Capítulo 42
Almoço com comensais
"There's something wretched about this."
"From Eden" – Hozier.
O casamento de Gui e Fleur fora lindo. A jovem francesa estava deslumbrante – o que já era de se esperar, pois era uma veela –, com um vestido simples e a cabeça de fios dourados adornada com uma bela tiara. Gui Weasley estava radiante e nem parecia que havia sido ferido por Fenrir Greyback num passado recente.
Após a troca de votos e a benção concedida pelo juiz do Ministério, parte da tenda se levantou, formando um grande toldo sustentado por colunas douradas. Algumas pessoas dançavam na pista, outras conversavam animadamente e alguns apenas preferiram ficar quietos enquanto bebiam. Robert e Cassiopeia estavam dividindo a mesa com Ninfadora e Remo Lupin. Algumas pessoas se aproximaram para falar com os Jones, perguntando se tinham alguma notícia da filha caçula e dizendo que sentiam muito pela situação. O casal estava mais tranquilo depois da visita de Snape, mas ainda mantinham as aparências de que estavam devastados com o acontecimento.
— Por que Andrômeda não veio? — Cassiopeia perguntou.
— Sabe que minha mãe nunca foi dada a festas. — Ninfadora respondeu. — E com tudo que está acontecendo, ela está apavorada. Não tem saído de casa.
Cássia assentiu com a cabeça e deu uma olhada atenta à prima. Notou que ela parecia ter engordado um pouco e seus seios estavam maiores. Percebeu, também, que comera pouco e disse ao marido, aos sussurros que chegaram ao ouvido de Cassiopeia, que estava sentindo um mal-estar. Cássia sabia o que era. Já tivera aquele "mal-estar" duas vezes, e hoje eles tinham 27 – quase 28 – e 23 anos, respectivamente. Preferiu não ser intrometida e apenas pegou sua taça de champanhe e a bebeu. Olhou ao redor e conseguiu ver a silhueta do filho mais velho nos jardins, sobrando a fumaça da nicotina ao vento.
Harry Potter – disfarçado de primo Barny – caminhou para fora da tenda e parou próximo a Edward. O homem deu uma longa tragada no cigarro enquanto fitava o rapaz de esguelha. Harry pigarreou.
— Sr. Jones, sou eu, Harry Po...
— Eu sei — interrompeu-o. — Me disseram que estaria disfarçado.
Harry assentiu e passou a mão pelo cabelo, agora ruivo por causa da Poção Polissuco. Ele notou, então, que Edward tinha a aliança que um dia fora da falecida esposa pendurada numa correntinha dourada, que contrastava com o terno azul escuro.
— Deve ser difícil para você vir a um casamento — comentou com incerteza.
Edward fez que sim e disse:
— A dor diminui mais a cada dia. Mas sim, é difícil.
— E o seu filho? Como está?
— Muito bem, obrigado por perguntar — levou o cigarro aos lábios. — Ele está andando. O mundo está se tornando pequeno para ele.
Sorriu para o garoto, que curvou o canto da boca. Potter deu mais um passo para perto de Edward.
— Eu sinto muito por Elizabeth. Espero muito que a encontrem logo.
— Também espero — suspirou enquanto apagava a guimba na sola do sapato Oxford, e a fez flutuar até uma cesta de lixo próxima.
— Snape a enganou — disse Harry, com rancor.
— Enganou a todos nós, garoto.
— Eu nunca confiei nele — respondeu na defensiva.
— Mas confiou no julgamento de Dumbledore — rebateu com um sorriso irônico que fez lembrar Elizabeth.
Harry se calou, pois sabia que Edward estava certo.
— Sr. Jones...
— Pode me chamar de Edward, Harry. Você me faz vinte anos mais velho assim.
— Edward — disse como se testasse o nome —, sinto que não conhecia Dumbledore. Passei tantos anos ao lado dele e...
— E ele sempre soube mais sobre você do que você sobre ele. — Edward fitou o pomar. — Dumbledore era assim com a maioria das pessoas.
— Ele também era o seu padrinho?
— Não — voltou a olhar o garoto. — Meu padrinho era amigo do meu pai, estudou com ele. Mas faleceu na Primeira Guerra Bruxa, um pouco antes de eu cursar meu primeiro e único ano em Hogwarts.
