Em um ato de impulso, Bella abriu a porta da picape ainda tomada por uma forte tontura, sem saber se aquilo era apenas seu corpo reagindo à bebedeira anterior ou se talvez o impacto e o susto tivessem tornado a sua cabeça confusa. Seus pés foram de encontro ao chão quando ela saltou para fora do veículo, vacilante, enquanto abraçava o próprio corpo em uma tentativa de aliviar o frio que se formou naquele fim de noite e o sentimento de culpa que apertava seu peito ao se aproximar da figura caída no betume espesso.
Ainda pendendo na linha tênue do estado de choque, seus joelhos se dobraram até alcançar a superfície áspera do asfalto, pairando a poucos centímetros da menor. O peito da garotinha subia e descia enquanto a respiração rodopiava na densidade congelante do ar e Bella teve que se controlar para não sorrir com o alívio de vê-la respirando, acordada.
Por instinto, Bella flexionou os dedos para tocar a pele rosada, mas a menina recuou num sobressalto para longe dela enquanto a encarava com os olhos cor de esmeralda arregalados. Quando as luzes fortes dos faróis da picape alcançaram as íris da garotinha, Bella se deu conta de que ela chorava.
— Vo-você está bem? — Balbuciou, apertando os olhos ao tentar conter a visão turva. — Está machucada?
Ela balançou a cabeça, fitando ao redor com o cenho franzido.
Me desculpe, me desculpe. Bella gritou mentalmente.
— O que faz aqui sozinha? — Ela fitou os contornos avermelhados dos olhos da menina, ainda úmidos de lágrimas que aparentavam ter surgido muito antes dela cruzar o seu caminho. — Você está perdida?
A criança de cachos cor de bronze lançou seu olhar angustiado na direção da trilha entre às árvores de onde surgira poucos momentos antes. Bella temeu perguntar o que estava acontecendo, se a pobrezinha tivesse sofrido por algum tipo de trauma, ela nunca saberia o que fazer para ajudá-la.
O silêncio da menina foi preenchido sem palavras quando ela apenas balançou a sua cabeça em sinal de confirmação, unindo seus bracinhos em torno de si enquanto tremia com a brisa gélida. Rapidamente, a morena ofereceu seu sorriso mais doce ao retirar o próprio casaco e envolver a garotinha na peça.
— Acho que isso deve servir. Está muito frio aqui fora, por que não vamos para o meu carro para você se esquentar?
Os pequenos olhinhos verdes rolaram na direção picape enquanto ela parecia considerar seriamente a proposta de Bella, mas em poucos segundos sua atenção retornou para a mulher parada em sua frente e ela apenas recusou com a cabeça.
— Não…
Choramingou baixinho.
— Não posso.
— Meu nome é Bella — ela se apresentou com um sorriso fraco. — Qual é o seu nome?
Estava claro que a menina era muito desconfiada e Bella a entendia perfeitamente, afinal ela quase passou com seu carro por cima dela momentos antes. Também havia a questão de ser criada por um policial, Bella sempre fora instruída a passar bem longe de estranhos amigáveis, principalmente quando eles faziam perguntas como as que ela fazia agora ou ofereciam doces.
— Renesmee — a garotinha cooperou, timidamente.
— É um lindo nome, sabia? — Bella tocou suavemente a mãozinha de Renesmee fechada em punho junto ao corpo.
A pele fria quase a fez estremecer.
Pobrezinha, devia estar congelando. Bella conhecia a sensação, pois estava lutando para não bater os dentes naquele vestido curto e nem um pouco útil em uma situação como aquela.
— Bem, agora que já sabe meu nome, acho que não somos mais estranhas. Venha comigo para o carro ou vou acabar congelando — ela fez uma careta, tremendo um pouco. — Você quer que eu vire um picolé aqui fora?
Renesmee esboçou um pequeno sorriso, mas que rapidamente desapareceu quando ela respondeu.
— Não.
— Muito bem — Bella ficou de pé, estendendo a mão para a menina ao mesmo tempo que tocava suas costas sob o casaco. — Venha, eu ajudo você.
A pequena aceitou o auxílio finalmente e seguiu com Bella dando pequenos passos até a picape enquanto praticamente desaparecia dentro do longo sobretudo. Bella a carregou para dentro da cabine e se garantiu de atravessar o cinto de segurança bem preso ao redor da criança, ainda culpando-se sobre seu estado alcoólico. No entanto, ela não tinha tempo para se punir por quase feri-la naquele instante, não enquanto Renesmee estivesse perdida.
Dentro do veículo o ritmo seguiu silencioso. Renesmee se encolhia no banco do carona feito um animalzinho assustado, os joelhos bem juntos ao corpo enquanto ela pairava as botas marrons sobre o couro do assento, sujando tudo com lama e grama solta que em outro momento Bella teria um certo trabalho para limpar, mas que não se importou na hora. Ela não sabia ao certo o que fazer ou o que dizer, não costumava lidar com crianças há muito tempo e provavelmente pensava que estava enferrujada.
Quando se deu conta de que ainda era uma mulher alcoolizada dirigindo sem rumo com uma criança perdida no banco da frente, Bella resolveu que a melhor opção era ligar para seu pai.
Charlie atendeu no segundo toque, sempre em alerta.
— Bells, onde você está? — O tom grave de seu pai a fez pensar que ela deveria explicar tudo depois. — Voltei com a sua mãe para casa e não encontramos você em lugar algum!
— Eu estou bem, pai. Não tem com o que se preocupar — ela suspirou. — É que… eu encontrei uma criança no meio da estrada enquanto voltava para casa, ela estava sozinha e parecia um pouco assustada. Por favor, eu não sei o que faço com ela.
Omitir a parte do quase acidente pareceu uma boa ideia.
— Qual o nome dela? — A autoridade policial surgiu de repente.
— Rosemar…
— Renesmee — a menina corrigiu, virando com o cenho franzido. Uma sugestão de que seu nome incomum provavelmente fora confundido muitas vezes.
— Oh, é Renesmee! — Ela fitou a menina — Desculpe.
Renesmee se voltou novamente em direção ao vidro, observando o vulto das árvores como se esperasse que algo surgisse dali a qualquer momento. Por outro lado, Bella ouviu um suspiro pesado de alívio do outro lado da linha.
— Graças a Deus. A equipe tem procurado por ela a noite toda — ele revelou. — Ela está bem?
— Sim, pai. Só um pouco assustada, mas nenhum trauma visível.
— Onde você está, Bells?
— Na Elm… eu acho que é isso — seus olhos encontraram uma placa de sinalização na beira da estrada. — Não estamos tão longe de casa.
— Bells, me faça um favor. Siga pela via expressa principal até a última curva antes da Liberty, sabe onde fica?
— Sei sim, o que tem lá?
— É onde ela mora, você vai encontrar uma casa mais afastada, no fim do caminho, não tem erro — explicou. — Tem uma equipe de policiais já a postos por lá, eu vou ligar para os familiares e avisar que ela já foi encontrada.
— Tudo bem, pai. Obrigada.
Assim que ela desligou seu celular e abandonou no porta-luvas, Renesmee a encarou em expectativa.
— Não se preocupe, vou levar você para casa — ela garantiu, sorrindo em conforto para a criança.
A rua que seu pai indicou não ficava tão longe e não demoraria tanto para chegar, mas ainda assim o silêncio que se instalou dentro da cabine estava começando a deixar Bella desconfortável, mesmo que não parecesse para Renesmee, ainda sentada confortavelmente ao seu lado.
Bella se pegou analisando a garota algumas vezes quando a mesma não estava prestando atenção, ela era pequena e aparentava ser tão frágil quanto cristal, de modo que Bella não sabia ao certo formar um palpite a respeito de sua idade. Talvez ela fosse uma criança grande de cinco anos ou uma pequena de seis. A única coisa que a morena teve certeza era da beleza incontestável de Renesmee. Ela tinha traços delicados, o nariz pequeno e perfeitamente reto, a mandíbula arredondada que lembrava uma linda aparência de bebê de pele cremosa.
Seus olhos continuavam atentos na relva que se estendia pela beira da estrada, mas nas vezes em que Bella notou os olhares discretos da menina sobre ela pôde notar as íris num tom esmeralda estranhamente familiar.
— Então — Bella pigarreou, a atenção focada na estrada adiante. — Como você foi parar ali?
Renesmee a fitou, ponderando se era ou não seguro conversar com uma estranha.
— Não precisa me dizer se não quiser…
— Fui caçar vagalumes — disse de repente.
Um vinco surgiu entre as sobrancelhas de. Bella.
— Sozinha?
— Com o papai.
— E onde ele está agora? — Ela forçou um desinteresse para não intimidar a criança.
A menina baixou os olhos, encarando as próprias mãozinhas sobre o colo.
— Eu não sei…
— Você se afastou ou algo assim?
— Eu só queria caçar vagalumes… — Renesmee choramingou em um tom de culpa.
