Capítulo 41
As suposições da Ordem
"Confesso, acordei achando tudo indiferente."
"Confesso" – Ana Carolina.
Elizabeth estava sentada sobre a cama. Tinhas as costas contra a cabeceira e as pernas encolhidas contra o peito. O queixo estava apoiado em um dos joelhos e ela traçava com o dedo desenhos não identificáveis sobre a colcha branca. Suas unhas estavam grandes, maiores do que já estiveram um dia. Aquilo a incomodava bastante, pois sempre manteve as unhas curtas por ser mais adequado ao preparo de poções. Mas era tudo diferente agora, até mesmo as roupas que trajava.
Narcisa havia trago as roupas novas uns dois ou três dias depois que chegara à mansão. Não faziam o estilo de Elizabeth. Todas as peças consistiam em vestidos compridos e blusas e saias igualmente longas de um estilo muito retrógado para os anos 1990. Pelo menos as cores eram de seu agrado: preto, cinza e tons escuros de azul ou verde. Narcisa tinha acertado no tamanho das peças, mas agora, semanas depois, todas já estavam um pouco largas. Ela parecia... doente.
Sua "cuidadora" – como gostava de se referir a Narcisa – estava atrasada. De acordo com o relógio que agora havia sobre a mesinha de cabeceira, que foi um pedido que tinha feito e fora atendido, seu jantar deveria ter sido entregue há, pelo menos, uma hora. Um serviço de quarto descuidado, pensou com um sorrisinho triste, tentando arrancar graça de alguma coisa.
Ouviu-se, então, duas pequenas batidas à porta. Pelo ritmo, era Narcisa. Elizabeth murmurou para que entrasse e a mulher adentrou. Narcisa Malfoy caminhou pelo quarto e pôs a bandeja sobre a escrivaninha. Virou-se para Elizabeth com uma expressão que transitava entre impaciência e desconforto.
— Como está?
— Se eu disser que estou bem, estarei mentindo. — Elizabeth disse abaixando as pernas. — Mas posso dizer que estou bem na medida do possível. É uma boa resposta?
— Vomitou hoje? — Ignorou completamente a pergunta retórica carregada de sarcasmo.
Elizabeth apenas negou com a cabeça. Narcisa virou para pegar a bandeja novamente e a deixou ao lado de Elizabeth, sobre o colchão.
— Precisa comer — disse olhando atentamente para Elizabeth pela primeira vez naquelas semanas. — O Lorde das Trevas providenciou uma compra maciça de peixes.
Ela trouxe a bandeja até o colo e levantou o cloche, revelando um belo salmão. Sua mente vagou para muitas semanas atrás, quando Snape providenciou um jantar surpresa para os dois, alegando que queria distraí-la de tudo. A lembrança a machucou mais do que imaginaria. Por isso, forçou sua mente para outro assunto.
— Você demorou hoje.
— O Lorde das Trevas convocou uma reunião.
— Todos estavam aí? — Perguntou num tom indiferente, mas pensou em Snape, embora fosse justamente isso que procurava evitar.
— Os mais próximos. — Narcisa virou-se para sair do quarto. — Coma.
— Seu marido voltou? — Questionou um pouco antes de Narcisa alcançar a porta. Ela voltou-se para a outra com uma expressão confusa. — Eu pensei ter ouvido a voz dele nos últimos dias...
— Sim. Ele voltou. Agora coma.
Quando pôs a mão sobre a maçaneta, Elizabeth a chamou novamente. Narcisa permaneceu de costas e revirou os olhos.
— O quê?
— Por que isso?
Elizabeth não precisou explicar para que Narcisa entendesse. A resposta veio mais rápida e indiferente do que Elizabeth estava esperando.
— Porque se você morrer de inanição, eu morro também. Entendeu? — Virou-se rapidamente apenas para vê-la assentir com a cabeça. — Agora, coma. Por favor.
E, apressadamente, Narcisa já estava fora do quarto. Mas Elizabeth havia entendido. Aquele "por favor" não foi por Narcisa.
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Poucos dias depois, a Sra. Malfoy adentrou o quarto fora do horário das refeições. Elizabeth se alarmou um pouco, apesar da outra manter uma expressão livre de emoções. O jeito de Narcisa às vezes lhe lembrava Snape.
— O que...
— Você está atrasada? — Narcisa a interrompeu. Elizabeth percebeu, então, que ela trazia algo nas mãos.
— Você está falando...
— Da sua menstruação — interrompeu-a novamente.
