1

Severo Snape caminhava pelas ruas silenciosas e geladas daquela manhã do dia nove de Janeiro, seu aniversário. Quando ele pensava que estaria já com 61 anos? E do que adiantava tantas celebrações quando se o mundo estava naquele total pandemônio?

Ele se lembrava como um rápido Lumus de tudo que passou no ano fatídico: uma doença mortal, que se provou um desafio. No início, toda a comunidade bruxa achava que eles eram imunes por ter vindo dos trouxas, mas ela desafiou os muros que os separavam e foi contaminando e matando vários bruxos por toda a Grã-Bretanha. O St. Mungus entrou em colapso, e as aulas em Hogwarts foram suspensas naquele ano letivo.

Com a confusão formada, a ministra da magia Hermione Granger decretou uma lei, onde todos os bruxos que fossem sair nas ruas deveriam usar alguma proteção que cobrisse suas bocas e narizes, e quem descumprisse teria sua varinha confiscada.

Alguns aprovaram. Outros protestaram, principalmente as famílias nobres sangue-puro que colocavam em dúvida sobre a contaminação da doença perante aos bruxos.

E Snape não aguentava mais usar aquela maldita máscara que lhe dava uma alergia horrível embaixo do seu queixo e de toda a parte de baixo do rosto. Já não sabia mais por quanto tempo teria que fazer poções para a pele e se também conseguiria dinheiro para comprar os ingredientes. Ele entendia que era necessário o uso dela, ainda mais agora que poderia ser considerado um "idoso" e pertencia ao tal grupo de risco. Até porque, seria idiota demais para alguém que sobreviveu a um ataque feroz de uma serpente no pescoço, morrer para uma doença "dos trouxas".

Assim, Snape pensava.

Ele vivia sozinho no momento, em uma pequena casa vitoriana em Edimburgo, Escócia. Vendeu — depois de tanto sua mãe insistir — a casa da Rua da Fiação, e se mudou com ela, mas teve que mandá-la para uma Casa de Repouso com medo dela ser contaminada e morrer. A velha Eileen, que já estava no auge dos seus cem anos de idade, poderia ser uma mulher casca grossa, mas Snape a amava e sentia falta dos seus abraços. Não a via pessoalmente já faz quase um ano.

Porém, ele ainda a via, mas em chamadas de vídeo. Snape não sabia lidar bem com o tal "smartphone" dos trouxas e detestava mexer naquela porcaria. O pior talvez nem fosse o aparelho, mas os vídeos imbecis que sua mãe lhe enviava de um aplicativo infâme chamado TikTok.

Se tem uma coisa que Snape aprendeu é que, conhecendo o costume dos trouxas, seria mais fácil de se misturar e receber notícias da comunidade bruxa que não fossem inventadas por Rita Skeeter no Profeta Diário. Por exemplo, a única pessoa que ele mantinha contato de seu passado era Draco Malfoy. Ele trabalhava no ministério como conselheiro, mas sempre dava um jeito de mandar lembranças e perguntar se estava tudo bem.

Uma vez, Snape perguntou a Draco sobre seus pais. Ele havia respondido que seu pai havia morrido faz alguns anos de uma nova variante da Varíola de Dragão — a mesma doença que seu avô Abraxas Malfoy morreu — e sua mãe havia "enlouquecido" e saído de casa.

Snape ficou em dúvida e quis saber mais sobre. Draco disse que Narcisa Malfoy, a senhora sua mãe, tinha começado a fumar ópio e beber muito após a morte do marido. Ela também dizia coisas estranhas e sem sentido de como era infeliz e que o verdadeiro amor dela tinha ido embora. Algum tempo depois, ela fugiu de casa após Draco dizer que iria interná-la para cuidar dos vícios, já que não conhecia nenhuma poção para curá-la.

Isso ocorreu há mais de três anos.

Snape ficou assustado na época, e de coração partido. Ele sabia que Narcisa falava sobre ele, pois os dois tiveram um relacionamento proibido e até duradouro que ficara marcado em seu coração para todo o sempre. Amava Narcisa, mas não queria prejudicá-la por causa de Lúcio na época. Snape poderia ter a chance agora de cortejá-la, mas como? Ela fugiu e não há sinais de que estava viva e nem tinha como curá-la com uma poção rara que só ele tinha as condições corretas de se fazer.

Enfim, Snape esqueceu daquele assunto — por mais que, aquela linda bruxa de cabelos bicolores fosse inesquecível — e pensava em como "comemoraria" seu aniversário. Poderia beber alguns copos de whisky em algum pub de Edimburgo enquanto via um show de uma banda qualquer, mas todos estavam fechados e apenas fazendo o tal do delivery. Os parques principais eram escoltados por policiais trouxas no intuito de não deixar que ninguém entre. Snape poderia facilmente burlar e enganar todos eles, mas não era do tipo de bruxo que atacava os trouxas a torpe e direito. Talvez fizesse isso em sua época mais explosiva, porém hoje apenas procurava a paz.