Por favor, por favor, não chore!
— Está tudo bem, princesa — Bella esticou a mão e deixou os seus dedos acariciarem os cachos acobreados de Renesmee. — Já vamos chegar na sua casa.
Quando a picape fez a curva no trajeto de cascalhos, uma estranha energia consumiu a menina. Rapidamente ela saltou no banco enquanto olhava pelo vidro freneticamente, Bella tomou aquilo como uma confirmação de que estava no caminho certo e agradeceu aos céus por isso, afinal os estamos na picape demonstravam alguns sinais de que poderia estar com problemas.
Mais um item para sua lista de questões para se resolver mais tarde.
— É a minha casa! — Renesmee apontou o chalé mais a frente com um sorriso enorme.
A primeira coisa que percebeu foram os dois carros estacionados na frente da casa, acompanhados de uma radiopatrulha parada um pouco mais distante. A família de Renesmee devia estar em desespero pelo seu desaparecimento repentino, mas Bella só conseguia focar sua atenção no fato do pai ser tão irresponsável ao ponto de perder sua filha de vista no meio de uma floresta, exposta a tantos perigos que ela nem mesmo conseguiu mensurar.
O som ensurdecedor da picape atraiu a atenção de todos, ao lado Renesmee pulava incontrolavelmente no assento, muito distante da figura silenciosa que Bella recolheu na estrada.
— Chegamos! — Bella disse com um sorriso ao desligar o veículo e se libertar do cinto de segurança para, no instante seguinte, fazer o mesmo com Renesmee.
Bella saiu do carro e ignorou os olhares confusos dos policiais enquanto ela dava a volta para abrir a porta do carona e pegava a menina no colo para colocá-la no chão. Suas botinhas mal encostaram nos cascalhos quando ela começou a correr em direção a casa, o sobretudo preto se arrastava pelo chão enquanto ela se movia e Bella sorriu de lado, encostando na lataria da picape.
— Papai! — Renesmee gritou em direção a porta. — Papai, eu estou aqui!
Os policiais se moveram, surpresos com o retorno, em seguida olharam na direção da mulher misteriosa que havia lhe levado de volta para casa e se aproximaram, provavelmente planejando interrogá-la para mais informações do sumiço. No entanto, aquele fato ficou em segundo plano quando Bella desviou sua atenção um segundo para a entrada da casa.
A figura paterna surgiu na porta tão rápido quanto um foguete, o semblante totalmente perturbado quando seus olhos encontraram Renesmee retornando para seus braços, para seu abraço seguro e aconchegante. No momento em que correu e se ajoelhou para recebê-la, as lágrimas tomaram conta enquanto ele a agarrava como se mais nada no mundo fosse capaz de tirá-la dele outra vez.
Só então as coisas passaram a fazer algum sentido para Bella.
Ela fitou a loira chorando logo atrás do homem, seus soluços quando a mulher se moveu para abraçar Renesmee ao mesmo tempo em que o pai dela. Em seguida, Bella rolou seus olhos para o segundo veículo estacionado ao lado da casa, um prateado que, apesar do modelo ultrapassado, nunca deixou de ser reluzente.
Um Volvo.
É claro que ela conhecia aqueles cabelos cor de bronze tão macios ao toque ou os olhos de um verde tão intenso quanto o da grama de uma campina que ela um dia visitou. Bella se sentiu tonta quando o homem se levantou, a menininha ainda agarrada em suas pernas feito uma macaquinha enquanto ele a segurava junto de seu corpo, apenas a encarando com uma expressão de choque.
Um reflexo dela própria.
— Bella? — A voz aveludada disse, quase como se não pudesse acreditar no que via.
A morena estremeceu ao ouvir seu nome naquele tom depois de tanto tempo.
— Edward.
Forks, Washington — 2011
O despertador falhou mais uma vez naquela manhã em sua missão de acordar Bella para a aula. Ela xingaria o objeto ao despertar se aquele fosse um dia como qualquer outro, mas estava longe de ser.
Era quinta e a mandíbula perfeitamente delineada ao seu lado na cama minúscula foi a primeira coisa que Bella encontrou ao abrir os olhos naquela manhã. Imediatamente ela inspirou fundo, enchendo os pulmões com o cheiro que ela classificava como amor, segurança e uma grande porção de conforto, mas se Bella pudesse resumir tudo em uma simples fragrância ela chamaria de felicidade.
— Edward — ela chamou em um tom preguiçoso.
— Hum?
O jovem virou sua cabeça para olhá-la melhor enquanto sua mão corria para cima e para baixo nas costas dela.
— Você devia me avisar quando acorda, não é justo mantê-lo faminto só porque eu resolvo dormir até mais tarde.
— Mas você estava dormindo tão linda…
Edward sorriu de lado e afagou o braço dela, depositando um beijo no alto de sua cabeça, em sua têmpora, na bochecha e no queixo… contornando a vontade de unir seus lábios em plena consciência do seu estado matinal. Ele arrastou sua boca para o pescoço dela, beijando de uma forma um pouco menos delicada, Bella não podia reclamar de fato, ela mesma não podia se conter por muito tempo quando estavam sozinhos e tão íntimos como naquele momento.
— Vo-você… não está com fome?
Ela perguntou, tentando manter sua mente no lugar enquanto Edward acariciava o seu pescoço com a língua, uma das mãos correu para o seu quadril preguiçosamente, passando provocantemente pela lateral do seio.
— Mmmm — ele se afastou o suficiente para ela sentir a respiração dele arrepiando sua pele. — Um pouco, mas acho que consigo suportar.
— Não faça eu me sentir culpada por não alimentar você, Edward — ela riu quando ele a mordeu levemente antes de recuar para olhá-la nos olhos. — Sua mãe me mataria se soubesse.
— Mas você ainda pode me alimentar — ele abriu seu sorriso felino. — Só que de um outro jeito.
A garota se deixou levar mais uma vez, cedendo quando o namorado inverteu a posição e ergueu seu corpo sobre ela, encaixando perfeitamente entre suas pernas quando as envolveu ao redor dos quadris dele. Edward tirou vantagem do seu lugar e praticamente desabou todo o seu peso sobre Bella, provocando-a com o volume rígido em sua calça de moletom para mais uma rodada da atividade que ocupou praticamente toda a noite anterior.
O casal namorava desde os seus quatorze anos, começou apenas como uma amizade na escola, quando Edward se mudou de Seattle para Forks com sua grande família de beleza estonteante. Obviamente, o rapaz se destacou no meio escolar e Bella tirou proveito de sua posição no jornal da Forks High School para inseri-lo na comunidade como uma garota prestativa e gentil. O jovem fez todo o resto ao nunca mais sair da cola dela e desde então os dois eram inseparáveis.
— Você é o cara mais louco de Forks — Bella declarou ao recolher sua calcinha do chão para vesti-la, ainda sentindo suas pernas um pouco trêmulas do primeiro orgasmo do dia. — Seduzir a filha do chefe de polícia da cidade e ainda invadir a casa dele no meio da noite?
— Tem razão, quantos anos de prisão acha que eu pego?
Ele riu ao deslizar para fora da cama, se alongando um pouco ao ficar de pé. Bella sorriu de lado ao fitar os cabelos bagunçados e ainda úmidos grudado na festa do namorado.
— O que você quer para o café da manhã? — Perguntou ao se aproximar, envolvendo os braços ao redor da nuca dele enquanto se esticava na ponta dos pés. — Panquecas, waffles, leite com cereal… Pode ser qualquer coisa, eu faço e trago aqui.
— Privilégio de formatura?
Um sorriso torto curvou o canto de seus lábios.
— Completamente, mas de qualquer forma eu gosto de cozinhar para você. Gosto do som que faz quando você prova algo muito bom.
— Incluindo a parte em que eu digo que cozinho melhor — ele provocou, beliscando sua bunda quando Bella fechou a cara em biquinho. — Mentira, amor. Eu amo a sua comida.
Bella selou os seus lábios antes de sair à procura dos shorts pelo quarto.
— Tudo bem, eu vou preparar alguma coisa…
— Ah, não precisa. Eu tenho que voltar agora.
— O que? — Franziu o cenho, virando-se para ele. — Mas eu achei que você fosse ficar comigo mais um pouco.
— Talvez tenha se esquecido, mas eu tenho pais, sabia? — Ele estendeu a mão na direção dela, pedindo sua camisa cinza da Beastie Boys de volta — Além disso, temos uma formatura hoje. Tecnicamente, estamos a um diploma do resto das nossas vidas.
Ela torceu o nariz para o pedido e em vez de apenas entregar a ele, Bella se moveu em direção a cômoda e retirou uma camisa branca surrada que Edward deixou com ela algumas semanas antes. Ela atirou a roupa em seu peito e, apesar da expressão desgostosa, o ruivo não disse nada e vestiu a peça.
— A um diploma do resto das nossas vidas na Universidade de Chicago.