"Mas sei o que está se perguntando. Sim, Dumbledore é um velho amigo da família. Minha trisavó, Alexandra Smith, foi professora dele. Ela deu aula de Runas Antigas em Hogwarts entre 1891 até 1920. Depois foi colega de trabalho dele. Ele deu aula para os meus avós, meu pai e, se não me engano, deu aula para minha mãe antes de se tornar diretor. Sempre foi próximo da família Smith, então sabia da nossa ascendência Ravenclaw."
O garoto assentiu e desviou o olhar para dentro da tenda. Gina estava linda em um vestido dourado que combinava muito com seus cabelos ruivos. Edward seguiu o olhar na mesma direção que Harry observava e sorriu. Ele se aproximou do garoto enquanto dizia:
— Quer saber como conheci Emma? — O garoto voltou os olhos rapidamente para o homem. — Eu tinha acabado de me formar em Magizoologia e fui para um intercâmbio na Alemanha, e ela estava lá por causa de um congresso. Nos vimos pela primeira vez num bar. Ela era a garota mais linda que já tinha visto, mas eu estava estupidamente bêbado e ela me deu um belo pé na bunda. — Ele sorriu abertamente, o que provocou pequenas rugas no canto dos olhos. — Dois dias depois, eu a encontrei no Museu de Pérgamo. Pedi desculpas pela minha atitude nada cavalheira de antes e a convidei para tomar uma bebida. Sabe o que ela fez?
— Ela aceitou? — Franziu o cenho.
— Ela me recusou novamente — riu. — Pensei: "tudo bem, ela não está nem um pouco interessada. Esse é o momento em que desisto". Mas, na semana seguinte, eu a encontrei de novo em um restaurante. Acho que ela ficou com medo, achou que eu era algum maníaco. Mas decidi não me aproximar. Continuei sentado à minha mesa com meus colegas.
— Não foi atrás dela?
— Não. Minha família é um tanto supersticiosa e sempre me foi ensinado que nada é por acaso. Se Emma não era uma coincidência, o destino a colocaria no meu caminho de novo. — Edward piscou para o garoto. — Então voltei para o Reino Unido. Uns dois meses depois, fui convidado para ir a uma palestra em Cambridge. Quem era uma das palestrantes?
— É sério? — Harry perguntou incrédulo.
— Sim — balançou a cabeça. — E acho que ela também sentiu que não era uma mera coincidência, porque, pela primeira vez, ela sorriu quando me viu. Saímos para tomar uma bebida, depois um jantar, depois um passeio... Cinco anos depois nós noivamos.
Ele caminhou até o garoto e pôs a mão sobre o seu ombro. Olhou para Gina mais uma vez e disse a Harry:
— Sei o que está tentando fazer. Acha que terminando com ela vai fazê-la sofrer menos caso algo aconteça com você. Não vai adiantar, garoto. Terminar com ela não vai fazer com que ela pare de amá-lo. — Edward tirou a mão do ombro de Harry e a colocou dentro do bolso da calça. — Você tem duas opções: a) você pode aproveitar os momentos com ela, morrer e ela sofrer, ou b) você pode não aproveitar os momentos com ela, morrer e ela sofrer. A escolha não é difícil.
Piscou para Harry mais uma vez e se virou para sair. Antes de adentrar a tenda novamente, Edward voltou-se para ele uma última vez e disse:
— Não jogue fora o tempo que pode passar com a garota que você ama. Nós não temos tempo, garoto. O tempo é que nos tem.¹
ooOOooOOoo
Elizabeth penteava os cabelos úmidos sentada à penteadeira. Ela já não aparentava estar tão mal. Suas olheiras estavam um pouco mais claras, o rosto estava menos abatido, ela parara de vomitar e, até mesmo, achava que as roupas já não estavam tão largas como antes. Penteou o cabelo para cima e o prendeu num rabo de cavalo alto. Seu cabelo estava grande agora. Mesmo preso, ele ultrapassava a altura dos ombros. Guardou a escova de pentear e pegou um batom rosinha. Passou-o nos lábios para esconder a palidez da boca. Então escutou as batidas de Narcisa e pediu para que entrasse. Estranhou pois a mulher não trazia sua bandeja com o almoço, mas o relógio anunciava que já era hora da refeição.
— O Lorde das Trevas quer que se junte a nós para o almoço. — Narcisa anunciou com a voz oca.
Elizabeth olhou para a Narcisa e abaixou os olhos para o colo. O nervosismo súbito fez com que seu estômago se revirasse. Soltou o ar silenciosamente por entre os lábios e passou a mão sobre o cabelo preso, trazendo o rabo de cavalo para descansar sobre o ombro esquerdo. Quando levantou, sentiu que as pernas estavam trêmulas, mas seguiu firme ao lado de Narcisa.
