Capítulo 46

Obsessão

"Que ela queime em aflição, ou seja meu, só meu, o seu amor."

"Fogo do Inferno" – Trilha sonora de "O Corcunda de Notre Dame".


Elizabeth estava no quarto, como era habitual. Agora sempre era vista com um livro em mãos, o que sempre a fazia agradecer imensamente a Narcisa, pois as leituras a ajudavam a se distrair. Porém, naquele momento, apesar do livro apoiado no colo, ela não lia.

Já fazia cerca de dez minutos que escutava gritos e mais gritos vindos do andar debaixo. Às vezes eram gritos de ódio, e ela podia dizer que eram de Voldemort, e outras vezes eram de dor e tortura. Compadeceu-se de quem quer que fosse o alvo, mesmo que fosse um Comensal da Morte.

A porta abriu de repente, o que assustou Elizabeth. Ela levou a mão ao coração enquanto assistia Narcisa entrar com seu almoço. Percebeu pela expressão alerta da outra que o que acontecia lá em baixo era sério.

— O que houve? — Largou o livro sobre a cama.

— Yaxley — respondeu quando pôs a bandeja sobre a mesinha. — Ele estressou o Lorde das Trevas de alguma forma. O Ministério foi invadido.

— Invadido? — Ergueu as sobrancelhas.

— Harry Potter e os dois amigos — Narcisa olhou para Elizabeth — causaram um rebuliço por lá.

Elizabeth surpreendeu-se com a notícia, pensando o quanto o trio era corajoso. Lembrou-se que o garoto, àquela altura, estaria na caça das horcruxes, e indagou-se se alguma estaria no Ministério da Magia.

Ela se levantou da cama para ir até seu almoço e Narcisa seguiu para a saída quando a porta se abriu com brutalidade. Bellatrix entrou com passos curtos, uma expressão debochada e a varinha na mão.

— Ora, ora, prima — sibilou com os dentes podres à mostra. — Não vai mais almoçar conosco? Tenho sentido sua falta à mesa.

Narcisa permaneceu estática ao lado da porta, seu rosto impassível não entregava nada do que sentia ou pensava. Elizabeth, por sua vez, parou a caminho da mesa em total silêncio.

— O que foi, Elizabeth? O gato comeu a sua língua? — Bellatrix agora estava muito perto, seu nariz poderia tocar o de Elizabeth caso se curvasse um pouco.

— Bella! — Narcisa advertiu, embora não tivesse movido um músculo. A irmã a ignorou.

— Não é tão corajosa aqui, não é, garota? Sem ele para te defender. — Balançou a cabeça para afastar uma mecha de cabelo que insistia em cair sobre seus olhos. — Pois saiba, Elizabeth — abaixou a voz para que só ela ouvisse —, que ele é meu. Ele apenas está curioso, como sempre fica quando há carne nova. Quando ele se cansar, ele vai voltar para mim como sempre faz...

— Algum problema aqui, Bellatrix? — A voz fria de Voldemort foi ouvida e a bruxa se afastou de Elizabeth como se levasse um choque. — Eu fiz uma pergunta!

— Milorde — ela gaguejou —, eu... eu...

Eu, eu, eu — ele imitou a voz dela e se aproximou. — Srta. Jones — dirigiu-se a Elizabeth —, peço desculpas caso Bellatrix tenha a estressado. Não acontecerá novamente.

Elizabeth conseguiu ver a raiva subir por todo corpo da outra bruxa, e a mão que segurava a varinha tremeu de ódio. Ela tentou dizer alguma coisa, mas foi expulsa do quarto pelo seu Lorde. Narcisa saiu logo depois, sem precisar ser mandada.

Voldemort olhou para a bandeja do almoço e voltou as íris vermelhas para a jovem.

— Tenho visto que tem se alimentado melhor.

Elizabeth apenas fez que sim e ele se afastou dois passos. Analisou-a dos pés à cabeça e um sorriso satisfeito surgiu em seus lábios finos.

