J~L
O dia estava ensolarado e quente, exatamente como ele gostava.
Todo verão era recebido como um verdadeiro herói em sua vida, podendo trabalhar ou estar sempre sob o sol, sentindo o calor queimar levemente sua pele. Aquilo era algo que lhe dava prazer antes, mas agora sua esposa adorava olhá-lo e passar suas mãos pelo seu corpo e dizer o quanto gostava de vê-lo "beijado pelo sol", como ela gostava de dizer. Por isso, ainda quando já estavam quase entrando no Outono, ele tentava ficar ao ar livre o máximo que podia.
Aquilo lhe aquecia o peito enquanto pegava o caminho de volta para casa naquela manhã com uma boa caça para o jantar. Já via a porta de trás da antiga casa dos Evans - que agora era a casa dos Potter, apesar de ter sido uma decisão de Lily e não dele -, e mal podia esperar para entrar e voltar para as pessoas mais importantes da sua vida.
Deixando a caça bem escondida e longe de predadores para que ele voltasse em alguns minutos para trabalhar nela, ele se limpou antes de entrar.
Os cabelos ruivos caindo por suas costas foi a primeira coisa que viu ao entrar na cozinha. Aquela imagem era rotineira agora, mas quase não podia acreditar em como sua vida tinha mudado tão drasticamente e tão rápido: foi de um pobre coitado que, muitas vezes, furtava para comer, para um marido e pai com uma casa segura em um reino governado por um Rei justo.
Aquilo servia de lição para o antigo James que pensava que nada poderia mudar e que sua vida seria partilhar uma pequena cabana com Hagrid até os fins dos dias. E ele o teria feito sem reclamar, mas agora que sabia que existia Lily neste mundo, não haveria outro lugar que ele gostaria de estar do que entre seus braços e pernas todas as noites.
Se aproximou dela e lhe deu um beijo na bochecha que lhe pegou desprevenida, fazendo-a virar para o lado e encontrar James com um belo sorriso. Ele avançou e arrancou um beijo de seus lábios dessa vez.
- Tudo bem nesta manhã? - Ele perguntou.
- Tudo bem. Como foi a caça?
- Perfeita. Será um jantar delicioso.
Lily nunca queria detalhes da caça, jeito de caçar, limpar animais e coisas do tipo, então James nunca os dava, preparando tudo o que caçava, deixando Lily livre disso. Era um prazer e alívio enorme que ele via em seu rosto, além dele não se importar nem um pouco em fazer tudo aquilo.
- Harry estava pedindo pelo pai dele. - Lily sorriu ao ver o amor nos olhos do marido.
Saindo da cozinha, James foi direto para o cômodo ao lado e encontrando o filho dormindo entre travesseiros no chão, exatamente como ele gostava de dormir, deixando Lily louca. Acabaram adotando uma rotina onde revezavam entre a cama e o chão alguns dias. James acreditava que Lily via o prazer em ter a família naqueles montes de travesseiros no chão, junta, por isso se dedicava em estar com eles ali algumas noites, assim como James via o prazer em ver Lily e Harry dormindo confortavelmente na cama.
- Na próxima vez, talvez eu te leve para caçar. Você precisa aprender já...imagina se algo acontece comigo? Sua mãe não vai sair para caçar, isso é certeza.
O pequeno Harry de pouco mais de um ano se remexeu no sono, mas não acordou, parecendo feliz ao ouvir a voz do pai.
Harry era seu outro pedaço do céu na terra. Apenas quando ele segurou seu filho no colo pela primeira vez, após Lily ter sido tão forte e corajosa para lhe trazer ao mundo, ele entendeu o que os seus pais fizeram por ele, mandando-o para longe quando havia uma ameaça nada velada por sua segurança. Se acontecesse algo parecido com Harry hoje, James moveria até a montanha mais alta do mundo para protegê-lo, mesmo o seu filho talvez não entendendo a decisão de imediato. Para ele, a segurança dele e de Lily era uma das coisas mais importantes em sua vida, além de suas felicidades.
