J~L
A armadilha estava montada e pronta.
Não havia sido difícil encontrar tudo o que precisava, já que seus pedidos "eram uma ordem". Então, no momento que James anunciou que estava indo caçar naquela manhã e iria preparar sua armadilha, todo o material apareceu como em um passe de mágica. Isso havia sido cômodo? Sim, mas ele não ia cair nessa falsa sensação de bem-estar daquela posição.
Agora, ele estava agachado atrás de uma árvore, esperando a sua presa aparecer. Ela não estava longe, pois o lugar foi estrategicamente escolhido por James tê-la visto de longe, mas a presa ainda terminava de comer a sua própria refeição, então estava esperando.
Aquela espera podia perdurar por muito tempo, mas ele adorava estar ali fora e ser responsável por sua própria comida. Era aquela sensação de ser livre e não precisar depender de ninguém à sua volta para nada, incluindo se alimentar. O que não daria para voltar a isso novamente? Estar bem acolhido era bom, mas o que mais isso trazia para sua vida? Absolutamente nada.
Lembrou dos tempos de adolescente em que corria pelas florestas, fugindo de algum dono de comércio onde ele roubara um pedaço de pão, ou frutas e legumes de alguma feira matinal de vilarejos. Hagrid sempre o repreendia, mas se não fosse por aquelas escapadas e pequenos furtos, eles passariam fome muitos dias e noites. Foi por isso que James começou a aceitar trabalhos duros em propriedades: para ganhar corpo, dinheiro e experiência. Passar fome e frio e deixar Hagrid na mesma situação era inconcebível para ele.
Mas ali estavam. Em Hogwarts, ocupando quartos imensos, camas moles, fogueira bem abastecida, comida a hora que quiser e da melhor qualidade, roupas suficientemente quentes para mantê-los do lado de fora por horas sem bater o queixo...
E mesmo assim, James sentia que vivia um pesadelo.
Ouviu barulhos na neve e, espiando, viu que a presa chegava lentamente perto da armadilha...só mais alguns passos.
- Atchim!
James fechou os olhos, sem querer ver a sua presa fugir o mais longe possível. Se virou para trás e fulminou um dos guardas que o acompanhavam, querendo que ele se sentisse sim um merda, porque ele acabou de afugentar o jantar dele daquela noite, o jantar que ele estava louco para ter...uma caça sua, finalmente.
Levantou-se, colocou sua espada de volta na bainha e marchou em direção ao seu cavalo.
- Desculpe, vossa Majestade.
Ele não respondeu e seguiu o caminho, sendo seguido pelos guardas.
Inferno de vida, inferno de fardo nos ombros que carregava. Por que havia sido com ele, justo com ele? A pessoa que menos se importa com toda essa merda de monarquia, de castelo e de malditos guardas que espirram tão alto enquanto caçam.
Maldito tudo isso que afastou Lily.
Subiu no cavalo e rumou em direção ao castelo sem esperar. Ele não esperava por eles, nunca. Estava cansado de ser seguido, bajulado, mimado e todo o resto. Queria sossego, paz, uma boa caça para preparar para o jantar, uma boa noite de sono e...Lily. Diabos, como aquilo doía. Uma semana já se passava desde que acordara e descobriu que Lily não iria voltar, uma semana que estava vivendo um inferno, uma vida de merda e que, constantemente, as pessoas gostavam de dizer que ele era sortudo por tê-la.
Ele não era, pois para James, era uma maldição.
Cuidou de seu cavalo, levando-o até os estábulos, lhe dando água e comida e uma boa escovada. Era outra coisa que todos diziam que ele não precisava fazer, pois tinha quem o fizesse, mas ele ignorava tudo.
O sol já se punha quando voltou ao castelo e conseguiu chegar até a tal sala de reuniões designada por ele. Era o único lugar que gostava do castelo, pois tinha uma vista maravilhosa das terras de Hogwarts...uma vista que lhe dava a sensação de liberdade, algo que ele já não conhecia mais.
- Como foi a caça?
Se virou para encarar Sirius na porta, junto com Marlene. Ele suspirou e se deixou sentar no beiral da janela.
- Horrível! - Se limitou a responder. - O que tem aí?
Sirius carregava alguns pergaminhos consigo e sabia que era para ele. Descobriu que brigar e ignorar não adiantava, então era sempre melhor lidarcom aquilo o mais rápido possível para que desaparecesse do mesmo modo.
- Algumas coisas que Hagrid conseguiu trazer sobre o reino, como a situação está nesta última semana.
- Temos que parar de fugir da coroação, James. - Marlene disse. - Há algumas pessoas que acham que é tudo mentira, estão espalhando medo entre todos. Hagrid e Dumbledore estão lidando bem com isso, mas chegará uma hora que sairá de nosso controle.
Tirou os pergaminhos das mãos de Sirius e começou a ler, sem interesse nenhum. Quando chegou no meio do monte, uma nota solitária chamou sua atenção.
"Grupo de guardas da manhã comandado por Fabian
Grupo de guardas da tarde comandado por Edgar
Grupo de guardas da noite comandado por Gideon"
Troca diária.
De repente, Sirius arrancou os pergaminhos de suas mãos.
- Desculpe, só...ahm...- Sirius passou os olhos e arrancou dois pergaminhos do monte, entregando o resto. - Aqui. Há coisas aqui que só vão te fazer perder tempo, então...bem, olhe apenas o resto.
