Capítulo 53 – Satyagraha (Verdade perene)

Sendo nascido e criado no meio de Bollywood e muito experiente, Raaja Vegeta tinha uma certa aversão às fofocas que o haviam perseguido durante a sua juventude, e, talvez por isso, tivesse desistido de atuar quando ainda tinha potencial para manter a fama de galã por muitos anos, no meio da casa dos 30. O que ele não imaginava era a repercussão que seu casamento com Gine causaria.

Mesmo sendo mãe de um lutador e de uma atriz, empresária bem-sucedida e ainda bonita para seus mais de 50 anos, ninguém nunca prestara muita atenção a ela naquele meio: ela era uma viúva, e dela se esperava apenas que ficasse quieta, discreta, com poucos enfeites e usando um sári claro, indicativo de sua condição. Mas quando surgiu naquela manhã vestida com um sári laranja e dourado para seu segundo casamento, Gine se converteu imediatamente em um ícone.

Num país onde até mesmo convidar uma viúva para um casamento pode ser considerado pouco auspicioso, ele se tornava um símbolo de que diversos tabus poderiam ser quebrados e que nenhuma mulher era obrigada a morrer em vida após a morte do marido. O sati, suicídio ritual de viúvas na pira funerária, que durante anos tinha sido incentivado graças ao mito da Rainha Paadmavati, acontecera com inúmeras jovens viúvas do passado de forma forçada, mas finalmente passara a ser considerado crime desde que uma jovem de 18 anos tinha sido atirada no fogo pelo pai do marido morto em 1988, ainda habitava muitas cabeças antigas, mas Gine estava disposta a mostrar que havia renascido e não tinha vergonha disso.

Ela usava joias discretas e seu mendhi era claro e não tão elaborado quanto de uma noiva em primeiro casamento. Num altar próximo ao local de celebração, os retratos dos falecidos esposos de ambos tinham uma pequena lanterna ao lado e um incenso queimando incessantemente, como prova de que eram respeitados e venerados. Mas o momento era de Raaja e Gine. Quando ele surgiu, usando uma espada na cintura (símbolo do noivo disposto a proteger sua amada a qualquer custo) num traje dourado e açafrão que combinava com o dela, Gine teve a certeza de que tomara a decisão certa. Poderiam ter vivido seu amor clandestinamente, sem escândalos e como amantes, seria muito fácil esconder tudo, mas eles queriam dizer ao mundo que estavam juntos.

A ousadia de ambos foi até a escolha do traje dos filhos: quando acordaram naquela manhã, Goku, Chichi, Vegeta, Tarble, Bulma e Raditz receberam as roupas que usariam no rito de casamento: Bulma e Chichi vestiriam trajes azuis e dourados, e os rapazes trajes em tons de laranja claro e cobre. Raditz ficou especialmente impressionante com um Kurta um pouco mais escuro do que o do irmão e um turbante laranja que conseguiu esconder totalmente seus longos cabelos, valorizando seu rosto bonito e anguloso, fazendo as solteiras presentes virarem a cabeça quando ele se postou no seu papel de patriarca da família Sayajin.

Foi belo ver Gine e Raaja darem os sete passos pela segunda vez na vida. Para Raaja era a primeira vez que as palavras do ritual e o comprometimento com elas fazia sentido: quando ele disse a ela que ela seria o céu de sua terra, ele reconhecia a segunda chance que tinha, aquela que ele não desperdiçaria por ego ou orgulho, que ele jamais trairia ou para quem diria mentiras e crueldades, como fizera com Fasha, a quem pedira perdão naquela manhã por meio de uma bela oração antes de se vestir como noivo. O passado estava zerado e agora era o futuro dos dois e das duas famílias, agora uma só, que importava.

E quando ele, no final de todos os rituais, traçou uma linha de kunkun vermelho da testa à raiz dos cabelos de Gine e ela sorriu para ele antes de fazer nele sua própria tikka, abençoando o amor de ambos, Raaja sentiu uma emoção que jamais pensou que pudesse se repetir: ele se sentiu amado pela mulher amada, como havia acontecido apenas uma vez em toda sua vida, na noite em que ele e Kyra se entregaram um ao outro e o carma fez com que Chichi nascesse daquele encontro.

A festa foi grandiosa e divertida. Passado o susto inicial, os filhos acabaram aceitando totalmente a ideia da cerimônia, da união dos dois e do amor verdadeiro que unia aquele casal tão maduro. Goku era só um grande sorriso dançando ao lado de Chichi, ao som das músicas que haviam embalado as paradas de Bollywood nos últimos meses, e eles foram celebrados quando tocou "Pyaar ke jeet" o tema de ambos em "Anarkali". Mas, de repente, Goku viu o irmão, de braços cruzados, com um olhar perdido na direção da pista de dança.