— Gostei da roupa — continuou a sorrir e seus olhos pareceram ficar desfocados. — Sempre gostei de quando se vestia assim, Tina.

E de novo a loucura e obsessão de Voldemort faziam ele enxergar Valentina no lugar de Elizabeth. Ela estava trajando uma blusa verde de mangas longas e uma saia xadrez de cintura alta que terminava um pouco abaixo dos joelhos. Parecia ter vindo diretamente dos anos 1940 e entendeu a confusão de Voldemort. Poderia ter falado algo, tê-lo lembrado que não era Valentina, mas o medo a congelou.

— Jantará comigo hoje, senhorita Jones. — Voldemort pareceu voltar à realidade e seguiu para fora do quarto. — Aguarde os próximos passos. Bom almoço.

Elizabeth só se mexeu quando a porta se fechou e deixou-se cair sentada na cama.

ooOOooOOoo

Alguns minutos depois do fim do almoço, cinco elfos domésticos adentraram o quarto em que Elizabeth ficava presa. Os seres não se deixaram intimidar pela surpresa e confusão de Elizabeth pela presença deles ali. Ola, que aparentava ser a elfa mais velha, avisou, com certa arrogância, que estavam ali às ordens de Lorde Voldemort para aprontá-la para o jantar de mais tarde.

Quatro dos elfos alcançaram cada uma de suas mãos e pés e dentro de minutos estavam a cutilar suas unhas, ignorando completamente os protestos de Elizabeth. Ola conjurou uma escadinha, onde subiu para alcançar o rosto da mulher e começou a fazer as sobrancelhas. A elfa velha revirava os olhos a toda exclamação de dor, já que não tinha o menor cuidado ao arrancar pelo por pelo da sobrancelha grossa. Elizabeth achou que Ola parecia com Lúcio.

Não muito tempo depois, Elizabeth parecia ter saído de um dia no spa. Suas sobrancelhas estavam alinhadas e belamente desenhadas, como costumavam ser, e suas unhas estavam bem lixadas e esmaltadas com um bonito tom de nude.

Quando os elfos foram embora e se viu sozinha novamente, ela finalmente entendeu o que Voldemort quis dizer. Ele não queria que jantasse com ele e os outros. Era um jantar apenas dos dois, e a conclusão disso trouxe de volta as velhas sensações de ansiedade. Ela inspirou, mas a sensação era de que o ar não chegava aos seus pulmões nem oxigenava o seu cérebro. Contudo, não deixou se levar. Inspirou muito fundo pelo nariz e soltou o ar lentamente pela boca, e repetiu essas ações diversas vezes. Analisou todo o quarto, prestando atenção minuciosa em cada detalhe, e passou a listar tudo que via: a porta grande e branca, uma penteadeira com espelho esplendoroso, a escrivaninha e guarda-roupa de ébano, a janela sempre fechada coberta pelo tecido negro, a cama grande...

Voltou a pegar o livro que lia mais cedo e pôs toda sua concentração nas linhas impressas nas folhas amareladas. Funcionou. Literatura sempre funcionava.

ooOOooOOoo

Algum tempo antes do que seria a hora do jantar, Narcisa retornou ao quarto com um vestido nos braços. Elizabeth não conseguiu identificar o modelo, já que uma capa protetora o cobria e deixava à mostra apenas o tecido preto das pontas. Narcisa pôs a roupa delicadamente sobre uma cadeira e seguiu para o banheiro sem dizer nada. Elizabeth se levantou rapidamente, querendo espiar por dentro da capa protetora. Identificou que era um vestido longo, de cetim negro e muito bonito, de fato. Narcisa retornou no mesmo momento em que Elizabeth estava prestes a abrir o zíper da capa.

— O banho está pronto — anunciou. — Vá antes que a água esfrie.

— Esse vestido é seu? — Perguntou antes de se dirigir ao banheiro.

— Não. — Narcisa balançou a cabeça. — Ele que comprou.

