Capítulo 50

"EU SEI O VOSSO SEGREDO"

A rainha leu as palavras formadas pelo conjunto de letras recortadas de jornais e coladas numa folha de papel, que um lacaio tinha acabado de entregar.

O segredo? O único segredo que ela tinha era a identidade do pai da criança que ela carregava no ventre.

O círculo estava a começar a apertar.

Um menino de rua tinha servido de intermediário para fazer chegar o papel ao palácio. A identidade do ordenante era desconhecida.

Por agora não havia nenhuma ameaça, nem nenhuma exigência, mas Victoria previa que isso viesse em breve.

Ela decidiu não contar a William este episódio. Talvez a pessoa em causa desistisse. Talvez não acontecesse mais nada no futuro.

Agora eles não tinham oportunidade de ter mais intimidade do que ficar sozinhos durante as reuniões. Umas reais, outras forjadas.

William não estava mais a viver no palácio, como no passado, e eles não podiam estar sempre a inventar desculpas para ir para outras casas da família real, como Claremont. Começaria a parecer estranho se a rainha estivesse sempre fora de Londres, e as exigências dos compromissos políticos de ambos também não permitiam isso. Além disso, não convinha dar mais motivos para desconfianças. Não agora.

Mas Victoria também não precisava de mais do que eles podiam ter neste momento. Muita coisa estava a mudar nela. No corpo, nas emoções... Ficar apenas abraçada a William, sentir o calor e o cheiro dele era o bastante. No entanto, sempre que ele ia embora havia um vazio que se instalava. Como se uma parte dela fosse com ele.

Ela sabia que Albert saía do palácio antes de William chegar e que só voltava muito mais tarde, depois de ele ter saído. O príncipe tentava não se cruzar com o primeiro ministro nos corredores.

A situação era estranha. Ela queria gritar ao mundo que William era o pai do filho que ela esperava e, no entanto, ela tinha de fazer tudo para que o mundo não descobrisse. Não dessa forma. Se ambos assumissem a verdade seria interpretado de uma maneira, se fosse confirmado por terceiros, seria visto como algo chocante. De qualquer das formas seria um escândalo.

Agora parecia que todos a olhavam de lado quando ela percorria os corredores do palácio. Como se todos eles soubessem a verdade e olhassem acusadoramente para a barriga dela.

"Emily! O que é que você está fazendo aqui?" William perguntou surpreendido, enquanto se levantava da cadeira da sua secretária, no seu gabinete no parlamento.

"Eu precisava falar com Henry e eu decidi passar também pelo vosso gabinete, para ver como você está."

"Não há muitas mulheres a frequentar o parlamento…" Disse ele, enquanto eles trocavam um beijo rápido.

"Eu não sou igual a nenhuma delas, você sabe." Emily declarou, sentando-se na cadeira na frente dele, do outro lado da secretária.

Era surpreendente a velocidade com que ela se movia.

"Como a nossa mãe." William lembrou, voltando a sentar-se.

"Sim, como a nossa mãe. E então? Você está bem?"

"Sim. Como sempre..." Ele afirmou de modo pouco convincente, colocando os olhos no tampo da secretária.

"Sim, mas...A expressão no vosso rosto diz outra coisa."

Ele levantou os olhos para ela, suspirou e disse:

"Eu estou numa encruzilhada."

"E você não sabe que caminho escolher..."

"Nenhum deles é isento de consequências nefastas."

"Agora é aquele momento em que eu deveria dizer que você deve escolher o que vos diz o coração...Mas eu não vou dizer isso. É demasiado imprudente."

"Hm…Até você acha que isto é uma imprudência..."

Emily deu uma gargalhada.

"Eu, a mais imprudente das mulheres...Não importa, eu gosto de ser uma pessoa assim. Mas eu não chamaria o meu comportamento de imprudente. Eu apenas busco a felicidade onde ela está. Não importa as consequências..."

"E, no entanto, neste caso..."

"Este caso é diferente de todos os outros que eu alguma vez conheci." Ela parou um pouco e depois continuou: "Pobre William, com tantas mulheres no mundo e você vai-se apaixonar por essa garota..."

"Ela não é uma garota."

"Não, com certeza que não, depois que ela conheceu você..."

William sorriu um pouco embaraçado, mas divertido.

"Mas ela é a rainha! E casada! Ela é a única mulher que você não deveria ousar reclamar..."

"Mas é ela que eu amo."