- O que é isso sobre guardas, trocas diárias?
- Nada. Sobre a sua segurança.
- Eu sei que tenho guardas colados na minha bunda, Sirius, mas não é sobre isso aquela nota.
- Não é algo que tem que se preocupar. - Marlene interveio. - Apenas tomamos conta dos nossos.
Virou de costas e voltou para a janela, olhando as cadeias de montanhas, querendo respirar aquela liberdade novamente. Sabia, de alguma forma, que aquela nota era sobre Lily, não precisava ninguém para lhe apontar isso.
Não era novidade que havia grupos de guardas que saiam sempre, não poderia contar quantas vezes os viram sair enquanto olhava por aquela mesma janela. Nenhum deles estava fora do castelo, morando em outro lugar, então aquela proteção toda só podia ser para uma única pessoa...a única que não estava com eles.
Após descobrir que ela não voltaria, mesmo Marlene querendo conversar mais com ele, James não se importou. Porque, no final, não importava mesmo. Não quando vinha da boca de outra pessoa e não de Lily. Ele queria olhá-la no fundo dos olhos e ouvir o motivo dela ter ido embora, de ter deixado os planos para trás daquele jeito, de ter deixado ele para trás. A falta de sinal dela, aquele desaparecimento era tão estranho, tão diferente do que era Lily, que não se culpava por não parar de pensar naquilo, de ter se irritado com o fato das pessoas terem escondido isso no começo, não querendo falar onde ela estava.
- Vai querer dar uma olhada nas notas sobre...
- Não! - Ele cortou Sirius sem se virar. - Leve para Remus, ele sempre sabe o que é melhor para o reino sobre essas coisas.
- Mas ele não é o rei. - Sirius insistiu.
- Eu também não sou. Não fui coroado.
- Mas você é o Potter, não ele.
- Leve esta merda para Remus. - James repetiu, tentando controlar sua raiva, coisa que vinha fazendo por dias. Ele amava todas aquelas pessoas, mas passaram dos limites escondendo coisas dele. - Feche a porta ao sair.
Entendendo que não eram mais bem-vindos, Sirius olhou para Marlene e a puxou consigo para fora, fechando a porta logo em seguida. O sol já estava bem escondido e o tempo parecia estar mudando, provavelmente deveriam esperar por mais neve naquela noite, e o terreno já estava escuro o bastante, mas não para escapar de seus olhos um grupo de guardas saindo pelas portas dos fundos do castelo. Reconheceu Gideon montando no cavalo da frente e assistiu enquanto todos disparavam em direção à floresta. James sentou-se novamente no beiral da janela, esperando. Em torno de uma hora depois, viu um grupo de guardas voltando, mas sendo liderado por Edgar.
Ele sorriu levemente.
Amanhã seria dia de caçar e mal podia esperar por isso.
Apesar do frio e de toda a neve que insistiu em cair durante a noite, o sol estava de volta.
O céu azul estava em toda a sua glória, mesmo sendo uma manhã gélida. Na noite anterior, guardas reais passaram para trazer uma carta e encomenda de Sirius, fazendo-a morrer de saudade de todos eles. Apreciou o cuidado que ele teve com a encomenda, já que sabia como Lily lidava com animais mortos, principalmente coelhos, enviando pedaços de carnes já cortados e prontos para irem ao fogo. Ela não precisava fazer nada mais do que deixá-los do lado de fora, no frio, antes de consumi-las..
Olhou novamente para a carta que Sirius mandou. Ele a fizera sorrir. A falta que todos eles faziam era enorme. Aprendera a amá-los como sua família, a única que lhe restava, mas que deveria se manter afastada.
Já estava naquela cabana há uma semana e sabia que Marlene e Dorcas a visitariam logo mais, então conversaria com elas sobre o que andava pensando ultimamente.
Poderia ir para França, finalmente. Aquele era o seu plano, o plano que Sirius oferecera no começo de tudo. O que ela tinha ali, afinal? Teria que depender de visitas de Marlene e Dorcas, recebendo alimentos de Hogwarts? Não, ela estava livre agora. Poderia pegar um barco para a França e recomeçar sua vida. Começaria trabalhando para alguma família, cozinhando, limpando, cuidando de cavalos, se necessário. Ela não tinha medo do que faria lá, mas ela tinha medo de como poderia acabar estando ali naquelas condições.
Pegou o pano onde tinha as carnes guardadas e as levou para fora. Como já havia cortado e preparado alguns legumes para uma boa sopa, não prepararia carne naquele dia. Sirius pediu na carta para amarrá-las o mais alto possível para evitar alguns animais de levá-los. Até uma corda ele havia enviado.
Pegou uma cadeira e começou a amarrar a carne bem alto em frente da casa. Toda a encomenda daria para muitas semanas, talvez poderia doar para alguém quando fosse embora.
Será que poderia ver Sirius e Remus antes de ir?
Desceu da cadeira, levando-a para dentro. Se pedisse para virem, ela sabia que viriam, apesar de saber que eles estavam ocupados com toda a mudança do reinado. todo o reino de Hogwarts estava enlouquecido com aquilo, mas por estar afastada, não sabia exatamente o que estava acontecendo. Tinha curiosidade, gostaria de ajudar ou até mesmo festejar, mas era melhor fingir que nada estava acontecendo. A todo momento, ela tinha que mudar seus pensamentos para algo distante, ou ela chegaria nele.
