A Lembrança da Felicidade

Capítulo 1

"Eu nunca fui realmente louco,

Exceto nas ocasiões em que meu coração foi tocado"

Edgar Allan Poe

Quando Poe retornou ao hotel após sua última incursão e se deparou com Dig congelada no meio do hall de entrada do Nevermore, logo entendeu o que acontecera e, no mesmo instante, compreendeu ao que os humanos se referiam ao mencionar a palavra ódio.

Ele odiava os canalhas que se atreveram a se aproximar de Dig e invadir sua mente daquele jeito.

— Senhorita Dig, o que aconteceu? Quem fez isso? — ele questionou com raiva assim que conseguiu fazê-la voltar a si.

— Poe... — ela murmurou assim que vislumbrou seu rosto, e o abraçou com lágrimas nos olhos. — Ele... Ele...

— Shhh... — Poe replicou no mesmo tom que ela, correspondendo ao seu abraço e acariciando seus cabelos. Ele podia sentir o corpo dela tremendo contra o seu. — Não precisa dizer nada. Tente se acalmar — prosseguiu de maneira gentil. — Vou cuidar da senhorita e não permitirei que se aproximem novamente, ok?

Dig assentiu sem se afastar dele e Poe, entendendo que ela precisava de sua presença e seu abraço, a apertou mais contra si.

— Venha — ele falou após algum tempo. — A senhorita precisa descansar — explicou materializando-se em um dos inúmeros quartos vazios do hotel. — É melhor se deitar e deixar que eu cuide de você.

Poe se afastou levemente e a guiou em direção à cama. Dig sorriu, já sentindo-se mais calma.

— Mas, Poe, eu... — Ele parou no meio do caminho e a encarou. Dig engoliu em seco ao se ver sob o escrutínio daquele olhar. Estava prestes a dizer que nada daquilo era necessário afinal, eram inteligências artificiais e não deveriam ter reações tão humanas diante do que ocorrera, porém o olhar de Poe a fez mudar de ideia.

Ele a encarava com carinho e preocupação, sentimentos que, até então, ninguém nunca havia lhe direcionado, sendo uma inteligência artificial ou não.

Era evidente que ela não precisava daquele cuidado, mas isso não significava que não queria recebê-lo; ainda mais vindo de Poe.

— Ok — concordou por fim, permitindo que ele a ajudasse a se deitar. — Obrigada. — Poe sorriu satisfeito.

— Agora fique aqui. Vou providenciar os itens necessários para cuidar de você direito. — Dig franziu o cenho perguntando-se que itens seriam esses, contudo, antes que pudesse dizer qualquer coisa, Poe desapareceu diante de seus olhos.

A jovem sacudiu a cabeça em incredulidade, mas não pôde deixar de sorrir. Já fazia algum tempo que havia notado que se sentia diferente quando estava perto de Poe. Não sabia muito bem se "sentir" era a palavra certa, no entanto, era a única que vinha à sua cabeça quando pensava nesta situação. Poe agitava todos os seus dados, ele... Ele a deixava confusa e lhe causava sensações que nunca ocorreram antes. O que isso significava?

— Voltei — ele falou, desta vez entrando no cômodo pela porta. Poe carregava uma bandeja e sua entrada repentina interrompeu os pensamentos de Dig, deixando-a... envergonhada?

A inteligência virtual desviou seus olhos dos dele e fez com que o programa no qual vinha trabalhando surgisse diante deles. Era bom ter algo no ambiente que pudesse desviar a atenção de Poe das suas reações incomuns à presença dele.

— A senhorita não devia trabalhar agora — ele resmungou pousando um pano úmido sobre sua testa. — O que fizeram a você é uma das piores coisas que poderiam fazer a qualquer um, e recomendo que descanse e se recupere.

Poe afastou os dados da programação exposta diante deles e segurou a mão dela, fazendo com que Dig focasse a atenção em suas mãos unidas.

— Trouxe uma canja pra você — falou Poe sentando-se na beira da cama, próximo a ela.

Dessa vez Dig não pôde deixar de rir.

— Poe, eu sou uma inteligência artificial, não preciso me alimentar.

— Eu sei, mas percebi que isso traz conforto aos humanos, e achei que poderia fazer o mesmo por você.

— É um gesto bonito — ela concordou —, mas talvez um pouco impraticável para nós.

— Talvez — Poe foi obrigado a admitir —, mas são as coisas impraticáveis, neste inferno conturbado de mundo, que mais importam. Um livro. Um nome. Canja de galinha. Nos ajudam a lembrar que, mesmo na hora mais sombria, a vida ainda deve ser saboreada.

Dig o fitou admirada. As palavras de Poe faziam mais sentido do que ela esperava.

— Talvez você esteja certo — ela comentou assentindo levemente com a cabeça. — Sua preocupação por mim me conforta bastante.

— Que bom... — ele disse pressionando a mão dela mais uma vez antes de se levantar. — Foi uma das coisas que aprendi com a senhorita Elizabeth — explicou ao se aproximar do programa no qual ela trabalhava.

O semblante de Dig repentinamente se tornou soturno, algo que passou alheio a Poe até ouvi-la falar novamente.

— Às vezes eu acho que você tem uma espécie de obsessão pela Elizabeth — Dig proferiu com o cenho franzido e num tom levemente irritado.

— O quê? — Poe questionou surpreso. — Não é isso. Eu só...

— Você só pensa nela, certo? — Ela baixou a cabeça, deixando-o um pouco confuso.

— Não. Eu não penso apenas na senhorita Elizabeth — Poe afirmou sentindo-se angustiado. Não entendia muito bem o que estava se passando com Dig naquele momento. — Mas ela foi minha primeira amiga e foi uma pessoa muito importante pra mim. Acho que nunca vou deixar de sentir falta dela.

— Entendo — Dig murmurou ainda sem encará-lo, pois sentia que se o fizesse acabaria chorando, mesmo que não tivesse verdadeiramente a capacidade de chorar. — Acho que você tinha razão, Poe. Eu preciso descansara. — Alheio aos sentimentos que a atormentavam, ele deu um pequeno sorriso e voltou a se aproximar dela. — Sozinha — a jovem concluiu para o desalento de Poe, que parou onde estava sentindo-se desolado.

— Certo — concordou relutante. — Se precisar de alguma coisa, é só me chamar.

E, após vê-la anuir, Poe fez a única coisa que podia, a última que queria fazer, saiu de perto dela.