Capítulo 3


Julho de 2001

Quando Harry chegou ao apartamento de Hermione algumas semanas depois, ela não atendeu a porta, então ele mesmo se deixou entrar.

"Hermione?" ele chamou assim que entrou.

"Estou aqui!" a voz dela respondeu do quarto.

Harry a encontrou em seu banheiro, usando sua varinha para enrolar o cabelo. Ele ficou surpreso que ela ainda não estivesse pronta. Eles tinham que sair em dez minutos, e Hermione era uma daquelas pessoas para as quais "chegar cedo era chegar em ponto, e chegar em ponto era chegar tarde".

"Por que você está enrolando seu cabelo? Já está cacheado," Harry perguntou, enquanto se sentava na beirada da cama.

"Estou apenas consertando alguns cachos que parecem esquisitos. Eu – " ela abaixou a varinha e se virou para encarar Harry. "É tão estúpido, não é? Por que estou me esforçando tanto?"

"O quê? Não, eu não acho que seja estúpido. Eu não disse isso." Agora que Hermione estava de frente para Harry, ele podia ver que ela estava com uma pequena quantidade de maquiagem. Seus olhos pareciam maiores, e mais brilhantes, de alguma forma, e suas roupas eram bonitas também. Ela estava com um par de jeans escuros com uma delicada blusa creme, coberta por um casaco de lã vermelho.

"Você está... ótima."

Hermione revirou os olhos. "Experimente com uma pausa menor da próxima vez", disse ela, secamente. Ela pegou sua varinha e voltou a enrolar o cabelo.

Harry teve repentinamente a sensação de que isso era algo estranhamente íntimo para os dois. Ele estava sentado na cama dela – o lugar onde ela dormia todas as noites – observando-a se arrumar. Era estranho ele estar aqui dentro? Quando ele entrou em seu apartamento, ela disse: "Estou aqui", e não "entre aqui".

Ele se levantou e foi até a janela. Ele estava considerando abri-la, já que precisava de um pouco de ar fresco. O que havia de errado com ele? Esta era Hermione, e ela não parecia se importar que Harry estivesse em seu quarto. Ele estava tentando se lembrar se já tinha estado em seu quarto antes. Não desde o dia em que ele a ajudou a se mudar vários anos antes, mas isso tinha sido diferente. Eles não estavam sozinhos, em primeiro lugar, e todas as coisas dela estavam em caixas.

"Estou pronta," Hermione anunciou logo atrás dele, fazendo Harry pular.

Ela riu dele. "Te assustei? Eu pensei que, como um Auror, você deveria saber quando alguém estava se aproximando de você. Vigilância constante, certo?"

Harry ignorou a brincadeira e a estudou. Ela mordeu o lábio, o que só aumentou seu apelo em geral. "Vamos tentar de novo", disse ela com um sorriso tímido. "Sem hesitação desta vez, ok? Como estou?"

"Muito bom", disse Harry honestamente, então ele recuou para colocar mais espaço entre eles. Quando ele chegou à porta, ele apontou para sua roupa, jeans e uma camisa xadrez azul e branca.

"E quanto a mim?"

Hermione fez uma careta e Harry lhe mostrou a língua.

"Ah, na verdade isso ajudou a melhorar", ela brincou.

Ela tinha zerado a distância entre eles e o estava empurrando para o corredor. Harry ficou aliviado por eles terem voltado ao seu normal, brincando um com o outro. Ele não tinha a menor ideia do que era aquela sensação estranha que ele sentiu, quando estavam em seu quarto. Ele supôs estar apenas nervoso sobre esta noite.

Esta seria a primeira aparição pública que ele faria desde seu término com Ginny. E era em uma das partidas de Quadribol dela. Os repórteres teriam um dia cheio. Mas quando Ginny viera vê-lo no trabalho, alguns dias atrás, dizendo que ela entenderia se ele não quisesse ir ao jogo dela, ele deixou escapar que definitivamente iria. Esta era uma das partidas mais importantes de seu time na temporada e ele queria estar lá para apoiá-la.

Esta noite era meio que uma grande noite para Hermione também. Ron estava trazendo Lucy, e esta era a primeira vez em que eles estariam juntos em um pequeno grupo. Seriam apenas Ron, Lucy, Harry e Hermione assistindo à partida juntos.

George estava indo com Angelina, Percy e alguns de seus amigos de Hogwarts, mas eles estariam sentados na parte oposta do estádio. Neville estava participando de uma conferência de Herbologia neste fim de semana e Luna e Rolf estavam fora da cidade, procurando um certo animal exótico do qual Harry nunca tinha ouvido falar.

"A gente consegue", disse Hermione quando Harry chegou ao corredor bem ao lado de fora da porta da frente. Ele sobressaltou-se novamente quando ela colocou a mão em seu braço. Como ela conseguiu se aproximar furtivamente dele não só uma, mas pela segunda vez?

"Você está tão nervoso", disse ela, puxando a mão. "Não vai ser tão ruim assim."

Harry acenou com a cabeça e os dois Desaparataram para o ponto de Aparatação do lado de fora do estádio, na Escócia. Enquanto eles subiam o caminho para o estádio, Harry percebeu que ele não era o único que estava nervoso. Hermione estava muito inquieta. Ela não parava de cruzar e descruzar os braços e de mover a bolsa de um braço para o outro.

Harry admitiu para si que isso era mais difícil para ela do que para ele. Pelo menos Ginny não estava namorando outra pessoa. Ele decidiu tentar tranquilizá-la. "Eu sei que você perdeu seu término e tudo mais," ele começou a dizer, "mas– "

Hermione parou de sobressalto. "O quê?"

"O quê?" Harry perguntou, parando para olhar para ela.

"O que você quer dizer com 'eu perdi' meu término? Foi mútuo."

"Mas Ron deixou a fila andar primeiro," explicou Harry.

Hermione voltou a andar devagar e Harry teve que reduzir o passo consideravelmente para permanecer ao lado dela. "Tem essa agora?" ela perguntou.

