhora deseja usar uma pakar? É à parte, mas não se veste o sári sem ela.

Ela disse que sim e a mulher trouxe uma longa saia de um tecido leve que ela vestiu e então, a mulher amarrou o sári nela habilmente. Logo ela saiu da cabine se achando linda e encarou Raditz que a olhou por alguns segundos e então, caiu na gargalhada. Aquela certamente não era a reação que ela esperava, e ela o encarou furiosa perguntando:

– Qual é o seu problema, hein?

Ele não conseguia parar de rir, mas foi aos poucos foi recuperando e disse então:

– Você vestiu... um sári... de viúva!

Ela abriu a boca e fechou várias vezes, De repente, olhou para ele e disse:

– Muito engraçado...

– É mesmo! – ele respondeu – agora vá lá e procure algo colorido e espalhafatoso. Você está na Índia, não em Londres!

Ela deu as costas para ele e, muito sem jeito, falou sobre o engano para a vendedora, que perguntou:

– A senhorita quer agradar namorado indiano?

– Namorado? Não, não é meu namorado, está mais para um... amigo, sei lá, irritante!

A vendedora sorriu e perguntou:

– Ele pediu algo colorido, eu ouvi bem?

– Sim, mas esse não é meu estilo, sabe? Não sei...

A mulher sorriu para ela e disse:

– Há algo que podemos fazer para surpreender seu amigo irritante...

Raditz ficou olhando, aborrecido, para os manequins, entediado. Tights estava há quase meia hora na cabine, experimentando sáris, e não saía. Ele começou a olhar para fora da loja, divagando bobagens, finalmente relaxado depois de tanto estresse nos últimos dias e não a viu quando ela saiu do provador e só quando ela se postou diante dele perguntando o que ele achava que ele voltou sua atenção e levou um susto.

Tights estava linda. Absurdamente linda num sári preto com bordados dourados e o choli cor de ouro, mas com detalhes em preto. Não, não era colorido, não era 'muito indiano' mas era simplesmente deslumbrante. A vendedora, sentindo o cheiro do dinheiro que ela pretendia gastar, oferecera ainda impressionantes bijuterias folheadas a ouro com pedras semipreciosas e ela agora ostentava, além de um conjunto de pulseiras douradas em cada pulso, um colar gigantesco, cheio de pedras de quartzo amarelo, que fazia conjunto com um par de brincos e uma maangtikka (joia de cabeça), sustentada por uma corrente que a vendedora conseguiu prender mesmo nos seus cabelos curtos.

Raditz perdeu o fôlego, sem conseguir esconder o quão admirado estava e Tights disse:

– Acho que estou apropriada.

Quando saíram da loja, ele não conseguia dizer muita coisa. Tinha ficado de alguma forma perturbado pela visão dela naquela roupa, era como se, de repente, ela tivesse tocado em algo que ele não sabia o que era, mas que acendera nele um desejo, um incômodo, uma atração forte e inesperada pela mulher; e ele, de natureza sempre tão controlada e racional, não sabia lidar com aquele assalto de sensações que o atacara tão de repente, e, ainda assim, tentava disfarçar enquanto ela falava com entusiasmo de como havia gostado do sári, mas não tinha certeza se saberia vesti-lo corretamente.

– Ah – disse ele, de um jeito distraído – peça ajuda à minha mãe... ela pode te ajudar a vestir-se.

Ela sorriu, de um jeito alegre e disse:

– E o filme da Bulma? Será que conseguimos assistir?

– Claro! – ele disse, sentindo uma espécie de alívio – tem um multiplex aqui no shopping ao lado, o Phoenix, a gente chega lá em um minuto...

Os dois foram andando e ele sentia-se aliviado porque o filme era uma forma de fugir daquela proximidade obrigatória dos dois que o estava abalando tanto. Ele só havia se esquecido de um pequeno, porém importante, detalhe: o filme era falado em hindi, idioma que Tights não dominava nem um pouco. E quando o filme começou e Chichi apareceu gritando "Bhaee!" ela perguntou, em voz baixa:

– O que ela disse?

Raditz traduziu e, a partir dali, teve de sussurrar as falas do filme para ela, que sorriu empolgada quando sua irmã apareceu, linda e fascinante na tela, e assim ela envolveu-se naquele romance que foi narrado para ela na voz baixa, rouca e calma de Raditz, que durante o intervalo foi pegar algo para que eles comessem, como desculpa para disfarçar o quanto sentia-se perturbado e afetado pela presença dela, por seu perfume, por sua voz, quando ela comentava, maravilhada alguma cena de música e dança que ela assistia, fascinada, os grandes olhos azuis arregalados acompanhando o movimento da irmã ou de Vegeta, ou ainda dos dois, na tela.

