Forks, Washington - Dias Atuais
Os primeiros raios cor de manteiga do enevoado sol de Forks anunciavam o dia quando Bella despertou do seu sono sentindo um pesar em cada músculo do seu corpo. A claridade invadiu timidamente por entre as persianas até tocar o seu rosto, causando um reflexo de confusão quando ela se revirou dolorida no sofá ajustável em frente a lareira acesa. Bella piscou seus olhos mais de uma vez, refletindo sobre o cômodo de designer rústico e tons amadeirados, tentando compreender como ela havia parado naquele lugar estranho.
As chamas crepitavam na lareira de pedra e madeira escura mais a frente, o bastante para aquecer seus dedos embaixo da coberta grossa que estava sobre ela. Uma calma pairava no ambiente e, apesar de se sentir confusa com as perguntas sem resposta, Bella se deixou levar pela sensação de segurança e conforto. A maciez do cobertor sobre o seu corpo e a melodia dos pássaros do lado de fora guiavam sua mente para um lugar de tranquilidade, a faziam quase esquecer da dor latejante na sua cabeça.
Então, reconhecimento lhe ocorreu.
O aroma incrível de ovos veio de alguma direção e provocou uma pontada de dor no seu estômago.
— Você dorme engraçado — uma risadinha infantil soou ao seu lado e ela se virou cautelosamente.
A menininha estava parada a poucos metros do sofá com os olhos atentos e um sorrisinho curvando os lábios. O pijama de baleias cor-de-rosa e o bichinho de pelúcia aninhado nos braços da garota foram o bastante para Bella perceber que não estava apenas sonhando.
Ela não costumava ter bons sonhos.
— O que… — ela esfregou os olhos, sentando-se. — Renesmee?
— Oi.
Ela sorriu amplamente ao ouvir seu nome, se encolhendo um pouco tímida.
As lembranças de repente reviraram em sua mente feito um emaranhado de neurônios confusos. O quase acidente na estrada, Renesmee no banco da picape, Edward agarrando a criança…
— Edward — ela murmurou para si mesma, cética.
— É o meu papai.
Seus olhos voltaram novamente para a menina, parecia tão óbvio agora que Bella se achou a maior das idiotas por não perceber antes. Mas ela não teve tempo para mais perguntas. De repente, o som de passos suaves surgiu no corredor e logo a figura alta surgiu na porta, deslizando a mão pelos cabelos cor de bronze ao se recostar na madeira.
Bella sentiu a garganta secar enquanto fitava aquele homem na sua frente. Ele parecia muito com o seu Edward de dez anos atrás, tinha as mesmas madeixas lisas de um loiro que mesclava ao ruivo, os mesmos olhos brilhantes cor de esmeralda e a mesma suavidade em cada um de seus atos, como uma nuvem de calma que pairava sobre ele. No entanto, as semelhanças acabavam por ali.
Era possível que ele estivesse mais alto?
Logo ela se deu conta de que sua percepção de altura era enganosa, Edward Cullen estava mais forte do que ela se lembrava e tinha uma confiança madura naquele olhar ou naqueles lábios levemente repuxados, aquilo arruinou a lembrança que ela guardava do seu jovem Edward. Bella também capturou certo humor no homem que a observava e se perguntou se ele sorria dela ou para ela.
— A bela adormecida acordou — disse desinteressado antes de dar uma mordida na maçã verde que carregava. — Tudo bem?
Ouvir sua voz foi a melhor e a pior coisa que Bella já sentiu em praticamente dez anos.
— Sim, mas o que diabos… — Bella se censurou ao se dar conta de Renesmee, então voltou-se para Edward novamente. — Onde é que eu estou?
— Na nossa casa, ué.
— Você ouviu ela — Edward cantarolou, piscando em conspiração para a filha.
— E… por que exatamente eu estou aqui?
— Bella, você literalmente apagou ontem a noite, vomitou no meu suéter cinza favorito e depois apagou de novo — diversão brilhava em seu semblante. — Fiquei preocupado e pedi ao meu pai que examinasse você, achei que fosse uma queda de pressão ou algo assim… mas fiquei surpreso quando ele disse que você só estava bêbada.
Merda.
— Droga, eu não devia ter bebido tanto — suas mãos correram para o rosto, uma tentativa de esconder o rubor e a vergonha. — Me desculpe por vomitar em você, eu não costumo fazer esse tipo de coisa.