"Huh... sim?"

"Mas, não é sério, essa coisa com a Lucy. O próprio Ron disse isso."

"Não importa", Harry deu de ombros. "Ele está transando com outra pessoa primeiro, então ele vence."

Hermione parou de andar novamente. Quando Harry olhou para ela, ela estava com uma expressão de extrema consternação. "Ele está fazendo sexo com ela? Ele te disse isso?"

"Não", disse Harry, agarrando o braço dela e puxando-a com ele. "Nós não vamos falar sobre isso."

Hermione acenou com a cabeça e, uma vez que ela voltou a andar em um ritmo normal novamente, Harry soltou seu braço. Ele ficou surpreso por ela não ter chegado a essa conclusão sozinha, e agora ele se sentia muito mal por ser aquele a trazer isso à tona, sobretudo logo antes dela ter que passar as próximas horas com Ron e Lucy.

"Ele não me disse nada, a propósito. Eu apenas presumi", disse Harry.

"Sim, uma sólida suposição. Claro que eles estão transando." A voz dela era triste e Harry se sentiu ainda pior. Como ele era idiota.

Eles chegaram à entrada do estádio e, uma vez dentro, Harry puxou Hermione para um lado. "Tá, eu sei algo que vai te animar," ele murmurou conspiratoriamente, "mas você não pode contar a Ron que eu te disse."

"O que é?" Hermione perguntou, intrigada.

"Você sabe como Lucy e Ron se conheceram?"

Hermione balançou a cabeça.

"Ron estava almoçando com Hannah e Neville no Caldeirão Furado, e Lucy veio dizer oi para Hannah. Hannah a convidou para sentar e conversar com eles, e logo o verdadeiro motivo de Lucy para ter passado por ali se tornou evidente."

"Qual era?" Hermione perguntou.

Harry sorriu. "O verdadeiro motivo pelo qual ela interrompeu o almoço foi porque ela queria que Ron autografasse seu cartão de sapo de chocolate."

Hermione foi dominada pelo riso. Ela agarrou o antebraço de Harry e se apoiou nele enquanto repassava a cena em sua mente. "Isso é perfeito," disse ela através de suas risadas. Harry se juntou a ela, feliz por ter conseguido fazê-la se sentir melhor.

"Obrigada, Harry, isso é exatamente o que eu precisava."

"Sempre à disposição. Você está pronta agora?" Ele estendeu o cotovelo e ela entrelaçou seu braço ao dele.

"Sim, vamos lá," disse ela com uma expressão determinada no rosto.


Uma hora depois, quando a partida de Quadribol estava já se encaminhando, Hermione se inclinou e perguntou a Harry, "Por que eles não experimentaram uma Estratégia de Pinkleton nessa jogada? Não teria sido mais inteligente?"

Antes que Harry pudesse responder, Ron exclamou de seu outro lado, soando quase acusatório, "Sério que você acabou de pronunciar uma jogada de Quadribol com precisão, e usando-a no contexto correto?"

Hermione apenas deu de ombros, mas havia uma presunção inconfundível naquela expressão em seu rosto.

"Onde está o seu livro?" Ron perguntou, estreitando os olhos nela.

"Estou tentando assistir ao jogo, Ron," Hermione disse, acenando para ele. Ela se virou para Harry. "Então, suponho que estava certa?" Ela parecia muito satisfeita consigo mesma, e Harry sabia que ela sabia que ela estava certa. Ele revirou os olhos.

Ron ainda estava olhando para eles. "Estou esperando vocês explicarem o que está havendo aqui."

Hermione deu de ombros novamente e disse com os olhos ainda focados no campo, "Harry tem me ensinado sobre Quadribol."

"Eu tentei te ensinar sobre Quadribol por anos. Mas agora o Harry tenta e você finalmente escuta."

"Harry é um professor melhor. Você se lembra da AD."

"Harry não quer estar no meio disso!" Harry anunciou em voz alta.

"O que está acontecendo?" Lucy perguntou do outro lado de Ron.

"Nada," Ron murmurou, colocando o braço em volta dela. Ele balançou a cabeça e resmungou algo baixinho antes de se concentrar novamente no jogo.

"Você conseguiu pegar essa?" Harry perguntou a Hermione, apontando para Ginny e um de seus companheiros de equipe que acabara de realizar uma complicada manobra trançada.

"Mulligan," Hermione recitou.

Harry acenou com a cabeça, ligeiramente impressionado por ela ter conseguido aprender tanto em apenas algumas semanas. Mas bem, novamente, essa era Hermione. "Que interesse repentino é esse em Quadribol?" ele perguntou a ela.

"Tudo o que você quer fazer sempre é voar ou falar sobre Quadribol, e eu realmente odeio, muito, voar..."

"Eu gosto de outras coisas," respondeu Harry, ofendido.

"Não, não gosta não," Hermione disse simplesmente.

Harry se inclinou para mais perto de Hermione e disse baixinho, "E essa é a única razão? Não tem a ver com– " ele inclinou a cabeça em direção a Ron e Lucy.

Hermione olhou de volta para o jogo. "Eu não tenho a menor ideia do que você está falando." Harry percebeu, pelo sorriso malicioso, que ela estava mentindo. Ela provavelmente estudou todas aquelas jogadas de Quadribol só para irritar Ron.

Ele balançou a cabeça e a cutucou na lateral do corpo. "Você é muito calculista, Hermione."

"Diz a pessoa que quase foi selecionada para a Sonserina," ela retrucou.

"Não era eu. O chapéu seletor estava detectando aquele pedaço da alma de Voldemort que estava dentro de mim."

"Ãh ham. Claro..."


No domingo, dois dias depois da partida de Quadribol, Harry chegou ao apartamento de Hermione logo após o café da manhã, segurando uma revista enrolada.

"O que é isso?" Hermione perguntou. Ela estava deitada de bruços no sofá, lendo um livro.

"Estamos namorando," Harry proclamou enquanto se sentava na cadeira mais próxima a ela e jogava a revista na mesa de café.

