Depois da chuva
One-shot
Para minha amiga Raquel (LittlePrincessRin).
Rin – por volta de 7 anos.
A garotinha escondia-se embaixo das folhas de tsuwabuki, assustada com o barulho dos relâmpagos e trovões naquela noite de chuva intensa. Ela, sozinha na cabana, aguentava o choro sem conseguir ignorar o que se passava do lado de fora do casebre onde morava. Fechava os olhos e os reabria várias vezes.
A chuva, os relâmpagos e os trovões só cessariam na manhã seguinte. Ela, exausta, não conseguiu dormir. O teto de palha que protegia o barraco cedeu em alguns pontos e molhou o interior, estragando inclusive os alimentos que ela havia colhido com tanto cuidado no dia anterior.
Pela manhã, ela, pequeninha dentro do quimono sujo e puído, apenas olhou para o cenário de destruição com um olhar de tristeza. Alguma coisa se formou no fundo da garganta como uma palavra que tentava sair.
Mas onde formou, também ficou. Desistira de falar para dar as costas para tudo, como se quisesse esquecer aquele problema. Não era importante agora.
Precisava sair para procurar comida novamente.
Rin – por volta de 8 anos.
A garotinha estava sentada abraçando os joelhos perto de um youkai de duas cabeças, assustada com barulho dos relâmpagos e trovões naquela noite de tempestade. Assim como das outras vezes, ela não queria dar trabalho ao lorde Sesshoumaru e pedir abrigo em algum lugar onde pudesse ficar por algumas horas.
As mãos tentavam proteger a cabeça a cada vez que ouvia o barulho. Os olhos fechavam com força para não ver o brilho que antecediam os relâmpagos.
De repente, o youkai de duas cabeças, a quem ela deu o nome de Ah-Un, levantou-se e andou em círculos, como um cachorro preparando a área antes de deitar. Foi exatamente o que fez: deitou-se protetoramente ao redor da garotinha, uma cabeça um pouco acima da dela para evitar que as gotas da chuva a molhassem.
Ao entender o que havia acontecido, ela deu um sorriso.
— Obrigada, Ah-Un.
O youkai rosnou alguma coisa para ela antes de senti-la aninhar-se ao corpo dele e adormecer.
Rin – por volta de 11 anos
A garota, deitada no futon no meio da única sala da cabana da sacerdotisa Kaede, cobria-se até mais ou menos a altura do nariz com o quimono quadriculado, primeiro presente que recebera de Sesshoumaru. Era a roupa de conforto e proteção que tinha em noites como aquela. Chovia torrencialmente no vilarejo há dias, estragando a plantação de arroz e de legumes e deixando as duas apenas com o mantimento colhido semanas antes, com apenas os deuses sabendo por quanto tempo durariam.
Apenas os olhos ficavam de fora, olhando de um lado a outro como se tentassem ver algo no breu. O fogo no meio da cabana já havia apagado e Kaede-sama dormia profundamente, ignorando o que acontecia com Rin.
Um relâmpago cortou os céus e ela viu o brilho da ameaça pelas frestas da cortina de palha. Rapidamente fechou os olhos, o que fez passar despercebido para ela a sombra de um homem parado do lado de fora da cabana, de frente à janela.
Um trovão se manifestou e ela encolheu-se, fechando os olhos de novo enquanto tentava conter um soluço.
Ao abri-los, ela arregalou-os ao perceber Sesshoumaru ali na cabana, sentado de costas para ela no chão, sem tirar os pés do genkan.
— Se... Sesshoumaru-sama... – ela sussurrou.
O youkai apenas a olhou por cima do ombro.
— Durma. – ele falou suavemente.
Rin deu um sorriso e, mais tranquila, fechou os olhos.
Ao acordar, no dia seguinte, Sesshoumaru já não estava mais ali, mas havia uma cesta enorme com frutas e verduras para os próximos dias.
As duas sabiam quem tinha deixado ali.
Rin – por volta de 15 anos.
A jovem estava sentada em seiza no meio do quarto da nova casa com quem dividiria com o marido – um dos mais fortes youkai do Japão. Usava um quimono de dormir elegante, em tons verdes claros e flores em verde mais escuro.
Estava nervosa, mas por outro motivo.