E quando ele voltou, trazendo uma pequena caixa com samosas e refrigerantes, ela tagarelava sem parar falando das cenas com empolgação, e ele olhava para ela em silêncio, fascinado, percebendo que gostava de ouvir a voz dela, gostava da presença dela. Gostava dela, simplesmente, não pudera evitar aquele sentimento que crescera nele e transbordava, como a erupção de um vulcão que depois de tanto tempo adormecido, acordava cheio de calor e fúria.

E, durante o resto do filme, enquanto Tights assistia o romance da tela, ele a assistia, observava cada movimento, sentia a mulher respirar ao seu lado, suspirar e rir, cada vez mais consciente que aquilo do qual ele zombara e fugira durante toda vida, de repente, sem aviso o alcançara. Ele estava, e não conseguia deixar de estar, subitamente apaixonado pela pequena e vivaz inglesa.

O filme terminou e Tights estava empolgada, alegre, sorridente. E disse, de repente:

– Morta de fome. Onde vamos comer?

Já era noite, e ele a levou para jantar num restaurante próximo ao hotel onde ela estava, em Collaba. Enquanto esperavam o pedido, ela de repente reparou no silêncio dele e disse:

– E o desafio, Raditz? Morreu? Desistiu de provar que eu não sou durona?

Ele riu e disse:

– Ah, depois que eu vi você vestida num sári de viúva esqueci até da aposta do tanto que eu ri.

– E eu aposto que vai contar essa história para todo mundo... isso é jogar sujo, não acha?

– Eu não tenho culpa se você se entregou tão facilmente – ele disse e olhou nos olhos dela. Tigths sentiu o olhar dele envolve-la de um jeito diferente. Ela sentiu-se repentinamente tímida e corou como uma adolescente. Não podia negar que cada vez que ele traduzira a frase "aaee lav yoo" para "eu te amo", ela sentira um arrepio bom, uma vontade de virar-se e o beijar, abraçar-se ao corpo dele, forte e másculo, e apenas deixar acontecer o que ela sabia que queria que acontecesse. Ela então o encarou e disse:

– Isso não é justo! Quero saber alguma história embaraçosa sua também! – ela disse e ele riu gostosamente passando a mão nos cabelos pretos longos, sorrindo para ela com charme antes de dizer:

– Então tá. – ele riu – vou te contar uma história tão embaraçosa que eu jamais contei para meus irmãos ou para a minha mãe. Imagino o que Kakarotto não daria para saber essa história!

– Oba, vou contar para ele – ela disse, divertida e ele replicou:

– Ah, sim... logo depois que eu falar sobre sua gafe com o sári de viúva. – ela fez um bico e ele disse – então... vamos fazer um trato, não conto sua história nem você a minha. Partilhamos um segredo... nosso segredo, que tal?

– Feito! – ela disse, animada.

– Então... isso aconteceu quando eu estava há mais ou menos uns seis meses dirigindo pelas interestaduais da Índia, depois de um ano fazendo entregas só nos arredores de Mumbai. Eu tinha 19 anos e era bem bobo, mas me achava o esperto. Eu fazia rotas seguras, o mais longe que eu tinha ido era Nova Déli, que fica a um dia de viagem de Mumbai. Então, um dia em Déli, me propuseram uma viagem para Shimla.

– Simla? – ela perguntou, tentando dizer a palavra que não entendera bem.

– Não! Shim-la – ele disse, ela repetiu e os dois ficaram se encarando por um estranho instante antes dele prosseguir – é uma capital, uma cidade importante... mas como ela fica numa das cristas dos Himalaias, o caminho é uma estrada bem perigosa, sabe? Há pedaços onde só passa um caminhão, outros sob rochas enormes... por isso as cargas para lá pagam bem, muito bem aliás... e eu não resisti quando o transportador me ofereceu uma carga para lá. Ia pagar mais do que qualquer carga que eu trouxesse de volta a Mumbai e com a vantagem de ter a volta garantida, porque todo caminhoneiro volta de lá trazendo alguma coisa. Em vez de viajar 23 horas voltando a Mumbai, viajaria 8 até Shimla, descansaria uma noite e voltaria com caminhão cheio.

