Capítulo 51 – Pakeezah (Pura)
O final de julho chegou, e, com ele, a intensificação da temporada de monções, que caíram fortemente do final do mês ao início de agosto. Tanto Chichi e Goku quanto Vegeta e Bulma estavam envolvidos com seus compromissos profissionais: o filme "Shakti" teve um desempenho surpreendente nas bilheterias, superando a marca dos 200 crore, um record que até então era detido por "Happy New Year", um filme de 2014. A expectativa quanto à versão feminina era grande, mas Chichi sabia que ainda havia na Índia uma rejeição muito grande à ideia de filmes de luta protagonizados por mulheres, então, não esperava muito.
Mesmo em pré-produção para novos filmes, era preciso promover "Anarkali" e, para isso, Chichi e Goku, que lutava para sua primeira defesa de cinturão, foram aconselhados por Raaja, que agora tinha uma relação muito melhor com Chichi, a gravarem um promo para o filme, aproveitando a publicidade da notícia, finalmente divulgada, de que eles haviam realmente se casado. Levou algum tempo para os sites de fofoca perceberem que havia uma história boa envolvendo os casamentos de Vegeta e Bulma e Chichi e Goku, mas como pouco conseguiram apurar, Ribrianne e os outros fofoqueiros de plantão acabaram desistindo, mas o imaginário popular passou a vender a ideia de que eram os dois casais do momento.
Raditz aproveitara a oportunidade para fazer todos eles faturarem horrores com o interesse do público. Eles quatro foram contratados para diversos anúncios, que vendiam desde pacotes turísticos para Dubai até escovas de dente. Por insistência de Chichi, ela e Goku fizeram ainda duas campanhas sem recebimento de cachê: a primeira para que pessoas com suspeita de tuberculose procurassem os postos médicos e outra, para a vacinação de crianças contra a paralisia infantil – doença com combate complicado na Índia por conta das crendices de que determinadas castas, como os sudras e dalits, tinham o "carma da doença". Bulma e Vegeta gostaram da ideia e fizeram eles mesmos campanhas sobre saúde pública e higiene gratuitas.
Logo que finalizou a sonorização de Anarkali e do outro projeto que participava, Chichi se preparou para partir com Goku, Vegeta e Bulma para Agra, onde eles gravariam o promo da canção "Pyaar kee jeet" (Vitória do amor), em meados de setembro. Mesmo tendo que interromper o treinamento para sua primeira defesa de cinturão, marcada para logo antes do lançamento de "Anarkali", num evento especial programado dessa vez para Nova Déli, Goku amou a ideia de finalmente conhecer o Taj Mahal, onde o promo seria gravado.
Raditz foi com eles, no lugar de Raaja. O irmão de Goku e Bulma andava mais calado e introspectivo por aqueles dias e sua única preocupação era a segurança e a logística das filmagens. A direção do clipe, novamente, ficou a cargo de Farah Khan, que já estava habituada a dirigir os jovens e disse a Goku, abertamente:
- Largue esse negócio de luta enquanto o seu rosto está inteiro e bonito, rapaz. Uma carreira melhor e mais lucrativa te espera em Bollywood.
Goku riu, e achou aquilo engraçado. Era verdade que ele sempre sonhara com Bollywood, mas tinha sido a luta que o definira como quem ele era. Então, por mais que tivesse realizado o sonho de dançar em Bollywood e fazer um filme com Chichi, ele ainda não tinha planos de deixar a luta para trás.
Foram dois dias de filmagem intensas, no clima que era quente no meio do dia e esfriava subitamente à noite, quando eles ainda faziam algumas tomadas, o que deixou Chichi bastante indisposta. Ela vinha se queixando de algumas cólicas para Goku, dizendo que nunca sentira aquilo, e realmente durante as filmagens ela não dançou como esperava de si mesma: perdeu o equilíbrio mais de uma vez e em vários momentos sentiu-se um pouco tonta, mas atribuiu tudo ao calor.
Mas, quando voltavam ao hotel para jantar e descansar depois do segundo dia de gravações, ela andava pelo saguão segurando a mão de Goku, depois de cumprimentar alguns fãs, quando sentiu a vista escurecer de repente. Vegeta e Bulma tinham ficado um pouco para trás, cercados por estudantes que visitavam Agra, e ela apertou a mão do marido um instante, fazendo com que ele olhasse para ela com um ar de estranhamento quando disse:
- Goku... eu não estou...