Um aperto no seu peito o fez andar na direção de Raditz assim que a música acabou e ele sentou Chichi ao lado de Lunch e Tenshin para que descansasse. Indo na direção do irmão, ele disse alegremente, quando se aproximou:

– E então, bhaee... você sabia de tudo, hein?

– Maan não faria isso sem me contar... – ele disse, olhando o irmão com seu velho ar de superioridade.

– Ah, sim. Mas agora você não é mais o patriarca...

– Não me importo – ele deu de ombros – ela está feliz, não está? Lembra como nós tínhamos ciúmes quando aquele senhor Kujit, que comprava doces dela todos os dias, pedia para cortejá-la? – Raditz riu. – mas ela o detestava!

– Naquela época ela ainda sofria muito pela saudade do pitah... e era tudo tão difícil? Lembra de mim reclamando quando você fazia chapati?

– "Raditz faz um chapati tão seco" – ele imitou a voz do irmão em criança e os dois riram. – Tudo passou, não é mesmo? Os dias de ter só arroz e dosa para comer... graças a você.

– Não, bhaee... graças a nossa união. Sem você por perto eu teria gasto todo dinheiro que ganhei com bobagens – ele riu – e agora nossa família está crescendo. Imagina quando tiver meu pequero Krishna – ou nossa pequena Lakshimi por aqui?

Raditz riu, imaginando o sobrinho ou sobrinha e disse:

– Deveria ser eu a ser o primeiro a ter um varis (herdeiro). Mas nem sei se vou chegar a ter uma família... – ele olhou tristemente para o lado de fora, para a janela onde a paisagem que não era tão bonita quanto a dos hotéis chiques de Mumbai que ficavam na área do portal indiano e de Collaba, e pensou em Tights.

– Quando nosso coração está cheio não aceitamos qualquer coisa dentro dele, não? – perguntou Goku. – Os seus trinta anos estão chegando... vai pedir para maan escolher mesmo uma esposa para você?

Ele ia dizer qualquer coisa, mas Gine chamou atenção de todos subindo ao palco e dizendo:

– Senhores, senhoras... peço a atenção de todos! Sabem como estamos felizes em agora sermos, eu e meu Raaja, uma única família. Mas falta uma pessoa aqui...uma filha que eu ganhei há pouco tempo, mas com quem venho me comunicando regularmente... ela infelizmente não pôde vir para o Diwali conosco por conta da sua intensa rotina profissional... mas demos um jeito de contar com ela.

Raditz olhou para o palco, estranhando. Olhou o relógio. Era quase uma da tarde em Mumbai, o que significava que eram ainda 7h30 na Inglaterra. De repente, num dos telões do palco, uma ligação de vídeo via streaming começou a ser transmitida. Na janela maior, Tights apareceu, radiante, com os cabelos um pouco crescidos e, surpreendentemente, vestida num sári azul como o de Bulma e Chichi, usando uma mangatikka e brincos típicos. Numa janela menor do telão, podia-se ver o que ela via na sua tela, em Londres.

Maan Gine, baujee Raaja – ela disse, num hindi provavelmente ensaiado – me desculpe se não pude estar aí hoje... mas eu desejo toda felicidade do mundo para a senhora e a minha nova família.

– Pode falar em Inglês agora, minha segunda adotada... minha rosa inglesa de cabelos de ouro! Fico feliz que possa estar conosco mesmo à distância!

Raditz não conseguia tirar os olhos do telão, vendo o rosto de Tights radiante interagindo alegremente com sua mãe e depois com Raaja, que não conhecia Tights muito bem, mas conversara com ela junto com Gine na preparação para aquela surpresa por alguns dias. De repente, Gine chamou os três filhos ao palco, começando por Bulma, então Goku e, finalmente, Raditz.

Até então, Tights não o havia visto, porque o link dela permitia ver apenas quem estava diante da câmera de transmissão, no palco. Raditz olhou para a câmera, seus olhos negros muito sérios quando ele se postou ao lado da mãe. Então, ele se permitiu olhar para o telão e viu a reação de Tights. A postura alegre, descontraída dela de repente tinha sofrido um baque, no instante que ela percebeu que ele, mesmo que encarasse a câmera, a encarava. E quando ela percebeu que o olhar dele agora buscava o dela, calou-se por um instante, sem saber direito o que dizer. Gine, com presença de espírito, falou por ela, dizendo:

– Estamos todos aqui agradecidos por seu carinho, minha querida! Foi difícil conseguir amarrar o sári que eu te mandei?