Edward odiava aquela ideia e Bella sabia disso, mas ele aceitou de bom grado se mudar para a cidade grande e trocar a faculdade dos sonhos só para que os dois continuassem juntos. Aquele acordo foi selado após muitas discussões e, apesar de se sentir culpada por fazê-lo mudar seus planos, não podia recusar aquela concessão quando a decisão significava que ele ficaria junto dela.
— Eu achei que você quisesse ir para a Universidade de Nova York, Bella. Só fala do The New York Times desde que nos conhecemos na escola…
— É verdade, mas os planos mudam o tempo todo.
Seus olhos encararam brevemente uma página do seu jornal favorito pendurado em um quadro na parede e pensou em todas as vezes em que afirmou para si mesma que um dia estaria por trás de uma manchete como aquela.
— Hm, sei — ele forçou um sorriso, dando de ombros em seguida. — Não deveria ficar tão animada, ainda não recebi nenhuma resposta da faculdade. Pode ser que eu não seja aceito.
— Mas vai receber, trabalhamos duro para isso, não? — Ela se aproximou enquanto ele olhava pela janela e entrelaçou seus dedos ao esconder o rosto no ombro largo. — Amor, vai dar tudo certo. Nós vamos nos formar hoje, iremos para a faculdade e ficaremos juntos… Como tudo deve ser.
— Ficaremos juntos?
Ele virou o rosto, olhando-a com um brilho que Bella não conseguiu saber o que significava.
— É o que você quer, não é?
— Mais do que tudo.
O sorriso lindo estava de volta e Edward se inclinou para acolhê-la em seus lábios de forma terna.
Depois que o rapaz saltou pela janela — e se recuperou de uma queda feia nos arbustos, algo que ele garantiu valer a pena antes de correr até o fim da rua onde o Volvo estava estacionado, longe da supervisão de Charlie —, Bella fez sua higiene matinal e correu para o andar de baixo. Para sua surpresa, Renée estava na cozinha colocando um pequeno vaso com rosas brancas no centro da mesa abarrotada de comida, rosas que ela mesma devia ter colhido do jardim onde as cultivava.
— É aniversário de alguém e eu esqueci?
— Não seja boba! — Ela lançou-lhe um sorriso orgulhoso. — Hoje é a sua formatura, é como um rito de passagem!
— Não precisava fazer tanta coisa, mãe. Mas obrigada de qualquer forma.
Ela se juntou a Renée na mesa, os olhos um pouco divididos entre as tantas opções de refeição.
— Não é nada, bebê. Daqui a pouco vai para a faculdade, trabalhar e se casar, vai ter filhos… Aí não vou ter como mimar você desse jeito quando tiver a sua casa.
— Eu vou para a faculdade, não para outro planeta — ela riu ao se servir das panquecas de mirtilo. — Além disso, ainda vai me ver fazer muitas coisas antes de casar e ter filhos com o Edward.
— Você tem razão, eu amo como vocês falam do futuro incluindo um ao outro.
Renée disse com um sorriso bobo que fez a filha corar, talvez lembrando da época em que ela conheceu seu amor de uma vida inteira na juventude.
— Não tenho tantas convicções do futuro, ele muda o tempo todo. Mas Edward é a única certeza que eu tenho na vida.
— E vocês vão ser muito felizes juntos em Chicago.
A mulher deixou o tom melancólico transparecer na voz.
Bella disse a si mesma que também sentiria falta de cada surto de carinho e cuidado da sua mãe, que morreria de saudades de ficar na sala sentada no chão com as pernas cruzadas assistindo aos jogos da temporada com Charlie e que os momentos longe da sua família seriam provavelmente os mais difíceis da sua vida. Mas ela tinha metas pré-estabelecidas na sua cabeça, objetivos que iam muito além de sucesso profissional ou até mesmo dos sonhos que ela alimentava desde a infância.
Era uma questão de conhecer a si mesma. A sua história.
— Eu também vou sentir saudade, mãe. Muita — revelou, incapaz de olhar nos olhos de Renée enquanto cutucava a comida no prato. — Mas vou ligar todos os dias para dar notícias e saber de vocês, vou ligar tanto que nem vão sentir a minha falta.
— É claro que vamos, Bella. Nós sempre vamos sentir a sua falta.
Um nó se formou em sua garganta. Ela detestava deixar seus pais para trás, mas Forks era a única coisa que a separava de seus maiores desejos.
O som pesado das botas se arrastando no piso de linóleo anunciaram a presença de Charlie na entrada, a porta se fechou com um baque segundos antes do homem alto surgir na cozinha, rompendo qualquer nuvem de sentimentalismo que começava a surgir entre as duas. Charlie balançou um punhado de envelopes entre os dedos antes de arremessá-los na mesa sem qualquer cerimônia.
— A correspondência chegou.
As duas mulheres o encararam, confusas.
— Eu poderia ter pego, querido. Você vai se atrasar para o trabalho.
— O que é isso?
— Está endereçado a uma tal de Isabella Swan — ele disse com as grossas sobrancelhas franzidas, reprimindo um sorriso.
A garota trocou um olhar conspirador com a mãe antes de disparar as mãos para pegar os envelopes. Imediatamente, Bella começou a rasgar as correspondências uma a uma, deixando para ler o conteúdo apenas no final. Eram quatro cartas marcadas com símbolos distintos, porém conhecidos à morena.
— São das universidades… — seus olhos brilhavam sobre a papelada como se fossem algum tipo de mapa para o tesouro perdido. — Universidade de Washington, Universidade de Nova York, Dartmouth…
— Você foi aceita em Dartmouth!? — Charlie praticamente engasgou.
Bella apenas ignorou a surpresa ofensiva do seu pai e a carta de admissão para a Universidade de Nova York, seu antigo sonho. Em vez disso, focou toda a sua atenção no símbolo vermelho estampado na última carta, um frio na barriga lhe atingiu feito um golpe quando ela começou a ler as palavras impressas no papel.
A Universidade de Chicago tem o prazer de informar…
— Querida, você conseguiu?
— Quem liga? Minha Bells passou em Dartmouth! — Charlie disse com um sorriso largo sob o bigode.
A última vez que Bella vira seu pai tão sorridente foi quando ele conseguiu pescar uma truta de tamanho olímpico em uma viagem de família ao Fraser River quando ela tinha quatorze anos, foram tantos dias comendo peixe que Bella desenvolveu uma aversão aos frutos do mar.
— Acho que Dartmouth vai ter que esperar, pai — ela se levantou da cadeira exibindo um sorriso brilhante. — Eu vou para Chicago no outono!
Um coro de gritos e parabenizações se formou enquanto as duas pulavam na cozinha minúscula, Bella envolvida no abraço orgulhoso de sua mãe. Charlie, no entanto, pareceu alheio a toda alegria quando permaneceu parado as encarando com uma evidente interrogação na face.
— Bells, você está mesmo considerando ir para Chicago? — Ele perguntou, gesticulando em protesto para aquela mini-festa que havia se formado.
Ela parou, virando-se para o seu velho pai enquanto o sorriso caía levemente.
— Não estou considerando nada, pai. Eu vou, isso já foi conversado.
— Mas Dartmouth pertence à Ivy League…
— Charlie — Renée interrompeu. — Nossa filha sabe disso.
— Tudo bem, mas ela é nova demais para entender o que é melhor para ela — ele argumentou, mantendo-se firme em sua opinião. — Bells, Chicago fica muito longe daqui.
— E Dartmouth também!
— Você até está certa, mas é melhor classificada! Se não quiser Dartmouth, ainda tem a Universidade de Nova York, você sempre disse que queria estudar lá, não é?
Charlie apontou para a carta de admissão sobre a mesa.
— Muito mais viável, fica a poucas horas de Forks…
— Pai, eu já tomei minha decisão — afirmou, imutável. — Sinto muito, mas isso não vai mudar.
Era muito óbvio que seu pai a queria perto de casa e que a ideia de ficar sozinha em uma cidade grande como Chicago o assustava tanto quanto a ela mesma, mas bem no fundo Bella se questionou se aquele realmente era o único motivo para Charlie desejar que a filha permanecesse o mais longe daquele lugar possível. Felizmente, Bella não queria ter aquela discussão tão cedo.
— Será que não pode simplesmente ficar feliz por mim?
— Ora, Bells — ele virou a cara para o outro lado, revirando os olhos.
Bella sabia que havia jogado baixo, afinal que tipo de pai não apoiaria sua garotinha nos sonhos dela?
— É claro que eu fico feliz por você.
— Eu sabia! — Ela riu, pulando nos braços do pai que a acolheu carinhosamente com um beicinho desgostoso. — Eu preciso contar para o Edward!
— Edward, claro — resmungou Charlie quando a filha se afastou, agitada.
— Acho melhor fazer uma surpresa. Deixe para contar na formatura.
— Tem razão — Bella sorriu para a mãe em concordância. — Vou ligar para a Angela, ela vai adorar saber!