Hermione se sentou e olhou para a revista. Havia várias fotos dela com Harry na capa, todas da noite da partida de Quadribol de Ginny.

Tinha uma de Hermione recostada em Harry e rindo, com uma mão em seu braço. Havia uma foto deles andando de braços dados pelo estádio, e outra de Harry segurando o casaco externo de Hermione enquanto ela colocava os braços nele. A maior foto era de Harry se aproximando e sussurrando algo no ouvido de Hermione enquanto ela sorria.

Hermione teve que admitir que, fora do contexto, parecia um pouco que eles estavam juntos e em um encontro duplo com Ron e Lucy. Ela encolheu os ombros e recostou-se no sofá.

"Eu suponho que estamos namorando mesmo, bom saber", disse ela enquanto pegava o livro que havia abandonado antes. "Tinha qualquer coisa digna de nota no artigo que acompanha a matéria?"

Harry se recostou e colocou pernas em cima da mesa de centro. "Na verdade, não. Era apenas um relato detalhado de nosso longo, longo relacionamento "de idas, vindas e recaídas".

Hermione abaixou seu livro e franziu a testa. "O quê?"

Harry olhou para ela, confuso. "'O que' o quê?"

Ela chutou os pés dele para longe da mesa. "Sem sapatos na mesa de centro."

Harry revirou os olhos e tirou os sapatos, então apoiou as pernas novamente. Ele deu a ela um olhar que dizia: "Melhor agora?" mas ela não estava prestando atenção. Ela estava mordendo o interior da bochecha e olhando pela janela.

"O que houve?" ele perguntou.

"Eles estão insinuando que nós traímos Ron e Ginny com essa coisa de 'idas e vindas'?" Hermione não tinha problema algum com as pessoas presumirem que ela estava namorando Harry, ela sabia que isso iria explodir assim que algo mais emocionante acontecesse e acabasse nas reportagens dos jornais, mas ela não queria que ninguém pensasse que ela tinha sido infiel a Ron.

Harry acenou com a mão no ar, em desconsideração. "Ah, não, nada disso." Ele se inclinou para trás e tirou os óculos, então apertou o meio da ponte do nariz.

"Nossa primeira 'ida' foi no quarto ano, durante o triângulo amoroso com Krum", ele começou a explicar.

Hermione suprimiu uma risada com o nariz ao ouvir isso, e Harry virou a cabeça em direção a ela e sorriu. "Depois estávamos em uma 'vinda' no quinto ano, quando enlouqueci."

"Ah, certo," ela brincou. "Eu não queria namorar um maluco."

"Não, claro que não," Harry disse sério enquanto colocava os óculos de volta. "Então nós namoramos novamente no sexto ano, porque eu era popular de novo, mas eu parti seu coração e te troquei pela Ginny."

"Eu me lembro", disse ela solenemente. "Faz bem pouco que te perdoei por isso."

Harry sorriu e se inclinou na direção dela. "Bom, mas aí você tentou se vingar de mim namorando meu melhor amigo. Mas ambos os relacionamentos estavam condenados, já que nunca deixamos de nos amar."

"Ah, é por isso que esses relacionamentos não deram certo? Bom saber."

Harry encolheu os ombros. "E agora estamos juntos de novo, dando outra chance, mas o repórter do Semanário das Bruxas acha que não vai dar certo."

Harry se recostou na cadeira e Hermione olhou para a revista novamente. Ela sorriu ao ver a foto dela rindo com Harry e se lembrou do que ele tinha contado a ela sobre como Ron e Lucy haviam se conhecido. Isso tinha sido tão doce da parte dele, e exatamente o estímulo que ela precisava para enfrentar aquela noite esquisita.

"Foi uma bela montanha-russa," disse ela alegremente. "Mas se estamos condenados a partir o coração um do outro novamente, podemos muito bem acabar com isso agora mesmo."

Harry murmurou em resposta e eles ficaram em silêncio por vários momentos, perdidos em seus pensamentos. Depois de um tempo, Hermione perguntou, "Você quer namorar comigo?"

Harry girou a cabeça em sua direção tão rápido que machucou um pouco seu pescoço. "O quê?"

"Não de verdade, obviamente. Só estou perguntando se você quer ou não que eu confirme essa história quando inevitavelmente me questionarem sobre isso amanhã. Isso pode ajudar a afastar algumas de suas admiradoras."

"Ah, elas." Harry balançou a cabeça. "Você não precisa fazer isso. Eu não quero submetê-la a cartas de ódio."

"Sim", disse Hermione, pegando seu livro novamente. "Acredito que cartas de amor sejam melhores do que cartas de ódio."

Harry murmurou em resposta. Ele vinha recebendo cartas de bruxas aleatórias desde que o Semanário das Bruxas havia relatado sobre o término dele com Ginny. "Uma delas me enviou os cílios", disse ele com um suspiro.

Hermione abaixou seu livro. "O quê?"

"Pelo correio. Recebi os cílios de alguém há alguns dias. Não estou bem certo do que deveria fazer com eles. Mas essa não foi nem a pior."

"Não foi?" Hermione colocou seu livro sobre a mesa e puxou as pernas sob o corpo. "Qual foi a pior?"

Harry recostou a cabeça no sofá e apoiou as pernas na mesa novamente. "Alguém me enviou um Berrador que consistia apenas em gemidos altos e ela gritando meu nome, tipo – você sabe –"

Hermione caiu na gargalhada quando Harry jogou um dos braços sobre o rosto.

Ela cutucou a perna dele com o pé. "Ah, as dificuldades de ser o maravilhoso Harry Potter. Eu devo ficar com ciúmes? Você vai me deixar por uma dessas bruxas adoráveis?"

Harry manteve o braço sobre os olhos, mas ela o viu sorrir. "Eu não sei – eu já lhe disse o que o repórter falou. Esse relacionamento está fadado a acabar..."