A mesa já estava posta. Voldemort ocupava o lugar na cabeceira. Ao seu lado esquerdo, estavam Bellatrix, Rodolfo e Rabastan Lestrange. Do outro lado, havia duas cadeiras vazias logo à direita de Voldemort, e depois estavam Lúcio e Draco. Narcisa se adiantou para sentar ao lado do marido, deixando a cadeira logo ao lado de Voldemort vaga. O bruxo sorriu para Elizabeth e disse:
— Senhorita Jones, que bom que se juntou a nós.
Ele se levantou e puxou a cadeira ao seu lado. Bellatrix fitou-os com incredulidade ao não acreditar que o Lorde das Trevas estava oferecendo à garota o assento ao seu lado direito. Elizabeth se sentou na cadeira oferecida – com um arrepio ruim devido à proximidade do bruxo –, tendo consciência de que todos os olhares estavam sobre ela.
Enquanto voltava a se sentar, deu um breve olhar para as pessoas que estavam ali. Narcisa e Draco estavam concentrados em seus pratos, mas notou que o garoto parecia abatido. Lúcio e Bellatrix a olhavam com raiva, enquanto os irmãos Lestrange tinham um olhar misto de curiosidade e interesse.
— Sirva-se à vontade — declarou Voldemort dando uma garfada na própria comida.
Elizabeth ergueu, então, o braço para se servir. Notou que tremia. Ignorou esse fato e pegou uma concha de purê de batata, uma porção de ervilhas e um pedaço de carne vermelha. Começou a se alimentar em absoluto silêncio, raramente levantando o olhar, que ela mantinha fixo no próprio prato.
— A senhorita não estudou em Hogwarts, não é? — Voldemort quebrou o silêncio.
Os outros não deveriam estar habituados em ver o líder iniciando uma conversa amena e despretensiosa, porque todos, sem exceção, olharam rapidamente para os dois. Elizabeth bebeu um pouco do suco antes de responder.
— Não.
Um silêncio constrangedor se fez. A resposta de Elizabeth soou muito mais cortante do que ela tinha previsto e o sorriso que Voldemort lhe oferecia se apagou.
— Eu gostaria que a senhorita se dirigisse a mim com mais respeito.
Ela engoliu a comida e passou a língua nos lábios, o que tirou a atenção de Voldemort por um momento.
— Não, senhor — disse num tom mais ameno. — Minha família se mudou para a América do Sul quando eu ainda era muito nova.
— E por que se mudaram? — Ele parecia mais satisfeito agora.
— Meu pai é um pesquisador herbologista. Nos mudamos pois ele queria estudar a flora amazônica.
— Me fale sobre a sua família.
Ela o olhou com atenção. As íris vermelhas estavam curiosas e desejosas, e Elizabeth quis correr dali. Porém, sustentou o olhar dele enquanto respondia.
— Tenho um irmão mais velho, Edward. Meu pai era filho de Valentina e Christopher Jones, que foi chefe do Departamento de Execução de Leis Mágicas. Minha mãe é uma Black, mas foi deserdada porque, como vocês gostam de dizer, ela é uma "traidora do sangue".
Sua voz tremeu com sarcasmo profundo na última frase. Percebeu que Bellatrix abria a boca para falar algo, mas foi mais rápida.
— Não ouse dizer uma palavra sobre a minha mãe, Bellatrix.
Pareceu, por um momento, que todos prenderam a respiração. Bellatrix piscou com surpresa, não acreditando que aquela pirralha tivera a coragem de a desafiar na frente de todos, ainda mais num local onde ela estava claramente em desvantagem.
— Quem você pensa que é para decidir o que eu digo ou não, sua fedelha?
— Eu sou uma convidada na casa do seu senhor, Bella — aproveitou-se do que Voldemort dissera para ganhar vantagem em cima da prima. — Não seria nada bonito da sua parte me desrespeitar na frente de todos.
— Gostaria de lembrá-la que está na minha casa, garota. — Lúcio se pronunciou pela primeira vez.
Se fosse prudente, Elizabeth, a princípio, nem mesmo teria dirigido a palavra a Bellatrix e muito menos a Lúcio. Mas sentia-se extremamente irritada com o olhar nojento de Voldemort postado sobre si e com a soberba de Bellatrix, que tinha que se provar a todo momento. Voldemort lhe dera um pequeno poder utópico ao declará-la sua convidada. Ele poderia ter a interrompido, ou, até mesmo, puni-la, mas estava calado deixando que ela fizesse o que queria. E foi o que ela fez.
