J~L

No capitulo anterior...

- Imaginei que a encontraria aqui!

Lily começou a recuar. Pisou no vidro da outrora garrafa de hidromel, mas nem se importou com o risco de quase cortar o seu sapato e seu pé. Ela continuou a recuar, até que sua perna bateu na cama. Ela parou, com os olhos arregalados e a respiração acelerada, como se tivesse fugindo da morte.

E com a maior calma do mundo, James entrou na cabana e fechou a porta atrás de si. Ele parecia completamente passivo, não deixando nenhum sentimento transparecer. Diferente de Lily.

-x-

- Vejamos pelo lado bom: estamos vivos. O Rei James Potter e Lily Evans. Não vejo motivos para falarmos caso eu tivesse morrido. Eu não morri, você sobreviveu, Tom Riddle está morto e Hogwarts poderá ser como ou melhor do que antes. - Ela desatou a falar sem respirar. Mexeu no caldeirão novamente.

- Mas não estamos juntos! - A voz dele estava mais perto agora. Droga, ele havia se aproximado. Ela resolveu continuar de costas. - O quão vivo eu estou desde que acordei, eu não sei. Toda noite eu acordo procurando por você. Eu passei mais anos da minha vida sem tê-la e ,ainda sim, você é o que eu mais sinto falta.

-x-

- As pessoas fazem isso por amor, James. Elas querem te proteger, querem o melhor para você.

- Engraçado você falar isso. - Ele segurou o queixo com uma das mãos. - As pessoas fazem o que elas querem em relação a mim, mas o quê eu quero? Me perguntam se eu quero um frango ou um carneiro no jantar, me perguntam quantos travesseiros eu gostaria na minha cama, qual cor gostaria para o dia da minha coroação... - Ele fez uma pausa e se virou para ela. - Mas eles querem me dar o que eu quero ou eles querem impor suas vontades? "Hoje cozinharemos um carneiro, amanhã talvez ele prefira uma carne bovina, anote aí", ou "Coloque quatro travesseiros para ele, é a maneira que gosta de dormir" ou "Ele gosta de azul, talvez possamos combinar com prata" - Ele imitou alguém que Lily não ousou perguntar quem era. - Mas ninguém, NINGUÉM, me viu dormindo na merda do chão daquele maldito quarto, porque aquela maldita cama é muito mole e eu prefiro dormir perto do fogo. Ou que eu prefiro sair e caçar a minha própria comida, sozinho e que eu gosto de azul, mas prefiro verde. Eu só tenho opções, mas eu não posso decidir não tê-las, assim como a pergunta nunca é "O que quer, James?" e sim "Qual dessas opções prefere, James?"...E o pior...- Ele riu desgostosamente. - E o pior: ninguém me perguntou SE EU QUERIA SER O MALDITO REI!

James chutou com a sola de sua bota uma caixa de madeira que estava a sua frente, a estraçalhando por completo. Lily levou a mão à boca, assustada. Nunca havia-o visto naquele estado de raiva. Ele respirava fundo, aparentemente tentando se acalmar. Apoiou uma das mãos na parede de pedra e abaixou a cabeça, fechando os olhos.

-x-

- Eu sou seu. Inteiramente seu. - James segurou sua mão e beijou sua palma. Sua cabeça começou a deitar no colo dela, os lábios ainda em suas mãos, em seus dedos e em seu punho. - Me aceite. Me diga...

A voz dele estava baixa e parecia fraca.

- James? - Ela o chamou.

- Diga que sim...me acei...

Ele não terminou a frase e Lily começou a estranhar. Se remexeu embaixo dele, tentando ter um vislumbre de seu rosto ou um sinal do que acontecia, mas seu coração parou. Seu vestido estava manchado de sangue.

Rapidamente, ela forçou James para o lado e viu a pequena cicatriz em seu peito completamente aberta. O sangue corria como um rio e James estava desacordado.

Então ela gritou. Gritou o mais alto que podia, deitando-o na cama e tentando acordá-lo, mas James estava tão fora de seu corpo quanto parecia estar na última vez que o viu em Hogwarts, lutando contra sua vida. E ela sabia que era sua culpa. Era sua maldita culpa.

-x-

- Eu não poderia imaginar diferente. - Ele resmungou da cama. - Qual o preço, exato, que Lily teve que pagar?

- Em troca da sua vida, Lily teve que renegar o que a moveu a salvá-lo: o amor por você.

James abriu os olhos no mesmo segundo, sentando-se ereto na cama e a encarando.

- Vá devagar, ou a ferida poderá abrir novamente. - Sirius alertou-o.

- Foda-se a minha ferida. - James cuspiu as palavras com raiva, antes de se virar para Marlene novamente. - Quer dizer que eu nunca, jamais poderei ficar com ela?

Aquilo parecia doer em Marlene tanto quanto nele. Duvidava que era tão forte, mas tinha a sensação que salvou a vida de James apenas para condená-lo novamente, ele e à Lily. As duas pessoas que ajudaram a salvá-la, Lily que arriscou sua vida para libertá-la das celas, ambos caindo em um limbo de infelicidade por algo que não pensou direto.

A tristeza era enorme e a machucava terrivelmente, mas a culpa era pior. Ela a consumia por dentro, corroendo cada pedaço de seu coração.

- Não! - Ela respondeu.

Ele se levantou da cama.

- SAIAM! - Berrou em plenos pulmões. - SAIAM DAQUI, AGORA!

Remus e Sirius tropeçaram um no outro enquanto andavam para trás. Marlene foi puxada por Sirius, em direção à porta, James vindo em suas direções. Assim que eles passaram pelo batente, ele fechou a porta em um estrondo, trancando-a.

- O que foram esses gritos? - Hagrid perguntou entrando na antessala.

- Se o humor do Rei estava ruim antes, acho que acabamos de piorar. - Sirius respondeu, cabisbaixo.

Marlene segurou as lágrimas que queria derramar. A culpa...a culpa era horrível.

- Aqueles gritos...- Ela começou. - ...foram de um homem que acabamos de terminar de quebrar.


Lily lia e relia a carta de Marlene que chegou uma semana depois do ocorrido na cabana.

A primeira notícia, e que ela achava que tinha demorado demais para vir, era que James estava bem. Por que não enviar uma carta antes para informá-la? Passou dias em pura angústia e só não foi até o castelo exigir notícias, porque não estava ocorrendo nenhuma bagunça ao redor sobre a morte do Rei.

A segunda parte da carta era Marlene pedindo para se encontrarem em certa altura do lago de Hogwarts, longe da vista de todos, longe do castelo e de qualquer um. Havia uma pedra grande que despontava perto da margem em uma parte distante onde Marlene a esperaria.

Aquilo lhe alertou de que algo estava para acontecer e, provavelmente, não era bom. Depois de Lily se deixar levar pelo momento e ter deixado James se aproximar, não ficaria surpresa caso tivesse que pagar pela falta de disciplina com a própria promessa. Não ficaria chateada caso tivesse, pois errou...só esperava que James não tivesse que pagar por aquilo, ou no caso, pagar mais por aquilo.

Com o pensamento mais tranquilo, com a decisão de que iria aceitar o que tivesse que fazer para pagar pela quebra de sua promessa, Lily pegou o cavalo que lhe foi dado quando se mudou para a cabana e se dirigiu para o encontro com Marlene.

A cabana não era tão longe de Hogwarts, mas custou-lhe algumas horas com as estradas bem guardadas pelos guardas corretos (e não Comensais), pois teve a tranquilidade para tomar o seu tempo e fazer algo que há muito não fazia: apreciar. A vista, a sua própria companhia na estrada, acenar e cumprimentar as pessoas sem precisar se esconder e não ter pressa para nada.

A liberdade que ela tanto almejava estava ali, apesar de ser agridoce.

Quando chegou nos muros do castelo, ela rapidamente desviou para a floresta, evitando a todo custo olhar para aquele amontoado de pedras que lhe causava arrepios ainda, além de medo. Medo de que visse Riddle, apesar de ela mesma ter garantido que ele nunca aparecia para ninguém mais e medo de ver James. Esse último era pior.

A floresta estava silenciosa e tranquila. Havia alguns cantos de pássaros e até passos apressados de pequenos animais pela neve, o que fez Lily sorrir. Há muito, mas muito tempo ela não ouvia animais correndo pelo reino de Hogwarts e aquilo só provava que o reino estava de volta a quem deveria, quem merecia e quem daria o melhor para aquelas terras.

Em certa altura, encontrou um belo e altivo cavalo amarrado que só podia ser de Marlene, então achou melhor continuar o resto a pé também. Naquela altura, a floresta era densa e com a neve tão alta, dava a impressão que estava presa em um quarto todo branco e silencioso, sem contar com seus passos na neve fofa. Não ouvia mais os animais e nem humanos ao redor por ali, então se pegou pensando se estava no lugar certo.