No fim, iria passar na sua casa mesmo. Encomendaria um bolo ou talvez ele mesmo faria um, tanto faz. Passaria primeiro ao mercado para fazer o desjejum e depois se viraria para o almoço e a janta.

Chegando perto de uma viela, Snape sentiu uma leve vibração nos bolsos de dentro do seu casacão. Era o celular, que mostrava duas mensagens em um aplicativo: de sua mãe — mais um vídeo idiota — e de Draco. Pegando o objeto, sempre tinha dificuldade em desbloquear a tela de proteção.

— Maldita máquina dos trouxas... — reclamou, e depois de tanto insistir conseguiu desbloquear para ver a mensagem — Cartas são bem melhores do que essas porcarias...

Quando Snape iria abrir as mensagens, começou a ouvir choros estranhos vindo de um dos becos à sua esquerda. Apesar de ser bem fraco, a voz era conclusiva em seus pensamentos — a não ser que estava tendo alucinações depois de Narcisa começar a invadir seu consciente depois de anos. Passando pelo corredor e chegando em uma área aberta de estacionamento simples, notara uma figura sentada e encostando a cabeça nos joelhos e se comprimindo.

Snape olhou para cima e viu que várias nuvens estavam se formando... pequenas gotículas já caíam sob sua cabeça e rapidamente a chuva começou a engrossar. Ainda meio ressentido se deveria ou não se aproximar daquele ser pequenino, primeiro olhou para os lados vendo se não havia nenhum trouxa por perto. Seria bem difícil, pois as ruas estavam ficando cada vez mais vazias por conta da doença.

Se aproximar demais também não era uma boa escolha, mas e se for ela?

E se também for um morador de rua qualquer tentando se proteger do mau tempo?

Snape não era clarividente, e sua legilimência não andava muito boa por causa da idade, mas sua oclumência parecia se fortalecer mais conforme envelhecia. Se aproximou com calma e se agachou para ver a figura melhor. Ela nem se mexeu quando Snape afastou suas roupas maltrapilhas enquanto a chuva caía como um pé d'água. E para o seu medo, lá estava quem ele não queria ver.

Narcisa Malfoy, aquela mesma mulher poderosa e com pompas de riqueza e luxo que ele conheceu, estava com o rosto inchado de tanto chorar. Os lindos cabelos bicolores não estavam alinhados e sim bastante desgrenhados e embaraçados. Embaixo de um dos olhos havia um hematoma horrível — alguém deve ter lhe agredido recentemente, mas Snape não conseguia ver quem foi, descobrindo apenas que ela tinha se envolvido em uma briga de gangues adolescentes trouxas... talvez não tinha conseguido se defender por estar desnorteada ou então sob efeito das drogas ou álcool — e aqueles lábios vermelhos a qual se apaixonara estavam secos e cheios de rachaduras. Os olhos sem vida e bastante tristes.

Snape se aproximou dela, e logo sentiu o cheiro do ópio com álcool, mas pouco se importou com isso. Seu coração estava dilacerado em ver o amor de sua vida daquele jeito... destruída e derrotada. Poderia culpar Malfoy por isso, já que foi a causa de tudo aquilo, porém também sentia uma certa culpa já que, Narcisa enlouqueceu por sentir sua falta. Só que, agora ele pode tê-la de novo.

Snape abaixou sua máscara e revelou seu rosto para a bruxa.

— Narcisa, sou eu. — disse em tom baixo, mas ela pareceu não ouvir ou sequer dar bola — V-você não está me reconhecendo?

Snape viu uma certa relutância de Narcisa, mas ela poderia estar sob o efeito das drogas e não lhe reconhecia, pelo contrário. Estava com medo, desconfiada e receosa em vê-lo. Snape entendia bem... eram olhares gelados, de reprovação e principalmente: de abandono. Há quanto tempo será que ela vagava assim, sem nenhum rumo e completamente fora de si?

— Escuta... — começou a dizer — ... se você ficar aqui, vai acabar se contaminando com a doença. Está sem nenhuma proteção e o ministério pode confiscar sua varinha... — a frase foi meio retórica e Snape sabia disso... pelo tempo em que esteve nas ruas, com certeza não tinha mais seu objeto mágico — Vamos... e-eu só quero te ajudar... vou te levar para a minha casa... lá eu te darei um banho e uma poção para que passe esses efeitos horríveis... — Snape tentou encostar-se nela, e recebeu uma negativa. Narcisa parecia desconfiada das intenções do bruxo — Confie em mim. Eu só quero te tirar daqui.