— Acabou de sair de Azkaban, Lúcio. Eu não ficaria me gabando por qualquer coisa se fosse você.
— Milorde! — Bellatrix exclamou com ódio, segurando a varinha.
Voldemort fez o mais improvável. Ele riu. Sua risada era chiada, como um sibilar de serpente. Fechou os olhos e deixou o corpo se contrair enquanto gargalhava. Os outros se entreolharam com apreensão. A risada se extinguiu aos poucos e ele voltou abrir os olhos.
— Que almoço agradável! — Declarou ainda se recuperando da gargalhada. — Bellatrix, guarde isso — ordenou num tom assombroso, apontando para a varinha. — Bem, Elizabeth, como dizia... Você falou sobre seus avós paternos, não?
Ele queria que ela falasse sobre a sua avó, só não conseguia entender o que ele queria com isso. Elizabeth deu mais uma garfada no purê antes de voltar a falar.
— Meu avô trabalhou no Ministério. Ele morreu de câncer quando eu era muito pequena.
— E sua avó? — Sua voz interessada o entregava completamente.
— Você a conheceu, não? — Virou a cabeça para o lado como um cãozinho curioso.
— Sim, eu a conheci. Conheci muito bem, se me permite dizer — ele levou o vinho aos lábios finos e fitou Elizabeth por cima da taça. — Se parece muito com ela.
— Acredite, isso é o que eu mais escutei durante toda a minha vida. Mas meu pai sempre disse que as semelhanças só são físicas.
— É mesmo?
— Sim, senhor — deu um gole no suco. — Tanto meu pai quanto o meu avô diziam que minha avó era uma mulher muito impulsiva e raramente se preocupava com a consequência de seus atos.
— E você, senhorita, não é assim?
— Diferente dela, eu ainda estou viva, não é?
A menção à – falsa – morte de sua avó causou o efeito desejado. Voldemort fechou a cara e rangeu os dentes. Ela, então, lembrou-se de sua última conversa com Dumbledore e o que ele lhe dissera sobre o "assassinato" de Valentina ser, talvez, o único arrependimento de Lorde Voldemort. Sem nunca tirar seus olhos dos de Elizabeth, o bruxo disse:
— Sra. Malfoy, leve a Srta. Jones de volta ao seu quarto. Ela já terminou de comer.
O prato de Elizabeth, na verdade, ainda continha, pelo menos, metade do bife e um terço do purê, mas ela não se demorou mais um segundo na sala de jantar. Narcisa a acompanhou de volta ao quarto e disse antes de fechar a porta:
— Precisa aprender a ficar calada, Elizabeth. Isso pode lhe custar a vida.
Narcisa a deixou sozinha e retornou para a sala de jantar. Minutos depois, Leambroundi adentrou a mansão.
— Milorde — ele saudou ajoelhando-se. — O Ministro da Magia foi capturado.
Notas da autora:
¹ Trecho inspirado em diálogo da série da Netflix, "Dark", 2017. Frase original: "Por que a gente fala isso? 'Ter tempo'. Como podemos ter tempo quando é ele que nos tem?" (Episódio 6 da segunda temporada).
Olá! Adiantei a postagem para hoje pois amanhã ficaria meio inviável de postar. Então sempre prefiro antecipar do que adiar a postagem.
Vou dar um pequeno gostinho (não direi se é doce ou amargo) sobre o futuro da história: aguardem o capítulo 46.
No mais, bom fim de semana pra vocês. Beijos, e até terça-feira!
Comentários:
(Comecei a usar o mais ativamente há poucos meses, então ainda fico um pouco perdida com certas coisas; uma delas é não poder responder os comentários diretamente...)
Faith (cap. 1): Fico feliz que tenha gostado logo do começo da história!
Ranny Miotty (cap. 41): Será? Vamos ver... Que bom que gostou da fic, ela é muito importante para mim. Pode ficar tranquila que jamais irei abandonar PTDON. Eu já tenho a história toda escrita e posto os capítulo todas as terças e sábados (com exceção de hoje porque, não poderia postar amanhã). Além disso, você pegou a fanfic já na reta final. Não faltam tantos capítulos. E sobre a tirada do Snape no capítulo da Amortentia também é muito divertida para mim haha. Obrigada!