Emily sorriu.

"Você vê agora como ser contra ao meu casamento com Henry não era justo..." Ela lembrou.

"Sim, Emily, eu vejo. Desculpe."

"Isso não importa mais. Agora todos estamos no caminho certo. Menos você."

"Ela terá um filho meu..." Ele disse num tom de tristeza que não deveria existir, tendo em conta o acontecimento a que ele se referia.

Emily respirou fundo, levantou-se da cadeira, caminhou para trás das costas de William e colocou-lhe as mãos nos ombros.

Depois, debruçando-se um pouco sobre ele, ela disse:

"Eu posso ajudar, se você quiser."

"De que forma?"

"Eu posso organizar uma festa." Ela informou animada. "Eu nunca retribuí o chá que a rainha me concedeu no palácio há um atempo atrás."

"E você pensa fazer isso em grande escala…"

"Eu faço tudo em grande escala, William. Eu não deixo nada pela metade. E você sabe como as minhas festas são famosas! Eu posso convidar a rainha...E convidar você...E..."

"E o príncipe..." Ele adicionou.

"Sim... o príncipe também...Mas eu quero apenas arranjar formas para que vocês possam estar juntos."

"Nós estamos juntos muitas vezes. Enquanto eu for o primeiro-ministro deste país miserável, reuniões são coisa que não falta entre nós..."

"Sim, mas isso é muito aborrecido." Emily declarou, franzindo a testa e passando de novo para a frente dele, com a secretária entre ambos. "Uma festa é diferente. E...quem sabe...A rainha poderia aceder em dormir em minha casa e...É claro que você ficaria lá também..."

"Emily, agora você também é uma facilitadora de adultérios?"

"Bem, isso não é totalmente inédito..."

William riu.

"Isso tudo parece demasiado rebuscado...A rainha e o príncipe hospedados num quarto e eu num outro. E depois, a meio da noite, ela se juntaria a mim…"

"Você vê? Eu não preciso de vos explicar o resto do plano. Você sabe como proceder."

Ele riu de novo.

"E você não vai me dizer que vocês nunca usaram este tipo de esquema. Como é que vocês fizeram essa criança?" Emily perguntou.

"Mas em vossa casa?" Ele perguntou descrente.

"E o que importa onde é? Vocês não fizeram o mesmo na vossa casa ou no palácio?"

"Sim, na minha casa e na casa da rainha."

"Então, é a mesma coisa e há uma ótima desculpa. Além disso, o príncipe sabe o que passa..."

"Mas ele não irá compactuar com isso. Eu acho que ele nem irá a essa festa..."

"Melhor para todos! Eu sempre achei que ele era um pateta!" Ela exclamou com desdém. "Depois da festa, quando os convidados saírem, vocês estarão sozinhos. Eu colocarei vocês dois numa ala distante da minha para vocês terem toda a privacidade."

"Emily, eu vou pensar..." Ele concluiu, passando os dedos da mão direita sobre a sobrancelha.

"Eu gostaria de fazer mais. Eu ficaria feliz se eu pudesse ir ao vosso casamento. Mas enquanto isso não acontece, eu apenas posso facilitar o encontro de ambos..."

William registou a palavra "wedding".

Emily continuou entusiasmada a planear mais detalhes…

A discussão de várias leis prendia William na Casa havia três dias.

Victoria estava a começar a desesperar. Ele saía tarde do parlamento e ia direto para casa. Porque razão ele apareceria alta noite no palácio? Qual a desculpa para exigir ver a rainha àquela hora? Ninguém tinha falecido e nenhuma guerra tinha sido declarada, felizmente.

"Frances, por favor!"

A rainha chamou uma das suas ladies-in-waiting quando esta se preparava para sair da sala, atrás de todas as outras.

A jovem virou-se para a rainha e fez uma vénia, enquanto a porta se fechou atrás dela.

"Sim, Majestade."

"Você viu o vosso tio?"

"Ultimamente não. Ele tem muito trabalho."

"É verdade. Ele também não tem vindo ao palácio nos últimos dias."

"Mas a mamã disse que iria vê-lo no parlamento hoje."

"Emily?"

"Sim, ela foi falar com o papá…Lord Palmerston." Desculpe, Majestade.

Victoria conhecia a história. William tinha dito para ela. Frances era filha de Henry Temple também conhecido por Visconde Palmerston, concebida enquanto ambos ainda eram amantes.

Victoria fingiu não perceber.