Não, pare. França, vamos pensar na França. Ela lembrava bastante das aulas de francês que teve, mas provavelmente estaria enferrujada. Tinha que treinar e, já que estava sozinha, passaria a falar em francês. Falaria com os móveis, como vinha fazendo até ali, mas em francês. Não haveria ninguém para corrigi-la, mas poderia se lembrar de coisas que estavam guardadas lá no fundo a muito tempo.
Viu a garrafa de hidromel acima da lareira. Não havia sido enviada por Sirius, ela pertencia à J...à cabana. Lembrou quando limparam a ferida de Remus com um pouco dessa garrafa, aquela vez que tiveram que arrancar a flecha de seu braço parece ter sido há décadas. Pegou-a e decidiu dar um gole. Estava deliciosamente doce e um pouco forte. Teve que se conter todos aqueles dias com as garrafas que encontrava por aqui e ali, não que fosse alguém que dependesse daquilo, mas soava tão bom se anestesiar daquela dor que sentia, do vazio que agora era sua vida. Mas se impediu, sabendo que o alívio seria apenas momentâneo, talvez trazendo mais sofrimento depois e ela não podia sofrer mais do que vinha, ou partiria deste mundo.
O vento entrou forte pela porta que deixou aberta e ela foi em direção à ela para fechar.
A garrafa de hidromel caiu e a mão foi para a bainha em dois segundos, mas ela estava vazia. Sentiu todo o líquido em seus pés, empapando-os completamente, enquanto olhava para a figura parada no batente da porta.
- Imaginei que a encontraria aqui!
Lily começou a recuar. Pisou no vidro da outrora garrafa de hidromel, mas nem se importou com o risco de quase cortar o seu sapato e seu pé. Ela continuou a recuar, até que sua perna bateu na cama. Ela parou, com os olhos arregalados e a respiração acelerada, como se tivesse fugindo da morte.
E com a maior calma do mundo, James entrou na cabana e fechou a porta atrás de si. Ele parecia completamente passivo, não deixando nenhum sentimento transparecer. Diferente de Lily.
- Eu não vou te atacar. Não precisa ficar apavorada assim.
Era tão bom ouvir sua voz, tão bom vê-lo novamente. De alguma forma, o moreno estava do mesmo jeito que se lembrava, e, ao mesmo tempo, algo mudara. Talvez por ser o Rei agora, com uma boa alimentação, com bons cuidados e boas roupas, o fizesse parecer diferente. Estava acostumada com o antigo James, com barbas ralas e às vezes mais compridas, com a pele bronzeada e os olhos brilhantes.
Ele continuava lindo, mas os olhos pareciam vazios; a pele, de alguma forma, parecia mais clara. A barba estava bem feita e ele portava o mesmo tipo de vestimenta de antigamente: calças de couro e uma blusa branca, sem o colete agora, apenas um grande e grosso casaco. Porém, era bem nítido a qualidade das roupas.
- Eu não achei que fosse. - Ela respondeu, finalmente encontrando a própria voz. Estava uma bagunça, comparado à ele. Pelo menos havia tomado seu banho mais cedo, mas sabia que seu cabelo estava selvagem devido ao vento.
Repreendeu-se por aqueles pensamentos, sentindo-se uma idiota por estar pensando em como se portava para ele, por diversos motivos: James já a vira em piores condições e sua aparência não deveria importar agora e sim a saúde ele.
- Não há indícios de ataques no reino, mas fico feliz em ver que continua atenta e pronta para pegar a espada. Apesar de não estar carregando-a agora.
Ela olhou para a bainha vazia. Foi descuidada, mas não estava se sentindo em perigo ultimamente. Porém, eram em momentos como esse que poderia ser atacada e morta. Deveria se lembrar de sempre carregá-la consigo.
- Tudo é muito novo ainda. Não podemos ter certeza que não ocorrerá ataques em represálias.
Ela finalmente se moveu e foi para perto do fogo. Os legumes cortados e preparados antes foram jogados em um caldeirão com água e ela os mexeu por alguns segundos. Suas mãos tremiam. O medo que sentia em se virar e ver James caído no chão e sem vida era imenso. O que diabos ele estava fazendo ali? Como ele poderia arriscar sua própria vida?
- O que está fazendo aqui? - ela perguntou se virando para ele. - Majestade! - Ela adicionou rapidamente. Esqueceu que agora falava com o Rei.
O moreno ainda estava parado perto da porta, a encarando. Ele sorriu levemente e se aproximou. Lily deu dois passos para trás, fazendo-o parar imediatamente.
- O que está havendo, Lily?
- Fique onde está, por favor. Não se aproxime.
Pela primeira vez, ela viu a passividade em seu rosto ser pintada com um tom de desapontamento. Ele se reposicionou, elevando a cabeça.
- Como queira.
- Como descobriu onde estou? Quem lhe contou?
- Ninguém me contou. - Ele respirou fundo e começou a andar pela cabana, mas não em sua direção. - Esta não foi a minha primeira opção. Por um momento, eu imaginei que você voltaria para a casa de sua família. - Ela bem gostaria, pensou.- Mas então seria muito óbvio e muito perto, caso você estivesse fugindo de mim. - Ele continuou. - Eu sei que há turnos de guardas à sua volta e os turnos estavam sendo trocados muito rapidamente. Era óbvio que você não estava tão longe. E para ter fugido tão rápido assim, você só poderia estar em algum lugar conhecido.
