Capítulo 39
Os outros
"Miss you but I try not to cry as time goes by."
"Bye Bye" – Mariah Carey.
NOITE DE HORROR EM HOGWARTS: ALVO DUMBLEDORE É ASSASSINADO E PROFESSORA, RAPTADA
O mundo bruxo amanheceu, nessa primeira manhã de julho, com notícias terríveis. Alvo Dumbledore, diretor da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts desde 1956, foi encontrado morto nos jardins do castelo, enquanto Elizabeth Jones, professora recentemente efetivada na escola, desapareceu depois que Comensais da Morte – seguidores d'Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado – invadiram o castelo.
Testemunhas que estiveram em Hogwarts na noite em questão disseram que o diretor havia se ausentado durante o dia, e que não tinham conhecimento de que Dumbledore havia retornado até encontrarem o seu corpo. De acordo com a autópsia, Alvo Dumbledore foi vítima de uma Maldição da Morte – uma das três Maldições Imperdoáveis – e, já depois de morto, caiu, ou foi jogado, de uma grande altura, pois tinha uma quantidade significativa de ossos fraturados, além do corpo se encontrar em uma posição que indicava queda.
Além disso, a professora Elizabeth Jones desapareceu depois de ter sido vista, pela última vez, correndo em direção aos jardins de Hogwarts. As testemunhas contaram que a professora duelou com comensais e que acreditam que ela possa ter sido raptada pelos criminosos.
As pessoas entrevistadas pela equipe do Profeta Diário contaram ainda que o professor Severo Snape, que leciona na escola desde 1981, foi visto saindo do castelo junto dos comensais. Snape também não foi mais visto até então.
Elizabeth Jones é professora de Poções, licenciada pelo projeto do Ministério da Magia "Programa Bruxo de Especialização" e formada pela Escola de Feitiçaria Castelobruxo, no Brasil. Todos os entrevistados não pouparam elogios à professora, sempre frisando que a senhorita Jones é muito inteligente, atenciosa e didática. A família pede para que quem souber ou tiver informações sobre o paradeiro da jovem entre em contato com o nosso jornal.
Alvo Dumbledore era diretor de Hogwarts, ex-professor de Transfiguração, possuía Ordem de Merlin, primeira classe, além de outros incontáveis títulos honrosos. Entre seus feitos mais notáveis está o duelo contra Gerardo Grindelwald, em 1945, que se encerrou na derrota do bruxo das trevas e, consequentemente, sua prisão em Nurmengard. O jornal presta condolências à família e amigos do diretor e informa que, em breve, dedicará uma matéria em sua memória.
O Profeta Diário ainda investiga sobre como e por que os Comensais da Morte invadiram o castelo de Hogwarts, a identidade do assassino de Dumbledore e o aparente sequestro da professora.
Por Ben Mears.¹
O Profeta Diário, primeiro de julho de 1997.
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A campainha soava sem cessar. Quando dava pequenas pausas, era substituída por batidas desesperadas na porta. De acordo com o relógio sobre a mesa de cabeceira, eram 09h24. Um horário justo; não era inadequadamente cedo nem demasiadamente tarde. Mas fora dormir muito tarde após longas horas de pesquisas e, depois, sexo. O homem ao seu lado na cama ainda dormia tranquilamente, alheio a quem quer que estivesse à porta. Levantou-se e vestiu uma regata da mesma cor da calça de algodão.
— Pelo sangue de Morgana, já vai! — Gritou quando saiu do quarto.
Quando Paul destrancou a porta e a abriu, a primeira coisa que saltou sob a sua visão foi a cabeleira loira de Melissa e seus olhos arregalados.
— Mel? O que...?
A mulher empurrou uma edição d'O Profeta Diário na direção do rosto do colega. As palavras da manchete assaltaram os olhos de Paul e, abaixo do título da matéria, as fotos, lado a lado, de Dumbledore e Elizabeth fizeram com que suas pernas quase fraquejassem. Ele tomou o jornal das mãos de Melissa e a puxou para dentro do apartamento. Os dois se sentaram sobre o sofá em absoluto silêncio.
Melissa estava em choque demais para sequer chorar. As íris castanhas de Paul vagavam rapidamente de um lado para o outro, engolindo cada palavra escrita, esperando que no decorrer da reportagem dissesse que Elizabeth fora encontrada e que estava bem. Mas isso não aconteceu.
— Deve haver um engano, não é possível... — Ele largou o jornal sobre a mesa de centro.
Melissa negou veementemente com a cabeça, os olhos finalmente estavam lacrimejando.