Mesmo desconfiada, Narcisa aceitou e Snape lhe ajudou a se levantar. Segurando firme, deu um jeito de aparatar bem em frente a sua casinha vitoriana humilde junto com ela. A bruxa não sofreu estrunchamento e estava bem, na medida do possível. Snape abriu a porta e pediu para Narcisa entrar primeiro. Passaram por um corredor pequeno até darem em uma sala de estar com janela na frente e várias estantes de livros nos arredores. Snape trouxera tudo que tinha na casa da Rua da Fiação para lá porque, não iria se desfazer daqueles livros magníficos e preciosos. De fato, uma coleção de dar inveja a qualquer bruxo adulto — ou jovem — que tenha sido da Corvinal.

— Aqui estará segura. — disse Snape — É uma casa meio... modesta, então... não tem o luxo que estava acostumada lá na mansão... se é que ainda se lembra que vivia lá.

Snape achava que Narcisa tinha perdido totalmente sua memória, ou talvez só esteja sob efeitos do álcool e ópio. Não tinha como saber até fazer uma poção para passar os efeitos alucinógenos destas drogas. Snape só foi ver o seu celular depois enquanto ia até o quarto de sua mãe pegar algumas roupas que ficaram para trás — era o que ele tinha no momento também — e as mensagens, óbvio, eram de sua mãe e de Draco. Ambos desejavam feliz aniversário.

Snape ficou refletindo se faria bem em falar a Draco que sua mãe estava com ele neste exato momento, mas recuou quando imaginou o quão ficaria decepcionado em vê-la daquela maneira. Primeiro, cuidaria de Narcisa e depois resolveria a questão com Draco.

Removendo a máscara e colocando na pia para lavá-la depois, Snape voltou para a sala de estar com as roupas nas mãos — um vestido simples de cor azul claro com mangas estufadas e cheias de renda, foi o máximo que conseguiu de "luxuoso" para ela. Sabia que Narcisa gostava de usar esses caprichos bobos, então pensou que ela se sentiria bem usando aquele traje.

Enquanto isso, ela parecia perdida, olhando para todos os cantos sem entender onde estava ou quem era aquele homem que lhe trouxe ali. Snape colocou as roupas no sofá e aproximou-se de Narcisa para olhar seus olhos melhor. Ela se afastou na hora, e ficou em posição de defesa, assustando Snape.

— Suas pupilas estão dilatadas. — disse calmamente — Deve estar sob o efeito dessas drogas miseráveis. E-eu me sinto culpado pelo que aconteceu com você... — desabafou — ... se eu não tivesse me afastado, talvez não estivesse passando por isso... mas do que adianta eu falar isso agora? Você nem deve estar entendendo nada por causa dos alucinógenos... — ele tentou novamente uma aproximação, e desta vez, tocou nos ombros dela — Venha comigo. Precisa de um banho e tirar essas roupas sujas.

Snape estava disposto a cuidar dela, até que melhorasse. Levou-a para o banheiro e queria poder remover aquele vestido encardido e rasgado e jogá-lo para bem longe. Primeiramente, ligou a água da banheira e começou a esquentá-la. Depois foi até ela e tentou remover o vestido, mas quase levou um tapa no rosto. Narcisa estava muito na defensiva e Snape desconfiava o motivo.

Viver no mundo dos trouxas, sem varinha e sob o efeito de drogas... combinação perfeita para aproveitadores. Narcisa... o que fizeram com você?

— Eu não vou te fazer nada... — disse ele — ... apenas te quero dar um banho para que fique melhor. Por favor... se pelo menos se lembrasse de mim, talvez não ficasse tão na defensiva.

De repente, Narcisa mudou suas feições. De posição de defesa, ficou triste, como se tivesse lembrado de alguma coisa. Snape sentiu que ela tinha tido alguma reação nas palavras e tentou então, estimular seu cérebro para conseguir mais lembranças.

— Calma... você se lembra que, sempre gostava de dizer que amava pintura, e até tentou me pintar um dia? Tente se lembrar disso. Faça um pouco de força.

Narcisa parecia incrédula e assustada. Snape ameaçava um sorriso, mas as esperanças de que ela o reconhecesse eram mínimas. Mais de três anos nas ruas, sendo abusada por homens sem nenhum escrúpulo e se aproveitando de seu estado frágil, não sabendo como se defender seja por estar nos efeitos das drogas ou não ter mais a sua varinha... tudo isso colaborou para que o seu cérebro entrasse em colapso. E nisto, Snape se sentia mais e mais culpado...

— S-Severo? — disse Narcisa, sua primeira palavra após o reencontro deles.

— Conseguiu se lembrar de mim?