Ele sabia como caçar, então ela não estava tão chocada por ele ter chegado tão rápido à ela. A ruiva passou as mãos pelo rosto.
- Posso me sentar? - ele perguntou, apontando para a cadeira.
- Claro, é a sua casa. - Ele se sentou, enquanto tirava o cinto de sua bainha com a sua espada e depositava na mesa.
- Ela é sua. Sua até quando quiser. - Disse ele apoiando os cotovelos nos joelhos e cruzando as mãos, encarando-a. Se ele soubesse como era doloroso olhá-lo, como era doloroso estar no mesmo lugar que ele e não poder se aproximar. Gostaria de voltar no tempo, gostaria de estar novamente com ele na festa antes do ataque, de beijá-lo até sentir a boca formigar. Passar as mãos pelos cabelos dele, sentir o corpo de James colado ao dela, com o seu sorriso brincalhão e seus olhos brilhantes novamente. - Lily! - Ele a chamou, com urgência. Ela saiu de seu torpor e o encarou. - Não me olhe assim, por favor. Não se ainda quiser que eu mantenha distância.
Não novamente. Por um momento, era como se estivesse de volta à festa de Malfoy. Eles dançando e os dois completamente dentro da nuvem particular deles, James pedindo para que não o olhasse daquele jeito ou iriam chocar os convidados com dois irmãos se beijando. Era um momento que ela queria voltar, mas não nas condições atuais. Ela se recompôs e sentou-se em um pequeno banco perto da lareira.
Tudo o que tinha, agora, eram lembranças. Apenas lembranças.
- A que devo a honra, Majestade?
James bufou.
- Não me chame assim, por favor.
- Mas você é a nossa Majestade.
- Sou James. James Potter, aparentemente. - Ele limpou a garganta, um pouco desconfortável. - Me chame de James, como sempre. - o moreno passou a mão pelos cabelos. - Primeiramente, eu acho que devo agradecer por ter salvo a minha vida. - Ela fechou os olhos por alguns segundos. A dor só aumentava agora. - Mesmo você estando, claramente, arrependida.
Ela abriu os olhos rapidamente.
- O que?
- Eu não sei os detalhes, Lily. Honestamente, eu não sei o que foi feito, eu não perguntei e não quis ouvir nada sobre. A única coisa que sei, é que você salvou a minha vida e isso teve um custo. Um custo muito alto. E do pouco que sei, quase custou um preço impagável: a sua vida! - Ele parou por um momento, tentando engolir o medo que sentia sempre quando pensava naquilo. - Você quase morreu para me salvar e de repente você não quis mais estar perto de mim. Talvez você estivesse cansada de quase perder a vida ao meu lado? Talvez...talvez simplesmente descobriu que não queria ficar ao meu lado. - A boca dela escancarou, mas James continuou. - De qualquer maneira, eu serei eternamente grato pelo o que fez, Lily.
Lily ainda não conseguia desviar os olhos dele. Como ele podia pensar aquilo dela? Certo, ele aparentemente não estava a par das razões e ela não sabia o motivo, mas ouvi-lo dizer que ela não queria ficar com ele...
Ela riu brevemente. Estava brava e triste por ele pensar nisso, quando aquilo era o que ela precisava que ele pensasse: que ela não o queria mais, que preferia ficar sozinha. Só assim ele manteria a distância e ficaria seguro. Mas era difícil quando a verdade era completamente oposta.
A voz suave dele enquanto falava sobre aquele assunto, traziam violentamente as lembranças daquele dia, o dia que ela adoraria esquecer, de não ter participado, de deixar enterrado fundo no meio da floresta: a neve, o frio, o rio, as chamas, a adaga, o sangue, as palavras...
As malditas palavras.
- Eu faria tudo de novo e até mais, se isso fosse salvar sua vida. - ela murmurou. Não sabia se ele havia escutado.
- Se eu acordasse e descobrisse que você tinha morrido... - ele deixou a frase no ar. - Lily, eu não poderia sobreviver a isso.
Os olhos dela se apertaram com dor.
- Você teria me feito morrer em vão. - Ela disse com um tom de piada.
- Se isso trouxesse você de volta para mim no paraíso, não seria.
Ela se levantou, dando as costas para ele. Por que ninguém havia dito à James que ele corria risco de estar aqui, de estar perto dela? Tinha que correr para França ainda mais rápido agora. Talvez França ainda fosse perto demais e deveria apenas pegar um barco e deixar-se navegar para o mais longe possível.
- Vejamos pelo lado bom: estamos vivos. O Rei James Potter e Lily Evans. Não vejo motivos para falarmos caso eu tivesse morrido. Eu não morri, você sobreviveu, Tom Riddle está morto e Hogwarts poderá ser como ou melhor do que antes. - Ela desatou a falar sem respirar. Mexeu no caldeirão novamente.
- Mas não estamos juntos! - A voz dele estava mais perto agora. Droga, ele havia se aproximado. Ela resolveu continuar de costas. - O quão vivo eu estou desde que acordei, eu não sei. Toda noite eu acordo procurando por você. Eu passei mais anos da minha vida sem tê-la e ,ainda sim, você é o que eu mais sinto falta.
Nunca acreditou tanto quanto agora quando diziam que palavras machucavam mais do que gestos, pois James a matava um pouco mais com elas, por mais deliciosas que poderiam ser. Era como um beijo cheio de veneno, lhe dando todo o amor que ela queria, mas a matando junto.