A mais nova não disse nada e optou por seguir direto para o banheiro. Tirou suas roupas com pesar e mergulhou na banheira repleta de espuma. Não quis relaxar as costas contra o mármore da banheira e usufruir dos sais de banho. Cada minuto que passava ali era um minuto a mais martirizando sua mente, imaginando mil hipóteses sobre o que aconteceria nas próximas horas.

Ficou apenas alguns minutos na banheira, pois não queria desprezar o cuidado de Narcisa. Depois, seguiu para o chuveiro e lavou os cabelos longos. Retornou ao quarto enrolada no roupão e com a pior cara do mundo.

— Não vai ser tão ruim. — Narcisa tentou convencê-la, mas nem ela acreditava nisso. — Venha, sente-se aqui.

Elizabeth sentou à penteadeira e seus cabelos foram pegos pelas mãos delicadas de Narcisa. A mais velha penteou os fios quase negros com paciência e os secou com um feitiço. Com alguns apetrechos, fez ondas nos cabelos já ondulados de Elizabeth e prendeu uma mecha ao lado direito com uma bonita presilha de diamantes, que imitava um ramo de folhas. Depois, pegou os produtos de maquiagem e tratou o rosto de Elizabeth como uma tela de pintura.

— Ele ficou muito irritado quando você o respondeu naquele dia.

— Quem? — Elizabeth franziu o cenho.

— Lúcio. — Narcisa passou alguma sombra nas pálpebras da outra. — Ele disse que eu deveria ter dito alguma coisa, já que estou responsável por você.

— Foi por isso que ele te bateu?

Narcisa deu as costas para pegar alguma coisa sobre a penteadeira, mas Elizabeth viu através do espelho que ela parecia muito abalada. Suspirando e balançando a cabeça, Narcisa virou-se com uma máscara de cílios nas mãos.

— Sim — confessou.

— Foi a primeira vez? — Sussurrou.

— Foi. Ele sempre foi um tanto grosseiro, sabe? — Fitou Elizabeth com atenção, julgando seu trabalho até ali. Deu-se por satisfeita e pegou o blush. — Mas foi a primeira vez que levantou a mão para mim.

— Vocês... — acanhou-se — conversaram sobre isso?

Narcisa não respondeu de imediato. Passou o pincel sobre as maçãs do rosto da prima e pegou o batom. Conforme pintava os lábios, ela finalmente respondeu.

— Ele me pediu perdão — a sombra de um sorriso triste passou pela face aristocrática de Narcisa. — Disse que me amava e que não iria acontecer de novo.

— E você acreditou? — As duas estavam muito próximas, pois Narcisa estava curvada e atenta ao batom. O olhar de Elizabeth pareceu a incomodar e ela se afastou.

— Não sei se ainda acredito em qualquer coisa que Lúcio diga. — Narcisa se afastou e caminhou até o vestido. Tirou-o de dentro da capa e entregou para Elizabeth. — Vista.

Elizabeth pegou o cetim nas mãos e sentiu um arrepio muito ruim. Foi até o banheiro para se trocar, mas perguntou antes de fechar a porta:

— Você o ama?

— Já amei um dia — a resposta veio muito rápido, como se já tivesse sido pensada antes. — Tudo começou a desmoronar há alguns anos e a gota d'água foi o que ele fez a Draco. Vá se vestir.

Elizabeth não respondeu e trancou-se dentro do banheiro. Vestiu o vestido sem nenhuma cerimônia, tentando ao máximo não pensar na sua atual situação. Voltou ao quarto e Narcisa lhe passou o par de saltos altos e as luvas igualmente negras. Ela os vestiu e Narcisa ajudou a fechar o zíper do vestido.

Ela examinou a mais jovem e seus olhos acinzentados brilharam com satisfação. Pegou Elizabeth pela mão e a levou até o guarda-roupa. Abriu uma das portas, que possuía um grande espelho acoplado, e o ar de Elizabeth escapou de seus pulmões.

