Capítulo 47

Vingança

"There's nothing wrong with just a taste of what you've paid for."

"The Ballad of Mona Lisa" – Panic! At the Disco.


Narcisa sentia como se estivesse cuidando de uma estátua. Elizabeth não se movia nem falava, nem mesmo quando Narcisa desinfectou seus machucados ou quando deixou que tirasse o vestido destruído do seu corpo. Levou Elizabeth até o banheiro e deu as costas para preparar a banheira. Quando retornou, encontrou-a sentada sobre a privada fechada e o olhar perdido em algum ponto no chão. Havia uma mancha de sangue que descia da boca até o queixo, minúsculos cortes nos braços, arranhões e escoriações no restante do corpo. Sua cabeça também doía consideravelmente devido aos puxões, mas nada doía mais do que sua dignidade.

A mais velha suspirou com pesar. Foram minutos terríveis ouvindo os gritos de Elizabeth sem poder interceder por ela. Quando soube que o Lorde das Trevas deixara o quarto, correu até o recinto o mais rápido que podia. Os vidros de perfumes e enfeites que costumavam adornar a penteadeira estavam estilhaçados sobre o chão, e Elizabeth era nada mais do que uma sombra jogada sobre a cama. Narcisa não disse nada, pois sabia que não havia o que dizer. Ausentou-se momentaneamente e retornou com uma caixa de primeiros socorros, assim podendo começar a cuidar de Elizabeth.

Agora, em quanto ouvia a banheira encher atrás de si, Narcisa se aproximou da mulher seminua e arrasada. Descansou lentamente uma mão sobre o ombro de Elizabeth e sussurrou:

— Elizabeth, eu preciso saber se...

— Não — ela respondeu de repente. Sua voz era nada mais do que um fio de angústia. — Ele não o fez.

Narcisa suspirou aliviada e a guiou até a banheira. Ajudou-a a se limpar quando viu que ela esfregava a esponja com força flageladora pelo corpo, piorando os ferimentos recentes. Depois, ajudou-a a se secar e vestiu uma camisola leve no corpo vulnerável. Cobriu-a com o edredom quando se deitou, assim como fazia com o filho quando ele ainda era uma criança. Bastou alguns segundos para Elizabeth apagar em exaustão.

Mais difícil do que vê-la daquela forma foi ter que contar a Snape o que havia acontecido. Ele levou dois meses para retornar à mansão, e, durante esse tempo, Narcisa divagou se deveria ou não contar a verdade, mas sabia o que era o certo a se fazer. Um evento como aquele mudaria Elizabeth para sempre e poderia trazer mudanças ao relacionamento dos dois também.

Jamais vira Snape tão arrasado. A tristeza que se estendeu pelos olhos dele era desesperadora e Narcisa achou, por um momento, que o homem desfaleceria diante de si. Notou, entretanto, que as mãos diziam coisas diferentes dos olhos. Enquanto as íris nanquins retratavam tristeza e dor, as mãos fechadas em punho tremiam de puro ódio.

Subitamente, Snape levantou a cabeça para Narcisa e disse em tom letal:

— Preciso tirá-la daqui o quanto antes.

— Mas, Severo...

— Não tem "mas", Narcisa — cortou-a. — Não posso deixá-la aqui correndo risco de que isso se repita, ou que aconteça o pior.

Ele se calou e ela não respondeu. Sabia que Snape tinha razão, embora o combinado fosse ajudá-la a fugir quando o Lorde das Trevas estivesse perto de descobrir sobre o restante da profecia. Contudo, o atual diretor de Hogwarts sabia que isso não estava longe de acontecer.

Não sabia o que tinha feito Voldemort desistir de violentar Elizabeth – seja lá o que fosse, ele era grato –, porém estava apreensivo sobre a nova ordem do Lorde. Um pouco mais cedo naquele mesmo dia, o bruxo pediu que Snape perguntasse ao professor Binns, de História da Magia, sobre os descendentes de Salazar Slytherin. Talvez Voldemort estivesse começando a suspeitar sobre determinadas coisas.

Do outro lado da Mansão Malfoy, durante a conversa sigilosa entre Snape e Narcisa, Voldemort se preparava para se ausentar para mais uma viagem quando Yaxley adentrou a sala. Voldemort o olhou com desprezo e o servo se encolheu perante o olhar.

— Milorde – ele fez a mesura.

— O que é?

— Passei esses últimos dois meses tentando recuperar o conteúdo das profecias. — Sua voz fraquejou, mas continuou a falar. — Os dados foram praticamente irreversíveis, mas...

— Veio até aqui para me lembrar da sua falha, Corban?

— Não, senhor! — Exclamou com os olhos arregalados. — Vim dizer que consegui recuperar uma pequena parte do conteúdo do documento.

Lorde Voldemort o fitou com os olhos brilhando. Caminhou até o comensal e pressionou a varinha contra a sua garganta.

— Onde está?

— Aqui — disse com a voz esganiçada ao estender um pequeno pedaço de pergaminho para o Lorde.