Mais tarde, Bella pairava apreensiva em frente ao espelho em seu quarto pequeno, os olhos atentos analisando cada detalhe do traje que escolhera para usar naquela noite especial. Bella não estava acostumada a usar vestidos, pois para ela os modelos só serviam para atrapalhar sua vida com a falta de modos para sentar, mas tinha que admitir que olhando naquele momento suas pernas pareciam muito esbeltas exibidas pelo vestido azul-escuro de tiras nas costas e que a seda do modelo ressaltava suas curvas sutis — vestido esse que quase não fechava, talvez ela tivesse comido demais no último mês.
Seu cabelo estava preso para o alto com grampos, somente alguns cachos perfeitamente modelados no babyliss soltos na parte da frente, emoldurando seu rosto destacado com uma maquiagem leve e delicada para a ocasião. Bella estava retocando o gloss rosado nos lábios quando a campainha soou no andar de baixo, anunciando que sua carona havia chegado finalmente.
— Eu atendo! — Ela gritou, tropeçando escada abaixo.
Quando abriu a porta da frente, Bella estava congelada em uma mistura de nervosismo e empolgação, mas tudo pareceu se dissolver como neve na primavera quando seus olhos recaíram sobre Edward. Ele estava perfeito vestindo um smoking que Bella julgou valer mais do que um ano do seu salário na Newton's Sport and Outfitters, o cabelo acobreado, ainda que mais arrumado do que em qualquer outro momento, mantinha o desalinhamento levemente rebelde e incrivelmente sexy que ela adorava.
No entanto, a postura estranha de Edward a fez esquecer completamente do resto. A mandíbula trincada e os olhos focalizados de um jeito esquisito fez crescer um novo tipo de ansiedade na garota, algo que ele pareceu notar quando forçou um sorriso torto para ela.
— Atrasado? — Ele disse ao puxá-la para um abraço com um braço só.
— Me deixou esperando um tempão.
Com a cabeça recostada em seu peito, Bella pôde ouvir a sua risada leve e fresca como a brisa de verão.
— Você está tão linda, Bella — Edward tocou sua mão ao se afastar para analisá-la. — Está animada para a formatura?
— Sim e não.
Ela deu de ombros, puxando-o pela mão para dentro com um suspiro pesado.
— O depois me assusta um pouco. Quer dizer, mudança, a faculdade, arranjar um novo emprego em Chicago… Ainda bem que não vou assumir todo o aluguel sozinha — ela brincou, fechando a porta atrás de si, mas Edward desviou o olhar com o semblante sério. — Tudo bem, vai me dizer o que está realmente acontecendo aqui ou vamos continuar fingindo que está tudo maravilhoso?
— Está tudo maravilhoso, meu amor — ele esticou o braço para agarrar sua cintura e trazê-la para si, mas Bella permaneceu imóvel com os braços cruzados em frente ao peito. — Só estou nervoso com a formatura e tudo mais. Você mesma disse que é muita coisa para se pensar sobre o futuro.
Bella bufou.
— Conta outra.
A morena deu as costas para ele e seguiu cautelosamente até a cozinha, o salto-agulha prateado não parecia tão seguro, mesmo depois de suas semanas de treino andando pela casa, Bella não se sentia confiante para andar livremente sobre eles.
Só havia uma coisa capaz de melhorar seu humor em situações de estresse: Edward. No entanto, quando o jovem de cabelos cor de bronze era a fonte de sua irritação, Bella recorria a uma versão de calmante mais doce e saborosa.
— Onde está a droga do bolo? — Ela resmungou enquanto revirava a geladeira.
— Você comeu tudo no período das provas finais.
Renée cantarolou ao surgir na cozinha. Bastou que a filha olhasse em sua direção com as bochechas coradas para que a mulher percebesse o que estava acontecendo, de repente seus olhos semicerrados começaram a analisar a situação de maneira tão escancarada que uma placa de neon com a frase "dr de novo?" seria mais discreta.
Seus lábios se entreabriram para sussurrar alguma coisa, mas Bella apenas negou com a cabeça quando seu namorado surgiu timidamente na porta da cozinha com as mãos enfiadas nos bolsos.
— Bem, acho melhor irmos agora, não vão querer se atrasar justo na formatura.
Os jovens trocaram um olhar silencioso, concordando.
— Tem razão, Sra. Swan — Edward esticou a mão para Bella, enquanto ela ainda estava agachada em frente a geladeira aberta. — Vamos, amor. Depois você come quantos pedaços de bolo quiser.
Apesar do comportamento cínico de Edward — o espertinho fingiu que nada havia acontecido — durante toda a viagem até a Forks High School, Bella deixou de lado a frustração de se sentir excluída de algum problema, ela não queria pensar no impasse com seu namorado quando estava prestes a pisar no primeiro degrau da escada dos seus objetivos. Parte da distração surgiu quando Renée começou a tagarelar algo sobre bons apartamentos perto da faculdade.
— Você tem alguma preferência? — Bella instigou enquanto entravam no ginásio. — Porque eu acho que nos viramos muito bem em um apartamento pequeno, quer dizer, também vai ser mais barato e prático para limpar…
— Onde você estiver é minha preferência.
Um sorriso curvou o canto de seus lábios antes dele plantar um beijo em sua testa.
— Isso não é justo, Edward. Você também vai morar lá, vai ser a nossa casa, não pode simplesmente concordar com tudo o que eu sugiro. E se, depois, você descobrir que odeia todas as minhas escolhas?
— Tudo bem — ele suspirou, revirando os olhos ao envolver o braço sobre os ombros dela. — Só o que eu quero é uma cozinha espaçosa para que eu não ande esbarrando em você quando estiver me ajudando.
— Só isso?
— Acha pouco?
Ela ergueu as sobrancelhas.
— Você sabe como eu amo cozinhar, Bella.
— Eu sei — disse enquanto seu braço envolvia a cintura dele. — Vou colocar esse item na minha lista de prioridades na próxima busca.
— Obrigado — Edward selou seus lábios rapidamente. — Escute, meus pais estão do outro lado, eu vou falar com eles. Já volto.
Seus olhos o acompanharam quando ele se afastou em direção a multidão de becas amarelas no ginásio até desaparecer. Naquele momento, um pensamento lhe ocorreu por um milésimo de segundo, mas que foi o bastante para fazer estrago. Finalmente eles estavam diante da sua formatura e, apesar de Edward ter concordado com os planos da mudança para o estado de Illinois, ela sabia que aquela ideia não era de todo boa para ele. E se, agora que estava tão perto de acontecer, Edward estivesse reconsiderando sua decisão?
Qualquer animação estampada em seu resto desabou feito pudim exposto ao sol.
— Querida, eu vou dar a volta e pegar os melhores lugares — Renée a arrancou da nuvem de angústia que pairava sobre sua cabeça. — Preciso guardar o lugar do seu pai.
— Ele vai chegar a tempo, não é?
— É claro que vai, Bella! Charlie nunca iria perder a formatura da própria filha.
Ele não perderia, mas com certeza se atrasaria. Bella já estava acostumada com seu pai sempre preso no trabalho, já nem se dava ao trabalho de culpá-lo.
— Boa sorte, filha.
— Obrigada, mãe — ela sorriu em uma confiança forjada. — Encontro vocês depois.
Logo o diretor Varner ladrou em sua direção para que ela se juntasse aos seus colegas na fila organizada por ordem alfabética de sobrenome. Feito um duende na manhã de natal, Jessica Stanley acenou para ela no fim da fila. Bella virou-se para ter certeza de que o alvo da atenção da baixinha não estava em outra pessoa, mas ao não encontrar ninguém em especial, a morena começou a pensar se Jessica sofria algum tipo de amnésia.
As duas haviam se dado muito bem no passado, eram melhores amigas na escola e isso durou até algum momento da adolescência, quando Jessica começou a andar com um grupinho de garotas tóxicas liderado por Lauren Mallory, o que acabou afastando as duas. Obviamente, a relação foi de mal a pior quando Edward chegou na Forks High School atraindo todas as atenções para si, enquanto as dele estavam sobre ela.
No entanto, aquele era seu último dia oficialmente no ensino médio e Bella pensou que talvez não devesse guardar mágoas, como Jessica parecia não estar fazendo. Isso foi gás o bastante para que ela seguisse em direção a loira.
— Ai meu Deus, eu estou tão nervosa, você não está? — Ela agarrou suas mãos com um sorriso energético. — Não acredito que tudo acabou, passou tão rápido…
— Pois é, nós éramos inseparáveis e de repente… não éramos mais.
Okay, essa merda de superação pode ficar para uma outra hora.
O sorriso de Jessica desabou com a acidez em seu tom de voz e ela soltou suas mãos, recuando um passo.
— Bella, eu sei que tivemos problemas… — Jessica hesitou, mordendo o lábio inferior. — Mas, eu quero que saiba que não guardo mágoas de você.
— Você não guarda mágoas de mim? — Uma risada de escárnio quase escapou.