— Está tudo certo, isso acontece o tempo todo.
— Sério?
— Não — ele respondeu com certo humor, apesar da expressão permanecer serena. Irritante — Essa é a parte em que você me implora para não dizer ao Charlie que dirigia bêbada por aí, colocando a vida dos outros em risco em pleno feriado.
As sobrancelhas delineadas se ergueram quando ela voltou a encará-lo.
— Implorar? — O veneno quase escorreu de seus lábios. — Você deveria me agradecer. Se não fosse por mim, sua filha teria congelado na beira da estrada sozinha.
Edward engasgou com a acusação a queima-roupa.
— Me diga uma coisa, você a salvou antes ou depois de quase passar com o carro por cima dela?
Bella fechou a cara, mentalmente xingando o homem de todos os palavrões que conhecia.
No entanto, Renesmee parecia ser a única ali se divertindo às custas dos dois adultos. Logo, Bella se deu conta de que não era saudável continuar uma discussão na frente da criança, por isso ajeitou sua postura rapidamente e se voltou para ela com a expressão mais doce de todas, ela com certeza guardaria sua carranca apenas para Edward.
— Como você está?
— Bem. Ralei o joelho, mas o papai colocou um band-aid e deu um beijinho pra sarar — ela tocou sua perna sobre as calças de pijama e sorriu carinhosamente para Edward. Então, se virou novamente — Por que você fala enquanto dorme?
— O que!?
— Nessie, tem omelete no balcão, acho melhor você ir — Edward falou antes que o rubor no rosto de Bella explodisse.
— Mas…
— Nessie.
Uma ordem silenciosa. A garotinha fez um biquinho e olhou para a mulher outra vez.
— Você quer?
— É claro — ela sorriu, pouco segura se aquela cortesia se estendia ao homem.
Então, Renesmee apenas deu as costas e desapareceu correndo pelo corredor com seus cachos esvoaçantes. Aparentemente, aquela doce menina estava muito distante da criança que ela havia encontrado na estrada, amuada e apavorada. Aquela criança que ela via agora era alegre e absurdamente parecida com o seu pai.
— Ela é linda — murmurou sem perceber.
— É claro que ela é — ele olhou sobre o ombro na direção do corredor antes de se virar de volta com um sorriso presunçoso. — É minha filha.
— Ah, cale a boca.
Seus olhos rolaram enquanto a risada do loiro escapava, irradiando o cômodo feito o sol. O sol que ela não sentia queimar há muito tempo.
— O que está fazendo aqui? — Edward perguntou de repente.
— Me responda você, aparentemente iria gostar muito de me ver dormindo do lado de fora.
Ele bufou.
— Sabe que não é disso que estou falando.
— Não que seja da sua conta — ela se levantou, erguendo o queixo em um ar de superioridade. — Mas vim passar as férias com meus pais. Um bom filho à casa torna e toda aquela baboseira.
— Acho que só está uns dez anos atrasada — provocou.
— Uau, ele estava contando!
Bella deslizou as mãos pelo vestido e, em seguida, pelos cabelos embaraçados, mas bastou que seus dedos engatassem em alguns nós para que ela desistisse de tentar parecer mais apresentável. A ideia era ridícula se considerasse que colocou todo o jantar de ação de graças em cima de Edward na noite anterior.
O par de olhos verdes ainda estava sobre ela, tensos, quando Bella decidiu recolher seus saltos scarpin cuidadosamente deixados no carpete ao lado do sofá e o sobretudo pendurado em um gancho na entrada. Os sapatos pareciam perigosamente altos demais para alguém que estava de ressaca, dessa forma ela apenas os segurou nos braços junto ao corpo.
Seguir descalça até a picape pareceu uma boa ideia.
Quando sua atenção retornou para Edward, ele ainda a encarava. Mas os lábios entreabertos pareciam hesitantes, como se uma pergunta pairasse na sua garganta, onde as palavras se perdiam. O mínimo vislumbre do que poderia estar por vir revirou o estômago de Bella, ela se preparou, ainda que estivesse convicta que não estaria nada pronta para uma conversa… naquele momento ou em qualquer outro.
Mas a baixinha retornou para sala pulando tanto quanto um gatinho enquanto equilibrava duas omeletes com tiras de bacon e algum tipo de bolinho açucarado em um prato.
— São meus favoritos — ela disse radiante, erguendo o prato para a convidada. — É mais gostoso comer quente, o papai sempre diz.