"E ela disse que aproveitaria para ver o meu tio." Frances terminou.

"Hmm…"

"Ele é um homem muito solitário. Alguém deve visitar ele, às vezes."

Victoria teve uma vontade louca de fazer o mesmo. Ir ao parlamento, fazer uma surpresa a William e usufruir do tempo que pudessem partilhar. Mas a rainha só entrava nesse local uma vez por ano para abrir a Casa. Como é que ela poderia entrar incógnita? Havia a passagem secreta interior, que estava lá desde o século XVII. Mas e como chegar até lá? Todos a reconheceriam.

"Eu lamento que ele não tenha voltado a casar. A vida dele nunca foi fácil." Frances continuou.

"Eu sei…"

"Eu gostaria de ver ele casado de novo. Mas com alguém que realmente mereça ele. Não uma mulher como a tia Caroline..."

"Talvez ele ainda faça isso..."

"Vossa Majestade sabe de alguém?"

"Eu sei que a vida pode ser surpreendente."

O BÉBÉ QUE VOCÊ ESPERA NÃO É FILHO PRÍNCIPE.

SE AS MINHAS EXIGÊNCIAS NÃO FOREM SATISFEITAS ISTO SERÁ REVELADO.

Novo bilhete anónimo e, agora, identificando claramente o segredo e concretizando uma ameaça. As exigências viriam de seguida, Victoria não tinha mais como duvidar disso.

A reunião daquela manhã estava terminada.

William arrumava alguns papéis na pasta quando Victoria se levantou da mesa e se afastou, com os olhos no chão e em silêncio.

"Você está bem?" William perguntou, vendo Victoria tão calada naquele dia.

"Claro!" Ela respondeu e tentou sorrir.

Ele colocou-se de pé e insistiu:

"Você tem a certeza? Passa-se alguma coisa com o bebé?"

"Não, claro que não. Eu só estou cansada." Ela garantiu enquanto abria uma gaveta de um móvel próximo.

Bem, ela estava grávida, era normal que ela sofresse mudanças de humor, de energia... Talvez não houvesse razão para preocupações. Ele pensou.

"Isto é para você." Disse ela, aproximando-se de novo e estendendo uma folha de papel na direção dele.

"Para mim?" Ele perguntou intrigado, pegando na folha e olhando para o que nela se encontrava.

"Hmm…Sou eu."

"É o desenho que eu fiz de você nos jardins de Claremont." Ela disse entusiasmada.

"Você favoreceu-me bastante."

"Não, eu desenhei você exatamente como você é."

"Você é uma excelente artista." Ele elogiou.

"Eu tento me aperfeiçoar a cada dia."

"Eu devo levar este desenho comigo?" Ele perguntou, enquanto lhe deu um beijo rápido.

"Você deve, eu não posso ter isso aqui. Supostamente você não deveria ter passado alguns dias comigo em Claremont. E ele foi mesmo feito para você."

Levantando os olhos do desenho ele disse:

"Emily irá convidar você para uma festa."

"Uma festa? E qual é o motivo?"

"Emily não precisa de motivos para fazer as festas que ela quer. Ela simplesmente faz."

"Sim, mas porquê convidar-me?"

"Ela quer retribuir o chá que você lhe ofereceu…"

"Oh…" Victoria exalou, pensando na desigualdade daquela compensação.

"Mas isso é apenas uma estratégia para que você e eu…"

"Para que nós possamos ficar juntos?"

"Hmm, hmm…"

"Eu amo a vossa irmã." Victoria manifestou com algum entusiasmo.

"O príncipe estará obviamente incluído no convite…" William lembrou.

"Albert não irá."

"Eu espero que não…Há mais além da festa…"

"Mais?"

"Ela irá convidar você para dormir lá."

"Dormir? Mas essa festa acontecerá fora de Londres?"

"Inicialmente ela pensou na Irlanda, em Classiebawn, a propriedade que Palmerston comprou e onde ele está a construir um castelo..."

"Na Irlanda?" Victoria perguntou surpreendida.

"Seria demasiado excêntrico, não é? Todos nós viajando para a Irlanda, apenas porque a minha irmãzinha decidiu fazer uma festa lá. Nós precisamos de ficar longe do vosso marido, mas também não precisa de ser assim tão longe."

Victoria riu.

E isso era bom. Arrancar assim um sorriso dela. William pensou.

"Será em Broadlands, o palácio rural perto da cidade de Romsey, em Hampshire."