Poderia jurar que era Valentina Jones que a encarava de volta, se não fosse pelos olhos castanhos delicadamente pintados com uma sombra clara. Seus cabelos estavam sedosos e alinhados, o que não condizia em nada com a realidade. O vestido era belíssimo. Possuía mangas curtas e um decote em formato de coração, que valorizou seu busto. A cintura era justa e a saia era levemente solta até o fim dos calcanhares. A maquiagem leve valorizou seus traços e sua boca pintada de vermelho a lembrava como gostava do formato dos seus lábios. Ela parecia uma estrela de cinema dos anos 1940. Ela parecia com a sua avó.

Narcisa parecia igualmente surpresa com a beleza de Elizabeth. Acordou do transe e voltou com um conjunto de joias diamantadas. Elizabeth pegou o par de brincos e os colocou em suas orelhas, mas declinou o cordão. A última coisa que faria, na situação em que estava, era tirar os dois amuletos que descansavam em seu pescoço.

Duas batidas à porta foram ouvidas e a cabeça de Jesse Leambroundi surgiu pela fresta.

— O Lorde das Trevas a aguarda.

— Ela irá em um instante — respondeu Narcisa. — Só preciso ajeitar algumas coisas.

O comensal disse que aguardaria no corredor e fechou a porta ao sair. Narcisa, então, virou Elizabeth para si e ajeitou seu cabelo.

— Uma vez você me perguntou o porquê — disse sem olhar diretamente para a outra. — Bem, digamos que eu devia um favor a Severo.

Elizabeth, portanto, lembrou-se da última conversa com o padrinho, em que Dumbledore a alertara que ela não ficaria desamparada durante o tempo de cárcere. Nunca – nem nos seus sonhos mais loucos – imaginaria que Narcisa Malfoy seria a pessoa a ajudá-la. Sorrindo com calma, ela perguntou:

— Por causa do Voto?

— Também — afirmou. — Severo já me ajudou muito. Mas quer saber de uma coisa? — Enroscou seu braço ao de Elizabeth e seguiram para a porta. — Eu teria cuidado de você mesmo que Severo não tivesse pedido.

Mas nada foi dito quando a porta se abriu. Leambroundi fitou Elizabeth discretamente da cabeça aos pés e a elogiou, o que fez surgir um rubor de constrangimento no rosto da mulher. Ela soltou Narcisa para, desta vez, dar o braço para o comensal que lhe oferecia o dele. Narcisa lhe sorriu, tentando passar confiança a ela, e se retirou.

Elizabeth deixou-se ser conduzida por Jesse até o andar de baixo. Quase inconscientemente, ela levou a mão aos cordões que usava e rogou por proteção. O nervosismo não passou despercebido pelo homem, mas ele apenas sorriu com sarcasmo, achando graça de toda a situação.

Voldemort a esperava à porta da sala de jantar. Notou que ele usava uma túnica diferente, mais polida e elegante do que a habitual. Surpreendentemente, sua varinha não estava à vista, tampouco estava Nagini.

— Milorde. — Leambroundi soltou o braço de Elizabeth e se retirou.

O bruxo das trevas a examinou como um abutre sedento pela carniça. Elizabeth sentiu-se encolher, não lembrando em nada a mulher que nunca abaixou a cabeça para o temível Severo Snape, nem a bruxa que lutou mais de uma vez com alguns dos Comensais da Morte mais poderosos e perigosos. Ela achou, por um momento, que fora algo inventado pela sua cabeça, mas quase teve certeza que sentiu o colar de Ravenclaw esquentar em sua pele e, subitamente, se sentiu mais corajosa.

— Está linda — ele lambeu os lábios. — Venha.

Voldemort estendeu a mão para ela, que hesitou por alguns minutos. Cedendo, pois tinha consciência de sua desvantagem, entregou-lhe a mão. A pele de Voldemort era dura e fria como pedra e Elizabeth sentiu os pelos de sua nuca se arrepiarem com pavor.

Ele a guiou até a mesa e puxou a primeira cadeira ao lado direito para ela se sentar. Serviu uma taça de vinho para os dois e sentou-se à cabeceira da mesa. Os pratos já estavam servidos e ela pegou o garfo, embora não sentisse fome alguma.

