Capítulo 44

Narcisa Malfoy

"Um homem não te define."

"Triste, Louca ou Má" – Francisco, el Hombre.


Narcisa sumiu durante os dias que sucederam o almoço tenso na Mansão Malfoy. Quem ia até os aposentos de Elizabeth, para chamá-la para as refeições ou prover o necessário, na maioria das vezes era algum dos elfos. Algumas raras vezes, foi o rosto pálido e magro de Draco que surgiu pela fresta para levá-la até a sala de jantar. No terceiro dia, quando o garoto a escoltava de volta para o quarto, Elizabeth perguntou sobre Narcisa. A resposta não veio. O garoto apenas se tornou ainda mais pálido e engoliu em seco. Fechou a porta do quarto com um som mudo e deixou Elizabeth sozinha com seus temores e demônios.

A prima era responsável por ela, então será que Voldemort fizera algo à Narcisa por causa de Elizabeth? Será que foi por causa da pequena discussão com Bellatrix? Sentiu-se culpada logo nos primeiros segundos que teve esse pensamento. Deveria ter ficado de boca calada. Deveria ter deixado Bellatrix dizer o que quisesse sobre sua família, pois deveria saber que era o prudente a se fazer. Tinha se gabado, para ferir Voldemort, de que não era tempestuosa como a avó, mas se mostrara tão impulsiva quanto. Se não fosse pela "proteção" que lhe era resguardada por causa de Lorde Voldemort, Lestrange teria a matado ali mesmo.

Era um início de tarde ensolarado – embora o dia parecesse sombrio, assim como todos os outros dias que antecederam esse –, e Elizabeth estava, mais uma vez, sentada à grande mesa de jantar da Mansão Malfoy. Estavam todos em seus respectivos lugares, exceto pela cadeira vazia ao lado direito de Elizabeth, que deveria ser ocupada por Narcisa. Voldemort parecia muito satisfeito nos últimos dias, desde a queda do falecido Ministro da Magia. Naquele dia, ninguém falava nada; os únicos ruídos quebrando a quietude do recinto era o tilintar dos talheres contra a louça fina dos pratos.

— O que aconteceu com Narcisa? — Reuniu coragem para irromper o silêncio.

Todos ergueram os olhos para Elizabeth, embora Draco logo tenha abaixado a vista de volta para o prato. Voldemort não moveu um único músculo para responder. Na verdade, seu olhar vagou diretamente para Lúcio.

— Essa é uma boa pergunta — disse Bellatrix, pela primeira vez direcionando seu ódio ao cunhado em vez de Elizabeth. — Minha irmã está bem, Lúcio?

— Está doente. — Lúcio respondeu simplesmente, retornando a atenção para o prato.

— Ela já foi vista por um medibruxo? — Perguntou Elizabeth, sentindo uma grande antipatia pelo homem loiro.

— Já.

— Se ela precisar de alguma medicação, eu posso fazer. — Lúcio levantou os olhos cinzentos para ela com um vinco entre as sobrancelhas. — Eu sou Mestra em Poções, Sr. Malfoy. Se sua esposa precisar de alguma poção, eu posso prover.

— Ela já tem tudo que precisa.

O silêncio voltou a reinar novamente, mas, agora, continha um certo teor de animosidade e desconfiança. Ninguém comprou a justificativa de Lúcio, e Bellatrix, que tinha maior intimidade com a, talvez, enferma, ainda fitava o cunhado com olhos de ódio. O ódio era um sentimento inerente de Bellatrix Lestrange, ele não deveria ser interpretado com comoção pelos outros; mas o tom com que ela se dirigira a Malfoy e o olhar que escondia alguma coisa somavam para que as outras pessoas suspeitassem que, na verdade, outra coisa tinha acometido Narcisa.

— Faria poções para a senhora Malfoy, Elizabeth? — Voldemort se pronunciou, então.

— Sim — respondeu sem hesitar.

— Posso perguntar por quê? — Ele sorriu daquele jeito pavoroso. — Não pode dizer que é em nome da família, não é?

— Não, senhor. Não posso. — Elizabeth apertou o garfo com mais força. — Faria em nome dos meus princípios. Narcisa tem cuidado muito bem de mim desde que cheguei aqui, e ter gratidão me foi ensinado desde muito nova.

— Oh, priminha linda! — Bellatrix falou imitando a voz de uma criança. — Que gesto tocante!

Eu não espero que você entenda o que é gratidão, Elizabeth pensou com raiva, mas mordeu o lábio para evitar que qualquer outra coisa escapasse de sua boca. Já colocara Narcisa em perigo demais.

ooOOooOOoo

— Yaxley! — A voz fria de Voldemort sibilou pelos corredores da mansão.