"Então nós teremos pelo menos uma noite para ficar juntos?"

William acenou afirmativamente.

Ela abraçou-o.

A situação estava insustentável. Victoria e Albert não falavam um com outro. E muitas vezes, eles nem jantavam na mesma mesa. Ou ele ou ela pediam o jantar no quarto. Era por demais evidente que a rainha e o príncipe seguiam caminhos diferentes...

Para evitar o príncipe, William também não jantava no palácio.

Ele ia para casa e lia e escrevia. Agora ele carregava consigo muitas vezes aquele caderno onde ele tinha começado a escrever em Claremont. Havia muita coisa para registar e ele gostava de tê-lo à mão sempre que se lembrava de novos elementos para adicionar.

Não fosse a situação em que eles estavam, ele estaria a sentir-se o homem mais feliz do mundo, tendo uma mulher que o amava e que era o sol da vida dele, e com um filho a caminho.

Mas assim, havia sempre aquela nota de tristeza. Aquela sensação de viver aprisionado. O medo de ser descoberto sempre rondando. A necessidade de disfarçar sempre imposta. Era cansativo. Era mesmo muito desgastante.

A saúde do bebé e de Victoria também eram algo que o preocupava. Ele já tinha passado por muito nessa área e as coisas corriam frequentemente mal com a generalidade das mulheres. Abortos espontâneos, nados mortos, a morte das mulheres no parto ou por complicações decorrentes deste…E, obviamente, a expetativa para ver se aquela criança seria saudável quando crescesse. Ele nunca deixara de se questionar se o grave problema de saúde do filho que morrera teria sido uma herança dele…

"Então e você? Hmm? Então e você? Se você tivesse dignidade, quando você soube a verdade, você teria pedido a anulação do casamento e teria voltado para Coburgo." A voz irritada da rainha soou do lado de dentro da porta.

"Eu não acredito no que eu estou a ouvir! Você pediu-me para fazer o contrário!" O príncipe gritou.

"Eu pedi. É verdade. Era essa a história que interessava contar. Que você era o pai desta criança." A rainha voltou a interpelar.

Com o ouvido colado à porta, Lehzen abriu a boca dela.

"Mas se você fosse um homem de caráter não teria acedido a virar um fantoche nesta situação."

"Você acha que é fácil assumir que se é um marido traído?"

"Você só tem ambição, desejo de riqueza e de poder."

Há muito que Lehzen sabia a verdade. Seria impossível não saber. O grau de proximidade à rainha, físico e emocional, tinha denunciado tudo. Ela via e ouvia o que se passava. Atrás das portas, do outro lado das paredes, na frente dos olhos dela… Mas esta era uma verdade de que não se falava. Se não se falasse neste assunto ele não existia.

"Nós somos todos atores da mesma peça de teatro e todos nós representamos para conveniência de todos nós." Declarou Albert.

"Pois eu gostaria muito de não ter de representar…"

"Atualmente, aquilo que você mais queria que acontecesse era que eu me fosse embora, para depois você poder dizer que a culpa tinha sido minha, que tinha sido eu que não soubera manter um segredo." Ele gritou.

Victoria olhou para ele com a raiva a faiscar no olhar.

"Eu não vou fazer isso, eu não vou facilitar a vossa vida. Isso era o que você queria para ir a correr lançar-se nos braços desse homem."

A porta abriu de repente e o príncipe saiu muito apressado.

Lehzen só teve tempo de se desviar para o lado.

Mas o príncipe saiu tão tresloucado da sala que nem a viu.

Com a força com que ele puxou a porta, esta bateu na parede e foi devolvida à origem, fechando-se por si.

O silêncio era a única coisa que existia agora.

Lehzen supunha que talvez a rainha estivesse lá dentro a chorar, mas entrar na sala agora iria implicar reconhecer que sabia a verdade. Era melhor deixar as coisas continuarem como estavam.

A discussão começara alguns minutos antes quando Victoria foi ao gabinete do Príncipe para lhe comunicar que chegara um convite.

"Chegou um convite para nós." De pé, na frente da secretária dele, ela começou.

"Um convite? De quem?" Albert perguntou, recostando-se na cadeira.

"Lord Palmerston…e Emily."

Victoria achou que seria mais fácil começar com o nome de Palmerston…

"Deixe-me ver se eu percebi. Você e eu fomos convidados para uma festa na casa da irmã do vosso amante."