— Foi o maior burburinho no St. Mungus quando o corpo do Dumbledore chegou para a autópsia. Falei com Carlinhos Weasley, ele é meu amigo, e ele me confirmou. Parece que um dos irmãos dele foi atacado por um comensal.
— Precisamos falar com os pais da Lizzie. — Paul passou a mão pelo cabelo crespo cortado à escovinha. — Ajudar nas buscas... Eu não sei.
— Mandei uma coruja para eles assim que li a reportagem, mas acho que a carta ainda não deve ter chegado. Não sei se seria certo aparecer de repente em Blakeney nessa situação.
Simplesmente estavam apavorados demais. Elizabeth Jones havia sido raptada e só Deus poderia saber onde e como ela estava.
— Mas como? — Paul se perguntou. — Lizzie é uma bruxa esplêndida, como pode ter sido pega?
— Acho que... — Melissa fungou. — Acho que foi o Snape. Você notou isso na matéria? Disseram que ele fugiu com os comensais.
— Misericórdia...
— Acho que ele deve ter se aproveitado do que Lizzie sente por ele.
— O quê? Como assim?
— Ah, achei que ela tivesse te contado. — Melissa apertou os dedos. — Eles estavam juntos, Paul. Foi por causa dele que brigamos daquela vez.
Um silêncio sepulcral caiu sobre os dois. Não havia mais o que ser dito. A dor e desespero de não saber o paradeiro e bem-estar de uma amiga parecia pior do que a morte. Pelo menos no falecimento se tem certezas. Num desaparecimento apenas resta esperanças e, às vezes, nem isso.
Vladmir acordou sem o calor do namorado junto ao seu. Estranhou, pois Paul sempre o acordava assim que despertava. Ouviu um breve murmúrio de vozes na sala e vagou para lá. Paul e uma jovem – que identificou como Melissa, segundo uma foto mostrada pelo namorado – estavam sentados em silêncio. As feições no rosto de ébano de Paul eram desconhecidas por Vladmir. Sentiu medo.
— Amor?
Paul pareceu acordar do seu transe, e tanto ele quanto Melissa fitaram o russo.
— A guerra, Vlad. — Paul sussurrou. — Ela começou.
ooOOooOOoo
Já havia se passado uma semana desde a noite de horrores em Hogwarts. Uma semana que Alvo Dumbledore deixara o mundo bruxo. Uma semana que ninguém sabia onde estava Elizabeth Jones.
Àquela altura, o Profeto Diário já havia tido acesso à versão de Harry Potter. Dumbledore fora assassinado por Severo Snape, antigo professor de Hogwarts, que, por sua vez, raptou Elizabeth Jones com a ajuda dos Carrow e fugiu.
O burburinho foi intenso. Ninguém no mundo bruxo tinha Snape em suas graças. Os que foram seus alunos tinham motivos de sobra para desgostar dele, outros estudaram com o Comensal da Morte mais ou menos na mesma época e sabiam das companhias com quem andava; e ainda tinham aqueles que nem chegaram a conhecer o professor, mas não simpatizavam com ele apenas pelas histórias que ouviam. Apesar de tudo isso, apesar de parecer que apenas Dumbledore confiava em Snape, apesar de quase todos o odiarem, não houve sequer uma pessoa que não ficasse chocada com as notícias. Precisava-se de muito sangue frio para matar um idoso já debilitado. Precisava-se ser muito audacioso para matar Alvo Dumbledore.
A Ordem da Fênix, além de algumas outras pessoas, fizeram buscas por alguns dias. Reviraram Hogsmead, a Floresta Proibida, o Beco Diagonal, falaram com alguns transeuntes e comerciantes, mas ninguém tinha qualquer informação sobre Elizabeth. Os pais da professora deram um basta nas buscas, apesar da Ordem ter tentado convencê-los a continuar. Não podiam continuar. Doía demais.
Doía demais não ter notícias de Elizabeth. Doía demais não fazer ideia de onde Snape se metera. Doía demais ter pedido um amigo como Dumbledore.
Na segunda semana de julho, Edward podia ser encontrado caminhando num cemitério em Ennis, na Irlanda. Hector, com quase oito meses, balbuciava algumas sílabas dentro do carrinho de bebê. Ele e o filho tinham se mudado por tempo indeterminado para o casarão de Blakeney. Os pais acharam que não seria prudente a família ficar separada em tempos de tantas incertezas.