Hermione riu novamente. Isso era tão ridículo. Era loucura que houvessem hordas e mais hordas de bruxas que matariam para estar na posição em que ela estava agora, sozinha com Harry. E o que era ainda mais insano era a forma como elas, de alguma forma, se convenceram de que estavam apaixonadas por ele, embora nunca o tivessem conhecido.

Harry se sentou e estava olhando para ela com curiosidade agora. "Você tem admiradores?" ele perguntou.

"Não," ela disse rapidamente, pegando seu livro novamente.

Harry notou que ela parecia um pouco triste e desejou não ter tocado no assunto. "Ei, antes que você fique confortável demais, me pergunte o que vamos fazer hoje."

Ela sorriu e manteve os olhos no livro. "Eu sei o que vamos fazer hoje. Voar ou jogar Quadribol."

Harry cruzou os braços sobre o peito. "Na verdade, não."

Hermione largou o livro. "Sério?"

"Sim, sério, eu ouvi você em alto e bom som naquele outro dia."

Hermione largou o livro de vez agora. "Ok, amor, luz da minha vida e minha única, verdadeira alma gêmea –" Harry mostrou a língua para ela, "– o que faremos hoje?"

"É uma surpresa."

Hermione apertou os lábios. Ela não gostava nem um pouco de surpresas. "Eu preciso saber pelo menos um pouquinho. Dentro ou fora de casa? Mundo Trouxa ou Bruxo? Eu preciso levar alguma coisa?"

"Mundo Trouxa, tanto dentro como fora, basta trazer você mesma," Harry listou.

Hermione acenou com a cabeça. "Ok, estou intrigada. Quando saímos? Agora?"

Harry balançou a cabeça. "Nah, vai lá, termine esse capítulo aí. Posso dizer que você está morrendo de vontade. Eu trouxe isso aqui para ler", ele se mexeu e puxou uma cópia do Profeta Diário de suas vestes. "Com sorte, posso encontrar alguma coisa com mais substância," ele murmurou enquanto abria a primeira página.

Ele se abaixou e começou a ler o jornal e Hermione voltou ao livro, mas a mente dela continuava vagando enquanto tentava adivinhar aonde Harry a levaria mais tarde.

Ela não tinha pretensão de ofendê-lo na outra noite, dizendo que ele só gostava de voar ou de Quadribol, mas meio que era verdade, e ela estava ficando cansada dessas duas atividades. Se ela soubesse que ele estava aberto a experimentar outras coisas, ela teria reclamado antes.


Algumas horas depois, Hermione estava inclinada sobre o balcão, observando com admiração enquanto Harry picava um pimentão. Sua grande surpresa era uma ida à feira para comprar algumas coisas, e a segunda atividade, dentro de casa, era preparar uma refeição com os ingredientes que compraram.

Hermione percebera, pelo jeito que Harry estava cortando, que ele de fato sabia o que estava fazendo. Ela pedira a Ron para cortar um pimentão uma vez, e ele começou a cortar a coisa inteira com sua varinha: caules, sementes e tudo. Harry, por outro lado, lavou a pimenta, cortou a parte superior e raspou o interior antes de colocá-la em uma tábua (outra coisa que Ron sempre se esquecia de fazer). E agora, Harry estava cortando a pimenta à mão.

Ela conhecia Harry a maior parte de sua vida, mas nunca tinha visto-o cozinhar. "Você realmente sabe o que está fazendo" disse ela, ainda surpresa com o que estava vendo.

Harry encolheu os ombros e seus lábios se arquearam ligeiramente.

"Eu não sabia que você cozinhava. Como é que eu nunca vi você cozinhar antes?"

"Eu cozinhava muito quando era mais jovem." Hermione viu um olhar sombrio passar pelo rosto dele. "Depois que passei a ser sozinho, preferi evitar; memórias ruins."

Hermione acenou com a cabeça e seu peito apertou como sempre acontecia quando ela pensava na infância deprimente de Harry. Ela não podia acreditar que Dumbledore tinha permitido que ele vivesse com aqueles trouxas horríveis. Ela sempre respeitara seu antigo diretor, mas isso era algo em que ele tinha errado feio.

"De qualquer forma," Harry continuou, ansioso para mudar de assunto. "Algumas semanas atrás, tentei de novo. Eu estava entediado e estava a fim de comer uma comida caseira, e fiquei surpreso ao descobrir que gosto mesmo de cozinhar. Acontece que, sem minha tia me obrigando a fazer receitas sem-graça e espiando por cima do meu ombro enquanto aponta tudo o que estou fazendo de errado, até que é bem relaxante."

"Bom, queria que você tivesse descoberto isso antes," Hermione resmungou. "Era eu quem cozinhava tudo naquela maldita barraca, e não seria nada mal um pouco de ajuda."

O rosto de Harry se contorceu de desgosto. "Estou feliz que tenha sido você. Não tem jeito de fazer cogumelos selvagens sem tempero ficarem saborosos."

"Concordo," Hermione disse com uma careta. Ela ainda ficava um pouco enjoada toda vez que via cogumelos. "Ok." Ela se levantou e foi se juntar a Harry na cozinha. "Como posso ajudar?"

Harry inclinou a cabeça em direção às berinjelas. "Corte aquelas ali."

Hermione lavou as mãos e antes de começar a cortar, ela se virou para Harry. "Só para constar. Posso acabar espiando por cima do seu ombro e apontando todas as coisas que você está fazendo de errado."

Harry sorriu e gentilmente chutou a parte de trás da perna dela. "Comece a trabalhar, querida."

Hermione se encolheu. "Ugh, 'querida'. Eu odeio esse."

[Eles estavam provocando um ao outro o dia todo com apelidos carinhosos de mentira. Os dois estavam se divertindo muito mais com todo esse relacionamento falso do que provavelmente era normal para duas pessoas que eram "apenas amigas".]

"O que você preferiria?" Harry perguntou, partindo para cortar uma cebola agora. "Bebê? Docinho? Meu mel?"

Hermione parou para pensar seriamente. "Deusa", disse ela finalmente.

"Hmm, você tem uma opinião bem elevada de si mesma", ele provocou.