Narcisa fez um sim um tanto envergonhada, mas não respondeu nada além daquilo. Bem, foi um começo promissor. Snape olhou novamente para os olhos da bruxa, e as pupilas estavam começando a voltar ao normal, vulgo, os efeitos estavam passando. Isso alegrou Snape internamente, mas ela ainda precisava de uma poção anti-alucinógena.

— Isso... os efeitos das drogas estão passando. Preciso te dar um banho agora. Você... me deixaria tirar essas roupas?

Narcisa fez sim com a cabeça e Snape agiu com calma para não assustá-la. Tirou primeiro o pano que cobria sua cabeça e jogou em um lugar qualquer — iria com certeza queimar tudo — e depois foi até o vestido, desabotoando nas costas com calma e depois removendo entre os ombros suavemente... tudo único e justamente para não deixá-la ainda mais ressentida.

— Vou te dar um pouco de privacidade... a não ser que não consiga se limpar sozinha...

— Eu consigo. — respondeu com frieza — Pode... pode me deixar sozinha, por favor?

— Claro. Se precisar de mim... é só me chamar.

Snape saiu do banheiro para deixar sua amada um pouco mais à vontade. Enquanto isso, foi até a cozinha tentar preparar alguma coisa para os dois comerem. Como estava indo ao mercado, não tinha quase nada na dispensa para o desjejum, então teve que se virar como podia. Pegou um pouco do que sobrou do pão de ontem e um pouco de café com leite. Pegou também algumas frutas e cereais para incrementar e dar sustância.

Aprumou tudo na cozinha e levou para a sala de estar. Em seguida, passou por um corredor e foi para a sua sala particular de poções fazer o anti-alucinógeno. Foram muitos ingredientes de seu já limitado estoque e quase quinze minutos entre esquentar um caldeirão e outro. Snape nunca perdera o jeito com as poções e suas habilidades melhoravam ainda mais conforme... ficava mais velho.

Colocando o líquido fumegante com cor rosada e cheiro de rosas em uma cálice, foi andando devagar pelo corredor até chegar na sala de estar. Lá, teve a surpresa de ver Narcisa bem melhor do que antes, com os cabelos molhados bicolores por de trás das costas e o vestido que Snape lhe dera deixou-a com cara de princesa. A sua princesa.

Só que claro, nem tudo são alegrias. Dava para ver bem nítido que seus olhos ainda estavam tristes e aquele hematoma parecia doer demais. Snape não iria ser indelicado de perguntar onde ela o adquiriu. Apenas entrou em silêncio e colocou o cálice na mesinha perto do desjejum.

— Vai melhorar se tomar essa poção. Os efeitos dos alucinógenos irão passar rápido.

Calada, Narcisa pegou primeiro o cálice, e bebeu tudo com um gole. Depois, foi até o desjejum que Snape lhe preparou e começou a comer como se não houvesse fim. Deveria estar sem comer e beber por dias. O bom disso tudo, é que em breve, ela recuperaria a memória e já começou por dizer o seu nome.

Este, talvez, seja o melhor presente que já ganhou em todos os aniversários de sua vida.

Mas ainda assim, precisava estimular o cérebro dela.

— Narcisa... você... se lembra que me disse que gostava de pintar; que aquele quadro que o Lúcio tinha na parede da sala tinha sido você quem fez? — Narcisa apenas fez sim com a cabeça porque continuava comendo — Se quiser, eu posso trazer algumas tintas e telas... isso pode te ajudar a se lembrar...

E depois de um bom tempo calada, Narcisa parou de comer e se levantou de um jeito brusco para vê-lo melhor.

— Eu quero... Severo. — respondeu.

— Ó-ótimo... — disse assustado — Irei trazer. Consegue ficar bem sem mim? — Narcisa fez sim com a cabeça — Então vou sair de novo. Já venho.

Snape estava feliz em saber que ela começava a se lembrar e a pintura iria ajudá-la. Só esperava também que encontrasse alguma papelaria ou casa de pintura aberta naquela hora do dia.

2

Era meio-dia e de tanto rodar Edimburgo, Snape finalmente encontrou alguma papelaria aberta. A hora do almoço estava chegando, e ele passou quase o dia todo sem comer absolutamente nada. Voltando para a casa e abrindo a porta da frente, encontrou Narcisa quase do mesmo jeito que estava antes: sentada, fria e imóvel. A aparência tinha melhorado e até ameaçou se levantar quando o viu. Seus lábios não estavam tão ressecados, e o hematoma abaixo do olho tinha um singelo curativo.

— Está melhor? — perguntou Snape colocando tudo no chão e removendo sua máscara com certo asco e jogando em um lugar qualquer da casa — Eu odeio usar essa coisa... mas é necessário para não pegarmos essa doença maldita.

— É verdade Severo... — sua voz estava mais firme, mas ainda bastante fria. Snape até sabia o motivo de tanta frieza.