Até onde sabia, não havia outro lago do que aquele e muito menos outra pedra tão grande que desembocava perto da margem além daquela que ia em direção agora, então não poderia estar errada. O cavalo de Marlene também era um indício de que estava no lugar certo, pois duvidava que, por coincidência, alguma outra pessoa estaria por ali naquele mesmo dia e horário.

Parou de andar quando teve a visão do lago. E de quem estava ali.

O que Marlene tinha na cabeça de enviá-la ali depois do que aconteceu dias atrás? Depois de James quase morrer em cima dela naquela maldita cama?

James Potter, ou o Rei Potter, estava parado à borda do lago congelado, com as mãos cruzadas em suas costas e olhando além da bela paisagem. O que lhe confortava era que ele havia se recuperado de seu erro e ela aprenderia com isso e não se aproximaria.

Tinha que ficar longe dele. Marlene sabia disso, então por que estavam ali?

Parecendo sentir a presença de alguém, James se virou e, assim como ela, se surpreendeu. Lily quase podia ouvir o coração do Rei bater mais forte com a surpresa, apesar de ser o seu próprio que parecia estar em seus ouvidos. Ficaram se encarando por um longo momento, cada um deles hesitando em ser o primeiro a falar, quebrar aquele silêncio sepulcral.

- Lily! - Ele a cumprimentou, finalmente. Parecendo acordar e realizando que estava na frente dele, ela logo se abaixou, segurando o vestido, a cabeça se abaixando junto.

- Majestade.

Antes de levantar o rosto, ela o ouviu bufar.

- Acho que pedir para qualquer um me chamar apenas de James me faz parecer idiota, já que ninguém parece atender esse meu pedido. - Lily não sabia o que responder enquanto se colocava ereta novamente.

- Como você está? - Ela perguntou.

- Vivo. - Respirando fundo e parecendo tão desolado quanto da última vez que o viu, James continuou. - Eu acho que devo me desculpar pelo o que houve dias atrás. - Olhou para qualquer lugar, menos ela. - Eu não sabia o que eu sei hoje.

De alguma forma, ela preferia o James que não sabia de nada. E se na última vez achou que aquele homem estava infeliz, hoje via a casca do homem que ela conhecera, com seus olhos vazios e opacos, seus lábios virados para baixo.

Além de parecer bravo com ela. Pelo menos, ele soava bravo ou irritado.

- Eles finalmente te contaram.

Ele deu uma risada sem humor.

- Eles tiveram que contar. - James ajeitou os ombros. - Alguém teve que contar.

- Eu iria, mas eu não sabia o porquê de você não saber antes.

- Não importa. - Ele a cortou. - Eu não me importo mais. Você salvou a minha vida, eu já a agradeci antes, mas eu acho que deveria agradecer novamente, já que agora eu sei o que estou agradecendo, ainda que...

- Ainda que o quê? Vai dizer, novamente, que eu pareço arrependida?- Ela perguntou quando ele ficou longos segundos sem responder.

- Não. Eu queria dizer: ainda que eu preferisse que tivesse me deixado morrer.

A boca dela caiu em choque.

- Queria ter morrido? James, por favor, está escutando a besteira que diz?

- Não é besteira. - James deu pequenos passos pela borda do lago. - Eu odeio essa vida, odeio no que ela se transformou. E odeio ainda mais ter tanto poder e não poder ter o que quero. Ter as únicas coisas que me fariam feliz, coisas pequenas, coisas simples...- Ele olhou para ela. - E você. - Lily abriu a boca para responder, mas ele continuou. - Aquela cabana, você e eu. Nada mais. A não ser que não fosse suficiente para você, então eu faria o que precisasse...contanto que estivesse ao meu lado.

- Ah, James! - Ela lamentou, seus olhos marejaram.

- Mas veja a ironia do destino. Você teve que abdicar do que sente por mim para me salvar. Abdicar da única coisa que me manteve vivo, que não me deixava sair desse mundo...porque eu só sonhava com você. E voltar para você era a minha única força.

Uma lágrima escapou e Lily a deixou cair. Era tudo o que queria, sem mais nada adicionado. James, seu amor e um teto sobre suas cabeças, daquela cabana ou de uma caverna. Ou qualquer outro lugar.

- Se eu estivesse à beira da morte, você deixaria de me salvar, caso soubesse que podia? Assistiria a minha vida evaporar do meu corpo, meus olhos fechados para sempre e seguir sua vida sabendo que a pessoa que mais ama se foi e você não fez nada para salvá-la? Eu não sei você, mas eu não pude. Quando me foi dito que eu podia tentar te salvar, eu agarrei essa oportunidade com todas as minhas forças, mesmo sem saber do preço que eu pagaria. E quando eu soube, eu ainda podia voltar atrás e não continuar, mas eu fui em frente. Porque eu nunca poderia viver sozinha, sabendo que eu poderia ter feito algo por você. Hoje eu vivo sabendo que você pode continuar sua vida e tentar ser feliz.

- Tentar ser feliz? Tudo o que eu sonhava enquanto estava naquela cama, tudo o que eu planejava antes daquilo, foi por água abaixo. Minha vida em troca do que eu desejava. Como eu posso chamar o que eu tenho hoje de "vida"? Nem lutar por isso eu posso. - Ele abriu os braços, como se mostrasse o grande vazio a sua volta. - Eu não posso lutar pelo o que eu quero e eu nem almejo muito. Apenas um teto e a mulher que eu amo, e que me ama também.

- Então...você está me culpando pela vida que tem?

James segurou os cabelos, enquanto virava de costas para ela, encarando o lago.

- Estamos pagando o preço da minha permanência aqui, mas você quase morreu para me salvar. Assim como eu disse antes, eu sou grato por ter mergulhado nisso sem nem pensar. Eu sou grato por você ter sobrevivido...mas eu ainda não sei aonde vou a partir de agora.

- Você será o melhor rei que Hogwarts poderia sonhar, eu sei disso.

A risada dele continuava sem humor.

- Sim, claro. - A voz dele estava baixa, mas ela conseguiu ouvi-lo.

Ele parecia extremamente cansado. Não fisicamente, mas ele soava como se tivesse passado por uma semana cheia de problemas para lidar - o que ela não duvidava ser verdade -, e que não via a solução ou o fim de tudo aquilo.

Seu coração doía por ele. Sua vida foi virada de cabeça para baixo muito de repente: as mentiras por toda a sua vida, a verdade sobre suas origens, o ferimento quase fatal, as responsabilidades jogadas em seus ombros, o fato de que não poderia estar com ela... Lily não ficaria surpresa se ele surtasse um pouco. Ou muito. Ele tinha todo o direito.

E sabendo que provavelmente seria a última vez que o veria, tinha que informá-lo de seus planos, mesmo sendo uma notícia ruim a mais no meio de todo o resto.

- Estou indo embora para França.

A cabeça dele levantou, mas não virou em sua direção. Ela percebeu que seus ombros ficaram tensos, se encolhendo.

- Por quê?

O tom de voz dele era pura tristeza. Nunca quis tanto se aproximar dele e o abraçar, pelo menos uma última vez. Seu próprio coração se despedaçava com tudo aquilo.

- Preciso ir embora.

- Lily, por favor...

James se virou para ela e Lily derramou outra lágrima ao ver seu rosto contorcido em agonia, os olhos vermelhos e marejados. Ele estava quase chorando. Nunca pensou que veria James chorar, sabendo o quão frio ele poderia ser ou o quão duro na queda que era.

- Não há mais nada para mim aqui, James. - Ela começou a chorar livremente. Ele deu um passo à frente, querendo pegá-la em seus braços, mas a ruiva deu um passo para trás. - Eu não tenho minha família e o homem que eu amo, eu não posso ter.

- Eu preciso de você aqui. Por favor, não vá.

- Você não precisa de mim, porque não pode me ter. Quando você tiver que se casar e ter herdeiros, eu não quero estar por perto.

- Eu não vou me casar para gerar herdeiros. - Ele deu dois passos até ela que Lily não percebeu.

- Você terá, porque a dinastia Potter deve continuar.

- Eu não vou me sacrificar por esse maldito trono.

- Ter uma bela mulher ao seu lado na cama todas as noites não me soa como um sacrifício. Eu tenho certeza que, assim que for coroado, não haverá uma mulher na idade de se casar que não se jogue aos seus pés.

- Eu amo você, Lily. Não qualquer outra...e mesmo não podendo tê-la, esse sentimento não muda. Não vá embora, por favor. - Ele parecia quase desesperado agora, os olhos bem abertos. - Vamos reformar a casa da sua família e você virá morar perto do castelo. Fique ao meu lado, fique no reino.

- Isso não vai funcionar.

- Eu preciso de você por perto. Prefiro você em minha cama todos os dias, sentada no trono ao meu lado, mas se não posso...me deixe viver com a sua presença. Me deixe vê-la todos os dias, falar com você...tudo o que eu puder com você.