— Lembra-se daquela noite? — Ele perguntou como se falasse com Valentina. — Eu a levei até um restaurante em Liverpool. Você usava um vestido muito parecido com esse; era o meu favorito. Embora você não tenha passado muito tempo vestida.

Elizabeth engoliu a comida ignorando o bolo em sua garganta. Deu um longo gole no vinho e permaneceu calada.

— Foram muitos momentos bons ao seu lado. Nunca entendi porque me deixou.

Elizabeth parou o garfo a caminho da boca e o abaixou novamente. Olhou para baixo, sem conseguir encarar as íris vermelhas, e disse:

— Eu não sou a minha avó, Tom.

O brilho perturbado nos olhos de Voldemort estremeceu, talvez pelo uso do seu nome verdadeiro ou talvez pela recordação de que não era Valentina ali. O homem fitou o próprio prato e fez que sim com a cabeça.

— É claro que não é, Elizabeth. — Voldemort voltou os olhos para ela. — Você está aqui há dois meses já, acho que precisa ser atualizada sobre os últimos acontecimentos. — Ele se aprumou na cadeira e pegou a taça nos dedos pálidos. — Alastor Moody está morto, sua colega de trabalho, a professora Burbage, também. Foi morta exatamente nesta mesa.

O som do garfo de Elizabeth caindo sobre o prato poderia ser ouvido por toda mansão, tamanho era o silêncio que havia ali. Ela se afastou minimamente da mesa, enojada como se o corpo de Caridade Burbage ainda estivesse ali. Desesperou-se, também, com a morte de Olho-Tonto. O auror era membro importantíssimo para a Ordem e divagou sobre como os demais membros deveriam estar desolados.

— Sua prima se casou com o lobisomem — ele continuou — e ela está grávida de um lobinho, não é adorável? — Elizabeth permaneceu com os olhos baixos, assustada demais para encará-lo. — Ah, e o seu amigo é diretor de Hogwarts agora. — Ao franzir de cenho dela, Voldemort sorriu de modo horripilante. — Estou falando de Severo, é claro.

Ela pegou a própria taça e a virou de uma só vez, esvaziando a mente e eliminando qualquer sentimento surgido pela menção ao nome de Snape. Voldemort encheu sua taça novamente sem perguntar se ela desejava ou não mais vinho. Aproveitando-se do medo dela e de como isso lhe causava prazer, ele provocou.

— Seu sobrinho já está andando, sabia? — Disse enquanto dava uma garfada na carne de cordeiro.

Elizabeth o olhou pela primeira vez nos olhos. Seu rosto era puro medo e raiva, e ela mal reconheceu a própria voz quando disse com ódio:

— Nem pense em chegar perto da minha família, Tom.

— Não é como se a senhorita pudesse fazer alguma coisa nessa situação, não é? — Zombou. — Sua varinha está muito bem guardada, se me permite dizer.

Ele se levantou brevemente e mexeu na madeira da lareira, fazendo o fogo crepitar e se intensificar. Sem olhar para ela, ordenou que voltasse a comer.

— Não estou com fome. — Elizabeth insistiu.

Em uma fração de segundos, Voldemort estava ao seu lado com uma expressão mortífera. Levou a mão à nuca da mulher e a empurrou com brutalidade na direção do prato, quase fazendo com que o nariz encostasse na comida.

— Eu mandei você comer! — Esbravejou entredentes.

Elizabeth assistiu com dor uma lágrima sua cair sobre o prato e a pressão sobre seu pescoço cessou. Sem delongas, ela pegou o garfo novamente e levou a comida à boca sem dizer nada, porém as lágrimas ainda caíam.

— Os anos passam e você continua a me desobedecer, Valentina — murmurou enquanto se sentava novamente. — Não gosto de ter que usar força contra você, mas você não me deixa escolha.

Deu de ombros, totalmente apático às lágrimas de Elizabeth, e retornou à sua refeição. O jantar seguiu em absoluto silêncio. Por mais que não estivesse com fome devido ao nervosismo, Elizabeth esforçou-se para comer tudo. Não era o momento para bater de frente com Lorde Voldemort.