Ela desfaleceu de repente, caindo sobre o carpete macio. Goku debruçou-se sobre ela, chamando seu nome e gritou pelo irmão. Raditz, que vinha por último com o staff da produção, correu até eles, abrindo o caminho pelos grupos de pessoas até ali.
- Bhaee – disse Goku, assustado – ela está respirando, mas está gelada!
- Vamos correr para o hospital – ele disse – vou ligar agora para a emergência.
Na ambulância, Goku segurava a mão de Chichi, que voltou a si um pouco pálida. Os dois murmuravam pequenos mantras e preces aos Deuses enquanto o veículo corria pelas ruas de Agra até um hospital particular que tinha convênio com a produção do filme. Chichi foi levada numa cadeira de rodas, porque se queixava de cólicas abdominais, para a emergência onde foi examinada. Goku ficou ao lado dos irmãos e de Bulma e entendeu o que Chichi sentira no dia em que ele desmaiara depois da luta com Brolly.
As horas se passaram de forma angustiante para eles dois. Chichi recebeu hidratação intravenosa e um médico começou a fazer a ela perguntas, depois de colher sangue e urina. Ele a encaminhou para uma sala de exames de imagem então disse, calmamente:
- Precisamos fazer uma ultrassonografia. A senhora diz que usa um DIU de cobre não-hormonal, certo?
- Sim, uso há uns 3 anos, pouco mais que isso...
- Bem, os sintomas são compatíveis com o deslocamento do dispositivo, que é raro, mas pode acontecer, normalmente logo após a colocação... e mais raramente ainda durante o uso prolongado.
- Mas tem tempo que eu uso sem problema algum! – ela disse, um pouco contrariada – não pode ser outra coisa?
- Vamos ver... – Ele disse – deite-se relaxada enquanto nós vemos o que está acontecendo...
O médico passou o gel sobre a barriga dela e Chichi, pela primeira vez, percebeu que tinha algo diferente com seu corpo. A barriga parecia mais dura, os seios doloridos. Quando a imagem se formou na tela, o homem disse, triunfante:
- Olha, estávamos certos, percebe? O dispositivo desceu por algum motivo para o colo do útero. A indisposição que a senhora tem sentido é porque ele está provocando uma pequena inflamação, muito leve, mas facilmente debelável, é quase como um hematoma comum – ele sorriu para ela – vamos retirar num procedimento simples e... – De repente, o semblante do médico se modificou. Ele passou novamente o sonógrafo sobre a parte mais alta do ventre de Chichi e franziu os olhos. Então a encarou e disse – há quanto tempo a senhora diz que tem sentido os sintomas?
Chichi pensou por um tempo. Tinha sido durante a primeira menstruação logo após o seu casamento, no fim de julho, que ela sentira cólicas e dores anormais. De repente, ela fez as contas e finalmente percebeu que aquela havia sido, na verdade a última e disse:
- Já faz quase dois meses... eu... fiquei menstruada e... – ela finalmente percebia o que os sinais do seu corpo queriam dizer e perguntou - ... eu estou grávida?
- Sim... temos aqui uma imagem compatível com seis semanas de gravidez!
- Mas... o bebê está bem? – ela sentia-se preocupada, mesmo depois do susto, com a ideia de perder o bebê por conta do DIU. O médico sorriu para ela e disse:
- O deslocamento do DIU, que você não percebeu imediatamente, permitiu a nidação perfeita do embrião. Pela imagem, a luminescência do cordão é normal. Você tem um embrião completamente viável, apesar das circunstâncias anormais como foi gerado. E depois que retirarmos o DIU, você tem tudo para ter uma gravidez perfeitamente saudável.
Ela sorriu, mas também chorou. O carma, a vontade dos Deuses, só aquilo podia explicar, para ela, aquela gravidez inesperada, mas, ela sentia em seu coração, muito benvinda. Depois que o médico, num procedimento simples, retirou o DIU num consultório ginecológico, com anestesia local, e ela recebeu analgésicos e anti-inflamatórios inofensivos para o feto. Goku foi chamado até a sala de recuperação, onde ela aguardava os resultados dos exames, sentindo-se eufórica e feliz. Ele foi até ela, que estava sentada numa cadeira de rodas e disse:
- Chi... você está bem? Vai ficar internada?
- Não – ela sorria para ele – eu vou com você e amanhã estaremos em casa. Mas vou ter que desmarcar alguns compromissos... e acho, não sei... que vou ter que recusar aquele papel que eu estava negociando no filme do senhor Aamir Khan, para fazer uma das filhas dele...