- Isso é tortura, James.

- Tortura é nunca mais vê-la, não saber como está...

De repente, ela percebeu que ele estava muito perto. Havia se aproximado, mas a ruiva não percebeu. Estava para dar um passo para trás, quando James segurou sua mão, a impedindo.

- Não se afaste.

- Vai acontecer de novo. - Ela anunciou.

- Que aconteça. Que aconteça de novo. Que Marlene tenha que descer dos céus novamente e me salvar. Talvez pudéssemos viver assim: ficamos juntos, eu fico desacordado e sofrendo por alguns dias e depois eu volto para os seus braços. - Lily quase riu, mas não o fez porque James soava sério, realmente considerando a ideia.

- Pelo amor, você está falando sério.

- Sim, estou.

- Parem, por favor.

Eles se viraram para a floresta e encontraram Marlene e Sirius. Os dois estavam sérios, mas com um olhar, de certa forma, carinhoso.

- Desculpem o atraso. Culpa de Sirius, para variar. - Sirius apenas lançou um olhar para a amada, mas sabia que não poderia negar. - Fico feliz por encontrá-los diferentemente da última vez.

Lily corou e desviou o olhar para baixo. Na última vez, James estava desacordado, sem camisa e na cama com ela, apesar de Lily estar vestida quando aconteceu.

- Muito frio aqui fora. - Foi a resposta ácida de James. Ele deu as costas para os três e se afastou, voltando para a beira do lago.

Os dois recém-chegados se entreolharam e pareciam entrar em um acordo.

- Eu marquei essa reunião para poder conversar sobre o futuro. - Marlene começou, sem rodeios.

- Ah, verdade? O de vocês? Porque o meu já foi bem decidido. - A voz gélida e sarcástica de James não encorajava muito uma conversa, mas Marlene e Sirius lidavam com aquela aura dele por dias agora.

- Na verdade, Majestade, estamos aqui para falar também de seu futuro.

Aquilo não pareceu abalar e nem interessar ao Rei. Marlene respirou fundo e andou entre Lily e James, olhando de um para outro

- Depois do que aconteceu há uma semana, eu...- Ela olhou para James novamente, que não havia saído do lugar. - Vocês se amam tanto. Eu sei que o preço que estão pagando é absurdamente alto. Eu tentei me colocar em seus lugares, me imaginando longe de Sirius, sem poder ficar ao seu lado. - Ela se virou para Sirius e sorriu tristemente para ele, que sorriu de volta. - E eu só pude sentir um terço da dor que vocês devem estar sentindo. Eu sei que o que foi pedido não é justo...mas foi uma vida que poupamos e o peso que essa vida tinha para todos nós, o preço só poderia ser muito caro.

- Marlene, por favor. - Lily pediu, não querendo ir mais a fundo naquele assunto. Imaginava que iria chorar todo o líquido que tinha e que James iria explodir de raiva.

- Porém, eu sei que, na hora do desespero, eu não pensei direito. Eu apenas chamei Lily e perguntei se ela faria qualquer coisa para salvar James, ao qual ela respondeu que sim. - Eles viram um pequeno gesto vindo de James, como se ele começasse a se abrir para a conversa. - De certa forma, vocês estão nesta situação por minha culpa.

- Não ouse se culpar por isso. - O tom de Lily estava sério e quase ofendido.

- Não é sua culpa, Marlene. - James continuou.

- Eu ofereci a opção e, de certa maneira, eu escolhi um caminho para todas as suas vidas. Mas eu quero tentar consertar isso.

Aquela foi a hora que James e Lily agiram como um só: se viraram para ela, o corpo ereto e os olhos sem piscar por longos segundos.

- O que quer dizer? - James perguntou.

Marlene se virou para Sirius. Este, que não havia falado uma palavra sequer desde que chegou, se aproximou da amada, abraçando-a. O casal parecia sussurrar, trocando um carinho apaixonado entre si. Sirius se distanciou um pouco e deu um beijo demorado na testa de Marlene. Lily e James puderam ler seus lábios dizerem "eu te amo". O moreno lançou um olhar encorajador para o casal, antes de dar as costas e sumir pela floresta.

- O que está acontecendo? - Perguntou Lily. Sentia que aquilo, talvez, fosse algo que não queria.

- A minha rendição pelo o que fiz.

- Marlene, não.

- Lily, não podemos viver assim.

- Eu não vou aceitar nada que atinja você. Ou Sirius. - James interviu.

- Nós vamos ficar bem. Tomamos essa decisão juntos. De certa forma, foi Sirius quem deu a ideia, mesmo sem querer, e eu consegui negociar.

- Negociar? - Os dois perguntaram.

- Eu negociei a vida de James.

Lily se desesperou, e parecia que James também.

- Não. Marlene, não. - James se aproximou rapidamente. - Ninguém vai pegar o meu lugar, ninguém.

- O negócio já foi iniciado. Eu só preciso finalizá-lo.

Balançando a cabeça, Lily começou a se afastar.

- Não.

- Lily, saiba que foi uma escolha nossa e que diz respeito apenas a nossa vida.

- Não.

- Por favor, me escutem.

- Ninguém vai partir, ninguém vai se sacrificar. Não, não, não. Eu vou embora para França.

Marlene, de repente, ficou com os seus olhos vazios. Lily conhecia aquele olhar, era o mesmo que tinha no quarto de James quando estavam salvando sua vida. Sabia que Marlene já não estava mais ali e que teria que esperar.

- O que está acontecendo? - James perguntou.

- Ela não está aqui.

- Como assim?

- Eu não saberia explicar. Isso já aconteceu uma vez quando estávamos te salvando.

- Então quer dizer que ela já começou o que quer que seja. Temos que pará-la.

- Eu acho que é tarde demais.

Eles esperaram não mais do que um minuto. Marlene parecia voltar aos poucos, recuperando sua cor e seus olhos parecendo presentes, como se sua alma estivesse de volta.

E ela sorria. Sorria enormemente.

- Claro. Por isso que foi aceito. - Murmurou.

Os dois não sabiam o que falar, então esperaram. Marlene fechou os olhos por alguns segundos, antes de abri-los e esticar as mãos.

- Se aproximem, por favor.

Receosos, eles se aproximaram. Ela pediu a mão de cada um, recebendo-as. Marlene estava tão quente, que estava quase desconfortável, mesmo naquele frio.

- Vocês merecem ser felizes. Passaram por muitas tristezas em suas vidas e não é justo viverem separados quando finalmente encontraram o amor. Eu tenho o amor da minha vida ao meu lado. - Marlene sorriu. - Talvez eu não seria infeliz se não o encontrasse, mas com certeza eu não seria feliz como eu sou hoje. Então como eu poderia fazer isso com vocês? Não é justo. Eu não posso ser feliz ao lado de Sirius e vê-los devastados assim.

Respirando fundo, Lily quis segurar as lágrimas e nem sabia porquê queria chorar. Sentia um peso enorme em seus ombros vendo Marlene se responsabilizando pelo o que ocorreu quando ela mesma havia aceitado as condições, pois nunca deixaria James morrer quando pudesse salvá-lo.

- Vocês serão felizes como uma família. - Marlene se virou para Lily. - Você teve tanta sorte, Lily querida. Nem todas as mulheres conseguem.

- Encontrar o amor? - A ruiva perguntou, mas Marlene apenas se limitou a sorrir e se virou para James. - E você foi exatamente o que deveria ser. Por isso foi abençoado.

- Marlene?!

Sem responder nenhum deles, ela segurou com mais força suas mãos e fechou os olhos. Eles não conseguiam tirar os olhos dela, vendo-a parecer sumir do próprio corpo novamente. Suas mãos ficaram ainda mais quentes e, então, ela começou a falar:

- Eu, Marlene McKinnon, peço que a vida de James Potter...- Ela apertou mais forte a mão de James. - ...fique conosco sem amarras e promessas, podendo viver livremente. Então eu renuncio o direito de conceber uma vida por meu próprio ventre para...- Lily levou a mão livre até a boca. -...compensar a balança. Uma vida não subirá, mas outra vida não descerá.

Não estava crendo no que Marlene estava fazendo. Eles haviam aberto mão de terem uma família, de terem seus filhos, apenas para manter James e livrá-lo do destino de ficar sem ela.

Quando olhou para James, viu o choque e a incredulidade, mas ele não desviou os olhos de Marlene nem por um segundo.

E Marlene sorria. Os olhos ainda estavam fechados, mas ela parecia serena e calma com o que ocorria. Lily não podia dizer o quanto ela estava fazendo por eles e o quanto ela se sentia grata e, ao mesmo tempo, indignada que tenham tomado aquela decisão sem falar com eles.

Meu deus, ela os amava tanto.

O sorriso de Marlene fechou e suas sobrancelhas franziram.

- Marlene? - James a chamou, mas ela não respondeu.