Deslizou seus dedos vagarosamente pelos cabelos de seu filho, tão parecidos com os dele, e tinha dificuldade em acreditar no quão sortudo era.
- A guarda real está aqui. - Informou Lily entrando no cômodo, um pouco esbaforida da pequena corrida da cozinha até ali.
- Guarda real? O que estariam fazendo aqui? - James levantou-se e não teve mais tempo para questionar, pois ouviram batidas na porta.
Eles se entreolharam. Era um dia normal na vida de todos, do reino e não havia nenhum evento real marcado para a família Potter. Lily quem se adiantou para recebê-los e, ao invés de se deparar com um guarda, deu de cara com o Rei.
- Remus! - De imediato, Lily se jogou contra ele e rabraçando-o forte.
- Como vai, Lily? - Remus perguntou ao abraçá-la de volta.
James o cumprimentou com um aperto de mão. Desde o começo, Remus pediu que o tratassem normalmente, rejeitando todas as regras de convenção. Em eventos reais o casal, claro, seguia toda a pompa que exigia, mas se deram bem em tratar Remus como sempre nos bastidores, já que o próprio Remus se comportava tão normal e tranquilo como o de costume.
Deixando-o entrar, Remus foi levado até o cômodo onde Harry dormia, mas que foi acordado com a movimentação na casa. James o pegou no colo e permaneceu em pé, enquanto Remus e Lily acomodaram-se no sofá.
- Não esperávamos sua visita, mas posso preparar um chá.
- Não se incomode, Lily. Desculpe pela visita sem aviso, mas foi tudo muito de repente e eu tive que vir o mais rápido possível.
- Algum problema? - James perguntou.
- Não há problema algum. Ou não da minha parte, claro. - Remus tirou um pergaminho de dentro de suas vestes e manteve-o ali, enrolado. - Gostaria de falar sobre algo sério com vocês.
O casal se entreolhou rapidamente, ficando tensos.
- Bom, não fique cheio de suspense, Remus. Diga. - Lily pediu. - Sabe que estamos aqui para ajudá-lo para o que for.
Remus se levantou, o pergaminho ainda em mãos, e foi até a janela por alguns instantes antes de virar-se para o casal novamente. O único barulho no cômodo eram os balbucios de Harry para o Rei que soava como "Emus". Aquilo fez o homem sorrir e ter mais certeza do que veio fazer.
- Sabem que Dorcas e eu...temos um casamento de fachada. Eu nunca pensei que estaria sentado naquele trono, então ter me casado para ajudar a Ordem nunca foi um grande problema para mim. Porém, agora como rei e Dorcas como rainha, as coisas mudaram um pouco.
Ninguém falou, esperando que ele continuasse. Nem Harry balbuciava mais.
- Como Rei, a sociedade espera certas coisas de mim. Um herdeiro, por exemplo. - Remus sorriu. - Mas, primeiramente, eu não posso fazer isso com Dorcas, não quando não temos esse tipo de relacionamento. Eu já mudei sua vida por completo por ter me tornado Rei.
- Acha que Dorcas não aceitaria ter um filho seu? - James perguntou.
- Ela já disse que não se importaria, mas desde o momento que aceitei aquela coroa, eu tinha algo em mente e ela nunca mudou. E se eu tiver um filho, eu nunca poderia fazer isso.
Ele olhou para o pergaminho em suas mãos e o bateu na palma da outra mão, pensativo.
- E o que seria? - Lily perguntou olhando para suas mãos nervosas.
Remus se aproximou e entregou o pergaminho para ela. Lily levantou-se e foi até James para lerem juntos. O Rei podia ver quando eles começaram a entender as palavras ali escritas.
- Remus! - James exclamou, confuso.
- Vocês teriam que aceitar. Isso não é uma ordem, mas sim um pedido.
- Eu...isso é…nossa! - Lily estava tão confusa quanto o marido.
Harry voltou a balbuciar e chamar a atenção de Remus, pedindo seu colo. Com um grande sorriso, Remus o pegou, observando aquele lindo garoto que tinha os cabelos como os do pai e os belos olhos de sua mãe. Uma criança que ajudou a mudar o destino de James junto com Marlene, que abriu o caminho para James largar a coroa e passá-la para ele.