Ela respirou fundo.

"Com certeza esse homem também vai, não é?" Ele perguntou. "Uma ótima forma de vos juntar fora do palácio."

"Se você não quiser, não precisa de ir. Eu só estou a informá-lo porque o convite vos inclui."

"Você não tem dignidade para usar a coroa que você carrega." Ele observou com desdém.

"Eu não tenho dignidade? Porque não?" Ela perguntou indignada. "Porque eu tive a infelicidade de não poder casar com o homem que amo? Ou porque eu tive a felicidade de saber o que é amar e ser amado verdadeiramente? Algo que é tão raro…"

"Você finge ser uma rainha boazinha e inocente, mas na realidade você está a enganar o mundo."

"Então e você? Hmm? Então e você?..." A partir daqui Lehzen tinha escutado atrás da porta.

Victoria desejava verdadeiramente que Albert se fosse embora. Na verdade, independentemente das consequências, a melhor coisa que poderia acontecer para ela agora era que ele desaparecesse.

50.000 LIBRAS

NÃO CONTE PARA NINGUÉM O QUE ESTÁ A ACONTECER OU VOCÊ IRÁ SE ARREPENDER.

Este era o valor exigido. Ela pagava a Albert para manter um segredo e agora ela teria de pagar a mais alguém para segurar o mesmo segredo. Nada disto seria necessário se William permitisse revelar a verdade.

Não, ela não iria contar a William o que estava a acontecer. Ela tinha medo que fosse ele quem era visado na ameaça velada.

Ela nem podia pedir uma investigação do caso. Como ela poderia fazer isso? Para isso, ela teria de revelar a verdade que ela mesma precisava de esconder.

Restava esperar por instruções sobre onde esse dinheiro seria entregue. E quem faria a entrega disso?

Viajar era algo que não era muito conveniente para Victoria neste momento. Ela receava que chegasse uma nova mensagem quando ela não estivesse no palácio. Bem, deslocações dela para fora do palácio eram noticiadas na imprensa e essa informação chegaria ao chantagista.

O palácio rural de Broadlands tinha sido comprado pelo 1.º Visconde Palmerston e estava agora nas mãos do 3.º Visconde.

A viagem era longa. Victoria estava grávida. E só mesmo para poder estar com William e bem longe dos olhos de Albert ela fazia aquela deslocação de carruagem por estradas em más condições.

Emma e Harriet acompanhavam a rainha. Além de um séquito da guarda real que seguia atrás.

Quando ela chegou era quase noite e havia uma fila de criados perfilados na entrada da casa, por baixo da estrutura do grande frontão triangular, suportado por grossas e altas colunas.

Tochas ardiam já ao redor de toda a enorme moradia. E outras carruagens também se apressavam a deixar outros convidados em frente da fachada principal.

Mas junto da porta havia uma figura que se destacava das demais e que era o que realmente importava. William estava lá à espera dela. Vestido com um traje preto de festa. Se ele fosse apenas o primeiro ministro, ele também viria até à entrada para receber ela. Mas, provavelmente, ele não estaria ainda lá, nem mostraria a ansiedade e o contentamento que ela podia ler no rosto e nos gestos dele, à medida que se aproximava. Quem esperava por ela era o homem que a amava. E isso era de um conforto que dificilmente se poderia descrever por palavras.

"Majestade!" Emily cumprimentou entusiasticamente e fez uma vénia.

Até esse momento Victoria tinha tido apenas uma ideia vaga de que Emily também estava lá, parada à porta. Enquanto ela caminhou da carruagem até à porta, William era o único foco dela.

Emily e Palmerston fizeram os cumprimentos e deram as boas vindas à monarca, revelando o orgulho sentido pela aceitação do convite endereçado e manifestando a honra da casa por acolher debaixo dos tetos tamanha dignidade.

Emily perguntou pelo Príncipe. Era necessário perguntar.

Victoria respondeu que His Highness agradecia o convite, mas, infelizmente, ele não pudera comparecer.

Emily desempenhou a função que lhe cabia, lamentando a ausência.

Victoria estava mais interessada em falar com William do que em falar de Albert. Ela dirigiu a atenção para ele.

Ele pegou a mão dela e beijou-a, mas não se ajoelhou.

Depois ele perguntou:

"Você fez boa viagem?"

Ele teria adicionado: "meu amor". Mas conteve-se a tempo.