- É tão grave assim? – ele perguntou, abismado e ela sorriu eu disse no ouvido dele:
- Não, seu bobo... gravidez não é doença.
Ele demorou um instante para assimilar a notícia. Então olhou para ela, e sua expressão era ao mesmo tempo surpresa e feliz. Ele a beijou longamente e então, perguntou:
- Mas... o DIU, aquilo tudo e...?
- Não importa. Os Deuses quiseram assim!
Ele a abraçou e então saiu correndo, esquecendo que era um hospital, e quando viu o irmão, caiu nos braços dele gritando:
- Bhaee, Bhaee! Ela está GRÁVIDA! Vamos ter um filho!
Raditz levou o susto, junto com Bulma e Vegeta e então disse, parecendo-se ele mesmo mais uma vez:
- Espero que vocês não estejam planejando manter essa gravidez em segredo, porque metade do hospital ouviu...
Goku não ouviu, porque corria novamente para a sala de recuperação. Tudo que ele queria era ficar com a sua Chichi.
Logo todos eles estavam jantando no hotel, comemorando a boa notícia da gravidez de Chichi, que tinha sido liberada com a recomendação de repousar no dia seguinte e começar imediatamente o pré-natal quando chegasse a Mumbai. Goku fez uma ligação via whatsapp para Gine, que intimou ele a levar Chichi no dia seguinte até ela, para que fossem juntas às primeiras consultas ao médico. Ela sabia que Chichi, não tendo mais sua mãe, gostaria de ter uma pessoa mais velha por perto para ajudá-la. E garantiu a ela que não era antiquada e nem a encheria com superstições estúpidas, mas certamente a acompanharia quando fossem fazer o mapa astral da criança, dias após o nascimento.
Raditz ficou ali, olhando a felicidade do irmão e de Chichi e ainda Vegeta e Bulma felizes, rindo, com todo o mau humor crônico de Vegeta, e se sentiu, de repente, vazio, sobrando. Nunca sentira falta de uma namorada, nunca havia pensado em nenhuma garota por mais tempo do que o que em que ficara com elas, mas já fazia dois meses que Tights tinha ido embora e ele não conseguia nem esquecê-la e nem se livrar daquela sensação de vazio no peito quando via o irmão e a irmã tão felizes nos seus relacionamentos. De repente, ele disse:
- É o primeiro neto da nossa mãe.
- E o seu primeiro sobrinho, bhaee. – riu Bulma – parece que o Goku te passou para trás, todo mundo imagina que o mais velho tenha filhos primeiro!
Vegeta olhava para Chichi. Havia algo que ela queria dizer, mas não sabia como. Desde que soubera da notícia, imaginava o pai descobrindo que ela daria a ele um neto – mesmo que esse neto tivesse de ser considerado como apenas de consideração, porque a paternidade dela era segredo. Ele então disse:
- Minha bahaan também passou a perna em mim. Era de se supor que eu teria filhos primeiro.
Chichi de repente o encarou. Ela sabia o que ele queria, mas não sabia se estava preparada para aquilo. O tempo e todas as atitudes de Raaja Vegeta haviam feito com que ela, aos poucos, haviam amolecido seu coração. E ele assumira o papel de seu pai no casamento dela com Goku. Raaja, em outros tempos, tinha sido manipulador e mesquinho, mas desde que seu pai morrera, ele havia se tornado compreensivo e justo, defendendo-a até mesmo dos abusos continuados de Shallot. Ela devia aquilo a ele.
- Eu acho que precisamos ligar para... para ele – ela disse, se referindo ao pai, o que Vegeta entendeu imediatamente e sorriu – ele vai gostar de saber que vai ganhar... uma neto ou uma netinha.
Ela tentou fazer uma ligação via whatsapp, mas, como tinha acontecido antes com Gine, só foi possível falar sem vídeo, porque aparentemente o sinal estava ruim. Quando Raaja atendeu, ele disse:
- Chichi? Está tudo bem? Precisam de alguma coisa aí em Agra, ou de mais um dia de gravação?
Ela sorriu. Sempre preocupado, pensando nos filmes.
- Não senhor. Estou ligando para dar boas notícias... Baudjee
Houve um silêncio embargado do outro lado. Era a primeira vez que ela o chamava de pai. Ela não se sentia desrespeitando a memória de King, que nunca seria substituído no seu coração, mas precisava trata-lo daquela forma. Ele havia se redimido finalmente com ela e com a memória de sua mãe.