Era uma honra servir ao povo de Hogwarts. Remus nunca imaginaria que aquilo iria acontecer, nem em seus maiores devaneios, mas ali ele chegou. Lembra que, por um segundo, queria negar a coroa, pedir para que James desse para outra pessoa, mas sabia que sua vontade de dar de volta a alegria para o povo era enorme e fazer aquilo como Rei era a melhor oportunidade que tinha.
Infelizmente isso vinha com preços a pagar, ainda mais para Dorcas. A mulher ficou chocada no começo, de passar de uma simples plebeia à Rainha. O povo pedia e exigia coisas dela, assim como dele, e tiveram que se adaptar como podiam, esquecendo o quanto era duro e apenas pensando o quanto isso ajudaria Hogwarts.
- Eu não sei…- James cortou seus pensamentos, relendo o pergaminho.
- Eu imaginei que isso seria complicado, então eu tenho uma contraproposta.
- Que seria?
- Deixá-lo decidir. - Remus olhou para Harry e brincou com ele, fazendo-o sorrir. - Ele poderia ser treinado desde criança, ter bons estudos e todo o suporte, mas nada forçado. Em certa idade, ele poderia decidir aceitar ou não, escolhendo o próprio futuro. - Remus olhou para James. - Eu não quero forçá-lo.
James e Lily se aproximaram, pensando.
- Precisamos responder agora? - Lily perguntou.
- Não precisam...apesar de ter uma ideia do que queiram, seria apropriado.
Quando aceitou a coroa, Remus sabia que o que mais queria, era que a dinastia Potter continuasse. Eles permaneceram no trono por muitos séculos e não queria mudar aquela bela história.
E nada melhor do que oferecer o trono para Harry James Potter.
- Sendo criado por vocês, eu sei que Harry se tornará a pessoa mais justa, bondosa e forte deste reino. Exatamente o que esperamos de um Rei. - Remus olhou novamente para o garoto. - Então poderíamos prepará-lo para retomar o trono e, se ele decidir que é demais e que prefere seguir outro caminho, então ele estará livre para fazê-lo. - Ele se virou para o casal. - Eu darei todas essas garantias por escrito para vocês, com cópias para Dorcas, Sirius, Hagrid, Dumbledore e qualquer outra pessoa que quiserem. Eu não quero que esta coroa vire um fardo novamente.
James sorriu para ele, lembrando-se de levar aquele fardo por um curto tempo. Virou-se para a esposa, que tinha lágrimas nos olhos enquanto observava Remus e Harry, ambos que se davam tão bem desde o nascimento do pequeno.
- Eu acho que seria uma honra. - Ela disse, virando-se para James. - Apesar de que começar a dinastia Lupin seria maravilhoso, Harry também poderia continuar a sua.
Segurando o pergaminho em mãos, onde Remus oferece o trono após sua morte para Harry, James andou pelo cômodo por alguns segundos. Seus olhos liam a carta, depois subiam para o teto, passavam pela janela, voltavam para a carta.
- Papa. - Harry chamou, cansado de ver seu pai caminhando em círculos. James o encarou por longos segundos, para enfim dizer:
- Eu quero ajudá-lo a redigir essa demanda. - Remus sorriu, aliviado, e Lily parecia orgulhosa da escolha dele. - Quero que todos os direitos de Harry sejam assegurados caso ele não deseje se tornar Rei, sem "poréns" sem "mas". Se ele não quiser, ele não será obrigado.
- Tudo será assegurado para ele. E caso ele não se torne Rei, eu gostaria de lhe conceder um título. O qual ele se sentir confortável, mas o mais alto que eu puder dar, será dele. Além do mais, eu quero garantir que, caso ele diga durante seu treinamento de que não quer se tornar Rei, ele terá o direito de mudar de ideia depois quando eu morrer.
- Remus! - Lily levou uma mão à boca, emocionada.