— Que dia é hoje? — Elizabeth perguntou sentindo seu coração bater um pouco mais rápido.
— Vinte e sete.
— Bem, não está exatamente atrasada. Ela sempre desce ao final do mês ou começo do próximo. Eu até estou sentindo algumas cólicas.
— Mas existe alguma possibilidade? — Narcisa se aproximou mais alguns passos.
— Eu... — engoliu em seco. — Bem, eu tive relações há pouco tempo. Mas eu uso, quer dizer, usava, antes de vir para cá, uma poção contraceptiva.
— Nenhum método contraceptivo é cem por cento eficaz, Elizabeth.
— Você está me assustando — disse ao se levantar.
Narcisa apertou os lábios e pareceu pensar por um momento no que estava fazendo. Por fim, ela caminhou até Elizabeth e a entregou os dois frascos que tinha nas mãos. Um era uma poção e o outro era um copo vazio.
— Sabe como funciona? — Narcisa perguntou sem esperar por uma resposta. — Você urina no copo e depois coloca a poção. Se ficar rosa, é negativo. Azul, positivo.
Elizabeth balançou a cabeça em compreensão e se trancou no banheiro. Narcisa sentou-se sobre a cama e esperou com paciência. Em nenhum momento pensou em sair dali. Já estivera no lugar de Elizabeth mais de uma vez. Os minutos de espera até a urina ter a cor exata eram os piores. Queria ter tido alguém ao seu lado nas vezes desesperada que precisou fazer o teste. Lúcio não ligava, desde que lhe desse um herdeiro.
A porta do banheiro se abriu de maneira tímida. Narcisa fitou Elizabeth com a mesma indiferença de antes. A jovem não parecia nervosa, tampouco havia algum sinal de choro em seu rosto. Suas feições estavam, apenas, confusas.
— Rosa.
Narcisa soltou o ar disfarçadamente.
— Acredito que seja o estresse. Isso já aconteceu antes — lembrou de Jonathan.
— Fico tranquila agora. Uma gravidez na sua situação seria algo terrível. — Levantou-se para sair. — Vou trazer seu almoço.
— Narcisa, obrigada — disse com sinceridade.
A senhora Malfoy apenas a olhou por alguns segundos e saiu do quarto.
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O negrume do céu parecia envolver A Toca.
O plano de retirada de Harry Potter da casa dos tios não saíra como o planejado. A informação falsa sobre a data do deslocamento que a Ordem introduziu no Ministério parecia não ter sido aceita por Voldemort. Ele sabia que estariam levando Harry Potter embora, apesar de que não esperava que houvesse sete Potters. Talvez tenha sido um dos movimentos mais arriscados que a Ordem já dera, e o ferimento irreversível de Jorge Weasley e a morte de Olho-Tonto corroboravam para isso. E, naquele momento, o céu escuro dançava em volta d'A Toca. Dançava uma dança traiçoeira ao redor dos membros da Ordem da Fênix.
Depois de todos brindarem em memória de Alastor Moody – com exceção de Jorge, que ainda estava debilitado –, os soluços grosseiros de Hagrid eram a única coisa que profanava o silêncio amedrontador da casa. Existia algo quase místico na morte de um homem como Moody. Ele era um dos melhores aurores já vistos, um homem forte, apesar da deficiência, e um bruxo poderoso. Sua morte trazia uma sensação de desesperança. Se Olho-Tonto fora assassinado, que chances tinham eles? Se Dumbledore fora morto de maneira tão fria, por que eles também não seriam?
Harry, que passara as últimas semanas mantendo-se informado através das notícias escassas e cada vez mais manipuladas do Profeta Diário, lembrou-se do que o afligia desde... Desde àquela noite em Hogwarts.
— Alguma pista de onde Elizabeth está? — Ele quebrou o silêncio por cima do choro de Hagrid.
— Não — Lupin suspirou e encheu mais um copo de uísque.
Harry murmurou algo que fez com que Lupin o fitasse com alarde. O homem parou o copo a caminho da boca e perguntou:
— O que disse?
— Que eu acho que sei porque levaram Elizabeth.
— Porque ela é uma membra da Ordem... — Hermione apontou, mas foi interrompida pelo amigo.
— Eu e Elizabeth tivemos uma pequena discussão uns meses atrás. O motivo não importa, mas... — sua voz tremeu.
— Harry, diga logo!
— Ela e Snape estavam juntos. Acho que foi por isso.