- Que notícias? – a voz dele saiu trêmula, emocionada. Os olhos de Chichi encheram-se de lágrimas. Então ela disse, sem rodeios:
- Descobri hoje que o senhor vai ter seu primeiro neto. Não, não é de Vegeta. Sou eu. – ela sorriu ao ouvir o grito triunfante do outro lado. A mesa ficou em silêncio conforme ela dizia – sim, vou me cuidar. Amanhã voltamos a Mumbai e eu vou ter que repousar, porque tinha uma pequena inflamação no colo do meu útero. Não. Não, o bebê não corre nenhum risco, pitah.
- Você pode repetir isso? – disse Raaja, do outro lado da linha. Chichi sorriu e disse para ele:
- Sim, Pitah. Eu o reconheço como meu pai por tudo que tem feito por mim e pela memória dos meus pais, minha mãe e meu querido pai que me criou... o senhor conquistou meu respeito e meu amor de filha.
Quando Chichi desligou, Goku a abraçou e ela viu o sorriso torto de Vegeta, que disse:
- É terrível ter que admitir que você acabou fazendo aquele velho mesquinho e egoísta se tornar um bom pai.
Chichi enxugou as lágrimas e disse:
- Incrível ele não ter vindo atrás da gente. Tão controlador como é, pela primeira vez viajamos para uma gravação e ele não veio junto.
- Deve ser porque está treinando um sucessor – disse Goku, olhando para Raditz que disse:
- Não, não. Vim apenas porque ele disse que tinha compromissos importantes.
- Que compromisso? – disse Vegeta – não sei de nada tão importante por esses dias.
Raditz deu de ombros e eles mudaram de assunto. Ninguém sequer pensou em qual poderia ser o compromisso de Raaja Vegeta.
Enquanto isso, num restaurante em Mumbai, Raaja enxugava as lágrimas diante de Gine, que disse:
- Você me deve cem rúpias. Eu disse que ela ia te ligar, não disse?
Ele riu e fungou. Então disse:
- Eu... mesmo que eu já soubesse, foi bom demais que ela tenha me chamado de pitah. Eu achei que isso nunca... – a voz dele embargou-se. Gine suspirou e disse:
- Ela reconhece tudo que você... ora, você sabe que mudou, não sabe?
Ele a encarou. Os dois estavam jantando juntos pela primeira vez no restaurante Sea Lounge do hotel Taj Mahal, com vista para o grande Portal da Índia, apenas os dois. Tinha sido um plano de Raaja, que queria demais um momento só com ela desde que começara a cortejá-la, logo depois do casamento de Goku e Chichi. Tinha sido aquilo que o motivara a não ir à viagem e ainda mandar Raditz: livrar-se da vigilância de todos eles: tentar, finalmente, ficar a sós com ela. Claro que nenhum deles havia sido informado das intenções dele, o que era engraçado: um casal maduro fugindo da vigilância dos jovens e tendo que contar pequenas mentiras para poderem se encontrar.
- Pois é. Eu me senti um pouco ridículo fingindo que o vídeo não funcionava, e você?
- Claro que sim. Mas eu não ia aturar Goku e Raditz perguntando onde eu estava ou porque estava tão arrumada – sorriu Gine – afinal, por enquanto é só um jantar, não é? E ainda precisamos pedir a sobremesa – ela disse, deixando o prato que terminara de lado.
A mão dele deslizou sobre a dela, que estremeceu um pouco. Ele a encarou novamente e disse:
- É o que você quiser que seja. Eu só queria conversar com você e só com você. Ouvir sua voz, ter sua companhia... Gine, você tem noção da mulher fantástica e fascinante que é?
Ela sorriu olhando para baixo e corando, timidamente. Desde que Raaja entrara em sua vida, ela vivia um misto de euforia e culpa. Por vezes, passava diante do retrato de Bardock, entronizado em sua casa como era costume em qualquer casa de viúva da Índia, e imaginava-se traindo-o, mesmo que ele tivesse partido para o além há quase 13 anos. Então ela disse:
- O que se espera de uma mulher como eu é que ela morra por dentro quando seu marido morre, não importa quão jovem ela seja. Que seu coração queime na pira funerária com ele e que suas cinzas sejam jogadas nas águas quando ela asperge as cinzas do companheiro... – ela olhou para ele e disse, com um sorriso triste: - e por um tempo foi assim mesmo que eu vivi, Só tinha impulso para me levantar da cama para alimentar aquelas três bocas que dependiam de mim... então, de repente, tudo mudou, e agora dois deles se foram e o que restou... – ela deu um suspiro profundo – quisera eu por fim à solidão do meu Raditz, de coração partido pela irmã inglesa de Bulma... mas ele é teimoso e difícil: não sou eu que sou assim o pai que era – ela riu e Raaja a acompanhou – mas a verdade é que eu estou viva. Viva e meu coração não morreu, embora ele ainda bata pelo meu Bardock... – ela o encarou – eu não posso simplesmente ignorar o que meu coração diz sobre você...