O sol da manhã de verão aquecia na medida certa. Edward semicerrou os olhos devido à claridade e continuou a andar. A luminosidade solar, que atingia o carrinho, mostrava como Hector parecia cada vez mais com a mãe. Seus cabelos eram crespos de um tom de castanho claro e seus olhos eram duas bolotas achocolatadas fitando curiosas o mundo ao seu redor. A pele era uma mistura da dos pais, tinha uma cor linda e viva de café com leite – talvez mais café do que leite.
Edward estacionou o carrinho e sentou-se de frente para o túmulo. Os raios do sol que açoitavam o concreto quase traziam algum acalento ao viúvo. Emma amava o sol. Sempre acordava cedo para tomar um banho de vitamina D.
Já não doía tanto, oito meses depois. Tampouco se sentia tão solitário. Mas a saudade era um sentimento avassalador e sua avó o avisara alguns meses atrás que a saudade nunca ia passar. Ele apenas iria aprender a conviver com ela.
Saudade. Era uma palavra que ele, particularmente, gostava. Em inglês não havia nenhuma palavra totalmente exata para o sentimento. Ele poderia usar I miss, mas parecia que só saudade poderia chegar perto de abranger a imensidão do que ele sentia. Sentia falta de Emma quando acordava e não a encontrava na varanda tomando sol, quando ele tomava chá sozinho, quando deitava e não tinha outra pessoa ao seu lado na cama. Sentiu falta dela de maneira pungente quando Hector balbuciou a primeira palavra – "iwabet", o que ele achou que seria Elizabeth. Não teve tempo de contar isso à irmã. E sentia mais falta ainda de Emma agora que Elizabeth estava desaparecida. Bem, os Jones sabiam que ela estava na Mansão Malfoy, mas não saber sobre a situação dela era o mesmo que não saber nada.
— Está tudo muito estranho, Emma — disse depois de algum tempo. — Meu pai se tranca no laboratório e passa horas analisando suas plantas e ervas. Acho que em breve ele deve escrever um artigo sobre o uso de alguma erva para o tratamento de glaucoma. Mamãe está mais calada do que nunca, e você sabe que ela é tagarela. E minha vó... Às vezes escuto ela chorar baixinho, o que é muito estranho, porque ela sempre foi a mais durona de nós. Ela passa quase o dia todo na varanda esperando que Snape chegue com notícias.
Um vento agradável assobiou. Os cabelos quase pretos de Edward se bagunçaram, mas ele não pareceu se importar. Observou o filho, que agora parecia entretido com uma pequena borboleta que revoava o carrinho, e sentiu inveja. Queria estar alheio a tudo como Hector.
— Eu gosto dele, sabe? — Voltou seus olhos para o túmulo. — Do Snape. Eu fico pensando no que você disse sobre ele quando contei que suspeitava que Elizabeth estava apaixonada. Lembra? Você disse: "ele era um péssimo professor. Não havia uma única alma estudantil em Hogwarts que gostasse dele". Aí você bebericou seu chá — sorriu saudoso — e continuou: "mas ninguém pode resumir um homem a apenas uma única personalidade. Ser um professor ranzinza não é a única faceta de Snape, assim como você não é só um magizoologista viciado em trabalho. Talvez Elizabeth tenha visto algo que ninguém mais vê".
Edward, então, esticou o braço para fazer carinho na barriguinha do filho, que sorriu com seus únicos dois dentinhos. Ele se levantou e limpou a grama da calça. Girou o carrinho e caminhou para a saída. Hector, talvez não tão absorto como o pai achava, franziu o cenho e balbuciou alguma coisa, como se estivesse reclamando de algo. Virou-se no carrinho, como se tentasse olhar para trás, para fitar o túmulo que dizia:
EMMA REGINA GREEN-JONES.
17.10.1971
15.11.1996
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A casa de Blakeney parecia morta, embora habitasse nela uma família. O silêncio, na maior parte do tempo, era quebrado por Hector em suas tentativas de falar ou quando chorava. Era o bebê que mantinha a família sã. Como aprendera a engatinhar, todos precisavam ficar atentos ao menino para que nenhum acidente acontecesse.
Edward passou a abrir o consultório apenas três vezes por semana, e eram nesses dias que o restante da família parecia acordar levemente do torpor, já que se revezavam nos cuidados do bebê. Robert se dedicava às suas pesquisas, mas parecia ser o único produtivo. Cassiopeia tentara pintar uma vez, mas não tinha forças nem para pegar o pincel. Também já não se ouvia mais as teclas do piano de Valentina. Até mesmo a coruja de Elizabeth parecia sentir que algo não estava certo; passava a maior parte do dia pousada sobre o parapeito da janela do quarto da dona. A falta e preocupação para com Elizabeth era absurda. Seguravam-se na ideia de que Voldemort não a machucaria, pelo menos não de modo fatal. Porém, com o passar dos dias, esse fio de esperança ia se despedaçando. Era difícil não saber o que esperar, e era mais difícil ainda ter que esperar.