– Ah, não, com seu vídeo foi fácil – disse Tights. Ela queria olhar para Gine, mas seus olhos buscavam incessantemente o rosto de Raditz, que agora desviara o olhar e olhava para baixo, reflexivo. De repente, um sorriso surgiu no rosto bonito e ele levantou os olhos na direção da câmera. Naquele curto diálogo aparentemente inofensivo, ele havia acabado de perceber algo: ele não era o único que ficava abalado por ela... ela também se sentia ligada a ele, podia perceber. E naquele momento ele tomou uma decisão: iria a Londres em dezembro e, para o bem e para o mal, tiraria aquela história totalmente a limpo.

Os dias e meses seguintes foram de grande tranquilidade e sucesso para a nova e ampliada família que surgiu da união dos clãs Vegeta e Sayajin. Morando relativamente próximos, Chichi e Goku visitavam sempre Raaja, Gine e Tarble, que ocupavam agora a cobertura em Chowpatti, bem perto do apartamento dos dois, também na praia. Vegeta e Bulma, morando em Juhu e se preparando para começar a filmar "Gangsta", viviam ainda seu clima de lua-de-mel, interrompido apenas pelas obras que haviam decidido fazer na casa, agora quase completamente modernizada e muito confortável. Todas as manhãs, Vegeta corria na praia e mergulhava no mar que tantas vezes lhe fora negado durante a infância pelos empregados superprotetores. Entendendo finalmente que o mar ali era muito poluído, ele agora planejava construir uma grande piscina na casa de Juhu.

Uma vez por semana, sempre, havia uma grande reunião. Eles se revezavam recebendo uns aos outros em suas casas, em grandes almoços em família ou jantares alegres que iam até tarde da noite. Era a ocasião para que Gine acompanhasse o crescimento da barriga de Chichi, cada vez mais redondinha e radiante conforme o tempo passava. Raditz nunca deixava de comparecer, e depois do casamento de sua mãe com Raaja, ele parecia mais tranquilo e descontraído, mas quase ninguém em sua família imaginava o motivo.

Logo depois do Diwali, ele enviou um e-mail para Tights avisando que ele iria a Londres no lugar de Bulma, avisando que seria o procurador da irmã adotiva por causa dos compromissos dela de filmagem por todo mês de dezembro. Um e-mail protocolar, frio e profissional, que Tights respondeu no mesmo tom formal, mas estendendo um pouco mais o assunto, perguntando se ele precisaria de alguma dica de hospedagem ou transporte durante sua estadia na cidade, ou se gostaria de conhecer algum lugar em especial.

Ele pensou um pouco e respondeu que a visita seria somente profissional. Não sabia o que ela pensaria daquilo, mas tinha algo em mente. A imagem dela o deixando para trás no dia do casamento, a imagem dela beijando seu rosto no aeroporto ao ir embora... tudo indicava que ela, que fechara a porta na cara dele, tinha sentimentos como os que ele nutria por ela. Mas Tights não era boa em demonstrar interesse e era muito cautelosa. Ele deveria fazer com que ela desse o passo, e para isso, precisava esconder seu interesse.

Dezembro chegou e ele partiu para Londres na data marcada, com passagem marcada de volta para depois de cinco dias, exatamente como ela, quando visitara Mumbai. Ela dissera que eram necessários vários encontros com investidores, com os financiadores do projeto, e o mais espinhoso era para decidir onde seria a fábrica, no terceiro dia de negociações.

Havia um motorista o esperando no aeroporto Heathrow, e ele descobriu quando desembarcou que nada o pudera preparar para o frio de Londres em pleno dezembro. Um vento gelado o colheu assim que saíram do aeroporto e ele percebeu que o "casaco apropriado" que comprara numa loja de importados em Mumbai era tudo menos apropriado para o frio de -10ºC. Antes mesmo de entrar no carro, ele pediu ao motorista que o levasse a qualquer loja onde pudesse comprar um casaco que realmente funcionasse para o frio dali. O homem riu.