— Uh, parecem estar deliciosos! — Ela sorriu, hesitante. — Mas eu preciso mesmo ir para casa, meus pais devem estar muito preocupados.
— Você não vai comer?
A expressão da garotinha desmanchou.
— Fica para uma próxima vez, pode ser?
— Tudo bem — Renesmee concordou, desanimada.
Parecia um sacrilégio recusar um café-da-manhã tão irresistível enquanto sua barriga roncava em reclamação. Era de seu conhecimento que Edward cozinhava tão bem que fazia qualquer coisa que ela cozinhasse parecer ração de cachorro. Mas ele ainda estava lá parado na porta feito uma estátua, observando as duas interagindo com uma expressão enigmática que Bella não sabia como exatamente interpretar.
Eles não haviam terminado pacificamente, a promessa cruel de Edward ainda era um eco doloroso dentro da mente de Bella, nunca houve uma outra conversa ou desculpas, o jovem nunca atendera suas ligações ou mesmo a porta nas vezes em que ela dirigiu até a casa dos Cullen para se reparar. Apesar de todas as suas recusas de ouvi-la, Bella ainda lhe dava razão.
Por isso, era simplesmente impossível para ela continuar ali sob o seu olhar sabendo que um dia eles se amaram loucamente.
E acabaram despedaçados. Por sua culpa.
— Eu tenho que te agradecer — ela disse se virando para Edward. — Por me deixar ficar… apesar de tudo.
Apesar de quase atropelar a sua filha. Apesar de vomitar no seu suéter favorito. Apesar de ser egoísta e destruir nossas vidas, ela pensou.
— Faria isso por qualquer um.
— Eu sei que faria, Edward. Mas, obrigada do mesmo jeito.
— De nada — respondeu secamente.
Edward coçou a nuca antes de cruzar a saleta descalço, mantendo um cuidado excessivo ao passar o mais longe da morena possível. Ele abriu a porta.
Hesitante, Bella forçou seus pés a se moverem até a saída e no meio do caminho a menina visivelmente mais amigável do que o seu pai agarrou sua mão. Ela sorriu levemente, um pouco surpresa, enquanto Renesmee a acompanhava até a soleira da porta.
— Foi bom ver você de novo — ela disse ao sustentar seu olhar, embora suas palavras não passassem de mera cortesia. — E conhecer você, princesa.
A garotinha riu quando ela fez cosquinhas no seu seu pescoço com as pontas dos dedos.
— Obrigado por… — santo Deus, ele mal conseguia formar uma frase! — por ela.
— Faria por qualquer um — repetiu seu argumento de momentos antes.
Com um aceno leve, Bella se despediu da garotinha e, apesar do comportamento pouco receptivo, ela não deixou de lançar um sorriso de lado para o homem parado na porta antes de entrar na sua velha picape.
Tomando fôlego ao passar pela porta e pendurar as chaves, Bella se preparou para a série de desculpas que deveria dar aos seus pais sobre simplesmente sumir no meio da noite sem dar notícias. Nem sabia por onde começar quando encontrou Renée sentada no encosto de braço do sofá, encarando a entrada como um cão de guarda.
— Onde está o papai? — Perguntou inocentemente, largando os sapatos no canto e pendurando o sobretudo antes de caminhar até a poltrona do seu pai para jogar nela.
— Foi buscar as sobras da ação de graças na casa dos Clearwater — respondeu, amarga.
Imediatamente o nome pareceu familiar.
Leah Clearwater devia ser a filha do velho Harry, amigo de longa data do seu pai. Embora Bella não se lembrasse de vê-la nas vezes em que frequentou La Push ou nos fins de semana de pescaria do seu pai, conseguia lembrar da informação que Charlie soltara durante uma de suas breves ligações. Aparentemente, Harry descobrira que tinha uma filha fora do casamento e, sendo um viúvo com sede de novidade, se casou com a antiga amante.
Ela não teve tempo para seguir sua linha de informações soltas sobre o escândalo de cidade pequena, sua mãe logo cortou seu raciocínio.
— Será que dá para me explicar o que aconteceu ontem a noite? Angela veio me avisar que você saiu às pressas e depois ouvi Lauren Mallory sussurrando sobre uma discussão.
— Aquele jantar foi uma merda.
— Bella — ela protestou.