O comensal carrancudo se apresentou para o seu senhor em questão de segundos, curvando-se de maneira muito respeitosa. Voldemort aguardou que Yaxley ajeitasse sua postura para perguntar:

— Está gostando do Departamento de Execução das Leis Mágicas?

— Demais, milorde — sorriu. — Sou muito grato pelo cargo.

— Bom — o homem com face serpentina ajeitou-se sobre o assento. — Yaxley, você deve se lembrar da Batalha do Ministério, que aconteceu no ano passado.

— Claro, milorde.

— Eu os enviei até lá pois estava atrás de duas profecias. Uma que falava sobre Harry Potter e outra que não foi encontrada. Ela deveria estar com as demais, mas talvez tenha sido destruída durante a Batalha. Porém, essa profecia é de extrema importância. Então, eu acho que com a sua mais nova posição como chefe do departamento, você poderia me ajudar.

— Sempre, milorde. — Yaxley disse sem hesitar, mas sem deixar de sentir uma sensação estranha.

— Eu possuo fortes suspeitas de que o Ministério também mantinha essas profecias arquivadas. Eu quero que a encontre o mais rápido possível.

— O senhor teria algum ponto de partida?

— "Aquele destinado a derrotar o Lorde das Trevas terá auxílio. Auxílio da garota nascida no despertar do novo ano." É o único trecho que tenho conhecimento. A profecia foi feita em 1981.

— Existe mais um Harry Potter, milorde? — Perguntou com preocupação.

— Cada segundo que perde aqui, Yaxley, é um segundo perdido sem procurar o arquivo. Saia!

O Comensal da Morte sumiu tão logo havia surgido, deixando seu mestre sozinho mais uma vez. A pergunta de Yaxley irritara Voldemort profundamente. Já bastava ter que lidar com mais um fracasso ao tentar matar o Garoto-Que-Sobrevivia-Toda-Vez, ainda precisava se preocupar com uma garota que ele nem mesmo fazia ideia de quem poderia ser.

Sua primeira suspeita, sabiamente, fora a sangue ruim Granger. Era o raciocínio perfeito. A garota imunda estava sempre aos calcanhares do Potter, livrando o pescoço dele de incontáveis emboscadas. Mas precisou descartá-la quando descobriu que ela não se encaixava na característica de ter nascido no começo do ano. Procurar pela garota dentre das centenas de alunos que estão e que já passaram por Hogwarts era como procurar agulha em um palheiro. Precisava do restante do conteúdo da profecia e só assim poderia dar fim na pirralha que atrapalharia suas conquistas.

Contudo, Voldemort estava muito certo de que a profecia se referia a uma menina nascida no mesmo ano em que Potter nascera, ou que fosse alguns meses mais nova. Ele nem imaginava quão errado estava. Não fazia ideia de que a garota da profecia tinha nascido sete anos antes da mesma ser feita. Ele jamais imaginaria que já a conhecia e queria, na verdade, ela para si. Nunca passaria pela sua mente que aquela que auxiliaria Harry Potter cochilava em um dos quartos acima.

Como suspeitar que a garota que procurava para matar era, justamente, a que queria viva?

ooOOooOOoo

Quando Narcisa reapareceu, já havia se passado um pouco mais de uma semana. Ela entrou silenciosamente no quarto, com a bandeja do café da manhã, agradecendo por Elizabeth estar no banheiro. Deixou a bandeja sobre a escrivaninha e caminhou até a cama para dobrar o lençol. Dobrou-o com esmero, sem se utilizar de magia. Ultimamente, vinha preferindo realizar algumas tarefas sem o menor uso de magia, pois sentia que isso a distraía de determinados pensamentos. E realmente funcionava, já que, enquanto ajeitava a colcha que cobria a cama, não percebeu que o barulho do chuveiro se extinguira e que, agora, Elizabeth a observava em silêncio.

— Os elfos não podem fazer isso?

Em outra situação, a reação de susto de Narcisa teria sido engraçada. Seu corpo tremeu por inteiro e ela afastou as mãos do edredom como se lhe queimasse. Então, Elizabeth notou suas costas se retesarem, mas em nenhum momento Narcisa se virou para ela. A mais velha abaixou a cabeça e voltou a forrar a cama.

— Eu que estou responsável pela senhorita.

— O café da manhã não será feito lá em baixo? — Perguntou dando uma olhada na bandeja e encontrou pães, torradas, frutas e café.

— O Lorde das Trevas se ausentou. — Narcisa bateu nos travesseiros para afofá-los. — E ele não quer que faça as refeições com os outros sem a presença dele.

Elizabeth assentiu enquanto beliscava uma uva. Deu um passo para frente e Narcisa abaixou mais ainda a cabeça.