Ele sorriu para ela. Tão sincera e pura nas suas palavras sempre simples, era impossível não se encantar por Gine. A segunda chance que ele não sabia que teria, então, pela primeira vez desde que a conhecera foi ele quem sentiu vontade de se abrir com ela, de confessar sentimentos que ele sempre escondera, tão teimoso e orgulhoso que quase arruinara a si mesmo de tantas formas diferentes:
- Eu deveria ser o homem errado para você, Gine. Não posso mentir. Destruí minha chance de ser feliz com a mulher que eu mais amei na vida porque me achava irresistível demais... eu parti o coração de Kyra, parti em mil pedaços com minhas promessas não cumpridas e traições... e perde-la me deixou amargo, me fez beber descontroladamente... eu gostaria de ter pedido perdão mais vezes a Fasha, como fiz apenas no seu leito de morte. A mulher que eu poderia ter amado, mas que eu sabia que era instável e que eu feri tantas vezes com minhas palavras ásperas... ela me deu dois filhos incríveis, mas eu nunca olhei nos olhos dela e disse isso... – ele baixou a cabeça. O peso do arrependimento ainda o corroía – quando a vi tão destruída, pensando em cada cigarro que ela fumou me esperando voltar, quando eu estava bebendo, jogando... traindo-a. Eu sei que um dia, nessa ou em outra vida, pagarei pelo que fiz com Fasha... pagarei pelo que fiz com Kyra, que ainda me deu uma noite, uma única noite de felicidade antes de todas as luzes se apagarem para mim... e eu entendo porque ela acabou escolhendo Cutelo. Ele, por mais que a tenha maltratado, sabia pedir perdão como eu nunca soube, e cuidou dela melhor que eu mesmo cuidava de mim – ele olhou para Gine, e seus olhos estavam marejados. – e eu, que só parei de beber e me destruir quando Kyra morreu, achei que ela não tinha deixado nada para mim... e eu, que só aprendi a pedir perdão tarde demais, quando vi Fasha às portas da morte, quando vi que perderia o respeito do meu filho... que eu sempre amei, mas fui orgulhoso demais para admitir. Quando soube que Chichi era minha filha... que Kyra tinha, afinal, deixado algo para mim... eu quis renascer. Eu quis acertar onde havia errado tantas vezes, Gine... e se os deuses te colocaram no meu caminho, não é para que eu seja feliz, mas para que eu acabe com a sua solidão e possa, de alguma forma, te dar felicidade e respeito. – ele a olhou – se você me der essa chance, eu não vou desperdiça-la.
Lentamente, Gine enlaçou sua mão à de Raaja, os dedos delicados mas fortes de mulher trabalhadora se entrelaçando firmemente aos dele, que apertou ligeiramente os dela, que sorriu e disse:
- Sim. Eu aceito sua corte e sua proposta, Raaja Vegeta... e quero passar essa noite com você. Mas aviso que a minha cama é estreita e simples, uma cama de viúva, daquelas que não esperam que outro homem habite... – ela olhou para ele – e eu já não sei se realmente sei como é estar com um homem, por mais que seja isso que eu deseje... então se prepare para ser compreensivo.
- Quero pedir autorização a você para não te amar na sua cama de viúva. Não quero passar diante dos olhos do retrato do seu marido e ver arrependimento nos seus... – ele apertou os dedos dela com alguma força – e por todos os deuses, vou frear meu desejo por você para te amar da forma como você merece e não simplesmente como eu te desejo. Aqui mesmo nesse hotel, numa suíte luxuosa e confortável, como se você fosse uma noiva, uma pura e imaculada noiva. Você aceita, minha Pakeezah?
Ela riu, corando intensamente e disse:
- Sim, eu aceito.