- James, por favor. Não! - Ainda sem olhar para ele, Lily se virou e foi em direção ao outro lado da cabana para colocar distância entre eles. Ela se postou atrás da mesa, segurando as costas de uma cadeira com toda a sua força, olhando para baixo. Estava tentando respirar mais rápido e tirar o cheiro dele de quando passou ao seu lado, pois ainda era o cheiro do James de antes. Eles ficaram em silêncio por um longo momento, ouvindo apenas o fogo que preparava a sopa. - Como está Hogwarts? - Ela perguntou ainda sem olhá-lo, precisando mudar de assunto.
Alguns segundos se passaram sem resposta. Ela levantou os olhos e o encontrou sentado no pequeno banco onde ela estava antes. Ele mexia no caldeirão, pensativo.
- Eu não tenho uma base para comparar. - Ele finalmente disse. - Um grande castelo com inúmeras e miseráveis escadas. O povo parece aliviado, ainda que eu não tenha falado com ninguém. - Ele parou de mexer no caldeirão e a encarou. - Você matou Tom Riddle, Lily. Eu diria que você é a grande heroína, quem merece todos os louros, palmas e devoções. Eu sou apenas o filho de Fleamont e Euphemia. - Ele voltou-se para o caldeirão e continuou a mexer na sopa.- Estou feliz por Tom Riddle estar morto e os Comensais longe, mas a que custo?
- "Sou apenas o filho de Fleamont e Euphemia"? Você libertou a todos! - Ela se sentou na cadeira, ainda o olhando. - Tem ideia de quantas vidas salvou? O poder que tem e o que poderia fazer? - Ela sorria, agora olhando para o teto, sonhando. - Imagino que esteja muito bem instalado, dormindo em uma grande cama, sem sair para caçar para comer, sem correr de ninguém e sem tirar a espada da bainha para se defender.
O riso irônico dele a tirou dos devaneios.
- Está descrevendo exatamente o pesadelo que minha vida é! - Ele se levantou de repente, andando pela cabana, mas respeitando o espaço dela. - A vida tendo tudo isso serve para quê? Isso é ridículo. Eu tenho uma mesa farta toda manhã, dia e noite, e eu como sozinho todas as vezes. Se eu tenho companhia, é porque eu pedi para alguém ficar e não por quererem compartilhar a refeição comigo de boa vontade. - Ele fez uma careta, deixando claro o quanto aquilo lhe incomodava. - Se eu tento sair pelos jardins, eu tenho pessoas coladas nos meus calcanhares. - Ele se virou para ela. - Eu tive que pular uma maldita janela antes do sol nascer para estar aqui agora, sem ser seguido. - James riu e coçou o queixo. - Eles devem estar me procurando agora, aliás.
- As pessoas fazem isso por amor, James. Elas querem te proteger, querem o melhor para você.
- Engraçado você falar isso. - Ele segurou o queixo com uma das mãos. - As pessoas fazem o que elas querem em relação a mim, mas o quê eu quero? Me perguntam se eu quero um frango ou um carneiro no jantar, me perguntam quantos travesseiros eu gostaria na minha cama, qual cor gostaria para o dia da minha coroação... - Ele fez uma pausa e se virou para ela. - Mas eles querem me dar o que eu quero ou eles querem impor suas vontades? "Hoje cozinharemos um carneiro, amanhã talvez ele prefira uma carne bovina, anote aí", ou "Coloque quatro travesseiros para ele, é a maneira que gosta de dormir" ou "Ele gosta de azul, talvez possamos combinar com prata" - Ele imitou alguém que Lily não ousou perguntar quem era. - Mas ninguém, NINGUÉM, me viu dormindo na merda do chão daquele maldito quarto, porque aquela maldita cama é muito mole e eu prefiro dormir perto do fogo. Ou que eu prefiro sair e caçar a minha própria comida, sozinho e que eu gosto de azul, mas prefiro verde. Eu só tenho opções, mas eu não posso decidir não tê-las, assim como a pergunta nunca é "O que quer, James?" e sim "Qual dessas opções prefere, James?"...E o pior...- Ele riu desgostosamente. - E o pior: ninguém me perguntou SE EU QUERIA SER O MALDITO REI!
James chutou com a sola de sua bota uma caixa de madeira que estava a sua frente, a estraçalhando por completo. Lily levou a mão à boca, assustada. Nunca havia-o visto naquele estado de raiva. Ele respirava fundo, aparentemente tentando se acalmar. Apoiou uma das mãos na parede de pedra e abaixou a cabeça, fechando os olhos.
Aquela era uma cena que cortava o coração de Lily, porque não era simplesmente um James nervoso, mas um James que estava sofrendo. Ela se arriscou a se levantar e se aproximar. O quanto ela queria abraçar aquele homem agora era surreal, mas não podia arriscar a vida dele. Não mais do que já estava arriscando com a presença dele ali.
- James...
Ele soltou um riso rápido pelo nariz.
- Desculpe! Eu não queria agir desse jeito na sua frente. - Ele dizia, em um tom muito baixo. - Eu senti, pela primeira vez em dias, que estava conversando com alguém de verdade, alguém que realmente queria me ouvir, saber de mim. E tudo apenas começou a sair.