– Uau, você é um visionário...

– A estrada fez isso comigo – ele riu e prosseguiu – eu não imaginava que 8 horas de viagem a Shimla fossem tão estressantes e cansativas, mas eram. Quando eu parei, numa pequena venda bem no meio do caminho, já numa boa altitude, eu vi um homem carregando uma cabra morta, como se carregasse um bebê. Aquilo me incomodou, porque os demais caminhoneiros pareciam indiferentes à história que ele contava: a única fonte de renda da sua família, a pobre cabra, tinha sido atropelada, blababla, ele tentava vender a carcaça para dar de comer à sua família por mais um dia antes dele tentar se empregar em algum lugar.

– Coitado!

– Pois é. A cabra tinha a cabeça esmagada e sangrenta, ele estava sujo de sangue... era meio dramático e bem nojento. Mas eu me comovi e quando ia saindo para o caminhão perguntei quanto ele queria pela cabra e ele disse que aceitava 1500 rúpias (cerca de 90 reais). Era pouco para uma cabra daquele tamanho, que tinha bastante carne, mas muito para um coitado que nem eu, no meio da estrada, esperando receber algum dinheiro em Shimla para colocar diesel e voltar. Mas fiquei comovido e disse ao homem "leve essas mil rúpias e a sua cabra, alimente a sua família". Ele me agradeceu muito, muito mesmo. Chorou e me sujou todo do sangue da cabra quando me abraçou, e o pior não foi isso. Eu vi que os caminhoneiros todos dentro da venda estavam chorando, mas de rir da minha cara. Achei aquilo grotesco e insensível, mas em vez de voltar e tirar satisfações com eles, subi no meu caminhão, sujo de sangue mesmo, e segui para Shimla, onde eu pude tomar um banho, me trocar e descansar, enquanto descarregavam e recarregavam o caminhão para eu voltar no dia seguinte.

– E aí? – perguntou Tights – essa história não me parece assim tão ridícula, só mostra como você tem bom coração.

Ele a encarou por um momento e disse:

– O problema é que um mês depois, quando peguei uma nova carga, dessa vez de Jaipur para Shimla, o homem estava lá com outra cabra e a mesma história. Todo mundo na estrada conhecia aquele vigarista, menos eu. Era um vagabundo que pegava cabras selvagens, quebrava a cabeça delas com uma pedra e vendia para viajantes desavisados.

Tights olhou para ele um instante, tentando conter o riso e então gargalhou alto, sem conseguir se conter e ele ficou olhando para ela, sentindo-se não embaraçado, mas intimamente satisfeito com aquela reação, que era exatamente a que ele esperava. Quando lágrimas de riso surgiram nos olhos dela ele não se conteve, e estendeu a mão para enxuga-las, acariciando o rosto dela, que o encarou por um instante, o riso suspenso num leve sorriso. Um instante depois, os pratos dos dois chegaram e a magia se quebrou, com eles sentindo-se estranhos por todo jantar.

Quando ele a levava para o hotel, percebeu que não queria que ela fosse embora. Não queria que ela saísse de perto dele, queria mais dela, queria aquele perfume, aquela risada, aquele jeito descontraído e independente que o conquistara tão rápido. Então ela disse:

– Não está tão tarde. Poderíamos tomar um drinque no bar do hotel.

– Não sou muito de beber.

– Então bebo sozinha, seu chato – ela disse, com um bico – pode ir para casa, seu careta.

– Nunca. Não conhece os indianos, algum pode ser abusado te vendo sozinha bebendo num bar. – ele disse, sério – eu a acompanho.

– Eu pago – ela sorriu – afinal, não me deixou pagar o jantar...

No bar do hotel, ela perguntou se ele não ia querer nada e ele, subitamente corajoso, pediu um uísque como o dela. Brindaram, olhando-se nos olhos e ele bebeu de uma vez, sentindo o líquido quente descer pela garganta e quase imediatamente sua cabeça ficou mais leve, e ele se sentiu mais solto. Quando deu por si, a estava encarando e sabia que seu olhar traía sua razão, porque ela também o encarava de um jeito quente, envolvente. De repente ela disse:

– Um uísque está bom para mim – ela brincava com o gelo no copo – e para você?

Ele apenas sacudiu a cabeça e disse:

– Acho que tenho que ir.

– Já que veio até aqui, me acompanhe pelo menos até a porta do meu quarto. – ela levantou os olhos e o encarou. Ele sorriu e sacudiu a cabeça em concordância.