À meia luz da suíte de lua de mel do hotel Taj Mahal, que Raaja não havia reservado, mas conseguira por algum golpe de sorte ao perguntar se havia quartos disponíveis quando saíram do restaurante, os dois se encararam assim que ele fechou a porta. Mesmo cortejando-a oficialmente há dois meses, Raaja jamais tivera a oportunidade de beijá-la, e sentia-se como um colegial quando deu dois passos na direção de Gine e delicadamente tocou seu queixo, fazendo com que ela erguesse a cabeça para olhá-lo um instante antes dele aproximar seu rosto do dela, os lábios se roçando por um instante antes do beijo que ele esperava desde que ela o enfrentara em Dubai, quase três meses antes.
Gine fechou os olhos, trêmula e hesitante, então sentiu o contato decidido dos lábios de Raaja nos seus. Por um instante, um arrepio a percorreu e ela disse a si mesma, mentalmente, para não o comparar a Bardock, que, afinal, tinha sido o único homem que a beijara na vida. Ela sentiu os braços dele a envolvendo ao mesmo tempo que ele a puxava para perto, e ela sentiu o corpo dele, firme para um homem de 57 anos, se encostando no seu, sentiu o perfume dele, um almíscar apimentado, e entreabriu os lábios, convidando-o a beijá-la mais profundamente.
Raaja entendeu os sinais e aprofundou o beijo, saboreando os lábios macios contra os dele, à medida que sua língua procurava pela dela enquanto ela se agarrava ao pescoço dele, encostando-se nele e se deixando levar pelo toque sedutor, pelo beijo apaixonado que despertou nela sensações e sentimentos há muito tempo adormecidos. Raaja então quebrou o contato e acariciou o rosto dela, sorrindo ao dizer:
- Pakeezah... me deixe entrar no santuário do seu coração.
- Você já está nele, Raaja... – ela murmurou, de olhos fechados, beijando de leve os dedos dele que tocaram seus lábios – você já tem lugar no meu coração.
Ele então a puxou e sentou-a na cama. Gine tirou delicadamente os sapatos e o encarou, enquanto puxava para baixo, soltando do grampo do ombro, a duppata do sári, revelando o abdome liso e a cintura ainda fina. Os dois eram um casal maduro: ele estava com 57 anos, ela com 52, mas ambos ainda tinham boa forma física: Gine havia trabalhado tanto por tantos anos, de forma tão dura, que tinha o corpo firme, agora mantido por uma rotina de exercícios incentivada pelos filhos, principalmente por Goku, Raaja, por sua genética privilegiada e por ter passado a se cuidar melhor depois dos anos de abusos.
Talvez por isso, o desejo e a libido dos dois parecia intocada como a de dois jovens quando ele tornou a beijá-la, agora deitando-a na cama. Os dedos dela procuraram os botões da túnica dele, que ela começou a desabotoar e ele terminou, tirando em seguida a camiseta que tinha por baixo. Ela sentiu o tórax forte do artista que apaixonara muitas garotas da sua geração sob as mãos quando o acariciou. Já havia pelos grisalhos, muitos por sinal, no peito moreno dele, mas a pele sob os dedos dela era quente, macia e ela o encarou convidando-o a ajudar a tirar o resto das roupas.
E ele virou-a de costas, beijando seu pescoço e ombros quando tirou o choli e o sutiã dela. Os seios de Gine eram pequenos, mas ele beijou-os com carinho, sentindo-a arrepiar-se enquanto ele empolgava seus mamilos escuros com a língua. Ela de repente ficou de pé diante dele, e sob os olhos mesmerizados, tirou cada volta do sári sem desviar os olhos dos dele, então, desamarrou a anágua que caiu a seus pés. Ela não usava uma lingerie sensual, porque não tinha nenhuma, mas tirou a calcinha grande e confortável de uma forma tão sexy que ele se sentia louco para possuí-la quando finalmente a viu nua.
Raaja ajoelhou-se aos pés de Gine, que estranhou o movimento, mas ele, olhando para ela, tocou-a docemente entre as pernas, e ela corou, a vergonha finalmente aparecendo. Ele fez que não com a cabeça e murmurou um "linda" que soou como música aos ouvidos dela. Então, ele beijou sua vulva delicadamente, e ela gemeu, sentindo-se imediatamente úmida e excitada. Ele então aprofundou o contato, levantando ligeiramente uma de suas pernas enquanto a língua procurava seu âmago, deliciando-se com o sabor dela, que o segurou pelos cabelos e gemeu seu nome quando ele começou a excitá-la conforme sua língua ia e vinha delicadamente.