— Desculpe. O que eu quero dizer é que foi tudo uma armação da Lauren e da Jessica. E quer saber? Eu fui a atração principal da noite, tinha que ver a satisfação das duas em me tirar do sério.
Renée franziu o cenho.
— Elas queriam mesmo me humilhar na frente de todo mundo e parece que funcionou.
— Não acredito que Jessica fez isso! — Renée gritou, levantando em um solavanco. — O que elas disseram para você?
— Nada demais, mãe.
Bella agarrou o controle da TV e começou a mapear os canais, sem realmente procurar algo para assistir. Ela só queria se livrar das lembranças da noite anterior.
— Eu conheço você, sei que está tentando bancar a durona igual o seu pai e que elas disseram alguma coisa.
— Foram verdades — ela murmurou. — Esfregaram suas vidas perfeitas na minha cara, foi isso. E daí que eu não me casei ou não tive filhos, quem liga para isso? Estamos no século vinte e um, famílias tradicionais não deveriam ser usadas como modelo de vida. Isso nem deveria me afetar… não sei por que agi daquela forma.
Com um suspiro, Bella encolheu as pernas na poltrona junto ao corpo, abraçando os joelhos com os olhos fixos na tela feito uma criança. Ela estava irritada por ter caído em uma armadilha tão fácil e, por um momento, Bella atribuiu aquela ingenuidade a seu retorno para Forks e os efeitos que aquela cidade lhe causava. Mas, principalmente, Bella se sentiu muito pequena e vulnerável após ser cutucada pelas mulheres em lugares tão profundos dela mesma.
— Por que não me disse nada? Eu teria dado uma lição naquelas meninas!
Uma risada escapou de Bella.
— Tenho quase trinta anos, mãe. Acho que sei me cuidar sozinha — ela abriu espaço para Renée se espremer junto dela na poltrona, somente para deitar a cabeça em seu ombro. — Eu sinto muito por tudo o que aconteceu ontem. Mesmo. Não queria arruinar a ação de graças de vocês, queria tanto que fosse perfeito… Eu estraguei tudo. Desculpe.
— É, você estragou sim — disse a mulher, então seu sorriso largo se abriu e ela tocou o cabelo bagunçado da filha. — Mas estou orgulhosa de você, querida.
Um vinco de confusão se formou entre as sobrancelhas de Bella.
— Bella, eu quero que você encontre alguém com quem se case e tenha filhos, mas não porque as pessoas dizem que é o que você deve fazer e sim porque é o que você quer fazer. Já tivemos essa conversa há dez anos, eu acreditava que você era esperta o bastante para tomar as próprias decisões. Ainda acredito.
Os lábios de Bella se curvaram levemente em um meio sorriso.
Decisões, isso a fez lembrar de uma coisa.
— Eu estava na casa de Edward Cullen.
— Seu pai me disse. Edward ligou para cá tarde da noite e nos avisou que você teve uma queda de pressão, o Dr. Cullen achou que seria melhor se você ficasse por lá e descansasse. Não vou mentir, eu fiquei muito surpresa de ouvir aquilo — Renée sorriu de modo especulativo. — Como foi?
— O que quer dizer com "como foi"? — Ela deu de ombros, ainda surpresa com o fato de Edward ter limpado a sua barra e poupado a informação dela estar dirigindo bêbada. — Papai já disse tudo pelo visto, eu dormi no sofá dele. Além disso, por que não me contou que Edward tinha uma filha?
— Você não perguntou. Também não achei que quisesse saber qualquer coisa do Edward, foi o que você repetiu durante todo o verão antes de ir para Chicago.
— Bem, teria me poupado de uma baita surpresa. É possível que todos do meu passado tenham mudado tanto? Quer dizer, papai Edward, sério?
— Se visitasse Forks com mais frequência a diferença não seria tão chocante — É óbvio que ela jogaria na sua cara sempre que pudesse. — Mas, se conheceu a Nessie, deve ter percebido o quanto ela é um amor. Ela é minha aluna e é tão doce e inteligente, mas sofre nas mãos daquelas garotinhas malvadas do jardim de infância, coitadinha.
— Acho que sei como é.
— Me diga, ele continua um sonho, não é?
Bella mordeu o lábio inferior.
Ele ainda era lindo, de um jeito completamente diferente do adolescente esguio de quem ela se lembrava, mas ainda assim absurdamente lindo. Bella não deixou de notar aquela mandíbula marcada com os resquícios de uma barba clara tirada há pouco tempo, ou nos braços mais musculosos e o peitoral definido dando sinais debaixo da camiseta branca.