— Você sumiu. Eu fiquei preocupada. — Colocou as mãos nos bolsos do roupão. — Achei que Voldemort tinha feito algo.

Narcisa nada respondeu nem demonstrou que, ao menos, havia escutado. Ela virou-se para se retirar do quarto, tendo o cuidado de se manter de costas para a outra. Com um impulso impensado, Elizabeth segurou Narcisa pelo braço e a virou de frente para si.

A face bonita de Narcisa arregalou-se com assombro e seus olhos cinzentos lacrimejaram. Uma grande mancha esverdeada pintava a pele pálida ao redor do seu olho esquerdo. Ela encolheu os ombros abraçando o próprio corpo, voltando a abaixar a cabeça para fugir do olhar questionador da prima. Elizabeth concluiu o óbvio muito rápido. Só uma pessoa poderia agredir uma mulher e fazê-la se sentir envergonhada por isso.

— Narcisa...

— Está tudo bem — ela quis garantir, mas havia apreensão na voz.

— Não, não está — declarou.

Ela puxou Narcisa para se sentarem sobre a cama. Em algum momento, que nenhuma das duas poderia dizer quando foi, as mãos de Elizabeth seguraram as de Narcisa.

— O que aconteceu? Por que Lúcio achou que poderia fazer isso?

Narcisa rompeu em soluços dolorosos que causaram frio na espinha de Elizabeth, e ela sentiu vontade de chorar também. Inconscientemente, apertou as mãos brancas entre as suas e sentiu um aperto, mesmo que muito fraco, de volta.

— Narcisa...

— Eu não quero falar sobre isso — engasgou-se no próprio pranto, o que a fez tossir. — Por favor, não me faça falar sobre isso.

— Tudo bem, então não falaremos sobre isso. — Elizabeth disse com tranquilidade falsa no seu tom, embora isso tenha feito Narcisa parar de soluçar.

Elizabeth não largou as mãos de Narcisa até que ela tivesse parado de chorar. De volta à realidade, Narcisa levantou as sobrancelhas, surpresa com o contato que havia se estabelecido entre elas. Tirou as mãos das de Elizabeth com certa indelicadeza e secou o rosto. Os dedos mornos de Elizabeth voltaram a segurar os seus, agora afastando suas mãos do rosto. Elizabeth levou a mão ao rosto da outra e descansou os dedos com cuidado sobre a contusão. Narcisa sentiu, então, um formigamento estranho, que veio acompanhado de uma sensação de calor. Levantou-se da cama com confusão e correu até o espelho da penteadeira.

O reflexo que a encarava de volta tinha a mesma expressão de tristeza e assombro que sentia, mas a mancha arroxeada com tons de verdes desaparecera. Deu as costas para a própria imagem, fitando Elizabeth e suas mãos com deslumbramento.

— Como...? — Apontou para as mãos de Elizabeth. — Está sem varinha.

— Narcisa... — suspirou com um sorriso.

Balançando a cabeça, como se achasse graça da surpresa de Narcisa, Elizabeth se levantou e caminhou até ela. Segurou o rosto de Narcisa entre as mãos e examinou atentamente o olho outrora machucado. Então, afastou-se de Narcisa como se estivesse satisfeita com o próprio trabalho.

— É um feitiço de ilusão — disse. — Vai evitar questionamentos que você não quer responder. Mas eu a aconselho a passar essência de ditamno. Duas vezes ao dia; uma de manhã e outra antes de dormir. Em uns três ou quatro dias estará curada. O feitiço deve durar até o fim do dia. Se quiser, amanhã eu posso fazer de novo.

— Não respondeu a minha pergunta, Elizabeth.

— Narcisa — disse Elizabeth fazendo um gesto com a mão e a porta foi destrancada. Narcisa a olhou com assombro de novo. — Se eu pudesse fugir pela porta da frente, eu já teria fugido. Imagino que você tenha outros afazeres agora.

Elizabeth sorriu e se sentou à escrivaninha, puxando a bandeja para si. Ouviu os saltos de Narcisa estalarem contra o chão, se tornando cada vez mais distantes. Porém, antes de fechar a porta, ela perguntou:

— Por que ainda não fugiu? Não pode sair pela porta da frente, mas pode sair de outras maneiras, não?

Sem virar-se para prima e bebericando o café forte, Elizabeth respondeu com simplicidade:

— Eu jamais a colocaria em perigo, Narcisa.


Notas da autora:

Olá, amores. Espero que tenham passado bem o Natal e tenham comido bastante rabanada, bolinho de bacalhau, frango, chester... Enfim, espero que tenham passado bem.

Até terça-feira! Grande beijo!