— É claro que não. Estamos começando uma nova fase, eu não quero sair daqui e algum dia reencontrar você e lembrar que ainda estamos brigadas.
— Não estamos brigadas, Jessica.
— Mesmo?
— É claro — ela sorriu, espalmando o ombro da loira.
Talvez foi o clima nostálgico de formatura ou a crescente certeza de que Bella jamais cruzaria o caminho de Jessica outra vez, mas ela não estava disposta a confrontá-la sobre os boatos criados a seu respeito durante todo o colegial. Não naquele dia.
— Ah, Bella! — Jessica a puxou em um abraço apertado do qual a morena simplesmente não teve tempo de desviar. — É tão bom ouvir isso...
— Achei vocês!
Angela Webber surgiu do mar de pessoas com seu vestido rosa pálido contrastando com a beca de um amarelo gritante. Seu sorriso largo demonstrava o que ela não conseguia esconder: a satisfação de ver suas duas melhores amigas se dando bem outra vez. Se Angie se sentia assim, Bella pensou que valia a pena um pouco de fingimento em seus momentos finais de união.
— Eu já estou sentindo falta de vocês e ainda nem peguei o diploma — ela franziu as sobrancelhas com um biquinho. — Prometem que vamos nos ver algumas vezes? Nem que seja daqui há cinco ou dez anos.
— É claro, Angie.
Ela concordou, sabendo que sua promessa provavelmente seria quebrada. Jéssica, por outro lado, parecia determinada.
— Eu faço questão! Vou querer saber o que vocês vão estar fazendo das suas vidas.
— Bem, se seguir os planos, depois que eu for para Dartmouth…
— Você vai para Dartmouth!? — Jessica explodiu, incrédula.
A morena de óculos assentiu timidamente, carregando um leve sorriso.
— Angela, isso é maravilhoso! — Bella sorriu enquanto abraçava a amiga com felicitações.
— É mesmo, quem diria. Angela vai para New Hampshire, eu pretendo continuar em Washington…
A baixinha se virou para Bella.
— E você, Bella?
— Illinois. Chicago, para ser mais precisa.
Jessica franziu o cenho.
— É bem…
— Longe — completou Angela ao lado, encarando-a. — Não pensei que você fosse mesmo para Chicago, Bella. Achei que Nova York era a sua primeira opção.
— Era, na verdade. Mas conversei com o Edward sobre isso e ele concordou com a ideia de mudarmos os planos, acho que vai ser bom para nós, de qualquer forma.
Angela assentiu em compreensão enquanto Jessica não escondia seus pensamentos para si, não quando aquela evidente interrogação pairava em sua expressão. Felizmente, Bella não teve que responder muitas outras perguntas sobre sua escolha de faculdade, Jessica foi puxada para longe da fila por seu namorado, Mike Newton e, pouco tempo depois, foi a vez de Angela se afastar em direção ao final da fila onde ficavam os alunos com o sobrenome começando em W.
A solidão temporária rapidamente foi preenchida pela ansiedade e Bella começou a se perguntar onde Edward havia se metido. Ela esticou seu pescoço para encontrar o reflexo de cobre entre as pessoas, mas não havia nada além dos rostos comuns que ela já conhecia de vista. Onde ele estava, afinal?
— Do outro lado do ginásio, você não vai encontrá-lo daqui — a voz felina soou logo atrás, como uma carícia sensual.
Jasper Hale curvou seus lábios em um sorriso torto quando Bella se virou para olhá-lo.
— Me lembre de socar o seu irmão quando ele aparecer por me deixar plantada aqui nesses saltos.
— Sabe como são os pais corujas, estão há meia-hora tirando fotos do Edward e da Rose.
— Com aqueles rostos eu também tiraria o máximo de fotos possíveis — ela brincou enquanto se inclinava para abraçá-lo. — Por que não está lá com eles?
Seus braços fortes envolveram sua cintura levemente antes dele se afastar e ficar ao seu lado na fila.
— Consegui fugir quando meus irmãos começaram a discutir sobre quais poses favoreciam quem nas fotos — ele sorriu. — Mas se fosse você, aproveitava o pouco de paz que ainda te resta. Assim que meus pais verem você nesse vestido, tenho certeza de que vão querer fazer uma sessão junto com o Edward.
— Eu estou ansiosa para isso — Bella piscou para ele, então esticou-se por hábito para olhar as pessoas, buscando outra vez. — Falando no Edward, você não notou nada estranho nele hoje?
— Estranho do tipo ele ter chegado só de manhã em casa com uma roupa diferente?
Revirei os olhos para seu olhar sugestivo.
— Não, não notei. Se você diz que percebeu alguma coisa, então deve ser só o nervosismo com a formatura, Edward é todo sentimental com essas coisas — o loiro desviou o olhar para sua gêmea acenando no início da fila. — Hey, eu preciso ir para o meu lugar antes que a Sra. Cope bata com o diploma na minha cabeça.
— Okay. Vejo você depois.
Ele assentiu, tocando seu ombro de leve antes de correr para Rosalie e seu vestido vermelho fatal.
Após o longo discurso clichê da oradora da turma, Jessica Stanley, a cerimônia seguiu rapidamente. O diretor Varner começou a chamar os nomes e a fila encurtava seu tamanho de modo acelerado, Bella só prestou atenção quando a letra C finalmente começou a ser anunciada.
Edward Cullen subiu ao palco como um verdadeiro anjo na beca amarela, movimentando-se graciosamente demais para alguém que estava nervoso enquanto pegava o diploma das mãos da Sra. Cope com uma leve reverência doce com a cabeça. Alguns gritos e assobios soaram do meio da multidão, mas Edward não olhou para ninguém além dela parada na fila o observando, ele lhe lançou um sorriso que queria dizer muitas coisas enquanto ela aplaudia seu namorado recém-formado.
Pouco tempo depois, era Bella naquele lugar, um pouco constrangida com todos aqueles olhares sobre ela. Houveram gritos de todos os lugares, alguns vindo da equipe do jornal da escola com quem ela se enturmava, alguns dos seus amigos já formados mais a frente, seus pais orgulhosos nos assentos no meio da platéia. No entanto, ela se concentrou naquela voz próximo do palco esperando do outro lado, nas íris abrasadoras enquanto Edward movia os lábios em um "eu te amo", encorajando-a a não travar e seguir em frente.
— Meus parabéns, Srta. Swan — o diretor entregou o diploma em suas mãos trêmulas.
— Obrigada.
Ela sorriu levemente antes de erguer o diploma em comemoração aos seus pais aplaudindo de pé, emocionados em seus lugares.
Quando toda a turma de formandos de 2011 já estava com o diploma em mãos, aconteceu o verdadeiro rito de passagem no ginásio. No meio da multidão, Edward envolvia a cintura da namorada feito correntes de ferro para mantê-la junto de si, seu semblante estava bem distante da imagem contorcida de mais cedo. A chuva de chapéus de formatura fora o grande marco oficial da cerimônia antes das famílias se juntarem aos jovens, abraços e felicitações dominaram ao redor e Bella se agarrou a Edward antes que seus pais chegassem para acabar com sua festa particular.
— Parabéns, meu amor — Edward sussurrou perto do seu ouvido antes de mover os lábios pelo pescoço até sua boca.
Não era gentil, havia uma certa urgência na forma como Edward reivindicava sua língua, movendo-se feito uma dança ritmada muito mais provocante do que deveria ser para demonstrações em público.
— Talvez a gente devesse comemorar mais tarde…
Seus braços a puxaram para mais perto em resposta. Bella mordeu o lábio inferior.
— Ou podemos comemorar agora mesmo — ela sugeriu com um olhar malicioso.
— É uma boa ideia, mas ainda tem algo que eu quero muito fazer.
— Tipo?
— Tipo dançar em um baile como qualquer outro formando normal — ele sorriu, acariciando sua bochecha com o polegar.
— Liga mesmo para isso? É só um baile cafona, fomos em todos os bailes até agora…
— Mas o de formatura — argumentou. — Além disso, é o nosso último baile antes de…
— De Chicago.
Seus lábios se comprimiram em uma linha rígida.
— Exatamente.
— O que foi? — Suas sobrancelhas se uniram enquanto ela analisava a expressão no rosto dele.
— Nada. É só que as coisas vão ser diferentes agora.
— Mudanças podem ser boas, Edward — ela afirmou, otimista. — Mal posso esperar para ir morar com você.
— Eu soube que o primeiro ano é o mais difícil, ainda vai me querer quando passarmos vinte e quatro horas por dia juntos?
— Eu sempre vou querer você.
Bella fechou os braços ao redor da sua nuca, encarando aqueles olhos intensos sobre ela. Os dois costumavam falar sobre o futuro desde a primeira vez que fizeram amor, aos dezesseis anos, em uma noite fria de inverno onde ela mentira aos seus pais sobre dormir na casa de Angela, só para ficar com Edward a sós depois que os pais dele viajaram para visitar parentes no Alaska. Edward gostava de planejar suas vidas de forma leve e alcançável, mas Bella sempre fora sonhadora, vislumbrava cada possível cena do futuro onde eles estariam felizes e bem-sucedidos em suas carreiras.