"Bom, eu consegui pegar o Harry Potter."

"Ah, e eu aqui pensando que você realmente me amava", disse ele amargamente. Hermione olhou para ele e podia ver que ela acertara uma ferida. Ela o cutucou com o quadril e ele ergueu os olhos de seu picadinho.

"Brincadeiras à parte, Harry. Eu realmente amo você – não, ãh, nesse sentido, mas ainda assim muito, e não tem nada a ver com a sua fama. Pra mim ela é na verdade um impeditivo, pra ser sincera."

Harry sorriu amplamente e rebateu sua cintura de volta. "Valeu." Então ele acrescentou, alguns segundos depois, "Meu cupcake".

Hermione soltou um riso pelo nariz e revirou os olhos.


"A gente devia fazer isso," Hermione anunciou uma hora depois, enquanto comiam o ratatouille que prepararam juntos.

"Mas acabamos de fazer isso," apontou Harry, acenando para os pratos na frente deles.

"Não, tipo, com mais frequência. Gosto de cozinhar, mas cozinhar só para si é deprimente. Dá muito trabalho para essa porção minúscula, ou então se você fizer a receita inteira, terá que comer a mesma coisa por dias. Mas podemos cozinhar juntos, tipo, uma vez por semana. Pelo menos até que um de nós encontre outra pessoa. "

"Claro," ele respondeu com um encolher de ombros.

"Quer dizer, se você não quiser, eu entendo," Hermione acrescentou rapidamente. Talvez fosse estranho demais. As pessoas já pensavam incorretamente que estavam namorando. O que eles pensariam se soubessem disso?

"Acabei de dizer sim, não disse?"

"Tudo bem. Mas a sua cozinha é muito maior. Vamos cozinhar lá da próxima vez."

"Fechado, é um encontro", disse Harry com uma piscadinha. Hermione balançou a cabeça e voltou para seu prato.

Eles comeram em silêncio pelos próximos minutos, enquanto Hermione pensava em como era bom passar o tempo com alguém como Harry, com quem ela podia sentar-se em silêncio, sem se sentir desconfortável. Ela deduziu que os meses e meses a fio com os dois a sós em fuga deixaram-nos acostumados com isso. Ela se lembrava de dias inteiros em que eles trocaram apenas algumas palavras.

Harry estava pensando em como ele nunca achou que gostaria tanto da companhia de Hermione. Todas as memórias de seu tempo sozinho com ela eram meio chatas. Mas ele percebeu que não tinha sido justo julgá-la por aquelas interações.

Na escola, ela estivera completamente comprometida com seus estudos, e agora, ela ainda estava bastante comprometida com seu trabalho, mas não tinha feito nada de seu trabalho nos fins de semana desde a primeira vez que ele saiu com ela.

E a razão de todo aquele tempo com ela na barraca ter sido tão miserável foi porque os dois estavam deprimidos com a partida de Ron, e seus humores foram ainda mais prejudicados pela Horcrux. Nada disso tinha sido culpa dela.

Hermione era na verdade muito divertida, e ele se sentiu mal por tê-la descartado antes. Ele estava feliz que seus términos mútuos os estivessem forçando a passar mais tempo juntos. Em alguns aspectos, ele até preferia ela a Ron. Com Ron, ainda havia um certo sentimento persistente de ciúmes que Harry precisava cuidar.

Por exemplo, na semana passada, Robards designara Harry como o Auror Principal em seu novo caso, investigando um Bruxo das Trevas que estava negociando poções ilegais. Quando Ron descobriu, Harry percebeu que ele estava se esforçando bastante para aparentar apoio, mas estava obviamente desanimado e tentando esconder isso.

Mas quando Harry contou a Hermione, ela ficou genuinamente feliz por ele, e disse que ele deveria sentir-se muito orgulhoso, já que era uma atribuição de prestígio para um Auror Júnior.

"Hey, eu tenho uma pergunta," disse Harry.

"Hmm," Hermione respondeu enquanto terminava de mastigar com a boca.

Harry de repente ficou nervoso. Ele estava prestes a convidá-la para ir aos Dursley com ele no próximo fim de semana e se sentiu muito mal com isso. Ele normalmente levava Ginny aos jantares semestrais na casa de sua infância, mas obviamente ela não era mais uma opção. Ir sozinho também não era uma opção, ele não achava que teria forças para lidar com isso.

Então, sobravam Ron e Hermione. Ele achava que Hermione era a melhor escolha, já que ela estaria mais confortável no mundo trouxa, mas ele se sentiu mal por querer submetê-la a um jantar tão horrível. O que ela fez para merecer isso? O que ele fez, por falar nisso?

"Pode falar, sou eu," ela disse gentilmente, percebendo sua apreensão.

"Sim. Uh – eu vou aos Dursleys no próximo fim de semana."

"Ah."

"Sim, eu ainda os vejo duas vezes por ano, e é muito chato e estranho, mas, bom, Ginny geralmente vai e—"

"Sim."

"Sim, o que?" ele perguntou.

"Sim, vou com você. Era isso que você ia perguntar, não?"

"Hum, sim. Tem certeza?" Harry mordeu o lábio e desviou o olhar de Hermione. "Vai haver muitos silêncios e olhares constrangedores, e a comida nem será tão boa e—"

"Acabei de dizer sim, não disse?" Ela lhe assegurou com um sorriso, copiando sua resposta petulante de antes.

Harry deixou escapar um suspiro de alívio. Uma parte dele esperava que ela dissesse não, ou pelo menos hesitasse. Mas isso tinha sido estúpido da parte dele. Quando é que Hermione não esteve lá para ele? Ela sempre estava lá quando ele precisava dela. "Obrigado."

"Sempre que precisar, bixinho."


O jantar com os Dursley começou bem. Vernon falou monotonamente sobre brocas, então Duda falou sobre a universidade e como ele ainda não havia decidido um curso de estudos. Valter lhe deu um tapinha nas costas e declarou que tinha muito tempo para decidir. Ele olhou feio para Harry e disse que não era natural que pessoas de sua idade achassem que sabiam o que queriam fazer pelo resto de suas vidas.