Sim, Edward ainda era completamente seu sonho.
— Eu nem notei isso, okay? — Ela se esquivou, ficando de pé. — Acho que preciso de um banho, roupas limpas e café bem forte…
— Eu vou buscar para você, querida.
Bella sorriu em agradecimento e sua mãe desapareceu em direção a cozinha, deixando-a sozinha com sua armadilha mental.
Dez anos ocultando seu ex-namorado de sua memória e ainda assim não parecia tempo o suficiente para esquecê-lo. Ela sentiu falta de seus momentos em casa, onde aquele passado parecia tão distante que Bella sequer o associava a si mesma, onde Edward não fazia parte de seus pensamentos como uma figura tão marcante, quase como se nunca tivesse existido.
No entanto, ali estava ela. Prestes a retornar para a estaca zero, onde seu destino provava ser um grande círculo em que ela finalmente havia dado a volta completa para voltar ao ponto de partida.
Como compensação pelos estragos da ação de graças, Bella se manteve ocupada em casa pelo resto do dia, cozinhando para os seus pais na esperança de que eles a desculpassem — ainda que não houvesse nenhuma tensão na família, ela se sentia culpada por desmanchar a noite passada — e apenas se atualizando das fofocas com Renée, uma tagarela tão assídua quanto Alice.
Não importa o quanto aquela sensação de estar em casa fosse reconfortante, Bella sentia falta de Chicago. A correria na rotina do trabalho a mantinha sempre ocupada e em Forks havia pouco que ela pudesse fazer além de ajudar a mãe em casa, algo que Bella praticamente desaprendeu com o passar dos anos, já que Alice sempre contratava ajudantes para cuidar do apartamento.
A noite praticamente caiu em um piscar de olhos e só então Bella se trancou no quarto para começar a escrever o seu artigo para a Femme's Magazine — ou pelo menos tentou. Por volta das sete, ela fechou seu notebook com um baque, furiosa. Seus neurônios pareciam queimar sem nenhum sucesso na evolução da escrita, a bolha do tédio sem saída a estava deixando histérica.
E para piorar, Bella simplesmente não conseguia parar de pensar no seu reencontro incômodo com Edward. Ela catalogava as novas informações com muita determinação, pensando na pequena criança que ele agora chamava de filha, mas sem nenhum sinal de onde a mãe dela poderia estar. Bella pensou que talvez sua esposa ainda estivesse dormindo, por isso ele não protestou quando ela se apressou a ir embora, ou em outro caso, talvez ela tivesse apenas saído.
Todas as hipóteses formuladas contribuíram para a piora do seu humor.
— Talvez devesse tentar ir mais devagar — Charlie comentou quando a filha quebrou um prato na pia enquanto lavava a louça do jantar. — Você parece estressada, porque não deixa isso aí que eu lavo? Vai acabar se cortando.
— Não, está tudo bem, foi só um acidente. Minha cabeça ainda está um pouco distraída com esse artigo que eu preciso escrever… simplesmente não sai nada que preste.
— É só isso ou ainda anda pensando sobre o jantar de ontem?
Ela parou de juntar os cacos da louça, suspirando. Seu pai podia não ser muito de falar, mas era um observador nato.
— Aquelas mulheres são uma piada — ela resmungou. — Eu não sei porque estou tão irritada com aquilo.
— Porque você é humana, Bells.
— Uma humana idiota.
— Não se deixe afetar pelo o que elas disseram, seja lá o que disseram. Sua mãe e eu estamos muito orgulhosos do que fez com a sua vida, como foi corajosa de sair da bolha e ir atrás do que você queria.
Charlie não a encarava, parecia pouco confortável com as palavras enquanto segurava sua cerveja, recostado na mesa logo atrás. Mas parecia verdade, embora ele não fosse o melhor em falar sobre sentimentos.
— Mesmo que isso tenha me arrastado para longe de vocês — ela relembrou o desabafo de Renée com a amiga.
— Querida, eu sei que não é sua culpa. Também sei que faz o que pode, estive no seu lugar antes e às vezes sinto que ainda estou.
— Do mesmo jeito, pai. Eu sinto muito por ter… sumido. É meio difícil me lembrar de que tenho outra vida além de Chicago algumas vezes.