E longe de Forks.
O jovem casal rapidamente se envolveu em mais uma rodada de beijos sem fôlego quando o esquadrão de pais rompeu sua intimidade. Esme Cullen surgiu primeiro apontando sua câmera na direção deles, a mulher de cabelos cor de bronze atirou seu flash à queima-roupa antes de correr para eles com um sorriso orgulhoso.
— Aí estão vocês — ela puxou os dois para um abraço ao mesmo tempo. — Estavam tão lindos lá em cima! Bella, eu tirei muitas fotos de você, vou mandar tudinho para Renée mais tarde.
— Tenho certeza de que ela vai adorar saber disso.
A morena sorriu para a sogra antes de se virar para Carlisle quando ele estendeu sua mão gentilmente.
— Parabéns, Bella. Também estamos muito orgulhosos de você.
— Obrigada — ela o cumprimentou timidamente.
Era muito fácil estar com os Cullen.
O casal tinha personalidades bem distintas, mas que combinavam perfeitamente. Se por um lado, Esme era energética e afetuosa, Carlisle já era mais contido e tranquilo, mas sua gentileza era tão palpável que mesmo à distância Bella podia se sentir acolhida pelo médico como se fosse qualquer outro membro de sua família.
O pequeno grupo ficou conversando no meio do ginásio por pouco tempo antes dos Swan aparecer. Renée a recebeu com um abraço sufocante antes de começar a tagarelar felicitações para ela e para Edward. Charlie apenas a abraçou com um braço só daquele jeito tipicamente desajeitado, mas o sorriso mínimo sob o bigode não deixava mentir sobre o quanto ele estava animado naquele dia.
— Foi muito bem lá em cima — declarou baixinho enquanto a esposa falava com os Cullen.
— Pai, eu só peguei o diploma.
— Bem, estava linda pegando o diploma.
Ela acenou com a cabeça, reprimindo um sorriso. Com certeza, era a maneira de Charlie dizer que estava orgulhoso.
Foi uma decepção concluir que Jasper estivesse cem por cento certo quando disse que Esme reservava uma sessão de fotos só para os dois — com o apoio de Renée, aquilo durou mais do que alguns instantes. O loiro e a gêmea, Rosalie, logo chegaram para lembrar os pais da reserva em um restaurante caro da cidade e Bella tentou não esconder a surpresa quando a cunhada sorriu para ela, um comportamento incomum vindo de Rosalie.
Não era novidade para ninguém que as duas não se davam tão bem quanto a etiqueta exigia. Rosalie Hale era o oposto de Jazz, era arrogante e orgulhosa, sua mania de superioridade mal podia disfarçar as reviradas de olhos sempre que Bella chegava no local. A morena tentava entender toda aquela amargura, Rosalie havia perdido os pais biológicos quando tinha apenas dois anos e então passou a morar com a tia, o esposo dela e seu primo, Edward. Eles eram como uma verdadeira família para ela, mas Jasper sempre disse que lidava melhor com a perda do que a irmã.
O que não impedia Bella de ainda odiá-la.
— Por que vocês não vem com a gente? — Carlisle sugeriu, fazendo a esposa se animar.
— Sim! Seria ótimo.
— O que acha, Bells?
O velho Charlie se virou para a filha e ela encarou a satisfação da mãe com o convite. No entanto, eles tinham uma tradição de família a seguir.
— Na verdade, eu estava pensando em irmos ao Hazel… — ela fez uma careta, sem jeito. — Você sabe, bife e bolo nas quintas-feiras.
— Ah, tudo bem. Marcamos outro jantar.
Carlisle sorriu em compreensão, para o desgosto de Renée.
— Acho melhor a gente ir agora — Jasper incentivou. — A reserva não pode esperar.
A família Cullen se despediu antes de seguir para o estacionamento, deixando Edward para trás em sua própria despedida.
— Bife e bolo, hein? — Ele provocou.
— Não enche.
Um sorriso divertido curvou seus lábios quando ela deslizou os dedos entre os fios de bronze desalinhados.
— Te encontro no restaurante?
— Eu não ousaria te deixar plantada.
— Isso é bom, porque sei onde meu pai guarda a espingarda.
Edward riu antes de se inclinar para tocar os lábios dela com os seus de forma mais casta e delicada o possível, era difícil ignorar a plateia de olhos atentos logo mais esperando por ela. Não muito tempo depois, um pigarro interrompeu o momento e quando Bella se virou, sua mãe batia no ombro de Charlie com a bolsa que carregava.
— Droga, acho que é melhor eu ir antes que meu pai te deixe algemado.
— Eu também acho — ele selou seus lábios uma última vez. —Mas me deve uma dança, Srta. Swan.
Alguma parte do seu estômago se apertou quando o jovem acenou para os seus pais antes de correr elegantemente para a saída, onde os Cullen o aguardavam para sua noite em família. Bella então retornou para os seus pais, sabendo exatamente onde deixara seu coração.
Jantar em família costumava ser o seu programa favorito para se fazer no meio da semana, principalmente quando Renée passava metade do dia trancada no jardim de infância testando a sua paciência para ensinar criancinhas enquanto Charlie praticamente morava na delegacia. No entanto, especialmente naquela noite a companhia de seus pais foi essencial.
O bom-humor de Charlie margeava as piadas ruins em que as duas riam só para não quebrar o momento. Renée, por outro lado, estava nostálgica citando lembranças da infância da filha, de uma época em que a jovem professora se apaixonou pelo pai solteiro e desajeitado da sua aluna. Bella não costumava revirar tanto aquelas lembranças, pois para ela não havia muito que ela quisesse lembrar da vida antes de Renée, a mulher havia trazido cor para sua rotina e, sem dúvidas, para a de seu pai.
— Eu lembro bem quando ela chegava atrasada em todas as aulas com as botinhas sujas e as maria-chiquinhas mais tortas que eu já vi!
Renée riu ao cutucar as ervilhas no prato.
— Ei, eu fiz o melhor que podia — Charlie explicou. — Ela nunca parava quieta.
— E fazia tantas perguntas…
— Acho que já está bom de falar de mim como se eu não estivesse aqui — suspirou, revirando os olhos. — A única coisa que me lembro é do papai me buscando depois do horário na escola. Meus traumas nasceram aí.
— Eu estava aprendendo a ser pai, Bells. Tive sorte de encontrar a sua mãe no caminho… ou você provavelmente ainda usaria botas sujas.
A garota riu para ele, inclinando seu braço levemente para empurrá-lo ao seu lado no assento.
— Eu é que tive sorte por conhecer você — sua mãe disse com um brilho nos olhos. — Consegui o amor da minha vida e uma filha linda… Foi como ganhar na loteria.
Em um gesto raro, Charlie esticou a mão sobre a mesa para pegar a da esposa e seu polegar deslizou carinhosamente sobre ela. Bella conhecia a sensação, pois era grata por ter encontrado seu parceiro tão cedo, aquele com quem queria dividir o resto da vida.
Apesar de ter aguardado o dia inteiro para provar seu adorado bolo de frutas, Bella já estava enjoada antes mesmo de terminar o jantar. A julgar pelos toques e a troca de olhares sugestivos entre seus pais, ela imaginou que não fosse a única a comemorar alguma coisa naquela noite. Quando retornou do banheiro depois de recusar a sobremesa, Charlie já havia pagado a conta e assim eles saíram do boteco.
Os saltos estavam acabando com os seus pés, mas isso não impediu que ela começasse a correr no momento em que passou pela porta e encontrou o Volvo estacionado na frente. Edward estava encostado no veículo feito um modelo da Ralph Lauren, sem blazer e com a gravata frouxa quando ela disparou para os seus braços.
— Como foi o jantar? — Edward perguntou, sem afrouxar seu aperto ao redor dela.
— Ótimo, Edward.
Charlie respondeu a contragosto, recebendo um olhar repreensivo da esposa. Logo, ela tratou de reparar aquela recepção.
— Perfeito, querido. Deveria ter vindo com a gente, o bolo de frutas é maravilhoso.
— Aposto que sim, quem sabe na próxima — ele sorriu em resposta, fitando a expressão ansiosa no rosto da namorada. — Bem, acho que temos um baile para ir agora.
— É claro. Divirtam-se, crianças!
— Mas não tanto, hein — Charlie avisou enquanto sua mãe o puxava em direção ao carro.
— Pai!
Bella protestou, as bochechas queimando em brasas.
— Vou até sentir falta disso.
— Isso o que?
O jovem de cabelos cor de bronze abriu a porta do veículo para que ela entrasse e se acomodasse no banco do carona.
— Da sua família sendo tão… família em tentar te proteger — ele sorriu de lado. — Daqui pra frente vou ter que cuidar mais de você.