Os dois terminaram a refeição com diferença de poucos minutos. Ele ofereceu a mão a ela novamente e a guiou, agora, para a sala de visitas. Ordenou que se sentasse e caminhou para o bar. Ele lhe trouxe uma dose de uísque de fogo.

— Eu não... — a voz dela morreu sob o olhar dele. Os olhos vermelhos não davam espaço para contestações e ela pegou o copo contra a sua vontade.

— Vê? Não é tão mais fácil quando me obedece? — Balançou a cabeça como se falasse com uma criança e se sentou ao lado dela, muito mais perto do que ela gostaria.

Elizabeth afastou o tronco tentando fugir da proximidade do homem, mas era quase impossível, estava encurralada. Voldemort, então, fez um ligeiro movimento com a mão e Elizabeth sentiu-se ser compelida a se curvar na direção dele. Imperius, ela pensou. Ele jogava extremamente baixo. Tentou lutar contra o feitiço, mas logo se curvou como ele mandava.

Voldemort aproximou as mãos para afastar seu cabelo para trás e roçou as pontas dos dedos na pele do pescoço. Pôs as mãos em cada um de seus ombros e as desceu pelos braços, numa carícia repugnante, e Elizabeth se lembrou do sonho de Harry.

— O que está fazendo? — Ela perguntou num murmúrio.

— Apenas — pegou a mão esquerda dela e a levantou até seus olhos — imaginando como ficaria ainda mais bela com um anel aqui.

— Sei bem o que está imaginando — conseguiu quebrar o feitiço e se levantou num rompante, afastando-se dele.

— Ora, que bruxa esperta. — Voldemort desdenhou. Ele se levantou e caminhou até ela enquanto dizia. — Já falei que é melhor me obedecer, senhorita Jones. Mais cedo ou mais tarde vai perceber que o mais inteligente a se fazer é andar na linha e se unir a mim.

— Você tem um problema sério de narcisismo — ela provocou ignorando a prudência. — É por isso que ela o largou, Tom. Porque você é desprezível e não é nem metade do homem que meu avô foi.

O tapa veio muito veloz e forte. Elizabeth apenas conseguiu distinguir a dor e o encontro do seu corpo com o chão quando caiu. Sentiu o gosto férrico do sangue em sua boca e sentiu que o sangue despontava de um machucado no canto dos lábios, fazendo par com o vermelho do batom. Voldemort se curvou sobre ela e a virou para si segurando seu braço magro com força monstruosa.

— Vai ter que escolher, Elizabeth — vociferou e gotículas de saliva se soltaram de sua boca serpentina —, eu ou a morte. A escolha é simples.

— Sim. É muito simples. — Elizabeth o chutou com muita força, aproveitando-se da vantagem do salto muito fino que calçava.

Voldemort caiu com um urro de dor e Elizabeth se levantou muito rápido. Levantou a saia do vestido com as mãos e correu dali. Não sabia para onde ir, aliás não havia como fugir dali. Inconscientemente, sua mente associou a imagem de Narcisa à sensação de proteção, e por isso seguiu sem que percebesse para o andar de cima, almejando alcançar o quarto de Narcisa, seja lá qual fosse.

Mas antes que pudesse testar porta por porta, algum feitiço a atingiu e ela caiu de barriga para baixo. Sentiu, então, um puxão poderoso em seu cabelo, que lhe causou uma dor aguda e ela gritou.

— Está me estressando, Valentina! — Voldemort continuava a vociferar, e ainda a segurando pelos cabelos, ele a arrastou até o quarto dela.

Ele a empurrou contra a penteadeira e o impacto fez com que diversos frascos se quebrassem ao chão e provocassem pequenos cortes nos braços de Elizabeth. Ela tentou respirar fundo, procurando evitar uma crise, mas as lágrimas que embaçavam sua vista apenas a deixavam mais nervosa.