- Eu não me importo com isso. O que me importa é como você está se sentindo. - Ela arriscou um outro passo. - Eu estou te ouvindo e entendo o seu sofrimento, apesar de não estar na sua pele. Há muitos contras que você está enfrentando e eu nunca vou negar isso, mas eu devo te dizer algo...Sabe, graças a você, James, eu não sou mais uma fugitiva. Eu posso ter uma vida, eu posso ser livre. - O moreno levantou a cabeça e a olhou. - E eu sei que eu não sou a única a sentir essa gratidão. Se eu pudesse, eu gostaria de dar tudo o que você deseja também, assim como todos eles devem estar tentando fazer. Talvez você devesse dizer tudo isso para eles, os fazer entender.
- Lily, você pode dar tudo o que eu quero. - Ele deixou o braço cair, se virando para ela. - Você é a única que pode dar o que eu quero!
Ah, não. Aquilo não acabaria bem. Lily deu dois passos para trás, mas James parecia cansado de se afastar, de tê-la longe, então com dois passos para frente com suas longas pernas, ele chegou até ela, suas mãos segurando Lily pela primeira vez desde muito, muito tempo. Seu toque era como um sonho, algo que ela queria poder ter todos os dias, para sempre.
- Não é uma boa ideia. - Ela resmungou, desviando o olhar dele, de seu rosto tão próximo do seu.
- Lily, olhe para mim. - A ruiva lutou muito para manter a cabeça baixa. Sentiu que James aproximou seu corpo. - Por favor.
Ela levantou os olhos e o encarou. Seu coração parecia pular desesperadamente em seu peito, até doer. Ele ainda segurava seu braço, com o rosto muito perto do dela. Estava cada vez mais difícil.
A vida dele dependia da distância. Ela não podia, simplesmente não podia.
Lily tentou afastar-se novamente, mas o braço dele não a largou, fazendo com que ela se virasse para ele. Eles estavam de frente um para o outro novamente, os corpos quase colados. Os olhos dela estavam em direção ao seu peito, lembrando do ferimento outrora ali, quase o matando.
- Apenas olhe para mim. - Ele parecia suplicar agora. Automaticamente, ela levantou os olhos. As mãos dele subiram e se posicionaram no rosto da ruiva.
- Eu não posso, James! - Ela sussurrou, colocando as próprias mãos no peito dele, pronta para pará-lo.
- Me diga que não me quer mais, que prefere ficar sozinha...que gostaria que eu mantivesse a distância. - Ele sussurrou de volta. Ela sentia a respiração acelerada dele sob suas mãos. Lily não respondeu, apenas passou a mão por onde lembrava onde era o ferimento. Um ferimento que mudara o destino deles.
Sem ter a resposta da pergunta dele, James pareceu entender como ele bem quis, porque logo em seguida, ele puxou o rosto dela e a beijou.
As mãos que deviam pará-lo, subiram para seu pescoço e se perderam em seus cabelos, exatamente do jeito que gostava de fazer.
Muito havia mudado, mas não aquilo. O beijo dele ainda tirava seu fôlego e a abalava toda vez. James se abaixou e a levantou, fazendo Lily enlaçar sua cintura com as pernas. Ele a segurava bem forte com seu corpo, de um jeito que ela jamais sentira. Sentia seus próprios braços apertando o pescoço dele, como se ele fosse desaparecer a qualquer instante.
Ela sabia que aquilo era saudade e uma mistura de medo. Eles se beijavam como se estivessem separados por anos e que fossem desaparecer no segundo seguinte. Sentiu que James andava e foi depositada na cama, ainda sem se separarem. As mãos dela subiram pelo tronco dele, forçando-o a tirar a camisa. Ele logo se separou dela e a tirou, jogando-a em algum lugar longe deles, antes de voltar a se deitar em cima dela. James segurou o rosto de Lily carinhosamente, se perdendo naqueles verdes brilhantes e incríveis, tão perfeitos.
- Lily...- Seus dedos passearam pelo rosto da ruiva, fazendo-a quase derreter. - Eu te amo. - Ela o encarou, surpresa pelas palavras dele, porém apenas por elas, pois o sentimento era vivido e o sentia como ondas há muito tempo. Desde a noite que passaram juntos, onde ela tinha certeza o que sentia por ele, ela sabia que era correspondida. - Eu a amo tanto e eu não poderei viver sem você. Não mais, nunca mais. Eu a quero ao meu lado, mais do que qualquer outra coisa que eu poderia querer nessa vida.
- Eu amo você, James. - Ela viu quando os olhos dele pareciam brilhar para ela e o sorriso verdadeiro abriu, quase infantil, quase inocente. - Absurdamente. Eu o amo loucamente, delirantemente...
- Então volte comigo e seja minha. Eu serei seu até o fim dos dias. - Ele a beijou apaixonadamente. - Case-se comigo e me deixe te dar o mundo.
Eles começaram a ouvir cavalos se aproximando. James soltou o ar em plena frustração. Sabia que, uma hora ou outra, notariam seu sumiço do castelo e o primeiro lugar que os guardas procurariam, seria ali, mas não esperava que fosse em uma hora tão decisiva.
Aquilo lhe enfureceu tanto, que teve a sensação de enfraquecer nos braços de Lily, do ar ficar mais difícil de encher seus pulmões, uma dor no peito que nunca sentira antes...ou já?
- Eu não quero o mundo, apenas você. - Ela respondeu.