No trajeto, no elevador, os dois sentiam uma ansiedade estranha, como que um pulso elétrico entre eles, mas, enquadrados pela câmera do circuito interno, mantinham a compostura, e assim, andaram até a porta do quarto dela, os passos ecoando no corredor vazio, a tensão crescendo entre os dois até que, diante da porta ela o encarou e disse:

– Raditz, eu...

Ele a interrompeu com um beijo. O corpo enorme encostou-se contra o dela, e ela o sentiu empenhado por inteiro naquele beijo, arrebatando seus sentidos, um encontro de desejo mútuo como nenhum dos dois nunca havia experimentado na vida. De costas para porta e sem interromper o beijo, ela encostou o cartão na maçaneta fazendo a porta se abrir e o puxou para dentro, deixando do lado de fora apenas o silêncio.

Notas:

1. Eu gosto da ideia de pais que querem que os filhos consigam as coisas com menos intervenção deles. A relação entre Vegeta e seu pai sempre foi marcada pelo fato de que o filho não percebia o que o pai havia feito por ele, como o havia resgatado de uma vida substancialmente vazia. Mas a reconciliação desses dois ainda não é o capítulo final de redenção do Raaja. Ainda falta conquistar a Chichi. Será que ele consegue?

2. Alguns esclarecimentos sobre as línguas na Índia, que tem 22 idiomas oficiais, entre eles o Português (na província de Goa) e o Inglês, por resquício da colonização inglesa: Marati é o idioma oficial do estado de Marahastra, onde fica Mumbai, e, como o Hindi e o Bengali, é um idioma derivado do Aawadi; "parecido" com o Hindi como o Português se assemelha ao Espanhol, por exemplo. Porém, enquanto o Marati e o Hindi usam a escrita Devanagári, o Bengali (também falado em Bangladesh) tem um alfabeto próprio (parecido com o original, mas com algumas diferenças). Porém, todo Norte da Índia e as províncias ocidentais tem o Hindi como segunda língua, o que faz deste o idioma mais falado na Índia. Já o Tamil e o Telugu são idiomas completamente diferentes do Hindi, derivados do antigo idioma Dravani e parecidos entre si, tanto que a maioria dos Tamils consegue entender os Telugos e vice-versa, uma vez que os dois idiomas tem a mesma raiz e usam alfabetos próprios bastante semelhantes, no entanto, enquanto o Tamil (ou Tâmil), uma das línguas mais antigas ainda em uso, é falado do Sul da Índia até o Sri Lanka e parte de Cingapura, o Telugo é um dialeto local falado apenas nas províncias do centro-leste da Índia, como Orissa e Telangana. Vale lembrar que a maioria dos falantes do Tamil e do Telugu não consegue entender muito bem o Hindi e nem o Marati e vice-versa.

3. Shimla é a maior cidade do estado indiano de Himanchal Pradesh, situada na parte indiana da Cordilheira do Himalaia, uma cidade dedicada em sua maior parte ao turismo, mas com grande criação de ovinos e caprinos. O "golpe" descrito nesse capítulo é realmente usual nessa região e foi descrito pela primeira vez por Sir Richard Francis Burton, um inglês que viajou por toda Índia até o Nepal. Hoje, Shimla é um pólo turístico e uma estação importante do "caminho de ferro indiano" que corta os Himalaias, uma das duas estradas de ferro declaradas "Patrimônio da Humanidade", junto com a Ferrovia do Expresso do Oriente. Foi num dos seus trens que foi gravado o célebre musical "Chay Chayya" do filme "Dil se" que talvez vocês se lembrem de ter visto lá no capítulo 10.

4. Badla, literalmente, quer dizer "Vingança", mas também é uma palavra que é usada em relação ao resgate cármico, quando o que é feito por uma pessoa é "devolvido" por outra como forma de carma. De certa forma, o grande carma do Raaja foi ter Vegeta como filho. Badla também é o nome de um filme de 2019 com Amithab Bacchan, Taapse Pannu e Amrita Singh.

5. Então... sobre o plano do Vegeta: ele envolve uma escada, uma Ferrari e uma roupa de príncipe. Mas vocês ainda não estão preparados para essa conversa, só no capítulo 47. Antes, vamos ver o que vai acontecer com Raditz e Tights, por isso eu peço que no próximo capitulo vocês tirem as crianças da sala...