Pegou o papel com brutalidade, afastando a varinha de Yaxley e ordenando que fosse embora. Voldemort desdobrou o pergaminho e o trouxe à vista. O papel estava remendado e queimado, e tudo que podia ler era:

Aquele destin do a de otar o Lo de T evas

T rá a xílio.

Auxíli da ela n sci a no de p rtar d n vo na ,

a f lha a sab doria,

A erdei a do di d ma

Algumas letras foram totalmente perdidas devido ao feitiço, e o restante da profecia era uma incógnita, mas Voldemort agora tinha uma informação valiosíssima. Quem quer que fosse a garota da profecia, agora ele sabia que estava lidando com uma igual – ou quase isso, já que sua arrogância jamais admitiria que poderia haver alguém tão poderoso quanto ele. A garota também era uma herdeira de um fundador de Hogwarts. Era herdeira de Ravenclaw.

ooOOooOOoo

Cerca de duas semanas depois do encontro com Snape, Narcisa teve o alívio de adentrar o quarto e encontrar Elizabeth compenetrada em um livro de suspense. Os meses que antecederam essa cena foram nebulosos e ela estava sempre apática e calada. Tentara iniciar alguns diálogos, mas as respostas da jovem sempre eram monossilábicas ou nem mesmo existiam. Preocupou-se ainda mais quando notou que ela voltara a se alimentar mal e sofrer dos vômitos nervosos, mas a Elizabeth que encontrou naquele dia a lembrava da mulher antes do abuso.

— Dia. — Narcisa cumprimentou-a.

— Bom dia — a voz de Elizabeth estava ligeiramente rouca por causa da falta de uso.

Narcisa, desta vez, levou a bandeja do café da manhã até a cama e a colocou com cuidado na frente de Elizabeth. Sentou-se defronte sobre o colchão e a analisou atentamente enquanto a mais nova pegava alguns biscoitos.

— Como está?

— Melhor do que ontem, pior do que amanhã — mastigou o biscoito e se serviu do café. — Quer?

— Já me alimentei.

— É que tem muita coisa aqui, eu não vou comer tudo isso — acenou para as frutas, torradas, biscoitos e o bule com café. — Vamos, pode se servir também.

A loira hesitou por alguns instantes, perguntando-se se era adequado e também lutando contra o embaraço. Cedendo, por fim, e concluindo que Elizabeth precisava de companhia, ela pegou um morango.

— Não foi a primeira vez. — Elizabeth disse de repente. — Já aconteceu comigo antes.

— Você... quer conversar sobre? — Perguntou completamente sem jeito. Não fazia a menor ideia de como se portar diante de um assunto tão delicado como esse.

— A primeira vez foi uma tentativa também — assoprou a xícara de café. — Consegui me defender, mas com ele — referiu-se a Voldemort, agora que seu nome era tabu — eu tive sorte, ou sei lá o que aconteceu. — Sussurrou a última parte.

Narcisa Malfoy engoliu a fruta com dificuldade, sentindo como se o morango arranhasse sua garganta. Não percebeu que seus olhos acinzentados lacrimejaram e o olhar que designou à prima beirava ao carinho, e isso aqueceu o peito de Elizabeth.

— Cissa — a loira a fitou com surpresa —, eu estou bem, de verdade. Obrigada por cuidar de mim.

— Ele ainda não retornou. — Narcisa desviou o olhar ao se sentir exposta.

— É melhor assim, não é?

Elizabeth sorriu para ela e, surpreendentemente, Narcisa retribuiu.

ooOOooOOoo

As semanas avançaram. Elizabeth permanecia com sua rotina fixa que consistia em: acordar, realizar sua higiene pessoal, tomar o café da manhã, fabricar as poções, almoçar, retornar ao laboratório, ler, jantar e dormir. Durante esse tempo, ela e Narcisa desenvolveram uma espécie de cumplicidade, e agora a mais velha sempre ficava mais um pouco para uma conversa quando ia levar as refeições.

Lorde Voldemort nunca mais voltou a procurá-la depois da fatídica noite. Por um lado, Elizabeth agradecia imensamente por isso, pois o pavor e repugnância que nutria pelo bruxo agora eram maiores do que antes e nem mesmo suportava a ideia de passar pelo mesmo pesadelo novamente. Todavia, conhecendo o caráter imprevisível e tempestuoso de Voldemort, temia que ele voltasse a procurá-la e retornasse ainda mais agressivo, além de cogitar a hipótese de que ele estaria próximo de descobrir que ela era a mulher da profecia.

Sabia que utilizar do dom ofidioglota tinha sido uma atitude estúpida, porém fora espontânea e inevitável. Preferia ser morta por ele descobrir que ela também era uma herdeira de Slytherin do que perecer aos poucos sob os toques asquerosos de um homem louco.

Então, tudo caminhava bem, na medida do possível. Ou pelo menos parecia caminhar até uma determinada noite de dezembro.