Ela se curvou e soltou as mãos de James e Lily, levando a mão até o ventre.

- Marlene! - Lily se aproximou.

Ouviu James puxar o ar ao seu lado e viu que ele tinha os olhos para baixo, o que obrigou Lily baixar os olhos também...em uma poça de sangue.

- Eu vou chamar Sirius! Fique com ela. - James correu por onde Sirius havia partido.

Abraçando Marlene, Lily tentou manter a calma o máximo que podia. Com uma das mãos, levantou o vestido de Marlene e confirmou o que temia: o sangue vinha dentre suas pernas.

- Está dando certo. - Lily olhou para cima quando ouviu Marlene. Os olhos azuis estavam de volta. - Está dando certo!

- Você está sangrando. Muito.

- Porque está dando certo. Foi aceito. - Marlene caiu em seus joelhos e Lily caiu com ela. - Vocês poderão ficar juntos, Lily.

- Você não deveria ter feito isso.

- Eu devia. - Marlene contorceu o rosto em dor. - Você me salvou, Lily. Todos vocês. Desviaram seus caminhos para tentar salvar alguém que não conheciam em um plano que poderia dar errado. Você foi presa, torturada, bateram em você por minha causa...

- Não foi culpa sua, Marlene!

- E ainda sim, você se sacrificou para salvar James. Agora é a sua vez de ser feliz, Lily Evans.

Sirius chegou na clareira correndo como um louco, James logo atrás. Caiu de joelhos em frente de Marlene e segurou seu rosto.

- O que eu posso fazer? - Ele perguntou

- Fique aqui comigo. Vai passar logo.

- Está feito, então?

- Está feito.

Ele a abraçou fortemente.

Ainda incrédula, Lily não sabia o que fazer. Estava acometida por todo o acontecimento e emoções, sem acreditar no que eles haviam deixado de lado apenas para ajudar duas pessoas.

Seu coração estava tão cheio de amor e, ao mesmo tempo, de dor. Não sabia como reagir.

- Voltem para Hogwarts. Vocês dois. - Marlene disse olhando para o casal. - James, você deve voltar. Eu acho que há algo que queira fazer. - Marlene continuou.

- Não entendo...

- Você é livre agora e ainda pode escolher. Faça o que você tanto quer.

Uma nuvem de compreensão passou pelos olhos dele, mas ele meneou a cabeça depois.

- Nós não vamos deixar vocês aqui. - James respondeu.

- Vocês devem. Sirius e eu ainda precisamos passar por algumas etapas. Voltaremos ao anoitecer.

James segurou na mão de Lily às cegas e a apertou. Ele teve o aperto dela de volta.

- Vão. Nós ficaremos bem. - Sirius finalmente falou.

- Eu vou mandar guardas procurar por vocês caso não voltem em duas horas.

Os dois concordaram, então James começou a levar Lily em direção a floresta, mas ela parou, voltando em disparada até o casal ainda ajoelhado e os abraçou.

- Eu amo vocês. Eu não acredito no que fizeram. Eu serei eternamente grata e, ainda sim, não será o suficiente.

- Você nos salvou primeiro. - Sirius limpou as lágrimas que a ruiva deixava cair. - Eu falei que nunca esqueceria o que fez e que eu pagaria um dia.

- Isso vai muito além do que eu fiz.

- Não para nós. Você me devolveu a vida, a liberdade. - Disse Marlene.

- E você me devolveu Marlene. - Sirius completou. - Agora vai. James está te esperando e eu tenho certeza que vocês mal podem esperar para ficarem juntos.

Levantando-se um pouco grogue com toda a emoção que sentia, ela foi até James, entrelaçando as mãos novamente, enquanto ele os levava para dentro da floresta. Ele quase corria, mas tentava acompanhar os passos de Lily, não querendo arrastá-la.

De repente, ele parou. Estavam longe de Sirius e Marlene, mas longe ainda dos cavalos. Ele a beijou com toda a sua paixão, surpreendendo-a, fazendo com que Lily respondesse com toda a sua vontade e saudade que tinha dele.

- Eu ainda não estou entendendo muito bem, me parece um pouco louco...mas agora não há nada que nos afastará. - Ele passou as mãos pelos cabelos dela carinhosamente. - Nada.

- Eles são loucos por terem feito isso. - Lily segurou o rosto dele e o beijou três, quatro vezes antes de parar e continuar a correr até os cavalos.

No final, deveria imaginar que um cavalo majestoso como aquele só podia ser do rei, mas nunca iria imaginar que James estivesse ali e não Marlene.

James montou em seu cavalo e esperou que Lily montasse no dela.

- Venha para Hogwarts. - Ele pediu. - Há duas coisas muito importantes para serem feitas.

- O que seria?

- Você verá.

Sem perder tempo, os dois arrancaram com os cavalos entre a floresta densa e a neve fofa. Não demoraram muito para alcançar uma estrada lisa e perfeita para acelerarem como podiam. James sabia que seu cavalo era mais forte e rápido, mas seguiu na mesma velocidade de Lily, não tirando a atenção dela, como se tivesse medo de que tudo aquilo fosse um sonho e que ele acordaria no segundo seguinte, sozinho em seu quarto frio.

Marlene e Sirius eram loucos. Não podia crer que negociaram sua vida e que sacrificaram algo tão importante assim. Nunca havia conversado sobre isso com nenhum deles, sobre família, sobre filhos, mas eles se amavam e não havia dúvida que eles gostariam de passar por aquela etapa. E graças a ele, não poderiam mais. Mas o que estava feito estava feito e não adiantaria entrar naquele buraco sem fundo de pena.

Adentraram os campos de trás do castelo, contornando o lago sendo banhado pela luz da meia tarde que estavam. O vento soprava mais frio do que naquela manhã e mal podia esperar para ficar na frente da sua lareira. Com ela.

Ao chegarem nos estábulos, James pulou rapidamente, largando o cavalo para alguém tomar conta e ajudou Lily a descer para ir mais rápido.

- Devo cuidar dos cavalos, Majestade? - O cavaleiro perguntou, acostumado com James levar horas e horas ali cuidando de seu cavalo a cada retorno, deixando todos do estábulo de braços cruzados enquanto assistiam.

- Sim, dessa vez sim. Por favor.

- Você está mesmo apressado. - Ela disse tendo a mão de James na sua e a puxando para o castelo.

- Absurdamente apressado.

Entraram no castelo por uma porta lateral. James a puxou contra ele e a beijou novamente, antes de se apressar, contornando cada esquina de cada corredor, não soltando a mão dela em momento algum e Lily apenas se deixou ser guiada por ele, não tendo ideia para onde iam. Assim que passaram por uma porta, reconheceu aquela antesala como a que esteve presa esperando por notícias dele e que ouviu toda a história de como a Ordem os manipulou. Deixou uma raiva lhe acertar, mas apenas por dois segundos, pois aquilo era passado. Tudo aquilo era passado: James estava inteiro, era o Rei, estavam todos bem...todos estariam bem. Só faltava esperar por Marlene e Sirius agora.

Se algo acontecesse com eles por sua causa, não saberia o que faria. Eles teriam que ficar bem.

A antesala já tinha ficado para trás e percebeu que estava no quarto de James. Aquele mesmo maldito quarto que estivera tentando salvá-lo, naquele cômodo onde segurou aquela adaga infernal e se obrigou a dizer aquelas palavras horriveis.

- Eu te amo! - Ele disse beijando-a profundamente, fazendo Lily empurrar todas as más lembranças para o fundo da mente e entrando com ele naquele amor puro que exalavam. - Diga que você não mudou de ideia sobre mim, que ainda quer ficar comigo. - James encostou sua testa na dela. - Por favor, diga que não vai para a França e que vai ficar comigo.

- Eu vou onde você estiver. - Ela sorria como uma louca. - Não importa para onde for, James, eu estarei com você. Para sempre.

- Meu deus, obrigado. - Com a confirmação de que Lily ficaria com ele, nada mais poderia pará-lo. A vida parecia ficar mais tranquila, mais sólida e muito mais perfeita. Voltou a beijá-la com toda a paixão que possuía, abraçando Lily com força, como se alguém fosse entrar a qualquer instante e lhe dizer que eles não poderiam ficar juntos mais. - Eu preciso de você. Agora.

Lily respondeu apenas com um gemido, enquanto o beijava com a mesma intensidade.

- Isso é um sim? - Ele perguntou enquanto a beijava pelo pescoço. - Eu posso te livrar desse vestido?

A ruiva parecia em outra dimensão, em uma que não sabia falar, pois a sua resposta foi se afastar dele e começar a tirar o grande casaco que James usava, jogando-o no chão. Em seguida, segurou a camisa e a puxou para cima sem cerimônia, deixando-a pegar o mesmo destino do casaco. A loucura finalmente parou quando ela viu a cicatriz que ele levava no peito, entre tantas outras. Aquela era pequena e parecia tão inofensiva, do tamanho de uma moeda, não dando qualquer indício de quão mortal ela poderia ser, o quão fácil ela poderia ter arrancado James dela.