Hermione abriu a boca para falar, mas Harry colocou a mão em sua perna e ela segurou sua língua. Quando o assunto mudou para Harry, como geralmente acontecia por cerca de dois minutos de cada janta, as coisas vieram abaixo.

"Como está o trabalho?" Vernon perguntou em um tom que deixava claro que ele não se importava.

"Bom", disse Harry rapidamente.

"Você devia contar a eles sobre aquele novo caso que lhe deram," Hermione adentrou no assunto.

A mesa inteira ficou em silêncio. Merda, Harry tinha se esquecido de dizer a ela que eles nunca discutiam sobre o Mundo Mágico nesses jantares. Ele gentilmente pisou no pé dela.

"O quê?" ela se inclinou e sussurrou.

"Eles não sabem o que eu faço."

"Nem queremos saber", disse Vernon em voz alta.

Hermione olhou feio para ele. "E por que não?"

"Nós temos um acordo de que Harry não discuta o seu mundo nesta casa, garota," Vernon respondeu perversamente.

"Não a chame de garota. Ela tem um nome; é Hermione," Harry retrucou.

Petúnia colocou a mão no braço do marido. "Não vejo mal nenhum em saber qual é o trabalho dele. Devíamos nos orgulhar de que ele tenha um, você lembra como estávamos preocupados que ele acabasse vivendo de ajuda do governo."

Hermione fez uma careta quando Harry revirou os olhos. "Bem, fale logo então, o que é que você faz?" Vernon perguntou a contragosto.

Harry mordeu o lábio. Ele estava irritado com Hermione, mas sabia que não era culpa dela. Ele não a tinha preparado bem o suficiente. Ele calculou que ela ficaria bem, já que ela sabia como agir no mundo trouxa, mas ele sempre se esquecia que preparar alguém para o mundo trouxa e prepará-lo para os Dursleys eram duas coisas distintas.

Sua tia e seu tio eram quase impossíveis de se explicar. Ele nunca conseguiria transmitir adequadamente o quão ruins eles eram para alguém que não os conhecia ainda.

"Policial," Harry murmurou baixinho. Ele sabia que as reações seriam ruins e se preparou para as consequências inevitáveis.

"O quê?" Vernon resmungou. "Fale pra fora, garoto."

"Ele disse policial, mas não está exatamente correto. É mais 'elite' do que isso, como se fosse um detetive neste mundo", explicou Hermione.

Todos ficaram quietos, então Vernon caiu na gargalhada. Até Duda e Petúnia sorriram para si mesmos.

"E o que é tão engraçado?" Hermione perguntou, com raiva agora. "É tão difícil acreditar que a mesma pessoa que derrotou o bruxo mais sombrio e poderoso de todos os tempos entraria nessa linha de trabalho?"

"Você o derrotou?" Petúnia perguntou rapidamente, virando-se para Harry.

Harry acenou com a cabeça, enquanto Vernon perguntou: "Quem disse? Ele? Havia alguma testemunha?"

Hermione estreitou os olhos para Vernon. "Eu estava lá, eu o vi."

Hermione percebeu que Dudley parecia impressionado. Petúnia estava franzindo as sobrancelhas, e Harry estava olhando para seu prato.

"Impossível," declarou Vernon.

"O que te faz dizer isso?" Hermione perguntou a ele.

"Hermione," Harry disse baixinho, um aviso claro. Ela o ignorou e se voltou para Vernon.

"Estou me referindo aos seus problemas comportamentais quando criança", explicou Vernon. "Isto, e seja lá qual problema em que os pais dele se enfiaram para acabar se matando—"

"Não!" Harry levantou-se com raiva. Hermione quase podia sentir a magia crepitando na superfície de sua pele e se perguntou se o primo dele, que estava do outro lado da mesa, podia sentir também.

"Eu já havia lhe dito, você pode me insultar o quanto quiser, eu sei que você não consegue evitar, mas meus pais estão fora do limite!" Harry jogou o guardanapo na mesa e saiu furioso da sala de jantar.

Hermione encarou todos eles, um de cada vez, antes de ir se juntar a Harry. Havia tanta coisa que ela queria dizer, mas ela sabia que suas palavras se perderiam neles. Ela parou no corredor e respirou fundo. Foi quando ela percebeu. Uma porta embaixo das escadas.

Ela caminhou lentamente pelo corredor e espiou para dentro. Estava escuro, então ela puxou uma corrente próxima para acender a lâmpada. O pequeno armário estava cheio de caixas. Ela estava prestes a fechar a porta quando percebeu que as caixas estavam empilhadas em uma pequena cama de montar. Foi quando seu coração se partiu.

Harry disse a ela há muito tempo que ele tinha dormido em um quarto sob as escadas enquanto crescia. Ela não tinha sido capaz de imaginar isso, já que ela até hoje só tinha visto armários embaixo de escadas. Agora ela entendeu. Certamente ninguém poderia ser cruel o suficiente para deixar uma criança dormir aqui, mas aqui estava a prova. Por que mais haveria uma cama aqui?

Ela se encostou no marco da porta enquanto as lágrimas inundavam seus olhos. Ela não sabia o que a deixava mais triste, imaginar Harry aqui com cinco anos de idade, provavelmente com medo do escuro, ou imaginá-lo como ela o conheceu, com onze anos e grande demais para este espaço apertado. Que tipo de pessoa poderia tratar uma criança assim? Principalmente uma tão gentil e amorosa como Harry.

Ela enxugou os olhos e saiu pela porta da frente. Harry estava sentado na porta com os cotovelos sobre os joelhos e o queixo apoiado nas mãos.

"Eu sinto muito," Hermione começou. "Eu não deveria ter insistido. Você sabe que sou muito intrometida. E eu—"

"Está tudo bem," Harry interrompeu. "Apenas cale a boca e venha sentar aqui comigo."