Edward fechou a porta com um baque antes de dar a volta para entrar. Mas Bella se pegou incomodada quando o namorado ocupou seu lugar ao lado dela no volante.
— Não, Edward. Não é como se você fosse assumir o papel do meu responsável, eu sei muito bem me cuidar sozinha.
— Eu só estou fazendo o que eu sempre faço — ele deu a marcha, fazendo uma careta. — Cuidando das pessoas que eu amo.
— Não podemos só nos divertir essa noite?
Sua mão fez uma pequena trilha pela coxa dele, subindo lentamente até parar bem perto do zíper da calça social. Os olhos verdes acompanharam rapidamente as segundas intenções e Bella viu seus lábios se repuxando no canto.
— Mas não tanto — provocou, se divertindo às custas dela enquanto disparava para a estrada. — Ainda temos uma longa noite, Bella.
O baile não costumava ser um grande evento, mas para os parâmetros de uma cidade minúscula como Forks, com certeza poderia ser encarado como um. Principalmente o de formatura. Foi uma grande surpresa para a turma de 2011 descobrir que a Forks High School conseguiu ocupar o hotel mais luxuoso de Forks para sediar a comemoração. É claro que o hotel não era refinado de verdade, mas sua posição estratégica perto da praia de La Push com a vista para o mar lhe garantia o status de exclusividade de Forks.
O Volvo prateado encontrou dificuldades para achar uma vaga no meio do mar de outros veículos no estacionamento, a maioria das pessoas saiu da formatura direto para o baile, o que garantiu uns bons dez minutos de procura para os atrasados. Impaciente, Bella implorou para que o namorado simplesmente parasse no acostamento para que eles entrassem de uma vez, é claro que Edward fora esperto o bastante para seguir as instruções da garota caso quisesse entrar antes da meia-noite.
Quando o jovem casal cruzou a entrada, Bella imediatamente pensou que queria pular as formalidades e ir direto para a parte em que Edward e ela subiam para ocupar um dos quartos do hotel para se enroscar nos lençóis sem o medo de serem ouvidos ou interrompidos por seus pais. Mas Edward era um maldito teimoso, seria desgastante tentar convencê-lo a abandonar o baile.
A pista de dança ocupava quase todo o salão onde acontecia o baile, a multidão de silhuetas se movimentava freneticamente no ritmo da música agitada que tocava ao fundo. Tudo no local parecia combinar com o clima harmonioso que La Push carregava, a decoração iluminada trazia toques rústicos mesclados com a sofisticação nos detalhes, era perceptível o que de Rosalie e sua equipe do comitê de chefes de turma da Forks High School. Aparentemente, ela herdou alguns dotes para decorar de sua tia/mãe adotiva, Esme.
No entanto, foi o pequeno gazebo iluminado do lado de fora que atraiu a sua atenção. Os arranjos de gavinhas e folhas serpenteavam a estrutura de madeira pelas colunas até a cobertura, enroscando-se nas luzes delicadas de cor quente que transformavam o ambiente em um lugar aconchegante. Seus olhos logo caíram para o tapete vermelho estendido até o local, marcando o caminho entre os pequenos pinheiros igualmente enfeitados até a plataforma mais alta de piso de madeira reluzente.
— Está pensando o mesmo que eu? — Edward ergueu as sobrancelhas grossas ao se virar para ela.
— Eu não sei exatamente se…
Uma careta se formou em seu rosto quando Bella foi praticamente arrastada para longe da pequena multidão enquanto a chuva começava cair, ao fundo ela pode ouvir a playlist da festa tomando novos rumos, seguindo para o lado mais romântico com uma música calma e lenta. O gazebo estava deserto quando eles se moveram para lá, todos os casais se espremendo entre o pandemônio do lado de dentro.
E lá estavam eles, confortáveis em seu mundinho particular.
Edward sabia que sua namorada não era boa dançarina, então resolveu facilitar as coisas para ela. Seus braços envolveram firmemente a cintura de Bella e eles logo engataram uma dança lenta — na verdade, os dois só se balançavam de um lado para o outro, mas a garota fingiu que naquele instante eles estavam dominando a pista. Ficaram apenas ali, em silêncio enquanto seus olhos encaravam um ao outro, mas Bella notou aquele olhar intenso sobre ela, como se Edward estivesse debatendo internamente alguma coisa. O mesmo olhar que a irritara mais cedo.
— O que foi, pisei no seu pé?
— Vai me dizer uma coisa?
Uma pontada de tensão pareceu surgir naquelas mãos em sua cintura e ela franziu o cenho.
— Eu tenho escolha? — Devolveu a pergunta, uma tentativa de manter as coisas leves. Edward não cedeu.
— Só me prometa que vai me dizer.
— Tudo bem, eu prometo.
— Mais cedo, quando disse que queria que ficássemos juntos… — lembrou, girando-a delicadamente antes de voltar a falar. — Você estava falando sério, não é?
— Nunca falei tão sério.
Um vinco profundo surgiu entre as suas sobrancelhas.
— Edward, está querendo terminar comigo no baile de formatura?
— Não, eu não seria tão cruel — ele riu, não parecendo notar a seriedade daquela pergunta. — Mas não é isso.
— Então, pode começar a falar.
— É só que… Bem, prometa não surtar.
Seus saltos cravaram no chão e ela lançou seu olhar mortalmente desconfiado sobre Edward.
— Qual é o seu problema?
— Prometa — insistiu.
— Okay. Prometo, agora me fala logo!
Edward tomou fôlego como se estivesse prestes a tomar um sermão dos pais, então sua mão se afastou dela para deslizar pelos fios cor de cobre.
— Eu não fui aceito na Universidade de Chicago.
— O que? — Bella se afastou num sobressalto, encarando-o em choque.
— Você prometeu não surtar!
— Como eu não vou surtar!?
Ela deu de ombros, pisando firme de um lado para o outro no gazebo. De repente, Bella não conseguia pensar em mais nada além dos sonhos desmoronando em questão de segundos.
— Estava tudo planejado, Edward. Íamos nos mudar no outono… Como isso foi acontecer?
— Desculpe se eu não tenho o perfil que eles procuram — Edward zombou, ácido. — Acredite, Bella. Eu estava tão confiante quanto você.
Uma avalanche parecia desabar sobre sua cabeça, sua respiração irregular e suas mãos trêmulas desfazendo os cachos presos no alto da cabeça enquanto ela varria o cabelo, nervosa, entregava todo o impacto daquela informação. No entanto, ao perceber que Edward ainda pairava em uma calmaria assustadora, como se estivesse tirando um peso das costas, uma energia caótica começou a crescer dentro dela.
— O que nós vamos fazer agora!?
Questionou, esperando que ele não tivesse uma resposta. Mas algo no brilho focado em seus olhos dizia que ela estava enganada.
— Era sobre isso que eu queria falar antes de você começar a gritar — Edward revirou os olhos antes de avançar um passo e acolher seu rosto entre as mãos. — Ainda temos uma saída. Nós podemos ficar juntos, ainda podemos seguir os mesmos planos de antes… com algumas mudanças, é claro.
Suas mãos grandes deslizaram pelos braços dela até entrelaçar os dedos trêmulos enquanto Bella, em seu íntimo, torcia para que aquilo fosse apenas um terrível pesadelo. Ela esperou, sem fôlego, que Edward tivesse a solução para todos aqueles problemas, que ele simplesmente tivesse conseguido encontrar um jeito de que eles não se separassem e ainda sim tivessem tudo o que queriam.
— Venha para New Hampshire comigo — sugeriu para a garota atônita, Bella o encarava como se estivesse presa a uma outra realidade. — Você e eu podemos ficar em Dartmouth… alugamos o apartamento que quiser perto do campus, podemos arranjar novos empregos e vamos ficar bem lá até a gente se formar.
— Ma-mas… e Chicago?
— Foda-se, Chicago. Você sabe que a gente pode fazer o que você quiser em outro lugar, não precisamos nos separar, Bella. Se você achar melhor, podemos voltar para casa depois da formatura, quem sabe posso abrir meu próprio consultório e você… Bella, vai ser a melhor jornalista que essa cidade já teve.
Seus lábios se separaram, mas a voz simplesmente não saiu. Bella apenas assistiu Edward exibir todos aqueles planos a ela pela primeira vez, como se tivesse pensado nele por cada dia dos últimos anos, formulando seu futuro sem sequer deixar que ela soubesse. A esperança brilhava tão forte naquelas íris que a morena não conseguiu formular uma só frase, choque e mágoa faziam revirar seu estômago, o que abriu espaço para que Edward cometesse o maior erro de todos.
— Eu prometo ser a melhor pessoa que eu puder ser pra você — ele continuou, intensamente. — Prometo passar o resto dos meus dias tentando fazer você feliz, tentando te fazer lembrar da razão pela qual você me ama.