A parada na loja, o check-in no hotel e o transporte até as instalações da Capsule Corp, no centro financeiro de Londres consumiram um tempo precioso, mas ele não queria parecer um sujeito relapso e pouco profissional. Ele tinha enfrentado um voo noturno de 12 horas e chegou a Londres desalinhado e um pouco confuso, mas tirou da mala seu melhor terno e vestiu-se e penteou-se, prendendo os cabelos num rabo-de-cavalo impecável, pondo por cima o sobretudo de lã grossa com forro duplo, que tinha sido caro mas era confortável e faria com que ele não morresse de frio no caminho para o escritório.

Quando chegou à antessala da presidência da Capsule Corp, conferiu as horas e se amaldiçoou por chegar cerca de 15 minutos atrasado ao compromisso inicial dele com Tights. Não queria ser o "indiano impontual" e sabia que seria julgado pelos parceiros da reunião, mas quando a recepcionista o viu, ele sentiu vontade de rir, porque a moça visivelmente engoliu em seco e ele percebeu que ela o achava atraente. Ela ligou para Tights, que surgiu por uma porta lateral de repente, muito elegante num tailleur azul profundo e parou quando o viu diante de si. Ele tinha deixado seu elegante sobretudo no primeiro andar, uma medida necessária num prédio com aquecimento tão forte, mas ainda assim, estava impressionante como nunca num terno castanho muito bem cortado. E sorriu para ela, charmoso, quando a encarou:

– Tights... me perdoe pelo atraso.

– Raditz – ela sorriu – você leu o relatório que eu te mandei?

– Todos eles – ele retribuiu o sorriso dela – primeiro vamos nos encontrar com financiadores?

– Isso – ela disse, olhando papeis enquanto o encaminhava para uma sala de reuniões – são investidores dispostos a colocar muito dinheiro no processo... se nós conseguirmos convencê-los de que a invenção de meu pai é mesmo revolucionária.

– Pelo que eu sei, é sem precedentes... e eu acho que você está mais que preparada para defende-la...

Ela o olhou de lado. Era sincera e livre de bajulação alguma a observação de Raditz. Logo estavam diante de um americano arrogante que queria saber sobre as cápsulas, e Tights usou de um arsenal de recursos, multimídia, apresentações e ela mesma para mostrar todas as possíveis aplicações das capsulas que encolhiam e armazenavam uma série de matérias – e eles ainda estavam testando possibilidades.

Foi um longo dia com eles entrando e saindo de reuniões em que ele era apenas um espectador interessado, observando Tights lidando com uma série de homens que claramente a cobiçavam porque ela era bonita, segura e independente e ele a admirou ainda mais e, de certa forma, entendeu a armadura que ela usava. Não devia ser fácil ter crescido sozinha, sem família e ter erguido uma empresa como fizera. No final daquele primeiro dia, quando a reunião acabou ela disse, olhando para ele:

– Então... o que achou?

– Bom. – ele deu de ombros – não há o que reclamar da sua atuação, acho que vou poder avisar à minha bahaan que ela vai ficar muito, muito rica graças a você – ele sorriu charmoso.

– Eu sei que você também vai acabar participando dos negócios – ela riu – não finja que não.

– Bem, o dinheiro da nossa família tem sido administrado por mim. Mas eu não tenho esse domínio todo de tecnologia, sistemas... já te disse mais de uma vez que não passo de um caminhoneiro bronco de Mumbai...

Ele disse isso de forma provocante e ela o encarou, dizendo:

– Você sabe que é mais que isso. Vai fazer o que agora? Posso te levar para conhecer um pub ou algo assim, um programa típico de Londres...

Ele olhou para ela e sorriu. Então olhou para o seu relógio e disse:

– A essa hora é madrugada em Mumbai... amanhã minha mãe vai me cobrar porque eu não liguei para ela... – ele riu – e eu tive um dia cheio, vou direto para o hotel, tomar um banho, comer algo e dormir como uma pedra, porque estou muito cansado – ele sorriu – mas adorei o convite.

Tights ficou olhando, supresa, enquanto ele descia as escadas do hall do grande edifício corporativo, pronto para buscar o casaco na chapelaria e procurar um taxi que o levasse até o hotel através das gélidas ruas de Londres.

E foi assim pelos dois dias seguintes. Ele chegava cedo, entravam em reuniões, ela falava, ele observava. Almoçaram juntos nos dois dias, a conversa sempre correndo em direção à vida de cada um deles, suas semelhanças e diferenças. Até que logo antes da última e mais espinhosa reunião, ela perguntou:

– E a noiva indiana? Já conseguiu?

Ele a encarou. Tinham passado um bom tempo fingindo que não existia aquilo entre eles e ele sorriu, satisfeito. Ela trazia os dois para o assunto, bem quando ele já imaginava fazer o mesmo.