Charlie se aproximou e tocou em seu ombro de forma reconfortante.
— Você está aqui agora, é isso que importa.
No sábado de manhã, a indisposição a atingiu feito uma bala de canhão — mesmo quando Edward a visitou em sonhos pouco apropriados à situação. Ela acordou cedo, incapaz de ficar mais um minuto presa naquele quarto pequeno. Sua primeira noite na antiga casa foi um completo pesadelo, a cama era pequena e desconfortável, ela se encolheu durante toda a madrugada encarando o teto pontiagudo.
Bella acordou duas vezes durante a noite, era quase impossível dormir com a chuva soando do lado de fora. E quando finalmente pegou no sono leve, às três da madrugada, levou um susto ao cair com um baque no chão durante uma de suas reviradas na cama.
Aquilo lhe rendeu uma aparência de zumbi durante a manhã.
— Você está horrível, Bells.
— Obrigada, pai — respondeu, revirando os olhos castanhos.
Sua mãe começou a fazer planos para o natal durante o café-da-manhã, Charlie obviamente concordava com todas as ideias mirabolantes que ela sugeria para a competição de decoração da vizinhança. No entanto, Bella não estava tão empolgada com a escolha entre bolas natalinas douradas ou vermelhas enquanto suas pálpebras pesavam sobre a pequena montanha de panquecas no prato.
— Precisamos comprar uma árvore de natal — disse Renée antes de virar algumas cápsulas gelatinosas na boca. — É sempre bom garantir com antecedência.
— O que são essas coisas? —Ela perguntou, encarando o pequeno vidro branco de onde sua mãe retirou os remédios.
Charlie franziu o cenho, seguindo o olhar da filha.
— Vitaminas e todo o tipo de colágeno que você pode imaginar. Você sabe, uma mulher aos quarenta deve manter certos cuidados.
— Claro, ainda mais quando você não tem quarenta anos.
— Mas ninguém precisa saber disso.
Bella sorriu para a mãe, dando uma boa garfada em sua comida. Renée andava por aí espalhando que tinha quarenta e cinco anos há praticamente uma década.
— Eu posso comprar a árvore hoje, não tenho nada melhor para fazer mesmo — sugeriu, virando-se para o pai. — Inclusive, eu adoraria uma ajudinha.
— Não olhe para mim, tenho que ir para a delegacia.
— Pai, olha o meu tamanho! Espera mesmo que eu consiga arrastar essa árvore para dentro sozinha?
— Cadê a sua força feminina? — Charlie folheou o jornal, desinteressado.
Suas mãos baixaram as páginas do jornal nas mãos do pai e ela lhe lançou o mesmo olhar teimoso e determinado que usava durante a infância para fazê-lo comprar algodão doce para ela depois da aula.
— Que inferno — resmungou, suspirando. — Tudo bem, eu ajudo.
— Ótimo — Bella sorriu, vitoriosa. — Podem me encontrar em La Push na hora do almoço, compramos a árvore e depois podemos comer fora. Uh, pode até ser no Lodge, ele ainda funciona, não é?
— Sua mãe e eu comemos lá toda quinta.
— Programa em família, perfeito!
A mulher comemorou, radiante.
Passava das nove quando Bella saiu de casa, voltando rapidamente da picape para checar mais uma vez se todas as portas e janelas estavam bem trancadas, Forks era muito segura e nada nunca acontecia, mas ela não gostava de arriscar. Por um instante, ela se perguntou se voltar para sua antiga casa estava reacendendo antigos costumes repetitivos que eram esquisitos demais até para ela mesma.
Como se não bastasse estar chovendo em bicas naquela manhã, Bella ainda tropeçou no meio do caminho quando um lado da sua bota engatou nas gavinhas que agora ultrapassavam o limite do gramado e se estendiam perigosamente pelo concreto. Só então, olhando ao redor, Bella se lembrou da sensação ruim de quando retornou para casa e encontrou aquele jardim descuidado, literalmente abandonado pelo tempo.
Sua mãe costumava dar muito valor às flores que cultivava, dizia que uma casa sem plantas carregava uma energia pesada, eram lindas rosas brancas que traziam beleza para a propriedade, mas não restava nada de beleza ali.
Imediatamente, Bella se perguntou o que havia acontecido com o zelo que sua mãe tinha pelas rosas e quando aquele lugar havia sido abandonado de vez. Talvez fosse apenas a rotina corrida na escola onde Renée dava aulas, ela pensou. Qualquer explicação faria mais sentido do que admitir que ela apenas tinha desistido do costume.