— Eu sei... sua mente deve estar passando por um monte de informações, e me sinto muito culpado por tudo que sofreu nestes últimos anos.

Naquele instante, Narcisa finalmente se levantou e foi até ele, agora cheia de raiva.

— Por que não mandou nenhuma mensagem depois que o Lúcio morreu? Eu acreditei que a primeira pessoa que iria me ver era... você Severo... — Snape não conseguiu dizer nada, pois sabia que ela estava certa; não deveria ter a abandonado naquele momento crítico — ... sofri por quatro anos nas ruas... sustentando estes... estes vícios que nunca entendi porque os adquiri... e agora, depois que tomei essa poção tudo ficou tão claro para mim... você e sua maldita mania de se isolar de todos...

— É um anti-alucinógeno permanente. Você não vai sentir mais vontade de fumar ou beber essas drogas... foi difícil criá-la porque meu estoque anda baixo ultimamente, mas enfim... Cissa...

— Não me chame assim! — protestou — E-eu não quero que me chame desta maneira. Apenas vamos nos chamar pelo nome comum.

— Tudo bem. Eu vou entender se você começar a me odiar... fui um tolo. Deveria ter aparecido no velório e te dado conforto e...

Narcisa bufou com raiva. Snape realmente não estava entendendo onde ela queria chegar... parecia querer dizer alguma coisa, mas não conseguia ou ele não compreendia suas mensagens corporais. Literalmente, a idade avançada estava lhe fazendo perder o sentido das coisas...

— Obrigada pelas roupas e por ter me dado essa poção. Me sentia sufocada por desejar beber e fumar. — Narcisa olhou para os materiais de pintura que Snape lhe trouxera — Bem... você disse que a pintura poderia me trazer lembranças do meu passado, não é? Pois é isso que quero fazer. Eu posso... te pintar?

— Sim, óbvio. — Snape foi para o meio da sala de estar e puxou uma cadeira — Se quiser uma posição específica, é só me dizer que faço e...

— Pensei em outra coisa. — Narcisa foi mexer nas coisas. Pegou a tela e depois o cavalete. Armou a segunda e colocou a tela em cima. Em seguida, enquanto Snape observava tudo silenciosamente, Narcisa pegou as tintas e abriu os tubos, colocando um pouco de cada no misturador de madeira. Ela voltou a se sentar e olhou para Snape bem diretamente nos seus olhos negros — Tire suas roupas.

Snape levou um susto e seus olhos ficaram arregalados.

— Tirar minhas roupas? Você quer q-que eu fique... nu?

— Se eu vou te pintar, quero ter o máximo de experiência em anatomia humana olhando para você. Veja isso como uma espécie de estudo.

Naquele exato momento, Snape percebeu que Narcisa tinha recuperado muito bem a sua memória.

— Tem certeza de que quer isso? Meu corpo mudou muito nestes últimos... vinte e três anos. Acho que, não vai gostar do que vai ver... eu envelheci muito... não sou aquele rapazote que conheceu e se apaixonou.

— Não ligo, Severo. Corpos não são iguais a outros, e isso é o que faz o ser humano ser belo.

Sua linda Cissa nunca mudou. Voltara a dizer suas frases cultas e cheias de beleza.

Snape ficou um pouco envergonhado, não por estar se mostrando para Narcisa — já que, muitas vezes os dois já tiveram relações íntimas mais fortes — na verdade, ele nunca deu a mínima para sua aparência, nem quando era mais jovem, e estava feliz do jeito que era e não iria mudar, mas porque agora se sentia assim?

O temido professor de poções das masmorras de Hogwarts, com cabelos negros oleosos, nariz de gancho e o corpo mais magro que até arrancava comentários maldosos de alguns alunos — especialmente daqueles que eram da gangue de Harry — de que ele iria morrer de tão desnutrido que estava, agora ostenta uma parte dos seus cabelos ficando cinzas, quase indo para o branco, quebradiços e secos, mas ainda lisos. O nariz nunca iria mudar, isso é fato. Só que, não poderia dizer o mesmo da tal "magreza". Snape sempre se sentiu um homem forte na medida do possível, e com o passar do tempo isso foi ficando cada vez mais claro, incluindo sua barriga que cresceu por causa da idade.

Mas o rosto... este continuava igual. Apareceu sim algumas rugas perto dos olhos e na testa, mas não tinha nada de diferente.

Snape não era descuidado em relação com a saúde — na verdade, ele começou a se cuidar melhor depois que sofreu uma crise de ansiedade há alguns anos proveniente de lembranças ruins do passado —, mas viu que era algo que ele deixaria porque, não ligava. Ainda era um homem forte e saudável, e a opinião dos outros não era importante em sua vida.