– Bem... minha mãe não tem visto ninguém para mim – ele a encarou – ela se recusa.

– Por quê?

– Diz que eu sei o que eu quero. – a verdade era que ele e a mãe haviam conversado uma única vez sobre aquilo e ele admitira que não queria mais uma noiva e Gine dissera que sabia exatamente o que ele queria, e que era Tights, o que ele não admitira. – e que não é uma noiva indiana...

– E não é? – perguntou Tights, mexendo o gelo do seu iced tea, de forma charmosa – o que é então?

Ele sorriu. Poderia agir de outra forma, mas prudentemente, não pôs todas as cartas na mesa:

– Pode ser que eu esteja querendo agir como um ocidental pela primeira vez na vida. Sem casamentos arranjados, sem noivas escolhidas... sem mesmo pensar em casamento, apenas uma folha levada pela brisa...

– Uma folha levada pela brisa – ela ecoou, reflexiva. – Não é muito você. O frio e calculista negociador que me disse que nunca na vida tinha se apaixonado.

Ele a encarou. Era uma provocação, mais uma. Ele então disse:

– Você sabe... Gandhi dizia que há apenas uma verdade. Satiagraha, a verdade perene. Gandhi dizia que um homem que atravessar o deserto, não importa qual sua religião, casta ou origem, vai terminar a jornada com sede. A verdade que tudo que me fez duro e frio não foi capaz de aplacar minha sede de amor, eu apenas não sabia disso.

– Uau. – Tights não sabia o que dizer. – então... as coisas mudaram?

– Não, as coisas permanecem as mesmas, eu apenas enxergo a verdade melhor agora. Como Lorde Rama no final da sua jornada pela densa floresta. – ele a encarou com aqueles olhos negros e profundos e começou a contar – Rama era um homem e também um Deus. Quando eu era criança, li o Ramayanna na escola e muitos não gostavam de ler aquela história religiosa, repleta de lições, mas eu achava que Lorde Rama era meu herói. Um homem que perdeu tudo, vagou pela floresta sem rumo porque desafiaram a honra de seu pai e ele não pôde defende-la.

– E aí? – ela o olhava curiosa e um pouco tensa. Raditz sorriu.

– No fim da jornada ele encontrou Sita. A esposa perfeita, a sua outra metade. Mas Sita foi sequestrada pelo demônio Ravanna, que levou a escuridão ao mundo, e Rama teve de lutar por ela no escuro, mas no fim de tudo, derrotou Ravanna e ele pôde viver uma longa e feliz história de amor com Sita.

– Bah – Tights bufou, irritada – sempre a velha história do bravo príncipe que salva a princesa...

– Não, não – ele riu. Sabia que aquilo a irritaria, ele a conhecia bem – Rama precisou das lamparinas que Sita acendeu pelo caminho para chegar até Ravanna, e durante a batalha, ela iluminou o caminho para Rama. Sem ela, Rama jamais derrotaria Ravanna.

– A moral da história então – ela disse, encarando Raditz com seus enormes olhos claros – é que um homem não é nada sem a mulher certa?

– Você pode encarar as coisas dessa forma – ele riu – mas eu prefiro acreditar que os grandes talentos se completam. E eu sempre me espelhei na bravura de Lorde Rama.

– Ele também era alto, forte e tinha cabelos longos que nem você? – ela desviou o assunto, perturbada pela ideia do que ele dizia nas entrelinhas.

– Sim. Porém, azul. – os dois riram e ele disse – eu espero que nós dois possamos agora, nessa reunião, unir nossos talentos complementares... como Rama e Sita. Mas não necessariamente com a história do romance.

– É – ela disse, se levantando, porque a conta já estava paga e um pouco séria, talvez porque ele havia deixado claro que não havia romance entre eles.

Ele sorriu para si mesmo. Sua flecha atingira o alvo, certeira como as de Lorde Rama.

Eles não esperavam que a rodada daquela tarde, a última, acabasse agindo como um catalizador e os unisse no mesmo lado. Já haviam decidido muitas coisas como aporte financeiro, taxa de investimento para pesquisa e implementação, capitalização do fundo de ações da nova parte da companhia... mas faltava apenas uma coisa: a sede da primeira fábrica das cápsulas.

Num mundo globalizado, os custos de produção sempre falavam mais alto, e os custos de produção mais baixos para aquele produto estavam na Indonésia, na Malásia, no Vietnam... países sem muitas regulações e entraves burocráticos onde o custo de produção seria baixo e salários mais baixos ainda. Mas Tights tinha um sonho para aquele projeto.