Ele deveria ter dito: "Vossa Majestade, fez boa viagem?". Mas ele descurou a primeira parte.

"Muito cansativa, eu devo confessar, Lord M, mas o desejo de chegar era bastante motivador".

William afastou-se e fez um gesto com a mão para que Victoria entrasse primeiro do que ele e que os outros anfitriões.

Já no enorme hall da entrada, Victoria observou o teto e magnificência da casa. Bem como a exuberância da decoração feita para a festa. Gigantescos arranjos de flores em vasos de mármore pontuavam pelo ambiente, configurando-se como estruturas monumentais de arte efémera. E enormes candelabros suportavam as velas que ardiam. Victoria não podia sentir diferença entre aquela casa e o palácio real.

Emily sugeriu que a rainha se dirigisse aos aposentos onde iria ficar alojada.

Victoria não poderia estar mais grata por isso. Aquilo de que ela mais precisava neste momento era de um banho.

A rainha desceu para jantar.

William esperou-a no fim das escadas.

O vestido branco pérola com enfeites prateados tornava a figura dela resplandecente à luz das velas.

Ele reparou como a barriga dela tinha crescido e se pronunciava no vestido.

Quando ela pisou no andar de baixo, ele deu-lhe o braço.

Ela sorriu para ele.

William retribuiu o sorriso e eles atravessaram juntos o hall.

Uma vez que a rainha não estava acompanhada pelo consorte régio e que o primeiro ministro era a mais elevada figura presente na casa, coube-lhe a honra de acompanhar a monarca para a sala de jantar.

A porta da sala de jantar abriu e eles entraram.

Os outros convidados estavam todos de pé em redor da enorme mesa de jantar.

Victoria reparou nos centros de mesa. As flores e as velas eram em tão grande quantidade e os arranjos de uma tal dimensão que, quando todos se sentassem, seria impossível alguém ver quem estava jantando em frente…

William sentiu uma sensação de orgulho e de bem-estar. A situação permitia a ele fingir que era ele o marido. E naquele momento eles constituíam uma família. Ele, Victoria e o filho de ambos que aguardava para nascer.

Estava lá, na frente de todos, a verdade. Mas ninguém sabia, ou talvez todos soubessem…

Ele conduziu a rainha até ao topo da mesa e depois que ela se sentou ele sentou-se ao lado direito dela.

Palmerston encabeçava a mesa no outro extremo e tinha Emily a seu lado.

Frederick Lamb e a esposa, Alexandrina, também se encontravam entre os convidados.

Após o jantar foram servidas mais bebidas.

No raro momento em que Victoria não estava junto de William porque falava com Palmerston, Emily aproximou-se do irmão.

"Eu tenho estado a observar…Hoje você está feliz William."

"Estar aqui é como viver num sonho."

"Eu entendo…"

"Longe do palácio as reais circunstâncias da nossa existência são anuladas e tudo o que acontece aqui parece real. Victoria não está casada com aquele homem. Ela é minha mulher e espera um filho meu. Na vossa casa tudo tem uma aparência diferente. A casa é familiar e Victoria está naquilo que é meu, ou da minha família. No palácio eu sinto-me um intruso."

"Eu sabia que isto iria fazer bem para vocês dois.

"Obrigada, Emily. Você tinha razão."

"Como você vê, eu posso patrocinar o adultério da rainha com você."

William sorriu.

"Está visto que o príncipe não é um impedimento." Emily adicionou.

"Talvez esta situação tenha de mudar…" William deixou escapar entre dentes.

Mas Victoria surgiu junto deles e o assunto terminou ali.

"Eu tenho de agradecer-vos o convite e a hospitalidade." Disse a rainha para Emily.

"É um prazer e uma honra, Majestade, receber-vos aqui."

"E a decoração é fascinante." Victoria adicionou.

Na realidade ela achava que era excessivo, mas era adequado elogiar.

Emily respondeu radiante:

"Obrigada, Majestade. Só poderíamos ter escolhido o melhor para vos receber."

Após o jantar, a rainha e o primeiro-ministro abriram o baile.

Hoje a noite era deles e eles não iria desperdiçá-la. Não importava o que cada um pudesse pensar.

Dançarem um com o outro não era inovador, mas hoje eles não estavam preocupados em manter muito a compostura. Eles sentiam mais a vontade de se lançar nos braços um do outro e de dançar como se estivessem sozinhos. Eles não poderiam chegar tão longe, mas também não pretendiam manter-se tão distantes um do outro quando seria desejável. Cada um que os julgasse como quisesse.