Passando seus dedos levemente na cicatriz, Lily respirou fundo.

- Nada vai acontecer, Lily. - Ele disse baixinho. James pegou Lily em seus braços, acariciando os cabelos ruivos enquanto ela não tirava os olhos da cicatriz. - A morte vai ser a única que poderá me separar de você, mas ela não virá tão cedo.

- Foi tudo tão de repente, tão horrível na última vez. - Ela balbuciou.

- Você disse as palavras certas: 'última vez'. Acabou agora. - James deu um beijo leve em seus lábios. - Case comigo, Lily. Hoje mesmo, amanhã cedo, na semana que vem. Quando quiser.

- Eu me casaria agora se fosse possível. - Ela respondeu finalmente tirando os olhos da cicatriz e o encarando. - Eu te amo, James Potter.

Ele a beijou apaixonadamente, mas mais comedido do que ao entrar no quarto e, ao invés de levá-la até a cama, James a trouxe até perto do fogo onde muitos travesseiros estavam espalhados. Lily lembrou-se quando ele disse que preferia dormir daquele jeito e seu coração doeu por alguns segundos ao imaginá-lo dormindo ali, sozinho, enquanto sentia-se completamente infeliz por onde sua vida se dirigia. Imaginava um James pensativo, blasfemando contra tudo, enquanto tinha um bom fogo esquentando-o, mas longe de estar alimentando-o do jeito que precisava.

Mal percebeu quando seu vestido já tinha pego o caminho para o chão. Estava tão quente e confortável ali, que o frio não existia mais. Lily tinha tudo o que precisava agora: James. E nada mais lhe importava. Então aproveitou quando ele a deitou entre os travesseiros, se encontrando realmente confortável ali. Ele a cobriu com o próprio corpo, com beijos e com as suas mãos. James parecia estar por todos os cantos, de todos os jeitos, fazendo com que sua mente ficasse completamente nublada pela luxúria e o amor que sentia por ele.

Não se importou com o gemido alto que deu quando se juntaram, assim como James não se importava em como ela fincava as unhas em seu corpo, querendo que ele chegasse mais perto, tentando controlar aquele sentimento louco que a tomava e que apenas ele seria capaz de criar.

- Eu quero isso para sempre. - Ela se pegou dizendo.

- Você terá. - Ele respondeu beijando-a em sua clavícula, sem parar nem por um segundo com os movimentos que faziam Lily dizer aquelas coisas. - Vamos fazer repetidamente. Para nós mesmos, até não termos energia mais...- Ele usou a mão em seus seios que criou algo tão forte em seu ventre, deixando-a perdida por alguns segundos. - Até enchermos esse reino com os nossos filhos.

Aquilo a fez rir por um momento, mas James rapidamente a trouxe de volta para onde estava, obrigando Lily a gritar enquanto ele a levava para os céus.

L~J

Os olhos estavam pesados pela pequena siesta que se entregou após toda a atividade com James. Olhando ao redor, encontrou o mesmo perto da janela, sentado em uma mesa e escrevendo rapidamente.

- O que está fazendo? - Lily perguntou enquanto sentava e olhava ao redor, procurando por suas roupas.

Percebeu também que James havia alimentado mais o fogo, por isso ela parecia tão bem dormindo nua.

Ele se virou na cadeira, sorrindo para ela.

- A segunda coisa importante que tinha para fazer.

- A primeira era me trazer aqui e se deitar comigo? - Ela perguntou com um sorriso.

- A primeira era me perder em você. - Ele a corrigiu enquanto levantava-se e ia até ela. - A segunda, se resume à nossa felicidade.

Seu coração foi invadido pela felicidade ao ouvi-lo e ainda mais quando ele se abaixou e a beijou.

- Quanto tempo eu dormi?

- Uma hora, mais ou menos. - James trouxe o vestido dela de volta, entregando-o. - Arrume-se e iremos atrás de Sirius e Marlene. Eles já devem estar de volta.

Como se uma centelha lhe tivesse atingido, Lily rapidamente se vestiu. Assim que sentia estar pronta ou apresentável o suficiente, sendo que foi difícil domar seus cabelos, eles saíram juntos do quarto. Não esbarraram com ninguém pelos corredores e James parecia ter um destino em mente, já que andava decidido e apressado. Entraram em uma sala razoavelmente grande com um grande e bonito vitral ao fundo, uma mesa retangular e várias cadeiras em volta. O fogo crepitava ali, parecendo ser alimentado constantemente.

- Eu venho aqui toda hora. Eu gosto da vista. - Ele deu a informação ao ar, fazendo Lily caminhar até a janela e concordar com ele: era uma vista maravilhosa dos terrenos de Hogwarts. - Eu preciso fazer algo, mas eu já volto. Espere por mim aqui.

James saiu, deixando-a sozinha. A ruiva andou pelo lugar, fazendo o reconhecimento, tentando pegar qualquer indício de qualquer coisa. Acima da lareira, viu um brasão desgastado e se aproximou. Sorrindo, ela tocou o ferro fundido com a letra "P". Perguntou-se se alguém havia reparado nele, já que estava longe de ter sido polido ou cuidado nos últimos tempos. Duvidava que a corja de Riddle o faria, mas ele não mandaria alguém retirá-lo?

- Seria um presente para James. - A voz na porta a assustou. Era Hagrid. Ele tinha os olhos um pouco assustados e temerosos. - Eu não quero ser bruto ou mal educado, mas você não deveria estar aqui. Terei que pedir que vá, antes que James a veja.

Em momento algum ela considerou as palavras de Hagrid como uma afronta. Na verdade, ela ficava feliz ao saber que James tinha alguém leal ao seu lado. Ele esteve a vida toda com James, então já sabia que Hagrid seria a pessoa mais leal do mundo, provavelmente pronto para perder a vida para salvá-lo.

- Está tudo resolvido, Hagrid. - Ela sorriu. - Marlene e Sirius, eles...- Lágrimas de felicidade por poder ter James, mas de tristeza pelo preço que os amigos pagavam, se misturaram em seu rosto. - Fizeram uma loucura e agora todo o risco que James corria comigo, não existe mais.

- Eu não estou sabendo de nenhuma mudança. - O grande homem entrou na sala, parecendo perdido. - Sirius não comunicou nada para ninguém.

- Não estávamos cientes também. Marlene nos chamou para uma reunião esta tarde. Eu voltei aqui com James.

- James saiu do castelo? - Agora ele parecia nervoso. - Temos que rever todo o esquema de segurança. Ninguém tem olhos e ouvidos sobre quem entra e sai?

- Deixa disso, Hagrid.

James estava de volta e Hagrid encarou aquele homem sorridente e feliz, tão em contradição com o que tiveram que lidar por semanas a fio.

- Combinamos que você informaria caso saísse do castelo. Não pode ficar passeando por aí sem segurança.

- Besteira. - James abanou a mão e virou para Lily. - Eles voltaram.

Aliviada por saber que Sirius e Marlene estavam de volta, uma parte de sua preocupação se dissolveu.

- Como ela está?

- Bem, muito bem. Irá se juntar a nós em alguns minutos.

- Ela deve descansar. Deve...não sei, ela deve estar mal de alguma maneira.

Como poderiam pedir para que ela fizesse qualquer coisa depois do que passou? Lily viu a quantidade de sangue que Marlene perdeu, ela deveria descansar, deveria ficar em repouso, ter toda a comida e bebida que merecia.

Marlene merecia tudo o que Lily podia dar.

- Verá com seus próprios olhos o quão bem ela está. Também fiquei surpreso. - James se virou para Hagrid. - Reunião de emergência em trinta minutos. Preciso de todos aqui.

- Todos? - Hagrid repetiu, um pouco pateta.

- Todos! Em trinta minutos.

Hagrid fez uma mesura e se apressou para fora da sala, com um 'obrigado' de James em suas costas. Virando-se para Lily, percebeu que ela olhava algo sobre a lareira da sala.

- Você viu isso? - Ela perguntou, sentindo os olhos em si.

James se aproximou e encarou o brasão bem desenhado com um "P" no centro. Parecia bem antigo, mas mal cuidado.

- Não. Até onde me lembro, havia outro brasão aí.

- Hm. Deve ser isso que Hagrid dizia sobre ser um presente para você. - Ela se aproximou e passou a mão pelo ferro fundido. - Nota-se que é bem antigo.

- Riddle o cobriu com um brasão de uma cobra, já que é impossível arrancar este. - Remus entrou na sala e sorria para os dois. - Bom vê-la, Lily.

- É ótimo vê-lo, Remus.

Não se segurou e abraçou o homem. Toda a mágoa sobre o que a Ordem fez estava para trás. Sabia que Remus havia dado muito dele mesmo para aquela missão e por muitos anos, querendo trazer a paz, sossego e justiça para o povo de Hogwarts. Nunca poderia ficar contra ele.