- Eu sou seu. Inteiramente seu. - James segurou sua mão e beijou sua palma. Sua cabeça começou a deitar no colo dela, os lábios ainda em suas mãos, em seus dedos e em seu punho. - Me aceite. Me diga...
A voz dele estava baixa e parecia fraca.
- James? - Ela o chamou.
- Diga que sim...me acei...
Ele não terminou a frase e Lily começou a estranhar. Se remexeu embaixo dele, tentando ter um vislumbre de seu rosto ou um sinal do que acontecia, mas seu coração parou. Seu vestido estava manchado de sangue.
Rapidamente, ela forçou James para o lado e viu a pequena cicatriz em seu peito completamente aberta. O sangue corria como um rio e James estava desacordado.
Então ela gritou. Gritou o mais alto que podia, deitando-o na cama e tentando acordá-lo, mas James estava tão fora de seu corpo quanto parecia estar na última vez que o viu em Hogwarts, lutando contra sua vida. E ela sabia que era sua culpa. Era sua maldita culpa.
Lhe foi dito que não poderiam ficar juntos, que ela tinha que sacrificar seu amor por James para que ele vivesse, mas se deixou levar. Deixou com que ele se aproximasse, deixou as palavras dele a envolverem.
Não era culpa dele, era culpa sua.
E ela continuava a gritar, até a porta da cabana se abrir e bater contra a parede.
- Lily! - Marlene disse se aproximando rapidamente. Dois guardas reais estavam com ela.
- Marlene, eu...ele veio e...eu sabia que não era correto. - As lágrimas começaram a cair. - Ele não pode morrer, Marlene.
- Peguem o Rei. Precisamos levá-lo para Hogwarts o mais rápido possível. - Marlene pediu para os dois guardas. Os dois homens se aproximaram para pegar James e Lily quase os impediu, não querendo que ninguém o levasse dali, como se toda a situação fosse piorar.
- James! - Ela sussurrou cheia de dor. - Por favor, cuidem dele. Marlene, foi minha culpa. Eu o deixei se aproximar, mesmo sabendo o que poderia acontecer, ainda que eu tivesse esperanças de que nada fosse acontecer. Ele estava parado na cozinha e estava bem...ele não pode morrer.
- Lily, eu preciso voltar. Por favor, fique aqui. - Marlene respirou fundo e fechou os olhos. - Eu entrarei em contanto em breve e iremos discutir tudo isso. Ok?
Com o rosto cheio de lágrimas e soluçando, Lily apenas assentiu.
Alguns segundos depois, se viu sozinha na cabana novamente como estava naquela manhã. A diferença era que a tristeza era ainda maior, o coração partido era ainda mais doloroso, o desespero pela vida dele era imenso e a projeção para o futuro era horrível.
Naquele momento, embriagar-se e sofrer depois parecia como um paraíso comparado o que passava agora.
Perdera o amor de sua vida e não havia nada que pudesse fazer.
Sirius levantou-se da poltrona da antessala do quarto de James assim que viu Marlene sair. Estava há horas esperando por notícias, sabendo que esperar era a única coisa que podia fazer e que Marlene saberia como lidar com o problema.
- E então?
- Ele vai ficar bem. - Marlene respirou fundo. - Foi quase, por muito pouco, Sirius.
- Inferno! - Ele passou a mão pelos cabelos. - Por que ele fez isso?
- Ele estava sofrendo por perdê-la e eu não o culpo por ir atrás dela. James a ama e não sabia que poderia morrer caso se aproximasse, ele não quis nos ouvir ou saber as condições do que fizemos.
Remus entrou apressado e parou quando os viu.
- Eu soube do que aconteceu. Como ele está?
- Bem, dessa vez. Mas temo que devemos contar o que aconteceu, mesmo ele não querendo ouvir...ele tem que saber. - disse Marlene.
- Eu sinto que, mesmo sabendo, ele não vai deixar isso para trás. - Remus colocou as mãos na cintura. - Eu temo que algo horrível possa acontecer.
- O que quer dizer com isso, Remus? - Sirius se virou para ele, preocupado.
- Eu temo que, mesmo sabendo tudo o que tem para saber, James force até as últimas consequências para ver o resultado...
- Isso é algo que veremos! - A voz rouca e profunda soou pelo lugar. - Entrem.
Os três se viraram para a porta do quarto onde estava um debilitado James se segurando no batente. Ele entrou novamente no cômodo e foi seguido pelos três, que se entreolharam já sabendo que aquela conversa não seria mais fácil do que a anterior, onde disseram que Lily não voltaria.
Sirius fechou a porta logo atrás de si enquanto assistia James voltar para a cama, se ajeitar nos travesseiros contra a parede e fechar os olhos de cansaço e dor. Havia uma nova bandagem em seu peito e era como se tivessem voltado uma semana no tempo.
- Comecem a explicar. - Ele disse sem abrir os olhos. Nenhum dos três parecia disposto a se oferecer para tal. Se irritando com a demora, James resolveu acabar com aquilo. - Marlene, você explica. Me parece que você é quem tem mais informações.
A mulher assentiu mais para si do que para qualquer outro.
- Devo dizer que o que irei contar, será um pouco complicado de aceitar, já que é algo que, talvez, nunca tenha presenciado ou mexido em sua vida.
- Mal posso me conter de ansiedade. - A voz dele estava carregada de ironia.