A barriga de Victoria estava lá entre eles, evidenciando-se.

"Você está tão bonita!" William observou, com os olhos brilhando em cima do rosto de Victoria.

"Eu estou a ficar mais gorda, isso sim…Eu já não consigo vestir nenhum dos meus vestidos…E tive de encomendar vestidos novos."

"Uma mulher esperando uma criança é muito bonita!" Ele assegurou para ela. E depois ele baixou o volume da voz para acrescentar: "Você está linda, meu amor!"

"Mas você não consegue mais encontrar a minha cintura."

"Talvez não…Mas eu encontro o meu filho…"

Ela suspirou.

"Há quem diga que eu não deveria dançar." Victoria queixou-se. "Mas se eu não dançar, então eu não posso fazer nada do que eu gosto. Cavalgar é impossível agora…"

"Não acho que dançar possa ser assim tão prejudicial. Esta música não exige muito esforço da vossa parte." Ele observou.

"Eu queria abraçar você." Victoria manifestou.

"Você só tem de esperar mais um pouco."

"Sim…"

Houve champanhe no final da festa.

Emily e Palmerston não poderiam deixar de brindar à presença da rainha.

"Vossa Majestade pode beber champanhe, apesar da vossa condição, eu acho…" Disse Emily, dirigindo-se à rainha.

Victoria olhou para ela e reconheceu na expressão do rosto daquela mulher mais velha a compreensão da verdade. A de que ela esperava uma criança com a qual também Emily tinha afinidade.

"Sim, eu acho..."

O champanhe foi servido pelos lacaios e todos fizeram um brinde.

Victoria não saiu de perto de William e por isso eles puderam brindar juntos.

Ela lembrou-se do baile da coroação e do efeito do champanhe nesse dia. Isso deu a ela vontade de sorrir. Pelo embaraço do que ela tinha feito, já meio toldada pelo álcool, e por aquele momento a sós com Lord M no corredor…Pobre Lord M!

Mas hoje ela só estava a beber um pouco deste copo e ela não iria além disto.

Quando as pessoas começaram a sair, a festa entrou na sua fase final.

William e Victoria foram se afastando para zonas menos povoadas.

Os salões ficaram vazios.

Emily passou na frente da porta aberta da sala onde eles se encontravam. Ela parou por breves segundos e disse:

"Tenham uma boa noite!"

"Boa noite, Emily." William retornou.

"Tenha uma boa noite." Victoria repetiu.

A partir de agora, que os convidados todos tinham partido e Emily e Palmerston se tinham recolhido, a casa era deles.

"Enfim sós." Victoria declarou.

"É verdade…"

"Eu me pergunto sobre o que Palmerston pensa sobre isto." Victoria manifestou com alguma preocupação.

"Não se preocupe. Emily sempre tem ele sob controlo." Ele assegurou para ela.

"Mas ele sabe sobre nós?"

"Não…E ele é distraído e ele já está tomado pelo álcool."

William pegou gentilmente no queixo de Victoria com a mão direita.

Ela elevou a cabeça e os olhos para cima.

Ele desejou beijá-la, mas fazer isso ali seria demasiado arriscado.

"Vamos para o meu quarto?" Ele perguntou.

"Sim."

"Hoje eu vou poder sentir o cheiro do vosso cabelo a noite toda." Ele expressou ternamente, passando agora a mão direita pela têmpora esquerda dela.

Victoria sorriu e esfregou o rosto na mão dele.

William pensou que embora ele não a tivesse beijado, bastava que alguém visse isto para ser uma ousadia. O primeiro ministro não passava assim a mão pelo rosto da rainha….

"Você vê como estas pequenas coisas, que na verdade tem uma importância tão grande, nos estão vedadas…" Victoria notou.

"Hoje não…" Disse ele baixo e movendo a cabeça em sentido negativo.

"Eu vou precisar das minha coisas…" Ela informou.

"Você só tem de passar pelo vosso quarto para trazer tudo o que precisa, eu farei o resto…"

Eles subiram.

Hoje ela não precisaria de Skerrett.

Victoria pediu a camisa de dormir, o roupão, os chinelos e a escova à camareira, enquanto William seguiu para o quarto.

"Eu vou dormir no quarto de Lord M." Informou a rainha.