Pensando daquela maneira, Snape respirou fundo e começou a desabotoar aquela quantidade enorme de botões do seu sobretudo, um por um. Narcisa ficou observando lentamente enquanto o esperava friamente. Removeu a primeira parte, e foi em seguida para a camisa que era a mais fácil, revelando seu peitoral. Depois, tirou os sapatos e as meias. E por último, sua calça junto com a cueca. E lá estava Snape, parado e completamente nu perto da amada.

— Pronto. Você quer que eu fique em alguma pose diferente ou...

— Não. Está ótimo assim.

Narcisa começou então a fazer um pequeno esboço com o lápis e depois contornou com preto em um pincel mais fino. Depois do esboço, misturou um pouco as tintas para criar a cor de pele ideal e deu os toques, e nisto, Narcisa começava a ter lembranças de seu passado — é, nisto Snape acertou quando queria usar a pintura para refrescar a memória dela — e de quando se encontrava escondido com ele, ou também naquela vez na casa dele na Rua da Fiação, onde foi pedir ajuda quando Draco estava com sérios problemas. Naquele dia, não tinha como os dois conversarem melhor por causa de sua falecida irmã Bellatrix Lestrange, mas a tensão sexual do dia havia ficado.

Desde então, nunca mais voltaram a se ver... até agora.

Narcisa pegou em seguida a cor preta para pintar os cabelos negros de Snape no quadro misturando com o branco para criar o cinza para a parte de cima do couro cabeludo, enquanto o mesmo estava completamente imóvel, nem ao menos piscava. Estava ansioso em saber como estava o andamento do quadro. Snape olhou para o lado direito, e passou a mão direita sob o braço esquerdo bastante ansioso.

— Não se mexa, Severo! — protestou Narcisa, e ele se assustou na hora.

— Oh. Desculpe, eu não quis. Só estou um pouco nervoso...

— Eu... entendo. — Narcisa começou a olhar com mais interesse sob as curvas do corpo de Snape — Severo... será que me permite fazer um comentário?

— Qual?

— O seu corpo... ele... — Snape ficou ainda mais nervoso com a resposta da amada — ... ele é lindo, diferente. Eu... gostaria de olhar de perto. Você me permite?

Snape apenas fez sim com a cabeça, porque não conseguia se mexer com o tamanho nervosismo.

Narcisa colocou o misturador de madeira em cima da mesa, e se levantou indo até ele, analisando com mais detalhes ela ameaçou tocar o peitoral, mas acabou recuando com medo dele não gostar. Mas com certeza Narcisa se sentia envolvida quando olhava para as íris negras e brilhantes do bruxo.

— Por que esses seus olhos sempre me atraem?

— Eu não sei, Cissa... você sempre gostou dos meus olhos... e eu os seus.

— Por que me abandonou? Eu sofri muito com a sua ausência...

— Eu queria me afastar de tudo que viesse do meu passado... comecei a viver como um trouxa. Fiquei traumatizado demais com este mundo, com estas pessoas... eu sei que os trouxas conseguem ser piores mas, meu trauma falou mais alto. Queria te pedir desculpas por não ter te acolhido em um momento de dor...

— Não! Eu não dei a mínima quando o Lúcio morreu... ele já estava doente faz um tempo. A Varíola de Dragão só piorou a condição. Ele não andava aceitando certas opiniões que o Draco estava tomando quanto a condição de sangue, você deve saber... e a esposa dele, Astoria, também não compactuava com extremismo...

— Posso adivinhar? Ele infernizou a vida do pobre Escórpio...

— Também, mas a todos. Nem mesmo a beira da morte ele sossegou...

— O que importa é que tudo isso acabou e podemos ser felizes juntos... isso claro se você me perdoar por todos estes anos em que fiquei omisso... — Snape levantou seus braços e tocou no rosto de Narcisa, acariciando suas bochechas com o polegar — ... minha linda flor de narciso... eu prometo que tudo pode ser diferente. Só queria que me aceitasse de novo.

— Severo, eu... e-eu não consigo recusar um pedido seu.

Narcisa fechou seus olhos e também tocou no rosto de Snape, iniciando o primeiro passo, e lhe dando um beijo. Snape não se surpreendeu porque queria o perdão de sua amada. E parece que conseguiu.

Snape notou que Narcisa estava intensificando o beijo, e que queria algo a mais, só que ele estava inseguro. Ela acabou de sair das ruas e pode estar com várias dores devido ao espancamento que sofreu. Não seria prudente ter uma relação sexual.

— Cissa... será que devemos? — disse após os dois separarem seus corpos após o beijo.

— Por que pergunta isso?

— Estou inseguro. Você tinha sido espancada. Sem falar que muitos se aproveitaram de sua condição nas ruas... é que... estou com muito medo de fazer algo que você não goste.