Gine queria mais, e deitou-se na cama, sentindo as inibições desarmando-se conforme ela o chamava para si. Raaja, antes de tudo, tirou o resto das roupas e se mostrou inteiro para ela, que prendeu a respiração quando o viu nu e ereto. Ele então voltou ao que fazia antes e continuou a beijá-la, prova-la. Seus dedos a tocavam, sua boca beijava, lambia e provava cada pedaço sensível e excitável do seu sexo, que ia ficando mais úmido e pronto para tê-lo dentro de si.
Talvez por saber que não seria tão simples para ela, depois de tanto tempo, ele penetrou-a com os dedos enquanto a empolgava com a língua, e Gine gemeu quando ele alcançou seu ponto G e sentiu o corpo todo tremer. Ele não parou, e num misto de pressão e carícias no clitóris a fez chegar a um orgasmo repentino e surpreendente, e Raaja sentiu que ela parecia brilhar enquanto gemia de prazer, levada ao ápice pelos dedos e pela língua dele, que depois, ajoelhado diante dela disse:
- Eu preciso ter você, Gine... eu preciso tanto...
- Vem, Raaja – ela murmurou, puxando-o sobre ela – me faz tua...
Ele então debruçou-se sobre ela e a beijou, desejando-a, sabendo que era uma sorte a essa altura da vida poder se apaixonar de novo por uma mulher tão incrível e tão fascinante. Devagar e com muito cuidado, ele se colocou entre as pernas dela, possuindo-a delicadamente, como se tivesse medo de machucá-la. Ele sentiu o gemido profundo dela quando se sentiu inteiro dentro dela, que sussurrou para ele que aquilo era muito bom, fazendo com que um calor subisse por ele que cerrou a mandíbula com força para frear o ímpeto de possuí-la com mais força. Ela, que ele sentia tão delicada e pequena sob ele.
Ele começou a mover-se sobre ela, alternando beijos e murmúrios de desejo em seu ouvido, e ela era dele agora, ele podia sentir, tão quente e surpreendentemente fogosa, correspondendo aos seus impulsos, gemendo deliciosamente no seu ouvido cada vez que ele a estocava mais e mais fundo, até que ele a ouviu dizer:
- Oh, Raaja... eu vou...
Ele aumentou o ritmo, e ela gemeu mais, mais fundo, puxando-o para que ele a possuísse até o fundo, e aquilo foi demais para ele, que gozou como há muito tempo não se lembrava. E quando tudo acabou, ele se aninhou debruçado sobre o peito dela, sentindo o cheiro bom, doce e cítrico de sua Pakeezah. Ele levantou os olhos para ela e a beijou mais uma vez, e os dois se olharam longamente então ele disse:
- Fomos muito irresponsáveis por... você sabe, fazermos sem proteção?
- Sim, fomos – ela riu. – mas eu não tenho mais como ter filhos. E estive no médico há pouco tempo, está sempre tudo bem comigo...
- E apesar da minha má fama – ele riu – tinha um bom tempo que eu não ficava assim... com mulher nenhuma.
- Isso sim, me surpreende – ela riu – deve ser por isso que o achei tão mal-humorado quando te conheci – ela beijou-o de leve e ele prosseguiu:
- E quando... quando pareceu que ia ficar sério entre nós eu procurei um médico para ver se estava tudo bem comigo. – ela o olhava com ar de riso e ele completou – e não, não foi para conseguir nenhuma "ajuda", está bem?
- Eu acredito... pareceu bem natural – ela riu novamente, estava se sentindo leve e alegre. Ele então disse:
- Agora precisamos discutir como vamos contar... para todos eles.
- Nossos filhos? Eles não precisam saber, ou, se souberem, não tem que falar nada. Não é da conta deles...
- Eles vão precisar saber que nós vamos nos casar. E logo. – ela o encarou com surpresa e disse:
- Quem disse que eu quero me casar com você? Você por acaso me pediu em casamento? Só me lembro de ser cortejada.
- Não quer se casar comigo?
Ela deu um sorriso maroto e disse:
- Sim, Raaja... eu quero me casar contigo.
Os dois beijaram-se mais uma vez e se aninharam um ao outro. A vida podia ter sido dura, às vezes, com os dois. Mas agora eles haviam se encontrado e não se perderiam jamais um do outro.
E era bom amar e se sentirem amados novamente.
Notas:
1. Eu sou a pessoa menos crackshiper da face da terra. Certamente ninguém nunca me verá shipando o Rei Vegeta com a Gine "para valer", assim como eu sou muito avessa a crackships como GoBul ou coisas como shipar a Lunch com o Raditz. Mas nessa história, em especial e em caráter único, os personagens do Raaja e da Gine convergiram de tal forma que eu tive de juntar os dois. Foi mais forte que eu.