- Hagrid me disse que estávamos a salvo do mau humor de James e que teríamos uma reunião de emergência. - Remus olhou para James. - Fiquei imaginando o que aconteceu enquanto subia, mas agora eu acho que já tenho minha resposta.

- Talvez. - James respondeu, sorrindo.

- Finalmente um sorriso neste rosto. - Remus apontou. - Obrigado. - Remus agradeceu, virando-se para Lily.

Nos próximos minutos, eles viram a sala ser repleta por membros da Ordem: Frank, Alice, Dorcas e Albus. Hagrid juntou-se a eles logo depois. Lily conversava com Dorcas, quando duas sombras na porta chamou sua atenção: Sirius e Marlene.

Os dois pareciam bem. Marlene sorria abertamente para a ruiva quando os olhos se encontraram e Lily quase correu até ela.

- Como está? O que eu posso fazer?

- Estou ótima. Não há nada com o que se preocupar e nem nada para fazer.

- Mas...

- Lily, eu não fiz o que fiz para que você se sinta em dívida conosco. - Marlene segurou o rosto da ruiva. - Você arriscou sua vida para me salvar. Eu iria morrer em algumas horas, mas você me soltou e a todas as outras. O que eu fiz, o que fizemos...- Ela olhou para Sirius ao seu lado. - Foi um meio de agradecer e devolver a felicidade para duas pessoas que merecem e muito. Nós seremos felizes também...vocês são a nossa família.

Marlene limpou as lágrimas que caiam no rosto da ruiva.

- A partir de agora, uma nova vida nos espera. - Sirius começou. - Para Hogwarts, para Marlene e eu, para você e James.

- Marlene, venha sentar-se, por favor. - James apareceu por trás de Lily e ofereceu seu braço para a morena, que sorriu e aceitou.

- Não posso recusar uma ordem do Rei. - Ela comentou sendo levada até a mesa e acomodada perto do fogo.

Todos os presentes também se acomodaram em volta da mesa após o pedido de James. Lily pegou o primeiro lugar que viu, mas Hagrid a levou até a cadeira à direita de James, que agradeceu ao homem.

O rei foi o único a ficar em pé. Ele olhou para todos os presentes, um por um. Tirou um pergaminho de dentro do casaco e Lily imaginava que era o mesmo que escrevia enquanto ela dormia. Mas, logo após, ele baixou-o e os encarou novamente.

O sorriso dele não podia ser maior.

- Lily e eu vamos nos casar.

A onda de felicidade era visível em todos, que começaram e congratular a ambos, fazendo James sorrir como um bobo.

- O mais rápido possível. - Ele voltou a falar.

- No próximo mês? - Frank perguntou.

- Amanhã! - Agora o choque substituiu a felicidade. - Não haverá cerimônia, nem nada grande. Eu apenas quero estar ligado, de todas as formas, a esta mulher. - Os dois trocaram olhares, assentindo. Haviam concordado com isso horas antes. - Então não se preocupem em preparar tudo, porque não há necessidade.

- Mas...não podemos deixar o rei se casar assim. - Remus parecia o mais perturbado de todos. - O povo gostaria de celebrar a sua felicidade. Assim como nós.

James levantou a mão, pedindo para que Remus não avançasse.

- Não será o rei que casará amanhã, mas James Potter.

- Vocês são a mesma pessoa. Infelizmente, não podemos distingui-los. - Alice comentou, tendo a maioria concordando com ela.

Enquanto eles discutiam entre si, James pegou o pergaminho de volta e começou a ler:

- Eu, James Potter, de próprio punho escrevo, neste dia, que renunciei ao trono que é meu por direito. - A sala caiu em total silêncio, enquanto todos os encaravam de volta com grandes olhos e bocas abertas. Lily não estava ciente daquela decisão, então se via tão surpresa quanto todos. - Fico feliz que, desta vez, vocês não tenham com o que discordar. - James sorriu para eles. Seu olhar caiu em Lily. - Se importa em casar com um simples homem, sem riquezas, que possui apenas uma cabana na floresta?

- Você está descrevendo o homem pelo qual eu me apaixonei. - Ela disse, levantando. - E ao qual eu quero.

- James...! - Alguém exclamou, saindo do torpor.

- Está decidido, está escrito e assinado o meu renuncio, com o selo dos Potter. - James continuou. - Não quero voltar atrás, não irei me arrepender e não espero que tentem me convencer do contrário. Esta não é a minha vida e nem a minha felicidade.

- Mas...!

- E eu não terminei. - Tirando um outro pergaminho do casaco, ele teve a sala caindo em total silêncio. - Eu não tenho parentes próximos vivos. Desde que esse fardo caiu em meus ombros, eu me apliquei em estudar a família Potter e seus antecedentes e qualquer um que poderia estar o mais perto possível da árvore para que a coroa seja repassada.

- Você estava planejando renunciar desde o começo? - Hagrid perguntou.

- Eu nunca escondi desde o dia que eu acordei. E você é testemunha, junto com Sirius e Remus.

Os três que, de fato, estavam naquela sala quando James dissera que pensava que não seria o rei, se entreolharam, querendo que algum deles dissesse que James estava louco e aquilo não havia acontecido. Mas não poderiam.

- Isso é loucura.

- Então...- James continuou, sem responder e cortando Dorcas. - Eu descobri que há alguém. O mais próximo possível da coroa e eu não poderia ficar mais feliz em repassá-la para ele.

- Você o conhece? - Hagrid perguntou.

- Ele está nesta sala. - Albus Dumbledore quem respondeu, tirando toda a atenção de James.

A Ordem, em peso, se virou para o velho.

- Não estou entendendo, Albus. - Frank se posicionou primeiro. - Todos sabemos que James era o único descendente.

- Direto, sim. - Dumbledore concordou. - Mas há um indireto.

Lily poderia apontar para eles e rir, perguntando "como se sentem ao descobrir que alguém guardava algo tão importante de vocês?", mas achou que seria muita maldade. A vida estava encarregando-se disso.

- Por que nunca nos contou? - Remus estava raivoso.

- Para a segurança dele. Precisávamos achar o descendente direto dos Potter. Caso não o achássemos ou descobríssemos que estava morto, poderíamos partir para o plano B.

- Nunca houve tal coisa como Plano B. - Dorcas comentou, parecendo segurar a calma.

- Você não deveria ter escondido essa informação. Ela dizia respeito a todos nós, que lutamos e dedicamos nossa vida a isso. - Disse Alice. - Frank foi parar em Azkaban e poderia nunca ter voltado.

- Todos sabemos dos riscos ao lutar pela Ordem.

- Albus, isto vai além de tudo. - Dorcas respondeu.

- Ele não fez muito mais do que vocês fizeram comigo. - A voz de James estava alguns tons mais alto. - Fico feliz que estejam sentindo na pele como é ser deixado de lado sobre algo tão importante em sua vida, apesar de ter um apreço enorme por todos vocês. E espero que ninguém queira dizer que 'não é a mesma coisa', pois é e foi até pior.

Lily viu que Sirius e Marlene eram os únicos não preocupados com aquilo, exalando tranquilidade e amor. Eles se olhavam e sorriam, se beijando rápida e ocasionalmente. Pareciam tão bem, presos em uma bolha que Lily se via corriqueiramente com James. Uma em que ninguém poderia entrar, pois era apenas deles.

A voz de James a tirou daquele torpor sobre os amigos, virando-se totalmente para ele.

- Henry Potter, meu avô, aparentemente se aventurou um pouco demais quando minha avó faleceu no parto do meu pai. Em documentos e cartas que encontrei, diziam que ele estava tão triste, que tentava encontrá-la no rosto de cada mulher do reino. - Pela maneira que falava, James parecia discordar do método do avô, mas deu de ombros no final. - Acho que cada um tem o luto que lhe cabe. Enfim... Ele gerou um herdeiro ilegítimo quando meu pai tinha apenas menos de um ano.

A Ordem e Hagrid, menos Albus, olhavam chocados para James. Lily o observava com admiração. Não poderia esperar menos dele, pensando o quanto ele tentou achar uma solução para o problema, ao invés de apenas abandonar o trono e deixar Hogwarts indefesa novamente, livre para ser pega por um louco novamente.

- Este herdeiro ilegítimo já não vive mais, mas ele teve a sua prole. A que está sentada nesta sala. - James continuou. - E eu diria que é engraçado. - Ele se afastou da mesa, as mãos cruzadas nas costas, enquanto ia até a janela que tanto gostava. - Quando temos uma missão, um alvo, parece que esquecemos tudo ao redor. Esta pessoa lutou tanto para achar o herdeiro Potter, sem saber que ele mesmo poderia ser a resposta dos problemas...se apenas desse importância para a história da própria família, não precisaria ter ido tão longe para me achar.