Hermione se sentou ao lado dele, conforme ele lhe instruiu, então vasculhou seu cérebro por algo apropriado para dizer. Mas embora ela soubesse mais palavras do que a maioria das pessoas, nenhuma delas parecia adequada para o momento presente.

Harry falou primeiro. "Vê aquele arbusto de hortênsia?" Ele inclinou a cabeça para um grande arbusto à sua direita.

Hermione acenou com a cabeça.

"Naquele verão depois do quarto ano, eu ficava ali, ouvindo as notícias que saíam pela janela. Era melhor do que assistir com minha tia e meu tio, já que eles desconfiavam do por que eu queria assistir ao noticiário. De qualquer forma, eu estava apenas esperando confirmação de que Voldemort havia voltado. Eu tinha certeza de que alguma versão simplificada disso seria relatada no noticiário trouxa. Mas, bem..."

Harry não sabia por que ele disse isso a ela. A memória surgiu em sua mente e ele sentiu que precisava dizer algo, mas não queria falar sobre o que tinha acontecido lá dentro. Ele estava reconsiderando ter trazido Hermione esta noite. Ele deveria ter escolhido Ron. Hermione era tão intuitiva, e agora, ela sabia.

Ron teria sido como Ginny. Ele teria notado o quão horríveis os Durselys eram e diria a Harry que não sabia como os aguentou enquanto crescia, mas ele não teria feito a conexão entre como eles eram agora, e como isso seria sentido por uma criança. Como teria sido se os únicos adultos de sua vida, sua única família, odiassem você, nunca pensassem que você era bom o suficiente, e manifestassem suas opiniões sobre o assunto diariamente.

"Eu não sabia o quão ruim realmente era," Hermione sussurrou como se estivesse lendo seus pensamentos.

Sim, Harry pensou consigo mesmo. Ela sabe.

Hermione estava pensando em todas as histórias que Harry contara sobre sua infância sob uma perspectiva diferente, agora. Uma que veio a mente foi uma conversa com Ron sobre aranhas. Ron estava explicando por que as odiava tanto, contando mais uma vez a história de como Fred e Jorge transformaram seu ursinho de pelúcia em uma aranha. Harry entrou na conversa e disse que não se importava com elas. Ele brincou que, enquanto crescia, as aranhas em seu quarto eram algumas de suas melhores amigas.

Hermione sabia agora que a piada não estava longe da verdade. Ela deitou a cabeça no ombro dele. Ela estava se perguntando agora como Ginny suportava esses jantares sem amaldiçoar alguém. Seu temperamento era pior do que o de Hermione.

Harry estava pensando em Ginny também. Ele tinha a preparado tão completamente, muito mais do que Hermione, principalmente porque Ginny cresceu em uma família de bruxos. Ele disse a ela que era melhor se ela não falasse, e que se ela quisesse falar, que não fizesse nenhuma menção ao mundo mágico.

Ela então segurou a mão dele sob a mesa, mordeu a língua e, quando eles voltaram para casa, ela insultou os Dursleys e apontou tudo de errado com cada um por horas a fio. Eles riram um pouco, e depois seguiram em frente.

"Harry, preciso te falar uma coisa", a voz de Hermione interrompeu os pensamentos de Harry. Aqui estava. Ele pensou que ela pelo menos esperaria até que eles voltassem para sua casa antes de começar qualquer palestra que ela tivesse planejado. Ele respirou fundo e se virou para encará-la.

Hermione colocou as mãos nos braços de Harry, depois os acariciou para cima e para baixo algumas vezes enquanto tentava reunir coragem para dizer o que estava pensando. "Ok," ela finalmente começou.

Harry acenou com a cabeça para ela continuar.

"Eu sei que você vai detestar isso e pensar que sou muito intrometida. E eu tenho certeza que você já decidiu que vai trazer Ron com você da próxima vez, mas eu preciso desabafar, mas depois que eu falar, não vou tocar no assunto de novo."

Ela fez uma pausa para respirar novamente e apertou os braços dele com mais força.

"Esses trouxas são horríveis. É visível que eles nunca te amaram, e ainda não amam, mas isso não é por conta de nenhum erro seu. Não há nada de errado com você, Harry. A maneira como eles te tratam, é por causa deles, não você. Você é uma pessoa incrível, e todas as outras pessoas em sua vida que vieram a conhecê-lo o amaram: eu, Ron, Ginny, Luna, Neville. Adultos também. Dumbledore, Sirius, Lupin, McGonagall, Molly e Arthur."

Lágrimas corriam livremente pelo rosto de Harry, mas ele não se mexeu para enxugá-las. Hermione estava segurando seus braços, é verdade, mas mais do que isso, ela finalmente tinha visto a verdade de como ele cresceu, que era a coisa mais particular que ele tinha para compartilhar. O que eram algumas lágrimas depois disso?

"E esses jantares," Hermione continuou. "Você deveria parar de comparecer neles. Você não deve nada a eles. Eu sei que você disse que seu primo é um pouco melhor sozinho, então talvez apenas encontre com ele separadamente, longe daqui e desta casa horrível."

Hermione suspirou e finalmente soltou os braços de Harry. "Eu sei que estou indo longe demais. Eu só – me mata ver você sofrendo, e é óbvio que esses jantares machucaram você. Eu não sei. Desculpa, Harry. Eu sei que tornei esta noite muito pior, e não era minha intenção. "

Hermione se virou para encarar a rua e enxugou algumas lágrimas que haviam caído em suas bochechas. Ela também queria dar a Harry uma chance de enxugar suas próprias lágrimas.

Harry estava se arrastando. O frio que se instalou na boca do estômago assim que ele se sentou à mesa da sala de jantar estava finalmente começando a se dissipar. Harry sabia que queria algo nesses jantares, mas não tinha certeza do quê. Ele só conseguira concluir que não conseguiria encarar sozinho.