Renée não desistia de nada.
Não havia pressa enquanto ela dirigia pela rodovia até La Push, com a via escorregadia todo cuidado era pouco. Em vez de correr, Bella tirou um tempo para observar o quanto Forks não havia mudado absolutamente nada em dez anos, ela reconhecia os mesmos estabelecimentos que costumava frequentar na adolescência. Rapidamente, sua mente deslizou para as lembranças que ela afugentava com tanta determinação quando a picape passou em frente ao antigo fliperama da cidade, onde agora uma versão turbinada com lanchonete ocupava o lugar.
— Não foi nada justo — ela resmungou ao final do jogo, saltando para fora da plataforma enquanto Edward comemorava sua vitória ao seu lado. — Eu sou uma péssima dançarina e você sabia disso.
— Você poderia só admitir que eu venci honestamente e me pagar o milkshake da aposta, mas prefere fazer birra. Não é minha culpa se você tem dois pés esquerdos.
— Idiota, você é o cara rico aqui.
— E quero continuar assim, se não se incomoda.
A jovem Bella revirou os grandes olhos castanhos e o empurrou com o ombro enquanto eles seguiam para fora do fliperama até a lanchonete mais próxima, a dois quarteirões de distância. Ela ainda estava se acostumando com o novo nível de intimidade que compartilhavam, ou pelo menos com o novo título para a intimidade que eles já mantinham, por isso sentiu as bochechas esquentarem quando a mão do garoto deslizou para agarrar a sua pela segunda vez naquele dia enquanto caminhavam.
Edward a pediu em namoro na tarde anterior, corajosamente havia abordado Charlie e Renée em uma de suas visitas até a casa da amiga, ainda que suasse como se estivesse em uma sauna, nenhuma de suas palavras saiu vacilante. Talvez foi por esse motivo que, apesar de engasgar com a própria cerveja diante do pedido, o velho Charlie perguntou a Bella o que ela achava. Obviamente, a menina havia se apaixonado desde o primeiro dia que o encontrou na escola.
A resposta não poderia ser outra.
— Você não gosta, é isso?
— Não sei do que você está falando — ela franziu o cenho, encarando-o.
— Que eu segure a sua mão. Parece que você fica estranha toda vez que eu faço isso.
— É que… demonstrações públicas de afeto são esquisitas — explicou, puxando o cabelo comprido que a brisa trazia para o seu rosto. — Acho que puxei para o meu pai.
No mesmo instante, aquela mão foi parar bem longe da sua. Então, Bella parou no meio da calçada, fitando um Edward hesitante.
— Desculpe, eu não faço mais.
— Edward, não foi o que eu quis dizer.
— Tudo bem, é sério — ele sorriu fraco, passando a mão pelos cabelos. — Às vezes esqueço que não estamos no seu quarto ou no meu, eu não vou fazer de novo…
Embora toda aquela situação fosse nova para a menina, Bella não queria que Edward pensasse que ela sentia vergonha de exibir seu novo — e primeiro — namorado. Explicar seria o processo fácil, mas o garoto já era complexado demais para entender seus motivos, talvez com um pouco de esforço ela conseguisse passar a lidar com tudo aquilo como normal.
Foi pensando nisso que Bella ergueu as mãos para tocar o rosto do garoto carinhosamente, ela sorriu enquanto aqueles olhos lindos a encarava, tão brilhantes quanto as estrelas que raramente apareciam no céu de Forks. Então, se inclinou até que sua boca tocasse a dele levemente, Edward retribuiu com uma familiaridade que eles só compartilhavam quando estavam a sós — algo que Charlie proibiu terminantemente depois do pedido de namoro. Ela deslizou a língua pelos seus lábios, pedindo passagem exatamente como a instrução da última edição da Seventeen que havia lido.
Cada pedaço dela arrepiou quando Bella sentiu as mãos de Edward espalmando sua cintura e as costas, abraçando-a junto ao corpo enquanto suas línguas dançavam com calma, ainda que fosse estranho e novo, era incrivelmente bom.
Quando se afastaram, cedo demais, ela fitou o sorriso satisfeito do garoto e já nem sequer se lembrava do porquê não fizera aquilo antes.
— Então, acho que não temos um problema aqui — comentou com um sorriso de lado.