Faltavam três dias para o Natal e Voldemort estava de volta das viagens frequentes que fazia, enquanto mais cedo, naquele mesmo dia, Elizabeth notou outro hematoma na pele branca de Narcisa. Foi a gota d'água para a mísera paz que a rondava.

Estava à mesa junto com os outros na sala de jantar. Seu corpo todo estava em alerta devido à proximidade de Voldemort sentado à cabeceira da mesa. Todos saboreavam a comida em absoluto silêncio, até mesmo Bellatrix estava muito quieta e isso não combinava com a bruxa. Lúcio Malfoy foi quem quebrou a quietude.

— Tire os cotovelos da mesa, Narcisa — ordenou em tom bruto.

A esposa curvou os ombros e o obedeceu, mas respondeu em voz baixa, trêmula de receio:

— Foi sem querer. Perdoe-me.

— "Foi sem querer". — Lúcio repetiu numa imitação cruel da esposa e fechou as mãos em punho. — Poupe-me, Narcisa. Onde já se viu uma Malfoy não ter modos à mesa? Eu não me casei com uma qualquer.

Voldemort e alguns outros comensais prosseguiram com suas refeições como se nada se passasse ali. Bellatrix ainda trazia a comida à boca, mas fitava o casal pelo canto do olho e prestava muita atenção no que acontecia, e Elizabeth também segurava seu garfo, mas comia lentamente por dedicar a atenção à discussão.

— Lúcio?! — Narcisa arfou assustada com as palavras severas na frente de todos.

— Você tem muita sorte de ter um rosto bonito e de ter vindo de uma família nobre, porque você é imprestável! Você, Narcisa, deveria abaixar a cabeça e-

Os dizeres venenosos morreram na ponta da língua de Lúcio Malfoy quando se engasgou. Ele, muito assustado, levou a mão à garganta enquanto sua face ficava vermelha pela falta de ar. Agora, todos os outros estavam com os olhos atentos à cena, exceto Elizabeth, que possuía o olhar fixo e concentrado em um ponto distante.

— Lúcio?! — A esposa exclamou confusa.

O homem emitiu um som de estrangulamento quando tentou inspirar, mas o ar não passou pela sua laringe. Completamente sufocado, ele caiu ao chão, puxando a toalha da mesa consigo ao tentar, em vão, se segurar. Àquela altura, a pele branca de Malfoy ganhava uma tonalidade roxa pela falta de oxigenação. Voldemort se ergueu lentamente estranhando toda a situação. Narcisa jogou-se ao chão, ao lado do marido.

— Lúcio! — Ela chacoalhou o corpo quase desfalecido. Com os olhos pingando lágrimas, olhou na direção de Elizabeth e gritou, implorando. — Por favor, pare! Elizabeth, pare! Vai matá-lo.

Ao ouvir o próprio nome, Elizabeth quebrou o contato visual que fazia com o nada e quase instantaneamente Lúcio inspirou muito fundo, levando desesperadamente o ar aos pulmões.

— E-eu... — gaguejou. Seus olhos estavam desfocados e só então adquiriu consciência sobre o que tinha feito.

Voldemort a pegou com força pelo braço e a jogou contra a parede, segurando o corpo dela com o seu e pressionou a varinha contra a jugular da jovem.

— Quantas cartas na manga a senhorita possui, Elizabeth? — Murmurou entredentes. — Ofidioglossia, agora magia das trevas exemplar sem varinha.

— Eu... Não... — engasgou com a pressão no pescoço.

— Não foi você? — Riu com aspereza. — Não me tome como tolo, garota. Está na hora de ser mais rígido com você, já que não aprendeu da primeira vez.

Ele, então, a pegou pelo cabelo – à semelhança de meses atrás – e a carregou consigo para os fundos da mansão. Eles alcançaram o corredor das masmorras, antigamente conhecido por ela, e ele a jogou com brusquidão contra o chão de pedras de uma das celas, o que causou alguns arranhões no corpo de Elizabeth.

— Espero que o isolamento a faça pensar um pouco — ele a chutou antes de se retirar.

Quando conseguiu se levantar, a porta já estava trancada e ela, sozinha. Sentou-se sobre uma esteira no chão e abraçou as pernas contra o peito, deixando um longo suspiro se libertar. Apesar de tudo, preferia a cela do que algo parecido com o que acontecera na tal noite em setembro, e, além disso, não estava nem um pouco arrependida do que fizera, embora soubesse que vinha ultrapassando todos os seus limites de cautela nos últimos cinco meses. Mas sentia-se bem.

Lúcio Malfoy tivera o que merecia.


Notas:

O aniversário é meu, mas quem ganha presente são vocês. Tá aí o capítulo extra, apesar de ter alguns momentos tensos...

Estamos na reta final da história. Escrevi 55 capítulos e um epílogo, então pelos meus cálculos, devo finalizar a fanfic entre a última semana de janeiro e primeira de fevereiro. Só tenho a agradecer por tudo. Meu presente de aniversário é ver essa fic tão especial, que me tomou tantos anos, estar alcançando tantas pessoas.

Obrigada por tudo. Até terça!