— Não se preocupe com isso, Sevie... vou ficar bem, e sei que você nunca me forçaria a nada. É um cavaleiro, o meu príncipe. — ela levantou seus pés para alcançar o ouvido do bruxo — E aliás... feliz aniversário.

É. A legilimência de Narcisa continuava afiada como nunca, e Snape sempre tinha a mania de abaixar a guarda quando se tratava dela, e agora não foi diferente. Queria abraçá-la e enchê-la de beijos depois de todos estes anos em que ficaram separados.

Snape deu mais um beijo, só que mais rápido entre os lábios de Narcisa e a pegou no colo, dando mais um beijo carinhoso em seu rosto. Ele a levou para o seu quarto, uma área aberta cheia de estantes com livros, e uma cama simples abaixo de uma janela. Snape colocou Narcisa sentada e lhe deu mais um beijo em seu rosto e foi descendo devagar pelo pescoço, conseguindo arrancar alguns gemidos da amada.

— Cissa... você quer que eu continue? — perguntou Snape.

— Quero.

— Tem certeza? Se quiser a gente pode ficar apenas conversando, e...

— Sim, Severo... eu quero muito. E-eu te amo.

— Eu também te amo muito, Cissa.

Snape deu mais um beijo em Narcisa e novamente foi descendo até seu pescoço, tocando levemente os braços e parando bem próximo de suas pernas, levantando a cabeça e dando-lhe um olhar sedutor que encantou a bruxa em seus pensamentos mais obscenos em relação a Snape. Mesmo depois de tantos anos, o ex-professor continuava sendo um homem maravilhoso, carinhoso e acima de tudo: tinha o seu amor. Ambos se sentiam amados.

Snape segurou levemente as pernas de Narcisa e as separou, levantando parte do vestido para observar melhor o que lhe esperava. Suas lembranças poderiam estar ruins por conta de sua idade, mas nunca esquecera como era o corpo de sua amada e muito menos de como a fazia sentir prazer. Segurou graciosamente sua calcinha e a tirou com delicadeza. Snape notou que Narcisa não estava lubrificada o suficiente, e por isso perguntou novamente.

— Cissa... você quer que...

— Venha aqui... — ela disse, fazendo um gesto com os braços.

Snape então ficou de pé e voltou para a cama. Ele entendeu o recado de Narcisa e segurou delicadamente as mangas grandes do vestido e abaixou-os até a barriga, deixando-a com os seios à mostra. E que lindos! Snape, pensou. Não mudaram absolutamente nada desde a sua época de maior intensidade. Começou dando toques suaves entre os mamilos com o polegar até se agachar para beijar o meio deles e chegar ao seio esquerdo, dando um beijo e sugando o mamilo com delicadeza enquanto com os dedos estimulava o outro, envolvendo a língua para dar ainda mais prazer a amada. Já Narcisa olhava para baixo, e fazia cafunés nos cabelos lisos dele; já sentia seu ventre queimando e desejando que ele a amasse com mais intensidade.

— Sevie...

— Já sei. E irei te atender. — Snape se levantou e deu um beijo rápido nos lábios dela.

Com mais determinação, Snape conseguiu remover todo o vestido e deixá-la nua. Narcisa era uma mulher deslumbrante e sua pele era tão delicada como a própria flor de narciso. Snape começou a passar os dedos por todo o contorno de sua pele causando arrepios na bruxa e arrancando ainda mais gemidos. Quase que por um instinto, ela abriu as pernas de novo e Snape pode ver agora, que a amada estava mais lubrificada. Snape ficou de joelhos na cama e agarrou a cintura de Narcisa, puxando com charme para perto dele e levantando sua parte íntima para bem próximo de seu rosto. Com charme, Narcisa colocou suas pernas nos ombros dele, e Snape começou a chupá-la lentamente sentindo seu gosto com calma e querendo aproveitar ao máximo sua total experiência em querer desejá-la.

Narcisa gemia e tocava seus seios com os dedos, estimulando os mamilos enquanto Snape tocava o clítoris com a língua e descia até embaixo para sentir sua lubrificação ficar mais intensa. Agora, ele usava os dedos para roçar na parte inchada pela excitação, apenas deixando-a ainda mais louca, olhou com desejo enquanto usava seu nariz para fazer um charme irresistível à amada.

— S-Sevie...

— Sim? — perguntou Snape, ainda usando os dedos para estimular seu clítoris.

— Por favor... me deixa...

— Sei o que quer, minha linda e doce Narcisa, mas desta vez não. — Snape olhou para os olhos cinzas da bruxa — Hoje é o seu dia de sorte, e irá ter o máximo de prazer possível.

— Sempre assim, né? Pensando mais nas pessoas que ama do que em você mesmo. Isso nunca vai mudar, não é meu príncipe?