Não tinha sido à toa que seu pai tinha ido à Índia, anos antes, para desenvolver as cápsulas. Ele era sonhador e queria produzi-las num país onde elas pudessem fazer diferença social, e esse país era a Índia. Tights não havia dito nada a Raditz, mas não abriria mão de construir a primeira fábrica da Capsule Corp lá. Seria certamente menos lucrativo, ainda que mais barato que na Inglaterra, mas com certeza seria o melhor a se fazer. E ela sonhava alto: queria pagar bons salários, acima da média praticada por lá, criar investimentos sociais, fazer a diferença de alguma forma.

O problema era contar com a aprovação da Red Ribbon, uma das holdings americanas que se interessara pelo projeto e o maior investidor em potencial dos que haviam comparecido à rodada de negociações até ali. Tights preferiria não precisar deles, mas seus parceiros de negócios diziam que seria mais garantido, mais certo com eles no projeto "Se eles aderissem, os outros adeririam" eles diziam e ela ficava contrariada, pensando em mudar o direcionamento por causa de um investidor apenas. Tinha uma boa reserva financeira. Tinha um bom projeto nas mãos... porque precisava ficar à mercê de um grupo que não tinha ideias, não tinha projetos e era tão ganancioso?

Mas a reunião começou e foi a Red Ribbon que começou a relatar as possibilidades: preferiam a Indonésia para a sede da fábrica, passando por lugares como Vietnam e Malásia, sempre com a ênfase em baixar os custos e, principalmente, os salários. Julius Red, um sujeito baixo e ruivo com cara de poucos amigos ia explicando tudo em termos de números... custos, rentabilidade, lucratividade... e ao mesmo tempo que Tights, Raditz começou a se sentir incomodado.

O homem defendia levar a fábrica para áreas onde o salário poderia ser de menos de dois dólares por dia. Ele dizia que isso cortaria custos de construção e faria o produto final mais barato... mas, na cabeça de Raditz, o preço do produto final era o de menos, aquela ideia revolucionária precisava mesmo ser tratada como algo a ser produzido pelo mínimo do mínimo, apenas para dar lucro? Ele olhou para Tights. A mulher tinha um ar contrariado, irritado. E quando o homem terminou a sua apresentação, ela disse:

– Não gosto da ideia de explorar trabalhadores em troca de salários miseráveis. Eu prefiro a ideia do custo diluído, uma produção mais humana, onde os custos iniciais possam ser resgatados a longo prazo. Fizemos uma pesquisa. O uso das cápsulas para governos, empresas e pessoas compensaria largamente os investimentos de produção. A possibilidade de exportar e produzir para o mundo todo... imagine, temos desde a aplicação prática, transportando grandes cargas com 1/100 do peso, até o uso humanitário. Fizemos testes e conseguimos encapsular até mesmo casas compactas e tendas hospitalares... imagine o uso numa crise de guerra, num furacão, num tsunami...

– A Red Ribbon respeita seus ideais, mas nossos acionistas...

– Os seus acionistas são pessoas ricas ou privilegiadas que só pensam nos lucros! – ela disse, tentando não parecer indignada – mas os lucros podem ser muitos se começarmos a produzir bastante! Não é como algo para poucos, tem aplicação no mundo todo e...

– Sim, por isso o projeto nos interessa, mas esses são nossos condicionantes: a primeira fábrica num dos nossos países parceiros, que nos garantem melhores condições e salários competitivos e...

– Salários competitivos? – perguntou Raditz, indignado – o salário que mata uma pessoa de fome não é competitivo, é cruel, senhor.

– Nesses países o custo de vida é baixo...

– Custo de vida baixo? Ah, sim, realmente – disse Raditz, irritado e quase trêmulo – posso falar sobre baixo custo de vida na Índia, por exemplo, eu sou de lá... posso falar para o senhor como é negociar a entrega terceirizada de um caminhão por 30.000 rúpias para uma transportadora de sua holding... eu fiz muitas, muitas mesmo... posso falar também das tentativas de descontos em pagamentos de cargas por bobagens que o seguro cobria... posso falar sobre tentar receber e ouvir dos encarregados que a empresa só deposita em 30 dias úteis... posso falar sobre o custo de vida baixo e se adaptar a ele. Sim, eu já precisei dormir com uma refeição de baixo custo no meu estômago, baixo custo de proteínas, vitaminas... isso quando eu era ainda muito jovem. Posso falar na indignidade que é receber um "Salário competitivo" na Índia...