— Por que vocês mulheres têm tanta dificuldade em obedecer? — Pôde ouvir ele se aproximar, mas antes que pudesse fazer qualquer coisa, Voldemort agarrou as correntes dos dois cordões que ela usava e os puxou para trás, fazendo com que eles a sufocassem. — Foi por isso que a matei, Valentina. E mataria de novo se pudesse.

Ele soltou os cordões e ela caiu tossindo. Não viu o momento em que ele tirou a varinha de dentro da túnica e apontou para ela.

Crucio!

O grito de Elizabeth foi gutural e muitos que estavam na Mansão Malfoy puderam ouvir. A sensação era de que todos os seus ossos estavam sendo estraçalhados ao mesmo tempo. Era uma dor inimaginável, não era como nada que já tivesse passado.

Assim como veio, a dor subitamente se extinguiu. Dormente, mal pôde protestar quando ele chutou seu estômago e a pegou novamente pelos cabelos, dessa vez a jogando sobre a cama. Elizabeth sentiu, então, a pelve de Voldemort pressionada contra seus glúteos e o tecido do seu vestido foi rasgado pelas mãos demoníacas do bruxo.

— Não! — Ela reencontrou sua voz. — Por favor, não!

— Regra número um, Srta. Jones: eu não sou misericordioso.

Ele a virou de frente para si e tentou puxar o vestido para baixo. Elizabeth se debatia da maneira que podia, o choro prejudicando seus pedidos desesperados. Era como se a imagem de Voldemort se mesclasse a de Jonathan; e por mais que soubesse o diabo que Voldemort era, ela nunca estaria preparada para a loucura que ardia dentro daqueles olhos infernais.

Tentou canalizar sua magia e realizá-la com as próprias mãos, mas estas estavam ocupadas tentando mantê-lo longe do seu corpo e o medo inumano a impedia de se concentrar em qualquer outra coisa.

Voldemort finalmente conseguiu abaixar o tecido até a barriga dela, e quando vagou com uma das mãos para o sutiã de Elizabeth, ele sibilou:

— Minha! — Mas ele nunca estaria preparado para o que se seguiu.

NUNCA! — Ela berrou em ofidioglossia, e num rompante de magia primitiva, Voldemort foi atingido, voando até cair sobre os estilhaços da penteadeira.

Ofegante, Elizabeth o fitou com ódio e nunca achou que veria medo nos olhos dele, mas estava lá. Medo, pavor, confusão. Ele não conseguia entender como aquilo era possível. Por um momento pensou que tinha sido impressão sua, mas ele tinha certeza do que ouvira, e Elizabeth Jones tinha falado em ofidioglossia.

A surpresa e suspeita eliminou a antiga sensação de poder e desejo de outrora, e tudo que ele queria naquele momento era ficar o mais longe possível dela. Sendo assim, ele quase correu para fora do quarto e fechou a porta com muita força ao sair.

Elizabeth, por sua vez, soltou o ar que segurava e deixou-se deitar completamente na cama. Aos prantos, machucada, humilhada e sangrando, ela apertou os amuletos entre os dedos agradecendo por, apesar de tudo, estar viva.

Agradecendo por sobreviver mais um dia.


Notas:

- Contém trechos inspirados no filme "O Corcunda de Notre Dame", 1996.

Espero que todos tenham passado bem o Ano Novo. Quero apenas reforçar meus votos de que este seja um ano melhor, de muita saúde e boas mudanças.

Eu sei que esse foi um capítulo pesado - e talvez não seja a melhor maneira de iniciar como primeiro capítulo do ano -, mas... E quero relembrar que já tinha deixado todos os avisos de gatilhos nas notas do primeiro capítulo, por isso subentendendo que meus leitores estão cientes do conteúdo.

Ontem, dia 01, foi o aniversário da nossa protagonista. Mas confesso que é meio estranho desejar parabéns a ela depois do capítulo de hoje. Desculpa, Lizzie!

Só avisando mais uma vez que amanhã tem capítulo extra. Beijão, até amanhã!