Epílogo
"Remember life and then your life becomes a better one."
"7 Years" – Lukas Graham.
Elizabeth notou um comportamento estranho de Severo pelos dias que se seguiram àquela conversa na Floresta Proibida. Ela o questionou apenas uma vez sobre isso, ganhando uma resposta evasiva. Não retornou ao assunto. Fosse lá o que fosse, parecia pessoal demais, e se ele quisesse dizer, diria quando se sentisse confortável.
Os dizeres de Eileen rondaram a mente de Severo por muito tempo, e havia dias que ele nem mesmo se lembrava daquilo. Levou dois anos para finalmente compreender o enigma da mãe.
A pequena Olivia Eileen Jones-Snape nasceu numa noite de Lua Cheia no mês de setembro de 2001. Mais tarde, algumas pessoas mais próximas brincavam dizendo que Elizabeth havia nascido para ser mãe devido à facilidade com que deu à luz a bebê. Fora uma gravidez tranquila, de um modo geral – apenas sua perna debilitada a incomodava conforme o peso da barriga aumentava. Seu trabalho de parto foi rápido, embora longe de ser indolor. Severo esteve ao seu lado o tempo inteiro, e não pôde deixar de se emocionar quando o primeiro choro de Olivia reverberou pelo quarto. Olhou para a mulher, suada, dolorida, mas realizada, e surpreendeu-se ao constatar que a amava ainda mais do que nunca.
Dez meses depois, Elizabeth se preparava para retornar ao trabalho no próximo ano letivo em Hogwarts dali alguns meses e deixar sua filha aos cuidados da avó. Preocupava-se em depositar mais essa tarefa sobre Cassiopeia, que já ajudava cuidar de Hector e, também, do marido paraplégico. De qualquer forma, preferia mil vezes deixar Cássia – e Valentina também – tomarem conta da menina do que contratar alguma babá desconhecida.
Tentou não se preocupar muito com aquilo. Elas cuidariam de Olivia apenas durante o expediente de Severo na botica – batizada de Corvo & Serpente, o que Elizabeth achou terrivelmente brega, mas Snape parecia muito decidido sobre o nome da loja. Às 17h30, quando a Corvo & Serpente fechasse, Severo aparataria em Blakeney para buscar a pequena. Nos fins de semana, Elizabeth se ausentaria de Hogwarts para ficar com a família.
Era uma tarde quente de julho. Os Jones estavam reunidos no quintal da casa de Salthouse enquanto Snape propositalmente se demorava em seu quarto. Conferiu suas vestes pela milésima vez antes de descer os treze degraus da escada.
O primeiro a encontrá-lo foi Edward, que tinha Olivia, sua sobrinha e afilhada, em seus braços enquanto conversava com a irmã. O cunhado deu uma longa olhada no outro homem – com seu olho esquerdo agora esbranquiçado e envolto de várias pequenas cicatrizes -, estranhando suas vestes trouxas e, até mesmo, frescas.
— Aonde vai todo bonitão assim? — Brincou para ver as bochechas de Snape corarem. Olivia balbuciou algo.
— Eu estava perguntando ao Ed quando conheceremos a Samantha. — Elizabeth comentou para o marido.
— É um questionamento pertinente — respondeu.
— E lá vão vocês... — Edward riu. — Não é nada sério a ponto de vocês a conhecerem agora. Tudo ao seu tempo.
— Você está certo. Mas fico feliz por você. — A irmã lhe sorriu. Ela, então, se virou para Severo. — Vai agora?
— Pra onde? — Edward perguntou sobre uma risada alta de Hector, que vinha do quintal.
— Severo tem algumas coisas para resolver.
— Não vai almoçar conosco? — O cunhado indagou.
— Eu não pretendo me demorar — respondeu com certa apreensão.
— Fique tranquilo, o almoço vai atrasar — riu Elizabeth.
Ele se aproximou do cunhado para poder dar um beijo sobre os cabelos finos e negros da sua filha, sentindo o cheirinho agradável de bebê adentrar suas narinas. Os olhos grandes e igualmente pretos de Olivia o fitaram com muita calma e ela lhe sorriu um sorriso de apenas dois dentes.
Elizabeth o acompanhou até a porta de entrada e ajeitou a camisa social que ele usava. O olhar intenso de Snape sobre si ainda a fazia corar, mas ela ainda conseguia devolver esse mesmo olhar, e quase sempre ele desviava as íris.