– A Índia está fora dos nossos planos – disse Red – os custos de produção lá ainda são...

– Eu não abro mão de uma fábrica na Índia – disse Tights, de repente, erguendo-se e olhando para Raditz – sem ilegalidades ou subornos e sem salários exploratórios. Meu pai fundou essa companhia para fazer diferença para pessoas ao redor do mundo, não para acumular bilhões de dólares e comodidades.

– Como representante da outra acionista, eu endosso a posição da presidente Tights – disse Raditz, olhando de forma desafiadora para o homem, depois de olhar num relance para Tights, que sorriu em aprovação.

Os demais investidores em potencial ficaram quietos, tensos. Julius Red olhou para o lado, deu um sorriso cínico e passou a mão direita pelo cabelo alaranjado, dizendo:

– Sem o cumprimento das nossas exigências, a Red Ribbon se retira das negociações.

– Pois que se retire – disse Tights, o encarando – e quem concordar com o senhor, pode sair também.

O secretário de Tights abriu a boca em puro pânico. Ele a conhecia desde menina e sabia quando ela não cedia, mas ele imaginava que os outros 11 potenciais investidores desistiriam junto com a poderosa holding e o projeto estaria perdido. Ele se aproximou dela e disse:

– Senhora Briefs, pense...

– Já pensei, Zuno. Dinheiro nenhum vale a nossa dignidade. Eu tenho a patente, posso começar do zero. Não posso? – ela perguntou, olhando para Raditz – como representante da Bulma, acha que você e ela me apoiariam?

– Completamente – disse Raditz, a encarando – você está certa. É o seu ideal.

– É o meu ideal e o sonho do meu pai – ela disse, e um sorriso quase selvagem apareceu no seu rosto. Zuno já ia dar um suspiro resignado quando, logo atrás dele, soou uma voz com um sotaque oriental.

– Com licença?

Os três olharam para um homem baixo, com feições japonesas, o único que permanecera depois da debandada de investidores. Raditz e Tights se entreolharam e ela disse:

– Pois não senhor...

– Toyotaro.

– Sim! O senhor é representante da Z Company!

– Sim, exatamente – o homem sorriu – eu gostaria de dizer que sua preocupação humanitária é exatamente o tipo de projeto que nossa companhia se interessa em participar e investir, embora não tenhamos o capital da Red Ribbon.

– Obrigada. Sei que fui rude com os investidores e...

– Não precisa se desculpar. – disse Toyotaro, sorridente. Eu acabei de me comunicar por mensagens com nosso presidente, agora são sete da manhã em Tóquio, ele está se preparando para chegar ao nosso escritório. A questão é: como não temos o poder da Red Ribbon, a senhorita poderia conseguir uma apresentação de custos para uma primeira fábrica, apenas uma estimativa, que não fosse tão grande quanto à que foi apresentada aqui?

– Bem, eu posso e...

– Ótimo. O presidente disse que se ele receber até meio dia de hoje para nós (21h em Londres) ele pode apreciar e até mesmo aprovar o início das negociações para a construção da fábrica na Índia, como a senhorita deseja. Envie para o e-mail e logo em seguida, ele estará esperando para uma teleconferência através desse link – ele deu um endereço de servidor dedicado – vocês poderão conversar brevemente, mas acredito que será positivo para apreciação.

– Claro que sim – disse Tights, empolgada. De repente, ela olhou para Raditz e disse – você pode vir comigo? Na minha sala temos tudo... eu preciso de sua ajuda.

– É para já! – ele disse, e a seguiu. Eram 16 horas e eles tinham cinco horas para conseguir redimensionar um trabalho de semanas.

Havia algumas xícaras de chá sobre o aparador ao lado da mesa da presidência, eles haviam tomado muitas enquanto revisavam pela enésima vez o projeto original de Tights devidamente redimensionado para o tamanho que a Z Company solicitara. Ao longo do trabalho, discutiam animadamente e Tights ia respondendo sobre o que ele não entendia nas planilhas. O trabalho dele era revisar e conferir cálculos para ver se todos os números batiam.

Os dois estavam empolgados, conforme discutiam aquele orçamento estimado. Não era uma diminuição radical de tamanho ou custo, podia ser feito com os ajustes que os dois iam concluindo ser possíveis. Tights ficou impressionada com a destreza de Raditz com os números. Os dois trabalharam febrilmente juntos, trocando ideias e Tights se surpreendeu com a inteligência para negócio dele, que era intuitiva e não tinha se desenvolvido numa faculdade, mas na estrada.