Todos os pares de olhos estavam em Harry agora. Em algum momento, Hagrid tinha parado de soluçar e agora prestava muita atenção na conversa. Tonks, lembrando da conversa que tivera com a prima muitos meses antes, disse:
— Ela uma vez me contou que estava com alguém. Mas eu nunca ia imaginar que... — Suspirou.
— Mas você tem certeza? — Lupin voltou a perguntar ao garoto.
Harry fez que sim e explicou:
— Eu sempre via os dois juntos pelo Mapa do Maroto. Elizabeth estava sempre nos aposentos dele. — Suas bochechas coraram. — Então teve um dia que nós nos desentendemos e eu disse que sabia sobre eles. Ela ficou com medo. Disse que se alguém de lá descobrisse, Voldemort iria querer a cabeça dela. Mas, agora, analisando tudo que aconteceu...
— Acha que Snape a seduziu? — Foi o Sr. Weasley que falou. — Mas por quê?
— Para levá-la para o lado deles. Ela é prima de Bellatrix e Narcisa, se provou na Batalha do Ministério. — Lupin terminou o uísque do copo. — Mas Elizabeth jamais se voltaria contra nós, contra o padrinho dela. Então, Voldemort a sequestrou. E pensar que esse era o maior medo de Sirius...
— Acha que existia alguma possibilidade de ela estar... Sabe? — Não era capaz de dizer o que achava, mas Lupin fez isso por ele.
— Morta? Não. Se Voldemort a queria do lado deles, ele não a mataria. Ou ela está sendo feita de prisioneira, ou...
— Ou está sob a Maldição Imperius — Tonks completou. — Talvez ela fosse um deles hoje.
Ela agarrou a garrafa e encheu mais um copo para si, assustada demais com a ideia de que sua prima pudesse estar sendo manipulada.
— Então Mundungo desapareceu, não é? — Lupin mudou de assunto bruscamente.
Houve uma mudança repentina de clima. Gui Weasley havia contado que Mundungo ficara apavorado com o ataque dos Comensais da Morte e aparatou durante o ataque, e logo depois Olho-Tonto tinha sido atingido. Com a volta do assunto, uma tensão acometeu a todos e a maioria pareceu pensar a mesma coisa.
— Sei o que está pensando — Gui disse —, e pensei o mesmo, porque eles pareciam estar esperando por nós, não é? Mas não acho que Mundungo nos traiu. Eles não sabiam que haveria sete Harrys e foi Mundungo que deu essa ideia, certo? Então por que ele não contaria a eles o plano todo? Ele só entrou em pânico. Ele nem mesmo queria participar, Olho-Tonto o obrigou. E Você-Sabe-Quem investiu primeiro nos dois, é o suficiente para deixar alguém desesperado.
— Você-Sabe-Quem agiu assim como Olho-Tonto previu. — Tonks fungou. — Ele achou que Harry estaria com algum dos aurores mais fortes. Perseguiu, primeiro, Olho-Tonto e, depois, seguiu para o Kingsley...
Fleur Delacour se pronunciou, com as lágrimas caindo sobre seu rosto lindo, e alegou que alguém certamente havia os denunciado, talvez não intencionalmente. Seu sotaque francês ficava ainda mais evidente agora que estava nervosa e chorando.
—Não! — Harry exclamou chamando a atenção de todos. O uísque, definitivamente, inflara a sua voz. — Quero dizer, se alguém errou, não foi por mal. Não é culpa dele. — Disse ainda com a voz um tanto alterada. — Temos que confiar uns nos outros. Não acredito que ninguém nesta sala me entregaria para Voldemort.
Os gêmeos concordaram com o garoto, mas Lupin o olhava com olhos piedosos, o que trouxe a Harry uma sensação furiosa.
— Acha que sou tolo?
— Acho que é igual ao seu pai — respondeu o lobisomem —, que teria considerado a maior desonra desconfiar de um amigo.
Harry entendeu que ele se referia a Pedro Pettigrew. Sentiu-se com ainda mais raiva. Quis discutir, mas Lupin lhe deu as costas para aparatar com Gui em busca do corpo de Alastor Moody.
Naquela mesma hora, a mais de 100km dali – mais precisamente em Wiltshire –, Elizabeth permanecia em seu quarto na Mansão Malfoy, desfrutando de um bom jantar, comendo bem pela primeira vez desde que chegara ali, totalmente alheia ao que acontecia.
Nota da autora:
- Contém trechos adaptados da obra de J.K. Rowling, "Harry Potter e As Relíquias da Morte", 2007.