— Você está nervoso — disse com o cenho franzido. — Não é a primeira vez que está indo o encontrar. Ora, ele veio aqui no mês passado. Há algo que queira me contar?
Tudo que pôde fazer foi beijá-la delicadamente e esperar que através daquele gesto pudesse expressar tudo que sentia, o quanto amava ela e sua filha, e, também, o quanto estava preocupado. A conexão inexplicável que os unia parecia se fortalecer com o passar do tempo, e Elizabeth conseguiu compreender tudo que ele queria dizer.
— Sei que a paternidade está sendo um desafio para você — sussurrou ao colocar uma mão sobre o rosto dele. — O que quer que for conversar com ele, acredito que será esclarecedor. Leve o tempo que precisar.
Ele capturou a mão sobre sua face para beijar-lhe a palma e caminhou para o fim dos limites da propriedade, onde aparatou sem pensar duas vezes.
Surgiu em um local reservado, atrás de um prédio abandonado. Caminhou por cinco minutos até chegar ao campo de futebol. Havia uma quantidade considerável de espectadores nas arquibancadas pequenas, mas Tobias estava de pé um pouco mais afastado. Sua atenção estava presa entre o rapaz de, aparentemente, dezenove anos que era goleiro de um dos times e o menino de sete anos que brincava no parquinho alguns metros à frente.
Severo sabia, agora, que o jovem jogador era Noah, filho da Sra. Harrington e seu falecido marido. A criança era Youssef, o rapazinho sírio que havia sido adotado por Tobias e Jane.
Youssef foi o primeiro a ver Severo, e acenou efusivamente para o seu meio-irmão. Tobias, então, pôde notar a chegada de seu primogênito e lhe sorriu brevemente.
— Boa tarde.
— Boa tarde, Severo.
Os dois homens ficaram em silêncio por algum tempo, parados um ao lado do outro. Já fazia algum tempo em que a falta de conversa entre eles não era mais tão incômoda, embora a relação entre eles ainda fosse muito delicada.
— Fiquei um pouco preocupado quando recebi sua carta. — Tobias comentou com os olhos no enteado, que naquele momento agarrava uma bola quase inacreditável. Noah procurou o olhar do padrasto, como se esperasse uma aprovação, e ganhou dois polegares erguidos acompanhados de um sorriso. — Está tudo bem com Elizabeth e Olivia?
— Sim, tudo em perfeita ordem.
— Então não consigo pensar em nenhum motivo para o tom urgente na carta.
Uma breve rajada de vento veio para refrescar o calor daquele dia de verão, assim como veio para clarear a mente de Severo e o impulsionar a ser sincero com o que sentia.
— Eu não sei como fazer isso — disse, decidido a evitar os olhos castanhos claros de Tobias. — Achei que depois que Olivia nascesse tudo iria clarear, que esse receio ia sumir... Mas eu continuo apavorado.
Tobias demorou para responder. Severo achou, por um momento, que não tinha prestado atenção enquanto dividia o olhar entre Noah e Youssef, porém, na verdade, o Snape mais velho estava assimilando o que acontecia ali. Era quase onírico que Severo tenha o procurado para discutir conselhos paternais.
— Eu não fui um bom pai, Severo — conseguiu responder. — Não acho que eu seria a pessoa mais adequada para essa conversa.
— É um bom pai para eles — acenou para os dois garotos. — Eu sei que é.
Tobias abriu a boca, mas apenas conseguiu balbuciar. O primeiro tempo do jogo foi finalizado pelo juiz, e só então ele conseguiu virar seus olhos totalmente para Severo.
— Do que tem medo?
— Tenho medo que as decisões que tomei um dia afetem a vida de Olivia. Não posso suportar a ideia de que minha filha sofra pelos erros que cometi.
— É um medo muito nobre e que acho que acomete a todos os homens que são pais, alguns mais do que os outros.
Seu olhar conferiu que Youssef brincava inocentemente de amarelinha com outros amiguinhos e retornou para o homem ao seu lado.
— Eu fiquei apavorado quando Jane contou que tinha um filho. Ser pai é muito difícil, ser padrasto então... Foi muito complicado. Noah inventou na cabeça dele uma competição entre mim e o falecido pai, e foi uma enorme barreira a se quebrar até que ele compreendesse que eu não estava querendo, e nem iria, substituir ninguém.