Então, a cada poucos meses, ele vinha com Ginny, e os dois permaneciam em silêncio, e insultavam os Dursley mais tarde. Mas não era bem isso que seu coração tanto ansiava. Isso aqui é que era. Ele precisava que outra pessoa soubesse. Ele precisava que ela dissesse que nada disso tinha sido culpa dele, e ele precisava de permissão para deixar tudo para trás. Hermione deu tudo isso a ele em menos de um minuto. Ele deveria ter trazido ela antes.

Harry enxugou os olhos, então levantou-se e ofereceu a mão a Hermione. Ele a colocou de pé e cuidadosamente colocou as mãos em seus braços, como ela tinha feito com ele. Ela esperou por seu sermão, mas ele nunca veio. Em vez disso, ele a puxou para perto e a abraçou forte.

Eles não disseram nada. Eles não precisavam.

Depois de um longo tempo, quando Harry se desvencilhou, ele voltou-se para a casa, mas Hermione segurou sua mão. "Não. Vamos embora."

Ele estava prestes a protestar quando ela continuou: "Eu sei que é rude, mas quem se importa? Eles foram rudes."

Harry encolheu os ombros. "Sim, ok." Ele supôs que nada era tão ruim quanto a forma como havia saído naquele verão antes do terceiro ano, quando ele inflou a tia Marge.

Eles desceram a Rua dos Alfeneiros em silêncio, indo para um bosque de árvores onde poderiam Desaparatar sem serem vistos. Assim que chegaram, Hermione balançou a bolsa e disse com um pequeno sorriso, "Eu tenho algo que vai te animar."

"Sério? O quê?"

Para a surpresa de Harry, ela puxou a sua vassoura da bolsa. Ela olhou em volta para se certificar de que ainda estavam sozinhos antes de entregá-la a ele. "Eu esperava que algo assim pudesse acontecer, então trouxe isso, por precaução."

"O que você espera que eu faça com isso?" Harry perguntou, ainda confuso.

"Voe para casa. Eu sei que é um longo caminho, mas será uma boa oportunidade para clarear sua cabeça, e acho que até você chegar em Londres, você já estará se sentindo melhor."

Harry começou a balançar a cabeça. "Você sabe que isso é ilegal, não sabe?"

"Ah, sim, eu trouxe isso também." Hermione enfiou a mão na bolsa e tirou a Capa de Invisibilidade de Harry.

"Quando você pegou isso? Espere – foi por isso que você estava demorando tanto no banheiro, antes?"

Hermione encolheu os ombros.

Harry soltou uma risada. Intrometida, de fato. Ele estava se lembrando de como se sentira estranho sentado no quarto dela, uma semana atrás. Claramente, ela não tinha a mesma hesitação de estar no quarto dele.

Harry puxou Hermione para outro abraço, então sussurrou em seu cabelo, "Vem comigo."

Ela riu e o empurrou. "Não, obrigado. Você certamente estará voando mais alto do que três metros. Eu Aparatarei de volta para sua casa e encontro você lá."

"Vamos," Harry disse enquanto passava a perna por cima da vassoura. "Eu não vou deixar você cair. E isso vai me fazer sentir-me melhor."

"Harry... eu realmente não quero..." ela reclamou.

"E eu realmente quero que você venha..." ele choramingou de volta. "Agora venha aqui, nós dois sabemos que você vai ceder, então vamos pular direto para essa parte."

Ela mostrou a língua para ele, mas de fato se aproximou e montou na vassoura, bem na frente dele. Harry lançou Feitiços de Desilusão na vassoura, depois sobre eles mesmos, só por precaução, antes de colocar a capa sobre eles. Hermione aplicou Feitiços Adesivos entre a capa e seus braços para que ela não se soltasse com o vento.

Quando eles estavam invisíveis, Harry corrigiu as mãos de Hermione na vassoura, depois envolveu um de seus braços em volta da cintura dela, segurando-a com força contra seu peito. Ele manteve a outra mão em cima da dela, para que pudesse guiar a vassoura.

"Preparada?" ele sussurrou.

Hermione acenou com a cabeça e um arrepio desceu por seu corpo. Ela não sabia se era devido à sensação da respiração quente de Harry em seu pescoço, ou do medo de pensar em quão alto eles estariam prestes a subir.

Harry decolou e gradualmente aumentou de altitude, para não alarmar Hermione demais. Ele podia senti-la tremendo na frente dele e a segurou com mais força. Ele apoiou o queixo no ombro dela. "Você está bem, Hermione. Feche os olhos se precisar, mas você está segura comigo, ok?"

Ela assentiu violentamente e ele soltou uma pequena risada. Ele estava saboreando a sensação de estar tão perto de alguém novamente. Ela parecia tão quente e sólida contra seu peito, era o tipo exato de conforto que ele precisava agora. Ele disse para si mesmo que teria se sentido assim com qualquer bruxa, que ele só estava sentindo falta de ter alguém que pudesse segurar tão perto assim. Ele disse a si mesmo que não tinha nada a ver com Hermione, especificamente.

[Ele estava errado, é claro, mas levaria mais alguns meses para ele descobrir.]

Hermione estava com medo demais para conseguir considerar completamente como era estar nos braços de Harry. Ela percebeu, sim, que se sentia segura, embora estivesse fazendo uma das coisas que mais a assustava. Mas havia muitas outras coisas que ela não percebeu.

Como o quão perfeitamente seus corpos se encaixavam. Ou como a voz baixa dele em seu ouvido arrepiou os pelos de sua nuca. E como a sensação dele envolvendo-a com o braço ao mesmo tempo a excitava e acalmava. Havia sinais claros de que havia algo mais do que amizade aqui, mas ela estava distraída demais para encaixar as peças no momento.


N/A: Obrigada a todos pelo apoio esmagador a esta história! Agradeço também à minha beta-reader, Lancashire Witch. Ela lê esses capítulos em poucas horas depois de eu tê-los mandado para ela, o que me ajuda a enviá-los a vocês mais rápido! Meu plano por enquanto é que essa história tenha cerca de 12 capítulos. No entanto, minhas histórias sempre tendem a se esticar à medida que as escrevo, então veremos...