Robert encontrou Valentina sentada no pequeno sofá da varanda, o que já era habitual. Vênus estava pousada no braço do sofá e Valentina a acariciava com uma das mãos. O homem sentou-se ao lado da idosa, ambos fitando o campo exorbitantemente verde dos jardins.
— Minerva enviou uma coruja — disse. — Perguntou se não queremos buscar os pertences da Lizzie.
— É prudente que façam isso. — Valentina comentou. — Mais cedo ou mais tarde, Voldemort terá alguma influência sobre Hogwarts e pode ser perigoso as coisas de Elizabeth continuarem lá.
A coruja alçou voo repentinamente para ir caçar. Valentina passou a mão nos fios brancos de seus cabelos e trouxe a xícara que segurava na outra mão até seus lábios. O chá já estava frio, mas ela não pareceu se importar.
— Mãe, não é culpa sua.
Ela assentiu silenciosamente ainda fitando os jardins. Esperava desesperadamente que Snape aparecesse de uma vez por todas com notícias, e que fossem acalentadoras.
— Eu sei disso — respondeu ao filho. — Sei que errei em trair o seu pai, mas sei que não poderia adivinhar que aquele homem se tornaria o maior bruxo das trevas de todos os tempos. Também não poderia saber que um dia eu teria uma neta que nasceria com a maldição de ser parecida comigo. Mas não posso evitar de me sentir assim. Não posso me desfazer desse sentimento inato de que eu tenho culpa.
Robert permaneceu calado, pois conseguia entender o lado da mãe. Sua filha caçula havia sido levada, e mesmo que soubesse que fazia parte de um plano, ele não podia evitar de se sentir impotente.
— A senhora acha que eu errei em ter esperado tanto tempo para contar a ela sobre a profecia? — Questionou enquanto a observava.
Valentina, por fim, abandonou a vista esplêndida do campo e olhou para seu filho. Seu único filho. Seu menino que agora já tinha cabelos grisalhos. Ela passou a xícara de chá para a outra mão e repousou a mão direita sobre a esquerda de Robert. Ela respondeu:
— Algum tempo atrás eu diria que sim. Hoje eu vejo as coisas de uma perspectiva diferente. Nosso destino sempre irá nos encontrar. Acredito que tudo aconteceu da maneira que tinha que acontecer. Você só queria protegê-la pelo tempo que podia. Fez o certo, Rob.
Ele afirmou com um gesto da cabeça e suspirou. Levou a mão enrugada da mãe ao rosto e a beijou. Levantou-se do banco e deu as costas para voltar para dentro quando Valentina comentou:
— Eu não ia com a cara da Cássia quando vocês começaram a namorar.
Robert virou-se para a mãe com um sorriso e viu que ela sorria de volta.
— O meu pai menos ainda — ele disse. — Afinal, ela era uma Black. Ele nunca gostou dos Black.
— Tampouco gostava de sonserinos, e Cassiopeia conseguiu ser os dois. — Valentina sorriu mais ainda.
Robert riu, mas franziu o cenho.
— Aonde quer chegar, mãe?
— Christopher não ia gostar do Snape — escondeu o sorriso ao levar a xícara aos lábios.
— Não, não ia — gargalhou saudoso. — Ele diria: "Liz", ele a chamava assim, lembra? "Liz, cuidado com as serpentes..."
— "...Elas rastejam antes de dar o bote" — ela completou juntando-se à gargalhada do filho. — Seu pai era um grifinório insuportável!
A risada cessou os poucos e os dois respiraram em busca de ar. O novo silêncio era mais confortável do que o antigo, agora inebriado pela lembrança acolhedora de Christopher Jones.
— Eu sinto falta dele. — Robert murmurou mais para si do que para a mãe.
— Eu também.
Mãe e filho observaram os jardins mais uma vez, talvez esperando que alguém chegasse. Talvez não Snape, mas alguém. Talvez um vislumbre da malandragem de Sirius, do cabelo crespo de Emma, dos fios prateados de Dumbledore ou até mesmo do andar elegante de Christopher.
Alguém. Alguém que eles amassem. Alguém como Elizabeth. Apenas alguém.
Nota da autora:
¹ Ben Mears é um personagem do escritor Stephen King. Ele aparece no livro "Salem" (previamente publicado como "A Hora do Vampiro"), de 1975.