Snape deu um beijo entre a virilha de Narcisa e colocou suas pernas graciosamente na frente da cintura, bem próxima de sua ereção que já estava em completo êxtase de furor e libido. Ele não imaginaria ter toda essa sexualidade em seus completos 61 anos, e entendia que nessa idade era normal uma diminuição quase que completa, de acordo com os seus estudos recentes sobre os comportamentos humanos — a qual, não fazia diferença nenhuma entre eles e os trouxas — porém, enquanto ainda tinha, poderia aproveitar e continuar se divertindo com sua amada Narcisa.

— Eu posso? — Narcisa fez sim com a cabeça.

Com movimentos lentos, Snape começou a acariciar a região úmida da amada com seu pênis para fazê-la se acostumar, até que a penetrou devagar e começou a fazer os movimentos com seu quadril enquanto segurava a cintura de Narcisa. Se agachando para poder vê-la melhor, Snape continuou se movimentando e acelerando conforme se sentia mais seguro. Narcisa abraçou suas costas nuas e cruzou as pernas no corpo dele, gemendo baixo e dando um sorriso cheio de desejo para o amado.

Snape começou a beijar seu pescoço e descer lentamente enquanto movimentava seu corpo para dá-la o maior desejo que poderia sentir, sempre dando um sorriso sedutor para sua amada flor perfumada. Narcisa segurou no rosto dele, e roubou-lhe um beijo enquanto seus corpos entravam em uma sincronia como um belo espetáculo teatral. Snape se levantou e segurou nos quadris da amada, intensificando seus movimentos e com o polegar massageava graciosamente seu clítoris. Narcisa tocava seus seios e ouvia os gemidos baixos e roucos de seu amado que também estava completamente anestesiado pelo sexo.

Narcisa queria mudar de posição, e já pressentindo o desejo da amada, saiu dela e deixou se surpreender. Ela ficou de joelhos, ficando de quatro e com as pernas completamente abertas e com sua intimidade ainda mais exposta, para o delírio de Snape, que se agachou para sentir o gosto dela novamente.

— Por que gosta de me seduzir assim, hein?

Foram duas ou três lambidas até que se levantou para penetrá-la novamente. Narcisa estava completamente em delírios, como nos tempos em que os encontros entre ela e Snape eram frequentes, momentos estes em que ela poderia ter novamente.

Os gemidos dos dois entraram novamente em sincronia e seus corpos suavam ao êxtase do momento. Snape, que começou lento, acelerou conforme sentia que Narcisa lhe desejava. Suas vozes estavam roucas perante a excitação carnal de se sentirem um perante ao outro. Snape lhe fazia carícias nas costas, e sentiu que a amada iria gozar em breve. Por isso, intensificou mais os movimentos dos quadris e encostando sua pele na dela.

Narcisa gemeu mais alto até chegar ao completo furor de seus sentimentos. Snape se separou dela, e apenas observou sua amada contorcendo e tremendo seu corpo pela luxúria recém chegada. Estava ensopada pelo próprio gozo, e ele olhava com satisfação. Em um gesto de carinho, Snape a abraçou e a fez sentar-se na cama junto com ele.

Narcisa se encostou nele, e lhe deu um abraço, mas se sentia mal por Snape também não ter chegado ao seu ápice.

— Sevie... deixa eu te chupar, para que você goze também...

— Minha linda e amada flor de narciso... — Snape acariciou o rosto da amada — ... teremos outras oportunidades de você me fazer um carinho. Hoje, eu apenas queria te agradar depois de tantos anos em que ficamos separados. Me sinto culpado por não ter te consolado quando mais precisava de mim.

— E eu te perdoo, Severo. Sabe disso... — Narcisa pareceu olhar com mais desejo ainda quando fitou o corpo nu de Snape — Você ainda continua um bonitão, sabia? — ela ameaçou encostar no pênis dele, mas logo Snape interveio e a impediu com delicadeza, dando-lhe um sorriso.

— Mesmo sabendo que sou praticamente um idoso?

— Ora Severo... se você é idoso eu também sou. Lembre-se que sou cinco anos mais velha. E seremos dois idosos muito felizes se amando como nunca.

Os dois deram um beijo rápido, enquanto sorriam um para o outro, compartilhando do mesmo sentimento de amor que sentiam.

— Devemos contar ao Draco sobre sua volta?

— Agora não. Depois falamos com ele... quero apenas estar aqui com você. — Narcisa lhe deu outro beijo — Feliz aniversário, meu amor.

Snape estava mais do que feliz, se sentia realizado. Teve o melhor aniversário de todos, ao lado de quem mais amava. O presente perfeito. Iria continuar ajudando-a quanto aos seus problemas e a apoiando quando mais precisava.