Ela olhou o relógio do computador quando terminou. Eram quase nove da noite e em Tóquio, quase meio dia. Tights enviou o e-mail e então entrou no link dedicado, ficando diante do telão de conferências na sua sala. Vendo que Raditz ficava de lado, disse:

– Venha aqui, vamos fazer isso juntos.

Demorou alguns minutos, mas logo o presidente da Z company estava falando com ela, que apresentou brevemente o relatório que havia mandado. Ele prestou atenção e prometeu ler atentamente. Então disse:

– Soube que a senhorita rompeu intempestivamente com a Red Ribbon...

Tights gelou. Ela olhou para Raditz, que disse:

– Senhor... a senhora Briefs e eu, que represento os interesses da irmã dela, não conseguimos trabalhar com companhias com diretrizes desumanas.

Tights sorriu e disse, completando:

– Não abrimos mão em fazer diferença de forma positiva no mundo...

O homem olhou para os dois e disse:

– A Z company vai ter um grande prazer em trabalhar com os senhores. Vou ordenar que minha equipe revise os projetos e relatórios para firmarmos a parceria. Mas estou dando minha pré-aprovação. Parabéns.

O link foi desfeito e Tights e Raditz ficaram ali, lado a lado, olhando estupefatos para o telão apagado. De repente, ela disse:

– Conseguimos! – ela olhou para ele, rindo e disse – Raditz... Conseguimos!

Ele a segurou pelos ombros, sorrindo e disse:

– Não. Você conseguiu. Foi o seu trabalho... eu apenas ajudei, dentro do que eu podia.

Ela o encarou e, de repente, os dois finalmente se enxergaram como eram, perfeitamente complementares. E, sem que nenhum dos dois dissesse nada, se agarraram num beijo feroz, pouco se importando se estavam na sala da presidência da Capsule Corp.

Notas:

1. Oi oi oi, vou apanhar porque acabei o capítulo assim... então, Raditz e Tights se completam, finalmente viram isso. O próximo capítulo é só deles!

2. Raaja e Gine finalmente juntos, felizes e casados. Tudo lindo, bonito e perfeito, mas queria dizer a vocês que essa história termina em 2020, então... muita coisa ainda pode acontecer.

3. Satiagraha, a verdade perene, é um conceito filosófico difundido por Mahatma Gandhi e um dos princípios que nortearam a primeira constituição indiana, promulgada após sua morte em 1947. A "verdade perene" é a ideia de que as necessidades e vontades humanas não mudam, independentemente da origem, da religião ou da vida que cada pessoa tem. Uma das máximas de Gandhi para explicar a Satiagraha (além da mencionada do texto, a metáfora do deserto) é a metáfora do escravo: "Não importa quem seja o seu senhor, o escravo sempre desejará a liberdade". Satiagraha é também o princípio político de que um estado deve ser governado pensando no bem comum.

4. Rama é o quinto avatar do deus Vishnu, também conhecido como "O homem perfeito". O ramaiana é o clássico indiano que conta sua história.

5. Cabe ainda o esclarecimento sobre o Sati e a rainha Padmini, que ninguém sabe realmente se existiu, mas que supostamente era a esposa do Raaja Marahavaal Ratan Singh, da região de Jaipur, que realmente existiu e foi derrotado durante a invasão muçulmana e a guerra que resultou na conversão da região a um sultanato muçulmano liderado por Allaudin Sidiq, um polêmico líder que era conhecido por sua crueldade. Supostamente a rainha Padmini e as esposas dos generais derrotado, que segundo a cultura vigente se tornariam "propriedade" do reino de Allaudin, teriam todas cometido um suicídio ritualístico atirando-se nas piras funerárias dos seus esposos. A história, que começou como um exemplo de afronta política, com o passar dos anos se tornou a ideia repressiva de que uma mulher deve seguir seu marido para o outro mundo.

6. Em 2018 uma grande polêmica envolveu o filme Paadmavati (que significa sacrifício de Padma, em referência ao sacrifício da rainha), um épico dirigido por Sanjay Leela Banshali que tinha o sentido de resgatar a ideia de um ato de coragem cometido por uma mulher para afrontar o novo poder. Com o boato de que havia uma cena supostamente erótica entre a rainha e o sultão Allaudin, radicais hinduístas pediram que a atriz Deepika Padukorne fosse decapitada. Felizmente, os radicais foram processados e o filme, que não tem nenhuma cena polêmica entre a rainha e o sultão, foi lançado e foi um sucesso.