- Vocês sofreram e, apesar de terem a vida que queriam agora, eu quero pagar por tudo o que fizeram por nós, pela coroa. E já que vocês não aceitam nada, nem títulos, dinheiro ou algo material…- Os três riram, juntos, fazendo Harry se divertir também. - Eu quero garantir um futuro esplêndido para Harry.
Sem dizer nada, James se aproximou dele e ofereceu sua mão, sendo aceita por Remus.
- Isso é um trato.
- Isso é um trato. - Remus repetiu.
Pulando feliz no colo de Remus, Harry parecia comemorar também, já que via que seus pais e Remus sorriam e transmitiam felicidade e tranquilidade. Os três adultos se viraram para ele, fazendo-o sorrir e comemorar ainda mais a atenção…
...a atenção para o futuro Rei de Hogwarts.
N/A:
Por último e não menos importante, eu gostaria de agradecer à Lily Evans desta fic. A gente já conversou bastante na minha mente, mas gostaria de deixar esse agradecimento guardado para a posteridade, porque ela fez uma coisa incrível em 2018, que mudou o caminho desta história e apenas para me ajudar.
As coisas estavam tão boas para você, Lily: eu escrevia a invasão de Hogwarts na época e nada do que foi postado aqui era suposto acontecer. Eu tinha todo o plot na minha mente, a fic tinha mais da metade escrita desde 2012, pelo menos, e tudo estava certo para James ainda negar o trono, Remus se tornar o Rei e todo o resto. Mas então, logo depois do natal, exatamente dia 26/12/2918, as coisas desandaram de tal forma que foi como uma marretada na minha cabeça e, dois dias depois, eu me vi colada ao leito do meu amor aqui da vida real, de uma doença que não conhecíamos, pensando que ele poderia morrer a qualquer momento. Eu ainda me lembro, Lily, quando estávamos no balcão da cozinha daquela noite de Dezembro...eu já devia estar dormindo, eu tinha que trabalhar no dia seguinte, mas o medo de estar na cama e de tocá-lo no meio da noite e ver que ele tinha partido, me aterrorizava. As luzes estavam todas apagadas, apenas a tela do notebook iluminando o lugar e a história aberta. Eu só queria fugir da realidade um pouco, partir para um mundo onde não havia aquele sofrimento sem fim. O céu estava naquele tom arroxeado pela janela da sacada daquele apartamento que a gente alugava (eu não sei o motivo de lembrar desse detalhe específico, mas ele é sempre muito presente na minha lembrança), a Yvie deitada nos meus pés e você apareceu na minha mente e disse "Eu quero passar isso com você e, juntas, nós vamos vencer". Então eu abri outro documento e escrevi a cena do quarto, onde você vê o James na cama, e todo o sacrifício acontece: o rio, as palavras, a adaga... porque tudo o que eu queria, era aquela chance também. Tudo o que queria, era que as coisas acabassem bem aqui no mundo real, mesmo se tivesse que sacrificar o meu amor para salvar a vida dele. E todo aquele sofrimento que você passou, era o que eu estava vivendo no momento: a sensação de estar me afogando no meu próprio desespero e tristeza naquele frio de Dezembro (aquele frio que eu me forcei a passar, sem nada para me cobrir, como se eu tentasse sentir outro sofrimento do que aquele que eu já estava), mas as ondas de calor que eu sentia quando eu chorava pareciam ser mais fortes; a dor imaginária que sentia nas minhas mãos, como se elas sangrassem, por não conseguir fazer nada por ele; as milhares de promessas que eu fazia sozinha para que ele sobrevivesse. Ninguém sabia e ninguém viu que eu escrevi aquela cena aos prantos, indo de cinco em cinco minutos até o quarto, vendo o meu James lutando pela vida dele assim como o seu estava fazendo.
Você mudou o seu caminho, que era apenas felicidade, para passar isso comigo. E eu nunca serei grata o suficiente.
Hoje o seu James está bem, vocês têm uma família linda. E o meu James tambémestábem e agora estou lutando pela minha família.
Você estava certa: nós vencemos.