"Caminhei sobre ovos com Noah por muito tempo. Fico surpreso comigo mesmo que depois de você e de Noah, eu ainda tenha tido outro filho. Sabe, a Jane plantou a sementinha da vontade em mim, mas fui eu quem decidi definitivamente a adoção. Basicamente o que fiz com Youssef foi decidir que faria tudo diferente de como fiz com você. Então meu conselho é: faça diferente de mim."
Suas íris amendoadas abandonaram as negras de Severo por alguns minutos, deixando com que absorvesse as palavras. Algum momento depois, Severo moveu os lábios para falar finalmente, mas Tobias o interrompeu. Severo perguntou-se se fora uma interrupção não planejada ou se o velho o conhecia melhor do que imaginava.
— Mas imagino que não é esse tipo de conselho que veio procurar comigo. — Estava o fitando novamente. — E talvez seja por isso que precisava ser eu quem iria ter essa conversa com você.
Tobias virou-se totalmente para Severo e atreveu-se a segurá-lo pelos braços para garantir que o homem mais jovem não fugiria de sua vista. Ele suspirou muito forte antes de dizer.
— Foi Jane quem me ensinou o auto perdão. A Bíblia sempre fala sobre amar e perdoar o próximo, mas ninguém fala sobre amar e perdoar a si mesmo. É um caminho muito longo e difícil de se trilhar, é uma tarefa que deve ser realizada e praticada todo santo dia.
"Você acha que perdeu sua fé, ou que nunca a teve, mas isso não é verdade. Ela está aí dentro, escondida. Talvez não tão escondida quanto estava anos atrás. Você tem dois anjos, até arrisco dizer três ao contar com seu afilhado, que trouxeram à tona esse homem cheio de fé que você desconhecia, ou ainda desconhece.
"Não pode se entregar totalmente à sua filha, nem à sua esposa, se antes não se perdoar e se amar. Seus erros vão te assombrar para sempre, eu sei disso melhor do que ninguém. Mas entender que são seus erros que o tornaram o homem que é hoje é a maior dádiva possível."
— O quê? — Quase achou um absurdo.
— Severo — sorriu —, não vê? É o efeito borboleta. Cada mínima coisa pode gerar um caos enorme. Tudo que fez no passado influenciou no seu futuro. Se tivesse feito algo diferente, qualquer coisa, não seria o Severo de hoje, que é casado e pai de uma menina linda. Você mudaria alguma coisa sabendo que poderia perder o homem que é hoje? O homem que é marido e pai?
— Não! — A resposta era muito simples colocando tudo naquela perspectiva, e ele se surpreendeu com tudo que sentiu naquele momento.
— Se não está disposto a mudar seu passado, então precisa perdoá-lo.
O juiz apitou o início do segundo tempo e a atenção de Tobias foi novamente capturada. Seus olhos se desviaram brevemente apenas para observar as mãos cruzadas do filho; mais precisamente, para fitar a aliança de ouro branco em seu dedo anelar da mão esquerda.
— E pensar que teve a coragem de dizer que ela não era sua namorada...
— Mas realmente não era. Eu nunca a pedi em namoro. — Respondeu com a voz tão leve que mal soava como o homem austero que era. — Agora ela é a Sra. Snape. Felizmente nada permanece o mesmo, pai.
Tobias contentou-se por estar com os olhos pregados no jogo, e assim pôde evitar que seu filho mais velho visse o marejar em seus olhos amendoados. Ele estava absurdamente certo.
Nada permanece o mesmo.
N/A: E este é o fim de "Por Trás dos Olhos Negros".
Não vou me alongar muito, pois ainda postarei um agradecimento próprio aqui (como se fosse um capítulo novo, sabem?). Mas quero agradecer a todos que acompanharam PTDON até aqui; foi uma baita montanha russa, e tudo que consigo pensar é "ufa!"
Estou me organizando para gravar o vídeo do Perguntas & Respostas, e se você ainda não fez sua pergunta (ou suas perguntas), por favor, deixe-a nos comentários. Vou postar o link do vídeo junto com o agradecimento.
Para quem se interessar, eu estou postando uma long-fic Snacisa, chamava "Nos Teus Olhos", e estou trabalhando na minha primeira Snamione.
Até logo!