- Mas tínhamos que achar o verdadeiro. Nós nunca fomos buscar outra opção. - Frank interveio, olhando para seus camaradas da Ordem, tendo todos assentindo. - Sabemos sobre as peripécias do Rei Henry após a morte da esposa, mas nunca houve registro de um herdeiro ilegítimo.

- Isso ficou entre ele e a mulher. - James explicou. - Apesar de não terem ficado juntos, meu avô fez tudo para que ela tivesse um apoio. O filho mesmo não sabia quem era o seu pai, mas nunca reclamou em como foi fácil encontrar um trabalho que amava dentro dos muros de Hogwarts, ou como era bem velado aqui, ganhando um bom salário apenas para ser responsável dos estábulos.

James parou de falar e se virou para a mesa e todos os ocupantes tinham os olhos em suas costas. Uma pessoa se levantou vagarosamente, compreendendo tudo...a pessoa certa. A que tomaria o trono também por direito, pois ele não pertencia mais a James.

- Não. Isso não está certo. - A pessoa que se levantou disse.

- Eu creio que está. Tenho todos os documentos para que você leia e entenda.

Os olhos de Remus se arregalaram e suas mãos apoiaram a mesa, já que sentia-se tonto.

- Lyall Lupin sempre teve o respeito e confiança do rei. - Hagrid disse. - De Henry e, mais tarde, de Fleamont.

- Aparentemente, o meu pai ficou sabendo da história no leito de morte do meu avô, já que meus pais tinham dificuldade em ter uma criança. Caso eles não conseguissem gerar, deveriam vir até a família Lupin.

Todos olhavam para Remus, esperando uma reação, esperando por qualquer coisa. Mas ali estava um homem chocado e completamente confuso. Tinha tanta certeza que conhecia sua família, mas nunca sentiu-se obrigado a conhecê-la a fundo. Para ele, o que sempre importou foi descobrir sobre o herdeiro Potter e só.

- Isso não pode ser verdade...não...isso é impossível.

- Eu juntei tudo o que era necessário para o dia de hoje: cartas do meu avô, cartas do meu pai, cartas da sua avó...tudo. O seu nome está bem nítido em todos os documentos, comentários sobre o seu pai. Peça o que precisa para acreditar e eu te darei.

Remus se afastou, cambaleando. Frank se levantou e ficou ao seu lado caso o amigo caísse.

- Você é o Rei. Não eu...eu não posso, eu...

- Eu não sou mais o Rei. E segundo todos os pergaminhos, você é o novo Rei por direito. - James se aproximou de Remus, o segurando pelos ombros. - Não haverá Rei melhor do que você, Remus Lupin. Você lutou por todos nós, dedicou sua vida para isso. Quando tive documentos para assinar e decisões para tomar, era você quem eu consultava, pois não há um ser humano que vele mais por Hogwarts, do que você. Eu não sirvo para vocês, eu nunca seria um bom Rei, mas você...você trará a alegria que esse povo merece, que todos nós merecemos.

As mãos de Remus tremiam, sua cabeça estava enevoada por completo, sem saber o que pensar, sem direções para onde ir ou o que fazer.

- Alguém traga algo forte para ele beber, por favor. - Alice pediu. Hagrid saiu da sala prontamente atrás da bebida.

- Então...- Sirius se levantou, chamando a atenção de todos. - Isso quer dizer que Dorcas é a Rainha!

Dorcas arregalou os olhos, sem ter tido um momento para pensar naquilo.

- Exatamente. - James confirmou.

- Meu deus, ela casou comigo apenas pela Ordem. - Remus reclamou. - Como podemos jogar isso em seus ombros?

- Eu casei com você pela Ordem, para que trouxéssemos um futuro melhor para Hogwarts. Se neste futuro está escrito que você é o Rei, eu asseguro que eu continuarei a fazer o meu papel para garantir a felicidade do nosso povo. Eu me entreguei de corpo e alma para chegarmos até aqui, então não será agora que eu desistirei. - Dorcas respirou fundo. - Apesar de tudo, eu sou sua companheira, sua amiga. Eu nunca te abandonaria agora. Firmamos esse acordo baseado em bons sentimentos.

- Mas Dorcas...

- A não ser que você não queira que eu seja sua Rainha.

Hagrid aparecendo na porta e acenando para James o fez desviar os olhos do novo Rei e Rainha que discutiam no meio da sala. Ele também apontou para Lily, pedindo para que James viesse com ela.

Quando os dois saíram da sala, com a discussão parecendo aquecer e Remus parecer perder completamente a cabeça com a notícia, James fechou a porta.

- O que houve? - Ele perguntou.

- Recebi uma notícia quando fui atrás da bebida de Remus. Venham comigo.

Hagrid não disse mais nada e começou a descer as escadas. Ele pegou o caminho para a parte de trás do castelo onde poderiam encontrar espadas e todas as armas possíveis, além de qualquer outra coisa relacionada a batalhas. Todos os guardas passavam boa parte do tempo ali quando não estavam em serviço. Entraram por uma pequena porta que quase não comportava o tamanho de Hagrid, e este fechou quando os outros dois entraram.

Em cima de uma mesa, havia um lençol encardido e o que estava por baixo era bem nítido: um corpo. Pelo tamanho, de um homem.

- Achei melhor avisar. - Hagrid disse.

- Fique aqui. - James pediu para Lily e ela parecia feliz em ficar onde estava.

Dentro do seu peito, ele tinha ideia de quem encontraria ali. Tinha sentimentos mistos ao pensar naquela possibilidade, mas tinha certeza sobre quais sentimentos Lily teria.

E quando descobriu o rosto na mesa, tentou não reagir. Sabia que Lily não conseguiria ver de seu lugar, já que suas costas estavam na frente, mas tentou não deixar seu corpo instigar sua curiosidade e vontade de se aproximar.

- Onde estava? - James perguntou.

- Na floresta, não muito longe daqui. - Hagrid respondeu. - Foi encontrado por Fabian, mas não sabemos quem foi o responsável. Fabian e Gideon o conheciam e sabiam que era muito importante para Riddle, por isso trouxeram para cá ao invés de se livrarem dele.

- Me lembre de agradecê-los depois.

Sentiu a presença de Lily se aproximar, então cobriu o rosto com o pano novamente.

- É ele, não é? - Ela perguntou atrás dele. - Severus, eu digo.

- Sim.

Ouviu quando ela engasgou e puxou o ar com a confirmação. Não iria julgá-la por aquela reação, pois Severus Snape havia sido importante para ela em muitos pontos de sua vida. No final, ele havia salvado sua vida, fazendo-a escapar dos Comensais quando vieram atrás da família Evans.

- Como ele morreu? - Lily perguntou para Hagrid.

- Er...- O homem pareceu sem graça e perdido, sem saber o que responder, ou esperando por algum sinal de James. - Espada. - Ele finalmente respondeu.

O silêncio que caiu no cômodo quente e abafado tornava tudo ainda mais pesado, como se James pudesse sentir o luto que Lily parecia sentir agora. Ainda encarava o pano encardido, pensando que aquele homem nojento havia tomado o caminho para o inferno junto com Riddle, mas que sua morte entristecia alguém que ele amava. Era algo difícil de sentir, toda aquela ambiguidade.

- Não podemos dizer que ele não procurou pela ponta de uma espada quando se juntou com alguém tão sujo e baixo quanto Riddle. - Lily quebrou o silêncio. A ruiva apareceu ao seu lado e, pegando-o de surpresa, arrancou o pano de cima do corpo de Severus Snape.

- Lily! - Ele sussurrou e se virou para ela. Ela tinha o olhar frio e sóbrio. Seus olhos passaram pelo corpo em cima da mesa, parando por alguns momentos nos ferimentos de espada, depois subiu até seu rosto pálido pela morte.

- Eu já tive meu luto pelo meu amigo antes, Severus. Aquele que morreu há muitos anos, lembra dele? Pois bem, eu me recuso a enlutar por alguém que eu não reconhecia mais, por alguém que desejou esse fim para pessoas que eu amo. Espero que o caminho para o inferno esteja exatamente como deveria ser.

Ela puxou o pano de volta, cobrindo-o, e começou sua caminhada até a porta.

- Espere. - James se apressou até ela, fazendo-a parar. Ele se virou para Hagrid. - Dê um enterro para ele.

- Um enterro?! - Hagrid parecia tão chocado quanto antes. - Para um Comensal?

- Se não fosse por ele, Lily poderia não estar aqui. Ele merece cada cascalho que encontra neste momento, mas eu serei grato pelo o que fez por ela - Lily se virou para James, seus olhos finalmente demonstrando alguma emoção positiva. - Cada pessoa e cada gesto que salvaram Lily, serão reconhecidos. - James olhou para Hagrid novamente. - Pode confirmar com o Rei Lupin depois, se quiser, mas acredito que ele não iria contra essa minha decisão.