Ela sabia que não era algo simples de contar, mas não via jeito mais simples e direto de falar sobre aquilo. A presença de Sirius era sempre uma fonte de força para ela e agradeceu por ele estar ali naquela hora. Ele era o amor de sua vida e sempre a defendera com unhas e dentes contra todos. Havia sido difícil contar para ele o que era, temendo ser rechaçada pelo homem que enchia seu coração daquele jeito, mas Sirius Black era uma exceção entre poucos e que ela amava dizer que era seu.
- Foi usado magia para te salvar. - ela soltou. Percebeu que James franziu a testa. - Podemos dizer que não era de todo errado o fato de ter sido pega como bruxa e quase ser jogada naquela fogueira, apesar de não gostar deste termo. Enfim, isso não interessa.
James ficou em silêncio e Marlene decidiu esperar para que ele digerisse a informação. Muitas pessoas acreditavam naquele tipo de coisa, e muitas outras achavam que era besteira. James era pragmático, ela sabia, que cria no que via, que considerava o que tinha em mãos e não se deixava levar por histórias de faz de conta.
Mas ele teria que acreditar agora, porque ele era uma prova viva, literalmente, de que algo além de espadas, cavalos e Lily Evans existiam.
- Não, não interessa. O que você é não interessa e nunca vai interessar. - James respondeu, seus olhos ainda bem fechados, como se fosse demais mantê-los aberto. - Você tem toda a proteção de Hogwarts agora e ninguém irá tocar em você ou em qualquer pessoa que se pareça com você. E caso ocorra, haverá punição.
Aquilo era um bom sinal, mostrando que ele estava aberto para ouvir o que ela tinha para dizer, a pura e cruel verdade, e não apenas esperando ouvir o que ele queria.
- Obrigada, James. Eu aprecio sua preocupação e ajuda neste quesito. - Marlene olhou rapidamente para Sirius, que a encorajou a continuar. - A verdade é que você estava muito mal e não iria sobreviver caso eu não interviesse.
Um longo suspiro de James a fez pausar sua história, esperando que ele dissesse algo.
- Continue. - Ele pediu.
- Lily estava desesperada. Apenas quem a viu sentada ao seu lado na cama, entenderia. Eu poderia detalhar como ela soava, poderia pintar a angústia pura em seu rosto e, mesmo assim, eu nunca poderia transmitir aqueles sentimentos tão puros de horror e medo. - James levou a mão aos olhos, como se sentisse uma dor de cabeça imensa. - Então eu propus algo, sem pensar muito, apenas com a ideia de que você deveria viver e que Lily precisava sair daquele estado. E ela, querendo salvá-lo, mergulhou nisso sem protestar, sem perguntar uma única vez o preço que pagaria...por amá-lo nessa magnitude.
Naquele momento, Marlene sentia o poder do que fizera, da sua escolha, vendo James tão miserável na mesma cama que ela vira Lily.
- Quando eu propus, eu não sabia o preço, porque não sou a responsável por isso. Sou apenas uma mera mediadora quando intervenho por outras pessoas. Quando estamos salvando alguém, o preço sempre será alto.
- Eu não poderia imaginar diferente. - Ele resmungou da cama. - Qual o preço, exato, que Lily teve que pagar?
- Em troca da sua vida, Lily teve que renegar o que a moveu a salvá-lo: o amor por você.
James abriu os olhos no mesmo segundo, sentando-se ereto na cama e a encarando.
- Vá devagar, ou a ferida poderá abrir novamente. - Sirius alertou-o.
- Foda-se a minha ferida. - James cuspiu as palavras com raiva, antes de se virar para Marlene novamente. - Quer dizer que eu nunca, jamais poderei ficar com ela?
Aquilo parecia doer em Marlene tanto quanto nele. Duvidava que era tão forte, mas tinha a sensação que salvou a vida de James apenas para condená-lo novamente, ele e à Lily. As duas pessoas que ajudaram a salvá-la, Lily que arriscou sua vida para libertá-la das celas, ambos caindo em um limbo de infelicidade por algo que não pensou direto.
A tristeza era enorme e a machucava terrivelmente, mas a culpa era pior. Ela a consumia por dentro, corroendo cada pedaço de seu coração.
- Não! - Ela respondeu.
Ele se levantou da cama.
- SAIAM! - Berrou em plenos pulmões. - SAIAM DAQUI, AGORA!
Remus e Sirius tropeçaram um no outro enquanto andavam para trás. Marlene foi puxada por Sirius, em direção à porta, James vindo em suas direções. Assim que eles passaram pelo batente, ele fechou a porta em um estrondo, trancando-a.
- O que foram esses gritos? - Hagrid perguntou entrando na antessala.
- Se o humor do Rei estava ruim antes, acho que acabamos de piorar. - Sirius respondeu, cabisbaixo.
Marlene segurou as lágrimas que queria derramar. A culpa...a culpa era horrível.
- Aqueles gritos...- Ela começou. - ...foram de um homem que acabamos de terminar de quebrar.
N/A:
Alguém ainda aqui, me amando? *crying*
Talvez o próximo será o último e, depois, provavelmente o epílogo =D Bora lá, gente...tá quase acabando =D o que vocês acham que vai acontecer?
Respostas para review sem login:
Mah: O mundo é realmente injusto, penso isso todo dia :x Mas pelo menos eu nao demorei pra voltar :D Essa sou eu, tentando ser positiva e trazer esse sentimento para todos voces hahahahaha Beijooos, lindaaa.
Sem sneak peek de novo hehehe Beijoooos! ;*