2. É possível ter um DIU por 4 anos e engravidar assim mesmo, mas é raro, muito raro. Mas aqui entra o domínio do Carma e o fato de que eu queria terminar a história com o Gohanzinho já existindo. Em tempo: o capítulo final dessa história se passa no ano de 2021. Ela terminaria do ano de 2020, mas eu quis que a pandemia já fosse passado e minha visão é sempre otimista e eu acredito que estaremos livres desse troço no ano que vem.
3. Raditz está vivendo um tempo bastante melancólico. E não, a Tights não vai aparecer do nada em Mumbai para que eles sejam felizes para sempre. Mas no próximo capítulo, "Mother India", teremos mais um casamento. Ô povo para gostar de casar, esses indianos...
4. Paakezah é um dos filmes mais emblemáticos do cinema Bollywoodiano, tendo uma história de bastidores ainda mais dramática do que a de sua trama. O filme conta a história da jovem cortesã Sahibjaan, filha da igualmente cortesã Nargis, e os dois papéis foram interpretados pela estrela absoluta Meena Kumari. Sahibjaan nasce em um cemitério, filha ilegítima de um abastado muçulmano Shahabuddin. Quando Nargis morre, a tia de Sahibjaan tenta criar a menina fora do meio da prostituição, mas ela se torna uma cantora, o que na época em que se passa o filme não seria muito diferente de ser prostituta. Sem saber de sua "má fama", Salim, que na verdade é primo de Sahibjaan, se apaixona por ela durante uma viagem de trem quando a vê dormindo descalça, e deixa a ela um bilhete elogiando a delicadeza de seus pés. Apesar de se apaixonarem, o casamento é novamente impedido pela família de Salim, que para humilhar Sahibijaan ainda a contrata para cantar e dançar no casamento do jovem. Se quiser saber o que acontece depois disso, me pergunte em particular, mas não posso revelar o spoiler da cena clímax mais famosa de Bollywood.
5. Por que Paakezah tem uma história de bastidores tão complicada? O filme começou a ser rodado em 1959, quando Meena Kumari tinha 25 anos e era recém casada com o diretor do filme, Kamal Amhori, 15 anos mais velho que ela. Amhori era perfeccionista e descartou 80 horas de filme gravado quando conseguiu contrato para fazer o filme em cores (até então, eram comuns filmes de Bollywood com cenas preto e brancas e coloridas alternadas) e então houve uma revisão geral da produção, com reconfecção de figurinos e cenários, para ficarem mais coloridos e grandiosos. O filme começou a ser refeito em 1963, mas nos primeiros dias de 1964 Amhori pediu o divórcio de Meena Kumari, que então se recusou a voltar ao estúdio. Amhori era abusivo e cruel, e o divórcio prejudicou a carreira de Khumari, que então se tornou alcoólatra e passou a implorar para voltar para o marido, que a rejeitava. Ela ainda fez alguns filmes, mas muito poucos se comparados aos anteriores ao fim de seu casamento, sendo sempre acidamente criticada pela imprensa indiana. Em 1969 os dois se reconciliaram, mas Meena estava muito doente, havia contraído cirrose hepática, mas, por insistência dela, a produção voltou ao estúdio para terminar Pakeezah. Infelizmente, ela não era mais a mesma atriz, a segunda parte do filme ela não tinha mais forças para interpretar, e é visível sua queda de performance, uma vez que ela estava tão doente que mal se aguentava em pé. Pakeezah foi concluído e lançado em 1972, mas foi massacrado por parte da crítica após a première, pois ninguém não sabia do estado de doença da atriz. Quando ela morreu, apenas 18 dias depois do lançamento do filme, tudo foi revelado, e Pakeezah se tornou um clássico instantaneamente e a maior bilheteria do cinema indiano até então, um tributo a uma das atrizes mais injustiçadas de Bollywood, que só depois de morta teve o devido reconhecimento. Fora das telas, ela foi uma poetisa conhecida e consagrada, escrevendo em urdu com o pseudônimo de Naaz. Uma curiosidade: inicialmente o mesmo ator interpretaria o interesse romântico tanto de Nargis quanto de Sahibjaan seria o mesmo, Ashok Kumar; mas quando a produção recomeçou, em 1969, ele estava velho demais para ser o galã e foi escolhido seu sobrinho Raj Kumar para terminar o filme.