Lily segurou em sua mão e o agradeceu apenas com o seu olhar.

- Rei Lupin. - Hagrid repetiu ao fundo, com uma voz desacreditada.

- Sim, Rei Lupin. - James confirmou sem tirar os olhos de Lily. - Agora sou apenas James novamente. - Ele segurou o rosto dela, impedindo-se de sorrir para a felicidade pura que o invadia. Como pôde ter acordado se sentindo a pior pessoa do mundo e agora poder dormir como o homem mais feliz do mundo? - E não se incomode em mudar nada para outro lugar, pois eu estou levando Lily para a cabana neste momento e nos encontraremos amanhã na pequena igreja de Hogwarts às 10h. E que o padre esteja acordado a tempo, ou eu vou arrancá-lo da cama.

Deixando Hagrid completamente atordoado para trás, o casal saiu para, o que era para James, a liberdade que havia demorado tanto para chegar.

A liberdade de ter Lily em seus braços por uma noite inteira e sem precisar fugir, lutar ou se esconder. Apenas amá-la. Finalmente.


Era um domingo ensolarado e, apesar do frio, não havia uma única casa ou estabelecimento em Hogwarts com ocupantes.

Todos do reino estavam do lado de fora para assistir a coroação do Rei.

Decidido por todos dentro do castelo de que o povo merecia participar e ver a coroa finalmente ir para alguém que os ajudariam e os amariam, um grande palanque havia sido improvisado na maior praça, podendo receber qualquer um que quisesse assistir Remus Lupin ser recebido de braços abertos.

- Ele fica muito bem sentado naquele trono, com aquela coroa. - Lily comentou. Os braços de James a apertaram mais forte por suas costas.

- Remus é o homem perfeito para isso.

As mãos dele desceram até a barriga dela, que já crescia levemente.

Após a grande confusão criada sobre James ter renunciado e elegido Remus como o Rei por direito, após a notícia da morte de Snape e a fuga do casal para a cabana na mesma noite, não receberam a notícia que Marlene tanto queria dar.

No dia seguinte, James realmente acordou o padre, quase o puxando pelo colarinho, pedindo uma cerimônia o mais rápido possível naquela manhã. Antes do meio-dia, Lily Evans virara Lily Potter na presença de poucas pessoas da Ordem como convidados e testemunhas, incluindo o novo Rei e Rainha. Foi algo pequeno e rápido, mas com todo o amor do casal e das pessoas presentes. No fim da cerimônia, quando James e Lily apenas ansiavam para voltar para a cabana, Marlene os interceptou, levando-os para o pequeno púlpito acima do altar, longe dos ouvidos dos convidados.

- Eu prometo que vou deixá-los partir logo, apenas gostaria de compartilhar algo muito importante.

- Eu tenho medo quando você começa a dizer essas coisas. - Disse James, já começando a suar.

- Eu garanto que isso é algo mais do que maravilhoso e como estão casados agora, acho que é válido que saibam isso a tempo.

- A tempo de quê? - Perguntou Lily.

Marlene sorriu e segurou as mãos deles.

- Sei que qualquer um acharia horrível o que foi pedido para salvar a vida de James, que podem pensar que os responsáveis por isso não tem compaixão. Como explicado antes, o preço vai de acordo com o peso do pedido, por isso que custou tão caro. Eu negociei a vida de James e tive que pagar um preço tão alto quanto, evitando que ele partisse, fazendo assim que uma vida não fosse gerada por mim.

- Eu não gosto de falar disso. - Lily gemeu, mas Marlene apertou sua mão, assegurando-a.

- A questão aqui, o principal de tudo, o motivo dessa negociação ter sido aceita, é que outra vida já tinha sido mandada para cá. Para nós. Para vocês.

Lily olhou para James. Ambos com os olhos completamente vidrados.

- Marlene...- Lily começou.

- Isso é sério? - James terminou por ela.

- Sim, muito sério. Lily carrega no ventre a razão de tudo ter sido aceito. Nunca poderíamos forçar dois pais para longe um do outro, deixando alguém tão importante para todos nós sem o amor de ambos. - Marlene colocou a mão na barriga de Lily, coberta por um vestido perolado bonito e simples. - Nós vamos amar essa criança como se dependêssemos dela e vamos garantir que seja feliz. Eu nunca vou me arrepender da escolha que eu fiz, porque eu sei que você carrega um tesouro.

As lágrimas rolaram pelo rosto de Lily antes de abraçar Marlene com toda a sua força.

- Obrigada. Se não fosse por você desde o momento que a tivemos de volta, eu acho que estaria perdida. - A ruiva sussurrou para ela.

- E se não fosse por você, eu estaria morta. - Marlene riu, apesar da frase tão sombria, porém, verdadeira.

Por isso agora, dois meses depois e quando finalmente conseguiram consertar tudo para a coroação de Remus, as mãos dele não saiam de sua barriga.

Uma das primeiras decisões de Remus foi de enviar pessoas o mais depressa possível até a casa dos Evans e a reformar por completo para que a nova família Potter pudesse se instalar com conforto para a chegada do novo bebê. Depois, ele tomou conta de Sirius e Marlene, oferecendo-os uma casa no reino e o mais próximo possível do castelo, já que Sirius trabalhava ativamente com ele, além do título de Conde e Condessa. Frank e Alice esperavam a primeira criança também, fazendo Remus cobri-los de conforto e segurança tanto quantos os outros.

A Ordem havia ganhado uma nova sede, completa e bem estruturada, virando o maior suporte do Rei e da Rainha com conselhos, ajudas e segurança.

Os impostos altíssimos haviam sido revisados, os problemas de colheita e plantio estavam no topo da lista de melhoramentos - já que era o ganha pão da maioria do povo -, e todos os maiores problemas trazidos por Riddle começavam a se desmantelar nas mãos de Remus. Com a maior força, garra e vontade, ele trazia todo o amor de seu povo para si, garantindo que estava ali para ajudá-los e se não os fizessem o reino mais feliz, queria chegar o mais perto possível.

- Acredita que tudo isso começou em Azkaban? - Lily perguntou cobrindo as mãos do marido em sua barriga. - Que um homem insolente e mal criado ao meu lado, me presenteou com isso? - Ela apertou as mãos em seu ventre, indicando o que falava.

- Que aquela mulher irritante na cela ao lado, aquela mulher maravilhosa caída no meio dos escombros, sem poder andar ou me ouvir, me faria o homem mais realizado na vida? Dificilmente.

- Mas aconteceu. - Ela respondeu, rindo.

- Não poderia ter sido de outra maneira, nem com promessas aos deuses. Nós conseguimos superar tudo. - Ele a beijou atrás do ouvido, fazendo-a se arrepiar.

- E superaremos tudo o mais que possa vir.

Lily se virou para trás e o beijou docemente, suas mãos ainda bem firmes no mesmo lugar. E como desde o começo, quando ela tinha James entre seus dedos, ele apertava de volta para mostrar que estava ali com ela. Agora ela mal podia esperar para ter outra mãos juntando-se a eles.


N/A:

E este é o fim de uma outra história aqui com vocês. Mas calma, tem um epílogo ainda e ele está pronto!

Desde 2012 eu vinha escrevendo essa. Tanta coisa (louca) aconteceu na minha vida neste meio tempo, que eu não conseguiria começar a dizer tudo. Era outra vida, outra Fe, outra tudo. A escrita mudou, o plot mudou, o final não ficou como eu queria, mas a Lily e o James estavam pedindo para serem finalizados, pedindo para que eles finalmente fossem felizes aqui...então por isso que aqui está o final. Era o que eles queriam. Não poderia ser diferente, como eles mesmos disseram no final...nunca esteve nos planos deixá-los separados, mas muita coisa mudou e isso vocês saberão no agradecimento do epílogo xD Vou apenas deixar alguns dias passarem para que a maioria leia esse capítulo.

Mas obrigada a cada um de vocês que comentaram, que deram like, que acompanharam a fic mesmo com essas pausas longas. Eu queria dar um agradecimento geral para aqueles que comentaram no capitulo anterior: Julie, laisevero, Mylle Malfoy P.W, Mah, Jullie, SHakinha e Mah (de novo, me lembrando que o numero 17 é horrivel e que eu deveria postar logo o capitulo hahaha) e para todos que comentaram durante a historia. O meu muito obrigada. Adorei cada palavra, cada gesto, cada incentivo...vocês são sempre demais, dando mais vontade de ficar para sempre nesse fandom (que está longe de ser tão grande quanto os outros). Então esse final feliz vai para todos vocês, pessoas lindas e maravilhosas, que ficaram comigo durante esse tempo.

E se vocês nunca ouviram "Rewrite the Stars" do filme "The greatest showman", por favor escutem. Ela é linda (e é a fic inteira cantada, praticamente).

Duas histórias estão sendo postadas no momento e mais estão no forno, então se você curte o que esta simples pessoa escreve, não desapareça ;)

S2