— Definitivamente não temos um problema.
Ela riu de seu tom confiante e Edward selou seus lábios uma última vez antes de seguirem seu caminho até a lanchonete com as mãos entrelaçadas.
O toque familiar do seu Smartphone jogado no banco do carona a retirou do seu delírio nostálgico como um soco no estômago. Bella olhou de esguelha para o aparelho enquanto dirigia e, quando a melodia cessou, ela notou as três mensagens de texto na barra de notificação. Seus olhos não eram tão eficazes em ler as mensagens daquela distância, mas pela foto exibida na chamada foi muito fácil saber que Jacob estava tentando falar com ela.
Bella sabia e até mesmo admitia que foi rude ao ir embora de Chicago sem sequer despedir de Jacob, mas não havia regras que realmente a forçava a fazer isso. Ele era apenas seu amigo colorido e a ideia de dar quaisquer satisfações sobre o seu paradeiro era um tanto perigosa, embora Jake fosse maravilhoso, também tinha tendência a confundir um pouco as coisas e Bella não queria adicionar mais um fato para que ele pensasse que estava certo.
Dessa forma, ela decidiu que ligaria de volta assim que chegasse em casa.
Algum tempo depois de atravessar os limites da reserva, a picape rangeu em alerta. Na verdade, foi apenas um rangido comum para qualquer veículo pré-histórico como aquele, mas Bella conhecia aquele carro com a palma de sua mão, o suficiente para reduzir a velocidade como precaução. Trinta segundos mais tarde, com alguns estalos mais altos, seu medo se tornou realidade e Bella só teve tempo de levar sua picape até o acostamento antes que ela simplesmente parasse.
— Não, não, não — grunhiu, tentando insistentemente acordar a picape enquanto girava a chave. — Não vai me deixar na mão agora, por favor!
Mentalmente, Bella assinalou quantas pistas de azar ela havia deixado passar desde que pisou em Forks. O traumático jantar de ação de graças, o quase acidente na estrada, sua vergonhosa ressaca seguida de um reencontro embaraçoso com o ex-namorado e uma criatividade de merda em escrever seu artigo, algo que nunca aconteceu.
Ela amaldiçoou a hora que decidiu sair de casa no meio da chuva para comprar uma árvore idiota. Decidida a não ficar apenas ali parada esperando por um milagre, Bella puxou a barra de felpuda do casaco bege até a cabeça e abriu a porta da picape, se encolhendo antes de saltar para o ar congelante que açoitou seu rosto.
Seu conhecimento a respeito de carros era bem limitado, mas assim que levantou o capô da picape e se debruçou sobre as engrenagens para avaliar, teve uma vaga impressão de que a bateria de onde a fumaça rodopiava para o alto deveria ser a causa de seus problemas.
Como se o destino quisesse provar que sua eventual maré de azar não era o suficiente, enquanto encarava os mecanismos do veículo buscando algum entendimento, um Toyota Rav4 passou a mil por hora em uma poça enorme de água ao seu lado, uma que ela sequer havia se dado conta da existência até que todas as suas roupas estivessem encharcadas.
Bella parou em choque, encarando as próprias vestes no momento em que a chuva parecia engrossar acima dela.
— Só. Pode. Ser. Sacanagem — disse entredentes, fuzilando o céu e qualquer entidade superior que decidiu a amaldiçoar naquele dia.
Sua resposta veio em forma do som alto e irritante de uma buzina logo atrás da picape falecida no acostamento. Bella direcionou seu olhar afiado na direção do novo vizinho, pronta para erguer o dedo do meio no caso de alguma reclamação, estava tão irritada que pensou que provavelmente havia deixado toda sua educação e dignidade em algum lugar do porta-luvas.
No entanto, quando estreitou os olhos para enxergar através da chuva, inconvenientemente ela encontrou o veículo prateado desligando o motor. Alguns segundos depois, a mancha de cabelos cor de bronze brotou para fora da janela do Volvo.
Sim, tinha como piorar.
O motorista então lançou seu típico sorriso torto, provavelmente divertindo-se muito com a imagem de uma Bella arrasada bem na sua frente. Ela finalmente deixou os ombros caírem, aceitando sua derrota enquanto encarava aquele maldito com uma expressão no belo rosto que sugeria que seu dia embaraçoso estava apenas começando.
— Então, quer dizer que a picape finalmente deu seu último suspiro?