"Sim, ma'am…" Skerrett retornou um pouco embaraçada. Ela não podia deixar de ficar embraçada sempre que se falava sobre a rainha na mesma cama de Lord Melbourne…

Victoria dirigiu-se para o quarto de William acompanhada por Skerrett, que carregava os pertences da rainha.

A camareira bateu na porta e, a quando esta abriu Victoria entrou. Depois ela agarrou tudo o que lhe pertencia e Skerrett foi embora sem entrar.

Victoria olhou para William, já de camisa de dormir e roupão de quarto.

Mas ela foi pousar a camisa de dormir e o robe numa cadeira, os chinelos no chão e a escova na penteadeira.

Depois ela voltou até ele e eles abraçaram-se e beijaram-se.

Oh, isto era tudo o que eles tinham desejado a noite toda.

Victoria segurou William entre os braços com determinação. Suster todo aquele homem monumental era emocionante.

Ele segurou-a com força pela cintura e elevou-a um pouco do chão fazendo-a ficar apoiada nas pontas dos sapatos.

O beijo reduziu de intensidade e transformou-se numa pulverização de vários beijos suaves, pontuando os lábios de cada um.

"Eu preciso da vossa ajuda para me preparar para a cama…" Ela lembrou.

William concordou com a cabeça.

Victoria caminhou até à penteadeira e sentou-se. Depois ela começou a tirar alguns ganchos.

William ajudou, localizando outros.

O cabelo dela caiu em trança e Victoria desmanchou a fita que o prendia na ponta e incentivou o cabelo a soltar-se.

"Você pode escovar para mim?" Ela perguntou, segurando a escova e olhando para a projeção de William no espelho.

"Claro."

Ele pegou na escova e passou-a pelos cabelos dela alguma vezes, até considerar que já estavam bem desembaraçados.

Victoria levantou-se da cadeira e virou-se para ele.

Ela colocou as mãos em ambas a faces dele e eles beijaram-se de novo.

"Você não existe!" Disse ela.

"Eu estou em aqui…" Ele notou sorrindo.

"Não existe alguém como você." Ela explicou.

Victoria virou as costas para ele e puxou o cabelo todo para o lado direito, para expor a abertura do vestido.

William abriu o vestido dela nas costas e ela puxou-o para baixo e despiu-o.

Depois ela retirou o saiote.

Ele abriu, então, o corpete, que Victoria retirou sozinha.

Então ela virou-se para ele e agiu no sentido de retirar a camisa interior, enquanto ele pegou na camisa de dormir dela que estava sobre a cadeira próxima.

Ele reparou como ela fazia tudo aquilo de uma forma apenas prática, para cumprir uma tarefa, a de ficar preparada para cama o mais depressa possível. Noutra época toda esta sucessão de retirada de peças de roupa fazia parte de um ritual…sexual…

Ela ficou nua da cintura para cima e o membro viril de William reagiu.

O que é que ela pensava que estava a fazer? Felizmente, ele ainda respondia muito facilmente a estímulos visuais.

William fez o que se evidenciava como sendo a óbvia tarefa seguinte. Quando ela levantou os braços ele fez descer a camisa de dormir de Victoria pelo corpo dela, cobrindo a nudez que antes se expunha…

A sensação que ele teve foi semelhante a quando se é obrigado a fechar um livro a meio de um capítulo muito interessante…

Ela atou a fita da camisa de dormir sob o peito, fazendo um laço, e depois pegou na mão dele para irem para cama. A dimensão dos quartos em que eles dormiam era tão grande que quase dava para fazer um passeio de mão dada até à cama.

Ela agiu como sempre ela adorava fazer. Ela colocou-se na cama primeiro do que ele, afastou-se para o lado para lhe dar espaço e esperou uns segundos até que ele despisse o roupão e se metesse na cama, para que ela pudesse aninhar-se nele, segura e quente.

Nos braços um do outro, aconchegados debaixo da roupa da cama, uns segundos depois ele disse:

"Eu estou feliz."

"Eu também."

"Hoje eu tenho você e o meu filho comigo."

Ela deu-lhe um beijo suave e disse:

"Eu estou cansada. A viagem…e talvez o bebé… Eu tenho sono."

"Durma, meu amor, eu estou aqui com você."

Ele mal tinha acabado de falar e ela já dormia.

Toda a expetativa de William que algum desfrute carnal entre ambos pudesse ser concretizado tinha acabado de ser arrasada.

Mas o que realmente importava era que ela estava aqui. Eles estavam aqui.