— Ai... – gemeu ao olhar pela janela.
Enquanto ela o aguardava retornar à residência com algum preparativo para aquela noite, ela via os céus escurecem e a chuva cair. Os primeiros trovões começarem a se manifestar logo em seguida.
Fechou os olhos a cada barulho. Ela estava mais apavorada com aquilo do que com... o que quer o lorde e ela fizessem juntos naquela noite.
Tentou se acalmar fazendo exercícios respiratórios. Ela aprendera com Kaede e Kagome. Inspira, expira, inspira, expira. Pense em coisas alegres. Pense que Sesshoumaru vai beijá-la muito naquela noite. Ele havia prometido que faria isso. Que estaria segura com ele pelo resto da vida mortal dela.
De olhos fechados, inspirou profundamente e soltou o ar.
Sesshoumaru havia prometido que tudo ficaria bem, então não precisaria se preocupar com nada.
Inspire e solte o ar.
Apenas precisava saber por que ele estava demorando tanto para voltar.
Inspire.
Solte o ar.
— Rin. – a voz de Sesshoumaru falou suavemente já dentro do quarto, sentado na frente dela.
A esposa deu um grito e levou a mão ao coração.
— Se-Sesshoumaru-sama! – ela tratou de se corrigir depressa, curvando-se até o rosto quase alcançar o chão numa reverência – B-Be-Bem-vindo de vo-volta!
O daiyoukai, apenas com a roupa tradicional que usava e sem a armadura demoníaca, a olhou curiosamente até ela assumir novamente uma postura adequada em seiza.
— Desculpe, eu estava pensando em outra coisa. Nem o recepcionei direito.
— E o que estava pensando? – ele perguntou suavemente.
— Oh... eu... hmm... – ela corou e disfarçou com um sorriso – Fiquei me perguntando por que escureceu depressa. E se vocês iriam demorar a chegar.
Naturalmente que não contaria ao marido o motivo do medo. Ela não queria que ele pensasse que, além de ser uma frágil humana, era uma pessoa medrosa. Não tinha medo de quase nada além de humanos desconhecidos, de lobos, dos pesadelos e de...
Um trovão soou ao longe e ela arrepiou-se e encolheu os ombros, novamente sorrindo para disfarçar da melhor maneira possível.
Sesshoumaru apenas a observava curiosamente.
— Eu preparei chá para nós dois. Vou buscar.
No momento em que ela se levantaria, um relâmpago riscou os céus e ela, desprevenida, assustou-se de tal forma que acabou caindo nos braços do lorde.
Quando escutou apenas o silêncio dele e a chuva caindo do lado de fora da casa, ela arregalou os olhos ao perceber a situação deselegante em que se encontrava.
— Ah, desculpe, Sesshoumaru-sama! – ela tentou se afastar colocando uma delicada mão no peito dele – Eu não tive a intenção de...
Um trovão cortou a fala dela e a silenciou.
— Que pena. – ele murmurou.
Rin ergueu a vista timidamente. Será que ele sentia "pena" agora por perceber que ela tinha mais um medo, além dos outros que ele já sabia?
— Meu lorde? – ela sussurrou.
— Que pena que você estava pensando sobre a chuva. Achei que estivesse pensando no que havia prometido fazer com você hoje à noite.
Outro relâmpago iluminou os céus e ela, completamente alheia ao que acontecia lá fora, tinha os olhos fixos nele como se estivesse hipnotizada.
Em poucos segundos, os dois fecharam os olhos e aproximaram os rostos para um beijo.
Nota da autora: Um one-shot curtinho como homenagem a LittlePrincessRin, que se encontra há exatos 15 anos longe deste insensato mundo. Eu havia parado de escrever essas homenagens, mas hoje bateu uma saudade das nossas conversas da época do MSN e das histórias dela.
Além desta história, também escrevi Itazura na Kiss e Damashi no Mori. Essa última está na reta final e eu decidi tirar este mês só para revisar tudo e escrever os capítulos finais. Eu comecei DnM na época que ela ainda estava viva e cheguei a comentar os acontecimentos, então não vou mudar nada do que planejei antes.
Espero que vocês tenham gostado e, se puderem, deixem um comentário dizendo o que acharam.
Beijinhos da Shampoo-chan.