Um de seus joelhos se dobrou lentamente até alcançar a superfície plana e ilustrada do chão de madeira. Seus dedos exibiram então uma pequena caixinha de veludo preta quando Edward a retirou do bolso, revelando o arco prateado e estreito quando ela se abriu. Os pequenos diamantes cintilaram nas luzes do gazebo e nos olhos da garota, agora ardendo em lágrimas.
— Edward…
— Casa comigo, Bella?
Havia poucas coisas das quais ela estava convicta aos dezoito anos. Bella tinha plena certeza de que não queria continuar em Forks, uma cidade tão pequena e limitada onde seus sonhos não cresceriam nem mesmo sob constante esforço. Também sabia o que Chicago guardava para ela, o que a esperava na cidade grande poderia ser muito mais do que ela jamais esperou vivendo naquele lugar, do que jamais encontrou vivendo naquele lugar. E, por último, Bella estava convicta de que jamais amou alguém como amava Edward.
Mas o amor era o bastante?
Poderia ela deixar escapar todos os seus sonhos para se jogar de cabeça em uma vida que jamais planejou? Casamento. Como uma simples palavra foi capaz de fazê-la repensar sobre tudo? Casar aos dezoito era irracional, ela sempre imaginara sua vida ao lado de Edward, uma vida onde ambos estivessem maduros o suficiente para lidar com qualquer contrato matrimonial, uma realidade onde eles teriam estabilidade e segurança para, só então, pensar em formar uma família.
E ali estava tudo disposto em uma mesa bamba na sua frente.
Bella havia feito muitas promessas ao longo do tempo, incluindo a si mesma. Seus olhos encararam a aliança de noivado e fora como se ela simplesmente esquecesse de quem a oferecia, sua mente simplesmente focava nos planos para um futuro distorcido que ela não estava pronta para considerar.
— E-eu… — um bolo se formou em sua garganta quando sua mão escorregou para longe da dele. — Eu não posso. Não posso desistir de Chicago, nem dos meus planos…
Lentamente, Edward se levantou. Ele não ergueu a cabeça para lhe fuzilar com os olhos, a veia na sua testa não saltou e seu rosto permaneceu bem longe da coloração avermelhada de irritação da qual ela estava acostumada. Pela primeira vez, Bella não sabia o que esperar, não reconhecia a figura na sua frente.
— Você não, mas eu posso, não é? — Seu tom frio era afiado feito uma faca — Eu tenho que colocar em risco todos os meus sonhos por você, Bella. Largar tudo para viver a sua vida. Não vê o quanto isso tudo é egoísta!?
— Edward, não entende! Eu não posso ficar presa nessa cidade…
Ele bufou, varrendo os cabelos com os dedos de forma ansiosa.
— O que faria se estivesse no meu lugar? Eu iria com Chicago por você sem nem pensar duas vezes, por que não pode fazer o mesmo por mim, Bella!?
— Porque eu não sou como você!
A questão o fez vacilar por um instante e algum ponto dentro do seu peito latejou com o tom de voz que usava com ele agora. De repente, Bella soube que se não tomasse aquele caminho, por mais doloroso e arrasador que fosse, não teria mais coragem de ir a lugar algum. Então, provavelmente viveria com aquele arrependimento pelo resto de sua existência miserável.
— Não planejo viver submissa a Forks pra sempre, ganhando migalhas… Sonhando pequeno enquanto existe um mundo lá fora esperando por mim — ela fez uma pausa, travando ao fitar um Edward despedaçado, ouvindo-a. Um suspiro pesado escapou quando Bella avançou um passo, encurtando o espaço entre os dois. — Eu te amo, Edward. Sempre amei. Mas eu não posso fazer isso… Eu sinto muito.
— Bella…
Sua voz sumiu no meio do caminho enquanto ele balançava a cabeça em negação, as lágrimas manchando todas as lembranças de sorrisos lindos que ele lançava para ela.
— Quer saber, vá em frente e realize todos os seus sonhos — ele sorriu, sem humor. — Seja feliz na sua amada Chicago e em troca eu prometo uma coisa: é a última vez que você vai me ver. Nunca mais vou ser um peso na sua vida outra vez.
O fôlego lhe escapou completamente e na mente de Bella aquele semblante contorcido de raiva e rancor se registou como uma maldição. Edward não disse mais uma só palavra antes de dar de ombros e sair do gazebo, atravessando o jardim rapidamente sem se importar com a chuva forte que caía.
Deixando Bella sozinha com suas escolhas que deixariam marcas para toda uma vida.
Outono - 2011
— Me prometa que vai ligar todos os dias!
— Mãe, eu já disse que prometo.
A mulher de cabelos cor de mel puxou-a para mais um de seus abraços intermináveis e, pela primeira vez, Bella não desejou encurtar aquele momento. Seu coração estava duplamente partido naquela manhã, o grande dia de partir havia finalmente chegado e, estranhamente, Bella não se sentiu nem um pouco empolgada para a viagem. Mesmo quando sua mãe a acordou mais cedo com café da manhã na cama, mesmo quando seu pai a abraçou diversas vezes pela casa enquanto se aprontavam para sair até o aeroporto mais próximo. A garota sentiria uma falta absurda de seus pais, por mais esquisitos e desconcertados que eles fossem.
— Eu te amo, querida — ela declarou em seu ombro, enxugando uma lágrima no canto dos olhos azuis ao se afastar.
— Eu também te amo. Podem me visitar no campus sempre que quiserem.
Bastou uma olhada no velho Charlie parado mais atrás para perceber que seus olhos cor de chocolate derretido também estavam vermelhos.
— Renée, largue a Bells! Ela precisa pegar o vôo — protestou, como se não tivesse feito o mesmo pelos últimos cinco minutos antes.
— Droga, ele tem razão. Se cuide, filha.
A mulher acariciou o cabelo solto da filha uma última vez antes de Bella forjar um sorriso de despedida e seguir em frente.
Perto do portão de embarque, depois de acenar para os pais de longe feito uma criança no primeiro dia de aula, Bella se permitiu desmoronar completamente pela primeira vez em meses. Longe dos olhos preocupados dos dois, ela poderia finalmente agir como alguém que tinha seu coração partido em mil pequenos fragmentos. A verdade era que, naquele momento, Bella jamais havia se sentido tão sozinha na vida. A ausência de Edward a seu lado naquela nova aventura era torturante, ninguém a fazia se sentir tão confiante e destemida como ele.
De repente, enquanto segurava os soluços que tentavam escapar de seu peito, uma saudação a tirou completamente da nuvem deprimida.
— Hey, Bella!
Ela se virou num rompante, a esperança crescendo no seu peito só para sumir completamente quase que no mesmo instante.
— Jasper? — Bella franziu o cenho. — O que está fazendo aqui?
— Eu só vim deixar a Rose. Ela foi fazer faculdade na Califórnia, então eu finalmente vou me livrar dela.
Um sorriso forjado foi tudo o que ela respondeu. Seus olhos correram instintivamente pelo enorme saguão do aeroporto, buscando feito um cão farejador.
— Ele não está aqui, Bella.
— Eu imaginei — disse visivelmente decepcionada. — Como ele está?
Jasper deslizou a mão pela nuca e Bella pensou que talvez Edward tivesse classificado aquele assunto como proibido.
— Você sabe, ele está tentando seguir — sua boca se repuxou no canto. — O Edward embarcou há três dias para New Hampshire, ainda parecia um pouco chateado quando foi embora.
— É claro.
A garota encarou as próprias botas, sentindo seu peito pesar muito mais.
— Bella, eu sinceramente não sei o que aconteceu entre vocês. Meu irmão não quis me contar… Mas eu sei de uma coisa: Edward te ama, mais do que eu sou capaz entender.
— Ele vai ficar bem, Jazz — ela cortou, poupando-se de ouvir mais. — Agora vem aqui.
— Vou sentir sua falta também.
O loiro a abraçou calorosamente, apertado como só uma despedida exigia. Jasper e Bella haviam se tornado amigos quase que ao mesmo tempo em que ela flertava constantemente com o seu irmão, ele provavelmente era o único cara de quem a morena se aproximou que queria ser apenas amigo dela. A relação passou a ser mais forte quando Bella começou a frequentar a casa dos Cullen.
— Me prometa que vai usar casaco, não vai dirigir bêbado e vai usar camisinha em…
— Washington State — o loiro informou, sorrindo de orelha a orelha. — Eu prometo, mas só se jurar ficar longe de encrenca em Chicago… E voltar para me visitar quando eu abrir meu próprio negócio.
O sorriso genuíno caiu no rosto de Bella.
— Pode deixar — ela prometeu, ainda que não fosse cumprir. — Foi bom ver você, Jazz.
— Boa sorte, Bella!
A palma de sua mão bateu duas vezes levemente no ombro dele antes de Bella dar as costas e seguir para o seu voo. O resquício de sorriso que sobrara sumindo completamente enquanto as lágrimas transbordavam sem vergonha pelas suas bochechas,
E com um coração partido, Bella seguiu para aquele que seria seu futuro.
